Inspeção em pontes e viadutos ganha novos critérios
Revisão da ABNT NBR 9452:2016 impõe novos parâmetros para obras de infraestrutura já construídas, principalmente para os elementos submersos
Por: Altair Santos
Dia 8 de abril de 2016 foi publicada a revisão da ABNT NBR 9452:2016 - Inspeção de pontes, viadutos e passarelas de concreto. Ela estabelece novos critérios e especifica requisitos mais rigorosos na realização de vistorias neste tipo de infraestrutura. O texto foi elaborado pela CEE-169 (Comissão de Estudo Especial de Inspeções de Estruturas de Concreto) e esteve sob a coordenação do engenheiro civil Júlio Timerman. Foram três anos para que a revisão fosse concluída. Na entrevista a seguir, Timerman explica as mudanças na ABNT NBR 9452:2016. Confira:

O que mudou na revisão da ABNT NBR 9452:2016, publicada recentemente?
Esta norma trata de inspeções de pontes, viadutos e passarelas de concreto. A norma anterior estava bastante desatualizada e houve modificações no escopo da norma. Principalmente no que se refere à inspeção de elementos submersos em pontes e viadutos. Esta atividade não era descrita na norma anterior. A norma revisada agora torna obrigatória a inspeção subaquática, definindo a periodicidade das inspeções. Ela também estabelece os tipos de inspeções: inspeção inicial, inspeção rotineira, inspeção especial e inspeção extraordinária. Também foram inseridas na norma fichas que auxiliam o vistoriador de estruturas. Muitas vezes as normas não orientam o que tem de ser verificado. Essas fichas são roteiros que tornam a inspeção mais eficiente.
Essa norma influencia mais em estruturas já construídas ou pode abranger também obras que venham a ser feitas?
A inspeção de estruturas é sempre feita em estruturas já construídas. Pode ser uma estrutura antiga ou que acabou de ser construída. A norma tomou como base a experiência da comunidade técnica e dos profissionais que atuam na área de inspeção nesta última década, que tem sido uma década importante na engenharia de inspeções e estruturas, pois houve uma série de privatizações e concessões. Neste cenário, fez-se necessário realizar inspeções das obras. Por exemplo, o DER aqui de São Paulo, através da ARTESP (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo), desenvolveu um manual de inspeção em função da precariedade da versão anterior da norma. Então, a revisão tomou como base esta norma interna da ARTESP e a norma interna do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) para rodovias federais. Elas apontam como fazer uma avaliação do comportamento da estrutura sob três aspectos: segurança estrutural, funcionalidade e durabilidade. A obra é classificada em função destes três fatores e recebe uma nota. Esta nota é repassada para a entidade que administra a rodovia e, com base nela, é que será definido o calendário de manutenção. As notas menores indicam que a obra precisa de manutenções mais periódicas. Esta é a grande novidade desta norma.
Para os profissionais que atuam nesta área, a norma revisada vai exigir que eles também revisem métodos de trabalho?
Sem dúvida. Esta norma está associada à outra norma de requisitos para certificação, ou seja, ela exige que os profissionais contratados para o serviço de inspeção sejam certificados.
Por quanto tempo a norma ficou em processo de revisão, e por que ela precisou ser revisada?
A norma ficou três anos em processo de revisão. Assim como todas as outras normas, ela traduz a cultura de uma comunidade e precisa se adaptar à evolução. Havia itens que não constavam na norma anterior, e que foram inseridos, como periodicidade das inspeções e inspeção subaquática em elementos submersos. Eram itens que a gente sentia falta no mercado.
Sob sua coordenação, quantas pessoas estiveram envolvidas na revisão da norma?
Foi abrangente. A cada reunião, participavam, em média, 20 profissionais. Tanto do setor público quanto de empresas que atuam na área de inspeção de estruturas. Ao todo, a revisão envolveu 45 profissionais.
A revisão da ABNT NBR 9452:2016 pode estimular a manutenção das mais de 40 mil pontes e viadutos existentes no Brasil?
Esta é uma cultura que temos que incutir: o comprometimento do poder público no sentido de fazer a manutenção das suas estruturas. Existe uma ideia arraigada de que estruturas de concreto são eternas. Porém, elas realmente precisam de manutenção constante em função do aumento das cargas nas rodovias e do ambiente agressivo, cada vez mais poluído, que potencializa os ataques às estruturas de concreto.
Em termos de carência de revisão, quais exigem maiores demandas: pontes em rodovias ou viadutos urbanos?
Depende do local. No caso das estruturas urbanas em uma cidade com baixo impacto da poluição, o ambiente será menos agressivo. O mesmo serve para obras de arte em rodovias. Se elas estiverem em um ambiente marinho e submetidas a um alto tráfego de veículos pesados, obviamente, a manutenção será mais constante.
Com relação à ciclovia que caiu recentemente no Rio de Janeiro, ela se enquadra na norma?
Sim, mas diria que a vistoria em si não detectaria problemas. A não ser que houvesse alguma anomalia na estrutura.
A CEE-169 tem mais alguma norma em processo de revisão ou que venha a ser revisada brevemente?
Estamos em processo de revisão da ABNT NBR 9607 (Prova de carga em estruturas de concreto armado e protendido - Procedimento). Trata-se de uma norma muito importante para a construção civil.
Entrevistado
Engenheiro civil Júlio Timerman, delegado regional da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) em São Paulo-SP, vice-presidente do IABSE (International Association for Bridge and Structural Engineering) e diretor-presidente do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto), além de consultor e diretor da Engeti Consultoria e Engenharia
Contato: julio@engeti.eng.br
Créditos Fotos: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Novo estádio do Barcelona usa conceitos de teatro
Projeto de escritório japonês faz do torcedor o protagonista da arquitetura; obra começa em 2017 e não vai impedir que time atue no Camp Nou
Por: Altair Santos
Cinco dos mais conceituados escritórios de arquitetura do mundo concorreram com projetos para o novo estádio do Barcelona, que hoje é mais que um clube (transformou-se em uma grife mundial). Venceu a proposta o escritório japonês Nikken Sekkei, em parceria com o catalão Joan Pascual i Ramon Ausió Arquitectes. O que prevaleceu foi o conceito teatral que se pretende imprimir à obra.

