Pesquisa relaciona prédio verde à saúde e ao bem-estar

Estudo interliga construção da edificação com o mobiliário utilizado pelas pessoas que a frequentam, mudando conceitos de obra sustentável

Por: Altair Santos

Vinte anos depois de o conceito de prédio verde ser colocado em prática, pesquisa revela que as edificações que tiveram manutenção adequada realmente conseguiram influenciar na qualidade de vida de seus usuários. Coordenado pelo Centro de Harvard para a Saúde e Ambiente Global, da Universidade de Harvard, o estudo selecionou prédios verdes erguidos na Europa, e com idade de construção variando entre 10 anos e 20 anos. Entre as constatações, a pesquisa detectou que a qualidade dos empreendimentos e a conservação de um edifício podem afetar, por exemplo, a cognição de seus frequentadores.

Estudo abrange principalmente os ambientes de trabalho, mudando conceitos de prédio verde
Estudo abrange principalmente os ambientes de trabalho, mudando conceitos de prédio verde

As principais funções cognitivas estão relacionadas com percepção, atenção, memória, linguagem e funções executivas (planejamento, memória, atenção, inibição e autocontrole). “Para sete das nove funções cognitivas testadas, os escores médios diminuíram de acordo com o aumento de níveis de CO2 nos ambientes internos", diz trecho do estudo da Universidade de Harvard. O levantamento demonstrou que a exposição a poluentes domésticos comuns, tais como dióxido de carbono e de compostos orgânicos voláteis (COV), como os encontrados em tintas e alguns tipos de colas para carpetes, são suficientes para influenciar no desempenho cognitivo.

A pesquisa também fez a relação entre a construção do prédio verde e o mobiliário utilizado pelas pessoas que frequentam a construção. Dependendo dos materiais, eles podem anular os efeitos positivos dos conceitos agregados à obra. “Se um escritório tiver um sofá ou uma cadeira tratada com retardadores de chama, eles podem anular a qualidade da edificação. Trata-se de produtos químicos que estão ligados a problemas de perda de memória ou de fertilidade. O mesmo ocorre com tapetes que podem emitir compostos orgânicos voláteis, o que provoca irritação na garganta ou dor de cabeça”, revela o estudo.

Além do prédio verde

A tese desenvolvida no Centro de Harvard para a Saúde e Ambiente Global mostra que as substâncias químicas desprendidas pelo mobiliário, e que podem impactar na saúde das pessoas, ainda são pouco conhecidos, inclusive pelos fabricantes. Ao mesmo tempo, os pesquisadores descobriram que, em média, ambientes com melhor ventilação fazem dobrar o desempenho dos seus participantes, especialmente em áreas críticas, repletas de computadores. “As empresas que desejam se diferenciar como empregadores devem se concentrar em edifícios mais saudáveis para seus empregados”, alerta o estudo.

Trabalhos como o de Harvard estão prestes a levar o conceito de prédio verde a dar um passo à frente. O estudo se alia a outras pesquisas, como as desenvolvidas pelo International Well Building Institute, com sede nos Estados Unidos, e que criou o primeiro protocolo a se concentrar especificamente sobre a saúde na construção civil. Nele, melhorias tecnológicas são medidas de acordo com o desempenho de sete categorias - ar, água, alimentação, luz, aptidão, conforto e mente. Criou-se, então, o selo Well, que começa a ser agregado pelo Green Building Council, organismo que emite a certificação LEED.

Entrevistados
Centro de Harvard para a Saúde e Ambiente Global, da Universidade de Harvard (via assessoria de imprensa)
International Well Building Institute (via assessoria de imprensa)
Contatos
sustainability@harvard.edu
info@wellcertified.com
media@wellcertified.com

Créditos Fotos: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Patologias ameaçam transposição do São Francisco

Antes mesmo de ficar pronta, obra apresenta trincas em suas paredes. Para especialista, empreendimento reúne uma série de equívocos

Por: Altair Santos

No começo de fevereiro de 2016, a estrutura de concreto do aqueduto do Mari - o terceiro do eixo norte da transposição do rio São Francisco -, entre os reservatórios do Tucutu e de Terra Nova, na região de Cabrobó-PE, não resistiu à força da água, rompeu e causou vazamento. O colapso lança dúvidas sobre a qualidade da obra, como questiona o engenheiro civil Marcio de Almeida Pernambuco, coordenador de valorização profissional do CREA-SP. “Como engenheiro, digo que é um projeto muito questionável, que não atendeu vários fatores técnicos”, diz.

Trecho com avarias: placa de concreto entrou em colapso
Trecho com avarias: placa de concreto entrou em colapso

Autor de um artigo que questiona a responsabilidade dos profissionais da engenharia que deixaram a obra entrar em execução, Marcio Pernambuco entende que o projeto da transposição do rio São Francisco “ofendeu a Lei 8.666 (Lei das Licitações)”. “Não houve aprofundamento técnico da obra. Faltaram estudos e consolidação de projetos básicos e executivos”, completa. Na condição de membro do CREA-SP, e de acordo com a função que ocupa no conselho, o engenheiro ainda faz uma advertência sobre os profissionais que atuaram na obra: “Acho que os engenheiros que foram contratados para elaborar o projeto deveriam responder judicialmente e em seus respectivos conselhos por falta de ética”.

O trecho que rompeu da transposição do São Francisco está a cargo do consórcio formado pelas empresas Carioca Engenharia, Serveng Civilsan e S.A. Paulista – terceirizadas da Mendes Júnior. Questionado desde o começo, em 2007, o empreendimento com 477 quilômetros de extensão já está entre as obras mais polêmicas do país. Com custo inicial de R$ 4,5 bilhões, o valor já ultrapassa os R$ 8 bilhões. A primeira previsão era de que a conclusão ocorresse em 2012. Agora, a previsão mais otimista é que a execução seja finalizada no segundo semestre de 2017. “Obras sem projetos encarecem sem limites”, ressalta Marcio Pernambuco.

