Pavimento urbano de concreto avança com foco em durabilidade e resiliência
Solução amplia aplicações em cidades e obras privadas, impulsionada por avanços em projeto, execução e normalização
O pavimento urbano de concreto (PUC) vem ampliando espaço no Brasil como alternativa para vias urbanas, empreendimentos habitacionais e centros logísticos, pátios industriais. Durante o 5º Congresso ABESC de Pavimento Urbano de Concreto (PUC), realizado na Concrete Show 2026, especialistas destacaram a evolução técnica do sistema, os avanços em normalização, o uso de fibras, os ganhos de produtividade e o potencial da solução para ampliar a durabilidade e a previsibilidade do desempenho da infraestrutura urbana.
Segundo Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC), o desenvolvimento do PUC no Brasil parte da adaptação e consolidação de conhecimentos já empregados em pavimentos rodoviários e pisos industriais, considerando as particularidades das aplicaçõesurbanas. “Nós não inventamos nada. O trabalho foi entender o que estava acontecendo fora do Brasil, trazer isso para uma realidade nacional e incorporar melhorias ao processo”, afirmou.

Resiliência urbana muda a lógica dos investimentos
Para Barbosa Júnior, um dos principais fatores que impulsionam o PUC é a mudança na forma de avaliar os investimentos públicos e privados. Em vez de considerar apenas o custo inicial, ganha importância a análise de durabilidade, manutenção e desempenho ao longo da vida útil.

“Quando falamos de resiliência urbana, estamos falando de obra para durar. Se eu estou falando de sustentabilidade, quero um empreendimento que permaneça. Não quero fazer um processo hoje e ter que refazê-lo daqui a dois anos”, destacou.
Nesse contexto, pavimentos projetados para apresentar maior durabilidade podem contribuir parareduzir a frequência de intervenções, os impactos sobre a mobilidade urbana e os custos associados à manutenção, além de aumentar a capacidade de resposta da infraestrutura diante de condições adversas.
De acordo com o coordenador da ABESC, o avanço do sistema também vem acompanhado da evolução das referências técnicas para apoiar municípios, projetistas e executores. A ABNT PR 1011 – Projeto de pavimentos urbanos em concreto, publicada originalmente em 2021, está atualmente em processo de revisão. O trabalho envolve diferentes entidades e especialistas do setor e busca ampliar a abordagem do documento para contemplar, de forma integrada, aspectos de projeto, execução, inspeção e gestão de ativos, incluindo critérios baseados em desempenho e tenacidade.

Projeto é determinante para o desempenho
O engenheiro Eduardo Tartuce, da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados, reforçou que a competitividade do PUC depende diretamente de um dimensionamento adequado às condições de utilização. Para ele, sustentabilidade e economia não podem ser obtidas por meio da simples redução da espessura do pavimento.
“Não adianta fazer um piso de 10 ou 12 centímetros se ele não vai durar cinco anos. Temos que ter algo econômico e sustentável, mas sem perder a durabilidade. Se o pavimento foi feito para durar 30 anos, ele tem que durar 30 anos”, afirmou.
Entre os aspectos considerados no dimensionamento estão as características do solo (fundação e subleito), as solicitações de tráfego (cargas atuantes), as dimensões e a geometria das placas, o comportamento das juntas, os efeitos de retração e temperatura, e quando empregado concreto reforçado com fibras, o desempenho mecânico do sistema de reforço.
Entre as estratégias de projeto estão as placas de dimensões otimizadas, que podem contribuir para o controle das tensões e para o adequado comportamento das juntas. “A junta é uma fissura planejada, no local onde eu quero que ela aconteça, conforme foi projetada. Se ela não estiver na posição correta, outras fissuras podem surgir”, explicou Tartuce.
Segundo o especialista, a paginação das placas é uma das etapas mais importantes do projeto. O posicionamento e o detalhamento de juntas serradas e construtivas, bem como dos dispositivos de transferência de carga, quando previstos, devem ser compatíveis com o dimensionamento e com as condições de execução.
Macrofibras ampliam as possibilidades de reforço estrutural

Outro ponto destacado no congresso foi a utilização de macrofibras no concreto. Diferentemente das microfibras, empregadas principalmente para o controle da fissuração associada a fenômenos nas primeiras idades, como a retração plástica, as macrofibras estruturais são especificadas para proporcionar capacidade de absorção de energia e resistência residual após a fissuração da matriz, podendo participar do sistema resistente do pavimento quando consideradas no dimensionamento.
Por isso, a utilização de macrofibras não deve ser tratada apenas como uma substituição direta da armadura convencional. O desempenho estrutural depende do tipo de fibra, de suas propriedades mecânicas, da dosagem, da dispersão no concreto e, principalmente, dos parâmetros de desempenho utilizados no dimensionamento. Referências técnicas da ABESC destacam justamente a necessidade de caracterização da resistência residual das fibras para sua aplicação em pavimentos urbanos de concreto.
Barbosa Júnior alertou, que a escolha do material deve estar associada ao desempenho especificado. “Não é simplesmente comprar o concreto, comprar a fibra e adicionar na obra. É preciso corrigir o traço e conhecer a qualidade da fibra que está sendo utilizada”, afirmou.
Tartuce acrescentou que o projeto precisa considerar o desempenho da fibra e não apenas sua presença no concreto. “O PUC pode ser feito com tela, fibra metálica ou fibra sintética. Hoje a fibra sintética tem sido muito utilizada porque, em diversas situações, apresenta vantagem econômica, mas isso precisa ser dimensionado”, explicou.
Execução exige planejamento e controle
O engenheiro Galiano Benossi, superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais, destacou que a execução do PUC demanda atenção especial à preparação da base, a logística de fornecimento do concreto, à regularidade do lançamento, à cura e execução das juntas.

