Atualização da NR-35 reforça treinamento e gestão de riscos para trabalhos em altura
A atualização da Norma Regulamentadora 35 (NR-35), que estabelece requisitos e medidas de prevenção para o trabalho em altura, trouxe mudanças que afetam diretamente a rotina de segurança nos canteiros de obras. A Portaria MTE nº 1.259/2026 passou a exigir que os treinamentos previstos na NR-35 sejam realizados integralmente na modalidade presencial, incluindo as etapas teórica e prática. A norma considera trabalho em altura toda atividade com diferença de nível acima de dois metros do nível inferior, quando houver risco de queda.
De acordo com Ana Cristina dos Santos Carvalho, gerente de Qualidade, Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Social da Cesbe Engenharia, anteriormente havia a possibilidade de adoção de um formato híbrido, com conteúdo teórico on-line e prática presencial. “Uma das principais mudanças da última revisão da NR 35 está na metodologia de aplicação dos treinamentos, que passaram a ser realizados integralmente no formato presencial, contemplando as etapas teórica e prática em todos os níveis: inicial, periódico e eventual”, explica.

Outra mudança ocorreu com a inclusão do Anexo III, que regulamenta o uso de escadas de uso individual. A regulamentação contempla escadas fixas verticais, portáteis de encosto, extensíveis e autossustentáveis, além de estabelecer critérios para sua utilização e análise dos riscos. A NR-35 também passou a prever que, quando o elemento de ligação utilizado para retenção de quedas for um talabarte, ele deve ser integrado com absorvedor de energia.
Gestão de risco deve começar antes da atividade
Para Alexandre Bobato, engenheiro de Segurança do Trabalho e coordenador de Segurança do Trabalho do SindusconPR, as mudanças precisam ser analisadas dentro de uma gestão mais ampla do trabalho em altura. A prevenção começa pela identificação dos riscos e pela definição das medidas de controle mais adequadas. “A gestão de trabalho em altura exige conformidade legal e um controle rigoroso nos canteiros de obras”, afirma. Segundo ele, a norma estabelece uma hierarquia que deve orientar as decisões das construtoras.
A primeira medida é evitar o trabalho em altura sempre que houver meio alternativo de execução. Quando isso não for possível, a prioridade passa para os sistemas de proteção coletiva contra quedas, como guarda-corpos, redes e plataformas. Os sistemas de proteção individual contra quedas são utilizados conforme a avaliação do risco.

O planejamento também deve estar integrado ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). “Todo o trabalho em altura deve estar mapeado no Inventário de Riscos e no Plano de Ação da obra”, explica Bobato. Esse levantamento serve de base para a Análise de Risco (AR) das atividades rotineiras e para a Permissão de Trabalho (PT) nas atividades não rotineiras.
A gestão inclui ainda os sistemas de ancoragem e linhas de vida, que, segundo Bobato, demandam projeto elaborado por profissional legalmente habilitado, cálculo dos esforços e registro das inspeções. Outro ponto é o Plano de Atendimento a Emergências, com equipe interna treinada, equipamentos de resgate compatíveis e tempo de resposta adequado.
Bombeamento de concreto pode envolver trabalho em altura
Entre as atividades que exigem atenção está o bombeamento de concreto. Segundo Ana Cristina, o enquadramento na NR-35 está relacionado às condições em que o trabalho é realizado. “A necessidade de realizar o treinamento previsto na NR 35 não está diretamente relacionada ao cargo ou à função do trabalhador, mas às condições em que a atividade é executada”, afirma.
No caso de operadores e ajudantes de bomba, a análise deve considerar a posição em que esses trabalhadores permanecem durante a concretagem e as atividades realizadas para montagem da linha de bombeamento. Para Bobato, esses profissionais estão incluídos entre aqueles que precisam realizar o treinamento de NR-35 e apresentar ASO com aptidão para trabalho em altura quando expostos a essas condições. “Embora parte de suas funções ocorra no piso térreo junto ao caminhão, a dinâmica construtiva expõe esses profissionais rotineiramente a desníveis críticos superiores a 2 metros”, afirma.
Uma das situações citadas pelo engenheiro é a concretagem em bordas de lajes e periferias. O trabalhador responsável pela condução do mangote flexível pode permanecer próximo à extremidade da estrutura, em locais onde a proteção coletiva pode estar incompleta, móvel ou ausente durante determinada etapa da execução.
Também pode haver exposição durante a montagem e a fixação da linha de bombeamento. Dependendo das características da obra, a tubulação pode ser instalada em diferentes níveis da estrutura, exigindo acesso a plataformas, andaimes, escadas ou outros meios de acesso. Nesses casos, devem ser avaliadas as condições de trabalho, os desníveis existentes e os riscos de queda antes da execução da atividade.
Treinamento presencial aproxima teoria da prática
A mudança na modalidade de capacitação é particularmente relevante para atividades que envolvem equipamentos e procedimentos de proteção contra quedas. Para Bobato, o treinamento presencial permite que o trabalhador tenha contato direto com os equipamentos e receba orientação durante a execução dos procedimentos. “A exigência do treinamento estritamente presencial é determinante para romper com a passividade dos cursos teóricos”, afirma.

O especialista cita como exemplo a utilização do cinturão tipo paraquedista, dos conectores, trava-quedas e absorvedores de energia. O contato direto com esses equipamentos permite que o instrutor acompanhe a execução e faça correções durante o treinamento. Ana Cristina também destaca a importância da atividade prática. Para ela, o treinamento presencial proporciona maior interação e concentração dos participantes, enquanto a prática ajuda a preparar os profissionais para situações encontradas no cotidiano. “As atividades práticas contribuem para tornar o aprendizado mais efetivo e para preparar melhor os profissionais diante das situações que poderão encontrar no dia a dia”, afirma.
Assim, a prevenção depende da combinação entre planejamento, capacitação e controle dos riscos. “Diante de qualquer risco, a prioridade deve ser eliminá-lo ou mitigá-lo. Como nem sempre isso é possível nas atividades em altura, as medidas preventivas tornam-se indispensáveis”, conclui.
ENTREVISTADOS
Alexandre Bobato é graduado em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho pelo CEFET-PR, MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e Certificação Internacional em Gestão de Riscos pela IOSH – Phoenix HSC (UK). Atualmente é engenheiro coordenador de Segurança do Trabalho do SindusconPR.
Ana Cristina dos Santos Carvalho é arquiteta com especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, Engenharia da Qualidade e Gestão de Meio Ambiente graduada e MBA em gestão, focada em gerenciamento de gestão de pessoas e processos de prevenção e mitigação de impactos e riscos. Atualmente, é gerente de Qualidade, Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Social da Cesbe Engenharia.
Contato
alexandre.bobato@seconcipr.com.br
contato@cesbe.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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Tecnologia avança na criação de“RG” do concreto para ampliar controle nas obras
Da central dosadora ao ensaio de resistência, o concreto percorre uma cadeia com diferentes empresas, profissionais e sistemas produzindo informações que nem sempre estão integradas. Quando surge uma não conformidade, essa fragmentação pode dificultar a identificação da origem do problema e até gerar resultados divergentes entre concreteiras e laboratórios.
A criação de uma espécie de “RG digital” do concreto é uma das alternativas discutidas para enfrentar essa questão. A proposta é reunir informações sobre produção, transporte, aplicação e controle tecnológico em um histórico digital, combinando recursos como sensores, inteligência artificial (IA), integração de sistemas, blockchain e tokenização.
Para Francielle Diemer, CEO da Contech Controle Tecnológico, a blockchain pode contribuir para esse processo, mas sua adoção exige mudanças em etapas que ainda envolvem significativa interferência manual, desde a realização do ensaio de consistência pelo abatimento do tronco de cone (slump) e a moldagem dos corpos de prova até atividades executadas no laboratório.
“Tem muitas interferências manuais ainda dentro de todo esse processo que precisaria evoluir”, afirma Francielle. Para a executiva, essa transformação também dependerá da evolução das normas aplicáveis ao controle tecnológico.
Um RG para acompanhar o concreto
Francielle compara a proposta a um documento de identidade do material. Segundo ela, esse registro poderia incorporar informações como lote de cimento e origem dos agregados, além dos dados gerados durante o controle tecnológico.
Hoje, porém, os sistemas ainda funcionam de maneira fragmentada. De acordo com Francielle, concreteiras e laboratórios utilizam plataformas próprias. A Contech já busca diminuir a interferência humana em uma das etapas com a implantação de inteligência artificial para validação de laudos, permitindo identificar inconsistências e emitir alertas para investigação.
A executiva destaca que descobrir uma falha somente depois do endurecimento do concreto limita as possibilidades de intervenção. Por isso, considera importante identificar eventuais desvios ainda nas etapas iniciais.
Sensores ampliam controle

