Na construção, terceirização eleva competitividade
Para professor Hélio Zylberstejn, construção civil brasileira só tem a ganhar com lei recentemente sancionada pelo governo federal
Por: Altair Santos
Professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Hélio Zylberstejn apresentou no Congresso Brasileiro da Construção (ConstruBR 2017) estudo que aponta o quanto a construção civil tem a ganhar com a nova lei da terceirização no mercado de trabalho, recentemente sancionada pela presidência da República. Os ganhos de competitividade e de agilidade na contratação de serviços estão entre as conquistas que podem ser alcançadas pelas construtoras. “A empresa não precisa mais fazer tudo, mas coordenar a produção para ganhar tempo no ritmo da obra”, defende.

Zylberstein também descartou o risco de precarização do trabalho. “A lei regulamenta uma prática que já existe, trazendo regulamentação e segurança jurídica a setores que tanto dependem de serviços terceirizados, como a construção civil”, afirma. O professor da USP ainda reforça que a reforma da lei trabalhista, em curso no Congresso Nacional, tende a complementar a lei de terceirização. “É uma oportunidade de mudança de cenário, importante para a retomada de crescimento do país”, afirma. No entanto, alerta: “Se o Congresso encher a reforma trabalhista de penduricalhos pode desfigurar a lei de terceirização.”
Um dos dados apresentados por Zylberstejn mostra que, exceto a Venezuela, nenhum país do mundo diferencia atividades segundo o critério atividade-meio e atividade-fim. “Pelo contrário, a terceirização é permitida integralmente. O que muda de um país para outro é o modelo nas relações de trabalho, tornando igual o terceirizado do não terceirizado para efeitos previdenciários”, conta. Em seu estudo, o professor da USP mostra que atualmente apenas seis atividades estão, de fato, terceirizadas no Brasil: montagem e manutenção de equipamentos, segurança e vigilância, tecnologia da informação, limpeza e conservação, pesquisa e desenvolvimento e telemarketing.
Fim dos conglomerados
Nestes setores, Zylberstejn mostrou os avanços que foram conseguidos com a terceirização. “A tecnologia da informação se tornou mais desenvolvida, assim como a logística ficou mais eficiente e abrangente. Houve melhoria dos modelos de gestão de recursos humanos, mostrando que hoje a empresa vencedora é a que horizontaliza, pois ela obtém ganho de competitividade e agilidade”, comenta. Para completar, o professor da USP afirma que o conceito de conglomerado está fadado à extinção. “Na primeira metade do século passado, as empresas eram conglomerados enormes na extensão e na profundidade das atividades, porque aquilo favorecia seus negócios. Hoje, as bem-sucedidas são as que sabem colher produtividade e qualidade da terceirização”, finaliza.
Entenda a diferença entre terceirização e contrato temporário:
Temporário
Trabalhador fica período determinado na empresa, para cobrir uma necessidade excepcional. Exemplo: férias, licença-maternidade ou aumento temporário da demanda.
Terceirizado
Trabalhador contratado por intermédio de outra empresa (prestadora de serviço). Nova lei estende essa forma de contrato à atividade-fim da tomadora de serviço.
Entrevistado
Hélio Zylberstejn, professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e co-fundador do Instituto Brasileiro de Relações de Emprego e Trabalho (IBRET)
Contato
hzy@usp.pr
Crédito Foto: SindusCon-SP/ConstruBR 2017
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Brasil ganha norma técnica para cidades sustentáveis
Tradução de norma internacional agora permite que meio técnico tenha parâmetros para verificar se um bairro ou cidade são sustentáveis
Por: Altair Santos
A NBR ISO 37120:2017 é a primeira norma técnica para cidades sustentáveis. Ela define 100 indicadores, envolvendo aspectos ambientais, econômicos, sociais e tecnológicos que devem nortear projetos desta natureza no Brasil. A coordenação da Comissão de Estudos Especial 268 da ABNT (CEE 268) esteve a cargo do professor-doutor do Departamento de Engenharia de Construção Civil (PCC) da Escola Politécnica (Poli) da USP, Alex Abiko.

A NBR ISO 37120:2017 é uma norma espelho da internacional. Alex Abiko atuou no estudo e na tradução da norma internacional já existente para esse tema: ISO 37120:2014 - Sustainable development of communities - Indicators for city services and quality of life. Para o professor-doutor da USP, a partir de agora o Brasil tem parâmetros para apontar o que é uma cidade sustentável ou um bairro sustentável. Confira na entrevista a seguir:
O Brasil já possui projetos de cidades e bairros sustentáveis, alguns já em construção. No que a NBR ISO 37120:2017 mexe com esses projetos?
O que tem acontecido no Brasil é que uma série de projetos se autointitulam projetos de bairros sustentáveis ou de cidades sustentáveis, mas quem garante que eles são sustentáveis? Tem aí a questão de quem está divulgando tende a utilizá-la como marketing e o público leigo compra a ideia de que são bairros ou cidades sustentáveis. A norma NBR ISO 37120:2017 procura dar conhecimento técnico sobre o que são cidades sustentáveis e comunidades sustentáveis. Ela contribui para que se possa diferenciar o que é um bairro ou uma cidade sustentável daquilo que não é um bairro ou uma cidade sustentável. Então, se o Brasil possui projetos de bairros e cidades sustentáveis - até acredito que alguns sejam -, não será a denominação dada pelo empreendedor ou pelo gestor do empreendimento que vai garantir que ele seja sustentável.

