ENIC coloca Minha Casa Minha Vida na pauta das eleições

O 86° Encontro Nacional da Indústria da Construção, que ocorreu em Goiânia, levou reivindicações do setor a candidatos à presidência da República

Por: Altair Santos

Alocação insuficiente de recursos, atrasos nos repasses para as construtoras e dificuldade de articular ações com as concessionárias de água, energia, esgoto e telefonia. Estes são os gargalos que têm feito o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) perder a corrida para o déficit habitacional, principalmente no que diz respeito à construção de habitações de interesse social. Para dar respaldo ao MCMV, a Comissão da Indústria Imobiliária da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CII/CBIC) promoveu no 86° Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC) um debate entre presidenciáveis, com foco exclusivo no programa habitacional.

ENIC 2014: evento aconteceu no final de maio e arrancou comprometimento dos presidenciáveis

Recheado de propostas e questionamentos, o debate, que ocorreu em Goiânia-GO, foi dividido em três momentos e acompanhado por representantes dos três principais candidatos à presidência da República. O secretário de Estado de Desenvolvimento Regional, Política Urbana e Gestão Metropolitana de Minas Gerais, Alencar Santos Viana Filho, representou Aécio Neves (PSDB). A presidente Dilma Rousseff (PT) esteve no evento e o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), foi representado pelo assessor de campanha Maurício Rands.

A principal reivindicação do setor da construção civil para os presidenciáveis é que o Minha Casa Minha Vida passe a ser tratado como programa de Estado e não como política de partido. Uma das preocupações é que o MCMV sofra com perda de credibilidade e desperdice as conquistas obtidas até o final do ano passado. Entre 2009 e 2013, o plano habitacional foi o responsável pela criação direta de 1,2 milhão de empregos formais, o que corresponde a 17% de tudo que foi gerado na economia nacional. “A economia como um todo cresceu, e cresceu formalizando. O grande mérito do programa foi esse: aliar interesse de retomada do crescimento econômico com uma política social e ainda formalizando a atividade”, expôs a economista e coordenadora de Projetos da Construção da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ana Maria Castelo.

Compromissos
Um documento com as principais reivindicações do setor e os pontos mais debatidos no 86º ENIC foi encaminhado aos presidenciáveis que disputam a eleição de outubro. "É a nossa contribuição para os respectivos programas de governo", destaca o presidente da CBIC, Paulo Safady Simão. Dilma e o representante de Eduardo Campos defenderam a manutenção da política de subsídios aos moradores de renda mais baixa. “O Minha Casa Minha Vida depende de vontade política para existir. Sem subsídios, ele não existe. A equação valor do imóvel e salário das famílias das classes mais baixas não batem. Por isso, o governo aporta recursos no programa para fechar essa equação. É o programa federal no qual gastamos os maiores valores com subsídios”, afirmou a presidente.

Da parte de Eduardo Campos, foi assumido o compromisso de entregar, em quatro anos, quatro milhões de residências por meio do MCMV. “Nós vamos fazer constar no nosso Plano Plurianual esta meta. Isso é possível porque o Brasil foi aprendendo. Agora é hora de ousar e passar para os quatro milhões, garantir o subsídio. Esse é um programa que veio para ficar e deve ser um programa de Estado”, defende Maurício Rands.

O presidenciável Aécio Neves, através de seu representante, Alencar Santos Viana Filho, não quis estabelecer compromissos. Apenas reconheceu a importância do programa para o Brasil. O Minha Casa Minha Vida, lançado em 2009, subsidia até 95% do valor do imóvel na faixa de renda de quem recebe de 1 a 3 salários mínimos (faixa 1). O déficit habitacional nessa faixa de renda é de 3,85 milhões de residências, de acordo com pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Entrevistado
Com informações da assessoria de imprensa do 86º Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC), realizado de 21 a 23 de maio de 2014 em Goiânia-GO
Contato: www.enic.org.br/contato

Crédito Foto: Sílvio Simões/ENIC

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

O impacto do gol, das "olas" e das torcidas nos estádios

Estruturas precisam levar em consideração número significativo de esforços para suportar movimentação das torcidas ao longo dos 90 minutos

Por: Altair Santos

Os doze estádios que sediam jogos da Copa do Mundo foram construídos para dar total segurança ao público que os frequenta. Uma parte desta segurança é visível; outra, está nas estruturas das obras. Porém, são tão relevantes quanto o conforto oferecido pelas arenas. Neste quesito, os projetos adotaram o que há de mais moderno em termos de análise de carga dinâmica e de análise de carga estática. Por isso, para quem está nas arquibancadas, a sensação é de que os estádios não balançam. Neste caso, o padrão Fifa localiza-se nos sistemas de amortecimento adotados durante a construção dos complexos esportivos.

Westfalenstadion, na Alemanha: movimento da torcida do Borussia Dortmund, considerada a mais empolgante do mundo, fez com que capacidade reduzisse de 80.100 para 65.718 lugares

Uma das mais inovadoras tecnologias é a que foi instalada no Mineirão, em Belo Horizonte-MG. No estádio, foram colocados 166 amortecedores à base de TMD (Tuned Mass Dampers ou amortecedores de massa sintonizada). Esse tipo de equipamento funciona de forma semelhante a um amortecedor de veículo automotor, absorvendo a carga dinâmica causada pela movimentação da torcida. “Implantamos o que há de mais moderno em tecnologia de controle de vibrações. A arquibancada passa a ter mais conforto”, explica Ricardo Barra, diretor-presidente do consórcio Minas Arena.