Em vez de arquibancadas, o “Nou Camp Nou” terá balcões e grandes espaços de circulação no entorno dos anéis. Uma das exigências do Barcelona, quando instalou o processo para selecionar o escritório que projetaria o novo estádio, era que a arquitetura não se sobrepusesse ao torcedor do clube catalão. “Queremos que os sócios sejam os protagonistas da fachada e participem do espaço livre a todo momento”, definiram os dirigentes.
Ao eleger o projeto da parceria Nikken Sekkei e Joan Pascual i Ramon Ausió Arquitectes, a comissão julgadora destacou que “trata-se de uma solução única, transformando em um teatro a tão característica visão da arquibancada e dos assentos do estádio”. O júri que elegeu o projeto foi composto por cinco membros do clube, três membros do Col.legi d’Arquitectes de Catalunya e um membro da prefeitura de Barcelona.
Na decisão, eles se referiram ao novo estádio que será construído como "aberto, elegante, sereno, atemporal, mediterrâneo e democrático”. A escolha aconteceu dia 8 de março de 2016. Além do Nikken Sekkei e Joan Pascual i Ramon Ausió Arquitectes, também participaram os escritórios AECOM + B720 Arquitectes, Arup Sport + Taller D’arquitectura Ricardo Bofill, Big y Idom + BAAS Arquitectes, Gensler Sport + OAB, HKS-COX + Batlle i Roig Arquitectes, AFL + Mateo Arquitectura e Populous + Mias Arquitectes + RCR Arquitectes. As parcerias envolveram sempre empresas internacionais de arquitetura em parceria com escritórios catalães.

A Nikken Sekkei atua há mais de 100 anos como empresa de arquitetura e de engenharia. Construir estádios é uma de suas especialidades. São dela os projetos do Saitama Super Arena, Niigata Big Swan e o Tokyo Dome - todos no Japão. Fundada em 1900, a carteira do escritório contabiliza mais de 20 mil projetos em 40 países. A Nikken Sekkei também abrange empreendimentos urbanos, arranha-céus e parques industriais em países como China, Coreia do Sul, Vietnã e Emirados Árabes Unidos. “É uma grande honra ganhar esta oportunidade de participar na concepção de um novo estádio, com base no legado do estádio existente. Nosso objetivo é sempre criar espaços públicos significativos", disse Tadao Kamei, CEO do Nikken Sekkei.
As obras do novo estádio do Barcelona começam daqui a um ano, em maio de 2017. A previsão é de que elas sejam concluídas em 2021. O clube não precisará atuar em outro campo enquanto a execução estiver em andamento. A capacidade do “Nou Camp Nou” irá dos atuais 99.354 lugares para 105 mil. O custo do empreendimento está estimado em 600 milhões de euros (aproximadamente R$ 2,4 bilhões).
Confira vídeos sobre o projeto do Nou Camp Nou:
NEW CAMP NOU - Phased construction while... por fcbarcelona
NUEVO CAMP NOU – La maqueta / The model por fcbarcelona
NEW CAMP NOU - A dream open to the world: this... por fcbarcelona
Entrevistado
Nikken Sekkei Arquitetura e Engenharia (via assessoria de imprensa)
Contato: media@nikken.jp
Créditos Fotos: Divulgação/FCB
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Concreto de carbono será dominante em 50 anos
Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, avança nas pesquisas e atinge nível de segurança para usar tecnologia em grandes estruturas
Por: Altair Santos
As pesquisas com o concreto que utiliza malhas de carbono em vez de vigas de ferro em sua estrutura não cessam na Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha. Os novos resultados apontam que o material, além de já ser usado em artefatos não-estruturais, atingiu um nível de segurança que permite utilizá-lo em projetos estruturais, como pontes para veículos leves, passarelas e na recuperação de grandes estruturas.

Além disso, ele começa a ser testado em edificações, com a aplicação em fachadas – substituindo elementos de aço e alumínio, por exemplo. Para os pesquisadores de Dresden, o concreto com malha de carbono será dominante no prazo máximo de 50 anos em praticamente todas as construções que se possa empreender.
Manfred Curbach, pesquisador da Universidade Técnica de Dresden, que está à frente dos estudos com concreto de carbono, assegura que, comprovada a resistência do material, já é possível afirmar que ele irá revolucionar a construção civil neste século. “Estamos falando de um material que pode durar 200 anos ou mais, em conformidade com os princípios mais rigorosos de sustentabilidade, e que vai permitir projetos arquitetônicos até então inimagináveis, como prédios com estruturas curvas e superesbeltas”, prevê.
Mas não é a construção de edifícios que o concreto de carbono quer priorizar. Para Curbach, as pontes e viadutos são as obras que mais irão se beneficiar do material. “Com esse produto, esqueça o que sabemos hoje sobre construções de pontes. O concreto de carbono vai transferir integralmente os projetos de pontes e viadutos para indústrias de pré-fabricados. As peças sairão prontas das fábricas e serão montadas no local. Leves, elas não exigirão superguindastes. Além disso, permitirão pontes e viadutos com vãos maiores, sem risco de colapso”, garante.

