Tombamento preserva concreto de Poty Lazzarotto
Decisão do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico tende a preservar pelo menos 40 murais de um dos principais artistas do Brasil
Por: Altair Santos
Poty Lazzarotto (1924-1998) se definia como desenhista, gravurista, ceramista e muralista. Mas reconhecia, porém, que suas obras mais emblemáticas foram concebidas em concreto. No livro Poty: Murais Curitibanos, a autora Daniela Pedroso procura evidenciar isso. Ela catalogou 40 obras do artista paranaense, mostrando que a fase de trabalhos em concreto começou em 1967. “O mural em concreto aparente mais antigo do Poty está localizado na Praça 29 de março, intitulado Desenvolvimento de Curitiba. Foi produzido em 1967. É possível perceber a exploração tímida dos relevos e o desenvolvimento do tema por meio de módulos. O tratamento dado pelo artista difere muito dos seus últimos murais, onde o relevo se projeta quase como uma escultura”, define a pesquisadora.

Autor de painéis emblemáticos construídos em concreto, Poty Lazzarotto tem um, em especial, que é considerado sua “obra perfeita”. É o mural Paraná, localizado na fachada do Palácio Iguaçu - sede do governo paranaense -, em Curitiba. “As formas e relevos são arrojados, assim como a desproporção das figuras. Tudo é muito bem construído, de maneira a nos envolver devastadoramente”, explica Daniela Pedroso, cujo livro publicado em 2006 faz uma análise de toda a obra de Poty que se encontra em espaços públicos. Neste sentido, murais em azulejo, painéis em concreto aparente, esculturas em madeira gravada, pinturas e vitrais foram elencados pela autora.
Também por isso, - por estarem expostas ao tempo - muitas destas obras começaram sofrer com corrosões, descolamento de placas e a se tornarem vulneráveis ao vandalismo. Para recuperar e preservar este patrimônio de todos os paranaenses, o Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (CEPHA) decidiu pelo tombamento de 35 painéis e murais criados por Poty Lazzarotto, e que se encontram no Paraná. “Essa medida agiliza a conservação e a restauração das obras. A meu ver, os murais de azulejo devem ser os primeiros a ser restaurados. Em alguns deles, faltam azulejos e a vegetação se impôs em algumas partes das obras”, revela a autora de Poty: Murais Curitibanos.

Escola francesa
Para Daniela Pedroso, as obras em concreto aparente produzidas pelo artista são as que se encontram em melhor estado de conservação, se comparadas com as de azulejo. Por respeito, ou sorte, nem os pichadores atacaram os painéis de Poty. “Quando isso ocorre, faz-se necessário a restauração do patrimônio. No momento, nenhuma de suas obras em concreto aparente apresenta esse tipo de problema (vandalismo)”, comemora a pesquisadora. Além de obras públicas, o artista também produzia arte em concreto para clientes particulares. Estas, no entanto, não fazem parte do acervo tombado pelo governo do Paraná.
Poty e Caribé, artista plástico de Salvador-BA, são os que mais utilizaram e desenvolveram a técnica de painéis em concreto aparente no Brasil. Eles usavam metodologias muito parecidas: esculpiam o desenho em formas de isopor, usavam concreto autoadensável leve, aplicado sobre uma tela fina de aço e, sem o uso de aditivos, promoviam uma cura lenta do material. Poty aprendeu a fazer painéis em concreto no período em que realizou cursos na França, nos anos 1940. Nascido em Curitiba, curiosamente no mesmo dia de aniversário da cidade (29 de março), o artista tem obras espalhadas no Brasil e em países como França, Alemanha e Portugal. No entanto, é em Curitiba onde se concentra boa parte delas.
Confira as 35 obras tombadas de Poty Lazzarotto
Governo Federal
• Painel da fachada do Hospital de Clínicas da UFPR - O Bom Samaritano
• Mural do Hospital de Clínicas - Evolução Hospitalar
• Painel do Museu de Arqueologia e Artes Populares de Paranaguá - Índios
• Painel do Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná - História da Tecnologia - O trabalho humano e a evolução tecnológica
• Painel UTFPR - Profissões - Ofícios
• Painel de azulejos do Instituto Nacional de Previdência Social - Litoral Brasileiro
• Painel em azulejos na sede do Tribunal Regional Eleitoral (I e II)
• Painel de azulejos do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná
• Painel em Itaipu, Foz do Iguaçu - Trabalhadores da Barragem
Governo do Paraná
• Painel do Palácio Iguaçu - Pinheiros, Café e Erva-Mate - Trabalho na Lavoura
• Painel da fachada do Palácio Iguaçu - Paraná - Alegoria ao Paraná
• Painel da TV Paraná - A Comunicação, Canal da Música
• Painel (6 faces) do saguão do Edifício BADEP - História do Paraná - Símbolos da História do Paraná
• Painel da sala de reuniões do BADEP - Mapa do Paraná Estilizado
• Painel do Plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná - Assembleia
• Porta dupla face do Salão Nobre da Assembleia Legislativa do Paraná - Lavrador, Sol e Três Planaltos - Trabalhadores
• Painel do saguão da Assembleia Legislativa do Paraná - Sol, Pinhão e Três Planaltos - Sol, Pinhões e Planaltos
• Mural da Assembleia Legislativa do Paraná - Símbolos do Paraná
• Mural no Estacionamento do Museu da Imagem e do Som
• Saguão do Instituto Tecnológico Simepar, no Centro Politécnico da UFPR - O tempo e a Vida!
• Painel de azulejos no Tribunal da Justiça do Paraná
• Porta corta-fogo do grande auditório do Teatro Guaíra - O Teatro, a Música e a Dança
• Painel da fachada do Teatro Guaíra - Evolução das Artes Cênicas - O Teatro no Mundo
• Cortina corta-fogo no auditório Salvador de Ferrante, Teatro Guaíra - História do Teatro no Paraná - História do Teatro Paranaense
• Mural na Sanepar, Curitiba - Evolução do Saneamento Básico
• Duas peças em concreto na Sanepar, Curitiba