Já no Mané Garrincha, em Brasília-DF, a solução para que o estádio suporte os gritos de gol e as tradicionais "olas" está no posicionamento dos pilares de sustentação. A análise dinâmica definiu onde cada um seria colocado para garantir o amortecimento e evitar a vibração da estrutura de concreto. "Nas décadas de 1960 e 1970, as torcidas tinham comportamentos diferentes. Pulavam juntas, e isso excitava as estruturas de concreto, que também balançavam. Mas a dosagem de concreto evoluiu ao longo do tempo. Hoje, a torcida pode vibrar sem causar sensação desagradável", assinala Eduardo Castro Mello, o arquiteto que projetou o estádio da capital federal.

A solução usada no Mané Garrincha predomina em boa parte dos estádios da Copa. Porém, o Maracanã usou uma engenharia diferente. Segundo o projetista João Luís Casagrande, da Casagrande Engenharia - responsável pelos cálculos estruturais da obra -, essa é a primeira vez no mundo que o sistema contraforte é utilizado na construção de um estádio. “A tecnologia que utiliza amortecedores semelhantes aos usados nos veículos, como o que foi aplicado no Mineirão, tem um problema que é o custo da manutenção. De tempos em tempos é preciso trocá-lo. Já o contraforte é definitivo", diz.

Sistema de amortecimento usado no Mineirão: equipamento semelhante ao utilizado em veículos automotores

O sistema de contraforte foi instalado na base das arquibancadas do Maracanã e funciona como a borda de uma piscina, ou seja, as vibrações que virem a ser geradas pelos 78.639 torcedores que caberão no estádio serão contidas pela grande estrutura de concreto, preenchida com entulhos, que circunda a obra. Assim, o novo Maracanã suporta até 6 Hz (hertz) de frequência - normalmente, o máximo exigido para estádios é 3 Hz. Outra vantagem desse sistema de amortecimento é que ele permite que as estruturas metálicas que sustentam as arquibancadas do anel intermediário fossem concebidas com uma massa mais leve. “Consequentemente, o custo da obra reduziu”, avalia o engenheiro.

Estádios antigos
Muitos estádios brasileiros, construídos principalmente entre os anos 1960 e 1970, foram projetados para suportar uma torcida menos vibrante. As estruturas acabaram concebidas com carga estática de 5 kN/m2. Com a chegada dos torcedores organizados, e o uso dos estádios para shows de música, as estruturas passaram a sofrer maior impacto de cargas dinâmicas. Com isso, as construções começaram a apresentar problemas de vibrações excessivas, exigindo adaptações. A solução para a maioria foi instalar assentos e reduzir a capacidade dos complexos esportivos.

Isso ocorreu não só no Brasil como em outros países. É o caso, por exemplo, do Westfalenstadion, na Alemanha. A arena, que pertence ao Borussia Dortmund - clube que tem a torcida mais empolgada do mundo, segundo pesquisas - precisou ter sua capacidade reduzida de 80.100 para 65.718 lugares. Houve também estádios que recorreram a novas tecnologias de amortecimento, como o Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi). Engenheiros contratados para fazer análise de carga da edificação decidiram aplicar as normas inglesas para estádios, adotadas em 1996. Foram a partir delas que as arenas pararam de tremer durante os gritos de gol ou na execução das olas.

Entrevistados
Engenheiro civil João Luís Casagrande, que coordenou a implantação do sistema de contraforte no Maracanã
Arquiteto Eduardo Castro Mello, responsável pelo projeto do Mané Garrincha
Engenheiro civil Ricardo Barra, ex-diretor-presidente do consórcio Minas Arena
Contatos
jlcasagrande@cagen.com.br
castromello@castromello.com.br
www.minasarena.com.br/contato

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Inspeção predial vai ganhar norma ainda em 2014

Comitê Brasileiro da Construção Civil (CB-02) da ABNT prepara nova NBR, que fechará trilogia de medidas contra intervenções de risco em edificações

Por: Altair Santos

Depois da Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575:2013) e da Norma das Reformas (ABNT NBR 16280:2014) a Associação Brasileira de Normas Técnicas se mobiliza para completar a trilogia de normas que promete fechar o cerco contra intervenções de risco em edificações. Com base em textos normativos elaborados pelo Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícia de Engenharia de São Paulo (IBAPE) e pelo Instituto de Engenharia (IE) o CB-02 da ABNT trabalha na elaboração da Norma de Inspeção Predial - Procedimentos e Terminologia. "Esta nova norma vem complementar as normas relacionadas à manutenção predial, pois o desempenho da edificação depende da boa manutenção e esta deve ser avaliada através de inspeção predial", cita o engenheiro civil Tito Lívio Ferreira Gomide, coordenador da divisão técnica de patologias da construção do Instituto de Engenharia.

Tito Lívio Ferreira Gomide: norma busca aprimoramento das condições construtivas, de manutenção e de uso predial

Reconhecida legalmente em 1999, a Inspeção Predial terá sua força de lei reforçada a partir da norma em desenvolvimento desde outubro de 2013. A expectativa é de que ela venha a ser publicada até o final de 2014. Atualmente encontra-se em fase de discussão. Os fundamentos da norma vão reforçar a função da inspeção predial como uma ferramenta diagnóstica primordial no enfoque da qualidade das edificações. Entre suas atribuições, estão:
- Distinguir as anomalias, falhas de manutenção e irregularidades de uso.
- Classificar os sistemas das edificações e fornecer subsídios fundamentais para permitir ao inspetor predial ou representante legal da edificação o gerenciamento das ações de manutenção e de reformas.
- Fazer cumprir o plano de manutenção predial associado ao programa de intervenções primárias.

