Celebridades entram no ramo da construção civil
Do cantor Roberto Carlos ao técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo, famosos diversificam negócios e tornam-se donos de construtoras e incorporadoras
Por: Altair Santos
As celebridades não estão se contentando mais em comprar imóveis. Elas querem construir. Roberto Carlos, por exemplo, é sócio da Emoções Incorporadora e Construtora. Idem para a dupla de cantores sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano, que têm participação na Penta Incorporadora. No mesmo ramo segue o ex-atacante do Atlético-PR e do Fluminense, Washington “Coração Valente”, que possui uma construtora na cidade de Caxias do Sul-RS. Já o técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo investiu na construção de um prédio no bairro Ecoville, em Curitiba: o edifício Eurobild.

A lista não é pequena de famosos brasileiros que diversificam seus negócios optando pelo investimento na construção civil. Mas o caso mais emblemático é o de Roberto Carlos. O cantor, junto com outros três sócios, inaugurou a Emoções Incorporadora e Construtora em 2011. O primeiro empreendimento, o edifício Horizonte JK, na cidade de São Paulo-SP, será entregue aos moradores no começo de 2015. Todas as unidades foram vendidas. Para comemorar o sucesso, o artista fez um show particular para os compradores. Roberto Carlos orientou sobre a arquitetura do prédio e influenciou para que ele tivesse tonalidade azul – sua cor preferida.
Atendendo a um pedido do cantor, todos os empreendimentos da construtora deverão ter a palavra Horizonte coligada a outra palavra em seu nome, numa referência à música “Além do Horizonte”. Outro prédio em construção é o Horizonte Jardins, em Aracaju-SE. “Roberto Carlos gosta muito de arquitetura. Talvez, se não fosse compositor e cantor, teria optado pela carreira de arquiteto”, diz Jaime Sirena, que ao lado do irmão Dody Sirena e do empresário da construção civil Bira Guimarães se associaram a Roberto Carlos. Até agora, a Emoções Incorporadora e Construtora já recebeu aporte financeiro de R$ 1,5 bilhão.

Potência do Centro-Oeste
Há mais tempo no mercado da construção civil, a dupla Zezé Di Camargo e Luciano só faz expandir os negócios da Penta Incorporadora. Voltada para o setor habitacional, a empresa atua em Goiás, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, interior de São Paulo e no Distrito Federal. Fundada em 1996, ela começou construindo casas populares na região metropolitana de Goiânia. Hoje, atua em parceria com outras companhias do segmento imobiliário, como Múltipla Log, Quarteto Participações Societária, GPL Incorporadora, FGR Urbanismo, Cabral Empreendimentos, JAS Logística e Grupo J. Andrade. Em 2013, o faturamento líquido da Penta Incorporadora foi de R$ 100 milhões.
Quem também está consolidado como empresário da construção civil é o ex-atacante Washington. Ele é sócio da Steca Edificações e Administração Ltda., fundada em 2004, junto com Valmor Lorencet e Aroldo Stecanela. A sede da empresa fica em Caxias do Sul-RS e já entregou quatro edifícios. O novo empreendimento é o Residencial D’Enza, que desde 2013 está em construção. “Recentemente comemoramos o aniversário de dez anos da empresa, com a entrega do Residencial Estart Living. Hoje, construímos seguindo parâmetros da certificação ISO 9001 e do nível A em qualidade do PBQP-H (Programa da Qualidade e Produtividade do Habitat, vinculado ao ministério das Cidades e pré-requisito para obter financiamento junto à Caixa Econômica Federal)”, diz Valmor Lorencet.

Entrevistados
Incorporadora e Construtora Emoções, Penta Incorporadora e Steca Edificações e Administração Ltda. (via assessoria de imprensa)
Contatos
www.incorporadoraemocoes.com.br/contato.php
www.steca.com.br/contato
Créditos Fotos: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

SindusCon não adota cadastro positivo do concreto
Paraná e Rio Grande do Sul alegam ter parceria com a Associação Brasileira de Cimento Portland; em Santa Catarina, atuação é mais relevante
Por: Altair Santos
Os Sindicatos da Indústria da Construção (SindusCon) do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul não possuem cadastro positivo de concreteiras para fornecer a seus associados. Essa lista seria útil para que as construtoras tivessem uma referência sobre quem produz concreto dentro das normas técnicas e dos procedimentos adequados para se obter um material de qualidade. “O SindusCon não é um órgão fiscalizador. Evidentemente que, quando há uma denúncia, chamamos o associado para discutir o assunto. E quando não é o associado, encaminhamos para os órgãos competentes. Mas o setor da indústria da construção civil no Brasil não tem, regularmente, organismos fiscalizadores”, admite Marco Aurélio Alberton, vice-presidente de tecnologia, qualidade e habitação do SindusCon de Santa Catarina.

Comparativamente ao SindusCon do Paraná e ao do Rio Grande do Sul, o organismo catarinense mostra-se mais atuante. Apesar da falta de um cadastro positivo, mobiliza-se quando as construtoras apontam falhas em algum segmento da cadeia produtiva. “Recentemente, fizemos um acordo para melhorar a qualidade dos elevadores e das gruas utilizadas nas obras”, afirma Marco Aurélio Alberton, reconhecendo que em outros países, como a França, existe fiscalização governamental sobre qualidade e desempenho das construções. “Aqui, apenas quando a obra é entregue, e quando surgem problemas, é que vem um perito para fazer a avaliação judicial, para depois ser comprovado ou não o desempenho da obra”, completa.
No SindusCon-RS, através de nota divulgada pela assessoria de imprensa, foi explicado que o organismo não “gerencia os materiais que as empresas utilizam em suas obras”. “No que tange ao concreto, temos uma parceria com a ABCP(Associação Brasileira de Cimento Portland), através da Comunidade da Construção, que promove a orientação das empresas associadas”, completa a nota. Para o SindusCon-RS, ao disseminar o cumprimento de normas técnicas, ministrar cursos e realizar parcerias, como a firmada com a ABCP, ele já cumpre o papel de incentivar boas práticas no canteiro de obras. Procedimento semelhante é adotado no SindusCon-PR. “Não temos iniciativas voltadas especificamente ao segmento de controle de qualidade do concreto e, neste caso, agimos em parceria com a ABCP”, diz breve nota divulgada pela assessoria de imprensa do organismo paranaense.