Município de Curitiba
• Painel de azulejos no Mercado Municipal de Curitiba
• Mural da Travessa Nestor de Castro (I) - O Largo da Ordem
• Mural da Travessa Nestor de Castro (II) - Imagens da Cidade
• Monumento do 1º Centenário do Paraná
• Painel da Praça 29 de Março - História de Curitiba
• Painel do Largo Isaac Lazzarotto - Monumento ao Ferroviário
Estruturas Viárias
• Monumento da Rodovia do Café
• Monumento rodoviário no entroncamento Curitiba/Palmas - Decorativo
Município de Maringá
• Painel do Teatro Regional Calil Haddad e Museu Hellenton Borba Cortes

Entrevistada
Educadora e pesquisadora Daniele Pedroso, com graduação em educação artística - licenciatura em artes plásticas – pela UFPR. Autora do livro Poty: Murais Curitibanos.
Contato
dapedroso@sme.curitiba.pr.gov.br
danielapedroso@hotmail.com
Crédito Fotos: Divulgação/Prefeitura de Curitiba
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Nanotecnologia define novas fronteiras do concreto
Com base na evolução tecnológica, professor Paulo Monteiro avalia que futuro do material está na descoberta de novos agregados que o levem a durar mais
Por: Altair Santos
Em outubro de 2014, em Natal-RN, foi realizado o 56º Congresso Brasileiro do Concreto, promovido pelo Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto). Entre os convidados esteve o professor da Universidade da Califórnia-Berkeley, nos Estados Unidos, Paulo José Melaragno Monteiro, que palestrou sobre o seguinte tema: “Dois mil anos de tecnologia do concreto e os grandes desafios para este milênio”. Mestre e doutor em engenharia e mecânica estrutural, o especialista fez uma conexão entre a história do material, sua evolução e para onde apontam as pesquisas.

Paulo José Melaragno Monteiro, junto com uma equipe internacional de geólogos e engenheiros civis, atuou em um estudo que buscava entender por que o concreto fabricado na Roma Antiga mantém-se intacto até hoje, após dois mil anos, enquanto o material atualmente empregado em obras começa a apresentar fadiga depois de 50 anos. Os rumos das investigações mostraram que o segredo do concreto está em um composto altamente estável, conhecido como silicato hidratado de cálcio e alumínio. O agregado se origina das cinzas vulcânicas.
Esta pozolona foi descoberta por Marcus Vitruvius Pollio, engenheiro do Imperador Augusto, que descreveu o processo no ano 30 a.C. A cinza vulcânica era combinada com cal, para formar uma argamassa, que depois era misturada com pedra, embalada em moldes de madeira e mergulhada na água do mar. Ou seja, em vez de lutar contra os elementos marinhos, os maiores inimigos do concreto moderno, os romanos aproveitavam a água salgada, tornando-a parte integrante do concreto. Essa combinação dava origem à tobermorita de alumínio, que ajuda a explicar a resistência do concreto do Império Romano.
O estudo sobre as investigações a respeito da tobermorita de alumínio foi publicado em 2013 no Journal of the American Ceramic Society, sob o título: “As propriedades elásticas da tobermorita no antigo concreto submarino romano”. Além do professor Paulo José Melaragno Monteiro, participaram da pesquisa os seguintes cientistas: Marie D. Jackson, Juhyuk Moon, Emanuele Gotti, Rae Taylor, Sejung R. Chae, Martin Kunz, Abdul-Hamid Emwas, Cagla Meral, Peter Guttmann, Pierre Levitz e Hans-Rudolf Wenk.
Nanoestruturas
Obviamente que o processo de cura do concreto usado no Império Romano era muito mais lento, algo inimaginável para os tempos atuais. Por isso, Paulo José Melaragno Monteiro, que recentemente também palestrou na FAPESP Week California, em Berkeley, nos Estados Unidos, avalia que a nanotecnologia definirá novas fronteiras para que o concreto consiga se tornar tão sustentável quanto o dos romanos. “O Cimento Portland, o mais utilizado pela construção civil, teve uma evolução que durou dois mil anos. Para avançarmos mais nessa área, diante de todos os desafios que se impõem, não é possível esperar tanto tempo. Por isso, a nanotecnologia nos tem possibilitado trabalhar com mais agilidade na busca por alternativas”, diz.
De acordo com o professor, a urgência por inovações na área do concreto se deve não só aos impactos ambientais que o aumento da demanda irá provocar, mas também à busca de um material mais resistente. “A infraestrutura de concreto armado existente está se deteriorando a um ritmo acelerado. A ação de fenômenos naturais, aliada a ataques de sulfato, entre outros fatores, têm reduzido a durabilidade de estradas, pontes, barragens e edifícios. Para que possamos melhorar a tecnologia existente, é preciso avançar na compreensão da nanoestrutura dos produtos e das reações de deterioração complexas. Esse conhecimento pode ser usado para produzir estruturas mais duráveis de concreto armado”, destaca.
Entrevistado*
Engenheiro civil Paulo José Melaragno Monteiro, professor-titular do Departamento de Engenharia Civil da Universidade da Califórnia-Berkeley (UCB)
Contato: monteiro@ce.berkeley.edu
*Reportagem contou com a colaboração da Agência Fapesp e da assessoria de imprensa do Ibracon
Crédito Foto: Divulgação Ibracon
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Dubai é quem mais lucra com turismo arquitetônico
Dinheiro gerado pelo petróleo permite erguer obras que tornam a cidade dos Emirados Árabes em uma espécie de Meca das construções arrojadas
Por: Altair Santos
Dubai, a principal cidade dos Emirados Árabes, possui quase 2,3 milhões de habitantes e, anualmente, recebe cerca de 4,7 milhões de turistas. Entre os visitantes, pelo menos metade é formada por profissionais e estudantes de arquitetura e engenharia de todo o mundo. Isso faz da metrópole do Oriente Médio uma espécie de Meca do turismo arquitetônico. A ponto de ter tirado Barcelona do posto de primeiro lugar neste segmento.