Poder aos síndicos
Na opinião de Tito Lívio Ferreira Gomide, a função prática da Norma de Inspeção Predial será semelhante à da Norma das Reformas: "Espera-se que a nova norma incentive os síndicos a diagnosticar e reparar as patologias prediais através de profissionais habilitados, tornando nossas edificações mais seguras, confortáveis e que atendam ao desempenho e durabilidade projetados." Por isso, no entender do especialista, a futura norma (ainda sem uma numeração definida) e a ABNT NBR 16280:2014 são complementares. "Elas buscam o aprimoramento das condições construtivas, de manutenção e de uso predial", explica. Coincidentemente, as duas normas surgiram pelo mesmo motivo: evitar tragédias como a que ocorreu com o desabamento do Edifício Liberdade, de 20 andares, e de mais dois prédios, no centro do Rio de Janeiro, em 25 de janeiro de 2012. O acidente foi provocado por reformas irregulares e causou a morte de 22 pessoas.

Tanto a futura Norma de Inspeção quanto as outras correlatas tendem a ganhar um reforço legal, após a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da Câmara Federal ter aprovado o projeto de lei nº 3370/2012, que trata da obrigatoriedade de vistorias periciais e manutenções periódicas nas edificações, sejam elas públicas ou privadas. A iniciativa pretende minimizar os danos causados à segurança e à estabilidade de edificações. O projeto baseia-se no direito assegurado pela Constituição Federal (caput do art. 5º) do cidadão transitar em vias públicas e permanecer em locais seguros, sem riscos de desabamentos. O texto, atualmente, encontra-se para aprovação no Senado Federal. Se passar no Congresso, irá para a sanção da presidência da República.

Detecte as patologias recorrentes em construções
http://www.cimentoitambe.com.br/itambe-lanca-aplicativo-sobre-patologias-do-concreto/

Entrevistado
Engenheiro civil e advogado Tito Lívio Ferreira Gomide, professor de Engenharia Diagnóstica e coordenador da divisão técnica e patologias das construções do Instituto de Engenharia
Contato: comunicacao@iengenharia.org.br

Crédito Foto: Divulgação/Instituto de Engenharia

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Apagão de mão de obra compromete um trilhão de reais

Construção pesada precisaria de 300 mil operadores de equipamentos se os 7 mil projetos do Programa de Aceleração do Crescimento estivessem em andamento

Por: Altair Santos

Dados do Instituto Opus revelam que 70 mil novas máquinas devem ser compradas pelas empresas da construção pesada em 2014. Metade destes equipamentos é da chamada "linha amarela" - escavadeiras, carregadeiras, retroescavadeiras, gruas e guindastes. A outra metade de componentes é ainda mais sofisticada, formada por tuneladoras, robôs industriais e megabritadeiras. Estima-se que para operar esse maquinário que vai entrar no mercado nacional seja necessário pelo menos 300 mil especialistas. "Para se ter uma ideia, uma simples retroescavadeira precisa de uma equipe mínima de cinco pessoas: o operador, o assistente de operação, o mecânico, o lubrificador e o responsável pela logística. Significa que será necessário treiná-los", explica Wilson de Mello Júnior, diretor do Instituto Opus.

Wilson de Mello Júnior: Brasil deveria ter 600 mil operadores de máquinas para construção pesada

Aí reside um dos grandes gargalos da construção civil brasileira - principalmente nos setores ligados a obras de infraestrutura: há pouca mão de obra qualificada. "Basta olhar a imprensa e ver o número de acidentes com máquinas pesadas que acontecem. Pelo menos a cada dois dias a gente tem um acidente envolvendo uma máquina de grande porte. Isso é um retrato da falta de qualificação adequada dos nossos profissionais", ressalta Wilson de Mello Júnior. O levantamento do Instituto Opus enumera que o país deveria ter pelo menos 600 mil profissionais altamente qualificados para operar esse maquinário, mas esses especialistas não chegam a 10%. Faltou planejamento. A curto prazo não se consegue resolver o problema", destaca o dirigente.

Iniciativa do Senai
Uma das análises para o pouco investimento em qualificação recai sobre a lentidão do governo em efetivamente implementar as obras de infraestrutura. Em doze anos, o governo federal anunciou mais de sete mil empreendimentos dentro do Programa de Aceleração do Crescimento. No entanto, apenas 20% destes projetos saíram do papel. "Com isso, as empresas ficaram em dúvida para implementar um programa de capacitação. Além disso, sem o apoio do governo fica difícil para a iniciativa privada assumir a responsabilidade de capacitar todo esse pessoal", alerta o diretor do Instituto Opus. "Hoje, mesmo que o governo invista fortemente num programa de qualificação, levaria alguns anos para termos uma mão de obra capaz de suprir a demanda da indústria da construção pesada", completa.

Por iniciativa de grandes construtoras e fornecedoras de equipamentos, há programas pontuais em alguns estados. A coordenação é do Senai (Serviço Nacional da Indústria) que adquiriu simuladores para treinar profissionais contratados para operar equipamentos nos canteiros de obras. "O simulador agiliza o treinamento e minimiza o risco de acidentes. Duas cidades estão avançadas neste programa: Curitiba-PR, com o apoio da Volvo, e Salvador-BA, com a ajuda da Odebrecht. Agora, outras unidades do Senai estão replicando esses treinamentos e conseguindo a adesão de mais empresas, principalmente as fabricantes de máquinas. Estamos conseguindo organizar uma estrutura para atender 7.740 obras projetadas e que envolvem um trilhão de reais", finaliza Wilson De Mello Júnior.