Gestão do concreto preocupa
No CREA-PR, o assessor de relações com o setor empresarial, Euclésio Manoel Finatti, afirma que a missão do conselho é verificar se as concreteiras têm responsável técnico. “Todas as empresas têm que ter um responsável técnico. É este profissional que vai verificar a qualidade do trabalho que está sendo executado na obra. Ele é o responsável pela qualificação, pela qualidade do concreto e pelo tipo de aplicação do produto”, explica Finatti. Em caso de denúncia, o CREA-PR informa que é o responsável técnico da concreteira que fica sob investigação. “Damos continuidade à denúncia, levando-a para o conselho e para a câmara especializada de engenharia civil, que é quem faz essas verificações sobre concreto. Ela vai avaliar e ver se o profissional fez o procedimento correto”, conclui Euclésio Manoel Finatti.
Recentemente, no 4º Fórum de Engenharia do Recife-PE, o diretor de planejamento e professor do Instituto IDD, Cesar Henrique Daher, demonstrou preocupação com a gestão tecnológica do concreto nas obras nacionais. “O que se vê no mercado atual é a perda da cultura voltada ao controle de qualidade do concreto. As empresas que fazem a gestão tecnológica deste material tão fundamental para a construção civil ainda são deixadas em segundo plano e tratadas como coadjuvantes pelos gerentes das obras, o que coloca em risco a segurança do projeto total”, destacou. Segundo Daher, uma das soluções para este problema é o maior envolvimento do engenheiro tecnologista em todas as fases da obra, desde a primeira etapa do projeto até a entrega do resultado final. Daher diz ainda que é fundamental a atuação deste profissional em colaboração com os engenheiros projetistas, gerentes e executores da obra.

Entrevistados
- Sindicato da Indústria da Construção do Paraná (via assessoria de imprensa)
- Sindicato da Indústria da Construção do Rio Grande do Sul (via assessoria de imprensa)
- Engenheiro civil Marco Aurélio Alberton, vice-presidente de tecnologia, qualidade e habitação do SindusCon-SC
- Engenheiro civil Euclésio Manoel Finatti, assessor de relações com o setor empresarial do CREA-PR
- Engenheiro civil Cesar Henrique Daher, diretor de planejamento e professor do Instituto IDD
Contatos
sinduscon@sindusconpr.com.br
sinduscon@sinduscon-fpolis.org.br
euclesio@braengel.com.br
atendimento@institutoidd.com.br
www.sinduscon-rs.com.br
Créditos Fotos: Divulgação/SindusCon-SC/CREA-PR
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Impressora 3D constrói casas com concreto reciclado
Em 24 horas, equipamento produz estruturas para montar dez residências, a um custo de aproximadamente 12 mil reais cada unidade
Por: Altair Santos
As impressoras 3D desembarcaram na construção civil. A empresa chinesa Xangai Winsun Decoração Projeto Co. Engenharia desenvolveu tecnologia para “imprimir” até dez casas em 24 horas. A empresa possui 77 patentes voltadas a materiais de construção, tais como fibra de vidro reforçada com gesso e fibra de vidro misturada ao concreto armado. Neste caso, o grande trunfo é o material utilizado: concreto com agregados recicláveis, o que confere um caráter ambientalmente sustentável à inovação.

A moradia fabricada a partir de tecnologia 3D possui 200 m² e seu processo de construção custa, em média, US$ 4.800 (cerca de R$ 12 mil), sem incluir gastos com mão de obra para montagem, materiais elétricos, hidráulicos e de acabamento. Como esses serviços são baratos na China, o valor da casa totalmente pronta se aproxima dos US$ 10 mil (R$ 25 mil). O equipamento monta as estruturas com uma mistura de concreto autoadensável e fibra de vidro, camada por camada, em um processo semelhante à fabricação de maquetes e protótipos em impressoras 3D.
A empresa com sede em Xangai-China investiu 20 milhões de yuan (US$ 3,2 milhões) em um período de doze anos, desenvolvendo o processo de construção. Ao “imprimir” as casas, o sistema 3D já calcula e marca espaços para instalar encanamento, rede elétrica e outras necessidades de uma habitação.
Segundo o CEO da empresa, Ma Yihe, o desenvolvimento da impressora consumiu a maior parte do tempo do projeto. Foi construída uma máquina que mede 32 metros de comprimento por 10 metros de largura e 6,6 metros de altura, acoplada a uma usina para produzir o concreto. "Nós compramos peças para a impressora no exterior e montamos o equipamento em uma fábrica em Suzhou", explica Ma Yihe.

A Winsun Engenharia agora planeja instalar 100 modelos da impressora em várias regiões da China para construir casas populares, a fim de ajudar a reduzir o déficit habitacional no país. O plano já atraiu parcerias. A gigante chinesa do setor da construção civil, a Tomson Group, está se associando ao projeto para desenvolver edifícios de até cinco pavimentos.
Concorrência dos EUA
Projeto semelhante está em desenvolvimento na University of Southern California (USC), e que foi batizado de Contour Crafting. O avanço da tecnologia norte-americana em relação à chinesa é que ela permite instalar a impressora 3D no canteiro de obras, eliminando o transporte das peças pré-fabricadas até o local. "Em comparação com a construção pré-fabricada, a impressão 3D não é muito mais barata, principalmente quando ela ocorre no local da obra", avalia o professor Behrokh Khoshnevis, diretor do programa de pós-graduação em Engenharia de Produção da USC.
De acordo com Khoshnevis, esta tecnologia aponta para vários mercados, propiciando a desfavelização em países como Brasil, Índia e China, além de nações africanas. Os primeiros testes com a impressora 3D desenvolvida nos Estados Unidos devem ocorrer em 2015, uma vez que a universidade precisa provar que as suas habitações impressas em 3D cumprem as normas do código de construção dos EUA.