Hoje, há muitos países seguindo conceitos de cidades sustentáveis. Para o Brasil, a norma vai ajudar a impulsionar o surgimento de novas cidades sustentáveis?
Sem dúvida, vai impulsionar o surgimento de novas cidades sustentáveis, mas que não serão apenas aquelas que se autodeclaram sustentáveis. Teremos um critério técnico para dizer o que significa ser uma cidade sustentável e de que forma parametrizar a questão, sob o ponto de vista técnico e não apenas de marketing.
A norma publicada em janeiro de 2017 é uma tradução da ISO 37120:2014. Houve pontos que precisaram ser adaptados para o cenário brasileiro?
A norma não pode ser adaptada. Ela é uma tradução ipsis litteris da ISO 37120:2014. Por quê? Porque se você faz uma adaptação desta norma você não pode utilizar o número ISO 37120. Seria outra norma técnica. Então, o que fizemos? Criamos notas de rodapé à tradução. Nestas notas, apontamos principalmente aspectos relacionados a métodos de ensaio, que precisam ser adequados àquilo que usualmente é feito no Brasil.
Quando se fala em cidade sustentável, pensa-se logo em projetos de cidades que estão para ser construídas. Pergunto: as cidades já consolidadas podem se tornar cidades sustentáveis?
Diria que 98% das nossas cidades já estão construídas. São muito poucas as que têm características como as de Brasília, por exemplo. Isso é uma exceção. A tarefa é transformar, construir, ampliar e melhorar as cidades já existentes. A ideia é partir de um processo de transformação, para modificar, adaptar e expandir as atuais cidades, criando novos espaços, que, de alguma forma, sejam sustentáveis e que possam influenciar a cidade já existente.
No que a norma ajuda neste ponto: transformar cidades não-sustentáveis em sustentáveis?
A norma tem uma série de indicadores que contribuem para qualquer nova ação sobre a cidade, com o objetivo de que ela traga melhorias na sustentabilidade. Não partimos do pressuposto de que vamos recriar cidades. O que se pretende é melhorar as cidades existentes. Comparando, é como se tivéssemos fazendo uma reforma dentro do apartamento com a família morando dentro da unidade.
Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo têm chances de se tornarem sustentáveis?
Primeiro é preciso perguntar: o que é uma cidade sustentável? Para ser mais preciso tecnicamente, eu perguntaria: cidades como São Paulo e Rio de Janeiro têm chances de se tornarem mais sustentáveis? Diria que elas nunca serão 100% sustentáveis, pois isso não existe. Pensar assim é uma peça de marketing.
Qual foi a receptividade da norma pelo mercado da construção e da academia voltada para o urbanismo?
Esta norma foi lançada em escala internacional em 2014. Começamos a fazer o trabalho de tradução em 2016 e no início de 2017 ela foi aprovada e publicada pela ABNT. É uma norma muito recente, mas a receptividade tem sido excelente. É importante dizer que uma norma se consolida quando sua utilização se torna voluntária, e não compulsória. Acredito que vamos conseguir isso, mas vai levar certo tempo.
E os organismos de governo, como eles recebem a norma?
Receberam muito bem. Temos conversado com o ministério das Cidades e com a Caixa Econômica Federal, que também participaram da tradução técnica da norma, assim como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e da CDHU de São Paulo, além de outros organismos, e a recepção tem sido muito boa.
A partir da norma, se pretende criar um ranking de cidades sustentáveis no Brasil?
Elaboramos a norma e a oferecemos ao meio técnico. Se alguém quiser fazer o ranqueamento poderá fazê-lo. A norma permite que se faça um ranking, desde que se consiga levantar os indicadores de cada uma das cidades brasileiras. Já existem alguns rankings que instituições e empresas têm lançado. Agora, cabe a quem quiser, ou tiver iniciativa, desenvolver este tipo de projeto.
Qual país hoje está mais evoluído em viabilizar cidades sustentáveis?
Principalmente os países escandinavos. Eles estão bastante à frente nestas discussões de cidades sustentáveis. Acho que têm não só o conhecimento técnico, como também os recursos financeiros para fazer isso. Nunca vamos esquecer que não basta ter a ideia e a vontade. É preciso mobilizar recursos financeiros e toda uma estrutura institucional.
Entrevistado
Engenheiro civil Alex Abiko, professor-doutor do Departamento de Engenharia de Construção Civil (PCC) da Escola Politécnica (Poli) da USP (Universidade de São Paulo)
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alex.abiko@usp.br
Crédito Fotos: Divulgação/USP
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Rawabi, um bairro planejado em plena Cisjordânia
Projetado para receber até 40 mil pessoas, empreendimento imobiliário supera embargos e gera novas perspectivas para a engenharia palestina
Por: Altair Santos
Rawabi é o primeiro bairro planejado da Cisjordânia. Por estar em uma área conflituosa, a obra precisou de acordos com Israel para ser viabilizada. A princípio, houve problemas para o fornecimento de água e a tentativa israelense de cobrar pedágio para que o material de construção chegasse ao canteiro. O Reino Unido, através do ex-primeiro-ministro Tony Blair, liderou a negociação, que contou também com intermediações dos Estados Unidos e da ONU (Organização das Nações Unidas). A solução foi que o projeto consumisse material de construção produzido em Israel, incluindo o cimento.
