Pesquisa ressalta presente e futuro do concreto

Estudo encomendado pela ABCP mostra mudança cultural das construtoras e incorporação do concreto dosado em central no dia a dia das obras

Por: Altair Santos

O concreto é hoje o segundo produto mais consumido no mundo. Projeções otimistas presumem que o material possa ocupar o primeiro lugar a partir de 2025, superando a geração de água potável. No Brasil, não é diferente. Por isso, a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) encomendou a mais ampla pesquisa sobre o mercado nacional do concreto. O estudo, coordenado pela e8 Inteligência e pela UBM Brazil, coletou dados do período entre 2005 e 2012 para projetar tendências do setor nos próximos anos. Uma delas é que o concreto dosado em central definitivamente está incorporado ao dia a dia da construção civil brasileira. Em sete anos, seu consumo cresceu 180%.

Divulgação da pesquisa encomendada pela ABCP ocorreu no Concrete Show 2013

Em 2012, por exemplo, as concreteiras instaladas no país produziram 51 milhões de m³, revela a pesquisa. "O concreto preparado em centrais cresce a uma taxa superior ao crescimento da construção civil porque seus sistemas construtivos têm ganhado a preferência dos construtores e porque tem caído o número de obras que rodam concreto sem o uso do serviço das concreteiras", afirma Valter Frigieri, diretor de mercado e planejamento da ABCP, detectando nesta tendência uma mudança cultural dos construtores - hoje mais focados em sistemas construtivos racionais. A ponto de o estudo demonstrar que, em 2012, 20,7% de todo o cimento produzido no país foi consumido pelas concreteiras.

Trata-se de um volume que tende a aumentar. A pesquisa divulgada pela ABCP durante o Concrete Show 2013 projeta que a produção de concreto dosado em central atingirá 72,3 milhões de m³ em 2017, crescendo a uma taxa de 7,1% nos próximos quatro anos. Segundo Eliana Taniguti, que coordenou o estudo pela e8 Inteligência, esse avanço se deve ao maior volume de obras urbanas. "Esse tipo de empreendimento requer um canteiro mais racional, em que a construtora troca a produção de concreto na obra pela compra do produto já pronto", avalia. De acordo com o levantamento, atualmente 12% do concreto produzido no país vai para o nicho das construções urbanas, sejam do segmento residencial ou de infraestrutura.

A pesquisa encomendada pela ABCP mostra também que a inovação tende a acompanhar o crescimento do mercado de concreto dosado em central. "Hoje, o produto na forma de autoadensável já está ocupando uma boa faixa de consumo. No médio e no longo prazo devem surgir novas variedades de concreto, como os autorrecuperáveis, que combatem as fissuras, ou os fotocatalíticos, que minimizam as emissões de gases. Também é esperada a chegada de aditivos verdes. São cenários que vão exigir das concreteiras a otimização de seus processos de fabricação, através de equipamentos mais modernos, menor consumo de energia e maior preocupação com o impacto ambiental", alerta Eliana Taniguti.

Entrevistados
Valter Frigieri, diretor de planejamento e mercado da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland)
Eliana Taniguti, diretora-executiva da e8 Inteligência

Currículos
- Valter Frigieri é graduado em engenharia de produção e mestre em engenharia pela Escola Politécnica da USP, com especialização em Gestão da Engenharia e da Tecnologia
- Professor de Estratégia da Fundação Vanzolini
- Participou da equipe de consultoria que desenvolveu os processos de mudança na Método Engenharia
- Cocriador da Comunidade da Construção
- Atualmente é gerente nacional de mercado da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e foi um dos idealizadores do Clube da Reforma
- Eliana Kimie Taniguti é graduada em engenharia civil pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho(1996), com mestrado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo(1999) e especialização em vedação vertical, drywall, gesso acartonado, divisórias, inovação tecnológica e construção civil
- Atualmente é diretora-executiva da e8 Inteligência e membro-efetivo da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)
Contatos: valter.frigieri@abcp.org.br / eliana@e8inteligencia.com.br

Crédito foto: Divulgação/EVCom

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Gestão de Pessoas é desafio para a construção civil

Setor precisa aprimorar mecanismos de retenção de jovens engenheiros civis, principalmente os que atuam nos canteiros de obras

Por: Altair Santos

O mercado da construção civil intensifica o trabalho para reter talentos. O objetivo é impedir o gap (lacuna) que gerou a expressão "engenheiros de início de obra", ou seja, aqueles que começam um projeto e rapidamente são atraídos por outras empresas, buscando um crescimento mais rápido dentro das corporações. Essa característica é predominante nos profissionais da geração Y, como explica Fernando Marucci, diretor da Asap - empresa de recrutamento de executivos. "O imediatismo da geração Y compromete o amadurecimento no mercado e o aprendizado para ocupar posições de gestão. Isso tem dificultado as empresas e tem levado algumas delas a colocar um profissional júnior em um cargo gerencial, o que é um risco, pois ele pode conseguir desempenhar a função ou não", afirma.

Fernando Marucci: empresas familiares da construção civil são as que têm maior dificuldade para reter talentos

Segundo Fernando Marucci, o grande desafio da construção civil, no que se refere à gestão de talentos, está mesmo em segurar os profissionais de engenharia civil por mais tempo nos canteiros de obras. "A maior parte dos engenheiros civis recém-formados vai para o canteiro de obras, mas fica pouco tempo. Logo, eles se dividem em dois grupos: o que opta por posições no escritório e o que migra para outro setor, como o mercado financeiro", diz o especialista, para quem as empresas familiares da construção civil são as mais impactadas por esse problema. Isso ocorre porque as grandes corporações do setor costumam buscar profissionais nas construtoras de menor porte. "Como existe um apagão de talentos, elas têm planos de remuneração bastante agressivos para atrair quem se destaca", completa.

Para combater o assédio e reter seus engenheiros, Fernando Marucci recomenda que as empresas de pequeno e médio porte invistam numa gestão de talentos que priorize não apenas bons salários, mas fatores como empregabilidade, plano de carreira, bom ambiente de trabalho e política de gestão de pessoas e benefícios. Outra solução é melhorar o recrutamento. "O recrutamento deve se basear nos valores da empresa e num bom mapeamento de mercado", explica o especialista, avaliando que o mercado também poderia agir para, de certa forma, forçar a retenção de talentos. "Acho importante que o mercado segure um pouco os salários no começo da carreira", completa.