Paredes e postes inteligentes
Para promover ainda mais a pesquisa e o desenvolvimento do material compósito de fibra de carbono, juntamente com o concreto de alto desempenho, a Universidade Técnica de Dresden já conta com 130 parceiros em todo o mundo. O consórcio é conhecido como C3 - Carbonbeton. Há várias frentes atuando dentro do projeto. Uma delas testa a condutividade térmica e elétrica das malhas de carbono.
O objetivo é criar paredes que possam conduzir energia elétrica até os terminais, sem a necessidade de que fios e conduítes tenham que percorrer suas estruturas. Essa tecnologia, desde que se torne viável, mudaria também o cenário das cidades. Os pesquisadores anteveem postes inteligentes, capazes de iluminar e transmitir dados sem a necessidade de fios elétricos.
Da mesma forma, pontos de ônibus interligados a placas de captação de energia solar funcionariam como minicentrais de dados. “O concreto de carbono permitirá criar um mobiliário urbano inteligente. Estamos a caminho de novas possibilidades", diz a professora-doutora Sandra Gelbrich, da Universidade Técnica de Chemnitz - também na Alemanha -, e que cuida deste segmento da pesquisa que abrange o concreto de carbono.
Veja aqui o vídeo sobre a evolução do concreto de carbono.
Entrevistados
Doutores em Engenharia Manfred Curbach, da Universidade Técnica de Dresden, e Sandra Gelbrich, da Universidade Técnica de Chemnitz
Contatos
Manfred.Curbach@tu-dresden.de
sandra.gelbrich@mb.tu-chemnitz.de
Créditos Fotos: Divulgação/Ulrich van Stipriaan/TU Dresden
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Transposição do Velho Chico encarece custo da água
Agronegócio do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte descobriu que bombeamento do canal pode ser mais caro que dessalinizar água do mar
Por: Altair Santos
Integrantes da cadeia produtiva do agronegócio dos estados do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte estão preocupados com a elevação do custo da água quando o sistema de captação gerado pela transposição do Rio São Francisco começar a operar. Segundo estudos, o bombeamento para áreas de cultivo pode gerar um valor anual de R$ 400 milhões para ser dividido entre os três estados.

A vazão necessária para que a água chegue às fazendas é de 26,4 m³/seg. Como o projeto não contemplou o uso da gravidade para ajudar nesta vazão, será necessário investir em bombeamento, o que inclui custo com energia elétrica ou uso de combustível. Isso é o que encarece o uso da água. Segundo uma análise apresentada às federações das indústrias dos estados envolvidos na questão, dessalinizar a água do mar pode custar mais barato.
Os presidentes dos conselhos temáticos de cadeias produtivas e agronegócio, Bessa Júnior, e de Infraestrutura, Heitor Studart - ambos ligados à Federação das Indústrias do Ceará (FIEC) -, estiveram em abril de 2016 visitando as obras da transposição. “O objetivo foi monitorar as obras, de fundamental importância para o setor industrial cearense, e articular ações no sentido da execução das obras complementares. O Ceará, por exemplo, vai precisar interligar a transposição com o Cinturão das Águas (outra obra de irrigação do estado)”, diz Studart.
Já Bessa Júnior alertou que será necessário criar um modelo de cobrança e valores do insumo. Para isso, está marcado para os dias 7 e 8 de julho um seminário organizado pela FIEC e Assembleia Legislativa do Ceará para discutir a administração da água da transposição. Além dos custos, outra preocupação é com o roubo da água. Em recente inspeção, o Tribunal de Contas do Estado da Paraíba constatou vários desvios ilegais para retirar água do canal da transposição, ao longo de um trecho de 37 quilômetros entre os municípios de Coremas e Sousa.
Obra irreversível
O leito natural do Velho Chico - como é chamado o Rio São Francisco pelos que dependem de suas águas – passa por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. A transposição estenderá o curso para Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Anivaldo de Miranda Pinto, a retirada da água reduzirá a vazão do rio e tende a afetar a geração de energia elétrica de todo o Nordeste. “O rio tinha uma lógica voltada para a geração de energia. A transposição reverteu esse cenário, priorizando o abastecimento. Isso, obviamente, influencia em sua vazão”, diz.
O próprio Anivaldo de Miranda defende que a construção de adutoras para fins de abastecimento teria sido mais barato e cumpriria com mais eficiência o propósito de levar água a regiões do semiárido. No entanto, atualmente o projeto de transposição do Rio São Francisco já está com mais de 90% da execução finalizada, e é irreversível.
A obra tem extensão de 477 quilômetros, organizados em dois eixos de transferência de água – Norte e Leste. O empreendimento engloba a construção de 9 estações de bombeamento, 27 reservatórios, 4 túneis, 14 aquedutos, 9 subestações de energia e 270 quilômetros de linhas de transmissão em alta tensão. O projeto, inicialmente orçado em R$ 4,5 bilhões, já extrapola R$ 8,2 bilhões. Nos canteiros de obras atuam 10.340 trabalhadores. A conclusão deve ocorrer no segundo semestre de 2017.
Entrevistados
- Federações das Indústrias do Ceará (FIEC) (via assessorias de imprensa)
- Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) (via assessorias de imprensa)
Contatos
presidencia@cbhsaofrancisco.org.br
agencia@al.ce.gov.br
Crédito Foto: Júnior Pio/Assembleia Legislativa do Ceará
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Softwares não substituem calculistas de estruturas
Dia 4 de maio, profissional comemorou sua data. Para o professor Tales Pedro de Souza, desafio é formar novos talentos e conscientizar mercado
Por: Altair Santos
Dia 4 de maio comemorou-se o dia do calculista estrutural. É ele o responsável pela concepção do arcabouço estrutural que sustentará a edificação diante das ações que ela sofrerá ao longo de sua vida útil. O calculista avalia as ações que poderão agir e executa cálculos que determinam os esforços suportados em cada peça da estrutura à base de concreto. Se a estrutura for metálica, o calculista dirá qual o tamanho, forma e peso dos perfis, e como eles devem ser soldados entre si.

