Pré-fabricado avança em obras de infraestrutura

Consolidada em shopping centers, centros de logística e arenas esportivas, industrialização agora busca rodovias, ferrovias e aeroportos

Por: Altair Santos

A construção industrializada já domina setores como o de shopping centers, centros de logística e de arenas esportivas – as obras para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016 estão aí para comprovar. Também avança no segmento habitacional. Porém, há uma nova fronteira em que pretende se consolidar: a infraestrutura rodoviária, ferroviária, aeroportuária e de mobilidade urbana. Para isso, ela aprimora ainda mais seus procedimentos de qualidade, tanto para pré-fabricados quanto para pré-moldados.

Complexo viário no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro: projeto previa obra convencional, mas só foi viabilizado através da construção industrializada
Complexo viário no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro: projeto previa obra convencional, mas só foi viabilizado através da construção industrializada

Segundo a presidente-executiva da Abcic (Associação Brasileira da Construção Industrializada do Concreto), Íria Doniak, para atingir o nível de excelência que as obras de infraestrutura exigem, a construção industrializada persegue os 5M: Mão de obra qualificada, Métodos acreditados, Meio ambiente como prioridade, Máquinas com alta tecnologia e Materiais de qualidade. Some-se a isso o respeito irrestrito às sete normas técnicas com que está diretamente relacionada:

- ABNT NBR 9062:2006 – Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado – Procedimento (em revisão e consulta nacional)
- ABNT NBR 6118:2014 – Projeto de estruturas de concreto – Procedimentos
- ABNT NBR 12655:2006 – Concreto – Preparo, controle e recebimento – Procedimento
- ABNT NBR 14931:2003 – Execução de estruturas de concreto – Procedimentos
- ABNT NBR 14861:2011 - Lajes Alveolares pré-moldadas de concreto protendido (norma entrará em consulta nacional ainda em 2015)
- ABNT NBR 15146:2011 - Controle Tecnológico do Concreto - Qualificação de Pessoal (parte 3)
- ABNT NBR 16258:2014 - Estacas pré-fabricadas de Concreto

Aeroporto de Brasília: obras de ampliação consumiram volume de concreto na ordem de 7.318 m³
Aeroporto de Brasília: obras de ampliação consumiram volume de concreto na ordem de 7.318 m³

A dirigente da Abcic palestrou no seminário “Infraestrutura em concreto: aplicações inovadoras e desafiadoras”, apresentado no Concrete Congress – evento paralelo ao 9º Concrete Show, que aconteceu na cidade de São Paulo de 26 a 28 de agosto. Segundo ela, independentemente do modelo adotado, se pré-fabricado ou pré-moldado, as peças empregadas em obras de infraestrutura devem perseguir a perfeição. “Por exemplo, para que uma indústria seja considerada como tal deve apresentar no máximo um desvio padrão de 3,5 MPa para concretos fluídos e 4,0 MPa para concretos de abatimentos baixos ”, diz.

Com base neste padrão de qualidade, e nas consequências que ele gera, como redução de custos de manutenção e durabilidade diferenciada, a construção industrializada foi a escolhida, por exemplo, para viabilizar a ampliação do aeroporto de Brasília. A obra envolveu uma área construída de 50.405 m² e volume de concreto na ordem de 7.318 m³. Também foi a opção que viabilizou o terminal de ônibus São Gabriel, em Belo Horizonte - MG, além do complexo viário do Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, e da estação Pinheiros da linha 4 do metrô paulistano.

Em todos os casos, Íria Doniak lembra que planejamento na construção industrializada é essencial. “Não dá para deixar que as definições ocorram no canteiro de obras. Canteiro é para montagem. O papel da indústria de pré-fabricados é fornecer soluções de engenharia que permitam a execução dos empreendimentos. Para isso, é preciso analisar a condição do terreno, a logística, enfim, todo o estudo de viabilidade para saber se a obra pode ou não receber a construção industrializada”, alerta.

Íria Doniak, no Concrete Show 2015: papel da indústria de pré-fabricados é fornecer soluções de engenharia
Íria Doniak, no Concrete Show 2015: papel da indústria de pré-fabricados é fornecer soluções de engenharia

Confira aqui o conteúdo do seminário “Infraestrutura em concreto: aplicações inovadoras e desafiadoras”.