Parte desse avanço pode ocorrer com sensores instalados nos equipamentos e no próprio concreto. Francielle afirma que já existem dispositivos para caminhões-betoneira capazes de medir parâmetros como temperatura e volume, além de registrar trajeto e tempo de mistura.
“Então já existe isso no mercado, ainda não é validado”, pondera Francielle. Segundo ela, algumas soluções desenvolvidas no exterior precisam passar por estudos para as condições brasileiras, inclusive devido às diferenças climáticas.
Na avaliação da resistência, Francielle cita sensores associados ao método da maturidade, embora ressalte que o procedimento ainda não elimine a moldagem de corpos de prova. Para ela, o setor pode avançar gradualmente, aperfeiçoando etapas do controle com sensores e códigos de identificação antes de chegar a sistemas mais abrangentes.
Jessika Pacheco, sócia da PhD Engenharia, também destaca o potencial de sensores instalados diretamente na estrutura. Segundo ela, uma tecnologia patenteada nos Estados Unidos, denominada Revel, permite acompanhar a resistência do concreto ao longo do tempo.
De acordo com Jessika, a solução pode diminuir problemas relacionados à moldagem, armazenamento e transporte dos corpos de prova e, se ganhar escala, contribuir para o controle tecnológico.
Integração de sistemas precisa acontecer
Além da obtenção dos dados, outro desafio é fazer com que os diferentes softwares utilizados na obra consigam trocar informações.
Para Marcus Vinicius Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo, um caminho é estabelecer um ambiente comum de dados para cada empreendimento, conectado aos sistemas dos diferentes participantes por meio de APIs.
“Você tem uma fonte única de dados para o projeto”, explica Granadeiro. Segundo ele, a tokenização acrescentaria uma camada de segurança ao garantir a imutabilidade dos registros, dificultando alterações posteriores em informações técnicas.
Marcus também vê aplicação para os chamados smart contracts na logística do concreto. Segundo ele, dados como localização do caminhão por GPS e tempo entre a saída da central e a chegada à obra poderiam ser associados às condições estabelecidas em contrato.
“A questão do blockchain, da tokenização, ela é relativamente tranquila de se implantar”, afirma Granadeiro. Na avaliação dele, os maiores obstáculos estão relacionados às questões culturais, comerciais e contratuais necessárias para a adoção dessas soluções.
Normas também entram na digitalização
A possibilidade de converter requisitos das normas técnicas em regras executadas por smart contracts foi outro ponto discutido.
Segundo Jessika, no controle da resistência por amostragem total, previsto na ABNT NBR 12655:2022, cada caminhão é controlado e são moldados corpos de prova. Nesse cenário, a verificação não exige cálculos complexos. Já no controle por amostragem parcial são selecionadas amostras de diferentes betonadas e a avaliação da resistência característica estimada envolve estimadores estatísticos e informações como quantidade de caminhões amostrados e tamanho do lote.
Jessika avalia que o sistema brasileiro de controle não apresenta hoje grande complexidade para uma eventual digitalização. Ela pondera, porém, que o setor poderia avançar para formas mais flexíveis de controle e aceitação do concreto, como ocorre em outros mercados.
Análise humana permanece
Apesar dos avanços tecnológicos, os três especialistas afastam a ideia de eliminar completamente a participação dos profissionais.
Granadeiro afirma que é necessário saber utilizar e interpretar as informações produzidas pelas novas ferramentas. “Isso vale para a IA, isso vale para o sensor, isso vale para tudo”, diz.
Francielle reforça que “a análise crítica nunca vai sair” e lembra que os próprios sensores precisam ser calibrados para não se tornarem uma nova fonte de incerteza.
Jessika considera a avaliação humana especialmente importante por causa das características do concreto. Diferentemente do aço, que chega pronto à obra, ela ressalta que o concreto é um material heterogêneo e aplicado em estado fresco, sujeito a interferências em diferentes etapas.
“Esses tipos de interferências ou da resposta do material, é importante que tenha a análise humana”, afirma Jessika.
Na visão apresentada pelos especialistas, portanto, o RG digital do concreto depende menos de uma tecnologia isolada e mais da conexão entre coleta de dados, sistemas, normas e controle técnico. O avanço dessas soluções pode construir um histórico mais confiável do material e facilitar a identificação da origem de não conformidades durante a obra e no pós-obra.
Fontes:
Francielle Diemer, CEO da Contech Controle Tecnológico.
Jessika Pacheco, sócia da PhD Engenharia.
Marcus Vinicius Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo.
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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Nanomateriais modificam a microestrutura e o desempenho de matrizes cimentícias
A nanotecnologia começa em uma escala que não pode ser observada a olho nu, mas seus efeitos podem alcançar propriedades conhecidas do concreto. Ao incorporar materiais com dimensões na faixa de 1 e 100 nanômetros às matrizes cimentícias, pesquisadores procuram modificar a microestrutura do material e, a partir disso, alterar seu comportamento e desempenho.
Entre os materiais estudados estão nanopartículas de sílica, dióxido de titânio, nanoalumina, nanotubos de carbono, nanofibras, grafeno e óxido de grafeno. A escolha depende da propriedade que se pretende melhorar e das características do nanomaterial, incluindo seu teor, sua compatibilidade com a matriz e, principalmente, sua dispersão na mistura.

Segundo a professora Laura Silvestro, do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da UTFPR, a lógica está na relação entre as diferentes escalas do material. “A incorporação de nanomateriais em concretos baseia-se, principalmente, na premissa de que modificações em escala nanométrica podem resultar em alterações na microestrutura e, consequentemente, no comportamento macroscópico do material.”
Uma intervenção que começa na estrutura do material
A atuação dos nanomateriais ocorre por diferentes mecanismos. Dependendo de sua natureza, eles podem favorecer a nucleação de produtos de hidratação, modificar a cinética de hidratação, preencher poros, refinar a microestrutura e contribuir para a transferência de tensões. Alguns também podem conferir funcionalidades que não são características de um concreto convencional.
Os Nanotubos de carbono e outros nanocompósitos à base de carbono podem ser empregados como elementos de reforço da matriz, enquanto o dióxido de titânio pode ser utilizado no desenvolvimento de superfícies com propriedades fotocatalíticas.

Para o engenheiro Cesar Zanchi Daher, diretor-presidente da Daher Engenharia Consultiva e Tecnologia, a tecnologia permite trabalhar de forma mais precisa com a estrutura interna do concreto. “A adição de nanopartículas modifica fundamentalmente a nanoestrutura da matriz de cimento hidratado”, explica. Segundo ele, essas partículas também podem alterar a cinética da hidratação e contribuir para a densificação da estrutura porosa da pasta.
Os resultados encontrados em estudos indicam possibilidades de ganhos no desempenho mecânico. No caso dos nanotubos de carbono, pesquisas relatam aumentos de aproximadamente 20% a 30% na resistência à compressão e de até 50% na resistência à tração na flexão, dependendo das características do material e das condições experimentais.
De concreto mais resistente a material funcional
O interesse pela nanotecnologia não está restrito ao aumento da resistência. Uma das frentes de pesquisa envolve a criação de materiais capazes de desempenhar funções adicionais. O dióxido de titânio, por exemplo, pode conferir propriedades fotocatalíticas ao concreto. Em determinadas condições, o material participa de reações que degradam compostos orgânicos, permitindo estudar aplicações em fachadas, pavimentos e revestimentos autolimpantes. Há também pesquisas sobre seu potencial na redução de determinados poluentes atmosféricos.
Outra possibilidade está nos chamados materiais self-sensing (autossensitivos). A incorporação de materiais eletricamente condutores, como nanotubos de carbono e grafeno, pode fazer com que propriedades elétricas da matriz se alterem em resposta a deformações, fissuração ou outros mecanismos de dano. Essa característica abre possibilidades para o monitoramento de estruturas como pontes, viadutos e pavimentos. Em determinadas configurações, a tecnologia também pode ser estudada para acompanhar o tráfego e as condições de carregamento.
“Os nanomateriais não devem ser vistos apenas como uma estratégia para produzir concretos com maior desempenho mecânico. Seu potencial é muito mais amplo”, afirma Laura. Para ela, a nanotecnologia pode atuar desde o controle da microestrutura até o desenvolvimento de materiais multifuncionais e sistemas capazes de responder a estímulos externos. “A possibilidade de produzir concretos e argamassas com maior resistência e durabilidade pode contribuir para o aumento da vida útil das estruturas, a redução da necessidade de manutenção e, consequentemente, dos custos associados ao longo do ciclo de vida”, complementa.
Laboratórios aproximam pesquisa e aplicação
O desenvolvimento dessas tecnologias envolve universidades, laboratórios e entidades técnicas. No Brasil, entre as instituições que pesquisam o tema estão o Laboratório de Aplicações de Nanotecnologia em Construção Civil, da UFSC, a COPPE/UFRJ e a UFMG.
Também existe, no Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON), o Comitê Técnico CT 205, dedicado aos nanomateriais para aplicação em concretos. O grupo reúne pesquisadores, engenheiros e profissionais de diferentes setores para discutir o comportamento desses materiais e suas possibilidades de uso.
Uma das iniciativas previstas pelo comitê é um estudo interlaboratorial para avaliar a influência dos nanomateriais sobre propriedades reológicas e sobre a cinética de hidratação das matrizes cimentícias. A iniciativa busca contribuir para a geração de conhecimento técnico e para a aproximação entre os resultados de pesquisa e as necessidades da indústria e da comunidade técnica.
Desafio de levar a nanoescala para a obra
Apesar dos resultados obtidos em laboratório, a adoção em maior escala ainda depende de questões técnicas e econômicas. Um dos principais desafios é a tendência de alguns nanomateriais à aglomeração. Quando isso ocorre, a eficiência da adição pode ser prejudicada e os resultados podem se tornar menos consistentes.

