Tecnologia avança na criação de“RG” do concreto para ampliar controle nas obras

Sensores, IA e tokenização podem ampliar a rastreabilidade do material e reduzir falhas no controle tecnológico

Da central dosadora ao ensaio de resistência, o concreto percorre uma cadeia com diferentes empresas, profissionais e sistemas produzindo informações que nem sempre estão integradas. Quando surge uma não conformidade, essa fragmentação pode dificultar a identificação da origem do problema e até gerar resultados divergentes entre concreteiras e laboratórios.

A criação de uma espécie de “RG digital” do concreto é uma das alternativas discutidas para enfrentar essa questão. A proposta é reunir informações sobre produção, transporte, aplicação e controle tecnológico em um histórico digital, combinando recursos como sensores, inteligência artificial (IA), integração de sistemas, blockchain e tokenização.

Para Francielle Diemer, CEO da Contech Controle Tecnológico, a blockchain pode contribuir para esse processo, mas sua adoção exige mudanças em etapas que ainda envolvem significativa interferência manual, desde a realização do ensaio de consistência pelo abatimento do tronco de cone (slump) e a moldagem dos corpos de prova até atividades executadas no laboratório

“Tem muitas interferências manuais ainda dentro de todo esse processo que precisaria evoluir”, afirma Francielle. Para a executiva, essa transformação também dependerá da evolução das normas aplicáveis ao controle tecnológico.

Um RG para acompanhar o concreto

Francielle compara a proposta a um documento de identidade do material. Segundo ela, esse registro poderia incorporar informações como lote de cimento e origem dos agregados, além dos dados gerados durante o controle tecnológico.

Hoje, porém, os sistemas ainda funcionam de maneira fragmentada. De acordo com Francielle, concreteiras e laboratórios utilizam plataformas próprias. A Contech já busca diminuir a interferência humana em uma das etapas com a implantação de inteligência artificial para validação de laudos, permitindo identificar inconsistências e emitir alertas para investigação.

A executiva destaca que descobrir uma falha somente depois do endurecimento do concreto limita as possibilidades de intervenção. Por isso, considera importante identificar eventuais desvios ainda nas etapas iniciais.

Sensores ampliam controle

Especialistas discutem como novas tecnologias podem tornar mais confiáveis os dados gerados ao longo da cadeia do concreto. Crédito: Divulgação/Acervo pessoal

Parte desse avanço pode ocorrer com sensores instalados nos equipamentos e no próprio concreto. Francielle afirma que já existem dispositivos para caminhões-betoneira capazes de medir parâmetros como temperatura e volume, além de registrar trajeto e tempo de mistura.

“Então já existe isso no mercado, ainda não é validado”, pondera Francielle. Segundo ela, algumas soluções desenvolvidas no exterior precisam passar por estudos para as condições brasileiras, inclusive devido às diferenças climáticas.

Na avaliação da resistência, Francielle cita sensores associados ao método da maturidade, embora ressalte que o procedimento ainda não elimine a moldagem de corpos de prova. Para ela, o setor pode avançar gradualmente, aperfeiçoando etapas do controle com sensores e códigos de identificação antes de chegar a sistemas mais abrangentes.

Jessika Pacheco, sócia da PhD Engenharia, também destaca o potencial de sensores instalados diretamente na estrutura. Segundo ela, uma tecnologia patenteada nos Estados Unidos, denominada Revel, permite acompanhar a resistência do concreto ao longo do tempo.

De acordo com Jessika, a solução pode diminuir problemas relacionados à moldagem, armazenamento e transporte dos corpos de prova e, se ganhar escala, contribuir para o controle tecnológico.

Integração de sistemas precisa acontecer

Além da obtenção dos dados, outro desafio é fazer com que os diferentes softwares utilizados na obra consigam trocar informações.

Para Marcus Vinicius Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo, um caminho é estabelecer um ambiente comum de dados para cada empreendimento, conectado aos sistemas dos diferentes participantes por meio de APIs.

“Você tem uma fonte única de dados para o projeto”, explica Granadeiro. Segundo ele, a tokenização acrescentaria uma camada de segurança ao garantir a imutabilidade dos registros, dificultando alterações posteriores em informações técnicas.

Marcus também vê aplicação para os chamados smart contracts na logística do concreto. Segundo ele, dados como localização do caminhão por GPS e tempo entre a saída da central e a chegada à obra poderiam ser associados às condições estabelecidas em contrato.

“A questão do blockchain, da tokenização, ela é relativamente tranquila de se implantar”, afirma Granadeiro. Na avaliação dele, os maiores obstáculos estão relacionados às questões culturais, comerciais e contratuais necessárias para a adoção dessas soluções.

Normas também entram na digitalização

A possibilidade de converter requisitos das normas técnicas em regras executadas por smart contracts foi outro ponto discutido.

Segundo Jessika, no controle da resistência por amostragem total, previsto na ABNT NBR 12655:2022, cada caminhão é controlado e são moldados corpos de prova. Nesse cenário, a verificação não exige cálculos complexos. Já no controle por amostragem parcial são selecionadas amostras de diferentes betonadas e a avaliação da resistência característica estimada envolve estimadores estatísticos e informações como quantidade de caminhões amostrados e tamanho do lote.

Jessika avalia que o sistema brasileiro de controle não apresenta hoje grande complexidade para uma eventual digitalização. Ela pondera, porém, que o setor poderia avançar para formas mais flexíveis de controle e aceitação do concreto, como ocorre em outros mercados.

Análise humana permanece

Apesar dos avanços tecnológicos, os três especialistas afastam a ideia de eliminar completamente a participação dos profissionais.

Granadeiro afirma que é necessário saber utilizar e interpretar as informações produzidas pelas novas ferramentas. “Isso vale para a IA, isso vale para o sensor, isso vale para tudo”, diz.

Francielle reforça que “a análise crítica nunca vai sair” e lembra que os próprios sensores precisam ser calibrados para não se tornarem uma nova fonte de incerteza.

Jessika considera a avaliação humana especialmente importante por causa das características do concreto. Diferentemente do aço, que chega pronto à obra, ela ressalta que o concreto é um material heterogêneo e aplicado em estado fresco, sujeito a interferências em diferentes etapas.

“Esses tipos de interferências ou da resposta do material, é importante que tenha a análise humana”, afirma Jessika.

Na visão apresentada pelos especialistas, portanto, o RG digital do concreto depende menos de uma tecnologia isolada e mais da conexão entre coleta de dados, sistemas, normas e controle técnico. O avanço dessas soluções pode construir um histórico mais confiável do material e facilitar a identificação da origem de não conformidades durante a obra e no pós-obra.

Fontes:

Francielle Diemer, CEO da Contech Controle Tecnológico.

Jessika Pacheco, sócia da PhD Engenharia.

Marcus Vinicius Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo.

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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