Basílica da Sagrada Família em Barcelona, enfim, será concluída
Projetada por Gaudí, a icônica edificação - símbolo da arquitetura expressionista - será concluída até 2026, por R$ 900 milhões
Por: Altair Santos
A Basílica da Sagrada Família, na cidade de Barcelona, é famosa por três motivos: foi projetada por Antoni Gaudí, tornou-se um símbolo da arquitetura expressionista e suas obras, iniciadas em 1882, nunca foram concluídas. Pois agora, um grupo de arquitetos catalães definiu uma data para que a igreja seja, finalmente, finalizada. O prazo é 2026. O orçamento, estimado em 250 milhões de euros (cerca de R$ 900 milhões), será bancado pelo Vaticano, por doações e pela venda de ingressos.

Quando pronta, a basílica terá 18 torres – atualmente 8 estão concluídas -, sendo que a mais alta alcançará 172,5 metros de altura. Assim, a igreja se tornará a mais alta da Europa, e também a maior edificação de Barcelona. Na simbologia projetada por Gaudí, cada torre representa um dos 12 apóstolos, além de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos quatro Evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João). A torre que levará o nome de Jesus será a mais alta de todas.
A data de conclusão da Basílica da Sagrada Família não é por acaso. Ela coincidirá com o centenário da morte de Antoni Gaudí. Até lá, a expectativa é de que a edificação, que foi declarada patrimônio da humanidade em 2005, chegue à marca de 5 milhões de visitantes por ano. Segundo rankings especializados em turismo, a basílica é o 5º lugar que mais desperta o interesse de turistas em todo o mundo. Em 2015, 3,4 milhões de pessoas que estiveram em Barcelona passaram pela igreja.
Tecnologia a serviço da obra

O arquiteto à frente da obra é o catalão Jordi Fauli. Ele conta que, juntas, as torres em construção vão pesar 23 mil toneladas. Para sustentá-las, a engenharia projetou elementos estruturais de pedra, cada um medindo seis metros de base por cinco metros de altura, em formato de “M”. Tirantes de aço no interior de cada bloco irão tensionar as torres, para que elas resistam ao vento. “A basílica está 70% concluída e Gaudí deixou todos os projetos concebidos para finalizá-la. Óbvio que o avanço tecnológico permite que alteremos alguns conceitos na execução da obra”, explica o arquiteto.
Jordi Fauli está no comando do projeto de conclusão da Basílica da Sagrada Família desde 2012. Ele comanda uma equipe de outros cinco arquitetos: Carles Buxadé, Joan Margarit, Josep Gómez, Jordi Coll, Mark Burry. O objetivo do grupo é preservar ao máximo o projeto original de Gaudí. O arquiteto catalão morreu em 1926, vítima de um atropelamento. Todo o seu legado encontra-se em Barcelona e na região da Catalunha, na Espanha. Admirador do estilo neogótico, suas obras influenciam fortemente a arquitetura da cidade catalã.
Gaudí tinha 31 anos quando assumiu o projeto da basílica. Antes de morrer, o arquiteto havia conseguido construir apenas uma torre. Do projeto original, ele deixou as plantas e uma maquete em gesso, que foi seriamente danificada durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939).

Veja o vídeo de como ficará a Basílica da Sagrada Família após a conclusão
Entrevistado
Fundação para a construção do templo expiatório da Sagrada Família (via departamento de comunicação)
Contatos
informacio@sagradafamilia.org
www.Sagradafamilia.org
Créditos Fotos: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Universidade mexicana cria cimento fosforescente
Material funciona como uma bateria solar: durante o dia, alimenta-se de energia; à noite, emite luz. Segredo está nos microagregados
Por: Altair Santos
Pesquisadores do departamento de engenharia civil da Universidade Michoacana de San Nicolás de Hidalgo (UMSNH), no México, anunciaram recentemente ter conseguido produzir um tipo de cimento branco fosforescente. O material funciona como uma bateria: durante o dia, alimenta-se da energia solar; à noite, emite luz. Para chegar à matriz com propriedades luminescentes, a equipe da UMSNH agregou elementos de sílica, resíduos industriais e hidróxido de sódio e potássio ao cimento.

Os elementos alteraram a microestrutura do material, reduzindo a opacidade inerente ao cimento. Quando usado para a produção de concreto, o produto preserva suas propriedades e pode ser utilizado na iluminação sustentável de edifícios, na sinalização de ciclovias e mobiliários urbanos, além de servir como efeito decorativo em ambientes internos e externos. “Na verdade, a aplicação dele é ampla”, define José Carlos Rubio Ávalos, Ph.D do departamento de engenharia da UMSNH.
Os estudos coordenados por Rubio partiram de pesquisas sobre fotoluminescência, e que já são aplicadas na indústria de plástico. "Achamos que poderíamos agregar essas propriedades ao cimento, com resultados bem satisfatórios", diz o cientista, que ressalta: não se consegue dar o efeito de fosforescência ao cimento Portland. “No cimento branco, a luz consegue penetrar. Já no cimento convencional, ou Portland, isso não ocorre. A luz atinge a superfície, mas não penetra", revela.
Um dos maiores desafios dos pesquisadores do novo material foi a manutenção da durabilidade e das características de trabalhabilidade do cimento branco original. Ao contrário dos produtos poliméricos fotoluminescentes, o concreto fabricado com o material fosforescente é capaz de resistir à ação da radiação ultravioleta sem se deteriorar prematuramente, sendo capaz de manter o seu desempenho mecânico por um período similar ao do concreto convencional.