Já para Ma Yihe, da chinesa Winsun Engenharia, a nova tecnologia estabelece uma espécie de divisor de águas na construção civil. “Estamos vendo nascer um novo modelo de construtora. A que não gera resíduos para fabricar suas edificações. Pelo contrário, recicla tudo. A pasta cimentícia usada como a “tinta” da impressora é uma prova de que é possível”, afirma.
Entrevistados
- Professor Behrokh Khoshnevis, diretor do programa de pós-graduação em Engenharia de Produção da University of Southern California (USC) (via email)
- Ma Yihe, CEO da Xangai Winsun Decoração Projeto Co. Engenharia (via email)
Contatos
KhoshnevAT@uscDOT.edu
http://www.bkhoshnevis.com
yhbm@yhbm.com

Créditos Fotos: Divulgação/Winsun New Materials
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
ABRAMAT completa 10 anos e fortalece construção civil
A partir do surgimento da entidade, indústria brasileira do setor passou a investir continuamente em tecnologia, mas ainda sofre com “Custo Brasil”
Por: Altair Santos
Fundada em 2004, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT) tornou-se, neste período, referência institucional na defesa dos interesses do setor. Em 10 anos, ela vem atuando como interlocutora junto ao poder público e à sociedade, e influenciando na adoção de medidas e políticas que ampliem a atividade da construção. A ABRAMAT tem como associadas as principais empresas do segmento, líderes em vendas, produtividade, qualidade e inovação tecnológica.

Para Walter Cover, presidente da associação, a ABRAMAT trabalha em conjunto com seus associados e parceiros para o desenvolvimento da construção civil no Brasil. Os números divulgados pela entidade geram estatísticas do setor que auxiliam ações, fomentando a demanda para o crescimento social, equilibrado e sustentável no país. Ainda que 2014 apresente desempenho abaixo do esperado, Cover acredita na retomada do crescimento em 2015, desde que o Custo Brasil seja minimizado. Confira a entrevista:
A ABRAMAT completou recentemente 10 anos de atuação. Quais avanços obtidos pelo setor o senhor destaca neste período?
Nesses 10 anos destacamos que o setor da construção apresentou um avanço muito significativo. A escala de produção aumentou fortemente. Houve grandes avanços na oferta de crédito ao consumidor, tanto para aquisição de imóveis, como para reformas e aquisição de materiais, além da retomada de política habitacional voltada à habitação de interesse social, com a criação do Programa Minha Casa Minha Vida, investimentos nas obras de infraestrutura, através do PAC, e estímulos para o setor, principalmente com a desoneração tributária (IPI dos materiais e desoneração de folha de pagamentos).
Atualmente, dentro da cadeia produtiva da construção civil, quais setores estão ligados à ABRAMAT?
A ABRAMAT é uma associação que reúne indústrias de materiais de praticamente todos os segmentos, tanto materiais básicos como de acabamento. Entre os segmentos, podemos destacar aço, cimento, argamassas, impermeabilizantes, tubos e conexões, esquadrias, vidros, coberturas, louças, acessórios e metais sanitários, revestimentos cerâmicos, pisos vinílicos, drywall, materiais elétricos, fios e cabos elétricos.
Quais produtos são lideres de venda atualmente, dentro da cadeia produtiva que envolve a ABRAMAT?
A ABRAMAT não tem estatísticas de vendas de segmentos específicos. Só trabalha com acompanhamento das vendas totais da indústria de materiais e dos grupos de materiais básicos e materiais de acabamento. Em 2014, os produtos de acabamento tiveram desempenho melhor que os produtos de base.
A ABRAMAT sempre procurou incentivar seus associados a investirem em qualidade e inovação tecnológica. Hoje, os produtos brasileiros se equivalem aos padrões internacionais?
Sim. As indústrias brasileiras líderes em seus segmentos investem continuamente em tecnologia de produção, em inovação e estão atualizadas em relação ao que há de mais avançado no mundo para seus produtos. Boa parte das empresas tem unidades fora do país também e parte delas exporta para diversos países, atendendo aos padrões exigidos.
Ao longo destes dez anos, qual o período mais próspero e qual o período de menor crescimento a cadeia produtiva ligada à ABRAMAT enfrentou?
A ABRAMAT tem o seu próprio índice, que o Índice ABRAMAT do Mercado Interno. Por ele, o melhor ano foi 2010, com expansão de 14,4%. O pior foi 2009, com redução de 8,8%, no auge da crise internacional. Em 2014, até setembro, a queda foi de 6,5%.