Também é necessário adaptar processos desenvolvidos em laboratório às condições de produção industrial, considerando custo, reprodutibilidade e processamento. A interação dos nanomateriais com diferentes tipos de cimento e aditivos químicos é outro ponto de estudo, especialmente diante do desenvolvimento de formulações com menor emissão de carbono.
Para Laura, o próximo passo envolve justamente aproximar os resultados experimentais das condições encontradas no setor produtivo. “A transição da nanoescala para a escala da construção será, provavelmente, um dos principais desafios para que todo esse potencial possa ser efetivamente convertido em aplicações comerciais,” conclui.
ENTREVISTADOS
Laura Silvestro é engenheira civil graduada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É bolsista de produtividade do CNPq (PQ Nível C) e atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Instituto Bundesanstalt für Materialforschung und -prüfung (BAM), em Berlim (Alemanha), com financiamento da CAPES e da Alexander von Humboldt Foundation (AvH). A pesquisadora compõe a equipe de coordenação do Comitê Técnico CT 205 – Nanomateriais para Aplicação em Concreto, do Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON), que tem como objetivo integrar diferentes setores no estudo e na aplicação de nanomateriais em compósitos cimentícios.
Cesar Zanchi Daher é engenheiro civil graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Foi diretor do curso de Engenharia Civil da PUC-PR, onde também lecionou por mais de 20 anos disciplinas relacionadas à Mecânica de Solos e Tecnologia do Concreto e Materiais. Atuou como consultor e gestor tecnológico em obras emblemáticas como Itaipu Binacional, Cimento Itambé (Balsa Nova), Aeroporto Afonso Pena, Yachthouse, entre outros. É diretor-presidente da Daher Engenharia Consultiva e Tecnologia, onde atua nas áreas de ciência dos materiais e desenvolvimento de soluções para obras de infraestrutura, incluindo dosagens de concretos de altíssimo desempenho, controle térmico e densificação da matriz cimentícea.
Contato
laurasilvestro@utfpr.edu.br
contato@dahertec.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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Novos métodos aprimoram avaliação da segurança de barragens de concreto
A evolução do conhecimento sobre o comportamento das fundações, aliada ao avanço da modelagem numérica e da instrumentação, amplia as possibilidades para a avaliação da estabilidade de barragens de concreto. Para Ricardo Abrahão, consultor em Geologia de Engenharia e Mecânica de Rochas e proprietário da Ricardo Abrahão Geociências S/S, parte dos critérios ainda utilizados no setor foi desenvolvido a partir de modelos antigos e simplificados, que podem não representar adequadamente determinadas condições geológicas e estruturais encontradas nas obras.
Durante sua palestra na Concrete Show, Abrahão chamou atenção especialmente para a interface entre a fundação em rocha e a estrutura de concreto. Segundo o especialista, trata-se de uma área que exige conhecimentos de diferentes disciplinas e que ainda apresenta lacunas na forma como é tratada pelos critérios técnicos. Para ele, a modernização passa justamente pela formulação de modelos capazes de representar melhor o comportamento real das obras.
O tema ganha relevância diante da necessidade de reavaliar estruturas existentes. De acordo com Abrahão, barragens que operam há 30 ou 40 anos vêm sendo recalculadas com métodos desenvolvidos em outro contexto tecnológico e de conhecimento da engenharia. Na visão do especialista, a aplicação automática de determinados critérios pode resultar em avaliações excessivamente conservadoras ou que não considerem adequadamente o comportamento efetivo da estrutura.
Acidentes históricos ampliaram conhecimento sobre fundações

Uma das bases para o desenvolvimento dos critérios atuais, segundo Abrahão, está no aprendizado acumulado a partir de acidentes ocorridos ao longo da história. O consultor destacou que problemas envolvendo geologia estrutural, subpressão, drenagem, erosão e características das fundações contribuíram para que a engenharia passasse a compreender melhor os mecanismos capazes de comprometer uma barragem. O especialista ressaltou ainda que o número de acidentes diminuiu à medida que conhecimento, investigação e métodos de projeto evoluíram.
Entre os casos brasileiros abordados esteve a Barragem de Camará, na Paraíba, que sofreu ruptura em 2004. Abrahão destacou que o problema não estava simplesmente no concreto, mas envolvia as condições geológicas da fundação e o comportamento de uma junta existente no maciço rochoso. Na reconstrução, estudos mais detalhados subsidiaram o dimensionamento de uma chaveta de concreto para melhorar as condições de estabilidade da estrutura.
Modelo de bloco rígido pode apresentar limitações em fundações complexas
Um dos principais questionamentos apresentados pelo consultor diz respeito ao emprego do chamado modelo de bloco rígido para determinar a distribuição das tensões na fundação.
Nesse procedimento, as cargas aplicadas à estrutura resultam em uma distribuição simplificada das tensões normais na interface com a fundação. Para Abrahão, embora a abordagem possa ser adequada em determinadas situações, ela apresenta limitações quando existem condições geológicas mais complexas, como descontinuidades e materiais com rigidez distintas.
O problema torna-se particularmente relevante diante do chamado contraste de rigidez. Uma fundação pode reunir, por exemplo, uma descontinuidade geológica de baixa resistência, uma chaveta de concreto e diferentes tipos ou graus de alteração da rocha. Cada elemento apresenta propriedades mecânicas distintas e responde de maneira diferente às solicitações.
Nessas condições, considerar uma distribuição linear e uniforme pode não reproduzir integralmente e/ou corretamente a forma como as cargas são transferidas entre a estrutura e a fundação.
Abrahão defendeu o emprego de métodos numéricos, capazes de simular comportamentos elásticos e elastoplásticos e calcular, elemento por elemento, as tensões normais e tangenciais presentes na fundação. A distribuição obtida pode ser bastante diferente daquela produzida pelo modelo simplificado de bloco rígido.
Isso não elimina, entretanto, a necessidade de traduzir os resultados em parâmetros compatíveis com as exigências regulatórias. Segundo o consultor, a legislação demanda a apresentação de um fator de segurança para a estabilidade da estrutura. Dessa forma, as forças resultantes das distribuições de tensões obtidas nos modelos podem ser integradas e posteriormente utilizadas no cálculo desse fator.
Itaipu mostra importância da caracterização geológica
A Usina Hidrelétrica de Itaipu foi utilizada por Abrahão para exemplificar como a investigação das condições geológicas e geomecânicas da fundação pode influenciar as soluções de engenharia específicas.
O especialista, que participou dos trabalhos relacionados à obra, relatou a existência de uma descontinuidade de baixa resistência na região da fundação. Segundo sua apresentação, as características da estrutura faziam com que os cálculos convencionais não fossem suficientes para solucionar a questão. Por isso, a descontinuidade precisou ser investigada detalhadamente e submetida a ensaios para determinação de suas propriedades mecânicas.
A solução adotada envolveu a construção de uma malha de túneis preenchidos com concreto, formando chavetas na fundação, além das galerias de drenagem. Segundo Abrahão, essas estruturas passaram a contribuir para a estabilização da barragem.
Instrumentação pode tornar análise da subpressão mais representativa
Outro ponto que, na avaliação de Abrahão, merece revisão é a subpressão, isto é, a pressão hidráulica exercida na fundação da barragem em função das condições de percolação.
Os diagramas utilizados para representar esse fenômeno seguem formatos estabelecidos por critérios normativos. Entretanto, o consultor argumenta que os dados provenientes da instrumentação permitem avaliar o comportamento hidráulico efetivamente observado na estrutura e, a partir dele, trabalhar com representações mais próximas da realidade.
A diferença pode ter impacto significativo nos cálculos de estabilidade. Na palestra, Abrahão mostrou um exemplo em que a adoção de uma representação baseada nas condições observadas reduziu substancialmente a resultante associada à subpressão em comparação com o diagrama convencional.
Para o especialista, entretanto, os dados instrumentais isolados não são suficientes. É necessário compreender as condições geológicas, estruturais e hidrogeológicas que explicam as medições.
Integração entre disciplinas é essencial
Essa necessidade leva a outro aspecto central defendido pelo consultor: a avaliação de barragens não pode ser realizada de forma compartimentada. Segundo Abrahão, profissionais de estruturas, geologia e hidrogeologia precisam trabalhar conjuntamente para produzir um modelo geomecânico compatível com as características de cada empreendimento.
Essa caracterização detalhada é especialmente importante porque as fundações não são homogêneas. Descontinuidades, juntas, diferentes níveis de rigidez, condições hidráulicas e propriedades mecânicas interferem diretamente na maneira como as cargas são transmitidas entre concreto e o maciço rochoso.
A própria Política Nacional de Segurança de Barragens prevê a realização de inspeções e revisões periódicas e estabelece que essas avaliações considerem, entre outros aspectos, o estado geral da segurança e o atual estado da arte dos critérios de projeto. A legislação também prevê que inspeções especiais sejam realizadas por equipes multidisciplinares, conforme as características e os riscos da barragem.
Resistência à tração na interface concreto-rocha entra em discussão
Abrahão também destacou outro aspecto que considera relevante para a evolução dos critérios técnicos: a resistência à tração na interface entre concreto e rocha.
Segundo o consultor, os critérios tradicionalmente adotados desconsideram essa resistência. Entretanto, observações de estruturas existentes e ensaios realizados nessa interface indicam que há aderência entre os materiais e que o comportamento real pode ser mais complexo.
Outro aspecto é a própria geometria do contato. Os modelos de cálculo podemrepresentar a interface concreto-rocha como uma superfície plana, enquanto, na obra real, ela apresenta irregularidades, rugosidade e heterogeneidades. Essas características podem influenciar a transferência de esforços e a resistência prevista por um modelo idealizado.
Por isso, a utilização desses parâmetros deve estar associada à caracterização específica da obra, aos resultados de ensaios e às hipóteses adotadas na análise, evitando que uma propriedade seja incorporada ao modelo sem evidência suficiente de sua representatividade.
Para Abrahão, a proposta é utilizar as ferramentas disponíveis atualmente — investigação geológica, ensaios, instrumentação e modelagem numérica — para desenvolver avaliações que representem de maneira mais fiel o comportamento das estruturas.
Nesse contexto, a atualização dos critérios técnicos pode ser decisiva principalmente para barragens existentes. “Em vez de aplicar automaticamente modelos concebidos décadas atrás, a engenharia passa a ter condições de confrontar as hipóteses de cálculo com o comportamento efetivamente observado em campo, permitindo avaliações de segurança mais fundamentadas e aderentes às particularidades de cada empreendimento”, conclui.
Fonte
Ricardo Abrahão é consultor em Geologia de Engenharia e Mecânica de Rochas e proprietário da Ricardo Abrahão Geociências S/S.
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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Normas da ABNT avançam na industrialização da construção
A normalização de sistemas construtivos industrializados avançou em 2026. A publicação da ABNT NBR 17305-1:2026 estabelece requisitos para edificações construídas com sistemas de vedação vertical interna ou externa constituídos por painéis de concreto leve, enquanto a Emenda 1:2026 da ABNT NBR 17073-2:2024 atualiza requisitos relacionados ao uso desses painéis em sistemas de pisos e coberturas.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Mario William Esper, as atualizações acompanham o amadurecimento dessas tecnologias e buscam estabelecer critérios mais claros para fabricantes, projetistas e construtoras.
Norma passa a considerar o sistema construtivo
A NBR 17305-1:2026 dá continuidade a um processo iniciado em 2025, quando a NBR 17264 estabeleceu requisitos e métodos de ensaio para o painel pré-fabricado leve e modular, de cimento Portland e pérolas de EPS, considerado isoladamente.
“Agora avançamos um passo: paramos de olhar só para o painel e passamos a tratar o sistema construtivo montado, com todas as suas interfaces com a edificação”, explica Esper.
A nova norma procura preencher uma lacuna entre desempenho, produto e aplicação. Enquanto a NBR 15575 estabelece requisitos de desempenho que deve ser entregue pela edificação, sistemas industrializados também necessitam de regras específicas para projeto, montagem e manutenção de suas interfaces.
Essa abordagem também aparece em outras tecnologias industrializadas, como a família NBR 17073, que estabelece requisitos para edificações construídas com painéis modulares de chapa cimentícia e núcleo à base de cimento Portland e pérolas de EPS.
Industrialização exige planejamento