Resolvidos os impasses, Rawabi já é quase realidade. As obras começaram em 2012 e o bairro fica pronto este ano (2017). Terá população inicial de 25 mil pessoas, podendo chegar a 40 mil. Por causa do clima na região, os prédios foram construídos com blocos autoclavados, que ajudam no desempenho térmico das edificações. Além dos prédios, Rawabi conta com toda a infraestrutura, incluindo serviços. É um desafio da engenharia e da arquitetura, em pleno território palestino.
A Palestina, que faz fronteira com Israel e Jordânia, se divide em três partes: Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Rawabi fica a 25 quilômetros de Tel Aviv, a segunda maior cidade de Israel. O objetivo do bairro planejado é atrair a classe média da região, vendendo unidades entre US$ 65 mil e US$ 150 mil (cerca de R$ 200 mil a R$ 650 mil). O empreendedor é Bashar al-Masri, que tem nacionalidade palestina e norte-americana e iniciou o projeto em 2007.
Bashar al-Masri afirma que nestes dez anos não descansou um só dia. "Não parei um único dia. Não foi uma viagem fácil até aqui, mas o resultado vale a pena. Palestinos que estavam residindo em Dubai, no Reino Unido ou na América estão voltando para sua terra por causa de Rawabi”, destaca Masri, afirmando que o bairro planejado também ajuda a combater o preconceito contra a Palestina. “Rawabi mostra à comunidade internacional que não somos o que são levados a acreditar: um bando de terroristas. Estamos prontos para construir nosso estado. Aqui está a prova”, afirma.
Emprego para engenheiros e arquitetos
Rawabi, no entanto, compartilha de um problema comum a todo o território da palestina: a falta d’água. Apesar de todas as negociações, Israel impôs cotas. Os problemas com abastecimento e com a passagem de material até o canteiro de obras do bairro planejado atrasaram o cronograma em três anos. O valor do empreendimento, estimado em US$ 900 milhões, e financiado por construtoras do Catar, já está US$ 140 milhões mais caro. Bashar al-Masri, porém, acredita que, apesar de todos os percalços, o bairro vai conseguir se pagar em cinco anos.
Outro fator que motiva Bashar al-Masri é que todo o projeto contou com a participação da Palestine Polytechnic University, gerando emprego para engenheiros e arquitetos locais, além de envolver toda a comunidade acadêmica na construção de Rawabi. Um exemplo é a engenheira civil Hanan Khalaf, de 23 anos. Recém-formada, ela é um dos muitos jovens que trabalham no projeto. "É tudo muito moderno, muito profissional. Algo que nós não conhecíamos na Palestina, por causa da nossa difícil situação de embargos", revela. O desafio agora é tornar o bairro sustentável. O projeto prevê a atração de grandes marcas internacionais para o shopping center e também empresas de tecnologia, a fim de que Rawabi possa gerar mais empregos aos palestinos.
Entrevistado
Bashar al-Masri, empresário palestino que empreendeu o projeto Rawabi (via assessoria de comunicação)
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Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Gigantes chinesas estão de olho no vácuo da Lava Jato
Quatro grupos asiáticos aproveitam oportunidades surgidas pelo enfraquecimento de Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS e Mendes Júnior
Por: Altair Santos
A China Communications Construction Company (CCCC) agora é acionista majoritária da Concremat Engenharia - empresa que construiu a ciclovia Tim Maia, que desabou em abril de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. Com o aporte de R$ 350 milhões para adquirir 80% da empreiteira de médio porte, a gigante chinesa da construção civil pretende aproveitar o vácuo deixado pelas grandes construtoras do Brasil, por causa da operação Lava Jato, e atuar na infraestrutura do país. Mas não é só ela. Também estão entrando no mercado brasileiro a China Three Gorges, a State Grid e a HNA.

Cada uma destas grandes construtoras chinesas tem sua especialidade. A CCCC sonda o mercado brasileiro desde 2014 e é voltada para infraestrutura e logística. Com capital de US$ 120 bilhões, a construtora chinesa já abocanhou os terminais privados do porto de São Luís, no Maranhão, por R$ 400 milhões. Além disso, mantém negócios com os portos de Santos, Paranaguá e Rio de Janeiro, fornecendo dragas e guindastes portuários. Do Brasil, ela pretende expandir seus negócios para Argentina, Peru e América Central. Por isso, prioriza as concessões ferroviárias.
A China Three Gorges, principal acionista do consórcio que construiu a hidrelétrica Três Gargantas, e que faz a gestão da usina erguida no rio Yang-tsé, atua no setor de energia. No Brasil, ela investe em parques eólicos no nordeste do país e já se tornou sócia de 17 hidrelétricas no estado de São Paulo, que pertenciam à CESP (Companhia Energética de São Paulo). Presente em 40 países, a empresa é hoje a maior produtora de energia elétrica do mundo, com capacidade instalada de 201,2 TWh (Terawatt-hora) e US$ 10,1 bilhões de receita operacional.