“O planejamento da obra é essencial para se obter um concreto de qualidade e, consequentemente, um resultado final de qualidade”, afirmou.
Segundo Benossi, a ausência de armaduras convencionais em determinadas soluções facilita a descarga direta do concreto e aumenta a produtividade. Em grandes áreas, entretanto, é fundamental organizar o fornecimento do concreto de forma contínua, evitandointerrupções que possam gerar juntas não previstas e diferenças de idade ou de condições de acabamento entre os trechos executados.
A cura também é decisiva, pois tem como objetivo reduzir a perda de água do concreto e proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento da hidratação do cimento e das propriedades mecânicas. Embora a cura úmida seja considerada eficiente, sua manutenção durante vários dias pode ser pouco viável em alguns canteiros. Por isso, a execução costuma recorrer à cura química, desde que o produto e o procedimento sejam adequadamente especificados.
Cabe ainda ressaltar que, em situações de elevada temperatura, baixa umidade relativa ou vento, o controle da evaporação nas primeiras idades torna-se ainda mais importante, especialmente para reduzir o risco de retração plástica e fissuração superficial.
Concreto permeável amplia possibilidades
O concreto permeável também apareceu como uma alternativa para áreas urbanas que precisam combinar pavimentação e drenagem. Paulo Junek, sócio-diretor da Ecocreto Brasil, explicou que o material possui poucos finos e elevado índice de vazios, permitindo a passagem da água.
“Se houver muita formação de argamassa, o concreto perde os vazios e, consequentemente, perde a permeabilidade”, explicou.
Segundo Junek, a solução pode ser aplicada em calçadas, estacionamentos, praças, vias de tráfego leve e até áreas submetidas a cargas mais elevadas, desde que corretamente dimensionado. O projeto deve considerar tipo de solo, índice pluviométrico e utilização da área.
No Parque Villa-Lobos, em São Paulo, mais de 5 mil m² de concreto permeável foram utilizados em áreas de circulação e lazer. Para Junek, o desempenho depende da integração entre as diferentes etapas: “O concreto começa no projeto, passa pelo desenvolvimento e termina na execução. Esse tripé precisa funcionar corretamente.”
PUC ganha escala em Sergipe

No setor habitacional, o estado de Sergipe tornou-se um dos exemplos de expansão do sistema. João Faccio, head de Inovação e Offsite da Stanza, relatou que as condições geotécnicas locais e os períodos de chuva representavam desafios para a produtividade dos canteiros.
“Nós precisávamos garantir acessibilidade e trafegabilidade durante toda a obra, mantendo a produtividade mesmo nos períodos chuvosos”, afirmou.
Com a execução antecipada da pavimentação, as construtoras passaram a trabalhar sobre uma infraestrutura consolidada, reduzindo impactos logísticos e riscos ao cronograma.
Segundo Faccio, o PUC já está presente em empreendimentos de diferentes municípios sergipanos. “Além da qualidade da pavimentação e do melhor andamento da obra, conseguimos eliminar boa parte dos impactos provocados pelas chuvas sobre o cronograma”, afirmou.
Para os especialistas reunidos no congresso, a consolidação do pavimento urbano de concreto dependerá justamente da combinação entre engenharia de projeto, materiais adequadamente especificados, controle executivo, normalização, planejamento e avaliação do desempenho ao longo da vida útil. Como resumiu Tartuce, “o PUC não deve ser escolhido apenas por ser concreto, mas quando sua concepção transforma engenharia em valor, entregando desempenho técnico, eficiência econômica, qualidade urbana e benefícios ambientais ao longo de sua vida útil”.
Fontes
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior é coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC).
Eduardo Tartuce é engenheiro da MixDesign – Tartuce Engenheiros Associados.
Galiano Benossi é superintendente da Gran Nobre Pisos Industriais.
Paulo Junek é sócio-diretor da Ecocreto Brasil.
João Faccio é head de Inovação e Offsite da Stanza.
Contatos
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior – alvaro@abesc.org.br
Eduardo Tartuce – eduardo@mixdesign.com.br
Paulo Junek – paulo@ecocretobrasil.com
Galiano Benossi – grannobre@grannobre.com.br
João Faccio – sac@stanza.com.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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