Graças aos recursos obtidos com a venda de petróleo, Dubai é um permanente canteiro de obras, e sempre envolvida por projetos superlativos: o prédio mais alto do mundo, o maior shopping center, a maior ponte em arcos, além de outras construções que estão em andamento. Estima-se que o estado permanente de obras mantenha-se inalterado em Dubai pelo menos até 2021, quando os Emirados Árabes Unidos completarão 50 anos. Antes, em 2020, o país receberá a Expo 2020, cujo tema principal será mobilidade e sustentabilidade.
Por isso, o atual fluxo de construções em Dubai concentra-se em empreendimentos urbanos, como pontes, túneis, viadutos e a extensão das linhas de metrô e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Dentro deste conceito, a mais recente obra inaugurada foi a Sheikh Zayed Bridge, entre Dubai e Abu Dhabi. Mas já há outra maior em andamento: a SheikhRashid bin Saeed Bridge, com 12 pistas de cada lado e uma linha de metrô no meio. A capacidade da estrutura comportará 20 mil veículos por hora.
Maior do mundo e mais visitado

São os edifícios de Dubai que mais atraem turistas sedentos por arquiteturas arrojadas. A começar pelo Burj Khalifa, o mais alto do mundo. Desde a sua inauguração, em 4 de janeiro de 2010, o empreendimento tem contabilizado perto de 3,5 milhões de visitas por ano. Esse número considera só os que acessam os elevadores do prédio de 828 metros e com 163 andares. Outra obra intensamente visitada na principal cidade dos Emirados Árabes é o Burj Al Arab. O edifício abriga um hotel de luxo em seus 321 metros de altura, mas também é aberto à visitação. Por ano, mais de dois milhões de pessoas passam pela edificação, cuja arquitetura se assemelha a um barco com as velas içadas.
Porém, nenhum empreendimento é tão frequentado em Dubai quanto o The Dubai Mall. O maior shopping center do mundo tem 1.200 lojas e, entre visitantes de outros países e moradores locais, recebe mais de 5 milhões de pessoas por ano. Os números são do governo dos Emirados Árabes, para quem o turismo gera receitas superiores a US$ 10 bilhões anualmente – cerca de R$ 26 bilhões. Dos quais, mais de 1/3 destes recursos vem do turismo arquitetônico de Dubai. Para se ter ideia do volume que isso representa, basta comparar com o que a Copa do Mundo proporcionou de renda ao turismo brasileiro em junho de 2014: US$ 797 milhões (R$ 2,07 bilhões).
Com a Expo 2020, Dubai espera chegar aos 25 milhões de visitantes por ano. Até lá, mais obras continuarão a atrair turistas de todo o mundo. E haja concreto para tantos empreendimentos. A estimativa atual é de que 5 milhões de m³ já foram empregados em canteiros de obras na cidade. Com os empreendimentos cujos projetos já estão em andamento ou por começar, esse volume pode passar de 8 milhões de m³.
Entrevistado
Governo de Dubai (via comitê de imprensa, por email)
Contatos
info@dubaitourism.ae
info@expo2020dubai.ae
Crédito Fotos: Divulgação/Christian Richters
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330



Parque usa pistas de skate para combater enchentes
Em períodos chuvosos, área na Dinamarca consegue reter até 23 mil m³. Nos períodos de seca, piscinões se transformam em lazer para os moradores
Por: Altair Santos
O Rabalderparken, parque construído em 2012 na cidade de Roskilde, no sudeste da Dinamarca, está se tornando referência mundial. Os países vizinhos, Holanda e Bélgica, já projetam estruturas semelhantes e não faltam arquitetos, urbanistas e profissionais ligados à construção sustentável que não queiram visitá-lo. Mas o que esse parque tem de diferente? Planejada para drenar as águas pluviais, a área tem uma série de equipamentos multifuncionais que servem ao lazer dos cidadãos quando o período de enchentes chega ao fim.

Três piscinões, capazes de reter até 23 mil m³ de água, se transformam em pistas de skate, patins e bicicleta quando o Rabalderparken esvazia. Canais de concreto e asfalto viram ciclovias após drenarem a água para um imenso lago no centro do parque e para cisternas subterrâneas que ajudam no abastecimento da cidade. “Isso garante a usabilidade da área durante todo o ano, para que ela não se transforme em um deserto em tempo seco”, afirma o arquiteto Søren Nordal Enevoldsen, do escritório dinamarquês SNE Architects, que foi contratado pela prefeitura de Roskilde para projetar o parque.
Vencedor dos prêmios de construção sustentável City Planning Award 2012 e Sustainable Concrete 2013 Award, o Rabalderparken concorreu em 2014 ao Place By-Design, promovido pela SXSW Eco, que acontece anualmente em Austin, no Texas-EUA, e é considerada uma das principais conferências mundiais no campo da construção sustentável. Na premiação, o parque dinamarquês recebeu “menção honrosa”. “O Rabalderparken oferece uma forma lúdica de abordar o problema das inundações causadas pelas mudanças climáticas globais”, definiram os organizadores da SXSW Eco.