Márcio Pernambuco: para ele, fator político atrapalhou o técnico
Marcio Pernambuco: para ele, fator político atrapalhou o técnico

Causas e efeitos

A ruptura do concreto que reveste os trechos da transposição pode ter três causas: excesso de fissuras por má qualidade do material, juntas de dilatação mal concebidas e questões geológicas. Segundo o ministério da integração nacional, que é quem faz o repasse de recursos para a obra, um estudo técnico vai avaliar a causa do rompimento do canal. Na primeira semana de março ainda não havia saído nenhum parecer. “Isso é que dá o fator político atrapalhar o técnico, que requer estudos e maturação para executar uma obra”, entende o coordenador do CREA-SP.

A transposição do rio São Francisco foi concebida para que a água percorra o canal por gravidade em boa parte do trecho. Com isso, atenderá 390 municípios dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Mas Marcio Pernambuco não está convicto disso. Para ele, em alguns trechos a evaporação da água pode ser mais intensa que o volume que irá se deslocar por gravidade. “O que eu entendo é que outras alternativas deveriam ter sido estudadas para tornar a obra realmente viável”, destaca.

Ruptura causou vazamento da água canalizada no trecho de Cabrobó, em Pernambuco
Ruptura causou vazamento da água canalizada no trecho de Cabrobó, em Pernambuco

Leia aqui o artigo do engenheiro Marcio de Almeida Pernambuco.

Entrevistado
Engenheiro civil Marcio de Almeida Pernambuco, coordenador de valorização profissional do CREA-SP
Contato: engpernambuco@gmail.com

Créditos Fotos: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Fissuras no concreto podem denunciar má qualidade do material
Fissuras no concreto podem denunciar má qualidade do material

Metrô de Salvador passa longe da gestão de obra

Trecho de 12 quilômetros da linha 1 levou 16 anos para ficar pronto. Proporcionalmente ao percurso, execução foi a mais demorada do país

Por: Altair Santos

Principal obra de mobilidade urbana da capital baiana, o metrô de Salvador não pode ser considerado um modelo de gestão de obra. Para um trecho de 12 quilômetros, o empreendimento levou 16 anos para ficar pronto. Proporcionalmente ao percurso, a execução foi a mais demorada do país. Além de extrapolar o cronograma, a construção também estourou o orçamento e teve complicações com o projeto.

Estação Pirajá, na capital baiana: ponto final de uma obra cheia de percalços
Estação Pirajá, na capital baiana: ponto final de uma obra cheia de percalços

Um dos equívocos da obra fez com que o CREA da Bahia abrisse uma investigação. Erros no estudo do subsolo levaram o traçado a se confrontar com uma rede de esgoto ao longo de quatro quilômetros. Isso obrigou a correções que encareceram o empreendimento e fizeram as escavações terem de ser aprofundadas em 12 metros.

Além dos empecilhos técnicos, a obra da linha 1 enfrentou também problemas na licitação. Tribunal de Contas da União e Ministério Público Federal comprovaram que houve uma concorrência viciada entre grandes empreiteiras - atualmente boa parte é investigada na Operação Lava Jato -, o que obrigou a abertura de um novo processo licitatório.

Entre 1999 - quando as obras começaram - e 2013, a linha 1 do metrô de Salvador avançou apenas seis quilômetros. O empreendimento chegou a ficar totalmente paralisado de 2009 a 2012. Foi em 2013, quando o governo do estado da Bahia encampou a construção - até então capitaneada pela prefeitura de Salvador - é que o canteiro de obras foi reativado.

Linha 2 anda mais rápido, pois projeto optou pelo metrô de superfície
Linha 2 anda mais rápido, pois projeto optou pelo metrô de superfície

O grupo CCR assumiu o empreendimento e reduziu o projeto inicial da linha 1, que previa 10 estações, para 8 estações. A execução terminou em dezembro de 2015, com boa parte dos recursos bancada pelo governo federal, que incluiu o metrô de Salvador em uma das primeiras fases do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Agora, a capital baiana aguarda a conclusão da linha 2, que mesmo com o cronograma atrasado anda a uma velocidade maior que a linha 1. O novo trecho era para ter 30 quilômetros, mas será inaugurada com 20,7 quilômetros. A prefeitura de Salvador, que voltou a participar do empreendimento, promete entregá-lo até 2018. Somadas as linhas 1 e 2, o custo da obra é de R$ 3,6 bilhões.

Uma característica da linha 2 é que 90% dela é construída na superfície e com elementos pré-moldados. O trecho escavado se dá apenas na junção com a linha 1. Isso permite que a obra ande mais rápido. O modelo de concessão também acelera o ritmo, já que ele conta com a participação da iniciativa privada, através de um contrato PPP (Parceria Público-Privada).