De acordo com Esper, conhecer as características do painel isoladamente não é suficiente para assegurar o desempenho da parede instalada. Juntas, ligações, fixações, interface com outros elementos, instalações embutidas, estanqueidade e tolerâncias de montagem interferem no comportamento do conjunto.
“Industrializar não significa trocar a alvenaria por um painel — significa mudar a lógica de projeto e de execução. Quanto maior o grau de industrialização, maior precisa ser a definição das soluções antes de chegar ao canteiro”, afirma.
A norma, portanto, contribui para estabelecer uma linguagem técnica comum entre fabricante, projetista, construtora e equipe de execução, reduzindo a dependência de soluções definidas caso a caso durante a obra.
Para os projetistas, isso significa antecipar decisões sobre modulação, instalações, juntas e vãos. Para as construtoras, a execução passa a exigir planejamento, controle e equipes capacitadas, aproximando o canteiro de uma lógica de montagem. Já para os fabricantes, aumenta a importância do controle tecnológico, da documentação e das evidências de atendimento aos requisitos aplicáveis.
Aplicação é restrita a paredes sem função estrutural
A NBR 17305-1:2026 contempla sistemas de vedação vertical interna e externa constituídos pelos painéis especificados em seu escopo, sem função estrutural.
“A Parte 1 não transforma o painel em elemento estrutural, nem substitui o projeto da estrutura da edificação. O uso dele é como vedação”, ressalta Esper.
Em fachadas, áreas molhadas ou situações com exigências específicas, devem ser avaliados aspectos como estanqueidade, comportamento ao fogo, desempenho acústico e térmico, resistência a impactos e durabilidade, conforme os requisitos aplicáveis ao sistema e à edificação. Cortes, aberturas, instalações e demais intervenções também precisam ser previstos e compatibilizados no projeto.
A norma ainda distribui responsabilidades ao longo do ciclo do sistema. No projeto, ganham importância a compatibilização e a definição prévia de juntas, vãos, interfaces e fixações. Na execução, entram controles de recebimento, alinhamento, prumo, tolerâncias e tratamento de juntas. Na manutenção, o objetivo é preservar o desempenho ao longo do tempo, com maior relevância do as built, sobretudo quando existem instalações incorporadas às paredes.
Na avaliação de Esper, a norma também pode produzir um efeito mais amplo: “Ela ajuda a criar as condições para que a construção industrializada deixe de ser tratada como exceção e passe a integrar o repertório técnico convencional da engenharia brasileira.”
Emenda atualiza condições para pisos e coberturas
Outra mudança é a Emenda 1:2026 da ABNT NBR 17073-2:2024. A principal alteração permite que painéis com espessura de 95 mm sejam utilizados em aplicações de piso e cobertura com vão livre de até 3 metros. Antes, o limite era de 1,5 metro.
A família NBR 17073 possui três partes: a Parte 1 trata da vedação vertical interna e externa; a Parte 2, de pisos e coberturas; e a Parte 3, da aplicação como parede estrutural.
Segundo Esper, a alteração surgiu a partir de uma demanda apresentada por uma parte interessada à Gerência de Normalização Nacional da ABNT, em outubro de 2025. O pedido foi aceito e retornou à Comissão de Estudo responsável em fevereiro de 2026, com a apresentação de documentos técnicos complementares em março.
A mudança decorreu de experiências práticas do demandante acompanhadas de estudo técnico para validar a nova condição proposta, posteriormente analisado nos debates da Comissão de Estudo.
“Simplesmente abrimos uma porta: permitimos a projetistas, construtoras e fabricantes uma nova solução técnica dentro do sistema construtivo que a norma abrange”, conclui Esper.
As atualizações reforçam o movimento de adequação da normalização ao avanço da construção industrializada, estabelecendo parâmetros não apenas para os componentes, mas para sua integração aos projetos e à execução das edificações.
Fonte
Mario William Esper é presidente da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Contato
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Investimentos em infraestrutura ampliam oportunidades para a construção civil
De acordo com dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), o Brasil apresentou em 2025 o maior volume de investimentos em infraestrutura desde o início da série histórica, em 2010. Foram R$ 280 bilhões aplicados no setor, sendo que aproximadamente 84% desse montante teve origem na iniciativa privada. O economista Hugo Eduardo Meza Pinto, docente da Estácio Curitiba, afirma que, apesar desses dados, o país ainda convive com uma diferença significativa entre os recursos disponíveis e o volume necessário para modernizar a infraestrutura nacional. Segundo ele, existe uma necessidade superior a R$ 500 bilhões anuais, o que significa que há um déficit de investimentos que chega a aproximadamente R$ 218 bilhões por ano.
Para Jefferson Marcondes Ferreira, professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter, o cenário representa uma retomada gradual, sustentada por recursos públicos, concessões, parcerias público-privadas (PPPs) e maior participação do mercado de capitais. Ainda assim, o investimento permanece abaixo do necessário. “Quando observamos os dados apresentados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o país investe aproximadamente entre 2% e 2,5% do PIB em infraestrutura, sendo que seria necessário um patamar superior a 4% do PIB para sustentar um crescimento econômico mais robusto e elevar a competitividade nacional”, afirma.