Bairro sustentável
Primeiro passo para a reurbanização de uma área industrial de Roskilde, o Rabalderparken fará parte de um bairro com construções sustentáveis batizado de Musicon. A região escolhida abrigava concreteiras na cidade e, por isso, o concreto foi definido como um elemento protagonista na construção do parque. O Musicon deverá estar totalmente implantado até 2020 e tem o propósito de concentrar, além de residências e prédios de escritórios, escolas de arte e de música. “A ideia é que ele seja uma referência europeia em instalações voltadas para a arte”, explica Søren Nordal Enevoldsen.
O conceito do Rabalderparken, de servir como um catalisador de águas pluviais, não é novo. Em Curitiba-PR, o Parque Barigui foi concebido em 1972, pelo então prefeito Jaime Lerner, com o mesmo objetivo: conter o fluxo de água que inundava aquela região da cidade em períodos de chuva. Por isso, foi construído um lago com 23 mil m² no centro do parque. No caso do Rabalderparken, foram utilizadas novas tecnologias de drenagem, através de canais, piscinões e cisternas.

Entrevistado
Arquiteto Søren Nordal Enevoldsen, da SNE Architects
Contato: sne@snearchitects.com
Crédito Fotos: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Construção civil ainda atrai poucas startups
Setor é fértil para se investir em empresas inovadoras, mas carga tributária, dificuldade de acesso ao crédito e burocracia desestimulam empreendedores
Por: Altair Santos
A construção civil é um campo fértil para a criação de startups, mas, ao mesmo tempo, árido. “Setores em que há muitos problemas a serem resolvidos são setores com muitas oportunidades. O da construção civil é um deles. Porém, é ainda muito pouco receptivo a inovações. Mas há oportunidades para se pensar em novos processos industriais, soluções que diminuam o tempo das obras, ajudem a evitar desperdícios e agreguem valor sem aumentar o custo”, define Henrique Tormena, coordenador do Instituto Endeavor no Paraná.

Além de quebrar paradigmas, startups que planejem atuar na construção civil brasileira precisam também estar preparadas para os obstáculos burocráticos e tributários. Outro desafio é encontrar profissionais capacitados, e que entendam o conceito de uma startup: empresa que é concebida a partir de uma ideia inovadora. “Empreender não é tarefa fácil. Existe a questão do ambiente regulatório, que muda de uma cidade para outra, da dificuldade para encontrar colaboradores capacitados e também da cultura empreendedora no Brasil. Três entre quatro brasileiros sonham ser donos do próprio negócio, mas pouca gente se prepara”, afirma Tormena.
De longe, os empecilhos tributários são os que mais afetam startups no Brasil. De acordo com o Banco Mundial, são necessárias 2.600 horas para pagar impostos no país. A explicação está em outro estudo, do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), que detectou 11.500 normas tributárias que uma empresa deve seguir no Brasil. Isso se reflete em dificuldades para que o empreendedor priorize a produtividade e dificulta a captação de recursos para financiar o negócio e fazer evoluir a ideia que originou a startup.
Cinco pecados capitais
Outra pesquisa - desta vez realizada pela Fundação Dom Cabral – revela que quatro em cada dez empresas de inovação não passam dos 12 meses vida no Brasil, por causa de erros recorrentes, que são os seguintes:
1. Fluxo do caixa: a maioria das startups começa a funcionar com o caixa para apenas os dois primeiros meses. Sem planejamento de contas a pagar e receber, elas não chegam a 12 meses de atuação no mercado.
2. Número de sócios: a grande quantidade de sócios em uma mesma empresa dificulta o desempenho no relacionamento e nas decisões, pois os interesses pessoais e profissionais se confundem no ambiente de trabalho.
3. Empréstimos bancários: para permanecer no mercado, as startups recorrem a financiamentos bancários para se manter. A falta de conhecimento e organização nas finanças faz as pequenas empresas entrarem nos juros e parcelamentos bancários, o que inviabiliza a gestão saudável do caixa.
4. Faturamento: um dos problemas é o gasto com folha de pagamento superior a 30% do faturamento. Algumas empresas acabam contratando mais funcionários do que podem, depois acabam por demitir por falta de dinheiro no caixa.
5. Capital de giro: as startups invariavelmente não têm dinheiro em caixa e, assim, não conseguem cumprir com as necessidades imediatas da empresa, o que é algo fundamental para manter o negócio saudável e uma boa imagem no mercado perante fornecedores e clientes.
O resultado deste ambiente pouco propício para startups é que o Brasil ainda não conseguiu produzir uma empresa inovadora que fature U$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,6 bilhões) por ano. No mundo, há 46 que já atingiram esse patamar. Destas, 72% encontram-se nos Estados Unidos, 20% na China e 8% na Europa. Porém, mesmo fora do país, o volume de startups ligados à construção civil ainda é pequeno. Não chega a 15%. A maioria ainda está ligada a vendas pela internet.
“Geralmente, os pilares que formam um bom ambiente empreendedor têm vínculo com infraestrutura, acesso ao capital, disponibilidade de capital humano qualificado, ambiente favorável à inovação e cultura”, define Henrique Tormena.
Em 2013, o Fórum Econômico Mundial elegeu, entre as 36 startups mais inovadoras do mundo, uma empresa brasileira: a Bug Agentes Biológicos, localizada em Piracicaba-SP. Ele desenvolve vespas geneticamente modificadas para combater pragas em plantações de cana-de-açúcar e soja, reduzindo a aplicação de agrotóxicos nestas lavouras.
Entrevistado
Engenheiro mecânico Henrique Tormena, coordenador do Instituto Endeavor no Paraná
Contato: henrique.tormena@endeavor.org.br
Crédito Fotos: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Infraestrutura do Brasil requer R$ 1,17 tri até 2019
Recursos viabilizarão 6.068 obras relevantes para o país, nas áreas de transporte, energia, óleo e gás, saneamento, habitação e indústria
Por: Altair Santos
Se quiser viabilizar a retomada do crescimento através do impulso à infraestrutura, o Brasil precisará investir R$ 1,17 trilhão até 2019. Esse volume de recursos deverá priorizar seis setores: óleo e gás, transporte, energia, saneamento, infraestrutura de habitação e indústria. São segmentos que englobam 6.068 obras, algumas em andamento, outras já projetadas, mas a maioria apenas em intenção. É o que revela a edição 2014 da pesquisa intitulada “Principais Investimentos em Infraestrutura no Brasil”, encomendada pela Sobratema (Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração).