Entrevistado
CCR Metrô Bahia (via assessoria de imprensa)
Contato: faleconosco.metrobahia@grupoccr.com.br

Créditos Fotos: Manu Dias/Pedro Moraes/GOVBA

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Ritmo das mudanças no mercado exige RH Visionário

Estratégia permite às empresas conduzir práticas inovadoras, que antecipem tendências e possam prepará-las para diferentes cenários

Por: Altair Santos

O RH Estratégico, que se alinha aos objetivos da corporação, já não consegue acompanhar a velocidade das mudanças nas relações entre corporações e colaboradores. Surge, então, o RH Visionário, mais receptivo às alterações de hábitos das novas gerações, aos avanços tecnológicos e às variações comportamentais. Esse novo conceito não ignora, por exemplo, o peso que as redes sociais passaram a ter nos negócios e o quanto elas conseguem influenciar no sucesso ou não de um negócio. Ter o RH Visionário - entendem os especialistas - é uma questão estratégica para as empresas. Através dele, é possível conduzir práticas inovadoras, que antecipem tendências e estejam preparados para diferentes cenários. É o que a consultoria de treinamento corporativo, Graziela Moreno, explica na entrevista a seguir. Confira:

Graziela Moreno: qualquer empresa está adequada para implantar o RH Visionário se estiver aberta às mudanças
Graziela Moreno: qualquer empresa está adequada para implantar o RH Visionário se estiver aberta às mudanças

Quais conceitos norteiam o RH Visionário?
As megatendências mundiais norteiam o RH Visionário e surgem como importantes indicadores para os profissionais da área, já que mostram que é necessário que desenvolvam competências para que tenham uma visão macro do mercado e da organização. Os profissionais de RH estão sendo mais exigidos e os CEOs têm esperado cada vez mais dos CRHOs. Exemplo disso é a pesquisa global feita pela consultoria Deloitte que mostra que só 5% dos CEOs consideram excelente o desempenho do líder de gestão de pessoas de suas organizações. O resultado disso é a alta rotatividade desses profissionais que, nos Estados Unidos, chega a 40% entre as 100 maiores corporações, segundo a lista anual da revista Fortune. E pesquisas dão conta de que 4 em cada 10 vagas desses profissionais são preenchidas por pessoas de fora da área de RH. Isso confirma que a expectativa em relação ao papel do RH hoje é muito diferente do que foi há alguns anos. A necessidade hoje é que eles conduzam a empresa a práticas inovadoras, que antecipem tendências e estejam preparados para diferentes cenários. São profissionais criativos, corajosos, flexíveis a pessoas e ambientes, que assumem riscos e tomam decisões. O RH Visionário é isso: mostrar que as megatendências globais precisam estar no dia a dia, na prática dos profissionais de recursos humanos, para que eles possam apoiar a empresa de maneira relevante, que extrapole o RH Estratégico.

Onde surgiu essa versão moderna de RH?
A visão moderna de RH não surgiu, simplesmente. Ela gritou! Vendo como os RHs ainda tropeçam na tentativa de sair do operacional e se tornarem mais relevantes para suas organizações, eu comecei a me questionar sobre quais eram suas maiores dificuldades. E, a partir de um estudo mais aprofundado sobre as megatendências globais, percebi que a discussão era muito mais profunda. Não se tratava apenas de penar para virar um RH Estratégico, reter talentos, implantar processos de avaliação de desempenho ou reformular as políticas de recompensa. Para mim, tudo isso só faria sentido se os RHs parassem de olhar para seus mundos particulares e para modelos encaixotados e olhassem para o futuro, para as tendências.

Qual o perfil que a empresa deve ter para que ponha em prática o RH Visionário?
A empresa deve estar aberta às inovações, uma vez que criatividade é um fator importante para que o RH possa ser eficaz. Afinal, é preciso jogo de cintura para lidar com pessoas de diferentes gerações, culturas, cenários econômicos e políticos adversos. A empresa como um todo deve abraçar a ideia de que, principalmente em tempos de crise como a que vivemos, é preciso pensar fora da caixa, é preciso inovar e criar soluções alternativas para lidar com as pedras no caminho. E é exatamente isso que o RH Visionário propõe.

O RH Visionário é uma forma de as empresas conseguirem se adequar à geração Y?
A questão geracional é apenas um viés do RH Visionário. Assim como é necessário estarem atentos às questões de diversidade cultural, política, econômica, individualismo e envelhecimento da população, pois tudo isso vai impactar nas estratégias e resultados das organizações. É preciso que os RHs interpretem as diferenças geracionais. Não é uma questão de adequação à geração Y especificamente, mas sim de um olhar atento à diversidade de gerações presentes nas empresas. O profissional de RH tem que ter jogo de cintura e não apenas respeitar, mas, de fato, compreender e aceitar as diferenças e, com isso, enxergar as limitações de cada funcionário. Entendendo isso, e organizando ações e políticas internas que se adequem a esta realidade, as empresas poderão ter maiores e melhores resultados de produtividade, clima organizacional e retenção de talentos.

Por outro lado, em breve a geração Z começa a chegar ao mercado de trabalho. Quando isso ocorrer, que tipo de RH terá de surgir?
O papel do RH é exatamente saber como lidar com essa geração do “futuro”. Com a geração Z chegando ao mercado, a visão estratégica terá de ser a mesma. O RH Visionário precisa saber enxergar as necessidades e ir atrás de informação para resolver as adversidades da melhor forma possível. O RH Visionário deve sempre olhar para o futuro e para as tendências. Sendo assim, ele não deve sair de moda nunca. Uma evolução possível é um RH Visionário com o pé cada vez mais pesado no acelerador, porque a relação com o tempo será cada vez mais estreita e a rapidez com o que as coisas irão acontecer será mais curta, até o momento em que será instantânea.

Empresas tradicionais estão adequadas para implantar RH Visionário?
Qualquer empresa está adequada para implantar o RH Visionário se estiver aberta às mudanças que ele pode realizar na organização. Mudanças positivas e necessárias. O primeiro passo é a transformação das competências do atual RH e a busca por tendências, começando a conectar tudo isso à realidade de suas organizações. Não importa o tamanho da empresa, nem o ramo de atividade: olhar para o futuro cabe em qualquer espaço. A diferença é como grandes, médias, pequenas e microempresas irão implantar processos, ações e mudanças com base nesse olhar para frente.