Entrevistada
Engenheira civil Íria Lícia Oliva Doniak, presidente-executiva da ABCIC (Associação Brasileira da Construção Industrializada do Concreto)
Contato: abcic@abcic.org.br

Créditos fotos: Divulgação/Abcic/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Minha Casa Minha Vida põe sustentabilidade à prova

Programa habitacional enfrenta dilemas e desafios. Não só do ponto de vista de viabilização de recursos como de incorporação de novas tecnologias

Por: Altair Santos

Produzir em escala industrial, mas com qualidade, é a saída para que o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) compense a escassez de recursos gerada por ajustes fiscais e orçamento deficitário em 2016. Mas como atingir essa meta, se o MCMV, em seis anos, avançou pouco sob o ponto de vista de sistemas construtivos inovadores? A rigor, só as construções com paredes de concreto surgiram como alternativa à alvenaria estrutural, que predomina na maioria das obras desde 2009.

 Condomínio do Minha Casa Minha Vida no interior de São Paulo: um dos desafios do programa é aumentar a produtividade sem perder a qualidade

Condomínio do Minha Casa Minha Vida no interior de São Paulo: um dos desafios do programa é aumentar a produtividade sem perder a qualidade

Porém, agora, o Minha Casa Minha Vida não tem como adiar o desafio tecnológico. Principalmente, porque o Ministério das Cidades, que é quem faz a gestão do programa, passa a exigir que todos os projetos do MCMV cumpram a ABNT NBR 15575 – Norma de Desempenho. Em tese, o novo procedimento tende a encarecer o custo das unidades. Mas é aí que reside o principal dilema do Minha Casa Minha Vida: melhorar a qualidade da construção, sem elevar o preço da obra. Pelo contrário, o ideal é que os custos diminuam.

Para construir mais com menos - e com mais qualidade -, construtoras, fabricantes, prefeituras, Cohabs, governos estaduais, centros tecnológicos e universidades foram convocados para criar uma sinergia que permita ao MCMV implantar a Norma de Desempenho 15575 sem perder o foco na habitação de interesse social. Uma solução apontada é compartilhar, via portal do ministério das Cidades, os melhores modelos construtivos regionais.

Por exemplo: supondo que nas regiões sul e sudeste determinada construtora inscrita no MCMV viabilize uma parede de vedação com ótimo desempenho termoacústico, mas a preço competitivo, esse subsistema é submetido a ensaios laboratoriais e, caso aprovado, passa a ser compartilhado como uma construção-referência. Assim, os demais construtores inscritos no programa, e que queiram utilizar o mesmo sistema construtivo, podem copiar o método aplicado na obra.

Maria Salette Weber, coordenadora do PBQP-H: é preciso sinergia entre construtoras, prefeituras, Cohabs, governos federal e estadual, universidades e áreas de pesquisa
Maria Salette Weber, coordenadora do PBQP-H: é preciso sinergia entre construtoras, prefeituras, Cohabs, governos federal e estadual, universidades e áreas de pesquisa

Requisitos mínimos
O objetivo é que os projetos atendam requisitos mínimos, no que diz respeito a critérios como pé direito, paredes internas, segurança, acessibilidade, estanqueidade, durabilidade, sustentabilidade e desempenho termoacústico. É o que ficou claro na recente palestra da arquiteta Maria Salette Weber, coordenadora geral do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) – organismo subordinado ao ministério das Cidades.

Ela esteve no seminário “Alvenaria Estrutural do Programa Minha Casa Minha Vida”, que aconteceu no Concrete Congress - evento integrado ao 9º Concrete Show, realizado na cidade de São Paulo de 26 a 28 de agosto. “Todos os materiais e componentes utilizados na construção de moradias populares precisarão atender aos requisitos estabelecidos pela norma. O papel do PBQP-H é justamente auxiliar as construtoras e seus fornecedores a entender como atender estes requisitos”, explica Maria Salette Weber.

A coordenadora do PBQP-H admite, porém, que para atingir essa uniformidade é preciso investir em centros tecnológicos pelo país, a fim de que possam ser realizados os ensaios dos sistemas construtivos. “É preciso fazer um mea culpa por não termos avançado como deveríamos nesta área (oferta de centros tecnológicos), mas o Minha Casa Minha Vida avança no sentido de melhoria das construções. Em 2009, quando foi lançado, o programa tinha duas diretrizes técnicas e agora tem dez. Já os documentos técnicos de avaliação por empresa (DATec), que era um, agora são vinte e um”, afirmou.

Entrevistada
Arquiteta Maria Salette de Carvalho Weber, coordenadora-geral do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP_H) da Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades.
Contato: salette.weber@cidades.gov.br

Créditos fotos: Adriana Machado/EBC/Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Jundiaí transforma resíduos em praças e calçadas

Cidade do interior de São Paulo assume reciclagem de entulhos da construção civil, transformando-os em agregados para fabricar artefatos de cimento

Por: Altair Santos

Em 2013, a prefeitura de Jundiaí, no interior do estado de São Paulo, se confrontou com grave problema orçamentário: descobriu que apenas 2% de tudo que arrecadava poderia ser destinado aos investimentos, incluindo obras públicas. Porém, as demandas da população, no que se referia à construção de calçadas, pavimentação de ruas, tubulações para saneamento básico e revitalização de espaços públicos, não podiam esperar. Foi aí que surgiu a ideia de transformar resíduos da construção civil (RCC) em dinheiro.

