Novos métodos aprimoram avaliação da segurança de barragens de concreto

A evolução do conhecimento sobre o comportamento das fundações, aliada ao avanço da modelagem numérica e da instrumentação, amplia as possibilidades para a avaliação da estabilidade de barragens de concreto. Para Ricardo Abrahão, consultor em Geologia de Engenharia e Mecânica de Rochas e proprietário da Ricardo Abrahão Geociências S/S, parte dos critérios ainda utilizados no setor foi desenvolvido a partir de modelos antigos e simplificados, que podem não representar adequadamente determinadas condições geológicas e estruturais encontradas nas obras. 

Durante sua palestra na Concrete Show, Abrahão chamou atenção especialmente para a interface entre a fundação em rocha e a estrutura de concreto. Segundo o especialista, trata-se de uma área que exige conhecimentos de diferentes disciplinas e que ainda apresenta lacunas na forma como é tratada pelos critérios técnicos. Para ele, a modernização passa justamente pela formulação de modelos capazes de representar melhor o comportamento real das obras. 

O tema ganha relevância diante da necessidade de reavaliar estruturas existentes. De acordo com Abrahão, barragens que operam há 30 ou 40 anos vêm sendo recalculadas com métodos desenvolvidos em outro contexto tecnológico e de conhecimento da engenharia. Na visão do especialista, a aplicação automática de determinados critérios pode resultar em avaliações excessivamente conservadoras ou que não considerem adequadamente o comportamento efetivo da estrutura. 

Acidentes históricos ampliaram conhecimento sobre fundações

Avanços em modelagem numérica, instrumentação e investigação geológica permitem análises mais realistas do comportamento das barragens. Crédito: Envato

Uma das bases para o desenvolvimento dos critérios atuais, segundo Abrahão, está no aprendizado acumulado a partir de acidentes ocorridos ao longo da história. O consultor destacou que problemas envolvendo geologia estrutural, subpressão, drenagem, erosão e características das fundações contribuíram para que a engenharia passasse a compreender melhor os mecanismos capazes de comprometer uma barragem. O especialista ressaltou ainda que o número de acidentes diminuiu à medida que conhecimento, investigação e métodos de projeto evoluíram. 

Entre os casos brasileiros abordados esteve a Barragem de Camará, na Paraíba, que sofreu ruptura em 2004. Abrahão destacou que o problema não estava simplesmente no concreto, mas envolvia as condições geológicas da fundação e o comportamento de uma junta existente no maciço rochoso. Na reconstrução, estudos mais detalhados subsidiaram o dimensionamento de uma chaveta de concreto para melhorar as condições de estabilidade da estrutura. 

Modelo de bloco rígido pode apresentar limitações em fundações complexas

Um dos principais questionamentos apresentados pelo consultor diz respeito ao emprego do chamado modelo de bloco rígido para determinar a distribuição das tensões na fundação.

Nesse procedimento, as cargas aplicadas à estrutura resultam em uma distribuição simplificada das tensões normais na interface com a fundação. Para Abrahão, embora a abordagem possa ser adequada em determinadas situações, ela apresenta limitações quando existem condições geológicas mais complexas, como descontinuidades e materiais com rigidez distintas. 

O problema torna-se particularmente relevante diante do chamado contraste de rigidez. Uma fundação pode reunir, por exemplo, uma descontinuidade geológica de baixa resistência, uma chaveta de concreto e diferentes tipos ou graus de alteração da rocha. Cada elemento apresenta propriedades mecânicas distintas e responde de maneira diferente às solicitações.

Nessas condições, considerar uma distribuição linear e uniforme pode não reproduzir integralmente e/ou corretamente a forma como as cargas são transferidas entre a estrutura e a fundação.

Abrahão defendeu o emprego de métodos numéricos, capazes de simular comportamentos elásticos e elastoplásticos e calcular, elemento por elemento, as tensões normais e tangenciais presentes na fundação. A distribuição obtida pode ser bastante diferente daquela produzida pelo modelo simplificado de bloco rígido. 

Isso não elimina, entretanto, a necessidade de traduzir os resultados em parâmetros compatíveis com as exigências regulatórias. Segundo o consultor, a legislação demanda a apresentação de um fator de segurança para a estabilidade da estrutura. Dessa forma, as forças resultantes das distribuições de tensões obtidas nos modelos podem ser integradas e posteriormente utilizadas no cálculo desse fator. 

Itaipu mostra importância da caracterização geológica

A Usina Hidrelétrica de Itaipu foi utilizada por Abrahão para exemplificar como a investigação das condições geológicas e geomecânicas da fundação pode influenciar as soluções de engenharia específicas.

O especialista, que participou dos trabalhos relacionados à obra, relatou a existência de uma descontinuidade de baixa resistência na região da fundação. Segundo sua apresentação, as características da estrutura faziam com que os cálculos convencionais não fossem suficientes para solucionar a questão. Por isso, a descontinuidade precisou ser investigada detalhadamente e submetida a ensaios para determinação de suas propriedades mecânicas. 

A solução adotada envolveu a construção de uma malha de túneis preenchidos com concreto, formando chavetas na fundação, além das galerias de drenagem. Segundo Abrahão, essas estruturas passaram a contribuir para a estabilização da barragem. 

Instrumentação pode tornar análise da subpressão mais representativa

Outro ponto que, na avaliação de Abrahão, merece revisão é a subpressão, isto é, a pressão hidráulica exercida na fundação da barragem em função das condições de percolação.  

Os diagramas utilizados para representar esse fenômeno seguem formatos estabelecidos por critérios normativos. Entretanto, o consultor argumenta que os dados provenientes da instrumentação permitem avaliar o comportamento hidráulico efetivamente observado na estrutura e, a partir dele, trabalhar com representações mais próximas da realidade. 

A diferença pode ter impacto significativo nos cálculos de estabilidade. Na palestra, Abrahão mostrou um exemplo em que a adoção de uma representação baseada nas condições observadas reduziu substancialmente a resultante associada à subpressão em comparação com o diagrama convencional. 

Para o especialista, entretanto, os dados instrumentais isolados não são suficientes. É necessário compreender as condições geológicas, estruturais e hidrogeológicas que explicam as medições.

Integração entre disciplinas é essencial

Essa necessidade leva a outro aspecto central defendido pelo consultor: a avaliação de barragens não pode ser realizada de forma compartimentada. Segundo Abrahão, profissionais de estruturas, geologia e hidrogeologia precisam trabalhar conjuntamente para produzir um modelo geomecânico compatível com as características de cada empreendimento. 

Essa caracterização detalhada é especialmente importante porque as fundações não são homogêneas. Descontinuidades, juntas, diferentes níveis de rigidez, condições hidráulicas e propriedades mecânicas interferem diretamente na maneira como as cargas são transmitidas entre concreto e o maciço rochoso.

A própria Política Nacional de Segurança de Barragens prevê a realização de inspeções e revisões periódicas e estabelece que essas avaliações considerem, entre outros aspectos, o estado geral da segurança e o atual estado da arte dos critérios de projeto. A legislação também prevê que inspeções especiais sejam realizadas por equipes multidisciplinares, conforme as características e os riscos da barragem.

Resistência à tração na interface concreto-rocha entra em discussão

Abrahão também destacou outro aspecto que considera relevante para a evolução dos critérios técnicos: a resistência à tração na interface entre concreto e rocha.

Segundo o consultor, os critérios tradicionalmente adotados desconsideram essa resistência. Entretanto, observações de estruturas existentes e ensaios realizados nessa interface indicam que há aderência entre os materiais e que o comportamento real pode ser mais complexo. 

Outro aspecto é a própria geometria do contato. Os modelos de cálculo podemrepresentar a interface concreto-rocha como uma superfície plana, enquanto, na obra real, ela apresenta irregularidades, rugosidade e heterogeneidades. Essas características podem influenciar a transferência de esforços e a resistência prevista por um modelo idealizado. 

Por isso, a utilização desses parâmetros deve estar associada à caracterização específica da obra, aos resultados de ensaios e às hipóteses adotadas na análise, evitando que uma propriedade seja incorporada ao modelo sem evidência suficiente de sua representatividade.

Para Abrahão, a proposta é utilizar as ferramentas disponíveis atualmente — investigação geológica, ensaios, instrumentação e modelagem numérica — para desenvolver avaliações que representem de maneira mais fiel o comportamento das estruturas.

Nesse contexto, a atualização dos critérios técnicos pode ser decisiva principalmente para barragens existentes. “Em vez de aplicar automaticamente modelos concebidos décadas atrás, a engenharia passa a ter condições de confrontar as hipóteses de cálculo com o comportamento efetivamente observado em campo, permitindo avaliações de segurança mais fundamentadas e aderentes às particularidades de cada empreendimento”, conclui.

Fonte

Ricardo Abrahão é consultor em Geologia de Engenharia e Mecânica de Rochas e proprietário da Ricardo Abrahão Geociências S/S.

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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Normas da ABNT avançam na industrialização da construção

A normalização de sistemas construtivos industrializados avançou em 2026. A publicação da ABNT NBR 17305-1:2026 estabelece requisitos para edificações construídas com sistemas de vedação vertical interna ou externa constituídos por painéis de concreto leve, enquanto a Emenda 1:2026 da ABNT NBR 17073-2:2024 atualiza requisitos relacionados ao uso desses painéis em sistemas de pisos e coberturas.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Mario William Esper, as atualizações acompanham o amadurecimento dessas tecnologias e buscam estabelecer critérios mais claros para fabricantes, projetistas e construtoras.