Infraestrutura movimenta toda a cadeia da construção
O impacto dos investimentos não se limita às empresas diretamente envolvidas nas obras. A realização de projetos de infraestrutura amplia a demanda por uma série de insumos, equipamentos e serviços, criando efeitos sobre diferentes segmentos da economia. De acordo com Meza Pinto, o primeiro semestre de 2026 reforçou essa relação.
Dados da CBIC indicam que as obras de infraestrutura geraram aproximadamente 64 mil empregos formais entre janeiro e junho, superando pela primeira vez desde 2020 a geração de postos de trabalho vinculada à construção de edifícios, que registrou cerca de 60,5 mil vagas. No período, a construção civil abriu 168 mil postos formais, com crescimento de 6,5%.
Ferreira destaca o efeito multiplicador dos investimentos. Uma obra de infraestrutura demanda cimento, aço, máquinas, equipamentos elétricos, materiais de construção, engenharia, tecnologia e transporte. Ao mesmo tempo, gera empregos diretos, indiretos e induzidos, contribuindo para ampliar o consumo e estimular novos investimentos privados.
Saneamento concentra oportunidades

Entre os segmentos com maior perspectiva de receber investimentos, destaca-se o saneamento básico. Segundo Meza Pinto, aproximadamente 50,4% apontaram o saneamento básico entre os setores com maior intenção de investimento nos próximos três anos. A demanda está relacionada também às metas de universalização previstas para 2033, que estabelecem a oferta de água potável para 99% da população e a coleta e o tratamento de esgoto para 90%.
Transporte e logística formam outro grupo com forte potencial. Rodovias, ferrovias, portos e aeroportos demandam grandes volumes de materiais, equipamentos e mão de obra especializada. O levantamento da Radar PPP aponta que, entre 2014 e 2025, foram contratados mais de R$ 491 bilhões em melhorias da malha viária, em grande parte por meio de concessões e PPPs.
Mobilidade urbana, infraestrutura social e de saúde, iluminação pública e eficiência energética também estão entre as áreas com possibilidade de expansão. A transição energética acrescenta projetos de geração, transmissão, distribuição e armazenamento, incluindo usinas, linhas de transmissão e subestações. Ferreira acrescenta a infraestrutura digital ao grupo de segmentos com investimentos crescentes, com destaque para redes 5G, data centers, fibra óptica e serviços em nuvem.
Projeto do BNDES pode ampliar financiamento
Uma das iniciativas que pode contribuir para ampliar a disponibilidade de recursos é o projeto do BNDES para selecionar gestores de fundos privados de infraestrutura. A proposta prevê a participação do banco com até 25% do patrimônio de cada fundo e a exigência de que os gestores captem R$ 3 de terceiros para cada R$ 1 aportado pelo BNDES.
Para Meza Pinto, a estrutura aumenta a disponibilidade de capital próprio antes da contratação de financiamentos, reduzindo a alavancagem inicial e os riscos dos projetos. “Com mais equity, dinheiro de fundos disponíveis, projetos de concessões, como parceria público-privada, e licitações de infraestrutura, transporte, saneamento, saúde, iluminação, tendem a ser mais rápidos, sair mais rápido do papel, gerando demanda contínua para as construtoras e fornecedores.”
Ferreira avalia que a participação de gestores privados também diversifica as fontes de financiamento e reduz a dependência dos recursos públicos. Para as empresas de construção, isso pode representar maior previsibilidade, ampliação das carteiras de obras e espaço para investimentos em inovação e produtividade.

PPPs dependem de segurança regulatória
As parcerias público-privadas permanecem entre os principais mecanismos para viabilizar projetos de infraestrutura em um cenário de restrições fiscais. Saneamento, mobilidade urbana, iluminação pública, resíduos sólidos e logística estão entre os setores que utilizam esse modelo.
O ambiente, porém, ainda apresenta obstáculos. Meza Pinto chama atenção para o novo marco das concessões e PPPs, aprovado pela Câmara em maio de 2025 e que permanecia em análise no Senado havia mais de 15 meses. Para o economista, a indefinição regulatória dificulta a tomada de decisões e a estruturação de novos negócios.
Na avaliação de Ferreira, a segurança jurídica, a estabilidade regulatória e modelos financeiros capazes de atrair investidores de longo prazo continuam entre os principais desafios. Ao mesmo tempo, ele observa maior participação do setor privado e do BNDES na estruturação de concessões.
O cenário, portanto, combina aumento dos investimentos com uma necessidade ainda maior de recursos. Para a construção civil, a ampliação das fontes de financiamento e a estruturação de projetos de longo prazo podem determinar o ritmo de contratação de obras e de demanda por materiais, equipamentos e serviços nos próximos anos.
ENTREVISTADOS
Hugo Eduardo Meza Pinto é economista com Doutorado em Integração da América Latina pela USP e Mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, com mais de 25 anos de experiência acadêmica e profissional em macroeconomia, desenvolvimento econômico, inovação e relações internacionais. Atualmente, é docente da Estácio Curitiba.
Jefferson Marcondes Ferreira é economista formado pela UniBrasil, com Mestrado em Economia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutorando em Ciências Ambientais pela UTFPR, e professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter.
Contato
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Ana Carvalho
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Cidades resilientes exigem integração entre construção, infraestrutura e planejamento urbano
Chuvas intensas, alagamentos, ondas de calor e períodos de frio colocam as cidades diante de novos desafios de planejamento e infraestrutura. Nesse cenário, a construção civil passa a desempenhar papel cada vez mais relevante na adaptação dos espaços urbanos às mudanças climáticas. A forma como ruas, calçadas, edifícios e sistemas de drenagem são projetados pode interferir tanto na capacidade de resposta aos eventos extremos quanto nas condições de conforto e segurança e qualidade de vida da população.
Para Alex Maschio, engenheiro civil e CEO do Instituto Ruas, o debate sobre mudanças climáticas precisa considerar a infraestrutura urbana. “Há muitas formas de olhar para a crise climática, e todas elas são legítimas. Opto pelo olhar da infraestrutura urbana, mais especificamente, pela lente da rua, pois é a minha área de atuação e de pesquisa”, explica.
Segundo ele, ruas, calçadas e estacionamentos representam uma parcela expressiva das superfícies construídas nas cidades brasileiras. “A forma como essa superfície reage com a água da chuva e com o calor, raios solares, tem consequência direta sobre a temperatura, sobre as enchentes e sobre a qualidade de vida de quem mora ali”, afirma.
Projeto urbano como parte da resposta climática

A escolha dos materiais e dos sistemas construtivos interfere diretamente no comportamento das cidades diante de eventos climáticos extremos. Maschio chama atenção para a diferença entre pavimentos escuros e claros. “O pavimento asfáltico é escuro e absorve cerca de 95% da luz solar que recebe, chegando a passar dos 60°C em um dia quente”, relata. Já os pavimentos de tonalidade clara, como os pavimentos em concreto, tendem a refletir uma parcela maior da radiação solar e, consequentemente, a apresentar menor absorção de calor.
A impermeabilização das superfícies é outro ponto de atenção. “Quando a chuva não infiltra em lugar nenhum, ela escorre toda de uma vez, leva a sujeira das ruas para os rios e transforma qualquer chuva de maior intensidade em alagamento”, explica.
Para o especialista, decisões relacionadas à infraestrutura urbana têm impacto direto sobre a capacidade de adaptação dos municípios. “A decisão climática mais impactante da infraestrutura urbana é municipal. Não depende de acordo internacional nem de política federal. Depende de quem especifica a rua residencial do bairro, o engenheiro, o projetista, o prefeito”, afirma.
Gustavo Selig, engenheiro civil e CEO do Grupo Hestia, também defende que a adaptação precisa começar antes da execução da obra. “O setor precisa parar de olhar para a sustentabilidade como um custo e passar a enxergá-la como um vetor de eficiência. Isso começa no lápis, ainda na fase de conceito do projeto”, ressalta.