Sedentas por comprar
No Brasil desde 2013, com o nome de CTG Brasil, a China Three Gorges já é a segunda maior geradora privada de energia no país, com investimento de R$ 20 bilhões. “Nos primeiros dois anos, nosso foco foi mais em cima das hidrelétricas. Agora estamos nos concentrando nas energias renováveis (eólicas)", afirmou Li Yinsheng, que preside o braço da CTG no Brasil. Em 2015, a CTG Brasil adquiriu da EDP Renováveis Brasil 49% de participação em 11 parques eólicos em operação ou em desenvolvimento no país. Atualmente, a EDP opera 328 MW de energia eólica.
A State Grid também entrou no Brasil pelo setor elétrico. Comprou em 2016, por R$ 14 bilhões, a CPFL Energia. O presidente da unidade brasileira da companhia, Cai Hongxian, explica o motivo do investimento forte no país. "Existem muitas oportunidades”, diz, afirmando que a empresa chinesa quer ser tratada como uma corporação brasileira. “Agimos como um player local e queremos ser tratados como tal", completa. Hoje, as maiores obras da State Grid no Brasil estão relacionadas com as linhas de transmissão de energia da usina Belo Monte. A construtora não descarta tornar-se dona da terceira maior hidrelétrica do mundo.
A mais recente gigante chinesa a chegar no Brasil foi a HNA, que administra 13 aeroportos na Ásia e na América do Norte. Em abril de 2017, a empresa comprou por R$ 19 bilhões a parte do aeroporto do Galeão, no Rio, que pertencia à Odebrecht. Aliás, o enfraquecimento de Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS e Mendes Júnior - todas envolvidas nas denúncias investigadas pela operação Lava Jato - é que estimula as chinesas a criar raízes no Brasil. O próximo passo delas é observar as aberturas de mercado que devem vir nas áreas de infraestrutura rodoviária e saneamento. Com o Brasil em liquidação, as gigantes da China estão sedentas por comprar.
Entrevistados
China Communications Construction Company (CCCC) (assessoria de comunicação)
China Three Gorges (assessoria de comunicação)
State Grid Brazil Group (assessoria de comunicação)
HNA Group (assessoria de comunicação)
Contatos
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Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Canteiro de obras sem padronização afeta produtividade
Emprego de materiais de qualidade, bons equipamentos e tecnologia da construção podem se perder se não houver organização da mão de obra
Por: Altair Santos
Engenheiro civil e doutor em produtividade na construção, com formação acadêmica na USP (Universidade de São Paulo) e na Pennsylvania State University, Ubiraci Espinelli é categórico: “Esse é o momento da produtividade no canteiro de obras”. A declaração foi dada em recente webseminário promovido pela Construmarket, onde o especialista lembrou que a situação econômica no Brasil exige procedimentos que façam a obra ganhar velocidade sem perder a qualidade. “Produtividade sempre foi importante, tanto com a economia em baixa quanto em alta. Mas agora, ela é relevante”, destaca.
Segundo Espinelli, a produtividade é influenciada por três partes da obra: o projeto, os processos construtivos e a organização. Neste item, inclui-se a mão de obra. Para o engenheiro, operários bem treinados, apoiados por uma logística que entregue o material com eficácia, contribuem com a padronização da produtividade dentro do canteiro. O procedimento ajuda a minimizar um dos índices mais preocupantes em uma obra: o homens/hora. “Um canteiro com baixa rotatividade de operários, com trabalhadores bem treinados e com o material chegando de forma correta, é um grande indutor de produtividade”, diz.
Para o especialista, a construtora precisa fazer uma avaliação criteriosa da mão de obra para obter ganhos de produtividade. Em alguns casos - ele sugere - é melhor contratar uma subempreiteira com operários treinados para um determinado serviço, do que acionar a mão de obra própria da empresa. “A interação com subempreiteiros é importante”, afirma. Ubiraci Espinelli orienta ainda que a troca de material a granel por material paletizado também gera vantagens significativas. “Ganha tempo e diminui esforços. O mesmo ocorre com o uso de gruas, mastro de concretagem, elevadores-cremalheira e braços para descer materiais. São demandas que dão grande velocidade”, completa.
Do concreto a pré-fabricados
A escolha dos processos construtivos é igualmente decisiva para se obter produtividade na obra. “É preciso definir se vai usar concreto bombeado ou se vai transportar o material em jericas. Se vai usar argamassa-farofa no contrapiso ou se vai utilizar argamassa industrializada autonivelante. É preciso se beneficiar da tecnologia para definir uma estratégia competitiva. Por exemplo, existem construtoras usando com muita eficácia as lajes pré-fabricadas. Mas não basta apenas ter como fornecedor uma boa fábrica. São importantes ações corretas no armazenamento, na logística e na instalação destas lajes”, ressalta.
Por fim, o engenheiro alerta que o projeto arquitetônico também tem grande influência na produtividade. “Se existem paredes muito pequenas, cheias de recortes, ou se há muitas estruturas em ‘U’, assim como fachadas recortadas, isso vai demandar homens/hora a mais na obra”, aponta. Com base no que palestrou no webseminário, Ubiraci Espinelli deu sua definição para produtividade. “Produtividade é fazer com que recursos (materiais, mão de obra, equipamentos e dinheiro) se transformem em produtos (casas, edifícios, aeroportos, rodovias, etc.) de forma eficiente”, ensina. “Parece simples, mas requer planejamento”, finaliza.