Norma passa a considerar o sistema construtivo

A NBR 17305-1:2026 dá continuidade a um processo iniciado em 2025, quando a NBR 17264 estabeleceu requisitos e métodos de ensaio para o painel pré-fabricado leve e modular, de cimento Portland e pérolas de EPS, considerado isoladamente.

“Agora avançamos um passo: paramos de olhar só para o painel e passamos a tratar o sistema construtivo montado, com todas as suas interfaces com a edificação”, explica Esper.

A nova norma procura preencher uma lacuna entre desempenho, produto e aplicação. Enquanto a NBR 15575 estabelece requisitos de desempenho que deve ser entregue pela edificação, sistemas industrializados também necessitam de regras específicas para projeto, montagem e manutenção de suas interfaces.

Essa abordagem também aparece em outras tecnologias industrializadas, como a família NBR 17073, que estabelece requisitos para edificações construídas com painéis modulares de chapa cimentícia e núcleo à base de cimento Portland e pérolas de EPS. 

Industrialização exige planejamento

Atualizações buscam estabelecer critérios mais claros para fabricantes, projetistas e construtoras. Crédito: Envato

De acordo com Esper, conhecer as características do painel isoladamente não é suficiente para assegurar o desempenho da parede instalada. Juntas, ligações, fixações, interface com outros elementos, instalações embutidas, estanqueidade e tolerâncias de montagem interferem no comportamento do conjunto.

“Industrializar não significa trocar a alvenaria por um painel — significa mudar a lógica de projeto e de execução. Quanto maior o grau de industrialização, maior precisa ser a definição das soluções antes de chegar ao canteiro”, afirma.

A norma, portanto, contribui para estabelecer uma linguagem técnica comum entre fabricante, projetista, construtora e equipe de execução, reduzindo a dependência de soluções definidas caso a caso durante a obra.

Para os projetistas, isso significa antecipar decisões sobre modulação, instalações, juntas e vãos. Para as construtoras, a execução passa a exigir planejamento, controle e equipes capacitadas, aproximando o canteiro de uma lógica de montagem. Já para os fabricantes, aumenta a importância do controle tecnológico, da documentação e das evidências de atendimento aos requisitos aplicáveis. 

Aplicação é restrita a paredes sem função estrutural

A NBR 17305-1:2026 contempla sistemas de vedação vertical interna e externa constituídos pelos painéis especificados em seu escopo, sem função estrutural.

“A Parte 1 não transforma o painel em elemento estrutural, nem substitui o projeto da estrutura da edificação. O uso dele é como vedação”, ressalta Esper.

Em fachadas, áreas molhadas ou situações com exigências específicas, devem ser avaliados aspectos como estanqueidade, comportamento ao fogo, desempenho acústico e térmico, resistência a impactos e durabilidade, conforme os requisitos aplicáveis ao sistema e à edificação. Cortes, aberturas, instalações e demais intervenções também precisam ser previstos e compatibilizados no projeto.

A norma ainda distribui responsabilidades ao longo do ciclo do sistema. No projeto, ganham importância a compatibilização e a definição prévia de juntas, vãos, interfaces e fixações. Na execução, entram controles de recebimento, alinhamento, prumo, tolerâncias e tratamento de juntas. Na manutenção, o objetivo é preservar o desempenho ao longo do tempo, com maior relevância do as built, sobretudo quando existem instalações incorporadas às paredes.

Na avaliação de Esper, a norma também pode produzir um efeito mais amplo: “Ela ajuda a criar as condições para que a construção industrializada deixe de ser tratada como exceção e passe a integrar o repertório técnico convencional da engenharia brasileira.”

Emenda atualiza condições para pisos e coberturas

Outra mudança é a Emenda 1:2026 da ABNT NBR 17073-2:2024. A principal alteração permite que painéis com espessura de 95 mm sejam utilizados em aplicações de piso e cobertura com vão livre de até 3 metros. Antes, o limite era de 1,5 metro.

A família NBR 17073 possui três partes: a Parte 1 trata da vedação vertical interna e externa; a Parte 2, de pisos e coberturas; e a Parte 3, da aplicação como parede estrutural.

Segundo Esper, a alteração surgiu a partir de uma demanda apresentada por uma parte interessada à Gerência de Normalização Nacional da ABNT, em outubro de 2025. O pedido foi aceito e retornou à Comissão de Estudo responsável em fevereiro de 2026, com a apresentação de documentos técnicos complementares em março.

A mudança decorreu de experiências práticas do demandante acompanhadas de estudo técnico para validar a nova condição proposta, posteriormente analisado nos debates da Comissão de Estudo.

“Simplesmente abrimos uma porta: permitimos a projetistas, construtoras e fabricantes uma nova solução técnica dentro do sistema construtivo que a norma abrange”, conclui Esper.

As atualizações reforçam o movimento de adequação da normalização ao avanço da construção industrializada, estabelecendo parâmetros não apenas para os componentes, mas para sua integração aos projetos e à execução das edificações.

Fonte

Mario William Esper é presidente da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Contato

Assessoria de imprensa - lauro@novoselo.com.br 

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP Vogg Experience 


Investimentos em infraestrutura ampliam oportunidades para a construção civil

De acordo com dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), o Brasil apresentou em 2025 o maior volume de investimentos em infraestrutura desde o início da série histórica, em 2010. Foram R$ 280 bilhões aplicados no setor, sendo que aproximadamente 84% desse montante teve origem na iniciativa privada. O economista Hugo Eduardo Meza Pinto, docente da Estácio Curitiba, afirma que, apesar desses dados, o país ainda convive com uma diferença significativa entre os recursos disponíveis e o volume necessário para modernizar a infraestrutura nacional. Segundo ele, existe uma necessidade superior a R$ 500 bilhões anuais, o que significa que há um déficit de investimentos que chega a aproximadamente R$ 218 bilhões por ano. 

Para Jefferson Marcondes Ferreira, professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter, o cenário representa uma retomada gradual, sustentada por recursos públicos, concessões, parcerias público-privadas (PPPs) e maior participação do mercado de capitais. Ainda assim, o investimento permanece abaixo do necessário. “Quando observamos os dados apresentados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o país investe aproximadamente entre 2% e 2,5% do PIB em infraestrutura, sendo que seria necessário um patamar superior a 4% do PIB para sustentar um crescimento econômico mais robusto e elevar a competitividade nacional”, afirma.

Obras de infraestrutura geraram aproximadamente 64 mil empregos formais entre janeiro e junho deste ano. Crédito: Envato

Infraestrutura movimenta toda a cadeia da construção

O impacto dos investimentos não se limita às empresas diretamente envolvidas nas obras. A realização de projetos de infraestrutura amplia a demanda por uma série de insumos, equipamentos e serviços, criando efeitos sobre diferentes segmentos da economia. De acordo com Meza Pinto, o primeiro semestre de 2026 reforçou essa relação.

Dados da CBIC indicam que as obras de infraestrutura geraram aproximadamente 64 mil empregos formais entre janeiro e junho, superando pela primeira vez desde 2020 a geração de postos de trabalho vinculada à construção de edifícios, que registrou cerca de 60,5 mil vagas. No período, a construção civil abriu 168 mil postos formais, com crescimento de 6,5%. 

Ferreira destaca o efeito multiplicador dos investimentos. Uma obra de infraestrutura demanda cimento, aço, máquinas, equipamentos elétricos, materiais de construção, engenharia, tecnologia e transporte. Ao mesmo tempo, gera empregos diretos, indiretos e induzidos, contribuindo para ampliar o consumo e estimular novos investimentos privados.

Saneamento concentra oportunidades

Hugo Eduardo Meza Pinto, docente da Estácio Curitiba. Crédito: Divulgação

Entre os segmentos com maior perspectiva de receber investimentos, destaca-se o saneamento básico. Segundo Meza Pinto, aproximadamente 50,4% apontaram o saneamento básico entre os setores com maior intenção de investimento nos próximos três anos. A demanda está relacionada também às metas de universalização previstas para 2033, que estabelecem a oferta de água potável para 99% da população e a coleta e o tratamento de esgoto para 90%.

Transporte e logística formam outro grupo com forte potencial. Rodovias, ferrovias, portos e aeroportos demandam grandes volumes de materiais, equipamentos e mão de obra especializada. O levantamento da Radar PPP aponta que, entre 2014 e 2025, foram contratados mais de R$ 491 bilhões em melhorias da malha viária, em grande parte por meio de concessões e PPPs.

Mobilidade urbana, infraestrutura social e de saúde, iluminação pública e eficiência energética também estão entre as áreas com possibilidade de expansão. A transição energética acrescenta projetos de geração, transmissão, distribuição e armazenamento, incluindo usinas, linhas de transmissão e subestações. Ferreira acrescenta a infraestrutura digital ao grupo de segmentos com investimentos crescentes, com destaque para redes 5G, data centers, fibra óptica e serviços em nuvem.