O segmento de transporte é um dos que mais tendem a capitalizar recursos, requerendo investimentos na ordem de R$ 438,4 bilhões para o período 2014-2019. Entre as principais obras neste setor, as relacionadas com a mobilidade urbana em municípios é que deverão absorver a maior parte destes recursos. As mais relevantes são: linha 5 do metrô de São Paulo, linha 4 do metrô do Rio de Janeiro, VLT de Santos, VLT Cuiabá-Várzea Grande, corredor Via 710, em Belo Horizonte, perimetral de Porto Alegre, túnel Santos-Guarujá, ponte sobre o rio Baetatã, em Magoragipe-BA e travessia de Juazeiro, também na Bahia.
Os investimentos em saneamento básico, segundo o levantamento da Sobratema, precisam chegar a R$ 35,8 bilhões até 2019. Atualmente, existem cerca de 1.500 obras em andamento, realizadas por municípios, governos estaduais e parcerias público-privadas. Há outros 3.400 empreendimentos em fase de projeto ou em intenção de construir. No entanto, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) prevê que sejam aportados recursos da ordem de R$ 508,4 bilhões, entre 2014 e 2033. Do total de investimentos previstos, 59% virão de recursos federais e 41% com recursos de outros agentes, como governos estaduais e municipais, prestadores de serviços de saneamento e iniciativa privada.
Por conta deste volume de recursos, e da quantidade de obras que precisam ser viabilizadas, o presidente da Sobratema, Afonso Mamede, entende que o governo federal não tem mais como recuar em uma política de incentivo à infraestrutura. “Não dá mais para o Brasil não investir em infraestrutura. Ainda que estejamos enfrentando uma acomodação, causada pelo momento econômico, avalio que, a partir de 2016, a infraestrutura será a locomotiva para o país voltar a crescer”, diz.
Já o professor do departamento de economia da PUC-SP e diretor da Insight Consultoria Econômica, que também atua como consultor da Sobratema, Rubens Sawaya, também considera que a retomada do crescimento do país deverá se dar através do impulso às obras de infraestrutura. “Uma hora o investimento em infraestrutura deverá ser retomado. Diria mais: independentemente do momento econômico, dá para fazer”, completa.
Entrevistados
Engenheiro civil Afonso Mamede, presidente da Sobratema (Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração)
Economista Rubens Sawaya, professor do departamento de economia da PUC-SP e diretor da Insight Consultoria Econômica
Contato: sobratema@sobratema.org.br
Crédito Foto: Divulgação/Cia. de Cimento Itambé
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Calcadas em concreto, obras olímpicas saem do papel
Construções de arenas, redes de infraestrutura e empreendimentos de mobilidade urbana aceleram no Rio de Janeiro, para cumprir cronograma do COI
Por: Altair Santos
Após a Copa do Mundo de 2014, o Comitê Olímpico Internacional visitou o Rio de Janeiro e fez acender a luz amarela. A cidade-sede dos jogos olímpicos de 2016 estava muita atrasada e, nos bastidores, se cogitou até uma mudança de local. A advertência serviu como estímulo. Em pouco tempo, as obras deslancharam e o Rio fecha 2014 com o cronograma praticamente em dia. Para recuperar o tempo perdido, e alavancar a produtividade, houve investimento maciço na construção industrializada do concreto e nas estruturas mistas (concreto e aço). Através destas tecnologias, é possível verificar que o parque olímpico, localizado na Barra da Tijuca, já se torna realidade.

A pira olímpica irá se acender no estádio Maracanã no dia 5 de agosto de 2016. Até lá, somando todas as obras - incluindo as de infraestrutura e as de mobilidade urbana -, prefeitura e governo do Rio de Janeiro estimam que o volume de concreto a ser produzido para viabilizar os jogos deverá passar de 1 milhão de m³. Só o complexo Ilha Pura, que abrigará a vila olímpica, e depois será transformado em um condomínio residencial, já consumiu 350 mil m³ do material. Outra parte deste volume também está presente nas obras de infraestrutura subterrânea. São 10,5 km de redes de drenagem, 5,3 km em redes de esgoto, 8,3 km de redes de água, 5 km de redes de incêndio, 5 km de rede de iluminação pública, 9,9 km de rede de média tensão e 21,9 km de redes de telecomunicações.
Para dar conta de tanto concreto, usinas montadas no canteiro de obras do parque olímpico trabalham quase ininterruptamente para processar, cada uma, 65 m³/h para o consórcio que toca o empreendimento: o Rio Mais, formado pelas empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken. Há ainda as grandes obras de mobilidade espalhadas pela cidade, e que seguem consumindo grandes volumes de concreto. A saber: linha 4 do metrô (120 mil m³), quatro linhas de BRT (Bus Rapid Transit) (70 mil m³), 28 km de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) (23 mil m³) e recuperação e construção de 60 obras de arte (viadutos e pontes), além da abertura de três túneis.

