Cidades resilientes exigem integração entre construção, infraestrutura e planejamento urbano

Adaptação climática deve começar no projeto, combinar infraestrutura e incorporar tecnologias capazes de monitorar riscos em tempo real

Chuvas intensas, alagamentos, ondas de calor e períodos de frio colocam as cidades diante de novos desafios de planejamento e infraestrutura. Nesse cenário, a construção civil passa a desempenhar papel cada vez mais relevante na adaptação dos espaços urbanos às mudanças climáticas. A forma como ruas, calçadas, edifícios e sistemas de drenagem são projetados pode interferir tanto na capacidade de resposta aos eventos extremos quanto nas condições de conforto e segurança e qualidade de vida da população.

Para Alex Maschio, engenheiro civil e CEO do Instituto Ruas, o debate sobre mudanças climáticas precisa considerar a infraestrutura urbana. “Há muitas formas de olhar para a crise climática, e todas elas são legítimas. Opto pelo olhar da infraestrutura urbana, mais especificamente, pela lente da rua, pois é a minha área de atuação e de pesquisa”, explica.

Segundo ele, ruas, calçadas e estacionamentos representam uma parcela expressiva das superfícies construídas nas cidades brasileiras. “A forma como essa superfície reage com a água da chuva e com o calor, raios solares, tem consequência direta sobre a temperatura, sobre as enchentes e sobre a qualidade de vida de quem mora ali”, afirma.

Projeto urbano como parte da resposta climática

O planejamento da infraestrutura urbana deve considerar soluções capazes de ampliar a durabilidade, o desempenho e a resiliência das cidades. Rua Niterói, no Cajuru – Curitiba/PR. Crédito: Hully Paiva/SMCS

A escolha dos materiais e dos sistemas construtivos interfere diretamente no comportamento das cidades diante de eventos climáticos extremos. Maschio chama atenção para a diferença entre pavimentos escuros e claros. “O pavimento asfáltico é escuro e absorve cerca de 95% da luz solar que recebe, chegando a passar dos 60°C em um dia quente”, relata. Já os pavimentos de tonalidade clara, como os pavimentos em concreto, tendem a refletir uma parcela maior da radiação solar e, consequentemente, a apresentar menor absorção de calor

A impermeabilização das superfícies é outro ponto de atenção. “Quando a chuva não infiltra em lugar nenhum, ela escorre toda de uma vez, leva a sujeira das ruas para os rios e transforma qualquer chuva de maior intensidade em alagamento”, explica.

Para o especialista, decisões relacionadas à infraestrutura urbana têm impacto direto sobre a capacidade de adaptação dos municípios. “A decisão climática mais impactante da infraestrutura urbana é municipal. Não depende de acordo internacional nem de política federal. Depende de quem especifica a rua residencial do bairro, o engenheiro, o projetista, o prefeito”, afirma.

Gustavo Selig, engenheiro civil e CEO do Grupo Hestia, também defende que a adaptação precisa começar antes da execução da obra. “O setor precisa parar de olhar para a sustentabilidade como um custo e passar a enxergá-la como um vetor de eficiência. Isso começa no lápis, ainda na fase de conceito do projeto”, ressalta.

Gustavo Selig, presidente do Grupo Hestia. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

De acordo com Selig, projetos bioclimáticos e fachadas eficientes podem reduzir a demanda energética durante a utilização dos edifícios. Ele também aponta a necessidade de descarbonizar materiais, reutilizar o que for possível de estruturas e avançar na adoção de princípios de circularidade na construção.

O conceito de eficiência deve considerar todo o ciclo de vida da construção. “Se projetarmos edifícios e infraestruturas que durem mais, demandem menos manutenção e consumam menos recursos ao longo do seu ciclo de vida, mudamos o jogo de forma significativa”, argumenta.

Planejamento e integração

Construir cidades capazes de enfrentar eventos extremos também exige integração entre diferentes sistemas urbanos. Para Selig, essa articulação precisa fazer parte do planejamento urbano. “Cidade resiliente não se faz isolando a infraestrutura da natureza; o segredo está na integração”, afirma.