Que formação os profissionais que atuam no RH devem ter para gerir um RH Visionário?
Li uma pesquisa realizada pela revista Fortune recentemente em que eles apontam que apenas 4 de cada 10 posições em aberto foram preenchidas por executivos de fora do RH. Ou seja, a formação não conta se você tem visão de negócio, se você é bom com pessoas, se você é criativo e está disposto a correr riscos e a vestir a camisa da empresa. Saber sobre economia, sustentabilidade, tecnologia e gestão, estão lado a lado de competências como ser cuidador do capital humano, liderar mudanças e cultura, além de saber administrar recompensas. Enfim, não existe uma formação. Existem formações e, acima de tudo, a grande capacidade de ler o mundo e saber contextualizar tudo isso para que a organização tome as melhores decisões não só a respeito de pessoas.

Engenheiros teriam espaço em um RH Visionário?
Com certeza. Como vimos, o RH está se renovando, agregando profissionais de outras áreas e especialidades. A diversidade de conhecimentos e áreas está agregando muito ao RH e pode haver uma troca muito rica entre profissionais formados em recursos humanos e engenheiros para se chegar mais perto do RH Visionário.

Empresas ligadas à construção civil têm perfil para RH Visionário?
Sim. Qualquer empresa tem perfil para olhar para o mundo lá fora e entender como as principais tendências globais irão impactar nos negócios e nas pessoas de suas empresas.

O RH Estratégico fracassou?
O RH Estratégico ainda não está totalmente de pé no Brasil, mas de forma alguma ele fracassou. O RH Visionário veio para somar ao Estratégico. O mundo ideal é aquele onde a soma das competências do RH Estratégico e do Visionário resultam no RH que é exigido e esperado pelo mercado e pelos CEOs hoje.

Entrevistada
Graziela Moreno, graduada em administração e pós-graduada em marketing, e CEO da Academia da Estratégia (ACAD)
Contato: graziela.moreno@academiadaestrategia.com.br

Crédito Foto: Divulgação/ACAD

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Números do setor imobiliário retrocedem doze anos

Volume de lançamentos e de vendas volta ao patamar de 2004. Segundo analistas, sistema de produção desestruturado vai encarecer imóveis

Por: Altair Santos

A paralisia experimentada em 2015 fez alguns segmentos da cadeia produtiva da construção civil retroceder até 12 anos. O impacto atinge desde o volume de vagas que deixou de ser criado até a quantidade de negócios do mercado imobiliário. Os lançamentos de imóveis no ano passado se equipararam a 2004. O que analistas temem é que o setor privado decida paralisar obras, esperando zerar os estoques, e que o Minha Casa Minha Vida não disponha de recursos suficientes para dar início à terceira fase.

Prédio em construção abandonado: cenário ameaça aumentar o déficit habitacional
Prédio em construção abandonado: cenário ameaça aumentar o déficit habitacional

Isso, avaliam, faria aumentar o déficit habitacional, fazendo-o voltar ao período anterior ao Minha Casa Minha Vida, quando estava em quase 7 milhões de unidades (6,941 milhões). O MCMV baixou esse número para 6,198 milhões. Para o Departamento da Indústria da Construção da Fiesp (Deconcic), o programa habitacional do governo federal é peça-chave para tirar o setor da construção civil da paralisia que enfrenta. Porém, o organismo da Federação das Indústrias de São Paulo avalia ser necessário reformular o MCMV. Uma alternativa seria abri-lo para PPPs (Parcerias Público-Privadas).

Carlos Eduardo Pedrosa Auricchio, diretor titular do Deconcic, entende também que o crédito imobiliário deveria ser destravado. “Estimular PPPs habitacionais é uma alternativa importante e de extrema relevância”, acrescenta. “Além disso, é preciso promover a retomada do crédito, talvez buscando criar estímulos para ampliar a participação do setor privado nesta área”, completa. Para o dirigente, a certeza é uma só: “Todos do setor temos convicção de que a construção civil é a principal porta de saída para a crise”.

Reunião do Deconcic da Fiesp: saída da crise passa pelo MCMV, por PPPs e por novos modelos de crédito habitacional
Reunião do Deconcic da Fiesp: saída da crise passa pelo MCMV, por PPPs e por novos modelos de crédito habitacional

No entanto, enquanto mudanças não ocorrem no cenário econômico, as sondagens junto aos empresários da construção continuam apresentando pessimismo. Levantamento nacional do Deconcic junto à cadeira produtiva mostra como andam as expectativas para 2016:

Mineração
São Paulo foi o 2º estado cujo setor menos caiu (RJ foi o 1º), totalizando 17% a menos de quantidade de agregado vendida. Em alguns estados a queda foi de mais de 50%, e a média nacional está na ordem dos 30%. A previsão para 2016 é queda de 12%.

Blocos de Concreto
A perspectiva é queda de 40% a 50% e o setor enfrenta fechamento de empresas.

Materiais de construção
Setor apresentou queda de 12,6% nas vendas e 5,5% menos postos de trabalho em 2015. Atualmente, opera com dois terços da capacidade. Expectativa de 70% é negativa e apenas um terço prevê investir nos próximos 12 meses.

Materiais plásticos e PVC
A perspectiva é de queda de 4%. O setor era o 4º maior empregador, atualmente já é o 5º. Os investimentos caíram 35%.

Construção metálica
O setor teve perda da ordem de 30% em produção e vendas. Não há previsão de melhora em 2016.