Gilberto Valverde Carneiro: é preciso mostrar que é possível transformar resíduo em dinheiro
Gilberto Valverde Carneiro: é preciso mostrar que é possível transformar resíduo em dinheiro

No distrito industrial de Jundiaí foi construído o Geresol (Centro de Gerenciamento de Resíduos Sólidos) - usina mantida pela própria prefeitura, que recebe o RCC, separa os agregados e os utiliza no concreto para produzir peças pré-fabricadas de cimento para fins não estruturais, como pavers, meios-fios e manilhas. Em dois anos, o Geresol já recebeu 700 mil m³ de RCC e extraiu 300 mil toneladas de material reciclado. Isso gerou economia de R$ 13 milhões ao município, que passou a não comprar mais produtos virgens, principalmente areia e brita.

Junto com o Geresol, a prefeitura de Jundiaí implantou um rigoroso sistema de fiscalização do transporte de caçambas e dos geradores de resíduos da construção civil, que passam de 40 mil na cidade. Quanto às empresas que atuam no município, transportando caçambas, elas passam de 250. Os caminhões só podem circular se estiverem cadastrados na prefeitura. Quando isso ocorre, eles passam a ser monitorados por GPS. Para fiscalizar o transporte ilegal, o rastreamento é feito por 25 fiscais.

Brasil só recicla 6% do RCC
O funcionamento do modelo foi apresentado pelo diretor de obra, manutenção e resíduos da Secretaria de Serviços Públicos de Jundiaí, o engenheiro Gilberto Valverde Carneiro, durante a 9ª edição do Concrete Show, que aconteceu de 26 a 28 de agosto na cidade de São Paulo. “Só conseguimos viabilizar o projeto quando mostramos que ele poderia ser superavitário e gerar dinheiro para o município. Essa é a lógica que deve prevalecer para uma política de reaproveitamento de resíduos da construção”, disse, durante o seminário “Resíduos da Construção Civil – Avanços Obtidos nos 13 Anos da Resolução Conama 307”, realizado pelo SindusCon-SP, dentro do Concrete Congress.

Geresol: local onde resíduos de Jundiaí são reciclados recebe visitas diárias de profissionais ligados à construção civil
Geresol: local onde resíduos de Jundiaí são reciclados recebe visitas diárias de profissionais ligados à construção civil

Jundiaí também criou um sistema informatizado chamado CTR (Controle de Transporte de Resíduos). As empresas cadastradas informam onde vão coletar os resíduos, o horário e qual o trajeto a ser percorrido para a descarga no Geresol. O motorista da caçamba também é treinado para orientar o cidadão comum, que contrata a caçamba, a não jogar lixo orgânico ou outros materiais que não sejam entulhos da construção civil. Caso isso ocorra, o contratante da caçamba também está sujeito a receber multa.

O modelo de Jundiaí inspira outros municípios do estado de São Paulo a adotar procedimentos semelhantes. O governo paulista pretende disseminá-lo através de um programa batizado de SIGOR (Sistema de Gerenciamento Online de Resíduos Sólidos). Assis, Catanduva, Santos, São Vicente e Santo André iniciaram tratativas para implantar o programa. Já a prefeitura da cidade de São Paulo também trabalha para implantar um sistema semelhante, enquanto o SindusCon-SP atua paralelamente, prestando orientação técnica e disseminando as práticas de uso de resíduos recicláveis através de um manual criado por especialistas. O objetivo também é sensibilizar outros estados, pois no país apenas 6% dos resíduos da construção civil são coletados, armazenados e reciclados corretamente.

Veja vídeo de como funciona o programa de destinação de RCC em Jundiaí-SP

Baixe aqui o manual “Gestão Ambiental de Resíduos da Construção Civil – Avanços Institucionais e Melhorias Técnicas”.