Segundo ele, é necessário cruzar o uso do solo com drenagem urbana, áreas verdes, mobilidade, energia e habitação. A proposta inclui a combinação entre infraestrutura verde e estruturas convencionais. “Precisamos usar parques lineares, pavimentos adequados e reservatórios de retardo junto com o concreto tradicional”, explica.

O planejamento também precisa considerar as áreas que já estão ocupadas, sem esquecer de adaptar o que já está construído e priorizar as áreas de maior vulnerabilidade social. Para Selig, a abrangência das ações é determinante: “Resiliência de verdade tem que ser para a cidade inteira, não só para alguns bairros.”

Maschio segue uma linha semelhante ao defender que a resiliência precisa ser incorporada aos critérios de avaliação das ruas. “Cidade resiliente é aquela que aguenta o evento extremo sem entrar em colapso e volta ao normal rápido”, define.

Para ele, esse processo passa por três frentes: dar caminho para a água, dar sombra para as pessoas e escolher soluções que durem. O especialista também defende que os municípios passem a medir o desempenho das ruas. “Resiliência começa por medir. Hoje o Brasil não avalia suas ruas. Constrói, entrega e esquece.”

Soluções de engenharia podem reduzir impactos

Alex Maschio, fundador e CEO do Instituto Ruas. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

A construção civil dispõe de alternativas para melhorar o desempenho das cidades diante das chuvas e temperaturas elevadas. Maschio cita o pavimento permeável como uma dessas soluções. “A chuva atravessa a superfície e fica armazenada numa camada de brita, granular, embaixo, que funciona ao mesmo tempo como reservatório e como filtro”, explica.

Segundo ele, a solução pode ser aplicada em áreas específicas do sistema viário, sem necessariamente exigir a substituição de toda a estrutura da pista. “Trocando apenas calçadas e estacionamentos por pavimento permeável, uma rua residencial comum ganha cerca de 20% de permeabilidade”, afirma.

A adoção desse tipo de solução, entretanto, depende das características do local, das condições do solo, do dimensionamento do sistema e dos requisitos de manutenção. Por isso, a especificação deve considerar o comportamento hidrológico da área e a finalidade de uso do pavimento.

Tecnologia permite antecipar riscos

A digitalização amplia as possibilidades de acompanhamento das estruturas e de tomada de decisão. Selig destaca ferramentas como BIM e gêmeos digitais. “O que nós fazemos hoje com BIM e gêmeos digitais, por exemplo, nos permite simular o comportamento de um edifício diante do clima futuro antes mesmo de assentar o primeiro tijolo”, afirma.

Depois da construção, a sensorização permite acompanhar diferentes parâmetros. “Sensores que medem chuva, nível, umidade, vibração e até deformação nos dão dados em tempo real”, explica. As informações podem apoiar sistemas de “drenagem inteligente, manutenção preditiva e uma resposta muito mais rápida”.

Na visão dos especialistas, a adaptação climática passa por decisões tomadas em diferentes escalas. Ruas, edifícios, sistemas de drenagem, áreas verdes e tecnologias de monitoramento precisam fazer parte de uma mesma estratégia. Ambos concordam que uma boa engenharia é justamente a que sabe fazer essa leitura escolhendo melhores sistemas, construtivos, processos e materiais.

Mais do que escolher soluções isoladas, o desafio está em integrar sistemas, materiais, processos construtivos e tecnologias desde o planejamento. Nesse contexto, a engenharia assume papel estratégico: avaliar o desempenho das soluções, antecipar riscos e definir sistemas construtivos capazes de responder às condições climáticas presentes e futuras.

ENTREVISTADOS

Gustavo Selig é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Administração de Empresas e Negócios pela FGV-PR. Cofundador e presidente do Grupo Hestia, atua há mais de 30 anos no mercado imobiliário paranaense, liderando projetos que unem tradição, inovação e propósito. Foi representante do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) no Ippuc e presidiu a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi/PR) por três gestões consecutivas.

Alex Maschio é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR) e Administração – Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, professor de cursos de pós-graduação nas áreas de infraestrutura, pavimentação e cidades inteligentes, palestrante, fundador e CEO do Instituto Ruas.

Contato

gustavo.selig@grupohestia.com.br

alex@institutoruas.com.br

Jornalista responsável

Ana Carvalho

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