Cimento
Setor fechou 2015 com queda de 9,2% em relação a 2014. A estimativa é que haja retomada somente no segundo semestre de 2017. Capacidade instalada é de 90 milhões de toneladas, previsão inicial era aumentar para 110 milhões de toneladas até 2018, porém, o consumo está em 57 milhões.

Máquinas e equipamentos
Em 2014, a entidade registrou 27.070 unidades vendidas para o setor da construção. Em 2015, foram 13.490 unidades. Se consideradas gruas e guindastes, a queda chegou a 57,8%. A expectativa é fechar o ano com queda de 2,1%.

Construção
O número de empregados apresentou queda de 11,3% em 2015. No acumulado dos últimos 12 meses, foram fechados 515 mil postos de trabalho, configurando a previsão de queda de 6% (desde 2010 vem caindo o número de empregos). A previsão de fechamento do PIB da construção em 2015 é de queda de 8%. Previsão para 2016 é queda de 6%.

Indústria ferroviária
O setor conseguiu manter o número de vagões dos últimos dois anos: 4.700 vagões. A previsão é fechar 2016 com 473 carros, 10,7% maior que em 2014/2015.

Obras públicas
Haverá queda efetiva por volta de 10% a 15% em 2016, em comparação com 2015, que por sua vez, também teve queda. PIB do setor deve cair 3% em 2016.

Entrevistado
Carlos Eduardo Pedrosa Auricchio, diretor titular do Departamento da Indústria da Construção da Fiesp (Deconcic)
Contato: observatorio@fiesp.com

Créditos Fotos: Divulgação/Fiesp

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Exportar é a saída para fabricantes da construção civil

Produtos brasileiros têm mercado, principalmente na América Latina e nos Estados Unidos, mas é preciso estar atento à burocracia e à logística

Por: Altair Santos

Diante da retração do mercado interno, fabricantes de materiais para a construção estão em busca de clientes no exterior. Os produtos brasileiros, como cimento, artefatos de concreto, cerâmicas e porcelanatos, além de canos e peças hidráulicas, têm bom conceito de qualidade no exterior. A desvalorização do real diante o dólar também serve de estímulo para as exportações. Mas é preciso estar atento às exigências de determinados países para conseguir atendê-los.

Alcides Rocha: Estados Unidos são receptivos aos produtos do Brasil, mas é preciso atender normas
Alcides Rocha: Estados Unidos são receptivos aos produtos do Brasil, mas é preciso atender normas

Os Estados Unidos, por exemplo, com um mercado de 320 milhões de consumidores em potencial, exigem não apenas que o produto esteja adequado às suas normas, mas verificam também a estrutura das empresas. Para se adequar, o recomendável é que a companhia faça um levantamento do mercado, planeje e avalie economicamente e financeiramente se é viável competir lá fora. Veja as recomendações de Alcides Rocha, especialista em governança corporativa, planejamento empresarial e finanças:

Em recente artigo escrito pelo senhor há uma defesa pela exportação. No caso da construção civil, ela tem potencial para exportar?
Acredito que sim. Tendo um bom produto, qualidade e preço competitivo, existe espaço sim. Cabe analisar o segmento e mostrar o melhor caminho para exportar sem sustos e com eficiência.

Potencialmente, quais países teriam perfil para consumir o que a indústria da construção civil produz no Brasil?
Acredito que inicialmente os países da América Latina, pela proximidade e “baixo” custo de logística. O mercado norte-americano também, pela alta escala e pelo consumo alto. Nossa construção civil é bastante desenvolvida e pode sim conquistar espaço em outros países.

Estamos falando, obviamente, de exportações de materiais de construção e produtos de acabamento. Mas haveria espaço para o Brasil exportar projetos, sistemas construtivos, enfim, tecnologia da construção civil para outros países?
Desde que sejam inovadores e eficientes, sim. Os consumidores de qualquer país buscam inovação, sustentabilidade, rapidez e respeito ao ambiente. Só quero destacar, que a empresa deve estudar o mercado, as normas técnicas de cada país e ter um plano logístico adequado.

E mão de obra, o Brasil tem potencial para exportá-la?
Sim, porém de forma mais restrita. Acredito que temos como exportar mão de obra para serviços mais “artísticos”, como marmorista e jardinagem. Não vejo serviços básicos como exportáveis.

O envolvimento de grandes empreiteiras brasileiras com a Operação Lava Jato prejudicou o potencial do Brasil de exportar construção civil?
Infelizmente sim. Não só na construção civil, mas em todos os segmentos. Quando expomos esse tipo de falta de governança em nossas maiores corporações, nossa imagem como nação fica arranhada.

Exportação de cimento: produto tem mercado no exterior, porém burocracia atrapalha
Exportação de cimento: produto tem mercado no exterior, porém burocracia atrapalha

A burocracia para exportar não desestimula a tentativa de buscar negócios fora do país?
De certa forma sim. Mas se a empresa buscar uma consultoria focada nesse tipo de serviço de apoio às corporações que querem exportar tudo fica mais fácil. Por isso, um planejamento adequado para “levar” a empresa para fora das nossas fronteiras reduz tempo, racionaliza o investimento e traz resultados mais rápidos.

Quais setores da economia brasileira estão se mantendo aquecidos graças à exportação?
O agronegócio, e a indústria de tecnologia estão aproveitando a desvalorização da nossa moeda.

O Brasil não tem tanta tradição de exportar serviços. Como reverter esse cenário?
Essa é uma missão de longo prazo, pois envolve qualificação da mão de obra e a barreira do idioma. Além disso, as leis trabalhistas são extremamente diferentes das brasileiras, o que pode gerar um ponto de conflito entre empregado e empregador.