O profissional pode atuar em um amplo leque de atividades. Existem atualmente calculistas especializados em concreto, metais e madeira. De forma geral no caso da engenharia civil, esses profissionais calculam quais as cargas que serão suportadas pelas edificações e faz o dimensionamento da estrutura. As informações vão para outro tipo de calculista, que é o especializado em fundações. É ele quem determina como uma edificação vai se apoiar sobre o solo já estudado anteriormente. Neste caso, é desejável que o profissional seja conhecedor das questões em geotecnia.
Na entrevista a seguir, o engenheiro-calculista Tales Pedro de Souza, com 32 anos de experiência, explica como estão as demandas e os desafios da profissão. Confira:
Dia 4 de maio comemorou-se o dia do calculista de estruturas. Pergunta-se: há o que comemorar?
Diria que há sim motivos para comemorar, e não apenas no dia 4 de maio e sim em diversas ocasiões ao longo dos dias e anos de trabalho. Essas comemorações estão geralmente ligadas ao reconhecimento que clientes, construtores e arquitetos têm no nosso trabalho e, principalmente, quando vemos prontas as obras cujos projetos tivemos participação como calculista. Temos uma palestra que apresentamos em universidades, intitulada "Cálculo Estrutural: Arte ou Ofício?", que fala justamente do prazer que o calculista tem de participar da obra arquitetônica. Não apenas como um ofício de calculista, mas também com a arte da concepção, fundamental para viabilizar a ideia arquitetônica.
A profissão de calculista está conseguindo reposição no mercado? A percepção que se tem é que há poucos engenheiros-calculistas novos e boa parte já está há tempos na profissão.
Como em qualquer profissão e, essencialmente nesta, que é uma área de consultoria, obviamente a experiência e o conhecimento prático do cálculo estrutural fazem muita diferença. Não creio que haja tão poucos engenheiros novos calculando estruturas, mas os que se destacam acabam sendo os mais antigos, justamente pela confiabilidade que conseguem passar aos seus clientes. Historicamente, bons calculistas são aqueles que já trabalharam com outros mais antigos e puderam ter a chance de praticar o cálculo estrutural. Não sei dizer se esse processo é suficiente para criar a reposição ideal de profissionais e atender toda a demanda de cálculo estrutural. O que a gente sente é que se o pretenso calculista não souber a teoria, e como aplicá-la num projeto, ele não conseguirá se manter no ofício.
É uma profissão sob risco de extinção?
Não creio que essa profissão possa um dia ser extinta. Por mais avançados que possam ser os sistemas computacionais para o cálculo estrutural, eles sempre serão ferramentas de uma ciência e nunca a solução para os problemas. O calculista é quem determina as ações sobre uma estrutura e estas ações são dados para que um software possa processar qualquer cálculo. Se as ações estiverem erradas ou mal interpretadas todo o cálculo estará errado, colocando em risco as estruturas projetadas. Além do mais, conceber a estrutura que dará suporte a qualquer obra é também uma arte e uma boa concepção resultará num cálculo técnico e economicamente adequados a cada criação arquitetônica. Vale lembrar que o cálculo estrutural não existe apenas para edificações, mas também para pontes, barragens, obras industriais, navios, aviões, veículos, objetos das engenharias naval, aeronáutica e mecânica, além da engenharia civil. Assim, não vejo como a profissão de calculista poderia ser extinta.
Atualmente, com novos sistemas construtivos, vários tipos de concreto, estruturas mistas e inovações agregadas à construção civil, o que mudou para os calculistas?
Uma vez me perguntaram se, com tanta inovação tecnológica, por que eu não poderia projetar uma estrutura mais esbelta, com menores dimensões nas peças estruturais. Então, respondi que, enquanto não mudassem a lei da gravidade os esforços que agem em qualquer estrutura continuariam sempre os mesmos. Novos sistemas construtivos e inovações não mudam o princípio do cálculo estrutural, que se concentra nos esforços das estruturas. O que pode mudar é o dimensionamento dos elementos, com base nas resistências que esses novos materiais podem ter. Dimensionar uma viga em concreto armado, por exemplo, é bem diferente de dimensionar uma viga em concreto protendido e, certamente, o tamanho da viga dimensionada será diferente para cada caso. Diante de um novo sistema, então, basta o calculista estudar as propriedades do novo material e então aplicar suas características de resistências aos dimensionamentos que está fazendo. Isso, desde que o novo material seja técnica e economicamente interessante de ser utilizado pelo cliente.
As especificidades do concreto usado em uma obra são responsabilidade do engenheiro-calculista?
Sim e não. Essa é uma questão muito clara no meio técnico e nas atribuições do calculista de estruturas. Na verdade, falamos em propriedades do concreto. Então, a resposta é sim, se estivermos falando do que chamamos de propriedades do concreto endurecido. Já a resposta será não se estivermos falando das chamadas propriedades do concreto-massa. Logo, é sim responsabilidade do calculista especificar as propriedades que se esperam do concreto quando ele estiver endurecido, constituindo as peças da estrutura concretada. A principal propriedade chama-se "fck" e significa, simplificadamente, a resistência à compressão de um concreto. Outra propriedade também importante é o módulo de elasticidade do concreto, que determinará como uma peça da estrutura irá se deformar sob a ação dos carregamentos aos quais estará submetida. Agora, propriedades como a consistência da massa de concreto, extremamente importante para determinar a trabalhabilidade do concreto nas ações de concretagem ou, ainda, especificidades de dosagem (qual a quantidade de cada ingrediente para formar um concreto) são de responsabilidade de quem está dosando (fabricando) o concreto (a concreteira, por exemplo) e de quem está comprando e aplicando o concreto (a engenharia de obra, por exemplo). Em resumo, para que o cálculo estrutural dê certo, o concreto precisa atingir resistências e adquirir as propriedades que foram especificadas no cálculo. Contudo, para conseguir em obra um concreto que cumpra esta missão, o engenheiro de obra terá inúmeras variáveis que irão sugerir uma dosagem e consistência adequadas e nisto o calculista não tem nenhuma responsabilidade. Apesar desta separação de responsabilidades, inclusive definidas por normas técnicas, calculista e engenheiro de obra conversam muito sobre essas propriedades, especialmente se as obras forem de estruturas especialmente complicadas, onde as peças possam ser de mais difícil concretagem.
Com relação aos softwares, como o BIM e outros sistemas computacionais, há quem prefira investir neles e esquecer dos calculistas?
Há uma preocupação muito grande sobre o uso de softwares para o cálculo estrutural, como se estes softwares fossem a solução para qualquer problema de estruturas. Na verdade, eles devem ser encarados como ferramentas para o cálculo. Assim, saber operar um software não significa saber calcular estruturas. Esta pode ser uma diferença importante entre o engenheiro novo e o mais experiente. Não há sistema, por mais sofisticado que seja, que possa ser operado prescindindo do calculista. O software não concebe, ele é apenas uma ferramenta do processo de cálculo como um todo. Achar que, ao adquirir um software, o problema do cálculo está resolvido é a melhor maneira de colocar o empreendimento em risco de segurança estrutural. Falando de BIM, ele não é propriamente um software, e sim um conceito. O Building Information Modeling pretende ter modelado em três dimensões todos os elementos de uma construção e não somente a estrutura. Tecnicamente, nada tem a ver com cálculo estrutural em si. O software que nós utilizamos hoje para cálculo conta com modelagem tridimensional e propriedades destes elementos que permitem interação com modelos BIM. Mas este trabalho de compatibilização de todos os projetos sob modelos BIM não é atribuição do calculista de estruturas.
Ainda sobre os softwares, eles facilitaram ou dificultaram a vida dos calculistas?
Sem dúvida, facilitaram. Desde que o calculista os tome como ferramentas, apenas. Como já comentado, software não concebe estruturas e nem se responsabiliza pelas ações (forças) a serem aplicadas para calcular a estrutura. Também conforme já comentado, discute-se se o software na educação das engenharias ajuda ou atrapalha. Como disse, saber operar um software não significa saber calcular uma estrutura. O mais grave, inclusive, é usar o software e não saber depois avaliar se o resultado apresentado dos cálculos ou desenhos do software estão corretos e adequados. É preciso entender o cálculo estrutural em sua essência para se ter segurança ao calcular.