De acordo com Selig, projetos bioclimáticos e fachadas eficientes podem reduzir a demanda energética durante a utilização dos edifícios. Ele também aponta a necessidade de descarbonizar materiais, reutilizar o que for possível de estruturas e avançar na adoção de princípios de circularidade na construção.
O conceito de eficiência deve considerar todo o ciclo de vida da construção. “Se projetarmos edifícios e infraestruturas que durem mais, demandem menos manutenção e consumam menos recursos ao longo do seu ciclo de vida, mudamos o jogo de forma significativa”, argumenta.
Planejamento e integração
Construir cidades capazes de enfrentar eventos extremos também exige integração entre diferentes sistemas urbanos. Para Selig, essa articulação precisa fazer parte do planejamento urbano. “Cidade resiliente não se faz isolando a infraestrutura da natureza; o segredo está na integração”, afirma.
Segundo ele, é necessário cruzar o uso do solo com drenagem urbana, áreas verdes, mobilidade, energia e habitação. A proposta inclui a combinação entre infraestrutura verde e estruturas convencionais. “Precisamos usar parques lineares, pavimentos adequados e reservatórios de retardo junto com o concreto tradicional”, explica.
O planejamento também precisa considerar as áreas que já estão ocupadas, sem esquecer de adaptar o que já está construído e priorizar as áreas de maior vulnerabilidade social. Para Selig, a abrangência das ações é determinante: “Resiliência de verdade tem que ser para a cidade inteira, não só para alguns bairros.”
Maschio segue uma linha semelhante ao defender que a resiliência precisa ser incorporada aos critérios de avaliação das ruas. “Cidade resiliente é aquela que aguenta o evento extremo sem entrar em colapso e volta ao normal rápido”, define.
Para ele, esse processo passa por três frentes: dar caminho para a água, dar sombra para as pessoas e escolher soluções que durem. O especialista também defende que os municípios passem a medir o desempenho das ruas. “Resiliência começa por medir. Hoje o Brasil não avalia suas ruas. Constrói, entrega e esquece.”
Soluções de engenharia podem reduzir impactos

A construção civil dispõe de alternativas para melhorar o desempenho das cidades diante das chuvas e temperaturas elevadas. Maschio cita o pavimento permeável como uma dessas soluções. “A chuva atravessa a superfície e fica armazenada numa camada de brita, granular, embaixo, que funciona ao mesmo tempo como reservatório e como filtro”, explica.
Segundo ele, a solução pode ser aplicada em áreas específicas do sistema viário, sem necessariamente exigir a substituição de toda a estrutura da pista. “Trocando apenas calçadas e estacionamentos por pavimento permeável, uma rua residencial comum ganha cerca de 20% de permeabilidade”, afirma.
A adoção desse tipo de solução, entretanto, depende das características do local, das condições do solo, do dimensionamento do sistema e dos requisitos de manutenção. Por isso, a especificação deve considerar o comportamento hidrológico da área e a finalidade de uso do pavimento.
Tecnologia permite antecipar riscos
A digitalização amplia as possibilidades de acompanhamento das estruturas e de tomada de decisão. Selig destaca ferramentas como BIM e gêmeos digitais. “O que nós fazemos hoje com BIM e gêmeos digitais, por exemplo, nos permite simular o comportamento de um edifício diante do clima futuro antes mesmo de assentar o primeiro tijolo”, afirma.
Depois da construção, a sensorização permite acompanhar diferentes parâmetros. “Sensores que medem chuva, nível, umidade, vibração e até deformação nos dão dados em tempo real”, explica. As informações podem apoiar sistemas de “drenagem inteligente, manutenção preditiva e uma resposta muito mais rápida”.
Na visão dos especialistas, a adaptação climática passa por decisões tomadas em diferentes escalas. Ruas, edifícios, sistemas de drenagem, áreas verdes e tecnologias de monitoramento precisam fazer parte de uma mesma estratégia. Ambos concordam que uma boa engenharia é justamente a que sabe fazer essa leitura escolhendo melhores sistemas, construtivos, processos e materiais.
Mais do que escolher soluções isoladas, o desafio está em integrar sistemas, materiais, processos construtivos e tecnologias desde o planejamento. Nesse contexto, a engenharia assume papel estratégico: avaliar o desempenho das soluções, antecipar riscos e definir sistemas construtivos capazes de responder às condições climáticas presentes e futuras.
ENTREVISTADOS
Gustavo Selig é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Administração de Empresas e Negócios pela FGV-PR. Cofundador e presidente do Grupo Hestia, atua há mais de 30 anos no mercado imobiliário paranaense, liderando projetos que unem tradição, inovação e propósito. Foi representante do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) no Ippuc e presidiu a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi/PR) por três gestões consecutivas.
Alex Maschio é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR) e Administração - Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, professor de cursos de pós-graduação nas áreas de infraestrutura, pavimentação e cidades inteligentes, palestrante, fundador e CEO do Instituto Ruas.
Contato
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Ana Carvalho
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Construção busca novas fontes de financiamento diante das mudanças no crédito imobiliário
O financiamento imobiliário passa por uma mudança estrutural no Brasil. A expansão do mercado nos últimos anos ocorreu em um cenário de redução da capacidade das fontes tradicionais de recursos, especialmente da poupança. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a direcionar uma parcela maior do crédito para a aquisição de imóveis, reduzindo o espaço destinado ao financiamento para construção dos imóveis.
Esse movimento aumenta a pressão sobre construtoras e incorporadoras, que precisam buscar alternativas para financiar obras, aquisição de terrenos e capital de giro. Entre as opções estão os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), operações de equity, permutas e modelos de autofinanciamento.
Segundo Eduardo Garcia Quiza, membro do conselho de ex-presidentes e diretores da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR), essa transformação exige uma mudança na forma como as empresas tratam o capital. “Quem incorpora precisa ter condições de entender que o insumo ‘capital’ depende de organização, governança e capacidade de análise para saber, de fato, escolher a melhor alternativa, a estrutura de capital mais eficiente”, afirma.
Poupança perde espaço