Entre o desejo de exportar e a concretização da exportação, quantas etapas devem ser superadas?
Tudo começa com um planejamento bem feito, que envolve análise de mercado, produto, preço, legislação & obrigações e análise SWOT (do inglês Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats [Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças]). Trata-se de um trabalho completo, similar ao de abertura de uma empresa.

Qual a influência do preço do dólar nas exportações brasileiras, independentemente do setor?
Nos ajuda, pois com o Real enfraquecido nosso preço fica competitivo frente ao produto americano. Mas isso somente não basta. Lembro que o consumidor está cada vez mais exigente e quer produtos de boa qualidade, com bom preço e inovador. Por isso, a empresa tem que manter um excelente padrão de qualidade para se sustentar entre os melhores do mercado interno, e para ter condições de “entrar” nesse competitivo mercado mundial.

Entrevistado
Alcides Rocha, graduado em administração de empresas e pós-graduado em planejamento empresarial e finanças, é especialista em governança corporativa e presidente da Finance365
Contato: alcides.rocha365@outlook.com

Créditos Fotos: Divulgação/Finance365

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

USP testa pavimento rígido sem junta de dilatação

Tecnologia não é nova, mas pesquisa desenvolvida na universidade ajuda a consolidar concreto como alternativa para as rodovias brasileiras

Por: Altair Santos

Um trecho de 200 metros da Avenida Professor Almeida Prado, no campus da Universidade de São Paulo, na cidade de São Paulo, testa o aprimoramento de uma tecnologia que não é nova na pavimentação à base de concreto. A inovação está no tipo do material que reveste a pista e em sua estrutura. “O experimento usa armaduras de aço galvanizado, que permite descartar as juntas de dilatação, e emprega concreto reciclado como agregado”, diz o professor José Tadeu Balbo, coordenador do Laboratório de Mecânica de Pavimentos (LMP), do Departamento de Engenharia de Transportes (PTR) da Poli.

Professor José Tadeu Balbo: durabilidade e qualidade do pavimento garantem custo-benefício
Professor José Tadeu Balbo: durabilidade e qualidade do pavimento garantem custo-benefício

O uso do agregado reciclado no concreto permite produzir um revestimento com resistência de 4,5 a 5,0 MPa em tração na flexão. Já a camada que se espalha sobre a trama da estrutura tem espessura de 24 centímetros, que vai recobrir vergalhões de 20 mm espaçados a cada 17,5 cm. Para Balbo, é o suficiente para fazer um pavimento que alie qualidade com durabilidade. “A espessura determina a vida útil do pavimento. Com 24 cm, a estrutura é suficiente para atender rodovias, aeroportos e corredores de ônibus. Para tráfego rodoviário muito pesado, espessuras de 30 centímetros podem atingir durabilidade de 50 anos, com baixa manutenção”, explica.

Esse tipo de tecnologia foi empregada na construção do anel viário de Amsterdã, na Holanda, há sete anos. Nos Estados Unidos, existem mais de 50 mil quilômetros de rodovias que utilizam o pavimento em teste na USP. “A Federal Highway Administration (o Dnit dos EUA) preza por pavimentos altamente duráveis. Na Holanda e Bélgica, esse revestimento é extremamente comum. Na Alemanha, ele é muito empregado para plataformas estáveis para trens de alta velocidade”, revela José Tadeu Balbo.

Pista-laboratório e pista-teste

Rodovia de 23 quilômetros que leva à fábrica da Cia. de Cimento Itambé: laboratório para pavimento rígido
Rodovia de 23 quilômetros que leva à fábrica da Cia. de Cimento Itambé: laboratório para pavimento rígido

Além dos exemplos citados pelo professor da USP, no Brasil, desde 1997, um trecho de 23 km de estrada foi construído com concepção tecnológica parecida. Trata-se do percurso que leva à fábrica da Cia. de Cimento Itambé, no município de Balsa Nova-PR, e que funciona como um verdadeiro laboratório para pesquisas em pavimentos de concreto. A rodovia de mão dupla, onde trafegam diariamente caminhões carregados, foi dividida em vários segmentos, onde houve o emprego das seguintes tecnologias: pavimento de concreto simples com barra de transferência; pavimento de concreto estruturalmente armado com placas de 15 m de comprimento e 15 cm de espessura; pavimento intertravado de concreto (paver), e pavimento flexível sobre base de concreto compactado a rolo - CCR.

Na pista-teste da USP foram usados 26 caminhões-betoneira carregados com 7 m³ de concreto cada um, a fim de pavimentar os 200 metros. O trecho foi dividido em segmentos, nos quais foram aplicadas diversas combinações de materiais, cujo desempenho será avaliado ao longo de cinco anos do estudo. Dos quatro tipos de concretos que estão sendo testados, dois têm agregados reciclados. Metade da pista utiliza aço comum e a outra aço galvanizado. Os primeiros testes começam a ser realizados no dia 26 de fevereiro. “Queremos entender, especialmente, como as fissuras ocorrem no concreto”, conta José Tadeu Balbo. Estima-se o envolvimento de, pelo menos, dez alunos de mestrado e de doutorado da USP ao longo dos anos de execução da pesquisa.

Pista-teste da USP: trecho de 200 metros recebeu concreto de 26 caminhões-betoneira
Pista-teste da USP: trecho de 200 metros recebeu concreto de 26 caminhões-betoneira

Entrevistado
José Tadeu Balbo, engenheiro civil, doutor em engenharia, professor e chefe do Departamento de Engenharia de Transportes da EPUSP e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes da EPUSP (2015-2017)
Contato: jotbalbo@usp.br

Crédito Foto: Divulgação/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Produtividade da construção civil brasileira decai

No comparativo com outras 17 nações, país perde nas questões de gestão, logística e tributária, além da instabilidade macroeconômica

Por: Altair Santos

Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), revela que a construção civil brasileira é, em média, 30% menos produtiva que outros segmentos da economia do país. Em 2013, a produtividade do setor no Brasil era, por exemplo, 32,5% inferior à da indústria automobilística. “O Brasil possui um duplo gap: os desníveis de produtividade da construção em relação à média da economia brasileira e da construção brasileira em relação ao mesmo setor em países comparados na pesquisa”, chama a atenção o vice-presidente do SindusCon-SP, Francisco Vasconcellos.