Para que um engenheiro queira se tornar um calculista, o que é recomendado ele fazer?
Em primeiro lugar, deverá simpatizar com uma série de disciplinas da graduação. Desde o início, é bom não desprezar as aulas de física, principalmente a parte de mecânica. Disciplinas de cálculo e geometria também. Mais para frente, nas disciplinas específicas, é fundamental entender muito bem a disciplina de resistência dos materiais - de fato, um primeiro contato com o cálculo estrutural. Aí vem a disciplina chamada teoria das estruturas, cujo nome já diz tudo. Tem também as disciplinas de sistemas estruturais (o nome varia de escola para escola). Esta última divide-se em estudos do dimensionamento de elementos estruturais nas modalidades de metálica, madeira e concreto. No meu tempo havia disciplinas optativas de estruturas de edifícios (uma visão prática do cálculo estrutural de um edifício) e outras como a disciplina de pontes. Com essa base teórica, o mais indicado é estagiar em um escritório de cálculo e praticar principalmente o desenho estrutural. De nada adianta saber tudo sobre o cálculo e não ter uma boa linguagem em forma de desenhos para a obra. A prática do desenho estrutural, assim como as boas conversas com calculistas mais velhos, ajudam a ter segurança sobre o resultado obtido nos softwares de cálculo.
Em termos de remuneração, é interessante ser um engenheiro-calculista?
Como todos os ofícios, há altos e baixos nesta questão. Estamos falando de construção civil, uma atividade econômica que sabemos nunca ter tido um nível de estabilidade constante. Vai depender da credibilidade adquirida pelo calculista no mercado. Vemos engenheiros, e até mesmos escritórios, que, diante de uma suposta facilitação dos trabalhos pelo uso de softwares, baixaram os preços dos serviços com o intuito de conseguirem muitos projetos. Essa estratégia tem se mostrado frágil e pouco duradoura. Mal comparando, para o construtor/empreendedor/cliente, o calculista é como um "médico de família", tal a responsabilidade que o ofício encerra. Assim, o calculista preparado terá sim como cativar seus clientes e, a partir daí, a remuneração será proporcional a esse bom atendimento e ao bom resultado da obra. Esse conceito não é muito diferente para qualquer outra especialidade da engenharia.
Quanto tempo é necessário para se formar um bom engenheiro-calculista?
Tempos atrás eu diria que seriam razoáveis uns bons dez anos de prática para se atingir uma certa maturidade nesta especialidade. Isso vai depender da quantidade de projetos que o escritório produz. Creio que a melhor formação desse especialista vem da diversidade de problemas que ele enfrenta no escritório. Como hoje a velocidade de projetos é maior, então o calculista em formação vai vivenciar muitos casos especiais em um tempo menor. Difícil dizer, mas talvez ele esteja pronto em cinco ou seis anos. Também é importante: por melhor que tenha sido o curso na graduação, o calculista vai estudar sempre. Os livros, principalmente os antigos, trazem vivências importantíssimas que ajudam a dar firmeza nos conceitos aplicados nos projetos do dia a dia. Não tem jeito, precisa ler muito.
Entrevistado
Engenheiro Civil Tales Pedro de Souza, com 32 anos de experiência em cálculo de estruturas. Sócio-fundador da Benedictis Engenharia e da S4 Sistemas de Engenharia
Contatos
calculista@benedictis.com.br
www.s4sistemas.com.br
talesps@terra.com.br
Crédito Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Zaha Hadid, a “arquiteta de todas as obras”
Reconhecida mundialmente, iraquiana morreu em 31 de março, mas deixou 36 obras com sua assinatura para serem construídas em 21 países
Por: Altair Santos
Dia 31 de março, morreu vítima de infarto, em Miami-EUA, talvez a mais renomada arquiteta do século 21: a iraquiana Zaha Hadid. Com exceção dos países da América Latina, há projetos dela em boa parte do mundo - do Azerbaijão a Hong Kong; do Líbano à Alemanha. Especialista em trabalhar com o concreto, Zaha Hadid era conhecida como a “arquiteta de todas as obras”.