Luz por oito horas
A capacidade de armazenamento de energia do cimento branco fosforescente desenvolvido na universidade mexicana pode emitir luz por um período máximo de oito horas. Isso, em condições meteorológicas favoráveis, ou seja, com luz solar intensa. “Quanto maior o nível de intensidade solar, melhor, pois os elementos microagregados ao cimento reagem bem aos raios ultravioletas, ajudando o material a manter sua coloração e evitando riscos patológicos às estruturas do concreto”, afirma José Carlos Rubio Ávalos.
À frente de uma pesquisa que já dura nove anos, o Ph.D da UMSNH evita revelar detalhadamente a formulação do cimento, pois o material ainda está em processo de obtenção de patente junto ao Instituto Mexicano de Propriedade Industrial (IMPI) . O pesquisador também não divulga dados sobre a resistência do cimento fotoluminescente. Pioneiro, o projeto mexicano desencadeou pesquisas em outros países. A Academia Real de Engenharia de Londres também desenvolve um cimento com características semelhantes, assim como a Universidade de Tecnologia de Delf, na Holanda.
Porém, à frente dos concorrentes, a UMSNH agora trabalha para transferir a tecnologia para a indústria cimenteira. Os pesquisadores da universidade também desenvolvem estudos para conseguir tornar materiais como gesso e cerâmicos igualmente fosforescentes. “Já imaginou banheiros e piscinas emitindo luz própria?”, questiona José Carlos Rubio Ávalos, convicto de que seu invento vai revolucionar a indústria do cimento no mundo.
Entrevistado
José Carlos Rubio Ávalos, Ph.D em ciência dos materiais, pelo Centro de Investigación y de Estudios Avanzados (Cinvestav) e pelo Instituto Politécnico Nacional (IPN) do México
Contato: j.c.rubio.avalos@gmail.com
Créditos Fotos: Divulgação/UMSNH
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Bloco de concreto família 11,5 faz mais com menos
Material assegura ganho de produtividade, facilita a modulação, racionaliza o canteiro e permite economia média de 30% no custo da obra
Por: Altair Santos
A ABCP Sul (Associação Brasileira de Cimento Portland da região Sul) tem acompanhado obras com o emprego do bloco de concreto família 11,5. Entre os empreendimentos, estão casas com 50 m2, que tiveram a estrutura e a alvenaria concluídas em dois dias. O canteiro envolve poucos profissionais, além de ressaltar a fácil modulação, a praticidade e a produtividade, explica o engenheiro civil Alex Maschio, gerente regional Sul da ABCP. Na entrevista a seguir, ele explica como o uso de blocos de concreto ajuda a fazer mais com menos, sem abdicar da qualidade. Confira:

O senhor poderia explanar como se deu a construção de casas de 50 m², cuja alvenaria de cada unidade ficou pronta em dois dias usando blocos de concreto 11,5?
Isso foi possível devido à alta produtividade obtida quando utilizados blocos de concreto. Pela simplicidade do processo construtivo, e a facilidade de modulação dessa família de blocos, um profissional com pouca experiência consegue produzir até quatro vezes mais que no sistema convencional, com tijolos de barro. Trata-se de um salto de 7 m²/homem/dia, no convencional, para mais de 30 m²/homem/dia. É importante deixar claro que em dois dias ficou pronta a alvenaria e a estrutura de cada edificação, e não a residência como um todo. Para atingir essa produtividade, é fundamental também optar por argamassa industrializada (ensacada ou estabilizada), evitando assim desperdícios e perda de tempo em obra.
O bloco de concreto 11,5 é o ideal para projetos que envolvem alvenaria estrutural?
A palavra ideal limita muito. Cada obra é uma obra, e essa família de blocos certamente é uma opção muito interessante para uma boa gama de situações. Mas há outras situações em que outras famílias de blocos de concreto podem ser mais adequadas. A ABNT NBR 6136:2004 (Blocos vazados de concreto simples para alvenaria – Requisitos) especifica nove famílias de blocos, entre as quais a 12,5 x 25 (utilizada na obra em questão e conhecida como família 11,5). Neste caso, os blocos têm 11,5 cm de largura x 24 cm de comprimento e 19 cm de altura, mas considerando a argamassa de assentamento e acabamento, considera-se 12,5 x 25 x 20 cm de altura. Cada tipo de bloco tem suas características específicas e adapta-se melhor a determinados tipos de obra. Em obras verticais de maior porte, por exemplo, são utilizadas famílias com blocos maiores e com paredes mais espessas na busca por uma maior produtividade e maior resistência das peças. Outro aspecto importante é pensar nos desempenhos térmico, acústico e de durabilidade, que também irão impactar no tipo de bloco a ser utilizado. Enfim, a família 12,5 x 25 (com blocos de 11,5 centímetros) certamente é uma excelente opção para obras de alvenaria estrutural, principalmente térreas, mas não podemos dizer ideal para todas as situações.
A principal vantagem do bloco de concreto 11,5 é que ele permite fazer mais com menos?
Não só o bloco 11,5 cm, mas todos os blocos de concreto. A solução de alvenaria estrutural racionaliza o processo construtivo, elimina desperdícios e aumenta a produtividade, proporcionando uma economia de até 30% no custo total da obra (em relação apenas aos blocos, podemos dizer que 1,0 m² de alvenaria com bloco 11,5 custa, em termos gerais, 25% menos que os blocos convencionais de 14 cm). O bloco 11,5 cm, em obras baixas, possibilita acentuar esse ganho, pois a fácil modulação e baixo peso das peças aceleram ainda mais o processo construtivo. Vale frisar que os blocos 11,5 são também uma excelente solução para alvenaria de vedação/fechamento em obras com estrutura de concreto armado convencional. Eles aceleram a execução, eliminam desperdícios e simplificam a passagem de tubulações. Em resumo, as vantagens são:
- Fácil e precisa quantificação, em virtude de sua modulação simplificada (um dois e três "furos" apenas)
- Limpeza da obra (pequena ou nenhuma geração de resíduos)
- Ganho de produtividade
- Redução no consumo de argamassa de assentamento
- Regularidade e redução nos revestimentos
- Execução simplificada
- Excelente desempenho térmico e acústico
- Menor custo da alvenaria