Entrevistado
Administrador de empresas Wilson de Mello Júnior, especialista em construção pesada e diretor do Instituto Opus
Contato: meccanica@meccanica.com.br

Crédito Foto: Divulgação/Sobratema

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Descubra onde está a grande obra da humanidade

Autor do livro História das Construções fala da evolução da engenharia e da arquitetura no continente sul-americano, e cita estruturas mais relevantes do mundo

Por: Altair Santos

O engenheiro e professor do Cefet-MG, José Celso da Cunha, é autor do livro História das Construções – obra dividida em quatro volumes. Recentemente, no VIII Congresso Brasileiro de Pontes e Estruturas, realizado no final de maio de 2014, no Rio de Janeiro-RJ, ele elencou as principais obras da humanidade e do continente americano. As construções pré-colombianas, o Panteão de Paris e Brasília são destacadas pelo especialista. É o que ele revela na entrevista a seguir:

Professor José Celso da Cunha: construções no Peru marcaram nascimento da arquitetura nas Américas

Recentemente, no VIII Congresso Brasileiro de Pontes e Estruturas, o senhor palestrou sobre as construções históricas da América do Sul. O continente é referência em termos de arquitetura e engenharia para o resto mundo?
Apesar de ter sido um congresso direcionado ao tema da construção de Pontes, a Coordenação do evento, que já conhecia minhas pesquisas e livros sobre a história das construções, convidou-me para proferir uma palestra fora do Tema do Congresso. Isto, para quebrar a monotonia do tema e apresentar um assunto intrigante sobre as Construções Pré-Colombianas das Américas, de interesse coletivo. Do ponto de vista histórico, ao contrário da pergunta, as construções pré-colombianas das Américas nunca foram referência para nenhuma outra civilização, porque durante todo o tempo ficou desconhecida do resto do mundo até a chegada de Colombo. Posteriormente, essas mesmas obras, desconhecidas pela maior parte das pessoas em todo mundo, mesmo nas Américas, também não contribuíram ou influenciaram Escolas ou movimentos arquitetônicos abrangentes de maior relevância. Somente no século XX, com o inovador Oscar Niemeyer, é que a arquitetura moderna e a engenharia de estruturas, com o uso do concreto armado, ocuparam uma posição de vanguarda nas construções Sul-americanas.

 

Arquitetura pré-colombiana: obras em pedras ajudaram a engenharia a dar um salto tecnológico

Entre as construções históricas da América do Sul, há obras contemporâneas ou elas concentram-se mais nas seculares?
É importante observar que os povos pré-colombianos das Américas, que não tiveram sabidamente nenhum contato com qualquer civilização ocidental, antes de 1496, foram grandes construtores com obras que remontam a três mil anos a.C., contemporâneas das Grandes Pirâmides do Egito. Em Chavin de Huantar, no Peru, uma cidade sagrada localizada cerca de trezentos quilômetros ao norte de Lima, próxima a Cordilheira Branca, observa-se o nascimento da arquitetura em pedra das Américas, na construção de templos, galerias subterrâneas, praças e pontes. Povos que viveram entre 1.500 e 700 anos a.C. nessa cidade milenar desenvolveram arquitetura própria, com base no uso da pedra polida intertravada, marcando definitivamente o nascimento da arquitetura em todas as Américas, onde não bastava apenas construir abrigos e moradias. Era necessário também construir com harmonia e beleza, apresentando estética, urbanismo e integração coerentes com a natureza e a civilização que desfrutava desse avanço nessa região. Outros povos vieram posteriormente a juntar a esse desenvolvimento novas técnicas construtivas cinco mil quilômetros ao norte do Peru. São os construtores da Mesoamérica, como os Olmecas, os Teotihuacanos e os Zapotecas, no México, numa primeira fase; posteriormente os Maias, também na Guatemala e em Honduras, considerados os mais competitivos e criativos construtores dessa região das Américas. Suas técnicas construtivas, com o uso da cal e dos grandes arcos, propiciaram o avanço na arquitetura com a mesma pujança do ocidente. Os últimos construtores pré-colombianos de relevância na História das Construções no novo continente foram os Incas. Suas técnicas construtivas desenvolvidas em pouco mais de dois séculos de existência dessa civilização, permitiram a realização de obras de engenharia surpreendentes, por resistirem ao tempo com segurança e estabilidade, mesmo obras inseridas em regiões sujeitas aos abalos sísmicos dos Andes. Infelizmente, com a chegada dos espanhóis no continente americano, toda essa técnica foi ignorada e mesmo escondida. Não era possível, segundo a crença da época, que qualquer civilização não cristã pudesse ter conhecimentos como aqueles que os conquistadores encontraram nessas terras do novo continente. Massacraram os nativos, desprezaram sua cultura e transformaram em ruínas as suas construções. As obras contemporâneas são diversas, mas não se espelham em nada do que se produziu nas Américas do passado. São mais voltadas às escolas ocidentais de arquitetura, como no resto do mundo.

Brasília: projeto de Oscar Niemeyer é a mais relevante em concreto armado

Entre as obras contemporâneas construídas na América do Sul, quais o senhor destacaria?
Gosto de Brasília, pelo conjunto da obra em concreto armado.