Seu portfólio inclui de casas a prédios, de hospitais a museus, de bases militares a equipamentos esportivos, de pontes a objetos de decoração. Seu primeiro projeto premiado foi uma estação para bombeiros na Alemanha, em 1993. Desde então, Zaha Hadid ganhou todos os grandes troféus da arquitetura: Mies van der Rohe, Prêmio Pritzker (primeira mulher a ganhá-lo) e Praemium Imperiale.
A arquiteta foi também a primeira mulher a receber a medalha de ouro do Instituto Real de Arquitetos Britânicos, em reconhecimento por sua obra. Nascida em Bagdá, e graduada em matemática pela Universidade de Beirute, ela enveredou para a arquitetura após passar pela Associação Arquitetônica de Londres. Em 1979, Hadid abriu seu próprio escritório: o Zaha Hadid Architects.
Autora do projeto do parque aquático das Olimpíadas de Londres, em 2012, a arquiteta foi consultada sobre a possibilidade de projetar equipamentos para a Rio 2016. No entanto, o valor cobrado inviabilizou sua contratação. O escritório Zaha Hadid é considerado o que elabora os projetos mais caros do mundo. Contratada para pensar a infraestrutura dos Jogos de Tóquio, em 2020, também foi descartado pelo governo japonês. Só o estádio olímpico foi orçado em US$ 2 bilhões (R$ 8 bilhões).

Quatro obras ficarão prontas em 2016
Em 2015, o escritório da arquiteta envolveu-se em uma polêmica. Um bloco de concreto pesando aproximadamente 80 quilos desprendeu da fachada do prédio que abriga a biblioteca de economia da Universidade de Viena, na Áustria, e que leva a assinatura de Zaha Hadid. Por ter ocorrido de madrugada, quando o edifício e seu entorno estavam vazios, não houve nenhum vítima.
O desastre, porém, não foi suficiente para abalar o prestígio da arquiteta. Após a sua morte, aos 65 anos, Zaha Hadid deixa 36 obras com sua assinatura, e que ainda estão em construção em 21 países. Quatro deles serão concluídos em 2016: o terminal marítimo Salerno, na Itália (já inaugurado); a Port House, na Antuérpia, na Bélgica; Centro de Estudos e Pesquisas do Petróleo em Riade, na Arábia Saudita; e a Galeria de Matemática no Museu de Ciência de Londres, na Inglaterra.
O escritório Zahad Hadid não será desativado. Seguirá projetando e assumiu o compromisso de manter o legado da arquiteta. Após sua morte, o corpo de profissionais que atuava com ela divulgou uma nota em que reforça o comprometimento: “Zaha é o DNA de Zaha Hadid Architects. Ela continuará a nos guiar e a inspirar todos os dias, e trabalharemos do modo como Zaha nos ensinou: com curiosidade, integridade, paixão e determinação".
Entrevistado
Zaha Hadid Architects (via assessoria de comunicação)
Contato: press@zaha-hadid.com
Créditos Fotos: Divulgação/Zaha Hadid Architects
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Alemanha transforma área degradada em bairro perfeito
Espaço com 116 hectares propõe novo modelo habitacional. Ideia é gerar 100% da energia consumida e criar empregos para todos os moradores
Por: Altair Santos
Um extinto terminal ferroviário, usado para manobras de trens, dentro da cidade alemã de Heidelberg, está se transformando em um bairro perfeito. Na área de 116 hectares (1.160.000 m²) concentra-se a construção de um novo modelo de espaço habitacional. Além de ser capaz de gerar boa parte da energia consumida, o bairro tem a pretensão de ter taxa zero de desemprego. No local, são aceitas apenas startups. Para serem aprovadas, as empresas se submetem a um comitê da Universidade de Heidelberg, a mais antiga da Alemanha – fundada em 1364. A instituição avalia o perfil e o potencial de êxito dentro do Bahnstadt (nome do bairro). A prioridade são as empresas científicas de alta tecnologia.

O bairro também agrega estruturas para o dia a dia de seus habitantes: moradias, unidades comerciais, postos de saúde, escola de ensino fundamental, creches, áreas de recreação, espaços verdes, ciclovia e cinema. Atualmente, o Bahnstadt é o maior empregador de Heidelberg. São 12 mil postos de trabalho, dos quais 5 mil destes trabalhadores vão morar nos edifícios que começam a ficar prontos. A expectativa é de que todas as unidades sejam entregues no final do primeiro semestre de 2016. O projeto se propõe a estar 100% concluído em 2022. Para isso, não são medidos esforços nem recursos. Dois bilhões de euros (aproximadamente R$ 8 bilhões) são investidos na área.
A própria Universidade de Heidelberg desenvolveu os parâmetros para criar um selo de sustentabilidade, a fim de avaliar as unidades habitacionais. A construção usa blocos de concreto celular autoclavado e o projeto dos prédios, idealizado pelo escritório Fischer Architekten, explora grandes espaços envidraçados. O objetivo é cumprir com eficiência o desempenho térmico. No inverno, permitir a entrada de muita luz; no verão, proporcionar a difusão do calor. Por isso, os edifícios, com quatro pavimentos cada um, também possuem telhados verdes. Mas a principal característica das residências do Bahnstadt é que elas geram baixíssimas taxas de passivo ambiental, ou seja, reaproveitam até 70% dos resíduos para gerar energia.
Apartamentos custam R$ 1 milhão
Para o professor Wolfgang Feist, diretor do Instituto de Casas Sustentáveis da Alemanha, as residências de Bahnstadt se anteciparam às novas diretrizes de construção sustentável que entrarão em vigor na Europa a partir de 2021, através da Directiva Europeia Building Performance. "São casas com máxima eficiência energética, mas não é só isso: o bairro todo segue rigorosos conceitos de sustentabilidade”, diz Wolfgang Feist. De fato. O compromisso com a emissão zero do CO2 proíbe que veículos que utilizem combustíveis fósseis circulem nos 116 hectares do bairro. São permitidos bicicletas e veículos elétricos.
A iluminação pública também é inovadora. Os postes possuem lâmpadas de LED e elas são acionadas por uma central inteligente. Quando a iluminação natural fica abaixo de 30%, o sistema é acionado. Ao amanhecer, quando a iluminação natural chega a 30%, as lâmpadas se apagam automaticamente. Todo encanamento e cabeamento para operar distribuição de gás, internet e iluminação pública são subterrâneos. “Mesmo antes de estar totalmente pronto, já temos uma certeza: Bahnstadt funciona”, finaliza Wolfgang Feist. Para comprar um apartamento no bairro perfeito, basta ter 260 mil euros (cerca de R$ 1 milhão).
Veja aqui a área ocupada pelo Bahnstadt.
Entrevistados
Achim Fischer, relações públicas da cidade de Heidelberg
Parque Tecnológico de Heidelberg (via assessoria de comunicação)
Prefeitura de Heildelberg (via assessoria de comunicação)
Contatos
stadt@heidelberg.de
oeffentlichkeitsarbeit@heidelberg.de
www.technologiepark-heidelberg.de
Crédito Foto: Divulgação/Bahnstadt
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Escada pré-fabricada de concreto sobe no conceito da obra
Estruturas agilizam o cronograma. Feitas sob medida, depois de prontas elas são instaladas sem comprometer outras etapas da construção
Por: Altair Santos
Os projetos arquitetônicos que prevêem escadas estão dispensando construí-las in loco, e optando pelos equipamentos pré-fabricados. Os principais motivos: as estruturas são mais precisas e economizam tempo no cronograma da obra. Feitas sob medida, depois de prontas as escadas são instaladas sem comprometer outras etapas da construção. “Além destas vantagens, elas permitem ganho de espaço e dão mais leveza ao ambiente. Somando tudo, o investimento, colocado na ponta do lápis, acaba saindo mais em conta que a escada convencional”, aponta o engenheiro civil Ezequiel Cidral.