Entrevistado
Engenheiro civil Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, professor- doutor em produtividade na construção, com formação acadêmica na USP (Universidade de São Paulo) e na Pennsylvania State University
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Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Nem 10% das calçadas nas capitais atendem normas
Pesquisa em 12 das principais cidades do país mostra contrastes. Para ABCP, problema está na desinformação e na falta de fiscalização
Por: Altair Santos

Levantamento que a OSCIP Mobilize realiza desde 2012 mostra que menos de 10% das calçadas que existem nas principais capitais brasileiras atendem as normas técnicas. Significa que mais de 90% dos calçamentos são construídos de forma errada, seja por uso inadequado de materiais ou por problemas com mão de obra. Além disso, não respeitam padrões de acessibilidade, de iluminação, de arborização e acabam colocando em risco a segurança de pedestres.
Atuante em ações que incentivem a melhoria dos calçamentos, a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) entende que a desinformação e a falta de fiscalização municipal é que geram essas não-conformidades nas calçadas. “A calçada é um bem público de responsabilidade privada, ou seja, o proprietário do lote é quem deve construir a calçada. Sem informações e orientações, e com baixa fiscalização municipal, os problemas se multiplicam”, diz Valter Frigieri Júnior, diretor de planejamento e desenvolvimento de mercado da ABCP.
Para quebrar esse paradigma, a ABCP tem participado constantemente de diversas iniciativas, em conjunto com prefeituras de diferentes estados, a fim de dar visibilidade às boas práticas na construção de calçadas. “Criamos uma plataforma chamada Soluções para Cidades, onde sistematizamos iniciativas que inspiram os municípios a desenvolverem programas de calçadas”, diz Frigieri, reforçando que a ABCP oferece apoio técnico aos gestores municipais.

O diretor de planejamento e desenvolvimento de mercado da ABCP ressalta que há muito desconhecimento das normas técnicas, o que faz com que várias calçadas executadas e reformadas não atendam aos critérios de acessibilidade, largura adequada, fluidez, continuidade, segurança, socialização e desenho da paisagem. Valter Frigieri Júnior destaca que duas normas norteiam a execução de calçadas: ABNT NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos e ABNT NBR 16537: Acessibilidade - Sinalização tátil no piso - Diretrizes para elaboração de projetos e instalação.
Quando se trata de calçadas que usam elementos à base de cimento, é importante conhecer também as seguintes normas:
ABNT NBR 15953: Pavimento Intertravado com Peças de Concreto – Execução
ABNT NBR 9457: Ladrilho Hidráulico – Especificação
ABNT NBR 9458: Assentamento de Ladrilho Hidráulico
ABNT NBR 9457: Ladrilho Hidráulico – Formatos e Dimensões
ABNT NBR 15805: Placa de Concreto para Piso – Requisitos e métodos de ensaio
ABNT NBR 16416: Pavimentos Permeáveis de Concreto – Requisitos e Procedimentos
Disparidade

Na pesquisa da ONG Mobilize, intitulada “Calçadas do Brasil”, foi levantada a situação dos calçamentos em pontos-chave das seguintes capitais: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Salvador, Fortaleza, Natal, Recife e Manaus. Atribuiu-se de 0 a 10 aos seguintes tópicos: irregularidades no piso; largura mínima de 1,20 m; degraus que dificultam a circulação; outros obstáculos, como postes, telefones públicos, lixeiras, bancas de ambulantes e de jornais e entulho; existência de rampas de acessibilidade; iluminação adequada da calçada; sinalização para pedestres e paisagismo para proteção e conforto.
O relatório da pesquisa finaliza com a seguinte análise: “Nas doze cidades avaliadas, os resultados mostraram grande disparidade entre bairros e regiões. Algumas ruas obtiveram nota média acima de 9 e outras ficaram com nota 3. De forma geral, em todas as cidades avaliadas constatou-se certo descaso das autoridades quanto à conservação das calçadas, especialmente por conta das frequentes obras realizadas por concessionárias de serviços de água, gás, energia e telefonia. Raramente, após uma obra, a calçada é restaurada conforme seu padrão de qualidade original, o que resulta em feias cicatrizes, desnivelamentos ou simplesmente em buracos abandonados ao sabor do tempo.”
Entrevistados
- Mobilize Brasil, OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) vinculada à Associação Abaporu (via assessoria de imprensa)
- Engenheiro civil Valter Frigieri Júnior, diretor de planejamento e desenvolvimento de mercado da ABCP ((Associação Brasileira de Cimento Portland)
Contatos
planetaletras@abaporu.org.br
valter.frigieri@abcp.org.br
Crédito Fotos: Divulgação, ABCP e Prefeitura de São Paulo
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Nova York quer voltar a ter o maior prédio do mundo
Projetado por um escritório grego de arquitetura, principal desafio do Big Bend não está na estrutura nem na fachada, mas nos elevadores
Por: Altair Santos
O projeto Big Bend (Grande Curva), idealizado pelo escritório de arquitetura Oiio, pretende voltar a fazer de Nova York a cidade com o maior edifício do mundo. Não em altura, mas em comprimento. O conceito é erguer duas torres de quase 600 metros de altura cada uma, interligadas por um arco, formando um “U” invertido. Segundo o projeto, a extensão da obra alcançará 1.219 metros, superando o Burj Khalifa, em Dubai (Emirados Árabes), que mede 879 metros e é atualmente o prédio mais alto do mundo.