No entanto, apesar das dificuldades, não há expectativa de que o mercado encontre um cenário semelhante ao vivido entre as décadas de 1980 e 1990, quando a falta de oferta de trabalho aos engenheiros civis gerou um vácuo na profissão, e que foi sentido recentemente, quando o setor aqueceu e não havia profissionais disponíveis. "A crise não vai atingir esse mesmo nível. Enquanto houver equilíbrio econômico, é sempre bom ter mais oferta de empregos do que candidatos no mercado. A construção civil, junto a outras variáveis, é um termômetro da economia do país. Hoje temos um percentual de participação da construção civil no PIB ainda baixo, se comparado a países desenvolvidos, como os Estados Unidos (a projeção é que só em 2015 o setor atingirá 10% do PIB). Enquanto esse percentual não crescer, esse gap entre oferta de emprego e de candidatos vai existir", finaliza Fernando Marucci.

Entrevistado
Fernando Marucci, diretor da Asap, empresa de recrutamento de executivos
Currículo
- Fernando Marucci é graduado em Economia, com MBA em marketing pela ESPM e em Finanças pela USP. É fluente em inglês
- Iniciou sua carreira de executive search, em 2004, liderando projetos em finanças e RH para média e alta gerência
- É executivo com mais de 14 anos de experiência e iniciou sua carreira em mercado financeiro, passando por siderurgia, bens de consumo, papel e celulose
- Atualmente, é regional managing partner da Asap para a prática de consultoria em busca e seleção de executivos para os setores industrial, infraestrutura e energia
Contato: fernando.marucci@asapbrasil.com

Crédito foto: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Norma de desempenho elimina insegurança jurídica

Congresso do SindusCon-SP debateu aspectos legais da ABNT NBR 15575, a qual incorpora elementos que ajudam nas decisões do Judiciário

Antes de a norma de desempenho (ABNT NBR 15575) entrar em vigor, uma grande construtora brasileira foi acionada judicialmente, sob a alegação de que uma de suas unidades residenciais em Santos não cumpria as exigências de conforto acústico, alegadas pelo comprador. Como não havia parâmetros, o juiz que condenou a empresa usou da subjetividade para analisar o caso e pediu que um perito batesse uma bola de basquete no apartamento do andar de cima para que fosse medido o isolamento acústico da unidade do reclamante. Obviamente, o som transpassou a laje e serviu de subsídio para que o magistrado formulasse sua sentença.

Fábio Villas Bôas: quem seguir parâmetros estará bem protegido de ações dos consumidores

Esse caso foi contado no Congresso Jurídico da Construção, promovido dia 29 de agosto pelo SindusCon-SP, na cidade de São Paulo. Quem relatou a história foi o engenheiro civil Fábio Villas Bôas, coordenador da comissão de estudos da norma de desempenho, membro do comitê de tecnologia e qualidade do SindusCon-SP e diretor técnico da Tecnisa. "Essa é uma das vantagens da norma de desempenho. Ela acaba com a subjetividade do Judiciário, elimina a insegurança jurídica para quem constrói formalmente e cria procedimentos padrões para se aferir itens como eficiência acústica e eficiência térmica. Tanto é que, no texto final da norma, foi eliminada a palavra conforto. A norma usa o termo atenuação, pois conforto é muito subjetivo", explica Fábio Villas Bôas.

Pelo que relatou um dos articuladores da NBR 15575, o advogado Carlos Del Mar - coordenador jurídico do SindusCon-SP - recomenda aos construtores que se esforcem para se adequar o mais rapidamente possível à norma. Primeiro, pelo motivo de que ela passa a disciplinar os Procons de todo o país no que se referir a ações contra construtoras e incorporadoras; segundo, porque não segui-la pode desencadear as seguintes consequências: rejeição do produto, abatimento no preço, indenização, trocas e reparos sob pena de multa, penhora online, entrada no cadastro negativo da Caixa Econômica Federal e até reflexos na esfera criminal. "É importante destacar que quem elaborou a norma foi o meio técnico. Portanto, ela impõe quase uma autorregulamentação ao setor. Por isso, é razoável supor que ela será cumprida", destaca Carlos Del Mar.

Carlos Del Mar: norma de desempenho funciona como a autorregulamentação da construção civil

Tanto Fábio Villas Bôas quanto Carlos Del Mar alertam que o consumidor é quem será o principal fiscal da norma de desempenho. Por isso, a orientação é para que as construtoras estabeleçam situações de prevenção documentando todas as etapas da obra. "Na Tecnisa, foram criados manuais, termos declaratórios e relatórios. Neles, os projetistas declaram ter ciência das especificidades do terreno e que farão o projeto adequando-o àquelas condições. Já os processos construtivos têm acompanhamento constante. Quando o imóvel está pronto, o usuário recebe um manual detalhado e o condomínio é alertado sobre suas obrigações com relação à manutenção. A construtora também estabeleceu um plano de visitas, realizado dentro dos prazos de manutenção. Nosso pessoal de assistência técnica vai ao empreendimento e verifica se a manutenção foi realizada. Caso contrário, o condomínio é notificado de que estará sujeito à perda das garantias", relata Villas Bôas.

Para os membros do SindusCon-SP, apesar de a norma de desempenho exigir mais cautelas do construtor ela deve ser enxergada como um indutor de benefícios ao setor. "A norma torna a concorrência do mercado mais leal e facilita a implementação de inovações nos sistemas construtivos. Além disso, cria diferenciais de venda. Nos estandes da Tecnisa o comprador encontra dois apartamentos montados, um dentro da norma e outro fora. Isso permite a ele ver as diferenças", diz Fábio Villas Bôas. "A norma é uma garantia de segurança ao cliente e estabelece uma relação mais equilibrada entre construtora, incorporadora e cliente", completa Carlos Del Mar.