Projeto do BNDES pode ampliar financiamento

Uma das iniciativas que pode contribuir para ampliar a disponibilidade de recursos é o projeto do BNDES para selecionar gestores de fundos privados de infraestrutura. A proposta prevê a participação do banco com até 25% do patrimônio de cada fundo e a exigência de que os gestores captem R$ 3 de terceiros para cada R$ 1 aportado pelo BNDES.

Para Meza Pinto, a estrutura aumenta a disponibilidade de capital próprio antes da contratação de financiamentos, reduzindo a alavancagem inicial e os riscos dos projetos. “Com mais equity, dinheiro de fundos disponíveis, projetos de concessões, como parceria público-privada, e licitações de infraestrutura, transporte, saneamento, saúde, iluminação, tendem a ser mais rápidos, sair mais rápido do papel, gerando demanda contínua para as construtoras e fornecedores.”

Ferreira avalia que a participação de gestores privados também diversifica as fontes de financiamento e reduz a dependência dos recursos públicos. Para as empresas de construção, isso pode representar maior previsibilidade, ampliação das carteiras de obras e espaço para investimentos em inovação e produtividade.

Jefferson Marcondes Ferreira, professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter. Crédito: Divulgação

PPPs dependem de segurança regulatória

As parcerias público-privadas permanecem entre os principais mecanismos para viabilizar projetos de infraestrutura em um cenário de restrições fiscais. Saneamento, mobilidade urbana, iluminação pública, resíduos sólidos e logística estão entre os setores que utilizam esse modelo.

O ambiente, porém, ainda apresenta obstáculos. Meza Pinto chama atenção para o novo marco das concessões e PPPs, aprovado pela Câmara em maio de 2025 e que permanecia em análise no Senado havia mais de 15 meses. Para o economista, a indefinição regulatória dificulta a tomada de decisões e a estruturação de novos negócios.

Na avaliação de Ferreira, a segurança jurídica, a estabilidade regulatória e modelos financeiros capazes de atrair investidores de longo prazo continuam entre os principais desafios. Ao mesmo tempo, ele observa maior participação do setor privado e do BNDES na estruturação de concessões.

O cenário, portanto, combina aumento dos investimentos com uma necessidade ainda maior de recursos. Para a construção civil, a ampliação das fontes de financiamento e a estruturação de projetos de longo prazo podem determinar o ritmo de contratação de obras e de demanda por materiais, equipamentos e serviços nos próximos anos.

ENTREVISTADOS

Hugo Eduardo Meza Pinto é economista com Doutorado em Integração da América Latina pela USP e Mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, com mais de 25 anos de experiência acadêmica e profissional em macroeconomia, desenvolvimento econômico, inovação e relações internacionais. Atualmente, é docente da Estácio Curitiba.

Jefferson Marcondes Ferreira é economista formado pela UniBrasil, com Mestrado em Economia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutorando em Ciências Ambientais pela UTFPR, e professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter.

Contato

hugo.pinto@estacio.br

jefferson.f@uninter.com 

Ana Carvalho

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Cidades resilientes exigem integração entre construção, infraestrutura e planejamento urbano

Chuvas intensas, alagamentos, ondas de calor e períodos de frio colocam as cidades diante de novos desafios de planejamento e infraestrutura. Nesse cenário, a construção civil passa a desempenhar papel cada vez mais relevante na adaptação dos espaços urbanos às mudanças climáticas. A forma como ruas, calçadas, edifícios e sistemas de drenagem são projetados pode interferir tanto na capacidade de resposta aos eventos extremos quanto nas condições de conforto e segurança e qualidade de vida da população.

Para Alex Maschio, engenheiro civil e CEO do Instituto Ruas, o debate sobre mudanças climáticas precisa considerar a infraestrutura urbana. “Há muitas formas de olhar para a crise climática, e todas elas são legítimas. Opto pelo olhar da infraestrutura urbana, mais especificamente, pela lente da rua, pois é a minha área de atuação e de pesquisa”, explica.

Segundo ele, ruas, calçadas e estacionamentos representam uma parcela expressiva das superfícies construídas nas cidades brasileiras. “A forma como essa superfície reage com a água da chuva e com o calor, raios solares, tem consequência direta sobre a temperatura, sobre as enchentes e sobre a qualidade de vida de quem mora ali”, afirma.

Projeto urbano como parte da resposta climática

O planejamento da infraestrutura urbana deve considerar soluções capazes de ampliar a durabilidade, o desempenho e a resiliência das cidades. Rua Niterói, no Cajuru – Curitiba/PR. Crédito: Hully Paiva/SMCS

A escolha dos materiais e dos sistemas construtivos interfere diretamente no comportamento das cidades diante de eventos climáticos extremos. Maschio chama atenção para a diferença entre pavimentos escuros e claros. “O pavimento asfáltico é escuro e absorve cerca de 95% da luz solar que recebe, chegando a passar dos 60°C em um dia quente”, relata. Já os pavimentos de tonalidade clara, como os pavimentos em concreto, tendem a refletir uma parcela maior da radiação solar e, consequentemente, a apresentar menor absorção de calor

A impermeabilização das superfícies é outro ponto de atenção. “Quando a chuva não infiltra em lugar nenhum, ela escorre toda de uma vez, leva a sujeira das ruas para os rios e transforma qualquer chuva de maior intensidade em alagamento”, explica.

Para o especialista, decisões relacionadas à infraestrutura urbana têm impacto direto sobre a capacidade de adaptação dos municípios. “A decisão climática mais impactante da infraestrutura urbana é municipal. Não depende de acordo internacional nem de política federal. Depende de quem especifica a rua residencial do bairro, o engenheiro, o projetista, o prefeito”, afirma.

Gustavo Selig, engenheiro civil e CEO do Grupo Hestia, também defende que a adaptação precisa começar antes da execução da obra. “O setor precisa parar de olhar para a sustentabilidade como um custo e passar a enxergá-la como um vetor de eficiência. Isso começa no lápis, ainda na fase de conceito do projeto”, ressalta.

Gustavo Selig, presidente do Grupo Hestia. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

De acordo com Selig, projetos bioclimáticos e fachadas eficientes podem reduzir a demanda energética durante a utilização dos edifícios. Ele também aponta a necessidade de descarbonizar materiais, reutilizar o que for possível de estruturas e avançar na adoção de princípios de circularidade na construção.

O conceito de eficiência deve considerar todo o ciclo de vida da construção. “Se projetarmos edifícios e infraestruturas que durem mais, demandem menos manutenção e consumam menos recursos ao longo do seu ciclo de vida, mudamos o jogo de forma significativa”, argumenta.

Planejamento e integração

Construir cidades capazes de enfrentar eventos extremos também exige integração entre diferentes sistemas urbanos. Para Selig, essa articulação precisa fazer parte do planejamento urbano. “Cidade resiliente não se faz isolando a infraestrutura da natureza; o segredo está na integração”, afirma.

Segundo ele, é necessário cruzar o uso do solo com drenagem urbana, áreas verdes, mobilidade, energia e habitação. A proposta inclui a combinação entre infraestrutura verde e estruturas convencionais. “Precisamos usar parques lineares, pavimentos adequados e reservatórios de retardo junto com o concreto tradicional”, explica.

O planejamento também precisa considerar as áreas que já estão ocupadas, sem esquecer de adaptar o que já está construído e priorizar as áreas de maior vulnerabilidade social. Para Selig, a abrangência das ações é determinante: “Resiliência de verdade tem que ser para a cidade inteira, não só para alguns bairros.”

Maschio segue uma linha semelhante ao defender que a resiliência precisa ser incorporada aos critérios de avaliação das ruas. “Cidade resiliente é aquela que aguenta o evento extremo sem entrar em colapso e volta ao normal rápido”, define.

Para ele, esse processo passa por três frentes: dar caminho para a água, dar sombra para as pessoas e escolher soluções que durem. O especialista também defende que os municípios passem a medir o desempenho das ruas. “Resiliência começa por medir. Hoje o Brasil não avalia suas ruas. Constrói, entrega e esquece.”

Soluções de engenharia podem reduzir impactos

Alex Maschio, fundador e CEO do Instituto Ruas. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

A construção civil dispõe de alternativas para melhorar o desempenho das cidades diante das chuvas e temperaturas elevadas. Maschio cita o pavimento permeável como uma dessas soluções. “A chuva atravessa a superfície e fica armazenada numa camada de brita, granular, embaixo, que funciona ao mesmo tempo como reservatório e como filtro”, explica.

Segundo ele, a solução pode ser aplicada em áreas específicas do sistema viário, sem necessariamente exigir a substituição de toda a estrutura da pista. “Trocando apenas calçadas e estacionamentos por pavimento permeável, uma rua residencial comum ganha cerca de 20% de permeabilidade”, afirma.

A adoção desse tipo de solução, entretanto, depende das características do local, das condições do solo, do dimensionamento do sistema e dos requisitos de manutenção. Por isso, a especificação deve considerar o comportamento hidrológico da área e a finalidade de uso do pavimento.

Tecnologia permite antecipar riscos

A digitalização amplia as possibilidades de acompanhamento das estruturas e de tomada de decisão. Selig destaca ferramentas como BIM e gêmeos digitais. “O que nós fazemos hoje com BIM e gêmeos digitais, por exemplo, nos permite simular o comportamento de um edifício diante do clima futuro antes mesmo de assentar o primeiro tijolo”, afirma.