Esse tipo de obra seria uma solução para habitações de interesse social?
Certamente é, e não só para habitações de baixa renda, mas para qualquer tipo de edificação a ser construída. Como mencionei anteriormente, a utilização de blocos de concreto possui uma série de vantagens que permitem fazer mais com menos. O bloco 11,5 vem para agregar ainda mais, pois traz consigo também a simples modulação.
As casas construídas foram um protótipo ou já têm condições de ser construídas em larga escala?
Trata-se de um projeto da Construtora Joama, sendo a residência parte de um condomínio residencial. Portanto, não é um protótipo. Com certeza, pode ser produzida em larga escala e, inclusive, temos diversos exemplos espalhados no Brasil que já utilizam bloco 11,5. Inclusive, alvenaria estrutural com blocos de concreto é o sistema mais utilizado nas obras do programa Minha Ca Minha Vida. O grande ponto aqui não é o ineditismo, mas sim a versatilidade desse bloco de 11,5cm.
Outra vantagem foi o emprego reduzido de mão de obra, correto?
Sem dúvida, a utilização de blocos de concreto racionaliza o canteiro e, por si só, permite a redução de mão de obra. A produtividade aumenta e a simplicidade executiva permite que uma pequena equipe execute um serviço de alto rendimento, sem que haja perda de qualidade.
Os profissionais têm alguma especialização ou são pedreiros e mestre de obras?
Mão de obra normal, sem especialização. Quanto mais se faz, mais produtivo fica. Obviamente, uma equipe com mais experiência irá produzir com maior velocidade, mas nada impede que qualquer pessoa possa efetuar uma ampliação de sua casa utilizando-se desse sistema.
Qual a praticidade da obra em termos de modulação e produtividade?
A fácil modulação permite utilizar este tipo de bloco em qualquer obra, desde uma pequena ampliação em uma residência até um edifício. Dependendo do tipo de uso se faz necessário um projeto específico e detalhado - no caso de edifícios, por exemplo. Principalmente, se o uso for pelo sistema de alvenaria estrutural.
Qual o custo de uma obra deste tipo?
O custo é um aspecto muito abrangente e dependente de vários fatores, entre eles acabamento e terreno. O que posso salientar é que, com a utilização dos blocos 11,5, a construção pode chegar a uma economia de 30% no custo total, variando de acordo com a especificidade de cada obra.

Para entregar a casa pronta para morar levaria quantos dias mais, já que apenas a alvenaria ficou pronta em dois dias?
Esse é outro aspecto complexo. Quanto maior a repetição, menos dias se leva para edificar uma casa. Isso é racionalização. A ideia é transformar o canteiro de obras em linha de produção. Para exemplificar: se tivermos um condomínio com 180 casas iguais de 50 m² é muito provável que seja possível concluí-las em menos de seis meses, o que daria uma casa por dia. Como é possível, se só a alvenaria leva mais de um? Aí entra a industrialização ou racionalização. No entanto, se formos fazer apenas uma casa de 50 m², é provável que se leve em torno de um mês, ou algo assim, pois cada etapa tem de ser feita respeitando o prazo da anterior. Portanto, é melhor se evitar parâmetros quando se fala em custo e prazo, para não incorrer em erros.
Como está o emprego deste sistema nas construtoras e nas companhias de habitação?
Várias são as empresas que constroem edificações desse tipo e, inclusive, trabalham com companhias de habitação. Da mesma maneira, são vários os fornecedores de blocos de concreto que vendem o material. Porém, são poucos os que fabricam com qualidade, o que vale um parágrafo à parte. Os blocos devem atender as especificações da ABNT NBR 6136 e, para simplificar esse conhecimento, existe a ferramenta do selo de qualidade da ABCP. A ABCP coleta peças nas fábricas e ensaia de acordo com a norma. Caso a empresa atenda integralmente os requisitos, ela obtém essa certificação. Além disso, tem o PSQ (Programa Setorial de Qualidade) do Ministério das Cidades, onde fornecedores são certificados de acordo com a qualidade dos seus insumos para que os mesmos possam ser utilizados em obras do MCMV, por exemplo.
Entrevistado
Engenheiro civil Alex Maschio, especialista em administração com ênfase em planejamento e gestão de negócios. Atua na ABCP há 10 anos e, desde 2010, é gerente regional Sul da ABCP
Contatos
alexsander.maschio@abcp.org.br
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Créditos Fotos: Divulgação/ABCP Sul
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Loteamento: do projeto à execução, saiba como fazer
Seja para empreendimentos de alto padrão ou construção de casas populares, área tem que cumprir algumas exigências antes de receber obras
Por: Altair Santos
Loteamentos para empreendimentos de alto padrão ou para a construção de casas populares precisam cumprir algumas exigências, antes de receber obras. Obter licença ambiental, ter um estudo de geotecnia do solo e adequação à legislação local são alguns dos procedimentos básicos. Em seguida, o projeto deve levar em consideração a topografia do terreno, a drenagem e as instalações para saneamento básico, eletricidade e telefonia. Pavimentação e paisagismo também são relevantes. Além da localização, loteamentos se valorizam de acordo com as benfeitorias que agregam e da infraestrutura em seu entorno. É o que garante o arquiteto e urbanista Eduardo Paranhos Coelho, que explica o passo a passo para um loteamento não enfrentar problemas. Confira:

Quando se pensa em empreender um loteamento quais exigências devem ser cumpridas antes que as obras iniciem?
Antes de iniciar qualquer obra é preciso obter todas as licenças necessárias para sua execução. Licenciamento ambiental e aprovação na prefeitura municipal são itens básicos a serem cumpridos. Dependendo da complexidade e porte do empreendimento, exigências adicionais podem ocorrer, como, por exemplo, desenvolvimento de estudos ambientais mais detalhados como EIV (Estudo de Impacto da Vizinhança) ou EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), nos quais são definidas medidas mitigadoras para o impacto a ser gerado. A etapa de regularização da área (retificação, subdivisão ou unificação) também é muito importante e, por vezes, demorada, principalmente quando envolve retificação. No entanto, havendo essa necessidade, é preciso regularizar a matrícula para que o processo de aprovação seja concluído com base em uma matrícula que descreve a realidade do terreno.
Como funciona a obtenção de licença ambiental, estudos de geotecnia do solo e adequação à legislação local. Esses procedimentos são os mais demorados para se conseguir?
O processo de licenciamento ambiental normalmente é dividido em três etapas:
1. Licença prévia, apresentando os estudos iniciais de ocupação da área.
2. Licença de instalação, apresentando todos os projetos de urbanismo e infraestrutura aprovados pelos organismos competentes.
3. Licença de ocupação, após certificar-se da correta execução das obras.
Sem dúvida é uma das etapas mais demoradas de todo o processo de aprovação.
Já os estudos de geotecnia do solo (ou sondagem) são fundamentais para o desenvolvimento dos projetos de infraestrutura. Neles, podemos identificar o tipo de solo, profundidade do lençol freático e existência de rochas. Todas essas informações são muito relevantes para o desenvolvimento dos projetos executivos.
Com relação à legislação, apesar do parcelamento de solo ser regido pela lei federal 6766/79, é sempre importante a análise detalhada da legislação municipal, visto que podem existir exigências municipais mais restritivas que a lei federal.
Loteamentos têm projetos? Caso sim, o que eles envolvem?
Para a aprovação de loteamentos é necessário desenvolver diversos projetos. Entre eles: urbanístico, paisagismo, arborização viária, sinalização viária (vertical e horizontal), pavimentação, rede de drenagem de águas pluviais, rede de esgoto, rede de água, rede elétrica e terraplenagem.
Todos os projetos precisam ser aprovados por organismos públicos, seja a prefeitura e suas secretarias ou alguma concessionária, no caso da rede elétrica ou rede de água e esgoto, por exemplo.
Topografia (terraplenagem) do terreno, drenagem e instalações para saneamento básico são obras que ficam a cargo da incorporadora do loteamento?
Todas as obras de infraestrutura necessárias para a implantação de um loteamento são responsabilidade da incorporadora. É necessário entregar a obra com todas as redes (água, esgoto, elétrica e telefônica) devidamente testadas e aceitas pelas respectivas concessionárias para que a prefeitura emita o termo de recebimento, garantindo que todas as obrigações do incorporador foram devidamente executadas.
Pavimentação e paisagismo também são relevantes?
São projetos importantes para a implantação do loteamento. O projeto de pavimentação fornece o correto dimensionamento para garantir que a estrutura viária suporte o tráfego pretendido para o local. É uma garantia importante, visto que as vias públicas de um loteamento são doadas ao município, ficando a responsabilidade da manutenção à cargo das prefeituras. Quanto ao paisagismo, as prefeituras normalmente exigem apenas o projeto de arborização viária, que deve seguir as diretrizes municipais para definição das espécies. O projeto de paisagismo mais abrangente pode contribuir bastante como diferencial do loteamento. Tratamentos paisagísticos adequados, criação de parques lineares ao longo dos cursos d’água, valorização de pontos focais, criando perspectivas atrativas, podem agregar muito ao local.
Loteamentos se valorizam de acordo com as benfeitorias que agregam e da infraestrutura em seu entorno?
Pensar em diferenciais no projeto sempre colabora com a valorização da área e do seu entorno. E este é, sem dúvida, um dos aspectos importantes a serem considerados quando nós, arquitetos e urbanistas, propomos a expansão na ocupação da cidade. Sem dúvida as benfeitorias e melhorias na infraestrutura local colaboram para a valorização da área. Além disso, a lei de parcelamento do solo exige a doação ao município de um percentual de área institucional para que a prefeitura possa implantar equipamentos comunitários necessários para atender a demanda da população (escolas, postos de saúde, hospitais etc).
O que muda quando um loteamento é pensado para receber construções de alto padrão dos projetados para receber habitações populares?
As premissas da lei federal 6766/79 devem ser respeitadas para qualquer tipo de loteamento. Destinar áreas institucionais, implantar infraestrutura completa, respeitar diretrizes viárias existentes e restrições ambientais da área são princípios básicos. A diferença maior ocorre no tamanho dos lotes. Nas áreas com vocação para loteamentos populares, normalmente são permitidos lotes menores. Já as áreas com vocação para loteamentos de alto padrão, normalmente são áreas com maiores restrições quanto à densidade habitacional permitida, o que reflete em lotes maiores. Os parâmetros para os diferentes zoneamentos da cidade são definidos pela Lei de Uso e Ocupação do Solo. Essa lei direciona a forma e sentido de crescimento das cidades. Define diferentes gabaritos e densidades de ocupação.
A escassez de terrenos nos grandes centros urbanos projeta qual cenário para os loteamentos?
É importante que os organismos públicos utilizem bem os instrumentos que possuem para evitar a ocupação desordenada nos centros urbanos. As revisões periódicas na lei de uso e do solo são os melhores mecanismos para conduzir esse processo. Em virtude da escassez de terrenos, a tendência é que os novos loteamentos sigam os eixos de crescimento da cidade, expandindo o perímetro urbano existente. Cabe às prefeituras limitarem essa expansão para que não sejam criados vazios urbanos, dificultando a prestação dos serviços básicos, como transporte público e coleta de lixo.
Arquitetos e engenheiros que atuam na urbanização de loteamentos devem ter qual expertise?
Precisam conhecer o mercado local e entender as demandas da cidade. Acertar o produto a ser oferecido é essencial. Também devem ter pleno conhecimento da legislação, garantindo o atendimento a todas as exigências legais para a execução da obra. Entender a relação entre todos os projetos necessários para implantação de loteamentos é igualmente importante. A correta compatibilização dos projetos permite identificar antecipadamente eventuais interferências entre as redes de infraestrutura, evitando ajustes durante a obra. Tudo isso colabora para um correto provisionamento financeiro do empreendimento, bem como previne retrabalhos e gastos imprevistos, o que é bastante relevante ao analisarmos o negócio como um todo. Por fim, gera impactos nos lucros projetados, que atraem parceiros e investidores.
Diante deste apanhado, quais os principais custos que compõem a infraestrutura de loteamentos?
Os custos de obra mais significativos são pavimentação, rede elétrica e drenagem. Eventuais medidas mitigadoras exigidas em função do porte do empreendimento também podem ser significativas no custo global da obra.
Entrevistado
Arquiteto e urbanista Eduardo Paranhos Coelho, com graduação pela PUC-PR e pós-graduação em construções sustentáveis pela UTFPR. É gerente de projetos na Paysage Empreendimentos
Contato: eduardo.coelho@paysage.com.br
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Realidade virtual transforma compra de imóvel em game
Tecnologia já está disponível e promete revolucionar mercado imobiliário. Porém, especialistas alertam: nada substitui o relacionamento humano
Por: Altair Santos
A tecnologia não para de transformar o mercado imobiliário. Depois da internet e dos aplicativos, chegou a vez da realidade virtual mudar a forma de como o setor se relaciona com o cliente. Agora, não é mais o “apartamento decorado” que define a compra, mas a quantidade de imóveis disponíveis nos óculos 3D. O equipamento promete transformar o sonho da casa própria em videogame.