Entrevistados
- Fábio Villas Bôas, coordenador da comissão de estudos da norma de desempenho, membro do comitê de tecnologia e qualidade do SindusCon-SP e diretor técnico da Tecnisa
- Carlos Del Mar, coordenador jurídico do SindusCon-SP
Currículos
- Fábio Villas Bôas é graduado em engenharia civil pela Universidade Mackenzie e desde 2003 é diretor técnico da Tecnisa
- Integra os comitês de meio ambiente e de tecnologia e qualidade do SindusCon-SP
- Carlos Pinto Del Mar é graduado em direito, sócio da Del Mar Associados Advogados e coordenador jurídico do SindusCon-SP e do Secovi-SP
- Também é consultor jurídico da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e autor do livro “Falhas, Responsabilidades e Garantias na Construção Civil”, da Editora PINI
Contato: sindusconsp@sindusconsp.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Limites ambientais pedem mais tecnologia das obras

Congresso do SindusCon-SP debateu soluções técnicas e jurídicas para que construtoras possam se adequar à nova lei ambiental em áreas urbanas

Por: Altair Santos

Promulgado em 2012, o Código Florestal Brasileiro trouxe uma nova realidade a quem decide empreender no meio ambiente urbano. As restrições tornaram-se mais rigorosas e o risco de embargo - mesmo após a concessão de licenciamento da obra por parte das prefeituras - ficou potencializado pela nova lei, em função de ações do Ministério Público (MP).  "Aumentou a insegurança, desde a compra do terreno até o momento do início das obras propriamente dito", avalia o advogado José Carlos Puoli, coordenador do conselho jurídico do SindusCon-SP e um dos debatedores do Congresso Jurídico da Construção, que aconteceu dia 29 de agosto na cidade de São Paulo.

José Carlos Puoli: investir em tecnologias reduz resíduos e transtornos no entorno da obra

Para o especialista, não resta ao setor se adaptar às restrições do novo código. Uma das soluções, apontadas por Puoli, é investir em tecnologia. "Não vejo outra opção aos construtores, senão investir na industrialização dos canteiros. Com isso, a obra gera menos resíduos, causa menor dano a terceiros nas escavações dos terrenos e reduz o impacto no entorno da obra", afirma, completando que as empresas devem atuar cada vez mais com a perspectiva da prevenção. "Trabalhar dentro da lei já não é mais suficiente, pois vive-se o dilema de estabelecer parâmetros objetivos para um cenário que muda diuturnamente. Por isso, o projeto precisa abraçar todas essas variáveis", alerta.

Para a advogada Ana Cláudia La Plata de Melo Franco, especialista em direito ambiental, o que o novo Código Florestal Brasileiro impõe aos construtores, na questão urbana, é que a análise técnica de uma obra precisa andar de mãos dadas com os limites jurídicos impostos a ela. "Há um imperfeição na lei, pois ela trata as cidades como se elas tivessem sido projetadas, o que não coaduna com a realidade. Esqueceu-se que o Brasil foi urbanizado dentro do conceito ibérico, com ocupação dos morros, das margens das lagoas e dos cursos hídricos (rios). Impropriamente, a lei equiparou zona rural com zona urbana, quando os dois são substancialmente diferentes", comenta.

Mesa destacou que setor formal da construção civil tem preocupações com a lei ambiental

Ana Cláudia recomenda que as empresas busquem um processo de aprovação compartilhada do licenciamento da obra, atuando em conjunto com os setores responsáveis do poder público e do judiciário - especialmente o MP. "Hoje, o técnico da prefeitura designado a dar o licenciamento responde isoladamente se ele conceder a licença e o Ministério Público achar que a licença concedida está incorreta. Na maioria dos casos, o Ministério Público coloca a espada na cabeça dos técnicos e o que o empreendedor precisa é passar segurança ao organismo ambiental, mostrando que o que está no projeto será seguido à risca", diz.

Já o engenheiro civil Francisco Vasconcellos, vice-presidente de meio ambiente do SindusCon-SP, que também atuou nos debates do congresso, destaca que os donos de construtoras precisam rever paradigmas. "A maioria dos empresários do setor é formada por engenheiros e dentro de suas empresas eles costumam terceirizar a questão ambiental. É hora de mudar isso. O bom exemplo está nas empresas que passaram a valorizar essa área. As que eu conheço deixaram de ter conflitos com o Ministério Público ou com ONGs ambientais", relata.

Entrevistados
- José Carlos Puoli, coordenador do conselho jurídico do SindusCon-SP
- Ana Cláudia La Plata de Melo Franco, especialista em direito ambiental
- Francisco Vasconcellos, vice presidente de meio ambiente do SindusCon-SP
Currículos
- José Carlos Puoli é graduado em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1990. Concluiu também na USP mestrado e doutorado em Direito Processual Civil
- Especialista em direito imobiliário, atua como professor-doutor do departamento de Direito Processual Civil da Universidade de São Paulo (USP) e professor em cursos de especialização do Instituto Nacional de Pós-Graduação e do Centro de Extensão Universitária
- É membro da Associação dos Advogados de São Paulo, do Instituto dos Advogados de São Paulo, do Instituto Brasileiro de Direito Processual e do conselho jurídico do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP)
- Ana Cláudia La Plata de Melo Franco é graduada em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
- Participou do primeiro módulo do curso de pós-graduação em meio ambiente, desenvolvimento sustentável e questões globais na FAAP-São Paulo
- É membro da comissão de meio ambiente da Câmara Americana de Comércio (AMCHAM)
- Comanda o grupo de Gás,Construção e Engenharia da Milaré Advogados.
- Francisco Vasconcellos é graduado em engenharia civil e arquitetura pela Universidade de São Paulo
- Desde 2000 atua como vice-presidente de meio ambiente do SindusCon-SP
Contato: sindusconsp@sindusconsp.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

China promete prédio mais alto do mundo em tempo recorde

Sky City One será entregue em abril de 2014 e obras começaram em 20 de julho de 2013. Edificação em aço e concreto terá 838 metros de altura

Por: Altair Santos

No dia 20 de julho de 2013, na cidade de Changsha, no centro-sul da China, começou a construção daquele que será o novo prédio mais alto do mundo. A edificação, cujo projeto prevê altura de 838 metros, irá superar em 10 metros o Burj Khalifa, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e está a cargo do grupo Broad Group.