Arquitetura nômade
Somente no parque olímpico da Barra da Tijuca, há 4.500 trabalhadores no canteiro de obras. Outros 850 atuam no complexo esportivo de Deodoro, bairro da cidade do Rio de Janeiro que irá sediar algumas competições olímpicas e dos jogos paraolímpicos. Segundo a Empresa Olímpica Municipal (EOM), criada exclusivamente para gerenciar as obras para 2016, está em uso uma arquitetura inédita neste tipo de evento: a arquitetura nômade. Significa que boa parte das estruturas pré-fabricadas poderá ser desmontada e servir para outras obras. No caso do Rio de Janeiro, algumas já têm destinação certa: irão se tornar escolas após os jogos. “Desde o início dos trabalhos foi necessário pensar em como cada equipamento olímpico seria integrado à rotina da cidade pós-evento, que é o verdadeiro legado dos jogos”, diz o presidente da EOM, Joaquim Monteiro de Carvalho.
A expectativa dos organismos governamentais envolvidos com o projeto olímpico é de que, até o final de 2015, 70% das obras estejam concluídas.
Em que estágio estão as obras para os jogos olímpicos:
Parque olímpico
Arenas Cariocas 1, 2 e 3 - Fase final de montagem das estruturas de concreto pré-moldado e da cobertura, com previsão de conclusão no terceiro trimestre de 2015.
Centro de tênis - fundações foram concluídas.
Velódromo - obras estão em fase de fundação.
Arena do Futuro - fundações e montagem da estrutura metálica (pilares principais, vigas principais da cobertura e treliças) foram concluídas.
Estádio Aquático - em fase final de fundações. Estão em andamento a concretagem da laje de piso e a montagem da estrutura metálica das arquibancadas da piscina principal.
Parque Aquático Maria Lenk - Instalação está pronta e necessita apenas de adaptações.
Arena Rio - Instalação está pronta e necessita apenas de adaptações.
Centro Internacional de Transmissão (IBC) - obra está em fase final de montagem da estrutura metálica do prédio e concretagem das lajes.
Centro Principal de Mídia (MPC) - obras de fundações, contenções e concretagem do segundo pavimento foram finalizadas. Estão em andamento as estruturas de concreto (pilares, vigas e lajes) dos níveis subsolo, térreo e mezanino e a concretagem do terceiro pavimento da torre sul.
Campo de Golfe - obras começaram em 2013 e estão dentro do cronograma.
Riocentro - local está pronto e, em 2015, receberá instalações complementares para se adequar às competições.
Complexo esportivo Deodoro
Arena da Juventude - obras estão em fase de terraplenagem e fundações. Foi concluído o estaqueamento e a colocação de blocos está em andamento.
Circuito de canoagem slalom - obras de terraplanagem estão em fase de conclusão e concretagem da laje do lago está em andamento.

Entrevistado
Empresa Olímpica Municipal (EOM), Secretaria de Obras do Rio de Janeiro (SEOBRAS) e Comitê Organizador dos jogos olímpicos (via assessoria de imprensa)
Contatos
imprensa@empresaolimpica.rio.rj.gov.br
imprensa@obras.rj.gov.br
pressroom@rio2016.com
Crédito Fotos: Renato Sette Camara/EOM
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
IPT aprimora concreto autoadensável usado em paredes
Material tende a ganhar cada vez mais mercado no Brasil, principalmente se for produzido dentro das especificações recomendadas pela ABNT NBR 15823
Por: Altair Santos
Pesquisadores do Centro de Tecnologia de Obras de Infraestrutura do IPT desenvolveram traço de referência para o concreto autoadensável utilizado em paredes moldadas no local da obra. O material desenvolvido contempla integralmente aos requisitos da ABNT NBR 15823:2010 - Concreto autoadensável - Classificação, controle e aceitação no estado fresco. Para concreteiras e construtoras, é a chance de contar com um material dosado de acordo com suas especificações, e que apresenta ótima trabalhabilidade para aplicação no sistema construtivo de paredes moldadas no local. O projeto esteve a cargo de Alessandra Lorenzetti de Castro e Rafael Francisco Cardoso Santos, ambos do Laboratório de Materiais de Construção Civil do instituto. Na entrevista a seguir, o engenheiro civil Rafael Francisco explica os resultados da pesquisa e no que ela melhora a qualidade do concreto autoadensável aplicado na construção civil brasileira. Confira:

O que levou o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) a desenvolver um estudo que levasse ao aprimoramento do concreto autoadensável usado em obras residenciais no Brasil?
A indústria brasileira da construção civil experimentou um período de grande demanda por obras no setor habitacional. Esta situação exigiu que as construtoras buscassem formas mais rápidas e eficazes de construir. Tecnologias que permitem a racionalização das obras, com qualidade, durabilidade, segurança estrutural e bom gosto estético ganharam espaço, destacando-se o sistema de paredes de concreto moldadas no local da obra. No entanto, a pesquisa desenvolvida no Laboratório de Materiais de Construção Civil (LMCC) do CT-Obras/IPT verificou discordância entre o que determina a norma brasileira de concreto autoadensável (ABNT NBR 15823:2010) e as características dos materiais utilizados no mercado da construção. Diante desta problemática, o LMCC vislumbrou a necessidade de desenvolver concretos com propriedades diferenciadas, destinados à execução de paredes de concreto, principalmente aquelas moldadas no local. Assim nasceu o projeto intitulado “Produção e avaliação de concreto autoadensável para aplicação em sistemas construtivos de paredes de concreto moldadas na obra”.
Por que a preocupação específica com o concreto autoadensável moldado no local da obra?
Na indústria de materiais pré-moldados (onde o autoadensável também é utilizado) existe um controle de qualidade significativo. Na obra, diversos fatores interferem nesse controle, o que gera dificuldades em realizar a caracterização prevista na norma do material autoadensável. A capacidade de autoadensabilidade é obtida com o equilíbrio entre a alta fluidez e a moderada viscosidade do material. A alta fluidez é alcançada com a utilização de aditivos superplastificantes, enquanto a moderada viscosidade e a coesão são conseguidas com o incremento de um percentual adequado de material com granulometria muito fina e/ou aditivos modificadores de viscosidade.