Francisco Vasconcellos, vice-presidente do SindusCon-SP: melhorar produtividade é vital para retomar crescimento
Francisco Vasconcellos, vice-presidente do SindusCon-SP: melhorar produtividade é vital para retomar crescimento

O levantamento da FGV levou em conta os dados entre 2003 e 2013 da construção civil nacional, período no qual ela apresentou os maiores índices de crescimento. Mesmo assim, no comparativo com outros 17 países, a produtividade do setor nacional não acompanhou o crescimento em volume de obras. Colocada lado a lado com os Estados Unidos, a produtividade da mão de obra na construção brasileira alcança apenas 20% da conseguida nos EUA, aponta o estudo. “Se no período em que o país experimentou boas taxas de crescimento ela já era importante, agora é que a produtividade da construção revela-se um fator vital para a retomada do crescimento econômico brasileiro”, alerta Francisco Vasconcellos.

Segundo o vice-presidente do SindusCon-SP, há um longo caminho a trilhar para garantir a elevação da produtividade da construção brasileira, reduzindo o gap que nos separa dos países mais desenvolvidos. “Perdemos em questões de gestão, logística e tributária, além de vivermos agora a instabilidade macroeconômica”, alerta, completando que, a persistir a estrutura tributária, a burocracia e o custo do capital, o esforço da construção civil brasileira para ganhar posições no ranking de produtividade será ainda maior. “A estrutura tributária vigente no país, por exemplo, introduz distorção com grandes impactos na produtividade”, diz Vasconcellos.

Ultrapassado pela China
Os obstáculos citados impactam na intensidade e na duração dos ciclos de crescimento do setor e na intensidade com que a construção civil brasileira poderia utilizar os processos industrializados e de qualificação da mão de obra. “Mesmo tendo acesso a recursos e pleno domínio da técnica, a empresa poderá não utilizá-los por conta de distorções de natureza fiscal. No Brasil, as disputas fiscais entre os estados interferem na localização de plantas e centros de distribuição de materiais de construção. Com isso, em muitos casos, são introduzidos custos e riscos logísticos desnecessários na tentativa de reduzir o ônus tributário”, explica o vice-presidente do SindusCon-SP.

O resultado é que, no período analisado pela Fundação Getúlio Vargas, enquanto a produtividade da construção civil brasileira cresceu 20,6%, a chinesa avançou 108,4%. Dessa forma, se a China continuar no mesmo ritmo dos últimos 10 anos, ou seja, crescendo à taxa anual de 7,62%, e o Brasil crescer à taxa de 1,89% (referente ao período 2003-13), em 2019 a produtividade chinesa já será 50% maior que a brasileira, enquanto até 2002 alcançava apenas 15% do que se registrava em nosso país.

Clique aqui para conferir a íntegra do estudo do SindusCon-SP-FGV.

Entrevistado
Engenheiro civil Francisco Vasconcellos, vice-presidente do SindusCon-SP
Contato: sindusconsp@sindusconsp.com.br

Crédito Foto: Divulgação/SindusCon-SP

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

SENAI adota sistemas construtivos alternativos

Objetivo é estimular setor a viabilizar obras eficazes sob o ponto de vista energético, além de minimizar desperdício de materiais e de tempo

Por: Altair Santos

No Instituto SENAI de Tecnologia da Construção Civil (IST Construção Civil), localizado em Taguatinga - cidade-satélite do Distrito Federal -, é onde se concentra um importante reduto de pesquisa de sistemas construtivos focados em eficiência e sustentabilidade. O objetivo é aproveitar cada vez mais as tecnologias e os materiais que reduzam o consumo de energia e de recursos naturais, adequando o setor para viabilizar obras que promovam a redução de desperdício de materiais e de tempo.

Marcelo Feijão, coordenador do IST de Brasília-DF: busca da competitividade
Marcelo Feijão, coordenador do IST de Brasília-DF: busca da competitividade

Para credenciar sistemas construtivos com essas características, o SENAI do Distrito Federal acompanha as tendências e oferece soluções que impactam diretamente na produtividade. Para isso, o IST Construção Civil oferece consultorias, ensaios em materiais e em sistemas construtivos, a fim de apontar soluções que melhorem processos e produtos, além de adequá-los às normas técnicas, em especial a Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575:2013). “São soluções que o IST do SENAI propõe para melhorar a competitividade na construção civil”, ressalta o coordenador do instituto, o engenheiro civil Marcelo Feijão.

Feijão informa que o IST trabalha atualmente adequando a construção às plataformas tridimensionais, como o BIM, disponibilizando informações para a gestão do projeto, da obra e de toda a vida útil do prédio ou instalação que adote um sistema inovador comprovadamente eficiente e sustentável. “Isso permite diminuir o tempo gasto nos processos de fluxos logísticos, atividades de inspeção, retrabalhos e fluxos de informação quanto ao desperdício de materiais”, completa.

De EPS a cinzas de termelétricas
Uma das especialidades do IST Construção Civil do Distrito Federal é o estudo de sistemas construtivos que utilizam concreto. Recentemente, o instituto abriu negociação para adequar a tecnologia Blok Term Acoustic Systems à Norma de Desempenho. Neste sistema, as paredes são criadas a partir de placas de poliestireno expandido (EPS, ou isopor) unidas por malhas de aço e cobertas com concreto. No entanto, ainda não há confirmação de que haverá pesquisa sobre o modelo construtivo.