A caderneta de poupança, historicamente uma das principais bases do crédito imobiliário, deixou de acompanhar a necessidade de recursos do setor. Houve saque líquido de R$ 85,6 bilhões em 2025 e de mais R$ 30,6 bilhões no primeiro semestre de 2026. De acordo com os dados apresentados por Quiza, a participação da poupança no funding caiu de uma faixa entre 62% e 80%, registrada entre 2014 e 2023, para aproximadamente 50% em 2025.
Nesse cenário, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) ganharam espaço. Em julho de 2025, elas já respondiam por 60% das concessões, contra 40% da poupança. O estoque de LCI chegou a R$ 473 bilhões em março de 2026, com crescimento de 30% em 12 meses.
Para Fabiane Rubino, vice-presidente administrativa da ADEMI-PR, o problema está relacionado ao descompasso entre o crescimento do mercado e a capacidade das fontes tradicionais. “O mercado imobiliário brasileiro dobrou entre 2020 e 2025, mas as fontes tradicionais de financiamento não acompanharam esse ritmo”, explica. A migração para o mercado de capitais já pode ser percebida na composição do financiamento habitacional. Segundo Fabiane, as novas fontes de funding passaram de uma participação praticamente inexistente para 14% do Sistema Financeiro da Habitação em aproximadamente dois anos.
Crédito para construtoras e incorporadoras fica mais restrito
Outra mudança afeta diretamente as empresas que precisam financiar a construção. Em 2025, esse crédito caiu cerca de 60%, passando de aproximadamente R$ 50 bilhões para R$ 20 bilhões, e no primeiro semestre de 2026, já foram destinados R$ 26,5 bilhões à modalidade. O resultado representa uma recuperação em relação ao ano anterior, mas ainda não configura uma expansão estrutural da oferta.
A maior parte dos recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) está sendo direcionada ao comprador final. No primeiro semestre de 2026, 72% do SBPE foi destinado à aquisição de imóveis, enquanto 28% ficaram para a construção.
O Plano Empresário bancário permanece entre as alternativas de menor custo, mas o acesso é mais seletivo. A operação costuma exigir relacionamento com a instituição financeira, garantia real e mecanismos vinculados ao desempenho das vendas e da obra. Fora do SBPE, também existem linhas bancárias com taxas atreladas ao CDI. Embora possam ampliar as possibilidades para as empresas, apresentam custo financeiro mais elevado.
FGTS enfrenta novas pressões
O FGTS também está no centro da discussão. O fundo financia contratos de longo prazo, mas parte de seus recursos passou a ser utilizada em outras modalidades. Saques extraordinários, saque-aniversário e o consignado para trabalhadores com carteira assinada utilizando o FGTS como garantia reduzem a parcela do saldo disponível como suporte para operações habitacionais de longo prazo. Quiza destaca que o problema está na sobreposição dos usos do mesmo recurso. “O mesmo saldo está sendo contado três vezes: garantia de empréstimo pessoal, antecipação anual de renda e lastro de financiamento de 35 anos”, observa.
Fabiane acrescenta que o FGTS não foi estruturado para funcionar como fonte principal de funding de segmentos de médio e alto padrão. Ela cita ainda uma percepção crescente de dificuldade entre os consumidores. “Cerca de 63% dos brasileiros afirmam que ficou mais difícil financiar um imóvel, e 40% dos que querem comprar apontam o valor da parcela como principal impedimento”, afirma.
Mercado de capitais ganha relevância
Com a menor disponibilidade de recursos bancários tradicionais, o mercado de capitais passou a ocupar espaço maior na estrutura financeira dos empreendimentos. O CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) é uma das principais alternativas. O estoque chegou a R$ 261 bilhões na B3 em março de 2026, enquanto as emissões somaram R$ 22 bilhões até julho. O instrumento pode ser utilizado para financiar a obra ou transformar recebíveis imobiliários em recursos para a empresa. A operação, porém, envolve custos de estruturação e taxas próximas ou superiores ao CDI.
Há ainda as operações de equity, nas quais investidores participam diretamente do empreendimento. Para Fabiane, porém, ter alternativas disponíveis não significa que qualquer empresa esteja preparada para acessá-las. “O capital existe, mas o acesso não é automático”, resume.
A mudança no mercado, portanto, não elimina o crédito para a construção, mas modifica as condições para acessá-lo. Para incorporadoras e construtoras, conhecer o custo de cada fonte, avaliar os riscos e estruturar os projetos de acordo com as exigências de cada investidor passam a fazer parte da própria estratégia de desenvolvimento imobiliário.
ENTREVISTADOS
Eduardo Garcia Quiza é membro do conselho de ex-presidentes e diretores da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR)
Fabiane Rubino é vice-presidente administrativo da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR).
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Ana Carvalho
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Mercado imobiliário fecha primeiro semestre com alta de 5,4% na comercialização de imóveis residenciais
O mercado imobiliário brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com crescimento nas vendas de imóveis residenciais novos, mesmo diante de um cenário de juros elevados. Entre janeiro e junho, foram comercializadas 226.536 unidades, alta de 5,4% em relação às 214.910 unidades vendidas no mesmo período de 2025. Os dados integram os Indicadores Imobiliários Nacionais do segundo trimestre de 2026, levantamento realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por meio da Comissão da Indústria Imobiliária, em correalização com o Sesi Nacional e elaborado pela Brain Inteligência Estratégica.
Para Celso Petrucci, conselheiro da CBIC e diretor de Economia do Secovi-SP, o desempenho mostra a capacidade de sustentação do setor mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo. “Em relação ao primeiro trimestre, nós tivemos aumento de lançamentos e aumento de vendas. Em relação ao segundo trimestre do ano passado, tivemos uma pequena queda de 1,3% em número de unidades lançadas, mas com 5,3% a mais de vendas. Olhando para o semestre, temos uma estabilidade de 0,3%, mas também um crescimento de 5,4% nas vendas”, explicou.
Vendas crescem enquanto lançamentos ficam estáveis
No segundo trimestre, foram vendidas 113.676 unidades residenciais, alta de 0,7% sobre os três primeiros meses do ano e de 5,3% na comparação anual. Os lançamentos somaram 107.161 unidades entre abril e junho, crescimento de 2,6% em relação ao primeiro trimestre de 2026, mas queda de 1,3% diante do mesmo período de 2025.
No acumulado do primeiro semestre, os lançamentos chegaram a 211.651 unidades, redução de apenas 0,3%em relação ao mesmo período de 2025, quando foram lançadas 212.338 unidades, indicando estabilidade no volume de novos empreendimentos colocados no mercado.
O comportamento regional, porém, foi desigual. Na comparação entre o segundo trimestre de 2026 e o mesmo período de 2025, os lançamentos cresceram 24,6% no Nordeste, 19,1% no Centro-Oeste e 1,2% no Sudeste. Já o Sul teve retração de 25,1%, enquanto o Norte registrou queda de 35,2%. Nas vendas, todas as regiões apresentaram resultado positivo na comparação anual.
Minha Casa, Minha Vida ganha espaço

Um dos principais destaques foi o desempenho do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). No segundo trimestre, entre abril e junho, o programa respondeu por 58% dos lançamentos residenciais no país, a maior participação desde o início da série histórica, em 2019. Foram 62.129 unidades lançadas dentro do programa, contra 45.032 dos demais padrões.
Nas vendas, o MCMV representou 51% do total. Das 113.676 unidades comercializadas no segundo trimestre, 58.392 estavam enquadradas no programa, crescimento de 5% em relação ao primeiro trimestre.
Na avaliação de Petrucci, a participação do programa ajuda a explicar o comportamento do mercado. “O nosso mercado imobiliário vem se comportando como um mundo à parte, e a gente deve isso muito ao programa Minha Casa, Minha Vida. Hoje, o programa é o carro-chefe do mercado imobiliário nacional”, afirmou.
A presença do MCMV, entretanto, varia entre as regiões. No segundo trimestre, o programa representou 68% dos lançamentos no Norte, 66% no Sudeste, 60% no Nordeste e 52% no Centro-Oeste. No Sul, a participação foi de 29%,a menor entre as cinco regiões.
Ticket médio recua com maior participação do programa
A maior presença do Minha Casa, Minha Vida também alterou o perfil financeiro das vendas. O Valor Geral de Vendas (VGV) alcançou R$ 66,2 bilhões no segundo trimestre, enquanto o ticket médio dos imóveis comercializados ficou em R$ 581,9 mil. O valor representa queda de 1% em relação ao primeiro trimestre e de 10,3% na comparação anual.
Na avaliação de Petrucci, o ticket médio havia ficado próximo de R$ 650 mil no segundo trimestre de 2025 e passou para aproximadamente R$ 580 mil um ano depois. Segundo ele, essa redução está diretamente relacionada à maior participação dos imóveis enquadrados no programa habitacional.
Estoque permanece sob controle
Outro indicador acompanhado pelo setor é a oferta de imóveis disponíveis. Ao final de junho, havia 355.290 unidades residenciais novas em comercialização, uma redução de 2,1% em relação ao primeiro trimestre. Na comparação anual, porém, o estoque estava 8,2% maior.
Petrucci destacou que, no conjunto das 221 cidades pesquisadas, o estoque correspondia a aproximadamente 9,5 meses de vendas, ante 9,9 meses no trimestre anterior. No Minha Casa, Minha Vida, o prazo era menor, de aproximadamente 7,6 meses. Para o economista, a diferença reforça a capacidade de absorção dos produtos destinados ao programa.
Crédito imobiliário pode sustentar próximos meses
Os dados de financiamento também ajudam a explicar o comportamento do mercado. No primeiro semestre, as concessões realizadas com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) cresceram cerca de 30%. Os financiamentos destinados à produção de novos empreendimentos tiveram alta de 107%, enquanto os recursos para aquisição de imóveis cresceram 12%.
A recuperação do crédito para produção é especialmente relevante para o mercado porque amplia a capacidade de financiamento de novos empreendimentos. Ao mesmo tempo, o crescimento do crédito para aquisição pode contribuir para sustentar a demanda das famílias e, consequentemente, o ritmo de vendas. “Nós somos a maior carteira, com a menor inadimplência e com a maior garantia, que é a garantia imobiliária”, afirmou Celso Petrucci, ao destacar a importância do financiamento habitacional para o sistema bancário.
Os números do primeiro semestre, portanto, mostram um mercado sustentado principalmente pela habitação de interesse social, com o Minha Casa, Minha Vida ocupando espaço cada vez maior. Ao mesmo tempo, a estabilidade dos lançamentos e a redução do estoque indicam um cenário de maior equilíbrio entre oferta e demanda.
Para os próximos meses, o desempenho do setor deverá depender da combinação entre condições de financiamento, capacidade de compra das famílias, disponibilidade de crédito para produção e adequação dos novos empreendimentos à demanda regional.
FONTE
Celso Petrucci é economista Chefe do Secovi-SP e Vice Presidente de CII da CBIC. Formado em Economia pela FECAP, atua desde 1983 como economista chefe do Secovi-SP, com papel relevante no setor imobiliário
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Pavimento urbano de concreto avança com foco em durabilidade e resiliência
O pavimento urbano de concreto (PUC) vem ampliando espaço no Brasil como alternativa para vias urbanas, empreendimentos habitacionais e centros logísticos, pátios industriais. Durante o 5º Congresso ABESC de Pavimento Urbano de Concreto (PUC), realizado na Concrete Show 2026, especialistas destacaram a evolução técnica do sistema, os avanços em normalização, o uso de fibras, os ganhos de produtividade e o potencial da solução para ampliar a durabilidade e a previsibilidade do desempenho da infraestrutura urbana.