Depois da construção, a sensorização permite acompanhar diferentes parâmetros. “Sensores que medem chuva, nível, umidade, vibração e até deformação nos dão dados em tempo real”, explica. As informações podem apoiar sistemas de “drenagem inteligente, manutenção preditiva e uma resposta muito mais rápida”.

Na visão dos especialistas, a adaptação climática passa por decisões tomadas em diferentes escalas. Ruas, edifícios, sistemas de drenagem, áreas verdes e tecnologias de monitoramento precisam fazer parte de uma mesma estratégia. Ambos concordam que uma boa engenharia é justamente a que sabe fazer essa leitura escolhendo melhores sistemas, construtivos, processos e materiais.

Mais do que escolher soluções isoladas, o desafio está em integrar sistemas, materiais, processos construtivos e tecnologias desde o planejamento. Nesse contexto, a engenharia assume papel estratégico: avaliar o desempenho das soluções, antecipar riscos e definir sistemas construtivos capazes de responder às condições climáticas presentes e futuras.

ENTREVISTADOS

Gustavo Selig é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Administração de Empresas e Negócios pela FGV-PR. Cofundador e presidente do Grupo Hestia, atua há mais de 30 anos no mercado imobiliário paranaense, liderando projetos que unem tradição, inovação e propósito. Foi representante do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) no Ippuc e presidiu a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi/PR) por três gestões consecutivas.

Alex Maschio é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR) e Administração - Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, professor de cursos de pós-graduação nas áreas de infraestrutura, pavimentação e cidades inteligentes, palestrante, fundador e CEO do Instituto Ruas.

Contato

gustavo.selig@grupohestia.com.br

alex@institutoruas.com.br

Jornalista responsável

Ana Carvalho

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Construção busca novas fontes de financiamento diante das mudanças no crédito imobiliário

O financiamento imobiliário passa por uma mudança estrutural no Brasil. A expansão do mercado nos últimos anos ocorreu em um cenário de redução da capacidade das fontes tradicionais de recursos, especialmente da poupança. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a direcionar uma parcela maior do crédito para a aquisição de imóveis, reduzindo o espaço destinado ao financiamento para construção dos imóveis.

Esse movimento aumenta a pressão sobre construtoras e incorporadoras, que precisam buscar alternativas para financiar obras, aquisição de terrenos e capital de giro. Entre as opções estão os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), operações de equity, permutas e modelos de autofinanciamento.

Segundo Eduardo Garcia Quiza, membro do conselho de ex-presidentes e diretores da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR), essa transformação exige uma mudança na forma como as empresas tratam o capital. “Quem incorpora precisa ter condições de entender que o insumo ‘capital’ depende de organização, governança e capacidade de análise para saber, de fato, escolher a melhor alternativa, a estrutura de capital mais eficiente”, afirma.

Poupança perde espaço

Especialistas alertam que ter alternativas disponíveis não significa que qualquer empresa esteja preparada para acessá-las. Crédito: Envato

A caderneta de poupança, historicamente uma das principais bases do crédito imobiliário, deixou de acompanhar a necessidade de recursos do setor. Houve saque líquido de R$ 85,6 bilhões em 2025 e de mais R$ 30,6 bilhões no primeiro semestre de 2026. De acordo com os dados apresentados por Quiza, a participação da poupança no funding caiu de uma faixa entre 62% e 80%, registrada entre 2014 e 2023, para aproximadamente 50% em 2025.

Nesse cenário, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) ganharam espaço. Em julho de 2025, elas já respondiam por 60% das concessões, contra 40% da poupança. O estoque de LCI chegou a R$ 473 bilhões em março de 2026, com crescimento de 30% em 12 meses.

Para Fabiane Rubino, vice-presidente administrativa da ADEMI-PR, o problema está relacionado ao descompasso entre o crescimento do mercado e a capacidade das fontes tradicionais. “O mercado imobiliário brasileiro dobrou entre 2020 e 2025, mas as fontes tradicionais de financiamento não acompanharam esse ritmo”, explica. A migração para o mercado de capitais já pode ser percebida na composição do financiamento habitacional. Segundo Fabiane, as novas fontes de funding passaram de uma participação praticamente inexistente para 14% do Sistema Financeiro da Habitação em aproximadamente dois anos.

Crédito para construtoras e incorporadoras fica mais restrito

Outra mudança afeta diretamente as empresas que precisam financiar a construção. Em 2025, esse crédito caiu cerca de 60%, passando de aproximadamente R$ 50 bilhões para R$ 20 bilhões, e no primeiro semestre de 2026, já foram destinados R$ 26,5 bilhões à modalidade. O resultado representa uma recuperação em relação ao ano anterior, mas ainda não configura uma expansão estrutural da oferta.

A maior parte dos recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) está sendo direcionada ao comprador final. No primeiro semestre de 2026, 72% do SBPE foi destinado à aquisição de imóveis, enquanto 28% ficaram para a construção.

O Plano Empresário bancário permanece entre as alternativas de menor custo, mas o acesso é mais seletivo. A operação costuma exigir relacionamento com a instituição financeira, garantia real e mecanismos vinculados ao desempenho das vendas e da obra. Fora do SBPE, também existem linhas bancárias com taxas atreladas ao CDI. Embora possam ampliar as possibilidades para as empresas, apresentam custo financeiro mais elevado.

FGTS enfrenta novas pressões

O FGTS também está no centro da discussão. O fundo financia contratos de longo prazo, mas parte de seus recursos passou a ser utilizada em outras modalidades. Saques extraordinários, saque-aniversário e o consignado para trabalhadores com carteira assinada utilizando o FGTS como garantia reduzem a parcela do saldo disponível como suporte para operações habitacionais de longo prazo. Quiza destaca que o problema está na sobreposição dos usos do mesmo recurso. “O mesmo saldo está sendo contado três vezes: garantia de empréstimo pessoal, antecipação anual de renda e lastro de financiamento de 35 anos”, observa.

Fabiane acrescenta que o FGTS não foi estruturado para funcionar como fonte principal de funding de segmentos de médio e alto padrão. Ela cita ainda uma percepção crescente de dificuldade entre os consumidores. “Cerca de 63% dos brasileiros afirmam que ficou mais difícil financiar um imóvel, e 40% dos que querem comprar apontam o valor da parcela como principal impedimento”, afirma.

Mercado de capitais ganha relevância

Com a menor disponibilidade de recursos bancários tradicionais, o mercado de capitais passou a ocupar espaço maior na estrutura financeira dos empreendimentos. O CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) é uma das principais alternativas. O estoque chegou a R$ 261 bilhões na B3 em março de 2026, enquanto as emissões somaram R$ 22 bilhões até julho. O instrumento pode ser utilizado para financiar a obra ou transformar recebíveis imobiliários em recursos para a empresa. A operação, porém, envolve custos de estruturação e taxas próximas ou superiores ao CDI.

Há ainda as operações de equity, nas quais investidores participam diretamente do empreendimento. Para Fabiane, porém, ter alternativas disponíveis não significa que qualquer empresa esteja preparada para acessá-las. “O capital existe, mas o acesso não é automático”, resume.

A mudança no mercado, portanto, não elimina o crédito para a construção, mas modifica as condições para acessá-lo. Para incorporadoras e construtoras, conhecer o custo de cada fonte, avaliar os riscos e estruturar os projetos de acordo com as exigências de cada investidor passam a fazer parte da própria estratégia de desenvolvimento imobiliário.

ENTREVISTADOS

Eduardo Garcia Quiza é membro do conselho de ex-presidentes e diretores da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR)

Fabiane Rubino é vice-presidente administrativo da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR).

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Ana Carvalho

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Mercado imobiliário fecha primeiro semestre com alta de 5,4% na comercialização de imóveis residenciais

O mercado imobiliário brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com crescimento nas vendas de imóveis residenciais novos, mesmo diante de um cenário de juros elevados. Entre janeiro e junho, foram comercializadas 226.536 unidades, alta de 5,4% em relação às 214.910 unidades vendidas no mesmo período de 2025. Os dados integram os Indicadores Imobiliários Nacionais do segundo trimestre de 2026, levantamento realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por meio da Comissão da Indústria Imobiliária, em correalização com o Sesi Nacional e elaborado pela Brain Inteligência Estratégica.

Para Celso Petrucci, conselheiro da CBIC e diretor de Economia do Secovi-SP, o desempenho mostra a capacidade de sustentação do setor mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo. “Em relação ao primeiro trimestre, nós tivemos aumento de lançamentos e aumento de vendas. Em relação ao segundo trimestre do ano passado, tivemos uma pequena queda de 1,3% em número de unidades lançadas, mas com 5,3% a mais de vendas. Olhando para o semestre, temos uma estabilidade de 0,3%, mas também um crescimento de 5,4% nas vendas”, explicou.

Vendas crescem enquanto lançamentos ficam estáveis

No segundo trimestre, foram vendidas 113.676 unidades residenciais, alta de 0,7% sobre os três primeiros meses do ano e de 5,3% na comparação anual. Os lançamentos somaram 107.161 unidades entre abril e junho, crescimento de 2,6% em relação ao primeiro trimestre de 2026, mas queda de 1,3% diante do mesmo período de 2025.