A área para construir o Big Bend já está reservada e localiza-se ao sul do Central Park, uma das localidades de Manhattan com o m² mais caro do mundo: a 57th Street. O arranha-céu vai ocupar dois terrenos na região conhecida como Billionaires' Row. Esse é o nome que o mercado imobiliário de Nova York deu ao conjunto de edifícios residenciais e corporativos ultra-luxuosos que já foram construídos ou serão erguidos naquela região de NY.
O Big Bend será vizinho do One 57 (306 metros), concluído em 2014; do Central Park Tower (478 metros), em construção; do 111 West 57th Street (438 metros), em construção, e do Trump Tower (202 metros), inaugurado em 1984. Nenhum projeto, porém, agrega os conceitos incorporados pelo arquiteto grego Ioannis Oikonomou ao Big Bend. A começar pela área em que será empreendido. O edifício vai ocupar dois terrenos que estão ao lado de um prédio já construído.
Regras de zoneamento de NY

O escritório Oiio, que tem sede na Grécia, explica que a razão do projeto é para se adequar às leis de zoneamento da cidade de Nova York. “Há grandes restrições e a solução é maximizar a altura. Mas nossa área não permitia uma estrutura tão alta. Foi aí que pensamos: e se substituíssemos a altura pelo comprimento? Já que não podemos mudar as regras de zoneamento, podemos dobrar o projeto e criar um dos edifícios mais prestigiosos de Manhattan, que será também o prédio mais comprido do mundo”, diz Ioannis Oikonomou.
O desafio do Big Bend não está no projeto estrutural, que envolve a construção do arco interligando as duas torres. Muito menos na solução da fachada, que será toda envidraçada. O principal dilema foi resolver como os elevadores sairão de uma torre, percorrerão o arco e passarão para a outra torre, sem que o usuário tenha que fazer conexões ou sinta que está saindo de um percurso vertical - padrão dos elevadores - para uma trajetória em formato de parábola.
Com a tecnologia que está em desenvolvimento pela indústria fabricante de elevadores, os projetistas garantem que a solução já foi encontrada. "O que antes era considerado o maior desafio na história do elevador está finalmente se tornando realidade, ou seja, o equipamento poderá viajar em curvas, horizontalmente e em loops contínuos. O inovador sistema de mudança de rota permitirá a conexão das duas torres, através da parte superior do edifício”, comemoram. Alcançada essa solução, a expectativa é de que o canteiro de obras do Big Bend seja instalado em 2018 e que a obra seja concluída até 2022.
Entrevistado
Ioannis Oikonomou, do escritório de arquitetura Oiio (via assessoria de comunicação)
Contatos
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info@oiiostudio.com
www.oiiostudio.com
Crédito Fotos: Oiio
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Obra de acelerador de elétrons é desafio à engenharia
Projeto Sirius colocará Brasil na vanguarda da produção de luz síncroton, incentivando pesquisas em áreas como a construção civil
Por: Altair Santos
Está em construção em Campinas-SP, a maior e mais complexa infraestrutura científica já projetada no país: o Sirius - novo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). O empreendimento vai permitir ao Brasil estar na vanguarda da produção de luz síncrotron. Esse tipo de fonte de luz é uma ferramenta-chave para a resolução de questões importantes para as comunidades acadêmicas e industriais brasileiras. Ela permite aprofundar pesquisas em áreas estratégicas como energia, alimentação, construção civil, meio ambiente, saúde e defesa.

Pela complexidade dos equipamentos, a edificação que vai sustentá-los precisa ter superlajes de concreto armado moldadas in loco. A resistência do material também é diferenciada. O motivo é que fundações, pisos e paredes não podem sofrer recalques ou outras deformações causadas pela propagação de vibrações. Segundo Júlio Rodrigues, gerente de obra da Racional Engenharia - construtora responsável pela execução -, o projeto do Sirius é singular. Na entrevista a seguir, ele explica detalhes da complexidade e quais os desafios para viabilizar a edificação. Confira:
Com relação à construção do Sirius, quais os desafios?
O projeto do Sirius é singular e o mais complexo em termos de infraestrutura científica já construída no Brasil. O principal desafio é assegurar a estabilidade do piso do hall experimental, evitando recalques, deformações e principalmente mitigar o efeito de vibrações. Trata-se de uma construção moderna, onde é necessário assegurar todas as exigências relacionadas às estabilidades mecânicas e térmicas, garantindo altos níveis de precisão. Para garantir a alta performance, são criados protótipos para análise de comportamentos técnicos de cada sistema construtivo. Tudo é previamente testado e ensaiado.
Em termos de estrutura da obra, qual a resistência do concreto empregado?
O concreto especificado em projeto para a estrutura tem resistência de 30 MPa, mas em alguns casos, como no túnel de blindagem e piso do hall experimental, essa resistência atinge níveis superiores.

Qual o volume de concreto que a obra deve consumir?
A obra vai consumir aproximadamente 35 mil m³ de concreto.
Algum tipo especial de concreto foi empregado na obra, já que ela precisa ter superlajes e grande rigidez?