Especialista em pré-fabricados, o engenheiro lembra que as escadas de serviço de prédios ainda são construídas através do sistema convencional, seja por questões de projeto ou de logística. No entanto, quando elas têm a finalidade de ser um elemento decorativo da obra, opta-se pelas estruturas pré-fabricadas. Hoje, os principais consumidores deste tipo de produto são escritórios de arquitetura especializados em projetar casas. Neste caso, as escadas são personalizadas e podem custar de R$ 2.500 a R$ 30 mil, dependendo de suas características e dos materiais de acabamento.
Cada projeto de escada pré-fabricada de concreto necessita de fôrmas exclusivas. “Por exigir medidas exatas, uma escada nunca sai como a outra. Neste caso, temos que produzir fôrmas para cada uma delas”, ressalta Ezequiel Cidral. A fabricação de uma escada leva de dois a quatro dias, dependendo do porte da obra. Já a montagem pode chegar a 12 dias. No local em que será instalada, a escada é chumbada em paredes, vigas e pilares. “No caso de elementos que precisam ser fixados em vigas laterais, daí é necessário desenvolver sapatas próprias para receber essas estruturas”, completa o engenheiro.

Normas e medidas
As escadas pré-fabricadas devem atender tanto as normas técnicas relacionadas ao concreto armado quanto às de segurança. Depois de prontas, elas aceitam vários materiais de acabamento: granito, mármore, madeira, porcelanato, vidro ou qualquer outro tipo de revestimento. Atualmente também têm se destacado as escadas pré-fabricadas em concreto aparente.
A construção de uma escada tem quatro medidas prioritárias: a proporção dos degraus, o comprimento da escada, o número de degraus e a largura dos degraus.
Proporção dos degraus
É necessário que exista uma proporção entre altura e profundidade de cada degrau. Existe uma regra-padrão adotada pela maioria dos construtores, que é 18 centímetros de altura por 27 centímetros de profundidade.
Comprimento da escada
Muda de projeto para projeto, mas também existe uma regra para se chegar ao tamanho exato. Neste caso, ela deve levar em conta a altura e a profundidade de cada degrau da escada.
Número de degraus
Também existe uma regra: normalmente divide-se a altura entre os dois pavimentos por 18 centímetros, sempre levando em consideração as diferenças milimétricas do cálculo.
Largura do degrau
Também depende de cada projeto, mas o padrão vai de 80 centímetros a 120 centímetros.
Entrevistado
Engenheiro civil Ezequiel Cidral, CEO da Escadas Millenium
Contato: contato@escadasmillenium.com
Crédito Foto: Divulgação/Escadas Millenium
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Futuro tira engenheiro civil da “zona de conforto”
Pesquisa mostra que profissional precisa unificar conhecimentos contidos em outras atividades e investir na capacitação continuada
Por: Altair Santos
A engenharia civil se reinventa nos laboratórios de pesquisa, agregando inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, impressoras 3D e até biotecnologia. No entanto, ainda conta com uma grade curricular ultrapassada, sobretudo no Brasil. Segundo recente pesquisa divulgada no Fórum Econômico Mundial, denominada "O Futuro do Trabalho", haverá a extinção de 5,1 milhões de empregos no mundo até 2021. No estudo, há um capítulo exclusivo que trata da engenharia e de profissões correlatas. A análise é que a formação da engenharia - sobretudo os cursos mais tradicionais, como a civil - terá que unificar ensinamentos contidos em outras profissões, além de adequar-se a uma nova realidade: a capacitação continuada.