Dentro do que é considerado “Custo Brasil”, o que mais atrapalha o crescimento do setor ligado à ABRAMAT?
Difícil isolar um só fator. Os mais importantes são excessiva carga tributária, juros altos, câmbio muito valorizado e infraestrutura insuficiente e cara.
O senhor acredita que é possível recuperar as perdas de 2014 no 4º trimestre?
Infelizmente, não conseguiremos recuperar as perdas de venda como um todo. Projetamos que fecharemos o ano com uma queda de 3% a 4%, comparado a 2013.
Por que as vendas caíram?
Pelos dias perdidos de venda na Copa do Mundo e os feriados gerados pelo evento, pelo pessimismo generalizado de consumidores e empresas em relação à economia, pelos atrasos nas obras de infraestrutura e pela queda do consumo em função dos juros altos e falta de confiança.
Quais as perspectivas para 2015?
São melhores que 2014. O Minha Casa Minha Vida deverá ser mais vigoroso, as obras das concessões leiloadas em 2014 devem ser executadas, o consumo deverá aumentar com a redução das incertezas, o câmbio mais desvalorizado deve favorecer as exportações e teremos as obras relacionadas com as Olimpíadas no Rio.
Nos próximos 10 anos, quais as metas traçadas pela ABRAMAT?
São dez: redução do Custo Brasil e aumento da produtividade setorial; integração dos agentes da cadeia produtiva e ambiente de negócios cooperativo; políticas públicas permanentes; valorização da inovação; construção ambiental e socialmente sustentável; atendimento às necessidades dos clientes; força de trabalho capacitada e comprometida; tecnologias da informação e comunicação; produção fora do canteiro de obras e eficiência dos processos de produção.
Entrevistado
Walter Cover, Engenheiro agrônomo, Ph.D em economia agrícola e presidente da ABRAMAT (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção).
Contato: abramat@abramat.org.br
Crédito Foto: Divulgação/ABRAMAT
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Concreto faz arte sair das galerias e ir para as ruas
Paredes e muros servem como telas para que artistas e grafiteiros transformem o espaço urbano das principais metrópoles do mundo
Por: Altair Santos
A tendência é mundial. Em grandes metrópoles da Europa, dos Estados Unidos e da América do Sul já é possível observar dezenas de pinturas expostas em paredes e muros, de preferência de concreto. É o que se convencionou chamar de street art (arte de rua), que evoluiu da pichação para o grafite e hoje expõe verdadeiras obras de arte a céu aberto. Os autores também se consagram mundialmente. Um exemplo é o brasileiro Eduardo Kobra, um dos mais requisitados para expor seu trabalho, assim como os irmãos conhecidos como Os Gêmeos.
Eles e outros artistas vêm desmistificando a arte de rua e influenciando em reformas de leis sobre poluição visual das cidades. Nova York e São Paulo, por exemplo, tiveram que rever restrições, depois que pinturas como as que Kobra faz passaram a ser denominadas como obras de arte. “O maior museu é a rua, ao ar livre, e que faz com que a arte possa chegar a todas as pessoas, pobres ou ricos", afirma Eduardo Kobra, que se considera um muralista – aquele que busca autorização para trabalhar com arte urbana em alto nível.
Esses artistas usam como tela o concreto. É quase unanimidade entre eles que o material é o melhor para realçar as tonalidades e os desenhos – na maioria, gigantescos. Essa opinião também é compartilhada por arquitetos, que se unem aos artistas de rua para promover intervenções urbanas. No Brasil, esse movimento ganhou o sugestivo nome de MUDA e conta também com a participação de engenheiros civis. A defesa é que as obras de arte de rua não apenas mudam o visual das cidades, mas ajudam a melhorar o humor das pessoas.
Esse conceito também foi encampado pelas empresas. A Natura, indústria brasileira conhecida por fabricar produtos de beleza e perfumes, lançou uma marca chamada Urbano, que faz todo o seu marketing em cima de arte de rua. Em Frankfurt, na Alemanha, o Deutsche Bank patrocinou recentemente a ida de 11 artistas de rua do Brasil para promover uma intervenção no espaço urbano da cidade, em parceria com a prefeitura local. O objetivo era mudar a paisagem de prédios abandonados e revitalizar monumentos públicos, alguns com fachada em concreto aparente.
A seguir, veja fotos de como a arte de rua já se tornou uma tendência mundial.
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Fidelizar cliente na construção civil requer qualidade
Especialista afirma que construtoras devem pensar no consumidor como alguém que irá recomendar suas obras para outras gerações
Por: Altair Santos
Na cadeia produtiva da construção civil, assim como na gastronomia, na moda ou na indústria automobilística, é possível fidelizar. Aí, incluem-se também os insumos, como cimento e concreto. Quem garante é o especialista em estratégias de fidelização, Marcelo Cristiano Gonçalves. Para ele, qualidade, serviço e pós-atendimento são fundamentais, independentemente do setor em que se atue. Ainda segundo o especialista, fidelização não é peça de marketing e, em seu entender, na construção civil ela funciona em cadeia. “Neste setor, mais do que em outros, a fidelização se dá em duas frentes: na qualidade do material empregado na obra e no cumprimento do prazo de entrega ao cliente final. Esta idoneidade faz com que a construtora ganhe a preferência do consumidor e o estimule a recomendar produtos da empresa para outras pessoas”, afirma.