Em função dos parâmetros exigidos e específicos para o concreto do túnel de blindagem e hall experimental, foi desenvolvido um concreto especial de alta performance, buscando atingir uma retração menor ou igual a 0,02%, com baixo fator água-cimento, de 0,40, e utilização de fibras sintéticas. Com o objetivo de minimizar riscos relativos à logística, e garantir o controle de qualidade, optamos por implantar uma central de concreto no canteiro de obras.
A cargo de quem ficou o projeto estrutural do Sirius?
O projeto estrutural foi elaborado pela empresa Engeti Consultoria e Engenharia, contratado diretamente pelo CNPEM.
Por se tratar de uma obra inédita no Brasil houve ou há alguma consultoria de fora do país ajudando nos detalhes da obra?
Sim, há um compartilhamento de informações através de conhecimentos já adquiridos na construção de outros laboratórios internacionais. Através do Comitê Internacional de Aconselhamento Científico, parte da equipe técnica teve a oportunidade de conhecer, por meio de visitas, os principais laboratórios internacionais de luz síncrotron da Europa. Além disso, há visitas de representantes de outros laboratórios ao Brasil, compartilhando conhecimento. Buscamos através de lições aprendidas mitigar possíveis falhas que possam prejudicar a performance do projeto.
Em termos de emprego de tecnologia construtiva, a obra do Sirius se equipara a alguma outra já feita no Brasil?
O projeto Sirius é único no Brasil. Trata-se de um acelerador de partículas de quarta geração, sendo o segundo dessa geração a ser executado no mundo. A edificação é parte do equipamento e está sendo construída com excelência, com padrões de exigências e precisão nunca vistos na história da engenharia brasileira.
As pesquisas desenvolvidas no Sirius poderão beneficiar também a cadeia produtiva da construção civil? Caso sim, de que forma?
Sim, haverá impacto também no estudo para desenvolvimento de materiais para construção civil. Entre eles, cimentos, fibras, solos e diversos outros materiais poderão ser aprimorados com as técnicas de luz síncrotron.
Qual a previsão para que o Sirius seja inaugurado?
O Sirius terá seu prédio e aceleradores inaugurados em 2018, quando será emitido o primeiro feixe de luz síncrotron. No entanto, após esta primeira inauguração passará por vários meses de comissionamento, ou seja, de ajustes finos. Ele será aberto para uso dos pesquisadores cerca de um ano depois, em meados de 2019.
Qual o custo da obra e quem está financiando?
O custo total do projeto Sirius está estimado em 1,8 bilhão. Deste total, quase 40% refere-se às suas obras civis (R$ 668 milhões). O projeto é majoritariamente financiado pelo governo federal, através do ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Recursos importantes também foram fornecidos pelo governo do Estado de São Paulo. Por exemplo, o terreno de 150 mil m², onde será instalado o Sirius, foi adquirido pelo governo estadual e cedido ao CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais). Além disso, a FAPESP tem sido importante parceira nos programas de interação com empresas, no apoio a eventos e na aquisição de instrumental científico que será instalado nas estações experimentais (linhas de luz) do Sirius.
Entrevistados
- Engenheiro civil Júlio Rodrigues, gerente de obra da Racional Engenharia
- Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) (via assessoria de imprensa)
Contato
lnlscomunica@cnpem.br
Crédito Fotos: Divulgação/CNPEM
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Indústria de base é a mais inovadora, revela pesquisa
Setores de mineração, papel e celulose, sucroenergético, siderurgia e petróleo e gás estão entre os mais competitivos do Brasil
Por: Altair Santos
Pesquisa coordenada pela Escola de Administração Pública e de Empresas da FGV (EBAPE) mostra que a indústria de base do país é a que mais investe em inovação. Neste grupo, destacam-se cinco segmentos: mineração, papel e celulose, sucroenergético (açúcar e etanol), siderurgia e petróleo e gás.

À frente do estudo, que durou dois anos para ser concluído (março de 2015 a março de 2017), o professor Paulo N. Figueiredo ressalta a importância de diagnosticar avanços industriais, a fim de mapear os setores em que o Brasil é mais competitivo. “Países que obtiveram aumento de produtividade conseguiram esse avanço implantando inovações tecnológicas em suas indústrias e empresas. É lá que se transforma conhecimento em riqueza, e é isso que a pesquisa buscou identificar, ou seja, onde está ocorrendo essa transformação”, diz.
A pesquisa envolveu interações diretas com mais de 100 stakeholders da indústria. Entre eles, gestores, engenheiros, pesquisadores, organismos governamentais, universidades e analistas. A interação conectou o estudo da EBAPE com as reais dificuldades da indústria brasileira. As perguntas feitas aos entrevistados relacionaram-se com demandas, questões prementes e problemas para aumentar a produtividade.
A baixa capacidade de competir foi apontada como um dos principais obstáculos. O problema, como explica Paulo N. Figueiredo, está no modelo como foi construída a economia nacional. “O Brasil é tipicamente uma economia de renda média, e que está estacionado nesta situação há quase 50 anos. Preso nesta armadilha, o país tem custo muito alto de produção, o que o impede de competir com economias avançadas. Para mudar esse cenário, é preciso transformar mais conhecimento em riqueza dentro dos ambientes produtivos, que são as indústrias e as empresas”, destaca.