Recentemente, no Conecta Imobi 2016 - principal evento de marketing imobiliário do país -, especialistas definiram que, com a realidade virtual, o consumidor não irá apenas comprar um produto. Ele vai querer comprar uma experiência. É o que explica Peter Diamandis - futurista, inovador e autor dos livros Abundance e Bold. “Nos próximos cinco anos, a experiência de compra de um imóvel será completamente diferente do que existe hoje”, afirma. O especialista ainda elenca como o mercado imobiliário irá se relacionar com os clientes nos próximos dez anos, mas alerta: o relacionamento humano continuará existindo e, talvez, fique ainda mais forte entre vendedor e comprador.
As tendências, de acordo com Peter Diamandis, são as seguintes:
- Pesquisas por imóveis serão feitas no conforto da casa do cliente, usando a realidade virtual
- Todas as empresas imobiliárias irão oferecer walk-throughs (passeios) virtuais em 360 graus
- Visita aos imóveis 24 horas por dia
- O público de um vendedor vai abranger compradores do mundo todo
- O corretor será um engenheiro-arquiteto virtual, capaz de mostrar ao cliente todas as etapas de construção do imóvel
- O cliente vai poder decorar o imóvel com a realidade virtual, eliminando o apartamento decorado no estande de vendas
- Também será possível simular mudanças na planta, tirando paredes, mudando pisos e testando cores na pintura
- Com a permissão do cliente, e usando algoritmos de Inteligência Artificial, o óculos 3D vai interpretar o que o usuário gosta e achar o apartamento ideal para cada comprador
Redes sociais
Além disso, as redes sociais estarão conectadas à realidade virtual, como explica Mariana Ferronato, palestrante sobre marketing digital e diretora de marketing do portal VivaReal. “Logicamente, a realidade virtual ainda está longe de dominar o mercado. Contudo, é uma tendência forte. Principalmente, porque o Facebook lançará em breve seu aparelho chamado Oculus Rift. É uma tecnologia de realidade virtual que tem grande potencial para impactar profundamente a visita aos imóveis. Eu já utilizei e afirmo que é sensacional a experiência de usá-lo. Na experiência, me senti dentro do imóvel”, diz.
Nos Estados Unidos, as construtoras de apartamentos luxuosos na região de Nova York já dispõem de vendas por realidade virtual. O país é o que está mais avançado neste tipo de tecnologia, com um grupo de empresas dominando as pesquisas. Entre elas, Vicarious, Google DeepMind, IBM Watson, Facebook, Microsoft Hololens, OTOY e Leap Motion. Os investimentos ultrapassam os bilhões de dólares, e o foco principal é o mercado imobiliário.
Veja vídeo de como funciona a realidade virtual
Entrevistado
Reportagem com base nas palestras realizadas na Conecta Imobi 2016
Contato: contato@conectaimobi.com.br
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Olimpíadas geram quase um milhão de m² de calçadas
Além do entorno dos equipamentos construídos para atender ao evento, Rio de Janeiro também modernizou calçamento em outras áreas da cidade
Por: Altair Santos
As calçadas devem sair como as grandes vitoriosas dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, que começam daqui a 30 dias. O programa de mobilidade urbana projetado para a cidade gerou quase um milhão de m² de calçamento novo na capital fluminense. Boa parte desta revitalização está no complexo conhecido como Porto Maravilha. Na área com 5 milhões de m², há 650 mil m² de calçadas que seguem as mais recentes normas de acessibilidade.

Foram usados dois tipos de pisos no Porto Maravilha. Na área que abrange o Museu do Amanhã, as obras envolveram regularização de subleito, aplicação de concreto magro e assentamento de piso em granito 45 cm x 45 cm. No entorno, o projeto também previu a regularização do subleito, porém com nivelamento através de pó de pedra e assentamento de piso intertravado retangular em bloco de concreto (10 cm x 20 cm).
Atualmente, independentemente do local em que se esteja no Rio, chama a atenção a padronização do calçamento. Todas as áreas revitalizadas atendem a ABNT NBR 9050:2004 - Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. A norma define critérios de sinalização em espaços públicos e parâmetros de ergonomia que priorizam o pedestre.
Além do Porto Maravilha, o programa de mobilidade abrangeu também os seguintes pontos turísticos do Rio de Janeiro: Pão de Açúcar, Praça XV, Paço Imperial, Cinelândia, Praia de Copacabana, Praia da Barra da Tijuca, Corcovado, Jardim Botânico, Vista Chinesa e Mesa do Imperador. Nestas áreas, foram instalados 4 mil m² de calçadas acessíveis e 5.831 m² de pavimento em concreto na entrada destes cartões-postais da cidade.