No acumulado do primeiro semestre, os lançamentos chegaram a 211.651 unidades, redução de apenas 0,3%em relação ao mesmo período de 2025, quando foram lançadas 212.338 unidades, indicando estabilidade no volume de novos empreendimentos colocados no mercado.

O comportamento regional, porém, foi desigual. Na comparação entre o segundo trimestre de 2026 e o mesmo período de 2025, os lançamentos cresceram 24,6% no Nordeste, 19,1% no Centro-Oeste e 1,2% no Sudeste. Já o Sul teve retração de 25,1%, enquanto o Norte registrou queda de 35,2%. Nas vendas, todas as regiões apresentaram resultado positivo na comparação anual.

Minha Casa, Minha Vida ganha espaço

Desempenho dos próximos meses dependerá da combinação entre oferta adequada, crédito e capacidade de compra das famílias. Crédito: Envato

Um dos principais destaques foi o desempenho do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). No segundo trimestre, entre abril e junho, o programa respondeu por 58% dos lançamentos residenciais no país, a maior participação desde o início da série histórica, em 2019. Foram 62.129 unidades lançadas dentro do programa, contra 45.032 dos demais padrões.

Nas vendas, o MCMV representou 51% do total. Das 113.676 unidades comercializadas no segundo trimestre, 58.392 estavam enquadradas no programa, crescimento de 5% em relação ao primeiro trimestre.

Na avaliação de Petrucci, a participação do programa ajuda a explicar o comportamento do mercado. “O nosso mercado imobiliário vem se comportando como um mundo à parte, e a gente deve isso muito ao programa Minha Casa, Minha Vida. Hoje, o programa é o carro-chefe do mercado imobiliário nacional”, afirmou.

A presença do MCMV, entretanto, varia entre as regiões. No segundo trimestre, o programa representou 68% dos lançamentos no Norte, 66% no Sudeste, 60% no Nordeste e 52% no Centro-Oeste. No Sul, a participação foi de 29%,a menor entre as cinco regiões.

Ticket médio recua com maior participação do programa

A maior presença do Minha Casa, Minha Vida também alterou o perfil financeiro das vendas. O Valor Geral de Vendas (VGV) alcançou R$ 66,2 bilhões no segundo trimestre, enquanto o ticket médio dos imóveis comercializados ficou em R$ 581,9 mil. O valor representa queda de 1% em relação ao primeiro trimestre e de 10,3% na comparação anual.

Na avaliação de Petrucci, o ticket médio havia ficado próximo de R$ 650 mil no segundo trimestre de 2025 e passou para aproximadamente R$ 580 mil um ano depois. Segundo ele, essa redução está diretamente relacionada à maior participação dos imóveis enquadrados no programa habitacional.

Estoque permanece sob controle

Outro indicador acompanhado pelo setor é a oferta de imóveis disponíveis. Ao final de junho, havia 355.290 unidades residenciais novas em comercialização, uma redução de 2,1% em relação ao primeiro trimestre. Na comparação anual, porém, o estoque estava 8,2% maior.

Petrucci destacou que, no conjunto das 221 cidades pesquisadas, o estoque correspondia a aproximadamente 9,5 meses de vendas, ante 9,9 meses no trimestre anterior. No Minha Casa, Minha Vida, o prazo era menor, de aproximadamente 7,6 meses. Para o economista, a diferença reforça a capacidade de absorção dos produtos destinados ao programa.

Crédito imobiliário pode sustentar próximos meses

Os dados de financiamento também ajudam a explicar o comportamento do mercado. No primeiro semestre, as concessões realizadas com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) cresceram cerca de 30%. Os financiamentos destinados à produção de novos empreendimentos tiveram alta de 107%, enquanto os recursos para aquisição de imóveis cresceram 12%.

A recuperação do crédito para produção é especialmente relevante para o mercado porque amplia a capacidade de financiamento de novos empreendimentos. Ao mesmo tempo, o crescimento do crédito para aquisição pode contribuir para sustentar a demanda das famílias e, consequentemente, o ritmo de vendas. “Nós somos a maior carteira, com a menor inadimplência e com a maior garantia, que é a garantia imobiliária”, afirmou Celso Petrucci, ao destacar a importância do financiamento habitacional para o sistema bancário.

Os números do primeiro semestre, portanto, mostram um mercado sustentado principalmente pela habitação de interesse social, com o Minha Casa, Minha Vida ocupando espaço cada vez maior. Ao mesmo tempo, a estabilidade dos lançamentos e a redução do estoque indicam um cenário de maior equilíbrio entre oferta e demanda. 

Para os próximos meses, o desempenho do setor deverá depender da combinação entre condições de financiamento, capacidade de compra das famílias, disponibilidade de crédito para produção e adequação dos novos empreendimentos à demanda regional.

FONTE

Celso Petrucci é economista Chefe do Secovi-SP e Vice Presidente de CII da CBIC. Formado em Economia pela FECAP, atua desde 1983 como economista chefe do Secovi-SP, com papel relevante no setor imobiliário

Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)

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Ana Carvalho

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Pavimento urbano de concreto avança com foco em durabilidade e resiliência 

O pavimento urbano de concreto (PUC) vem ampliando espaço no Brasil como alternativa para vias urbanas, empreendimentos habitacionais e centros logísticos, pátios industriais. Durante o 5º Congresso ABESC de Pavimento Urbano de Concreto (PUC), realizado na Concrete Show 2026, especialistas destacaram a evolução técnica do sistema, os avanços em normalização, o uso de fibras, os ganhos de produtividade e o potencial da solução para ampliar a durabilidade e a previsibilidade do desempenho da infraestrutura urbana.

Pavimento urbano de concreto avança com foco em durabilidade e resiliência. Crédito: Marina Pastore

Segundo Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC), o desenvolvimento do PUC no Brasil parte da adaptação e consolidação de conhecimentos já empregados em pavimentos rodoviários e pisos industriais, considerando as particularidades das aplicações urbanas. “Nós não inventamos nada. O trabalho foi entender o que estava acontecendo fora do Brasil, trazer isso para uma realidade nacional e incorporar melhorias ao processo”, afirmou.

Resiliência urbana muda a lógica dos investimentos

Para Barbosa Júnior, um dos principais fatores que impulsionam o PUC é a mudança na forma de avaliar os investimentos públicos e privados. Em vez de considerar apenas o custo inicial, ganha importância a análise de durabilidade, manutenção e desempenho ao longo da vida útil.

Para Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, um dos fatores que impulsionam o PUC é a mudança na forma de avaliar os investimentos públicos e privados. Crédito: Marina Pastore

“Quando falamos de resiliência urbana, estamos falando de obra para durar. Se eu estou falando de sustentabilidade, quero um empreendimento que permaneça. Não quero fazer um processo hoje e ter que refazê-lo daqui a dois anos”, destacou.

Nesse contexto, pavimentos projetados para apresentar maior durabilidade podem contribuir para reduzir a frequência de intervenções, os impactos sobre a mobilidade urbana e os custos associados à manutenção, além de aumentar a capacidade de resposta da infraestrutura diante de condições adversas.

De acordo com o coordenador da ABESC, o avanço do sistema também vem acompanhado da evolução das referências técnicas para apoiar municípios, projetistas e executores. A ABNT PR 1011 – Projeto de pavimentos urbanos em concreto, publicada originalmente em 2021, está atualmente em processo de revisão. O trabalho envolve diferentes entidades e especialistas do setor e busca ampliar a abordagem do documento para contemplar, de forma integrada, aspectos de projeto, execução, inspeção e gestão de ativos, incluindo critérios baseados em desempenho e tenacidade. 

Projeto é determinante para o desempenho

O engenheiro Eduardo Tartuce, da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados, reforçou que a competitividade do PUC depende diretamente de um dimensionamento adequado às condições de utilização. Para ele, sustentabilidade e economia não podem ser obtidas por meio da simples redução da espessura do pavimento.

Eduardo Tartuce destaca que a competitividade do PUC depende diretamente de um dimensionamento adequado. Crédito: Marina Pastore

“Não adianta fazer um piso de 10 ou 12 centímetros se ele não vai durar cinco anos. Temos que ter algo econômico e sustentável, mas sem perder a durabilidade. Se o pavimento foi feito para durar 30 anos, ele tem que durar 30 anos”, afirmou.

Entre os aspectos considerados no dimensionamento estão as características do solo (fundação e subleito), as solicitações de tráfego (cargas atuantes), as dimensões e a geometria das placas, o comportamento das juntas, os efeitos de retração e temperatura, e quando empregado concreto reforçado com fibras, o desempenho mecânico do sistema de reforço.

Entre as estratégias de projeto estão as placas de dimensões otimizadas, que podem contribuir para o controle das tensões e para o adequado comportamento das juntas. “A junta é uma fissura planejada, no local onde eu quero que ela aconteça, conforme foi projetada. Se ela não estiver na posição correta, outras fissuras podem surgir”, explicou Tartuce.

Segundo o especialista, a paginação das placas é uma das etapas mais importantes do projeto. O posicionamento e o detalhamento de juntas serradas e construtivas, bem como dos dispositivos de transferência de carga, quando previstos, devem ser compatíveis com o dimensionamento e com as condições de execução.