Em sua série de livros da História das Construções, e que já está no quarto volume, o senhor faz um apanhado sobre a evolução da engenharia, correto? Qual escola mais influenciou ou influencia a arquitetura sul-americana?
Escrevo sobre a evolução da construção, suas técnicas e descobertas, a partir das primeiras manifestações construtivas propiciadas pelas primeiras ferramentas primitivas em pedra lascada. Não sou especialista em construções contemporâneas. Mas, observa-se que a Escola Europeia, sobretudo a francesa, teve grande influência na arquitetura de Oscar Niemeyer e de outros arquitetos e urbanistas sul-americanos, a partir do contato com o arquiteto suíço Le Corbusier, nos anos 1930.

Quais seriam os grandes nomes do continente, em termos de arquitetura e engenharia?
Na arquitetura há vários e não poderia enumerá-los. Na engenharia do concreto armado, o nome de Emílio Baumgardt deve ser destacado.

O continente sul-americano segue erguendo grandes obras ou esse movimento hoje sofre uma interrupção?
Uma obra torna-se grande quando atinge o seu objetivo. Torna-se importante quando é útil à sociedade. Uma ponte que liga duas margens, que há vários anos seus moradores usam balsas na travessia é uma obra importante, mesmo não sendo grande. Obras deixam de ser grandes ou importantes quando servem à vaidade do governante. Somente o governo é capaz de construir algo inútil. Somente ele é capaz de interromper esse movimento, mas persiste em continuar nesse compasso sem interrupção.

O que lhe inspirou a escrever livros sobre a história das construções?
Curiosidade com a história da humanidade no campo das construções. De poder ler onde a escrita ainda não existia, através das ruínas do que se construiu no passado. O estudo das obras antigas propicia uma leitura do tempo e da evolução da humanidade através das técnicas construtivas empregadas em confronto com outras diferenciadas, provenientes ou não da mesma origem.

Panteão de Paris: considerada pelo autor de História das Construções como a grande obra da humanidade

Para o senhor, qual a construção mais relevante já feita no planeta, e por quê?
A construção do Panteão de Paris, iniciada em meados do século XVIII, sempre me chamou a atenção desde quando morei nesta cidade, quando fiz meu doutorado entre 1981 e 1985. Uma obra relativamente pequena, comparando-a com outras contemporâneas. Penso da sua relevância, sobretudo, por reunir todas as técnicas da construção em pedra em uma só obra a partir da pesquisa e iniciativa de um jovem arquiteto francês, chamado Germain Souflot. Nesta obra Souflot reuniu numa só construção, conhecimentos técnicos adquiridos pela humanidade nos últimos seis mil anos. Além disso, apresentou uma novidade extraordinária, a pedra armada, antecipando em meio século a chegada da tecnologia do concreto armado, que surgiria na mão de outro francês chamado Lambot, na década de 1840. Esta obra inspirou-me a escrever sobre a história das construções. Com sua descrição e a história desta obra, o Panteão de Paris, encerro a série sobre o tema em meus livros, publicados pela Autêntica Editora (www.autenticaeditora.com.br), em quatro volumes, num total de 1.700 páginas.

Entrevistado
Engenheiro civil, doutor em mecânica dos solos e estruturas pela École Centrale de Paris e professor da UFMG e do Cefet-MG, José Celso da Cunha. Também é autor do livro Palace II – A Implosão Velada da Engenharia (Autêntica Editora)
Contato: jcdacunha@civil.cefetmg.br

Créditos Fotos: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Brasil despenca no ranking de competitividade do IMD

País despenca em lista de 60 nações, por investir pouco ou desperdiçar recursos em projetos ruins para transporte, saneamento e habitação

Por: Altair Santos

Pelo quarto ano consecutivo, o Brasil perde espaço no cenário competitivo internacional. Segundo o mais recente ranking divulgado pelo International Institute for Management Development (IMD) o país caiu três posições em relação a 2013 no Índice de Competitividade Mundial 2014 (World Competitiveness Yearbook - WCY). Agora, ocupa o 54º lugar em uma lista composta por 60 países. Em 2010, estava em 38º; em 2012, em 46º, e em 2013, em 51º. O levantamento sustenta-se em quatro pilares: economia doméstica, eficiência do governo, eficiência empresarial e infraestrutura.

Túneis do Cuncas: obra de 15 quilômetros faz parte da transposição do rio São Francisco, cuja conclusão já está atrasada em cinco anos

Para elaborar o ranking, o IMD combina indicadores de infraestrutura básica (estradas, portos, aeroportos, energia), tecnológica (telefonia, internet), científica (pesquisa e desenvolvimento), além de educação básica e superior, saúde e meio ambiente. Os resultados de 2014 se caracterizam por indicadores críticos principalmente em infraestrutura básica, tecnológica e na educação. "O maior problema é que o investimento feito hoje não está gerando resultado. Precisa de maior eficiência", analisa Hérica Righi, professora do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral - responsável pela análise e coleta dos dados do Brasil para o ranking de competitividade.

O relatório reitera o que é sabido sobre a qualidade da infraestrutura básica brasileira. Com o país ocupando o último lugar dos indicadores de opinião sobre a qualidade da infraestrutura rodoviária e logística, o documento demonstra a preocupação da comunidade empresarial com a oferta futura de energia (54ª posição) e com a gestão das cidades brasileiras como plataformas locais para o desenvolvimento da competitividade e das atividades empresariais (58ª posição no item Qualidade de Gestão das Cidades). Nestes quesitos, o Brasil se compara a Eslovênia, Bulgária, Grécia, Argentina, Croácia e Venezuela – os últimos no Índice de Competitividade Mundial 2014.