Segundo Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC), o desenvolvimento do PUC no Brasil parte da adaptação e consolidação de conhecimentos já empregados em pavimentos rodoviários e pisos industriais, considerando as particularidades das aplicações urbanas. “Nós não inventamos nada. O trabalho foi entender o que estava acontecendo fora do Brasil, trazer isso para uma realidade nacional e incorporar melhorias ao processo”, afirmou.
Resiliência urbana muda a lógica dos investimentos
Para Barbosa Júnior, um dos principais fatores que impulsionam o PUC é a mudança na forma de avaliar os investimentos públicos e privados. Em vez de considerar apenas o custo inicial, ganha importância a análise de durabilidade, manutenção e desempenho ao longo da vida útil.

“Quando falamos de resiliência urbana, estamos falando de obra para durar. Se eu estou falando de sustentabilidade, quero um empreendimento que permaneça. Não quero fazer um processo hoje e ter que refazê-lo daqui a dois anos”, destacou.
Nesse contexto, pavimentos projetados para apresentar maior durabilidade podem contribuir para reduzir a frequência de intervenções, os impactos sobre a mobilidade urbana e os custos associados à manutenção, além de aumentar a capacidade de resposta da infraestrutura diante de condições adversas.
De acordo com o coordenador da ABESC, o avanço do sistema também vem acompanhado da evolução das referências técnicas para apoiar municípios, projetistas e executores. A ABNT PR 1011 – Projeto de pavimentos urbanos em concreto, publicada originalmente em 2021, está atualmente em processo de revisão. O trabalho envolve diferentes entidades e especialistas do setor e busca ampliar a abordagem do documento para contemplar, de forma integrada, aspectos de projeto, execução, inspeção e gestão de ativos, incluindo critérios baseados em desempenho e tenacidade.
Projeto é determinante para o desempenho
O engenheiro Eduardo Tartuce, da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados, reforçou que a competitividade do PUC depende diretamente de um dimensionamento adequado às condições de utilização. Para ele, sustentabilidade e economia não podem ser obtidas por meio da simples redução da espessura do pavimento.

“Não adianta fazer um piso de 10 ou 12 centímetros se ele não vai durar cinco anos. Temos que ter algo econômico e sustentável, mas sem perder a durabilidade. Se o pavimento foi feito para durar 30 anos, ele tem que durar 30 anos”, afirmou.
Entre os aspectos considerados no dimensionamento estão as características do solo (fundação e subleito), as solicitações de tráfego (cargas atuantes), as dimensões e a geometria das placas, o comportamento das juntas, os efeitos de retração e temperatura, e quando empregado concreto reforçado com fibras, o desempenho mecânico do sistema de reforço.
Entre as estratégias de projeto estão as placas de dimensões otimizadas, que podem contribuir para o controle das tensões e para o adequado comportamento das juntas. “A junta é uma fissura planejada, no local onde eu quero que ela aconteça, conforme foi projetada. Se ela não estiver na posição correta, outras fissuras podem surgir”, explicou Tartuce.
Segundo o especialista, a paginação das placas é uma das etapas mais importantes do projeto. O posicionamento e o detalhamento de juntas serradas e construtivas, bem como dos dispositivos de transferência de carga, quando previstos, devem ser compatíveis com o dimensionamento e com as condições de execução.
Macrofibras ampliam as possibilidades de reforço estrutural
Outro ponto destacado no congresso foi a utilização de macrofibras no concreto. Diferentemente das microfibras, empregadas principalmente para o controle da fissuração associada a fenômenos nas primeiras idades, como a retração plástica, as macrofibras estruturais são especificadas para proporcionar capacidade de absorção de energia e resistência residual após a fissuração da matriz, podendo participar do sistema resistente do pavimento quando consideradas no dimensionamento.
Por isso, a utilização de macrofibras não deve ser tratada apenas como uma substituição direta da armadura convencional. O desempenho estrutural depende do tipo de fibra, de suas propriedades mecânicas, da dosagem, da dispersão no concreto e, principalmente, dos parâmetros de desempenho utilizados no dimensionamento. Referências técnicas da ABESC destacam justamente a necessidade de caracterização da resistência residual das fibras para sua aplicação em pavimentos urbanos de concreto.
Barbosa Júnior alertou, que a escolha do material deve estar associada ao desempenho especificado. “Não é simplesmente comprar o concreto, comprar a fibra e adicionar na obra. É preciso corrigir o traço e conhecer a qualidade da fibra que está sendo utilizada”, afirmou.
Tartuce acrescentou que o projeto precisa considerar o desempenho da fibra e não apenas sua presença no concreto. “O PUC pode ser feito com tela, fibra metálica ou fibra sintética. Hoje a fibra sintética tem sido muito utilizada porque, em diversas situações, apresenta vantagem econômica, mas isso precisa ser dimensionado”, explicou.
Execução exige planejamento e controle

O engenheiro Galiano Benossi, superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais, destacou que a execução do PUC demanda atenção especial à preparação da base, a logística de fornecimento do concreto, à regularidade do lançamento, à cura e execução das juntas.
“O planejamento da obra é essencial para se obter um concreto de qualidade e, consequentemente, um resultado final de qualidade”, afirmou.
Segundo Benossi, a ausência de armaduras convencionais em determinadas soluções facilita a descarga direta do concreto e aumenta a produtividade. Em grandes áreas, entretanto, é fundamental organizar o fornecimento do concreto de forma contínua, evitando interrupções que possam gerar juntas não previstas e diferenças de idade ou de condições de acabamento entre os trechos executados.
A cura também é decisiva, pois tem como objetivo reduzir a perda de água do concreto e proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento da hidratação do cimento e das propriedades mecânicas. Embora a cura úmida seja considerada eficiente, sua manutenção durante vários dias pode ser pouco viável em alguns canteiros. Por isso, a execução costuma recorrer à cura química, desde que o produto e o procedimento sejam adequadamente especificados.
Cabe ainda ressaltar que, em situações de elevada temperatura, baixa umidade relativa ou vento, o controle da evaporação nas primeiras idades torna-se ainda mais importante, especialmente para reduzir o risco de retração plástica e fissuração superficial.
Concreto permeável amplia possibilidades
O concreto permeável também apareceu como uma alternativa para áreas urbanas que precisam combinar pavimentação e drenagem. Paulo Junek, sócio-diretor da Ecocreto Brasil, explicou que o material possui poucos finos e elevado índice de vazios, permitindo a passagem da água.

“Se houver muita formação de argamassa, o concreto perde os vazios e, consequentemente, perde a permeabilidade”, explicou.
Segundo Junek, a solução pode ser aplicada em calçadas, estacionamentos, praças, vias de tráfego leve e até áreas submetidas a cargas mais elevadas, desde que corretamente dimensionado. O projeto deve considerar tipo de solo, índice pluviométrico e utilização da área.
No Parque Villa-Lobos, em São Paulo, mais de 5 mil m² de concreto permeável foram utilizados em áreas de circulação e lazer. Para Junek, o desempenho depende da integração entre as diferentes etapas: “O concreto começa no projeto, passa pelo desenvolvimento e termina na execução. Esse tripé precisa funcionar corretamente.”
PUC ganha escala em Sergipe
No setor habitacional, o estado de Sergipe tornou-se um dos exemplos de expansão do sistema. João Faccio, head de Inovação e Offsite da Stanza, relatou que as condições geotécnicas locais e os períodos de chuva representavam desafios para a produtividade dos canteiros.
“Nós precisávamos garantir acessibilidade e trafegabilidade durante toda a obra, mantendo a produtividade mesmo nos períodos chuvosos”, afirmou.
Com a execução antecipada da pavimentação, as construtoras passaram a trabalhar sobre uma infraestrutura consolidada, reduzindo impactos logísticos e riscos ao cronograma.

Segundo Faccio, o PUC já está presente em empreendimentos de diferentes municípios sergipanos. “Além da qualidade da pavimentação e do melhor andamento da obra, conseguimos eliminar boa parte dos impactos provocados pelas chuvas sobre o cronograma”, afirmou.
Para os especialistas reunidos no congresso, a consolidação do pavimento urbano de concreto dependerá justamente da combinação entre engenharia de projeto, materiais adequadamente especificados, controle executivo, normalização, planejamento e avaliação do desempenho ao longo da vida útil. Como resumiu Tartuce, “o PUC não deve ser escolhido apenas por ser concreto, mas quando sua concepção transforma engenharia em valor, entregando desempenho técnico, eficiência econômica, qualidade urbana e benefícios ambientais ao longo de sua vida útil”.
Fontes
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior é coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC).
Eduardo Tartuce é engenheiro da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados.
Galiano Benossi é superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais.
Paulo Junek é sócio-diretor da Ecocreto Brasil.
João Faccio é head de Inovação e Offsite da Stanza.
Contatos
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior - alvaro@abesc.org.br
Eduardo Tartuce – eduardo@mixdesign.com.br
Paulo Junek – paulo@ecocretobrasil.com
Galiano Benossi - grannobre@grannobre.com.br
João Faccio – sac@stanza.com.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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