Macrofibras ampliam as possibilidades de reforço estrutural

Outro ponto destacado no congresso foi a utilização de macrofibras no concreto. Diferentemente das microfibras, empregadas principalmente para o controle da fissuração associada a fenômenos nas primeiras idades, como a retração plástica, as macrofibras estruturais são especificadas para proporcionar capacidade de absorção de energia e resistência residual após a fissuração da matriz, podendo participar do sistema resistente do pavimento quando consideradas no dimensionamento.

Por isso, a utilização de macrofibras não deve ser tratada apenas como uma substituição direta da armadura convencional. O desempenho estrutural depende do tipo de fibra, de suas propriedades mecânicas, da dosagem, da dispersão no concreto e, principalmente, dos parâmetros de desempenho utilizados no dimensionamento. Referências técnicas da ABESC destacam justamente a necessidade de caracterização da resistência residual das fibras para sua aplicação em pavimentos urbanos de concreto.

Barbosa Júnior alertou, que a escolha do material deve estar associada ao desempenho especificado. “Não é simplesmente comprar o concreto, comprar a fibra e adicionar na obra. É preciso corrigir o traço e conhecer a qualidade da fibra que está sendo utilizada”, afirmou.

Tartuce acrescentou que o projeto precisa considerar o desempenho da fibra e não apenas sua presença no concreto. “O PUC pode ser feito com tela, fibra metálica ou fibra sintética. Hoje a fibra sintética tem sido muito utilizada porque, em diversas situações, apresenta vantagem econômica, mas isso precisa ser dimensionado”, explicou.

Execução exige planejamento e controle

Galiano Benossi lembra que a execução do PUC demanda atenção especial à preparação da base e à regularidade do lançamento. Crédito: Marina Pastore

O engenheiro Galiano Benossi, superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais, destacou que a execução do PUC demanda atenção especial à preparação da base, a logística de fornecimento do concreto, à regularidade do lançamento, à cura e execução das juntas.

“O planejamento da obra é essencial para se obter um concreto de qualidade e, consequentemente, um resultado final de qualidade”, afirmou.

Segundo Benossi, a ausência de armaduras convencionais em determinadas soluções facilita a descarga direta do concreto e aumenta a produtividade. Em grandes áreas, entretanto, é fundamental organizar o fornecimento do concreto de forma contínua, evitando interrupções que possam gerar juntas não previstas e diferenças de idade ou de condições de acabamento entre os trechos executados. 

A cura também é decisiva, pois tem como objetivo reduzir a perda de água do concreto e proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento da hidratação do cimento e das propriedades mecânicas. Embora a cura úmida seja considerada eficiente, sua manutenção durante vários dias pode ser pouco viável em alguns canteiros. Por isso, a execução costuma recorrer à cura química, desde que o produto e o procedimento sejam adequadamente especificados.

Cabe ainda ressaltar que, em situações de elevada temperatura, baixa umidade relativa ou vento, o controle da evaporação nas primeiras idades torna-se ainda mais importante, especialmente para reduzir o risco de retração plástica e fissuração superficial.

Concreto permeável amplia possibilidades

O concreto permeável também apareceu como uma alternativa para áreas urbanas que precisam combinar pavimentação e drenagem. Paulo Junek, sócio-diretor da Ecocreto Brasil, explicou que o material possui poucos finos e elevado índice de vazios, permitindo a passagem da água.

O concreto permeável pode ser aplicado em calçadas, estacionamentos, praças e vias de tráfego leve, segundo Paulo Junek. Crédito: Marina Pastore

“Se houver muita formação de argamassa, o concreto perde os vazios e, consequentemente, perde a permeabilidade”, explicou.

Segundo Junek, a solução pode ser aplicada em calçadas, estacionamentos, praças, vias de tráfego leve e até áreas submetidas a cargas mais elevadas, desde que corretamente dimensionado. O projeto deve considerar tipo de solo, índice pluviométrico e utilização da área.

No Parque Villa-Lobos, em São Paulo, mais de 5 mil m² de concreto permeável foram utilizados em áreas de circulação e lazer. Para Junek, o desempenho depende da integração entre as diferentes etapas: “O concreto começa no projeto, passa pelo desenvolvimento e termina na execução. Esse tripé precisa funcionar corretamente.”

PUC ganha escala em Sergipe

No setor habitacional, o estado de Sergipe tornou-se um dos exemplos de expansão do sistema. João Faccio, head de Inovação e Offsite da Stanza, relatou que as condições geotécnicas locais e os períodos de chuva representavam desafios para a produtividade dos canteiros.

“Nós precisávamos garantir acessibilidade e trafegabilidade durante toda a obra, mantendo a produtividade mesmo nos períodos chuvosos”, afirmou.

Com a execução antecipada da pavimentação, as construtoras passaram a trabalhar sobre uma infraestrutura consolidada, reduzindo impactos logísticos e riscos ao cronograma.

João Faccio aponta que o PUC já está presente em empreendimentos de diferentes municípios sergipanos. Crédito: Marina Pastore

Segundo Faccio, o PUC já está presente em empreendimentos de diferentes municípios sergipanos. “Além da qualidade da pavimentação e do melhor andamento da obra, conseguimos eliminar boa parte dos impactos provocados pelas chuvas sobre o cronograma”, afirmou.

Para os especialistas reunidos no congresso, a consolidação do pavimento urbano de concreto dependerá justamente da combinação entre engenharia de projeto, materiais adequadamente especificados, controle executivo, normalização, planejamento e avaliação do desempenho ao longo da vida útil. Como resumiu Tartuce, “o PUC não deve ser escolhido apenas por ser concreto, mas quando sua concepção transforma engenharia em valor, entregando desempenho técnico, eficiência econômica, qualidade urbana e benefícios ambientais ao longo de sua vida útil”.

Fontes

Álvaro Sérgio Barbosa Júnior é coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC).

Eduardo Tartuce é engenheiro da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados.

Galiano Benossi é superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais.

Paulo Junek é sócio-diretor da Ecocreto Brasil.

João Faccio é head de Inovação e Offsite da Stanza.

Contatos

Álvaro Sérgio Barbosa Júnior - alvaro@abesc.org.br 

Eduardo Tartuce – eduardo@mixdesign.com.br

Paulo Junek – paulo@ecocretobrasil.com

Galiano Benossi  - grannobre@grannobre.com.br

João Faccio – sac@stanza.com.br

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Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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Congresso IBRACON aponta caminhos para estruturas de concreto mais duráveis

Monitoramento permanente de pontes e viadutos, concretos com resistência superior a 100 MPa e a evolução dos critérios de dimensionamento buscando explorar de forma mais eficiente as propriedades dos materiais estão entre os caminhos apontados para tornar as estruturas de concreto mais duráveis, eficientes e sustentáveis. Os temas foram debatidos durante o congresso “Novidades na Cadeia Produtiva das Estruturas de Concreto”, promovido pelo Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) durante a Concrete Show 2026.

As apresentações de Marcos Monteiro, secretário de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (SIURB), Bernardo Tutikian, professor e pesquisador da Unisinos, e Paulo Helene, presidente da PhD Engenharia, mostraram diferentes frentes de uma mesma transformação: sair de uma lógica predominantemente corretiva para incorporar prevenção, novas tecnologias e critérios de projeto orientados à vida útil.

São Paulo aposta no monitoramento de pontes e viadutos

Marcos Monteiro apresentou a evolução do programa municipal de inspeção, monitoramento e recuperação das obras de arte especiais da capital paulista. Segundo ele, o episódio ocorrido em 2018, quando parte da estrutura de um viaduto na Marginal Pinheiros sofreu uma ruptura em um aparelho de apoio, reforçou a necessidade de estabelecer uma política contínua de acompanhamento dessas estruturas.

Programa municipal de inspeção, monitoramento e recuperação das obras de arte especiais em São Paulo (SP) tem investimentos de aproximadamente R$ 3 bilhões.
Crédito: Marina Pastore

“Não é só uma questão de segurança, que evidentemente é fundamental para os usuários. É também uma questão patrimonial. Quanto mais tempo demoramos para intervir em uma estrutura, mais cara e mais demorada será sua recuperação”, afirmou Monteiro.

Desde 2021, segundo o representante da SIURB, aproximadamente R$ 3 bilhões foram destinados ao programa. Até o momento, foram realizadas 2.322 inspeções, com outras 64 em andamento, além de 304 obras de recuperação concluídas e 73 em execução. O município mantém 770 estruturas monitoradas e possui cerca de 1.280 obras cadastradas, incluindo pontes, viadutos, passarelas e túneis.

O programa segue as diretrizes da ABNT NBR 9452 para inspeções de pontes, viadutos e passarelas. As estruturas que apresentam condições mais críticas são priorizadas para inspeções especiais e intervenções.

A gestão municipal também avançou para o monitoramento em tempo real. Uma central integra câmeras, informações de satélite, drones, georreferenciamento, scanners, sensores e dados de redes sociais e aplicativos de navegação.

“Hoje conseguimos acompanhar deslocamentos das estruturas e do entorno. Quando há uma movimentação fora do padrão, o sistema gera alertas e nossas equipes podem ser direcionadas ao local para verificar o que está ocorrendo”, explicou Monteiro.