Sky City One: maior parte do concreto estará nas fundações do edifício

Batizado de Sky City One, o prédio terá um conceito de cidade vertical para 30 mil pessoas - englobando escolas, hospitais, escritórios, setor habitacional e shopping centers - e promete ser construído em tempo recorde. O consórcio, que conta com a participação de chineses e ingleses, estima que as fundações da obra estarão prontas em dezembro de 2013. A partir daí, os 220 andares serão erguidos até abril de 2014, a um custo de 1,46 bilhão de euros - aproximadamente R$ 5 bilhões.

O arranha-céu usará estrutura mista de aço, paredes pré-moldadas de concreto e blocos modulares para agilizar a construção, como explica o engenheiro civil André Gertsenchtein, diretor-superintendente da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE). "Trata-se de uma edificação executada com estrutura metálica especialmente projetada e industrializada para fins prediais, pouco utilizada no Brasil. Além disso, usará elementos construtivos pré-moldados e modulares. É quase como uma montagem de Lego, bastante otimizada", compara.

André Gertsenchtein: China se beneficia da tecnologia globalizada da engenharia

Serão empregadas 270 mil toneladas de aço e estimados 93 mil m³ de concreto - cerca de 60 mil m³ só para as fundações. André Gertsenchtein destaca por que o volume de concreto empregado é relativamente pequeno para uma obra desta envergadura.  "Grandes estruturas de concreto exigem tempo de cura (secagem) das lajes, o que tornaria inatingíveis os prazos definidos no projeto", diz.

Para o especialista, opinar sobre a confiabilidade de uma construção deste tamanho depende de uma análise intrínseca do projeto. "A engenharia atual é capaz de projetar com segurança edifícios bastante altos, ainda que estes tenham peculiaridades que devam ser levadas em conta nos projetos, como o esforço devido ao vento. Por isso, não é possível expressar opinião sobre a confiabilidade da obra sem que se tenha acesso ao projeto. O método construtivo adotado é determinante na análise de confiabilidade versus prazo de execução. Como já disse, uma estrutura de concreto jamais poderia ser executada neste tempo", afirma.

André Gertsenchtein reconhece, porém, que há tecnologia suficiente para dar conta deste desafio proposto pela China. "A engenharia hoje é globalizada e a China aproveita esta tecnologia e viabiliza sua aplicação", avalia. Os motivos que levam aquele país a ter acesso a essa engenharia de vanguarda é que lá existem leis que favorecem a produção, sem as amarras brasileiras, como a legislação ambiental. "Se por um lado isto faz da China um país bastante criticado por sua poluição, por outro torna possível executar projetos inovadores em ritmo que, no Brasil, não seria possível", completa.

Prédio será construído sob o conceito de cidade vertical e poderá receber até 30 mil pessoas

O Sky City One empregará 20 mil operários em sua construção. Sete mil deles estarão fora do canteiro de obras, atuando nas etapas industriais. Estará a cargo deles a fabricação das peças pré-moldadas, dos módulos e das estruturas de aço. Por isso, o sucesso do empreendimento está na forma como será feita a gestão da obra. "É muito importante, neste caso, a aplicação de conceitos estudados na engenharia de produção, pois pequenos atrasos na execução desta ou daquela operação podem, em função da escala, resultar em atrasos expressivos quando se considera a obra como um todo", explica o diretor-superintendente da FDTE.

Nos quesitos gestão de obra e industrialização, a China tornou-se referência mundial. A ponto de outros quatro edifícios com mais de 500 metros de altura estarem em construção naquele país e de outros onze estarem em fase de projeto. Os empreendimentos que já têm canteiros instalados são:
• Shanghai Tower, em Shanghai (632 metros) com conclusão até o 2º semestre de 2014.
• Goldin Finance 117, em Tianjin (597 metros) com conclusão até 2015.
• Ping An Finance Center, em Shenzhen (660 metros) com conclusão até 2016.
• Greenland Center, em Wuhan (636 metros) com conclusão até 2017.

Veja vídeo sobre o Sky City One

Entrevistado
André Stagall Gertsenchtein, diretor-superintendente da FDTE
Currículo
- André Stagall Gertsenchtein é graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP (1989)
- Atua como consultor e é presidente do conselho consultivo do Instituto de Engenharia
- Também é presidente do Instituto Brasileiro Veicular
- É diretor-superintendente da FDTE (Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia ) organismo de apoio à Escola Politécnica da USP
- Foi ex-vice-presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo
- Foi diretor responsável pela área comercial de construtora na área de infraestrutura e concessões (estradas, portos, aeroportos) por 15 anos.
Contato: asg@fdte.org.br

Créditos fotos: Divulgação/ Broad Group

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Sistemas construtivos inovadores chegam ao Minha Casa, Minha Vida

Construções que permitem reduzir o custo das unidades e elevar a produtividade, sem prejudicar a qualidade, tendem a dar impulso ao Programa

Por: Altair Santos

É consenso entre os players da construção civil que o programa Minha Casa, Minha Vida precisa aderir aos sistemas construtivos inovadores para ganhar produtividade, reduzir custos e conseguir combater o déficit habitacional brasileiro, hoje estimado em 5,461 milhões - segundo dados divulgados em julho de 2013 pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (SindusCon-SP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em Curitiba, a Doria construiu 512 unidades dentro do MCMV, usando paredes de concreto moldada in loco.

Para que os sistemas inovadores ganhem espaço no MCMV, hoje eles contam com um facilitador que é o SINAT (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas) como explica Júlio César Sabadini de Souza, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). "Ele é  um indutor da inovação tecnológica na construção civil. Em razão de não haver norma nacional a respeito de projeto, execução e especificação de materiais, só podem ser empregados os sistemas construtivos inovadores avaliados no âmbito do SINAT e que possuem DATec (Documento de Avaliação Técnica)", diz.

Entre os sistemas avaliados, os que têm encontrado menor resistência são os que utilizam painéis de concreto, paredes de perfis de PVC preenchidos com concreto e os sistemas de estrutura leve metálica (light steel frame). Mas nenhum supera o de parede de concreto moldada “in loco”. Esse, definitivamente, já está integrado aos processos construtivos em uso no MCMV.