Fidelização, explica Marcelo Cristiano Gonçalves, é basicamente “entregar produtos com a qualidade esperada, com o atendimento adequado e no tempo prometido”. No entanto, no caso da cadeia produtiva da construção civil, ele afirma que há setores que, antes de pensar em fidelizar consumidores, precisam trabalhar fortemente a marca. Ele cita a Tigre como o exemplo melhor acabado. “Antes, canos e conexões, dentro de uma obra, eram vistos como commodities. A Tigre trabalhou o reforço de marca e hoje, quando você pensa em tubos e conexões, pensa em Tigre. Outros insumos da construção civil, como cimento e concreto, também podem fazer isso, ou seja, pensar no fortalecimento de suas marcas”, avalia, completando que, no final, o que faz a diferença é a qualidade: “O que faz a pessoa comprar pela primeira vez pode até ser o preço, mas o que faz a pessoa repetir a compra é a qualidade”.
Fidelização para toda vida
O especialista avalia que, no caso da construção civil e, especificamente, no caso das construtoras, o conceito de fidelização deve ser estruturado em cima do tempo de vida do cliente. “É o que os americanos chamam de life time valory (valor do tempo de vida). Quando uma construtora só pensa no valor do contrato, ela vai fazer uma venda. Mas quando pensa no tempo de vida daquela pessoa, e que ela poderá influenciar suas gerações, a venda se torna perene. Quando ela mesma, um filho ou um neto, vier a comprar outro apartamento, certamente haverá influência para que a compra de um novo imóvel seja daquela construtora. Por quê? Porque houve qualidade e houve comprometimento da construtora com a obra. Isso é fidelização”, diz.
Além disso, Marcelo Cristiano Gonçalves bate na tecla de que, no longo prazo, fidelizar é mais barato do que atrair um novo cliente. “No longo prazo, o custo para fidelizar um cliente é mais barato. Para conquistá-lo pela primeira vez é preciso investir em marketing, cujo custo para convencê-lo pela primeira vez é maior do que para atraí-lo pela segunda vez. O custo para adquirir um cliente hoje está muito complicado, pois a concorrência é muito grande. Então, é muito mais inteligente a empresa fazer um bom trabalho de pós-venda, já pensando na pré-venda de um novo produto. Na verdade, o conceito pós-venda tem que ser substituído pelo conceito pré-venda. O pessoal não faz mais pós-venda. A partir do momento que você vendeu tem que atender o cliente de tal maneira que ele seja a sua próxima venda. Tem que pensar nele como pré-venda. Mas sempre partindo do princípio de que o que foi entregue na primeira vez tinha qualidade”, finaliza.
Entrevistado
Marcelo Cristiano Gonçalves é graduado em administração e pós-graduado em inovação estratégica pela HSM. Sócio-fundador da Marka Fidelização, é palestrante requisitado para falar sobre fidelização, relacionamento com clientes e qualidade
Contato: marcelo@markafidelizacao.com.br
Crédito Foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Para construção civil, 2015 será parecido com 2014
Vice-presidente de economia do SindusCon-SP, Eduardo Zaidan, avalia que, se o governo fizer a lição de casa, crescimento pode ser retomado em 2016
Por: Altair Santos
Executivos de setores ligados à cadeia da construção civil reuniram-se em um fórum promovido pelo SindusCon-SP, no começo de outubro de 2014, para analisar o desempenho do setor no ano que vem. A conclusão é que o crescimento em 2015 não será muito diferente do que se encaminha para 2014. Sob a coordenação de Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia do SindusCon-SP, os debatedores concluíram que a construção civil fechará este ano com PIB de 1% e perspectivas de 1,5% para 2015.

Zaidan recomenda às construtoras que invistam em mão de obra qualificada e industrialização para se manterem competitivas e produtivas. Isso por que, explica ele, o segmento imobiliário chegou ao fim de um ciclo de produção - encerrado em 2012 - e o resultado das obras de infraestrutura, com base nas concessões de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias, só deverá aparecer a partir de 2016. Confira a entrevista:
O que esperar para o setor da construção civil a partir de 2015, pensando nacionalmente?
Há um consenso de que em 2015 teremos um ajuste nas contas públicas, com repercussões sobre o crescimento da economia. O que se desconhece é como será a profundidade e a extensão deste ajuste ao longo do tempo. Possivelmente, seus efeitos afetarão todo o ano que vem. Para a construção, isso significa o prosseguimento do quadro de retração nos investimentos privados, por parte de investidores e de famílias, e pouca chance de elevação dos investimentos públicos. Ou seja, para a construção, a expectativa é de crescimento parecido com 2014, que não será nada brilhante.
Quando se diz que o segmento imobiliário chegou ao fim de um ciclo de produção, isso significa que ele não crescerá nos próximos anos como cresceu de 2008 a 2012?
Isso mesmo. Até porque, aquele crescimento atendeu a uma demanda qualificada que até então havia sido reprimida devido ao quadro anterior de juros altos e financiamento imobiliário limitado, e que foi fartamente atendida por uma oferta por parte de construtoras e incorporadoras. O mercado se beneficiou com a elevação do crédito imobiliário e com os recursos vindos do mercado de capitais.
Mesmo com a continuação do programa Minha Casa Minha Vida, o setor tende a não manter um bom ritmo de crescimento. Por quê?
O programa é uma parte importante, mas ele atende a famílias com renda mensal familiar de até cinco mil e cem reais (R$ 5.100). Há a promessa de revisão dos valores do programa, mas mesmo assim ele continuará não abrangendo o amplo setor de famílias e investidores que demandam o mercado acima daquela renda.
A possibilidade de as obras de infraestrutura em concessões de rodovias, aeroportos e portos saírem do papel não vai dar estímulo à construção civil e fazê-la manter crescimento positivo em 2015?
As concessões já assinadas de estradas e aeroportos devem ter algum impacto na atividade em 2015. Porém, uma série de licitações ainda não se realizou e, quando isso ocorrer, ainda levará algum bom tempo até os projetos começarem a se transformar em obras. Isso é mais para 2016.
Essa desaceleração traz quais reflexos para temas que têm sido relevantes para o setor, como mão de obra qualificada, industrialização e competitividade?
É um bom momento para as construtoras - que puderem - investirem nesses itens. Até porque, com um volume menor de novas obras, a competição dentro do setor se intensificará e, quem estiver melhor preparado, será mais competitivo.
Quais ajustes ficaram faltando, em termos econômicos, para que a construção civil conseguisse ter um crescimento sustentável?
Além de arrumar as contas públicas, será preciso reequacionar o câmbio e estimular a elevação constante da oferta de produtos e serviços. Esse conjunto virtuoso, se também forem deixados de lado os artifícios da “contabilidade criativa”, será capaz de restabelecer a confiança dos investidores.
O setor estima que haverá um novo ciclo virtuoso, como o de 2008 a 2012. Caso sim, a partir de quando?
Quem sabe ele se inicie a partir de 2016, se o novo governo mostrar a competência que se espera em 2015.
A construção civil gerou muitos empregos formais e avançou na questão da informalidade nas obras. Essas conquistas podem estar ameaçadas com um fraco desempenho do setor em 2015?
Boa parte da elevação do emprego na construção nos últimos anos resultou da formalização de pessoal que já trabalhava informalmente na construção. Isso foi possível graças a uma perspectiva constante de manutenção de crescimento do
setor. Agora, com o quadro de incerteza, é provável um declínio no emprego ainda em 2014 e uma estagnação em 2015.
O que o governo que assumir a partir de 2015 deverá fazer para reestimular o setor?
Além da arrumação na política econômica, como mencionado acima, será importante estimular a inovação e a industrialização do setor mediante incentivos tributários. Isso precisará envolver também os governos estaduais e municipais. Além disso, intensificar a qualificação de pessoal, especialmente das profissões relacionadas a essa industrialização.
Como consultor, que conselho o senhor daria às construtoras?
Invistam em produtividade.
Entrevistado
Engenheiro civil Eduardo Zaidan, profissional com mais de 30 anos de experiência no mercado imobiliário e da construção civil e vice-presidente de economia do SindusCon-SP
Contatos
sindusconsp@sindusconsp.com.br
imprensa@sindusconsp.com.br
Crédito Foto: Divulgação/SindusCon-SP
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Custo logístico onera indústria da construção
Setor gasta 21,33% do que arrecada para deslocar produtos e matérias-primas. É o que aponta pesquisa sobre competitividade da Fundação Dom Cabral
Por: Altair Santos
O custo da logística sobre a indústria da construção civil equivale a 21,33%, ou seja, de tudo o que o segmento arrecada, esse percentual é o que é gasto para que sejam transportados produtos e matérias-primas. Trata-se do segundo setor do país que mais desembolsa recursos para conseguir levar insumos até as fábricas e distribuir seus bens nos pontos de venda. Perde apenas para a indústria de papel e celulose, cujo custo logístico consome 28,33% de seu faturamento.