Outra frente é a utilização de gêmeos digitais, capazes não apenas de representar a estrutura tridimensionalmente, mas também de armazenar informações sobre movimentações, inspeções e comportamento ao longo do tempo.

UHPC surge como alternativa para estruturas de longa vida útil

Bernardo Tutikian concentrou sua apresentação no concreto de ultra-alto desempenho, o UHPC, tecnologia que vem avançando no país e que também ganhou novo respaldo na normalização técnica brasileira.

Segundo o pesquisador, um dos desafios está diretamente relacionado à durabilidade das obras de arte especiais. Embora estruturas como pontes e viadutos sejam projetadas para vidas úteis prolongadas, problemas relacionados à deterioração dos materiais e à ação de agentes ambientais podem exigir intervenções antes do período originalmente previsto.

Para Bernardo Tutikian, tecnologias que antes estavam praticamente restritas ao ambiente acadêmico estão reduzindo custos e começando a entrar nas aplicações reais. Crédito: Marina Pastore

“O sistema tradicional de concreto armado nem sempre vem dando a resposta adequada para nossas estruturas. Temos problemas de execução, controle e uso, e grande parte das manifestações está associada à corrosão das armaduras”, afirmou.

Com elevada compacidade e baixíssima relação água-aglomerante, o UHPC dificulta a entrada de agentes agressivos e apresenta resistência à compressão a partir de aproximadamente 100 MPa, podendo alcançar valores significativamente superiores. A presença de fibras também permite reduzir, e em determinadas aplicações até substituir parcialmente, armaduras convencionais.

“O UHPC não é simplesmente um concreto de altíssima resistência. É a combinação de concreto de alta resistência, concreto autoadensável e concreto reforçado com fibras”, explicou Tutikian.

A tecnologia já é utilizada internacionalmente em passarelas, pontes, fachadas e elementos pré-fabricados e começa a ampliar suas aplicações no Brasil, inclusive em ligações, juntas e elementos de reforço de obras de arte.

Um dos desafios para a maior disseminação do UHPC, entretanto, ainda é o custo inicial. Tutikian citou especialmente a disponibilidade de fibras de elevado desempenho, muitas delas ainda importadas. Por outro lado, avanços na formulação dos concretos, no desenvolvimentode aditivos de alto desempenho e nos processos de produção vêm tornando a tecnologia progressivamente mais acessível.

“Tecnologias que antes estavam praticamente restritas ao ambiente acadêmico estão reduzindo custos e começando a entrar nas aplicações reais”, observou.

Projeto pode reduzir concreto, aço e emissões

Paulo Helene abordou outro aspecto da evolução das estruturas: o melhor aproveitamento da resistência do concreto ao longo do tempo.

Segundo o engenheiro, o concreto possui uma característica particular em relação a materiais como o aço: suas propriedades continuam se modificando após a concretagem. A resistência mecânica tende a aumentar com o avanço da hidratação do cimento, embora também possa sofrer redução relativa quando submetida a cargas elevadas de longa duração.

Paulo Helene defendeu maior flexibilidade normativa para permitir a adoção de idades de referência superiores aos tradicionais 28 dias, prática já admitida por referências internacionais.
Crédito: Marina Pastore

“A resistência do concreto cresce com a idade, mas frequentemente deixamos de aproveitar esse potencial no projeto”, afirmou Helene.

Ele defendeu maior flexibilidade normativa para permitir a adoção de idades de referência superiores aos tradicionais 28 dias, como 63 ou 91 dias, prática já admitida por referências internacionais.

Na avaliação de Helene, essa mudança pode permitir menor consumo de cimento sem comprometer a resistência especificada. “Só de mudar a idade de controle, mantendo o mesmo FCK de projeto, é possível reduzir o consumo de cimento e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa”, explicou.

O professor também destacou que a sustentabilidade de uma estrutura não deve ser avaliada somente pelas emissões de um metro cúbico de concreto. Concretos de maior resistência podem exigir mais cimento por metro cúbico, mas permitem reduzir dimensões dos elementos e, principalmente, a quantidade de aço.

“O que importa é a emissão da estrutura pronta. Não adianta olhar apenas para o metro cúbico de concreto”, ressaltou.

Para Helene, a evolução das normas brasileiras pode abrir caminho para projetos mais eficientes sem tornar essas alternativas obrigatórias. “Precisamos de uma norma mais flexível, que ofereça novas possibilidades para quem tiver conhecimento e quiser utilizá-las”, concluiu.

As discussões do Congresso IBRACON evidenciaram, assim, uma mudança de perspectiva na cadeia produtiva: mais do que recuperar estruturas degradadas, o desafio passa por projetar, executar e monitorar estruturas capazes de alcançar maior vida útil, demandar menos intervenções de manutenção e recuperação e utilizar materiais e recursos de forma mais eficiente ao longo de todo o ciclo de vida.

Fontes

Marcos Monteiro é secretário de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (SIURB).

Bernardo Tutikian é professor e pesquisador da Unisinos.

Paulo Helene é presidente da PhD Engenharia.

Contatos

Marcos Monteiro - siurbassesimprensa@prefeitura.sp.gov.br 

Bernardo Tutikian - bftutikian@unisinos.br 

Paulo Helene - paulo.helene@concretophd.com.br 

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Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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Prédios altos ampliam desafios técnicos das paredes de concreto

O sistema de paredes de concreto, já consolidado em empreendimentos habitacionais de menor porte, avança para edifícios cada vez mais altos e traz novos desafios para projetistas, construtoras e fornecedores. No 5º Seminário ABESC de Paredes de Concreto para Prédios Altos, realizado durante a Concrete Show 2026, especialistas destacaram que a verticalização exige mais do que simplesmente reproduzir soluções utilizadas em edificações de menor altura: demanda planejamento desde a concepção do empreendimento, especificação adequada do concreto, integração entre projetos e coordenação das diferentes etapas e agentes envolvidos na cadeia produtiva.

Segundo Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC), a evolução do sistema já levou o setor a discutir edifícios com mais de 20 pavimentos. Para ele, quanto maior a altura, maiores também são as exigências técnicas e de desempenho. 

Concreto precisa ser especificado pelo desempenho

Um dos principais pontos levantados por Barbosa foi a necessidade de abandonar a lógica de comprar concreto apenas pelo FCK. Para prédios altos, segundo ele, características como fluidez, estabilidade, resistência para desforma, módulo de elasticidade e trabalhabilidade precisam ser especificadas desde o projeto e efetivamente transmitidas ao fornecedor.

“Principalmente focando em prédios altos, não dá para trabalhar com concreto ‘bem molinho’. Eu tenho que trabalhar com concreto com fluidez controlada”, afirmou Barbosa. A especificação correta, acrescentou, contribui para aumentar a velocidade de lançamento, reduzir falhas de concretagem e acabamento e melhorar a previsibilidade do processo. 

A ABESC também vem estudando o uso do método da maturidade para acelerar a liberação das formas. Barbosa relatou que, em obras-piloto, ciclos inicialmente previstos para alcançar 3 MPa em 12 horas têm permitido desformas em cerca de nove horas. Para ele, o ganho de produtividade depende justamente de conhecimento técnico e controle do concreto, não apenas da adoção do sistema construtivo.

Nos levantamentos apresentados pelo coordenador, a utilização de concreto fluido em paredes de concreto alcançou índice de produtividade de 0,95 homem-hora por metro cúbico, além de redução de aproximadamente 35% no indicador homem-hora por volume concretado. “Produtividade depende mais de gestão técnica do que da região. É muito mais a gestão do processo de como você vai trabalhar”, ressaltou. 

Verticalização exige engenharia antes do canteiro

Para Ary Fonseca Junior, sócio-diretor da Signo Engenharia, o avanço do sistema de paredes de concreto em edifícios altos evidencia a necessidade de antecipar decisões de engenharia para etapas cada vez mais iniciais do empreendimento.

Para Ary Fonseca Junior, o avanço do sistema evidencia a necessidade de antecipar decisões de engenharia para etapas iniciais do empreendimento.
Crédito: Marina Pastore

O especialista lembrou que, em pouco mais de uma década, o sistema deixou de estar associado principalmente às habitações de interesse social, especialmente às edificações vinculadas ao programa Minha Casa, Minha Vida, e passou a ser empregado também em edifícios de dezenas de pavimentos. Em sua apresentação, citou exemplos de torres de 36 andares. 

Segundo Fonseca Junior, a parede de concreto não deve ser entendida isoladamente como um processo industrializado, mas como um sistema construtivo altamente racionalizado, capaz de incorporar diversos componentes industrializados, como telas soldadas, formas, kits hidráulicos e outros subsistemas.

“O sistema de parede de concreto não é industrializado. Ele é muito racionalizado, mas acopla subsistemas que estão industrializados”, explicou. Para ele, essa combinação permite reduzir a dependência de mão de obra no canteiro, especialmente quando associada ao concreto autoadensável e a equipamentos adequados. 

A eficiência, porém, precisa nascer antes da obra. “Eu já tenho que fazer engenharia quando sentar com o incorporador, com o arquiteto e com o dono”, defendeu Fonseca Junior. A definição antecipada de soluções estruturais, instalações, logística e métodos executivos evita que decisões incompatíveis com a repetitividade do sistema comprometam posteriormente os ciclos de produção.