O motivo é que desde 2012 ele está normatizado pela ABNT NBR 16055 - Parede de concreto moldada no local para a construção de edificações – Requisitos e procedimentos. "Essa tecnologia tem sido utilizada em obras do MCMV e, que eu saiba, não enfrenta resistências", afirma Júlio César Sabadini de Souza, para quem o uso frequente do sistema foi estimulado pela existência de uma nova norma, a qual especifica procedimentos de execução, projeto e requisitos mínimos.

Preparação da estrutura para receber as paredes de concreto moldadas in loco: tecnologia amplia produtividade, baixa custo e reduz impacto ambiental.

Outra vantagem desta tecnologia é que, por ser recente, a normalização já veio adequada às exigências da norma de desempenho (ABNT NBR 15575) em seus requisitos de isolamento térmico e acústico. Além disso, ela garante produtividade. "No caso do sistema de paredes de concreto, pode-se obter paredes estruturais já com as instalações embutidas, e que permitem a aplicação dos acabamentos diretamente sobre as paredes, sem necessidade de revestimento. Então está se reduzindo etapas de execução e obtendo-se ganhos de produtividade no processo", explica o pesquisador do IPT.

Segundo dados da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) a expectativa é que até 2024 pelo menos 30% das construções habitacionais utilizem sistemas industrializados como o de paredes de concreto. "Hoje já existe um bom número de construtoras viabilizando unidades habitacionais através deste sistema. É desta maneira que ele se consolida: com um volume suficiente de unidades para se diluir o custo da fôrma. Assim, é natural que a tecnologia seja empregada em grandes conjuntos habitacionais", estima Júlio César Sabadini de Souza, lembrando outra vantagem da entrada de sistemas inovadores no MCMV. "Como geram menos resíduos, levam vantagem sob o ponto de vista ambiental", conclui.

Entrevistado
Júlio César Sabadini de Souza, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT)
Currículo
- Júlio César Sabadini de Souza é graduado em engenharia civil pela Universidade Federal de São Carlos (1993), com mestrado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo (1997) e doutorado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo (2003)
- Atualmente é pesquisador II do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) atuando principalmente na avaliação de desempenho de sistemas construtivos
Contato: sabadini@ipt.br
Créditos fotos: Divulgação / Doria

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Para o mercado, conforto térmico faz a diferença

Habitações que conseguem ser eficientes em relação à zona climática em que foram construídas economizam energia e estão valorizadas após a NBR 15575

Por: Altair Santos

Desde 2008, quando a norma de desempenho (ABNT NBR 15575 - parte 1 a parte 6) entrou em debate público, o tema eficiência térmica foi um dos que mais causou impacto no mercado. Hoje, com a norma já em vigor, isso se confirma. As construtoras brasileiras, sobretudo as voltadas para o setor habitacional, estão cada vez mais atentas à necessidade de oferecer conforto compatível com as regiões climáticas em que seus empreendimentos são construídos. Quem consegue cumprir essa exigência da NBR 15575 começa a fazer a diferença perante o consumidor. "As pessoas estão valorizando cada vez mais o conforto térmico, porque perceberam que as edificações que apresentam essas soluções gastam menos energia", afirma a arquiteta Patrizia Chippari.

Qualquer edificação precisa considerar a insolação em seu projeto

No entanto, conforto térmico não se obtém depois que a obra estiver concluída. É importante prever essa solução no projeto da edificação, até por uma questão de custo. "Quando a preocupação com o conforto térmico da edificação existe desde a fase do desenvolvimento do projeto, os custos são reduzidos. O que muda é que o projetista já passa a considerar esse aspecto no seu planejamento. Podem ser necessários alguns gastos extras em aquisição de materiais, mas a economia posterior muitas vezes compensa o investimento inicial. Perfis de portas e janelas em PVC, por exemplo, costumam ser mais caros, mas garantem melhor isolamento para o ambiente e ajudam a garantir tanto o conforto térmico quanto o acústico", explica Patrizia Chippari.

No projeto, além da escolha de materiais, é importante também levar em consideração outros fatores que influenciam no desempenho térmico da edificação. Entre eles, a localização do terreno e a posição do imóvel no terreno, a questão dos ventos e o posicionamento de portas e janelas. Também é fundamental valorizar itens como insolação, presença de prédios ou outras edificações na vizinhança e a zona climática onde a obra será construída. Se for em regiões quentes, é importante valorizar o sol da manhã; se em regiões frias, a insolação da tarde é mais relevante. Tratam-se de fatores que, segundo a arquiteta Patrizia Chippari, influenciam na produtividade e na qualidade de vida dos que irão habitar a edificação. "A valorização do conforto térmico é um fator de produtividade", ressalta.

Patrizia Chippari: conforto térmico oferece economia de até 10% no consumo de energia.

Cálculos estimam que uma habitação que tenha bom desempenho térmico consegue poupar até 10% de energia por mês. No caso de a edificação estar localizada em zona climática quente, a eficiência se obtém trocando o uso de ar-condicionado por soluções como brise soleil - estruturas metálicas, de madeira ou de alvenaria que são projetadas levando em consideração a posição do imóvel em relação à insolação. O aparato garante sombra no interior das edificações a partir de determinados horários. Outras opções estruturais são os tetos verdes e as fachadas com placas especiais, instaladas à frente da parede - a sete centímetros de distância - que formam um "colchão" de ar no local e diminuem a transmissão de calor do ambiente externo para o interno.

Se a obra estiver em uma região fria, é fundamental estar atento às especificações dos caixilhos, da vedação das janelas, da qualidade dos tijolos (cerâmicos ou de concreto) e do revestimento do piso e das paredes. Por causa da norma de desempenho, o mercado de materiais já oferece uma série de produtos que, quando usados na fase de construção, garante eficiência térmica ao empreendimento. Entre eles, mantas para serem instaladas entre o piso e o contrapiso, lajes pré-fabricadas com elementos como o isopor, papéis de parede, janelas com vidro duplo e até portas com componentes isolantes. É importante, porém, levar em consideração a inércia térmica da edificação (capacidade de contrariar as variações de temperatura no seu interior, em relação ao ambiente externo) fazendo-a resistir à zona climática em que foi construída. Em regiões de clima seco e frio, o ideal é buscar uma alta inércia térmica. Já em regiões litorâneas, onde predomina o clima úmido e quente, se deve trabalhar com baixa inércia térmica.