Dilma admite falhas

Hérica Righi: há investimento em infraestrutura, mas com poucos resultados

Um exemplo da ineficiência do país na gestão de sua infraestrutura está na obra de transposição do rio São Francisco. Os entraves já atrasaram o final da construção em cinco anos. Atualmente, encontra-se com 57,8% de execução e a necessidade de reengenharia financeira fez o seu custo passar de R$ 5,1 bilhões para R$ 8,2 bilhões. Além disso, os atrasos fizeram o semiárido nordestino assistir à maior seca dos últimos 40 anos, entre 2013 e 2014. A ponto de a própria presidente Dilma Rousseff admitir que houve equívocos no planejamento. "É uma obra complexa e que precisa do tempo correto de maturação. Seu exemplo será usado na melhoria da execução de todos os outros projetos do governo federal", diz.

Para Hérica Righi, mais do que admitir erros o Brasil deveria seguir bons exemplos. "Somos um país continental que tem muitas particularidades. Um dos caminhos que poderia nos inspirar é o que a Coreia do Sul seguiu nas décadas de 1970 e 1980, e que a China também adotou nos anos 2000, ou seja, o investimento em tecnologia e parcerias entre ciência e tecnologia. Nossa taxa de inovação é muito baixa. Sem isso, não teremos como ser competitivos e, consequentemente, nossos produtos terão menor demanda internacional. O problema é que são medidas de longo prazo, que precisam de tempo para causar a reestruturação do país", alerta.

Confira os 10 melhores e os 10 piores do ranking

10 economias mais competitivas – World Competitiveness Yearbook 2014
 

10 economias menos competitivas – World Competitiveness Yearbook 2014


Entrevistada
Hérica Righi, economista pela UFMG e professora do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral e responsável pela análise e coleta dos dados do Ranking de Competitividade
Contatos
herica@fdc.org.br
www.fdc.org.br

Crédito Foto: Cadu Gomes/ Fotos Públicas/FDC

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Brasil tem o que mostrar em construção sustentável?

Conferencistas internacionais reconhecem que boas práticas proliferam no país, desde que passou a adotar certificações para “prédios verdes"

Por: Altair Santos

O engenheiro norte-americano Phil Williams, do US Green Building Council (USGBC) e do Center for the Built Environment do Vale do Silício, destaca que, de cinco anos para cá, o Brasil é o que mais tem requerido certificações de construções sustentáveis depois dos Estados Unidos. No ranking geral, o país ainda ocupa a quarta colocação, atrás de EUA, China e Emirados Árabes Unidos, mas vem reduzindo essa diferença. Entre certificados já emitidos, e em processo de emissão, passam de 500 os chamados "prédios verdes" nas principais cidades brasileiras.

Engenheiro Phil Williams, no ENINC: Curitiba é uma das cidades que mais seguem os protocolos de sustentabilidade

Esses dados, por si só, respondem o questionamento sobre o que o Brasil tem a mostrar em termos de construção sustentável. "Soube que o mercado imobiliário aqui anda muito competitivo e isso estimula a busca por esse modelo de construção. Ela se aplica a diferentes necessidades, que vão desde obras para abrigar escolas, hospitais, escritórios ou residências. Qualquer que seja a construção, todas visam bem-estar e qualidade. "Bons mercados buscam isso", afirma Phil Williams, completando há também uma conscientização maior do setor sobre os impactos de uma obra. "Temos que usar os recursos de maneira sábia. Não podemos retirar algo da natureza e não devolver."

Williams revelou que nos Estados Unidos o sistema LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) começa a entrar em um novo estágio, que é o dos "bairros verdes". "Em meu país está se adotando o Eco-district, que é um modelo que enfatiza a inovação e a implantação de melhores práticas em uma localidade. Fiquei surpreso em ver que Curitiba já segue alguns itens desse protocolo, mesmo que a cidade não tenha sido planejada sobre esses conceitos”, ressaltou Williams. De acordo com ele, a responsabilidade dos profissionais da construção civil é escolher melhor os produtos utilizados, reduzindo o consumo de energia e os gastos. “Moramos no mesmo planeta e temos que aprender a evoluir, trocando experiências e adotando novas tecnologias”, enfatiza.

Certificação LEED
Em palestra concedida no ENINC (Encontro Nacional para Inovação na Construção Civil) - evento realizado dias 2 e 3 de junho, em Curitiba, e que marcou os 70 anos de fundação do SindusCon-PR -, Phil Williams esteve acompanhado do consultor especializado em certificação LEED, Guido Petinelli, que reforçou as teses de seu colega. “Não tem porque construir de outra forma se já existe e é viável a construção sustentável. Precisamos encontrar profissionais e empresas inovadoras e mostrar que isso é possível e que não tem por que fazer diferente”, realça, alertando que a construção civil mundial vive a era do "fazer melhor com menos".

Petinelli definiu também como os inovadores se destacam no mercado da construção civil.  “A principal diferença entre o inovador e a maioria é que a maioria se pergunta qual o retorno antes de inovar”, define, assegurando que hoje é possível construir um prédio sustentável gastando 5% menos. "Outra vantagem das construções sustentáveis é a certificação. Ela estabelece uma linguagem única que possibilita que o consumidor saiba o que é, e possa tomar uma decisão informada. A certificação também incentiva o mercado, gerando um círculo virtuoso", finaliza.