Como a pesquisa desenvolvida no IPT fez para chegar a um concreto autoadensável com as características especificadas na NBR 15823:2010?
A funcionalidade do trabalho do IPT está em contar com um material que atende às propriedades fundamentais do concreto autoadensável: fluidez, habilidade passante e resistência à segregação. A capacidade de autoadensabilidade é obtida com o equilíbrio entre a alta fluidez e a moderada viscosidade do material. A alta fluidez é alcançada com a utilização de aditivos superplastificantes, enquanto a moderada viscosidade e a coesão são conseguidas com o incremento de um percentual adequado de material, através de granulometria muito fina ou aditivos modificadores de viscosidade. Para a composição do traço, foram utilizados aditivos encontrados no mercado. O grande diferencial é a quantidade e o tipo de materiais finos empregados. No caso do traço do IPT, esses materiais são, em boa parte, resíduos oriundos da britagem de rochas (finos de pedreira). Na pasta de cimento a proporção desses produtos chega a 40%.
A pesquisa do IPT tem reflexo sobre a aplicação do concreto autoadensável em outras estruturas, além da parede moldada no local?
A pesquisa realizada no IPT nos dá condição para desenvolver concretos para as diversas aplicações, além da aplicação em paredes moldadas no local. O concreto autoadensável tem a vantagem de ser facilmente aplicado nos mais diversos tipos de estruturas, visto que o atual prédio mais alto do mundo hoje, o Burj Khalifa, também ostenta o recorde de bombeamento de concreto, chegando a 605 metros de altura. Isso, graças às propriedades específicas do concreto autoadensável desenvolvido para aquela obra.
No Brasil, o uso do concreto autoadensável ainda está restrito a poucas obras ou ele já é bem popular?
O concreto autoadensável está relacionado com o aumento na produtividade, redução de mão de obra e melhoria da qualidade e da segurança do ambiente de trabalho, contribuindo com a tecnologia sustentável do concreto. Por essas e outras razões, esse concreto é cada vez mais empregado como material de construção, tanto nos setores de pré-moldados e pré-fabricados, quanto para aplicações de concreto moldado no local, caso das paredes de concreto. No entanto, no Brasil, a utilização do concreto autoadensável é incipiente, estando muito aquém do seu potencial devido. Principalmente, por causa do desconhecimento dos profissionais da construção brasileira a respeito do material. A grande parte do concreto autoadensável produzido no país é aplicada na indústria de elementos pré-moldados, mas já existem registros de sua aplicação em edifícios residenciais, principalmente em Goiânia e na região sul do país.
É possível construir edifícios com concreto autoadensável aplicado em paredes moldadas no local, até quantos andares?
O sistema pode ser empregado em diferentes tipos de edificações: casas térreas, casas assobradadas, edifícios de até cinco pavimentos-tipo, edifícios de oito pavimentos-tipo com limite para ter apenas esforços de compressão, edifício de até trinta pavimentos e, em casos especiais e específicos, edifícios com mais de trinta pavimentos.
Entrevistado
Engenheiro civil Rafael Francisco Cardoso dos Santos, engenheiro-pesquisador do Laboratório de Materiais de Construção Civil (LMCC) do Centro de Tecnologia de Obras de Infraestrutura (CT-Obras) do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).
Contato: ctobras@ipt.br
Crédito Foto: Divulgação/IPT
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Weber Saint-Gobain é pioneira em gestão do fornecedor
No Brasil, empresa inova ao aplicar sistema de aperfeiçoamento de qualidade dentro da cadeia produtiva da construção civil
Por: Altair Santos
Fora do Brasil, a gestão de fornecedores é uma prática considerada essencial para a sustentabilidade das empresas. Há corporações, principalmente as ligadas aos setores automobilístico e alimentício, que a praticam há mais de uma década. No país, é mais recente. Trazido pelas multinacionais instaladas em território nacional, o sistema começou a se difundir há cerca de cinco anos. Entre as primeiras a implantá-lo, estão a Wall Mart - maior empresa do mundo em volume de negócios e faturamento - e a Unilever. No setor da construção civil, a francesa Weber Saint-Gobain é pioneira no Brasil. “Implantamos a metodologia faz quatro anos e foi uma quebra de paradigmas dentro do setor”, afirma Fernando Eduardo de Souza, engenheiro de desenvolvimento da Weber Saint-Gobain.