Entrevistada
Patrizia Chippari, arquiteta, especialistas em projetos habitacionais e sócia-diretora da Espaço Livre Arquitetura
Currículo
- Patrizia Chippari é graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie (SP)
- Em 2004, idealizou a Espaço Livre Arquitetura, que já desenvolveu mais de 45 projetos de arquitetura, corporativos e residenciais
- Em 2012, organizou um curso in company em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre gestão de projetos, justamente para garantir a eficiência dos processos internos e garantir o cumprimento de prazos
Contato: contato@espacolivre.arq.br
Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Corretor imobiliário vence queda de braço contra engenharia

Decisão judicial polêmica contraria norma técnica, código do consumidor e lei federal, que reservam avaliações aos engenheiros e aos arquitetos

Por: Altair Santos

Recentemente, uma disputa judicial que se arrastava por quase sete anos foi finalizada com vitória para os corretores de imóveis. A categoria obteve sentença favorável no Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF) contra uma ação declaratória movida pelo Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape) e pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea-Crea). Nela, questionava-se a resolução do Cofeci (Conselho Federal de Corretores de Imóveis) que autoriza o corretor de imóveis a elaborar parecer técnico de avaliação mercadológica. No entender do Ibape e do sistema Confea, a ABNT NBR14653 - Avaliação de bens, o Código de Defesa do Consumidor e a lei federal nº 5.194/66 definem que somente profissionais cadastrados no Crea podem emitir avaliações.

João Teodoro da Silva, presidente do Cofeci: corretor de imóveis vive nova realidade.

De acordo com o presidente do Cofeci, João Teodoro da Silva, a decisão judicial foi amparada pela nova realidade dos corretores de imóveis, onde, segundo ele, 70% dos profissionais inscritos no sistema já têm curso superior. Aliás, a decisão judicial favorável à categoria deixa claro que a avaliação do corretor só será reconhecida se ele tiver "diploma de curso superior em gestão imobiliária ou equivalente". "O reconhecimento da profissão pela sociedade e pelos poderes de nossa República são fatores muito significativos, que decorrem de sucessivas ações realizadas pelo Cofeci e pelos Crecis, como, por exemplo, a luta permanente pela melhoria dos conhecimentos gerais e profissionais dos corretores de imóveis", disse. No Brasil, a regulamentação da profissão de corretor de imóveis existe desde a lei 4.116, de 27 de agosto de 1962, e que foi substituída pela lei 6.530, de 12 de maio de 1978.

Foi no artigo 3º desta lei de 1978 que a Justiça se amparou para dar parecer favorável à categoria. Ele diz que "compete ao corretor de imóveis exercer a intermediação na compra, venda, permuta e locação de imóveis, podendo, ainda, opinar quanto à comercialização imobiliária". "Quem opina profere avaliações imobiliárias, uma vez que se trata de emitir um juízo acerca do preço de um bem", afirma trecho da sentença. Para a representante do Ibape, a decisão precisa ser interpretada. "O corretor tem a prática, o corretor tem o dia a dia do imóvel. Só que quando entra cálculo, referência estatística e conhecimento de engenharia, quem tem de fazer a avaliação é o engenheiro ou o arquiteto. Porque o corretor tem a opinião do mercado e o engenheiro e o arquiteto tem a técnica", afirma Vera Lúcia de Campos Corrêa Shebalj, vice-presidente do Ibape nacional e presidente do Ibape-PR.

Vera Lúcia de Campos Corrêa Shebalj, vice-presidente do Ibape: decisão carece de interpretação.

Nem o Ibape nem o sistema Confea pretendem recorrer da decisão judicial, mas destacam que o métier do corretor de imóveis é emitir a opinião do mercado. "O corretor vai fazer vistoria no imóvel para avaliá-lo. Ele não tem condições, caso a edificação tenha alguma patologia, de dizer se a trinca é séria ou só é um problema de argamassa. Ele não tem conhecimento técnico para isso", diz Vera Lúcia de Campos Corrêa Shebalj, completando: "O corretor tem a opinião de mercado e o engenheiro e o arquiteto tem a fundamentação. Este é o diferencial." A representante do Ibape lembrou ainda que a sentença a favor dos corretores poderia, ao menos, regulamentar a comissão da categoria. "Eles brigaram por um nicho de mercado que pode lhes render 6% do valor do imóvel", criticou. O artigo 724 do Código Civil define a remuneração da corretagem da seguinte forma: “A remuneração do corretor, se não estiver fixada em lei, nem ajustada entre as partes, será arbitrada segundo a natureza do negócio e os usos locais."

Entrevistados
- João Teodoro da Silva, presidente do Cofeci (Conselho Federal de Corretores de Imóveis)
- Vera Lúcia de Campos Corrêa Shebalj, vice-presidente do Ibape (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia)
Currículos
- João Teodoro da Silva é graduado em direito pela UniCuritiba. Também tem graduação em física e matemática, pela PUC-PR, e em gestão imobiliária pela Ulbra
- É presidente do sistema Cofeci-Creci
- Vera Lúcia de Campos Corrêa Shebalj é graduada em arquitetura e urbanismo pela USP e em engenharia de segurança do trabalho pelo CEFET-PR
- É vice-presidente do Ibape nacional e presidente do Ibape-PR
- É perita judicial e extrajudicial nas comarcas de São Paulo e Curitiba
Contatos: cofeci@cofeci.gov.br / proojekt@gmail.com
Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Salário inicial de engenheiro quase duplica em 10 anos

Entre 2000 e 2010, demanda por profissionais foi maior que a oferta e inflacionou remunerações. Desde 2011, mercado tem se adequado à realidade

Por: Altair Santos

O salário médio de alguns profissionais com nível superior no Brasil declinou de R$ 4.317 para R$ 4.060, entre 2000 e 2010, segundo estudo do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). O levantamento baseou-se em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e constatou também que algumas graduações fizeram caminho inverso, ou seja, registraram aumento significativo nos salários durante o período pesquisado. Entre elas, estão as engenharias e a arquitetura, além de medicina, economia e ciências sociais. "Tratam-se de profissões onde a demanda aumentou mais rapidamente do que a oferta, porque a sociedade está precisando mais destes profissionais", cita Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do INSPER.