Imitação criativa e P&D
O levantamento elencou três pontos principais: mecanismos de aprendizagem tecnológica, capacidades tecnológicas e competitividade. Entre estes itens, a capacidade tecnológica das empresas e indústrias avaliadas foi medida através do capital humano, do capital físico (máquinas e instrumentos para viabilizar os produtos) e capital organizacional. “Estudamos os impactos deste acúmulo tecnológico, e de que forma as empresas assimilam conhecimento para transformá-lo em capacidade tecnológica, atividades inovadoras e aumento de produtividade”, revela o professor da EBAPE.
A inovação industrial foi medida na pesquisa através de duas formas: a imitação criativa, que é quando produtos, serviços e conceitos já existentes são melhorados e adaptados para gerar mais produtividade na empresa, e a capacidade de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Isso mostrou que há uma enorme variabilidade entre indústrias do mesmo setor. “Algumas conseguem acumular capacidade tecnológica, e gerar impacto na produtividade; outras, não”, avalia Paulo N. Figueiredo.
Essa grande diferença - revela o estudo - se deve à forma como as empresas se relacionam com seus fornecedores, as universidades e os centros de pesquisa. Umas se fecham e outras estão constantemente conectadas com as inovações, retrata a pesquisa. “Neste ponto, o estudo desmistifica a ideia de que indústrias que trabalham com recursos naturais oferecem baixa oportunidade para inovação e desenvolvimento tecnológico. Pelo contrário, os setores de papel e celulose, sucroenergética (açúcar e etanol), mineração, siderurgia, e petróleo e gás oferecem enormes oportunidades para a inovação”, completa o coordenador da pesquisa.
Veja vídeo com resumo da pesquisa:
Clique aqui e confira a parte da pesquisa que analisa a área de mineração.
Entrevistado
Paulo N. Figueiredo, mestre em administração e professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (EBAPE) da Fundação Getulio Vargas (FGV)
Contato
paulo.figueiredo@fgv.br
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Construção já debate revisão da Norma de Desempenho
No ConstruBR 2017, foram lançadas ideias para que a ABNT NBR 15575 possa se consolidar e desencadear o ajuste de outras normas técnicas
Por: Altair Santos
Em vigor desde 19 de julho de 2013, a Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575) poderá entrar em processo de revisão a partir de 2018. Seguindo recomendação dos comitês que integram a ABNT, é importante que normas técnicas sejam revisadas de cinco em cinco anos. A sugestão para que a Norma de Desempenho entre em processo de revisão a partir do próximo ano partiu dos debates ocorridos no Congresso Brasileiro da Construção (ConstruBR 2017), realizado no começo de abril na cidade de São Paulo.

Para a professora da Escola Politécnica da USP, Mércia Bottura de Barros, é importante iniciar um movimento para revisar a ABNT NBR 15575, pois tanto o mercado quanto a academia estão muito mais qualificados para fazer as considerações necessárias, a fim de que práticas já consolidadas possam ser registradas na revisão. “É também a oportunidade para reavaliar as normas interligadas com a Norma de Desempenho, e que estão nos prejudicando por falta de revisão, para atualizá-las também”, afirma a especialista.
Mércia Bottura relembra que em 2008, quando a Norma de Desempenho foi publicada pela primeira vez, o mercado não estava preparado. Por isso, pediu dois anos para se adequar. “Em 2008, a norma surgiu como fruto da academia e não contou com a entrada de toda a comunidade da construção. Mas daí veio 2010, e todo mundo continuou despreparado. Porém, surgiu um fato importante: o trabalho conjunto entre a academia e os setores da construção para que a norma fosse publicada definitivamente”, recorda a professora da USP.
Fonte de inovação
Hoje, cita Mércia Bottura, não apenas o mercado, mas também a academia está muito mais preparada para discutir a revisão da Norma de Desempenho. “A academia está focada na formação em desempenho, assim como em todas as áreas que são transversais à Norma de Desempenho, como projeto, processos construtivos e materiais. A ANTAC (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído) também pode contribuir muito, através dos trabalhos publicados sobre desempenho. Ou seja, todo o universo acadêmico brasileiro está muito mais preparado para esse debate”, diz.
Em cinco anos, a Norma de Desempenho acrescentou uma série de inovações na construção civil. Além disso, causou um movimento nunca antes visto nas áreas de arquitetura e de engenharia, fortalecendo os dois setores e permitindo construções cada vez melhores. “A inovação pautada no desempenho vai nos levar a sermos mais eficientes, mais produtivos e assertivos em nossas produções, mesmo com as dificuldades econômicas impostas pelo momento do país. Até porque, dias melhores virão e precisamos estar preparados”, destaca.
Outro fator que fortalece a Norma de Desempenho, e estimula sua revisão a partir de 2018, é que o PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) passou a exigir dos construtores evidências de que os projetos para edificações habitacionais atendem a ABNT NBR 15575. Assim, não é mais possível buscar financiamento da Caixa Econômica Federal sem se adequar aos requisitos da norma. Essa determinação vale tanto para obras enquadradas no Minha Casa Minha Vida quanto as que não fazem parte do programa.
Entrevistado
Reportagem feita com base nas palestras de Mércia Maria Bottura de Barros, professora-doutora do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Contato
mercia.bottura@usp.br
Crédito Foto: SindusCon-SP