Entrevistado
Engenheiro civil Phil Williams, do US Green Building Council e do Center for the Built Environment do Vale do Silício
Contato: leedinfo@usgbc.org

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Em cidades inovadoras, concreto estimula mobilidade

Urbanista dinamarquês David Sim cita exemplos em que o material serviu para gerar obras que transformaram algumas das principais metrópoles do mundo

Por: Altair Santos

No Encontro Nacional para Inovação na Construção Civil (ENINC) que aconteceu dias 2 e 3 de junho na sede da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) o arquiteto paranaense Edson Yabiku, sócio do escritório de arquitetura Foster & Partners - localizado em Londres -, e o urbanista dinamarquês David Sim mostraram ser possível viabilizar cidades inovadoras com o concreto predominando nas obras. Masdar, a cidade “carbono zero” em construção em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, é a prova. "Desenvolvemos um concreto sustentável, com uma pegada menor de carbono, e que vai ajudar a resfriar a cidade", diz Sim, que junto com Yabiku está envolvido no projeto.

Masdar City, em Abu Dhabi: exemplo de que é possível inovar sem abdicar do concreto

Estima-se que a construção de Masdar City consuma 2 milhões de m³de concreto. Para se chegar à pegada ideal de carbono do material, foram testados treze tipos de misturas, onde o cimento recebeu alto volume de escórias de alto forno, variando de 50% a 80%. A escolha recaiu sobre um composto que usa 30% de escórias e 30% de cinzas volantes, com resistência à compressão de 40 MPa e pegada de carbono de 154 kg/m3. "O objetivo é ter um concreto que permita resfriar a cidade. Em Abu Dhabi, a temperatura média é de 39°C com sensação térmica de 52°C. Em Masdar, a sensação térmica será menor que a marcada pelos termômetros", revela Edson Yabiku.

Cidade sustentável

É curioso como surgiu o projeto para construir a cidade de Masdar. Em 2006, o governo dos Emirados Árabes recebeu um relatório que apontava para o alto índice de cidadãos com diabetes. O sedentarismo da população, motivado pelo uso excessivo de carros, motivou o investimento em uma cidade sustentável, onde a prioridade seria o pedestre. "O projeto, que começou a ser concebido em 2006, levou três anos para ficar pronto. Em Mazda, tudo poderá ser feito a pé. A entrada de carros será proibida", explica Yabiku. O distrito de seis quilômetros quadrados ainda está em construção e será finalizado em 2015, ao custo de US$ 22 bilhões (cerca de R$ 45 bilhões).

Edson Yabiku e David Sim disseram na palestra no ENINC - evento que também comemorou os 70 anos de fundação do SindusCon-PR - que Curitiba inspirou conceitos aplicados em Mazda. Uma das ideias é a Rua das Flores. "Em Mazda também haverá ruas das flores, inspiradas em Curitiba. A cidade aqui é exemplar, limpa. Há um forte uso do transporte público, com baixo consumo de gasolina se comparada a outras. Isso nos inspirou a emprestar boas práticas para usar em nossos projetos”, completa Yabiku. A dupla também atuou recentemente na revitalização da Trafalgar Square, em Londres.

Entrevistados
Arquiteto Edson Yabiku e urbanista David Sim, sócios do escritório londrino Foster & Partners
Contato: info@fosterandpartners.com

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Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Aquário Pantanal vira obra relevante de Ruy Ohtake

Projetada pelo arquiteto, construção na cidade de Campo Grande conta com a assessoria técnica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Por: Altair Santos

O Aquário Pantanal é atualmente o projeto que mais mobiliza o renomado arquiteto Ruy Ohtake. É ele quem assina a obra, que entrou na reta final de execução. A previsão é que seja inaugurada em outubro de 2014, em Campo Grande-MS, nas comemorações dos 37 anos de emancipação do Mato Grosso do Sul. Para que tudo saia minuciosamente como planejou, Ohtake tem visitado a construção de 15 em 15 dias. "Se perguntarem qual o meu melhor projeto, digo sempre que é o que está em andamento. Que filho você mais gosta? Arquiteto é mais ou menos parecido. Nós temos que nos habituar em ser um pouco mais ousados”, diz, falando do Aquário Pantanal.

Aquário Pantanal: complexo recebe 15 mil m³ de concreto e Ruy Ohtake visita obra semanalmente

O projeto é complexo e, por isso, impôs desafios à engenharia. Com 17 mil m² de área construída, a obra localiza-se no Parque das Nações Indígenas e é financiando pelo governo sul-matogrossense. O custo estimado é de R$ 80 milhões e conta com a assessoria técnica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Na fase de concretagem, a PhD Engenharia, do professor-doutor Paulo Helene, também foi contratada para orientar na estrutura do material a ser usado na construção. A resistência à compressão foi fator determinante na escolha do concreto, já que as paredes dos 16 grandes aquários que o prédio irá abrigar deverão suportar 4.275.000 litros de água.

A princípio optou-se pelo uso do concreto convencional (CCV) com resistência à compressão de 35 MPa. Porém, falhas na concretagem, com o aparecimento de nichos e mudança de tonalidade do concreto, levaram à mudança no tipo do material. Estudos da UFMS, com a orientação do especialista Paulo Helene, concluíram que o concreto autoadensável (CAA) com fck de 50 MPa, seria a solução ideal. A aplicação do CAA, porém, exigiu treinamento da mão de obra e revisão na estanqueidade das fôrmas. Nas primeiras aplicações, houve vazamento do material. A complexidade das peças também requereu que o concreto usasse pedriscos de 12,5 mm, em vez de brita 1, de 18 mm.