Além do IST em Brasília, o SENAI possui outros institutos voltados ao desenvolvimento da construção civil do país. O do Ceará, por exemplo, no momento estuda a eficácia da aplicação de cinzas oriundas da queima do carvão mineral das usinas termelétricas como agregado para produzir concreto para rodovias, blocos para alvenaria, peças cerâmicas e material para a fabricação do cimento. A pesquisa conta com o apoio da Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo Régis Rafael Tavares, gerente de mercado do IST cearense duas alternativas se apresentam prontas para o mercado: o uso das cinzas em obras rodoviárias e em estruturas pré-moldadas de concreto.

Entrevistado
Engenheiro civil Marcelo Feijão, coordenador do Instituto SENAI de Tecnologia da Construção Civil (IST Construção Civil) de Taguatinga-DF
Contato: ist@sistemafibra.org.br

Crédito Foto: Divulgação/SENAI

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Ciclovias se espalham pelo mundo, e preferem concreto

Opção pela bicicleta faz prefeituras investirem em novos projetos de mobilidade, priorizando pavimentos de longa duração e que se distingam do asfalto

Por: Altair Santos

Protagonista de novos sistemas de mobilidade urbana, a bicicleta impulsiona o crescimento da malha de ciclovias em todo o mundo. Na Holanda, onde pedalar é tradição secular, as vias exclusivas para veículo em duas rodas já se estendem por 20 mil quilômetros. Em Barcelona, na Espanha, o trecho urbano tem 150 quilômetros de ciclovias. Berlim, na Alemanha, conta com uma ramificação de ciclovias que chega a 650 quilômetros.

Ciclovia em Buenos Aires: 70 quilômetros de trechos em concreto, para incentivar uso da bicicleta
Ciclovia em Buenos Aires: 70 quilômetros de trechos em concreto, para incentivar uso da bicicleta

Na América do Sul, Bogotá, na Colômbia, e Buenos Aires, na Argentina, destacam-se. Uma pela extensão (300 quilômetros); outra pela qualidade do pavimento ao longo de 70 quilômetros de ciclovia. O concreto acompanha esse novo componente da mobilidade urbana. Em boa parte das novas ciclovias inauguradas recentemente, o pavimento rígido predomina sobre o asfalto. Por dois motivos: a ciclovia em concreto consegue criar um contraste com o asfalto (branco e preto), o que ajuda a delimitar as faixas para carros e para bicicletas.

Outra razão é a luminosidade. O concreto reflete melhor a luz solar e também a luz artificial, o que melhora a segurança dos ciclistas. Sem contar que pode ser pintado de outras cores ou receber pigmentação durante o processo de produção. “O concreto nas ciclovias oferece maior durabilidade, viabilidade econômica e segurança, devido aos menores riscos de aquaplanagem e surgimento de buracos na pista, além de facilitar na sinalização e percepção por parte dos motoristas e pedestres”, diz o holandês Warner Vonk.

Disputa entre Rio e Brasília

Ciclovia Tim Maia: um dos projetos de mobilidade urbana do Rio de Janeiro para as olimpíadas
Ciclovia Tim Maia: um dos projetos de mobilidade urbana do Rio de Janeiro para as olimpíadas

Engenheiro civil com formação na Universidade de Twente, na Holanda, Wonk foi contratado pela prefeitura do Rio de Janeiro para fazer o planejamento cicloviário da cidade, além de outros municípios, como Resende-RJ, Mesquita-RJ, Fortaleza-CE, Florianópolis-SC e Blumenau-SC - sempre optando pelas faixas em concreto. Um dos mais recentes trabalhos em que esteve envolvido foi o projeto da ciclovia Tim Maia, que margeia a Avenida Niemeyer, no Rio, e faz parte do planejamento da cidade para os jogos olímpicos.

Com a obra, toda em concreto, o Rio de Janeiro passou a ter a maior malha cicloviária urbana da América Latina, com 438,9 quilômetros. O objetivo é de que até agosto, quando começam as olimpíadas, o número suba para 450 quilômetros. A capital fluminense, no entanto, pode perder o título de “cidade sul-americana das ciclovias” para Brasília. O plano cicloviário do Distrito Federal prevê 600 quilômetros de faixas exclusivas para bicicletas, com prioridade para o concreto. Até a Copa do Mundo de 2014, porém, apenas 61 quilômetros do projeto foram viabilizados.

O crescimento da malha de ciclovias já levou a indústria de equipamentos para a construção civil a projetar máquinas exclusivas para esse segmento. Entre elas, extrusoras que pavimentam in loco a faixa para bicicletas. A vantagem é que o equipamento elimina ondulações, cria um gripping adequado para veículos de duas rodas e permite uma execução mais rápida do projeto. Uma ciclovia em concreto, construída adequadamente, pode durar até 20 anos praticamente sem manutenção.

Faixa exclusiva para bicicletas no Distrito Federal: pretensão de Brasília é ser a capital sul-americana das ciclovias
Faixa exclusiva para bicicletas no Distrito Federal: pretensão de Brasília é ser a capital sul-americana das ciclovias

Entrevistado
Engenheiro civil Warner Vonk, sócio-fundador IFluxo e consultor da IC-E (Interface for Cycling Expertise)
Contatos
info@ifluxo.com.br
warner@ifluxo.com.br

Créditos Fotos: Divulgação/Prefeitura de Buenos Aires/Prefeitura do Rio de Janeiro/Governo do DF

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330