Esse e outros dados estão na pesquisa Custos Logísticos no Brasil 2014, realizada pela Fundação Dom Cabral, e que coletou informações de 111 empresas brasileiras, cujo faturamento equivale a 17% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. Para 48,6% destas companhias, o transporte tem peso relevante na formação do preço final de seus produtos, muitas vezes encarecendo o valor cobrado do consumidor.
As empresas consultadas também informaram que rodovias (85,6%), máquinas e equipamentos (68,5%) e energia elétrica (66,7%) são os bens dos quais mais dependem para conseguir viabilizar seus negócios. “Dada a importância do modal rodoviário, o desafio que se impõe diz respeito à qualidade das rodovias, o que, segundo a pesquisa, estamos longe de alcançar”, destaca Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral e responsável pelo estudo.
Para 69,1% das empresas consultadas, as rodovias brasileiras são muito ruins ou ruins. Nos modais ferroviários e portuários, a situação é ainda pior. No caso das ferrovias, 95,5% as consideram muito ruins ou ruins. Já para 80,8% das companhias consultadas, o sistema portuário brasileiro também é qualificado como muito ruim ou ruim. Para atenuar esse custo, 70% das indústrias ouvidas na pesquisa têm procurado terceirizar a frota e os serviços logísticos.
Preferência pelo pedágio
Ainda de acordo com a pesquisa, a participação da iniciativa privada é vista como crucial para o desenvolvimento dos projetos de infraestrutura no Brasil, com destaque para a concessão rodoviária (77,3% consideram a participação privada bastante ou extremamente necessária), concessão ferroviária (83,7%), administração portuária (82,7%) e gestão de aeroportos (85,2%). Para o empresariado, o maior gargalo para o cumprimento das obras de infraestrutura no Brasil é a corrupção, com 75,5%, seguida da burocracia (60%). “As empresas avaliaram, ainda, que a corrupção, os impostos e a infraestrutura inadequada compõem o tripé responsável por minar a competitividade do ambiente logístico brasileiro”, diz Paulo Resende.
Diante deste cenário, as empresas consultadas declaram claramente que preferem as rodovias pedagiadas e administradas pela iniciativa privada. As alegações, segundo elas, são os seguintes: redução do custo do transporte (50% avaliam ser esse o principal motivo), maior consistência na entrega das mercadorias (41,8%), maior velocidade na entrega das mercadorias (39,1%), redução nos custos de armazenagem (35,5%), adoção do modal rodoviário com maior frequência (29,1%) e redução no custo de estoque (29,1%).
Confira aqui todos os dados coletados na pesquisa.
Entrevistado
Engenheiro civil Paulo Resende, titular da cadeira de gestão de operações e logística da Fundação Dom Cabral, e doutor em planejamento de transportes e logística, pela University of Illinois at Urbana Champaign (EUA)
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pauloresende@fdc.org.br
atendimento@fdc.org.br
Crédito Foto: Divulgação/Fundação Dom Cabral
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Pesquisa produz espelho de alta precisão com concreto
Utilizando cimento Portland, cientistas da Universidade Tecnológica de Delft construíram superfícies com capacidade de reflexão melhor que o vidro
Por: Altair Santos
O processo de industrialização de espelhos para telescópios, radares e até aquele aparelhinho que o dentista usa para verificar a boca do paciente tende a se tornar mais barato. Pesquisadores da Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, avançam nos estudos que transformam concreto em espelho de alta precisão. Utilizando cimento Portland, e outros ligantes, os cientistas conseguiram produzir superfícies superlisas e com capacidade de reflexão melhor que o vidro. A diferença é que o custo para chegar a esse resultado é bem menor que o processo que transforma o vidro em espelho de alta precisão. Chamado de concreto óptico, o novo material começará a ser testado em equipamentos a partir de 2015.