Pré-engenharia passa a definir a viabilidade

A experiência da Quattro Construtora mostrou como essa mudança de cultura ocorre na prática. Thales Ozório Sousa, gerente de Novos Negócios da empresa, relatou que a construtora decidiu migrar para paredes de concreto após enfrentar desperdícios, dificuldades de gestão e pressão sobre as margens em empreendimentos executados pelos sistemas tradicionais.

Na opinião de Thales Ozório Sousa, parede de concreto não é o começo, é o durante do negócio. Crédito: Marina Pastore

No projeto Estrada dos Altos, a adoção da tecnologia ocorreu em um terreno com cerca de 20 metros de desnível, originalmente pensado para uma solução convencional. A implantação exigiu rever projetos e integrar arquitetos, calculistas, especialistas em fundações, contenções, pré-moldados e instalações. 

“A engenharia a montante nada mais é do que pensar o empreendimento antes de começar a fazer. Quando você pensa antes de executar, tem ganhos extraordinários”, afirmou Sousa. Segundo ele, apenas a análise antecipada das soluções de taludes e contenções representou economia de alguns milhões de reais no empreendimento. 

A empresa também passou a reunir premissas comerciais, técnicas e de execução em um “caderno de engenharia”, entregue posteriormente ao responsável pela obra. O documento registra desde o sistema estrutural e as especificações do concreto até marcos de contratação, cronograma e histórico da execução. 

Sistema muda a organização da construtora

Para Sousa, um dos maiores aprendizados foi perceber que a parede de concreto não transforma somente a estrutura do edifício. Ela interfere na própria organização empresarial, exigindo profissionais familiarizados com o sistema, integração de departamentos e antecipação de decisões.

Parede de concreto não é o começo, é o durante do negócio”, resumiu. Antes da escolha do sistema, segundo ele, precisam existir pessoas capacitadas, gestão e processos estruturados. 

A escolha do terreno e a concepção arquitetônica também passam a ser decisivas. Embora seja tecnicamente possível adaptar o sistema a situações complexas, determinadas soluções podem eliminar justamente sua principal vantagem. “Você pode fazer qualquer coisa com parede de concreto, só que vai perder produtividade. E o conceito de usar parede de concreto é ganhar produtividade”, destacou Sousa. 

Fontes

Álvaro Sérgio Barbosa Júnior é coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC).

Ary Fonseca Junior é sócio-diretor da Signo Engenharia.

Thales Ozório Sousa é gerente de Novos Negócios da Quattro Construtora.

Contatos

Álvaro Sérgio Barbosa Júnior - alvaro@abesc.org.br  

Ary Fonseca Junior – ary.signo@terra.com.br

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP 

Vogg Experience 


Eficiência com segurança técnica: como otimizar custos sem comprometer o desempenho do concreto

Para uma concreteira, a margem de lucro é definida nos detalhes: no traço, no controle de insumos, na logística e na gestão da qualidade. O desafio é claro: como reduzir o custo por metro cúbico sem colocar em risco o desempenho do produto entregue e, consequentemente, a credibilidade técnica da concreteira?

Controle estatístico de processo e redução do desvio-padrão

Entender como está a produção do concreto por meio dos resultados de resistência e do controle estatístico é fundamental para avaliar possíveis ajustes. Um desvio-padrão elevado indica, principalmente, uma maior variabilidade no processo de produção, que pode estar relacionada à qualidade das matérias-primas, ao traço, aos procedimentos de produção ou a questões operacionais.  Essa variabilidade pode resultar em um maior custo de produção, uma vez que pode ser necessário trabalhar com maiores margens de segurança para garantir o atendimento à resistência especificada.

A otimização não consiste simplesmente em reduzir o custo do traço, mas em reduzir custos dentro de uma margem tecnicamente segura, mantendo a resistência e a estabilidade do processo.

Contudo, um desvio-padrão baixo não significa que não exista espaço para diminuição de custos. Neste caso, pode-se estudar a otimização dos traços, com um melhor empacotamento dos agregados, com o uso de adições minerais e aditivos mais eficientes. Para entender melhor como funciona o controle estatístico e o desvio-padrão, leia o artigo "Como fazer a interpretação técnica em ensaios de concreto?"

Como avaliar a otimização realizada nos traços?

Avaliar a viabilidade econômica de um traço de concreto apenas pelo custo do metro cúbico (R$/m³) é uma análise limitada e, em alguns casos, pode levar a conclusões equivocadas. A utilização de insumos de maior valor agregado, como aditivos com maior poder de dispersão, adições minerais ou determinados tipos de cimento, pode aumentar inicialmente o custo do traço, mas esse investimento pode ser compensado pelo ganho de resistência e pela maior eficiência da dosagem.

É justamente para avaliar essa relação entre custo e desempenho que utilizamos o indicador - R$/MPa. Ao relacionar o custo final do metro cúbico com a resistência à compressão obtida aos 28 dias, o indicador permite avaliar quanto está sendo investido para cada unidade de resistência alcançada, facilitando a identificação de dosagens que apresentam o melhor equilíbrio entre desempenho técnico e custo. Esse indicador é apresentado pela fórmula a seguir:

Exemplo de utilização do indicador R$/MPa

O exemplo apresentado na tabela a seguir mostra que, mesmo mantendo constantes os consumos de cimento e aditivo, pequenas alterações nas proporções dos agregados podem resultar em diferenças significativas no desempenho do concreto. Dessa forma, o menor custo por m³ não significa, necessariamente, que a dosagem seja a mais econômica. Ao considerar o custo em conjunto com a resistência obtida, é possível identificar a dosagem que apresenta a melhor relação entre custo e desempenho.

Conclusões do exemplo:

Traço 1: Menor custo por m³, mas menor eficiência

O Traço 1 apresentou o menor custo por m³ do estudo, de R$ 241,85, representando economia de R$ 4,33/m³ em relação ao Traço 3. Essa redução de custo está associada, principalmente, ao menor consumo de brita 1.

Entretanto, o menor custo inicial não resultou na melhor eficiência. O Traço 1 apresentou a menor resistência à compressão do estudo, de 30,56 MPa, elevando o custo por resistência para R$ 7,91/MPa. Esse valor é aproximadamente 14,8% superior ao obtido no Traço 3, evidenciando que o menor custo por m³ não representa, necessariamente, a solução mais econômica quando o desempenho do concreto também é considerado.

Traços 2 e 3: efeito da proporção entre os agregados graúdos

Os Traços 2 e 3 foram desenvolvidos mantendo praticamente constantes o teor de argamassa (55%), o consumo de cimento (271 kg/m³), o teor de aditivo (1,00%) e o custo por m³ (aproximadamente R$ 246). Dessa forma, a principal variável entre as dosagens foi a proporção entre brita 1 e brita 0, permitindo avaliar sua influência sobre o consumo de água e o desempenho do concreto.

No Traço 2, foram utilizados 361 kg/m³ de brita 0, correspondentes a aproximadamente 35% do agregado graúdo total, resultando em resistência à compressão de 34,28 MPa custo por resistência de R$ 7,19/MPa.

Já no Traço 3, a maior participação de brita 1, com 927 kg/m³, correspondente a aproximadamente 90% do agregado graúdo total, proporcionou uma condição de empacotamento mais favorável. A menor área superficial específica dos agregados também contribuiu para a redução do consumo de água, resultando na maior resistência à compressão do estudo, de 35,72 MPa.

Conclusão: melhor eficiência técnico-econômica

Adriano Souza Araújo, Assessor Técnico na Cia. de Cimento Itambé.

Embora o Traço 1 apresente o menor custo por m³, o Traço 3 apresentou a melhor relação entre custo e desempenho. Com custo de aproximadamente R$ 246,18/m³, resistência à compressão de 35,72 MPa e custo por resistência de apenas R$ 6,89/MPa, o Traço 3 demonstrou que pequenas alterações na proporção dos agregados podem proporcionar ganhos significativos de desempenho sem aumento relevante do custo da dosagem.

Assim, a análise demonstra que a escolha da dosagem mais econômica não deve considerar apenas o custo por m³, mas também o desempenho obtido e o custo associado à unidade de resistência.

É possível reduzir custos mantendo o desempenho e a segurança do concreto. Para avaliar outras possibilidades e encontrar soluções mais eficientes, conte com o apoio da Assessoria Técnica Itambé.

Autor

Adriano Souza Araujo é Engenheiro Civil (UFMS), especialista em Gestão de Projetos e Processos (IPOG). Assessor técnico da Cimento Itambé e especialista em tecnologia do concreto, qualidade e materiais de construção. Atua no desenvolvimento e aperfeiçoamento de concretos, agregados e argamassas, além de prestar consultoria técnica para a otimização do desempenho dos materiais. Possui experiência em gestão da qualidade, ensaios laboratoriais, padronização de processos, implantação de indicadores de desempenho (KPIs) e estratégias voltadas ao aumento da produtividade e à redução de custos. Atualmente, é assessor técnico da Cimento Itambé.

Contato

adriano.araujo@cimentoitambe.com.br

Revisão

Ana Carvalho

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