As tradicionais calçadas com pedras portuguesas, que tornaram a Avenida Atlântica e outras ruas da zona sul do Rio internacionalmente conhecidas, também foram revitalizadas. A prefeitura da cidade montou uma equipe de calceteiros e trouxe técnicos portugueses para treiná-los, a fim de que atuassem na manutenção do calçamento da orla de Copacabana, Ipanema e Leblon.
Equipamentos olímpicos
A segunda área que mais recebeu calçamento novo no Rio de Janeiro é a que envolve o entorno do estádio Olímpico. Ali foram revitalizados 131.840 m² de calçadas. São 34 vias com pavimentação em granito e paver, faixas de rolamento e realinhamento de meios-fios. Outros equipamentos olímpicos que também receberam calçamento novo foram: Deodoro (63 mil m²), Sambódromo (25,6 mil m²) e Maracanã (2 mil m²).
No Parque Olímpico, localizado na Barra da Tijuca, e que concentrará a maior parte das modalidades envolvidas nos jogos, foram construídos 52 mil m2 de calçadas. Essa metragem envolve também a Vila Olímpica, projetada para abrigar mais de dois mil atletas. Toda a área é 100% compatível com normas de acessibilidade. A principal obra no parque é a Via Olímpica, revestida com pavers em dois tons de cinza e cuja forma sinuosa é inspirada nas curvas das calçadas tradicionais da praia de Copacabana.
Entrevistada
Empresa Olímpica Municipal (via assessoria de imprensa)
Contato: imprensa@empresaolimpica.rio.rj.gov.br
Créditos Fotos: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Barreiras culturais paralisam Norma de Desempenho
ABNT NBR 15575 enfrenta a resistência até de profissionais da engenharia civil e da arquitetura, para quem ela é vista como “rigorosa demais”
Por: Altair Santos
Em vigor há praticamente três anos - o lançamento ocorreu em 19 de julho de 2013 -, a Norma de Desempenho ainda enfrenta forte resistência. Boa parte dos que relutam adotá-la é aquela que deveria apoiá-la: engenheiros, arquitetos e projetistas. Segundo a especialista Maria Angélica Covelo Silva, isso é cultural. “Nossa cultura de atendimento a normas técnicas é muito pequena, e isso passa pela formação de engenheiros e de arquitetos”, diz a engenheira civil, que recentemente palestrou na Construction Summit, dia 16 de junho, sobre o atendimento da ABNT NBR 15575.

Segundo Maria Angélica Covelo Silva, que foi protagonista na elaboração da Norma de Desempenho, conseguir colocá-la em vigor resultou em quebra de paradigmas. ”Na primeira fase, ela levou oito anos para ser elaborada. Em maio de 2008 foi publicada, com foco em edifícios de até cinco pavimentos, que era a prioridade da Caixa Econômica Federal, mas nem chegou a entrar em vigor e já passou por um processo de revisão, a fim de abranger qualquer tipo de edificação residencial. Finalmente, em julho de 2013, tornou-se realidade”, explica, dizendo que os primeiros empreendimentos que atendem plenamente a norma estão começando a ser entregues em 2016.
Mas ainda há resistência. Maria Angélica Covelo Silva afirma já ter ouvido que a ABNT NBR 15575 é “rigorosa demais”. Ela aproveitou a palestra para fazer uma comparação entre os profissionais antigos e os que estão recentemente no mercado. “Arquitetos antigos tinham conhecimento de desempenho térmico. Já os novos desaprenderam”, disse, completando que a Norma de Desempenho trouxe evidências sobre as falhas construtivas. Ele citou como exemplo um temporal com vendaval que atingiu Porto Alegre-RS em janeiro de 2016.
Campeões da não-conformidade
No início deste ano, uma tempestade com ventos superiores a 60 km/h arrancou várias esquadrias de prédios, além de fachadas. “Até fachadas de granito se desprenderam. Se os edifícios tivessem sido projetados de acordo com as normas técnicas nada disso teria acontecido”, avalia a especialista, fazendo uma observação que funciona como um calcanhar de Aquiles para a construção civil nacional. “Somos os campeões mundiais de não-conformidade de projetos em relação às normas técnicas. Mas ainda há quem compre a não-conformidade, por ser mais barato, mas que lá na frente vai se tornar mais caro”, avisa.
Maria Angélica Covelo Silva alertou que no Brasil as normas técnicas são elaboradas com base em interesses dos envolvidos, o que acaba limitando-as. De qualquer forma, ela garante que a partir da ABNT NBR 15575 acabaram as desculpas no meio técnico. “O incorporador não pode mais alegar que contratou um projeto e que não sabia que ele não atendia a norma. Todos os envolvidos na construção de uma obra devem saber da Norma de Desempenho, incluindo quem faz o estudo do solo, pois isso também influencia na vida útil da edificação”, afirma a engenheira que, apesar das dificuldades, enxerga com otimismo o futuro da ABNT NBR 15575. “Conforme o usuário for se conscientizando dos direitos contidos na norma, ela irá se consolidar”, acredita.
Ouça abaixo o áudio da palestra de Maria Angélica Covelo Silva na Construction Summit
Entrevistada
Doutora em engenharia civil Maria Angélica Covelo Silva, integrante do comitê que elaborou a ABNT NBR 15575 (Norma de Desempenho) e consultora no setor da construção civil
Contato: ngi@ngiconsultoria.com.br
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Erros estruturais levam a soluções melhores para obras
Em simpósio sobre patologias de construções na UFPR, Paulo Helene aborda equívocos que ajudaram a qualificar empreendimentos futuros
Por: Altair Santos
Obras que não dão certo, ou por erros de cálculo, erros estruturais, falta de conhecimento da mão de obra ou uso inadequado de materiais, devem sempre ser repudiadas. No entanto, elas trazem lições para a engenharia civil. Quem ensina é o professor-doutor Paulo Helene, que no final de junho de 2016 palestrou na Universidade Federal do Paraná (UFPR), no Simpósio Paranaense de Patologia de Construções. Em sua exposição, intitulada "Aprendendo com falhas e acidentes em estruturas", o especialista começa com um ensinamento básico e fundamental. “Não se pode “baixar a guarda” na construção civil”, diz.