A pesquisa avalia que, além das tecnologias, o cenário globalizado derrubou paradigmas e estabeleceu novos conceitos. Mesmo as empresas regionais já operam interligadas com outras partes do mundo. “Está em curso uma nova revolução industrial, que, consequentemente, impactará no conjunto de habilidades requeridas para prosperar neste novo panorama”, diz relatório que acompanha o estudo do Fórum Econômico Mundial. Essa revolução tem nome: Indústria 4.0. Ela representa a descontinuidade do modelo de produção vigente e deriva de novos produtos e processos ocorridos na fronteira da ciência, como a convergência entre info, nano, bio e neuro-cogno tecnologias.
Essas descobertas possuem aplicações em praticamente todas as áreas: da química à física, da biologia à medicina, da engenharia à computação. Não resta dúvida de que a “Quarta Revolução Industrial” abre um mundo de possibilidades, mas traz consigo grandes desafios aos profissionais, principalmente os que estão chegando agora no mercado de trabalho. “O tempo de ser especializado em uma única área do trabalho acabou”, indica o documento apresentado na 46ª edição do Fórum Econômico Mundial, que acontece anualmente em Davos (Suíça). Com essa análise, as grades curriculares dos cursos de engenharia - especialmente nas universidades brasileiras - estão colocadas em xeque.
Currículo defasado e evasão
A mais recente atualização curricular dos cursos de engenharia proposta pelo MEC (Ministério da Educação) ocorreu em 2002. Não há no horizonte nenhuma outra proposta de reforma, mesmo diante das insistentes indicações do mercado de trabalho. Para tentar qualificar minimamente seus graduados, as instituições de ensino superior têm feito ajustes pontuais na grade curricular. No entanto, sem diretrizes do governo federal, as escolas estão impedidas de implantar reformas profundas em seus cursos. No caso das universidades menos conceituadas, elas se restringem a oferecer apenas o conteúdo mínimo exigido pelo MEC. Isso criou uma disparidade entre cursos. Enquanto alguns chegam a ter 4.200 horas de carga horária, outros ofertam no máximo 3.600 horas ao longo de cinco anos de graduação.
Crítico do modelo de ensino das escolas de engenharia, o engenheiro civil Francis Bogossian, que já presidiu várias associações de classe, aponta que o Brasil caminha na contramão de outros países. Enquanto russos e chineses, por exemplo, investem maciçamente na formação de engenheiros, o país não consegue conter a evasão. ”De cada 172 alunos que ingressam nos cursos, apenas 95 os concluem. A formação de novos engenheiros também cresce muito abaixo das necessidades do país. Tem sido inferior à formação em Direito e Administração de empresas. Acrescente-se que os graduados em engenharia no Brasil são menos de 20% dos russos e de 8% dos chineses”, alerta, em artigo escrito recentemente, com o título Mais uma crise na nossa engenharia.
Veja a íntegra do documento do Fórum Econômico Mundial.
Entrevistado
Fórum Mundial do Trabalho (via assessoria de mídia)
Contato: contact@weforum.org
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
A 100 dias das Olimpíadas, Rio sofre com obras
Equipamentos esportivos dão sinais de que ficarão prontos a tempo, mas mobilidade urbana mostra fragilidade
Por: Altair Santos
Dia 27 de abril a cidade do Rio de Janeiro iniciou a contagem regressiva de 100 dias para o início dos jogos olímpicos. Transformada em canteiro de obras, a capital fluminense se divide em duas frentes. Uma se relaciona com os equipamentos esportivos, cuja boa parte está com a execução das obras entre 90% e 100%; outra, diz respeito às estruturas de mobilidade urbana projetadas para o Rio, e que ainda não se transformaram em legado olímpico. Pelo contrário, repercutem negativamente sobre o evento.

Além de correr contra o tempo para que as obras fiquem prontas até o início das Olimpíadas, a prefeitura do Rio precisa, agora, comprovar que as construções têm qualidade. A queda de um trecho da ciclovia Tim Maia reforça essa tese. Dia 21 de abril, a infraestrutura não resistiu ao impacto de uma forte onda e um dos tabuleiros pré-fabricados da ciclovia desabou, matando duas pessoas. As conclusões preliminares são de que houve erro de projeto, o que levou a estrutura a não resistir ao impacto da onda.
Inaugurada em janeiro de 2016, a ciclovia já havia causado preocupação no Tribunal de Contas do Município em julho de 2015, quando uma auditoria identificou problemas em sua construção. O documento alertou para “trincas” e “depressões”, pedindo a correção das falhas. A preocupação tornou-se pública após o acidente e a secretaria de obras do município disse que atendeu às solicitações do tribunal.
O caso da ciclovia, que por si só é emblemático, repercute sobre outras obras relevantes para a cidade, como o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) que leva ao aeroporto Santos Dumont e a linha de metrô que ligará a zona sul à zona oeste – local onde estão concentrados os equipamentos esportivos e a vila olímpica. O cronograma desse empreendimento prevê a inauguração para julho. Porém, só no final de abril é que as escavações foram concluídas.
Falta de planejamento
Mesmo assim, o poder público da cidade assegura que a chamada Linha 4 do Metrô será finalizada a tempo. "Eu garanto que o metrô será operacional durante os jogos olímpicos", insiste Rodrigo Vieira, secretário estadual de transportes do Rio de Janeiro. Segundo ele, as obras estão 93% finalizadas. Porém, mesmo com a palavra da autoridade, a prefeitura do Rio desenvolve um plano B. Entre eles, reforçar a frota de ônibus para os locais dos jogos, autorizar o serviço de vans particulares e decretar feriado na cidade para reduzir o fluxo de veículos.

Com o metrô, a meta é transportar 300 mil passageiros por dia e tirar 2 mil carros de circulação diariamente. Essa obra está para os jogos olímpicos como o velocista jamaicano Usain Bolt para o atletismo. Usando a Linha 4, o deslocamento da zona sul até a zona oeste do Rio será feito em 13 minutos. Hoje, de carro ou de ônibus, esse percurso não se concretiza em menos de duas horas. Eis o verdadeiro legado para uma cidade que espera 450 mil visitantes entre 5 e 23 de agosto.
A conta das Olimpíadas ainda não está fechada, mas já ultrapassa R$ 39 bilhões. Destes recursos, R$ 18 bilhões foram para investimento em mobilidade urbana no Rio de Janeiro. Os organismos públicos justificam os gastos elevados dizendo que a cidade passou 60 anos sem obras relevantes em transporte público. Em outras palavras, faltou planejamento adequado. Tanto lá atrás, quanto agora. Isso se reflete em orçamentos astronômicos, cronogramas apertados e perda de vidas humanas. Além das vítimas na queda da ciclovia, 11 operários morreram no conjunto de obras para os jogos. Diante deste cenário, e a 100 dias do início do evento, o Rio conseguirá uma medalha olímpica?
Entrevistados
Secretaria de transportes do governo do Rio de Janeiro e Secretaria de Obras Públicas da Prefeitura do Rio de Janeiro (via assessorias de imprensa)
Contatos
transportes@transportes.rj.gov.br
riourbe@pcrj.rj.gov.br
Créditos Fotos: Divulgação/Prefeitura do Rio/Fernando Frazão/Agência Brasil