O uso de vidro para a fabricação de espelhos ópticos requer, além de areias especiais, um processo longo de moagem e de polimento. É isso que encarece a sua industrialização. Pesquisando alternativas, os cientistas da UT Delft descobriram que o cimento Portland permite formar superfícies que refletem com precisão. A partir desta constatação, eles aprimoraram o concreto fluído que é colocado dentro de moldes côncavos, a fim de fabricar os primeiros espelhos ópticos. Entre as principais vantagens detectadas pelos pesquisadores, verificou-se que o espelho de alta precisão a partir do concreto tem menor densidade que o vidro, e é mais rígido.
Concretando inovações
Outra descoberta feita na UT Delft é que, no caso de grandes áreas espelhadas, como exigem telescópios e satélites, o concreto óptico permite que a estrutura seja formada por pequenas peças hexagonais, ao contrário do vidro, que necessita de componentes maiores, o que acaba dificultando o transporte. Também se observou que o espelho à base de cimento Portland é altamente eficiente para a construção de painéis para a captação de energia solar. Por dois motivos: redução do custo de produção e capacidade de reter menos calor do que o espelho de vidro e, consequentemente, conseguir transmitir mais energia às baterias.

Depois de testar concreto óptico em laboratório, a UT Delft começa a preparar o produto para que ele possa substituir espelhos côncavos e convexos de alta precisão. Um dos primeiros interessados na invenção é a indústria automobilística, por causa dos espelhos retrovisores dos veículos. A universidade da Holanda, uma das mais tradicionais do mundo em pesquisas relacionadas ao concreto, é pioneira também na descoberta do material que se autorregenera. A capacidade de recuperação se deve a bactérias agregadas ao concreto e que, estimuladas pela luz, recompõem eventuais fissuras. “Nossa universidade acredita nas potencialidades do concreto como elemento capaz de gerar produtos inovadores”, afirma Henk Jonkers, pesquisador da Faculdade de Engenharia Civil e Geociências, Ciências dos Materiais e Construção Sustentável da TU Delft.
Entrevistado
Henk Jonkers, pesquisador da Faculdade de Engenharia Civil e Geociências, Ciências dos Materiais e Construção Sustentável da TU Delft. (por email)
Contatos
hmjonkers@tudelft.nl
www.dcmat.tudelft.nl
Crédito Foto: Todd Mason/GMT Consortium/Carnegie Observatories/Divulgação/ TU Delft
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
Fiscalização eficiente faria bem ao concreto
Especialista avalia riscos de se cortar custos comprometendo a qualidade do material e faz alerta sobre “concreteiras temporárias” existentes no mercado
Por: Altair Santos
Especialista em estruturas pela UFMG, especialista em tecnologia dos materiais pela ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e associado da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) o engenheiro civil Flávio Renato Pereira Capuruço é um defensor intransigente da qualidade do concreto na obra. Palestrante sempre presente em eventos da construção civil, alerta constantemente que nenhuma construtora deveria querer cortar custos a partir do concreto. Segundo ele, por questões legais e normativas, como Código do Consumidor e Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575) é imprescindível zelar pelas estruturas de uma edificação. Capuruço reconhece, no entanto, que falta fiscalização. Por isso, complementa, há muitas “concreteiras temporárias” operando no país. Segundo ele, são empresas que se estabelecem para explorar um nicho que está aquecido e, depois que o mercado esfria, fecham as portas. Na entrevista a seguir, o engenheiro esmiúça seus conceitos a favor da qualidade do concreto. Confira:

Em uma das Minascon, que recentemente teve sua 11ª edição, o senhor palestrou sobre direitos e deveres do controle tecnológico do concreto. Ainda há muito concreto de qualidade duvidosa sendo vendido no país?
Quando falamos em qualidade do concreto, temos que abranger toda a cadeia construtiva. Considero que a qualidade do concreto inicia-se na sua especificação, que considere as características dos materiais constituintes do concreto da região onde se localiza a obra, que informe o desempenho mínimo deste concreto em cada etapa construtiva e que seja devidamente analisado por um tecnologista do concreto. Além disso, a qualidade do concreto depende da competência da concreteira em fornecer um concreto que atenda àquelas especificações, e dos laboratórios, na correta execução dos ensaios normativos para a garantia de seu desempenho. Como não temos este ciclo totalmente implementado na maioria de nossas obras, infelizmente ainda temos muito concreto de qualidade duvidosa no país.
Tentar cortar custo descuidando da qualidade do concreto é um erro?
Existem inúmeras formas de se reduzir o custo do concreto, seja na escolha de melhores materiais constituintes, seja na otimização operacional e logística das centrais dosadoras de concreto ou mesmo na implementação de concretos especiais, como o concreto autoadensável. Porém, toda a tecnologia e conhecimento utilizados numa possível redução de custos do concreto, em nenhum momento poderá comprometer sua qualidade, pois isto irá impactar na durabilidade e segurança das obras.
O consumidor final, normalmente, desconhece o concreto aplicado na obra. Muitas vezes lhe interessa mais a marca do porcelanato. As construtoras que se valem desta desinformação para “economizar” no concreto correm quais riscos?
Diz o ditado que “quem vê cara, não vê coração”. Não adianta, simplesmente, maquiar um problema. Atualmente, temos leis severas que protegem o consumidor final contra vícios construtivos. Existem normas técnicas, como a Norma de Desempenho das Edificações, que especificam os critérios mínimos de qualidade de todo o sistema construtivo, inclusive com relação à estrutura, ou seja, o consumidor final pode até não dar a devida importância à qualidade do concreto num primeiro momento - até porque pode ser leigo neste assunto -, mas seus direitos estão amplamente resguardados pela legislação brasileira e, em casos de sinistros, as construtoras que não prezam pela qualidade do concreto, dentre outros, serão penalizadas.
Os setores ligados à qualidade do concreto, assim como entidades de classe, não deveriam tentar chegar ao consumidor final para que ele ficasse informado sobre a importância de um concreto de qualidade na obra que ele está comprando?
Infelizmente, se dá valor à qualidade do concreto somente após algum tipo de acidente ou sinistro. Existem poucas iniciativas no sentido de se levar estas informações ao consumidor final. No máximo, buscam conscientizar os membros da comunidade técnica sobre a importância do assunto.
Equipamentos descalibrados, adição indevida de água, excesso de ar aprisionado no concreto e falta de manutenção da betoneira estão entre alguns dos problemas que resultam na má qualidade do concreto ou há outros?
Como disse anteriormente, a qualidade do concreto abrange toda uma cadeia construtiva, cada componente com suas variáveis e responsabilidades. A principal causa, para mim, é a substituição de valores, ou seja, enquanto critérios econômicos e políticos forem mais importantes do que os técnicos, vamos continuar com este cenário de descrença na construção civil. Além disso, como a mão de obra está cada dia pior, não existe uma cobrança e valorização pela qualidade. Aceita-se de tudo, desde que seja viável economicamente, o que é um grande erro.
O bom momento da construção civil, entre 2008 e 2012, fez com que muitas concreteiras entrassem no mercado, algumas sem o devido conhecimento técnico. Por que esse tipo de empresa prolifera?
Porque a fiscalização é deficiente e os principais clientes, as construtoras, preocupam-se, principalmente, com o preço do concreto. Como essas concreteiras atuam de forma temporária, muito delas já fecharam, elas entram no mercado com produtos e serviços de baixo custo e qualidade discutível apenas para aproveitar o momento de euforia da construção. Elas utilizam os inúmeros programas de crédito para aquisição de equipamentos, com condições de financiamento extremamente vantajosas, e contratam engenheiros de aluguel como responsáveis técnicos para atuar no mercado. Ou seja, o cenário é bastante favorável à criação deste tipo de empresa. As construtoras deveriam visitar as instalações da concreteira para verificar as condições de preparo e fornecimento do concreto, e não, somente, valorizar o preço.
Muitos construtores tentam economizar no custo do concreto para investir no acabamento, que é o que acaba impressionando o consumidor final. A que tipos de patologias uma obra deste tipo está sujeita?
Imagine um concreto aparente de qualidade duvidosa e aplicado nos pavimentos de garagem, onde temos maior concentração de gás carbônico. Com o tempo, vamos ter a carbonatação do concreto que, aliada à umidade presente no ar, provoca a corrosão das armaduras e, consequentemente, a redução da durabilidade da estrutura. Caso não sejam feitas as manutenções preventivas e corretivas, podemos ter o colapso desta estrutura. Outro cenário: um concreto com baixo módulo de elasticidade aplicado numa viga que vence um grande vão, sobre uma alvenaria, no interior de um apartamento. Devido à fluência do concreto (deformação lenta causada por carregamento permanente) haverá o esmagamento desta alvenaria que, por ser rígida, sofrerá tensões que provocarão trincas ou, em casos mais graves, rupturas. Estas são algumas manifestações patológicas que podemos ter em nossas edificações, devido à má qualidade do concreto, e que, infelizmente, são muito comuns e graves.
O setor da construção civil é um dos mais normatizados. Mesmo assim, ainda há muitas obras sem controle de qualidade. Por que isso?
Porque não existe fiscalização quanto ao cumprimento desta normatização. Além disso, a desinformação é muito grande e a qualidade tem um preço que não é valorizado. Mesmo com um bom número de normas técnicas, elas não são devidamente estudadas nas universidades e divulgadas na comunidade. Inúmeras construtoras acham que controle de qualidade do concreto significa ensaiar alguns corpos de prova. Executam estes ensaios apenas para desencargo de consciência e não como critério de garantia de desempenho. Existem procedimentos construtivos que ficam apenas no papel. Muita teoria e pouca prática, infelizmente.
Pequenos construtores ainda optam por produzir o concreto na própria obra, abdicando de contratar uma concreteira. Isso barateia ou encarece os custos?
Não só em pequenas construtoras, mas isso é realidade também em construtoras de médio e grande portes, principalmente onde se tem pequenos volumes de concreto, como, por exemplo, nas concretagens de pilares. Estas peças, os pilares, são as que mais necessitam de um concreto de boa qualidade devido sua característica de resistência à compressão. Na grande maioria das vezes, um concreto virado em obra não possui um controle de qualidade eficiente e, para tanto, aplica-se uma dosagem conservadora de concreto, com maior consumo de cimento, resultando num concreto mais caro. Levando-se em consideração os aspectos de produtividade nas concretagens, custo com materiais, mão de obra e equipamentos destinados à produção do concreto, aliados à garantia de qualidade e responsabilidade, acredito que não seja viável, nos dias de hoje, a produção de concreto na própria obra. No caso de pequenos volumes, como o supracitado, é uma questão de negociação com a concreteira e planejamento no método construtivo.
O projetista é decisivo no controle de qualidade do concreto aplicado em uma obra?
Sim, dentro de suas atribuições e responsabilidades. Um bom projeto deve conter todas as especificações técnicas do concreto e que foram levadas em consideração no momento da concepção estrutural da edificação. Além disso, como em casos de não-conformidade no desempenho do concreto, compete ao projetista estrutural a análise e elaboração de procedimentos e projetos corretivos. Este profissional torna-se referência na indicação das melhores empresas para fornecimento e controle de qualidade do concreto.
Entrevistado
Engenheiro civil Flávio Renato Pereira Capuruço, especialista em Estruturas pela UFMG, especialista em tecnologia dos materiais pela ABCP e associado da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).
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