Paulo Helene elencou uma série de obras que apresentaram problemas, tanto no Brasil quanto em outros países, e alertou que cada uma delas deixou importantes aprendizados. Mas ele ressaltou que a principal lição deve ficar para os profissionais da engenharia civil. “Na nossa profissão não tem espaço para a omissão e para a falta de comprometimento. Na engenharia civil, é preciso exercer o conhecimento técnico, ter liderança e, sobretudo, ética”, afirma. O professor-doutor destaca ainda que o engenheiro que atua no canteiro de obras tem obrigação de fiscalizar seus operários. “Quem deixa tudo a cargo do mestre de obras não deve ser engenheiro de obras. Orientar adequadamente a mão de obra é o primeiro passo para evitar erros”, afirma.
Desabamentos de edificações e obras de infraestrutura, principalmente nos anos 1970, serviram também para que a construção civil obtivesse saltos tecnológicos. Paulo Helene lembra que há 40 anos, no Brasil, o concreto tinha resistência máxima de 16 MPa. “Hoje, a resistência mínima é de 20 MPa. Também não havia aditivos, grout, concreto com fibra, nada, ou seja, os avanços tecnológicos estão aí para que possamos construir obras cada vez mais seguras”, destaca. No entanto, voltou a tocar na questão ética. “O edifício Palace 2, que desabou em 1996 na cidade do Rio de Janeiro, é um exemplo clássico. O construtor (Sérgio Naya) usou um projeto que não era dele, não pagou pelo projeto e, pior, o projeto estava errado. Resultado: um pilar que deveria suportar 420 t de carga suportava apenas 270 t, o que levou ao desabamento do prédio. Havia tecnologia, sistemas construtivos avançados, mas faltou ética”, reafirma.
Pré-fabricados
No final da década passada, o Brasil viveu uma série de desabamentos em obras que utilizam a tecnologia de pré-fabricados de concreto. Paulo Helene atribui esses acidentes a um único fator: falta de experiência com esse tipo de sistema. “Toda obra pré-fabricada que sofre acidente ocorre porque os engenheiros não se dão conta de que as peças precisam ser solidarizadas na instalação. Para fazer a instalação correta existem normas técnicas. Aliás, se mede o grau de desenvolvimento de um país pela quantidade de normas técnicas que ele tem. Não precisa dizer que a Alemanha é o país que mais possui normas técnicas, e as mais exigentes”, resume o professor-doutor.
O especialista concluiu sua palestra dizendo que, independentemente da tecnologia envolvida na construção, nenhum engenheiro deve se propor a trabalhar sozinho. “Todos os intervenientes são responsáveis pela obra: projetista, concreteira, construtora, tecnologista, laboratorista, etc. Todo mundo está junto. Engenheiro não trabalha individualmente, trabalha em equipe. Quem tem isso como um conceito minimiza sensivelmente o risco de ter obras com problemas”, finaliza.
Entrevistado
Engenheiro civil Paulo Roberto do Lago Helene, professor-doutor titular da Poli-USP, consultor e diretor da PhD Engenharia
Contatos
paulo.helene@poli.usp.br
www.concretophd.com.br
Crédito Foto: Divulgação/Cia. Cimento Itambé
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Túnel mais longo do mundo unifica ainda mais a Europa
Empreendimento corta os Alpes e levou a avanços tecnológicos da construção civil, ao longo dos mais de 17 anos em que esteve em obras
Por: Altair Santos
Inaugurado dia 1º de junho de 2016, o túnel ferroviário São Gottardo, que liga Zurique, na Suíça, a Milão, no norte da Itália, nasce com o título de “obra do século”. Por dois motivos. Sua construção durou 17 anos e a fase anterior - a de elaboração do projeto - outros 7 anos. Nestes 24 anos, o empreendimento antecipou tecnologias. Por causa da obra, desde equipamentos conhecidos como tuneladoras até concretos especiais deram saltos em desenvolvimento. O outro motivo é que a viagem entre os dois países, que durava mais de quatro horas, agora durará pouco mais de duas horas. O túnel também encurtou o deslocamento entre a Alemanha e a Itália, passando pela Suíça, o que unifica ainda mais a Europa.

O túnel São Gottardo também agregou avanços relacionados à logística de megaobras, aos estudos geológicos e à adequação às exigências ambientais para empreendimentos desta envergadura. Foram retirados 28,2 milhões de toneladas de rochas das escavações. Parte destes resíduos foi usado para recuperar áreas do lago de Quatro Cantões, na Suíça, que estavam degradadas pela extração de areia. Também em território suíço foram criadas ilhas artificiais no Cantão de Uri, para ajudar na proteção de aves. Outros dois milhões de toneladas se transformaram em agregados (brita e areia de brita) para a produção de concreto.
Com 57,104 quilômetros de extensão, que fazem do São Gottardo o mais longo túnel do mundo, sua construção procurou não confrontar a geologia dos Alpes, como explica Kalman Kovari, consultor do projeto e professor especializado na matéria, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. “A perfuração do túnel utilizou as formações naturais, com base em pesquisas detalhadas realizadas por geólogos e especialistas em mecânica de solo rochoso. O traçado perseguiu sempre a rigidez rochosa”, diz.