Naercio Aquino Menezes Filho: demanda maior que a oferta elevou salários na década passada.

No caso da engenharia civil, foi explícito o impacto que a demanda causou nos salários. No final da década passada, entre 2008 e 2010, no auge de programas como PAC e Minha Casa, Minha Vida, além da descoberta do pré-sal, chegou-se a ofertar 755 vagas por semana - numa média nacional - aos engenheiros civis brasileiros. Para os profissionais recém-formados, que costumavam entrar no mercado de trabalho ganhando R$ 2.700,00 (em média) o salário inicial saltou para R$ 4.210,20. Mas o grande avanço se deu no segmento de profissionais com entre dez e quinze anos de experiência. Para eles, o salário médio chegou a R$ 7.588,16. Em algumas cidades, esse valor quase dobrou. Como no Distrito Federal, onde o salário médio do engenheiro civil com dez a quinze anos de experiência chegou a R$ 13,3 mil.

No entanto, a pesquisa do Insper detecta que desde 2011 há uma tendência de acomodação nos salários e de retração para os que foram recentemente contratados. "Pode ser por que começa a ter mais oferta de mão de obra", avalia Naercio Aquino Menezes Filho. Um dado explica essa tendência. Entre 2000 e 2010, a porcentagem de matrículas nos cursos de graduação aumentou mais de 80%. No caso das engenharias, por exemplo - segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) - 1,2 milhão de estudantes se matricularam em cursos de graduação na década passada. Porém, a taxa de evasão chegou a 55,59%. O mesmo levantamento revelou que do 1,2 milhão somente 328 mil novos engenheiros chegaram ao mercado de trabalho.

Especializações e a qualidade da instituição de ensino pesam no salário do engenheiro.

Tanto o estudo do Insper quanto o da CNI constataram que menos de 0,5% dos que concluíram graduações em engenharia na década passada buscaram mestrado e doutorado. Para esses, os salários se mantêm elevados. "As especialidades e a diferença de qualidade entre as instituições de ensino geram desigualdades salariais", detecta a análise coordenada pelo professor Naercio Aquino Menezes Filho. Na média nacional, um engenheiro que tenha aprimorado seus conhecimentos recebe acima de 30% a mais do que aquele que se limitou à graduação. Durante a década passada, os setores que mais valorizaram as especializações - dentro das engenharias - foram os seguintes: petróleo e gás, financeiro, governo, aeronáutica, automobilístico, consultorias e construção civil.

 

Entrevistado
Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)
Currículo
- Naercio Aquino Menezes Filho é graduado em economia pela Universidade de São Paulo (1986), com mestrado em economia pela Universidade de São Paulo (1992) e doutorado em economia pela University College London (1997)
- Atualmente é professor titular (Cátedra IFB) e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) além de professor associado da Universidade de São Paulo e consultor da Fundação Itaú Social
- Tem experiência na área de economia, com ênfase em capital humano e organização industrial, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, mercado de trabalho, distribuição de renda, produtividade, tecnologia e desemprego
Contatos: naerciof@usp.br / naercioamf@insper.edu.br
Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Para CBIC, construção civil precisa driblar fadiga

Com base em dados da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) organismo sugere mais produtividade e menos burocracia para o setor

Por: Altair Santos

A mais recente Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) - estudo produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - mostra que o período de 2007 a 2011 pode ser interpretado como a "fase de ouro" da construção civil no país. Impulsionado por crédito intenso, programas governamentais e isenções fiscais, o setor acostumou-se a crescer acima do PIB nacional. Para que esse cenário se perenize, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) avalia que novos movimentos precisam ser dados. Entre eles, focar na inovação e na industrialização, para elevar a produtividade e reduzir custos, e combater a burocracia. São ações que evitarão que o crescimento da construção civil entre em um processo de fadiga, como avalia o vice-presidente da CBIC, José Carlos Rodrigues Martins, na entrevista a seguir:

José Carlos Rodrigues Martins, vice-presidente da CBIC: período entre 2007 e 2011 foi a fase de ouro da construção civil.

A mais recente edição da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) mostra que o setor teve crescimento pujante de 2007 a 2011. As perspectivas seguem otimistas para o próximo período de 4 anos?
Até 2004, o setor da construção viveu um longo período de baixo crescimento e poucos investimentos, o que produziu um significativo déficit nas áreas habitacional e de infraestrutura. Essa situação foi resultado de um ambiente macroeconômico de instabilidade e dificuldade de planejar em prazos mais longos. Com a estabilidade macroeconômica alcançada a partir do Plano Real e com a melhora do ambiente regulatório, a partir da Lei do Patrimônio de Afetação (lei 10.931, de 2004) a indústria da construção encontrou as condições necessárias para avançar, associado à percepção do governo federal da importância estratégica para estimular os investimentos, a geração de empregos e renda. São exemplos de ações concretas o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) marcos do retorno do setor público como planejador e indutor dos investimentos. Entretanto, este ciclo de crescimento mais pujante começa a demonstrar fadiga e exige novas ações, com foco na inovação e industrialização de produtos e processos que permitam elevar a produtividade, reduzir custos e tornar os negócios (a decisão de investir) mais rápida e segura (redução de burocracias e procedimentos do “antigo modelo”) para todos os agentes econômicos envolvidos. Assim, a construção ainda deverá ser um dos vetores do crescimento brasileiro, pois a sua importância não foi reduzida, ao contrário, a necessidade de elevar os investimentos e manter os avanços sociais leva a concluir que o setor permanecerá se desenvolvendo, entretanto em ritmo mais lento até que se instalem as bases do novo modelo, que deverá elevar novamente a atividade e firmar um patamar mais elevado para o setor.

O período 2007-2011 tende a entrar para a história como a fase de ouro da construção civil brasileira?
Certamente foi um período importante, pois recolocou a construção como protagonista do desenvolvimento econômico. O Brasil voltou a investir e a planejar, sem perder o foco na inclusão social produtiva, que caracteriza a formalização.