Na Weber Saint-Gobain Brasil, a gestão de fornecedor é denominada de Engenharia de Qualidade do Fornecedor (EQF). Existe um trabalho realizado pelo departamento técnico, responsável por homologar, avaliar e monitorar os parceiros. Todas as companhias que passam a fazer parte da cadeia produtiva da multinacional francesa se submetem a esse programa. Na fase de homologação, verifica-se a capacidade de fornecimento, com base em normas técnicas e na legislação vigente nos três níveis (federal, estadual e municipal). A etapa de avaliação funciona como uma auditoria, em que é verificado o potencial do fornecedor em atender os padrões de qualidade do grupo Saint-Gobain.
Segundo Fernando Eduardo de Souza, há cinco níveis que classificam os fornecedores: D, C, B, A e S. “Os melhores são B, que é classificado como um bom fornecedor; A, fornecedor exemplar, e S, que passa a ser um fornecedor recomendado pela Weber Saint-Gobain”, explica. Independentemente da nota, o fornecedor da Weber Saint-Gobain é constantemente monitorado. A qualquer momento, ele pode ser submetido ao Índice de Qualidade do Fornecimento (IQF). “A metodologia ajuda a adotar medidas corretivas e preventivas. O objetivo também é diminuir eventuais não conformidades. Em 2014, as não conformidades foram reduzidas em mais de 30%”, complementa o engenheiro de desenvolvimento da Weber Saint-Gobain.
Inspeção na Cia. de Cimento Itambé
Para os fornecedores da Saint-Gobain, compartilhar a gestão é visto como uma oportunidade de melhoria. “O feedback é positivo, pois contribui também para que o fornecedor melhore seu produto. No final, é uma garantia de qualidade para o consumidor final, favorecendo toda a cadeia produtiva”, avalia Fernando Eduardo de Souza, que recentemente aplicou o EQF na fábrica da Cia. de Cimento Itambé, localizada em Balsa Nova-PR, na região metropolitana de Curitiba. A empresa é um dos fornecedores de cimento para a Weber Saint-Gobain.
Para parceiros como a Cia. de Cimento Itambé, a gestão de fornecimento da Saint-Gobain orienta-se, principalmente, pela norma técnica ABNT NBR 11578 - Cimento Portland composto. A inspeção também segue a ISO 19011, que define diretrizes para auditoria de sistemas de gestão. “Procedimentos internacionais também são levados em consideração, como american standards (definidas pela American National Standards Institute (ANSI)) e normas europeias”, conclui Fernando Eduardo de Souza.
Entrevistado
Engenheiro químico Fernando Eduardo de Souza, engenheiro de desenvolvimento da Weber Saint-Gobain.
Contato: fernando-eduardo.souza@saint-gobain.com
Crédito Foto: Divulgação/Saint-Gobain
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
CBIC prega combate à burocracia e apoio às PPPs
À frente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, José Carlos Rodrigues Martins anuncia metas realistas e quer estímulo ao investimento privado
Por: Altair Santos
Empossado em agosto de 2014 como o novo presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Rodrigues Martins, já definiu as bandeiras pelas quais irá se esforçar ao longo de sua gestão, e que coincidirá com o segundo mandato de Dilma Rousseff à frente da Presidência da República. Para ele, é preciso liderar um processo que não interrompa os investimentos na construção civil. Esse caminho passa pelo combate à burocracia, a fim de destravar obras, e pelo estímulo a iniciativas que apoiem empreendimentos de infraestrutura através de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). “O governo perdeu sua capacidade de investimento e não há outra saída para retomá-la, senão através de PPPs e concessões, despindo-se do viés ideológico”, avalia.

Engenheiro civil formado na turma de 1977 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e com a carreira construída na construção civil paranaense, José Carlos Rodrigues Martins anunciou seu plano de gestão em uma sabatina realizada no começo de novembro no SindusCon-PR. Convidado pelo presidente do sindicato, José Eugenio Souza de Bueno Gizzi, Martins estima que, além de capital privado, as PPPs podem ajudar a implementar modelos mais saudáveis de gestão de obras. “Veja o aeroporto de Brasília depois da privatização. Parece um aeroporto europeu e funcionou perfeitamente durante a Copa do Mundo”, diz, citando que é preciso criar também um sistema que democratize a participação de médias e pequenas empreiteiras em processos licitatórios.
José Carlos Rodrigues Martins lembra que a Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias (ANEOR) tem 330 empresas filiadas, mas basicamente dez, que são as megaempreiteiras, participam dos processos de licitação. “O desafio é criar um modelo que faça todas participarem, criando um ambiente mais saudável de concorrência”, defende, citando que também é possível avançar em políticas que desburocratizem a construção civil. “Hoje, o excesso de burocracia encarece em 12% o custo final de um imóvel. Só o município de Curitiba poderia aumentar em R$ 300 milhões sua receita - isso sem criar novos impostos ou elevar alíquotas – desburocratizando processos, como alvarás e liberação de Habite-se”, resume o presidente da CBIC.
Passado e futuro
Para Martins, é necessário também que a construção entenda o momento do mercado e adapte-se para não elevar mais seus custos. “O mercado aceitou, até certo ponto, que nosso custo aumentasse. Agora, precisamos elevar a produtividade, pois não há mais espaço para se aumentar preço. Por isso, acredito que nos próximos quatro anos nosso setor passe maciçamente por capacitação, produtividade e inovação tecnológica”, crê. Tudo isso, diz o presidente da CBIC, sem dissociar a construção civil de economia e política. “Nosso setor é, basicamente, movido pelos investimentos. Só que isso está diretamente ligado a decisões políticas e decisões econômicas. Porém, no momento, 2015 ainda é um grande ponto de interrogação para nós”, alerta.
José Carlos Rodrigues Martins avalia que, de 2004 a 2014, a construção civil brasileira deu um grande salto. “Em dez anos, saímos de um milhão de trabalhadores com carteira assinada para mais de três milhões. O financiamento imobiliário saiu de R$ 5 bilhões para quase R$ 150 bilhões. A produção de cimento avançou de 33 milhões de toneladas por ano para 71 milhões de toneladas por ano. Convivemos com um PIB crescendo mais do que o país, mas agora nos deparamos com outro mundo. Nossa luta, então, é para preservarmos conquistas. Entre elas, programas que canalizam investimentos para o setor, como o Minha Casa Minha Vida e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Ainda que os volumes de recursos sejam menores, acredito que esses programas não serão desativados”, prevê.
Entrevistado
Engenheiro civil José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Contatos
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Crédito Foto: Divulgação/SindusCon-PR