Concreto autoadensável acelerou obra

Ruy Ohtake: visita de 15 em 15 dias à obra do aquário

Resolvidos os impasses em relação à concretagem, o uso de CAA acelerou a obra. Com o concreto convencional, um caminhão-betoneira levava até meia hora para descarregar todo o volume. Com o autoadensável, o tempo reduziu para 12 minutos. Por causa da esbelteza das peças, muitas delas receberam 100% de CAA. A concentração de armaduras também inviabilizou o uso de concreto convencional. A construção recebeu 15 mil m³ de concreto, dos quais 75% na forma de autoadensável. Os dados fazem parte de relatório apresentado pelo curso de graduação em engenharia civil da UFMS, durante o 1º Congresso Brasileiro de Patologia das Construções, que aconteceu em Foz do Iguaçu-PR, de 21 a 23 de maio de 2014.

Ruy Ohtake acompanhou os estudos na UFMS e teve contato direto com os alunos da universidade. Ele explica por que escolheu a forma de elipse para a arquitetura do Aquário Pantanal. “Por que uma elipse? É um formato bonito. É instigante, todo mundo quer saber o que será ali. É uma forma inovadora, não tem nada parecido no mundo”, disse, em palestra aos estudantes. O complexo irá receber 263 espécies da fauna aquática da região e será o maior aquário de água doce do mundo.

Entrevistados
Arquiteto Ruy Ohtake
Engenheiro-doutor Paulo Helene
Engenheira civil e professora da UFMS, Sandra Regina Bertocini
Contatos
instituto@institutotomieohtake.org.br
paulo.helene@concretophd.com.br
sandra.bertocini@gmail.com

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Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Indústria nacional de cimento: vocação para crescer

Até 2019, capacidade instalada do setor terá potencial de produzir mais de 110 milhões de toneladas e atender, com folga, as demandas do país

Por: Altair Santos

Se o Brasil voltar a ter o crescimento de seu Produto Interno Bruto (PIB) na casa de 5% ao ano, a indústria de cimento está preparada para atender a demanda. O recado foi dado pelos presidentes da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) Renato Giusti, e do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) José Otávio de Carvalho. "Temos fortes demandas na habitação e na infraestrutura. A missão da indústria do cimento é atender essas demandas quantitativa e qualitativamente", frisou o dirigente da ABCP.

Renato Giusti, da ABCP, e José Otávio Carvalho, do Snic: Brasil é o 4º maior produtor de cimento e precisa sustentar posição

Já o presidente do SNIC enfatizou que o setor segue investindo no país, para produzir muito mais do que as 70 milhões de toneladas alcançadas em 2013. "Nossa capacidade instalada de 63 milhões de toneladas por ano, em 2006, foi acrescida em mais de 20 milhões de toneladas em sete anos. Além disso, outros 30 milhões de toneladas são anunciadas e encontram-se em andamento para os próximos cinco anos. Por isso, está garantido o abastecimento regular do mercado. Temos 87 unidades produtivas, pertencentes a 17 grupos econômicos. O capital nacional é predominante, pois mais de 2/3 da produção pertence a empresas brasileiras", disse.

As declarações de Giusti e José Otávio de Carvalho foram dadas na solenidade de abertura do 6º Congresso Brasileiro de Cimento. O evento ocorreu em São Paulo-SP, de 19 a 21 de maio de 2014, e nele foi reforçada a vocação para crescer da indústria brasileira de cimento. "Com a crise mundial afetando a economia dos países desenvolvidos, e havendo no mesmo período uma forte expansão da construção civil voltada à habitação, o Brasil atingiu a quarta posição na produção de cimento em 2013. Esse congresso, portanto, reflete a posição que assumimos no mundo a partir de 2006, que é a de continuar crescendo, apesar da conjuntura atual não ser favorável. Estamos enfrentando crescimento em torno de 3%, sem perspectiva de que isso seja alavancado no curto e médio prazo", afirmou o presidente do SNIC.

José Otávio de Carvalho ressaltou, porém, que o Brasil segue em posição vantajosa se for feita uma analogia com outros países. "Nos Estados Unidos, a produção de cimento caiu de 120 milhões de toneladas por ano para 70 milhões de toneladas. Já a Espanha despencou de 55 milhões de toneladas por ano para 11 milhões de toneladas por ano, em 2013", comparou.

Renato Giusti, presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) lembrou ainda que atualmente a produção de cimento no país está sustentada sobre três pilares: responsabilidade ambiental, qualidade e respeito à normalização. "Neste contexto, a indústria brasileira conseguiu se posicionar como a mais ecoeficiente do mundo. Fruto de suas baixas emissões e de sua eficiência energética. Essa ecoeficiência também é resultado de um parque industrial moderno e da adoção de tecnologias que preservam o meio ambiente", destacou.

Pioneira na ABNT
A indústria de cimento no Brasil é pioneira na adoção de normas técnicas. Foi uma das fundadoras da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) que nasceu em 1940 exatamente em um congresso para debater a qualidade do cimento e do concreto. "Hoje, o setor de cimento possui o maior índice de qualidade dentro do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) do ministério das Cidades, atingindo 99%", lembrou Ricardo Fragoso, diretor-geral da ABNT. Para José Otávio de Carvalho, há ainda outros componentes que foram acrescentados à indústria da construção civil no país, e que contribuíram para seu crescimento e, consequentemente, no aprimoramento da indústria de cimento. "Nos últimos dez anos houve o avanço da legislação, que estimulou investidores, o aumento da massa salarial, o aumento do crédito e a redução de juros. Aumentou a demanda por obras e a nossa indústria está sempre em busca de inovações para atender esse mercado", finalizou.

Entrevistados
- Renato Giusti, presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)
- José Otávio de Carvalho, presidente do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC)
- Ricardo Rodrigues Fragoso, diretor-geral da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)
Contatos
renato.giusti@abcp.org.br
snic@snic.org.br
abnt@abnt.org.br

Crédito Foto: Divulgação/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330