Ampla oferta de financiamento para habitação, liberação de recursos pelo BNDES e desoneração do IPI de insumos da construção são apontados como as principais alavancas para os bons resultados mostrados na PAIC. Esses pilares devem continuar sustentáveis?
Sim, o financiamento habitacional permanece registrando sucessivos recordes, os saldos de poupança crescentes e a aprovação de projetos de construção continuam ocorrendo. Em se tratando das desonerações, são importantes, pois representam recursos que permanecem no setor produtivo e contribuem para manter a atividade econômica. Entretanto, é importante destacar que cada vez mais estas desonerações precisam ser realizadas com cautela, pois o espaço fiscal do governo se mostra cada vez mais limitado. Desta forma, as desonerações sobre o produto final tendem a ser mais efetivas, pois são integralmente repassadas ao consumidor. Um exemplo claro foi a recente redução do RET (Regime Especial de Tributação) de 6% para 4%, na faixa 2 do MCMV, e de 4% para 1% na primeira faixa do programa.

A PAIC revelou também que aumentou a concentração de obras em torno de um grupo de construtoras, tanto as que atuam no setor habitacional quanto as que atuam em infraestrutura. Isso é bom ou ruim para o setor?
É necessário esclarecer bem essa questão, para não gerar dúvidas. Em nenhum momento a PAIC demonstra que a construção é um setor concentrado. Ao contrário. Os índices de concentração da construção são bem menores do que outros segmentos da indústria. O que a PAIC revelou é que, em virtude de crescimento de obras de infraestrutura, o índice de concentração dessas obras passou de 0,26 em 2007 para 0,29 em 2011. O de obras habitacionais, por sua vez, passou de 0,09 para 0,12. Esses aumentos aconteceram em virtude dos programas de incentivos a esses segmentos (PAC e PMCMV). Mas, mesmo assim, são índices baixos, demonstrando que a construção não é um setor que possui concentração industrial. Ela está muito distante disso. Deve-se lembrar que o grau máximo de concentração é 1. Particularmente, em relação à divisão de obras de infraestrutura, que apresentou a maior concentração em todos os índices, isso acontece porque as empresas deste setor geralmente fazem obras de grande porte, necessitando de maiores volumes de investimentos em máquinas e equipamentos, sendo assim, mais intensivas em capital. Outro importante dado que mostra a desconcentração do setor é a indicação feita pela Caixa Econômica Federal de que 13% das obras do Minha Casa, Minha Vida foram feitas pelas grandes construtoras. A maioria dos empreendimentos (87%) foi tocada por pequenas e médias empresas.

Por outro lado, a PAIC revelou que entre 2007 e 2011 o número de empresas ativas do setor quase duplicou. Isso pode mostrar que também aumentou a terceirização no setor?
O que aconteceu neste período, na verdade, foi um significativo aumento da formalização de empresas, empregados e empreendimentos que se tornaram visíveis não apenas pela melhoria das condições de operação, mas também para ter acesso às novas oportunidades que surgiram neste período (crédito, políticas de inovação, compras públicas entre outros).

A pesquisa detectou também um crescimento relevante na construção de edifícios. A verticalização das edificações será uma tendência a partir de agora?
Sem dúvida. A escassez de terras urbanizadas nas regiões metropolitanas tem, naturalmente, impulsionado um movimento de verticalização das cidades. Esse fenômeno não é novo, mas tem sido intensificado nas últimas décadas. Essa é uma saída para oferecer serviços públicos, emprego, moradia a populações cada vez maiores, otimizando a infraestrutura já disponível nas nossas cidades.

Em termos de regiões do país, o sudeste ainda lidera o volume de obras, mas o nordeste teve crescimento acentuado. Essa tendência pode se perenizar?
Muitos economistas avaliam que o Nordeste deve continuar crescendo em um ritmo superior ao do PIB brasileiro. As expectativas de investimento na região comprovam isso. Além disso, as carências de infraestrutura e o déficit habitacional, que ainda é expressivo na região, fazem crer que o setor da construção deve continuar experimentando um ritmo de crescimento significativo nos próximos anos para fazer frente a esses gargalos.

A alta do dólar, que o Brasil experimenta, pode influenciar de que forma o desempenho da construção civil?
O aumento do dólar deve ser avaliado no contexto da conjuntura econômica como um todo, pois essa conjuntura influencia diretamente o desempenho dos setores produtivos. Neste contexto, uma das preocupações com essa alta passa pelo impacto que ela pode proporcionar na taxa de inflação. É justamente a inflação um dos fatores que têm gerado maior preocupação no cenário nacional. A estabilidade dos preços é essencial para o cenário macroeconômico nacional, que tem demonstrado dificuldades de acelerar o seu ritmo de crescimento. É bom lembrar que a estabilidade monetária é indispensável para a confiança empresarial que, por sua vez, reflete positivamente nos investimentos que necessariamente passam pelo setor de construção.

Qual análise geral que a CBIC faz dos dados trazidos pela PAIC?
A Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) revela, de forma mais desagregada, como foi o desempenho do setor da construção civil. A última pesquisa realizada, que traz os resultados do ano 2011, demonstra que, naquele ano, o setor sofreu influência positiva de fatores como a maior oferta de crédito imobiliário, o aumento dos desembolsos para obras de infraestrutura do BNDES, do aumento do emprego e da renda, além, é claro, do incremento do consumo das famílias. Também influenciou o desempenho setorial a desoneração do IPI de vários insumos da construção, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa Minha Casa, Minha Vida. É bom lembrar que naquele ano o setor registrou expansão de 3,6% superior ao desempenho do país, que foi 2,7%. A PAIC, sem dúvidas, é mais um instrumento que evidencia a importância da construção para o desenvolvimento da economia nacional.

Confira a íntegra da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC)

Entrevistado
José Carlos Rodrigues Martins, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
Currículo
- José Carlos Rodrigues Martins é graduado em engenharia civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1977
- Foi presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi-PR) no período de 1998 a 2001 e vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (SindusCon-PR) de 2001 a 2004
- Entre 2010 e 2012 exerceu a presidência do Comitê Nacional de Desenvolvimento Tecnológico da Habitação (CTECH) do Ministério das Cidades
- É vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção desde 2001
Contatos: www.cbic.org.br / comunica@cbic.org.br
Créditos foto: Erivelton Viana / CBIC

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330