O túnel, então, não é uma linha reta encravada nos Alpes. Entre uma extremidade e outra, há um desnível de 550 metros. “A formação geológica dos Alpes é muito heterogênea. As rochas podem variar, segundo o grau de dureza, de granito a pedras porosas. Sabíamos que encontraríamos zonas bastante complexas para perfurar na escavação do túnel. Nosso plano foi seguir o curso da natureza”, revela o engenheiro-chefe Heinz Ehrbar, do consórcio Alp Transit, responsável pelo empreendimento.
A busca por maciços rochosos levou a engenharia a instalar cinco canteiros de obras na fase de construção do São Gottardo. “Eles facilitaram a logística e reduziram o tempo de perfuração pela metade. Era uma obra que poderia durar mais de 30 anos, se fosse instalado um canteiro em cada extremidade”, assegura Heinz Ehrbar. Além de garantir agilidade, o projeto permitiu o emprego de um volume menor de concreto. Mesmo assim, foram utilizados 1.310.000 m³, entre o revestimento das paredes do túnel, o radier para assentar a ferrovia e mais 380 mil dormentes pré-fabricados para a instalação dos 290 quilômetros de trilhos nas duas linhas férreas.

Segurança é prioridade
A segurança é outro item inovador do São Gottardo. A cada 312 metros, a obra possui galerias de escape. Além dos 57 quilômetros, há outros 38 quilômetros de túneis auxiliares e conexões, os quais permitem que os trens sejam deslocados para áreas de emergência, caso ocorra um incêndio ou um acidente. Ao longo de todo o sistema também há exaustores que retiram a fumaça da área afetada, ao mesmo tempo em que injetam ar refrigerado no túnel. Apesar de toda a tecnologia, o São Gottardo só será liberado para o transporte de passageiros no segundo semestre de 2017. Desde a inauguração, apenas o transporte de cargas está autorizado. “Queremos ter 100% de segurança para autorizar o uso do túnel para o transporte de passageiros”, comenta Heinz Ehrbar.

Veja animação sobre a construção do São Gottardo
Entrevistados (via assessoria de imprensa da Alp Transit)
Geólogo Kalman Kovari, consultor do projeto e professor especializado do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique
Engenheiro-chefe Heinz Ehrbar, do consórcio Alp Transit
Contato: info@alptransit.ch
Créditos Fotos: AlpTransit Gotthard AG
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Sistemas industrializados, enfim, chegam à maturidade
Interação tecnológica permite reduzir tempo de execução das obras, dá maior previsibilidade aos custos e minimiza geração de resíduos
Por: Altair Santos
Os diversos sistemas industrializados usados pela construção civil brasileira alcançaram a maturidade e já conseguem conviver harmonicamente nas questões técnicas. As principais vantagens desta comunicação entre tecnologias são, basicamente, redução de tempo na execução das obras, manutenção da qualidade final do empreendimento, redução e previsibilidade dos custos, além de menor geração de resíduos e redução de consumo de energia. Essas observações fizeram parte da palestra que o presidente da ABRAMAT (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção), Walter Cover, fez no Construction Summit, realizado de 15 a 16 de junho, em São Paulo-SP.

Walter Cover disse que o nível de maturidade alcançado se deve ao fato de que houve o entendimento dos operadores dos sistemas industrializados de que eles não conseguem sobreviver sozinhos. “Ao contrário do passado, quando se vivia um clima semelhante a uma guerra, hoje todos os sistemas industrializados entendem que a tendência é de soluções mistas”, afirma o presidente da ABRAMAT. Segundo o dirigente, isso já é realidade em projetos de galpões industriais, de supermercados, shopping centers e hotéis. Alicerçados em estruturas pré-moldadas de concreto, a maioria desses empreendimentos passou a agregar tecnologias como paredes de vedação em drywall e estruturas prontas de aço para as coberturas.
Para a ABRAMAT, a construção industrializada tornou-se um tema prioritário. Segundo Walter Cover, dois motivos levam a esse movimento: o aumento da produtividade e o incentivo à formalidade na construção civil. “Os sistemas industrializados exigem conformidades técnicas e mão de obra especializada, além do cumprimento de normas fiscais, técnicas e trabalhistas, que minimizam o risco de informalidade nos canteiros de obras”, diz o dirigente, que afirma que a crise econômica tem alavancado esses sistemas. “A necessidade de enxugar custos e de acelerar os processos leva ao aumento da demanda pela construção industrializada”, completa.
Vantagens podem superar empecilhos
Há muito espaço para que a construção industrializada cresça no Brasil, mas é necessário romper obstáculos. O principal são as barreiras tributárias. Em seguida, é importante melhorar a produtividade da construção civil no país. “Temos um gap em relação a outros setores da indústria nacional e, comparativamente a países desenvolvidos, esse gap é três vezes maior no que se refere à produtividade na construção civil”, cita Walter Cover, usando dados de 2003 a 2013. “Neste período, a produtividade da construção civil nacional cresceu 20%, enquanto na China e na Índia, apenas para comparar com os BRICS, os números dispararam. No caso dos chineses, o aumento foi superior a 100% no mesmo período”, ressalta Walter Cover.
O presidente da ABRAMAT destaca ainda que, entre os empecilhos, está também a logística, já que as rodovias e as ferrovias do país dificultam o deslocamento das peças industrializadas, principalmente as pré-fabricadas de concreto. Além disso, a legislação entre estados é outra dificuldade para a industrialização na construção civil. Mas Walter Cover assegura que as vantagens, aos poucos, se sobrepõem às dificuldades. “Estamos falando de rapidez na obra, baixa geração de resíduos e qualificação de todos os segmentos envolvidos”, finalizou.
Veja conteúdo da palestra.
Entrevistado
Walter Cover, engenheiro agrônomo, Ph.D em economia agrícola e presidente da ABRAMAT (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção)
Contato
abramat@abramat.org.br
Crédito Foto: Divulgação/Construction Summit