Entrevistado
Gilberto Valverde Carneiro, graduado em engenharia civil, industrial e de segurança. Atualmente, é diretor de obra, manutenção e resíduos da Secretaria de Serviços Públicos de Jundiaí-SP
Contatos
gcarneiro@jundiai.sp.gov.br
g.valverde@uol.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cia. Cimento Itambé/Prefeitura de Jundiaí/Cleber de Almeida

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Parede de EPS recoberta por concreto: tecnologia evolui

Com bom desempenho termoacústico, sistema construtivo agora atende projetos mais sofisticados, principalmente de casas em condomínios fechados

Por: Altair Santos

A tecnologia de paredes com EPS, popularmente conhecido como Isopor®, começou a ser usada há 30 anos. No Brasil, fez parte de projetos financiados pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), mas poucas unidades foram erguidas no país. Agora, com os avanços tecnológicos, o sistema construtivo volta ao mercado. Desta vez, não para atender habitações de interesse social, mas projetos sofisticados que buscam certificação sustentável.

EPS é envolvido por uma estrutura de aço e depois revestido com concreto
EPS é envolvido por uma estrutura de aço e depois revestido com concreto

Na região de Campinas-SP, condomínios de luxo têm usado a tecnologia para construir casas que consomem um volume de água até 50% menor no canteiro de obras, sem contar com a redução quase a zero de resíduos sólidos. Outra característica do sistema é a performance termoacústica, o que ajuda as obras a cumprirem requisitos das Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575).

Nos Estados Unidos, onde foi criada, a tecnologia que usa painéis de argamassa armada com miolo de Poliestireno Expandido (EPS), envolto por malha de aço galvanizado, é conhecida pela sigla SCIP (Structural Concrete Insulated Panel. Além do conhecido desempenho termoacústico, o sistema tem propriedades antifúngicas e resistência de até 40 toneladas por metro linear, sem requerer a utilização de vigas e pilares. “Isso o torna eficaz tanto para paredes de vedação quanto para paredes estruturais”, assegura a engenheira civil Lourdes Cristina D. Printes, da LCP Engenharia&Construções, que detém a exclusividade da tecnologia no Brasil, e que foi exposta no Greenbuilding Brasil 2015.

Potencial termoacústico valorizou sistema construtivo após criação da Norma de Desempenho
Potencial termoacústico valorizou sistema construtivo após criação da Norma de Desempenho

Certificação sustentável

As casas, normalmente de dois pavimentos, são montadas sobre um radier de concreto armado. As instalações elétricas e hidráulicas da obra são colocadas entre a malha de aço e o isopor, dispensando quebrar a parede. Em caso de reforma, os recortes podem ser feitos com uma serra elétrica. No Brasil, a LCP Engenharia&Construções treina mão de obra quando precisa construir fora do estado de São Paulo.

A construtora assegura que uma casa com 100 m² pode ser entregue para morar no prazo de duas semanas. Comparativamente a uma obra em alvenaria convencional, o custo do sistema, em média, é 20% mais barato. “Outra vantagem é que a aplicação de revestimento sobre as paredes dispensa reboco, podendo ser assentada diretamente na argamassa armada”, explica Lourdes Cristina D. Printes.

Desde 2007, o sistema tem a certificação LEED for Homes, nos Estados Unidos. Os números atualizados mostram que 140 mil casas já foram construídas usando a tecnologia – a maioria nos Estados Unidos e no Canadá. Deste total, 65% têm certificação sustentável. Para obter a LEED for Homes, que é exclusiva para casas, a habitação precisa reduzir consumo de energia em mais de 40%, de água em 12%, de emissões de CO2 em 39% e de geração de resíduos em 65%.

Parede se comporta bem tanto para vedação quanto para suportar estruturas
Parede se comporta bem tanto para vedação quanto para suportar estruturas

Entrevistada
Engenheira civil Lourdes Cristina D. Printes, diretora técnica da LCP Engenharia&Construção
Contato: lourdes.printes@lcpconstrucoes.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Sustentabilidade vira aliada da Norma de Desempenho

Além de exigir o cumprimento da ABNT NBR 15575, certificações de prédios verdes também ajudam a solucionar dúvidas de construtores

Por: Altair Santos

Em vigor há dois anos, a Norma de Desempenho ainda enfrenta resistência, mas também já conta com aliados no ambiente da construção civil. Entre eles, as certificações sustentáveis. Além de reforçar a necessidade de a ABNT NBR 15575 ser executada, pois atrelam a concessão da certificação ao cumprimento da norma, os selos verdes também ajudam a melhorar itens da NBR 15575. Sobretudo nos quesitos relacionados a desempenho térmico e lumínico, como revelam as arquitetas Márcia Menezes e Tássia Marques, que atuam no Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

Márcia Menezes: cumprimento da Norma de Desempenho é exigido para todas as certificações sustentáveis
Márcia Menezes: cumprimento da Norma de Desempenho é exigido para todas as certificações sustentáveis

Para mostrar a existência de vários pontos em comum entre a Norma de Desempenho e as certificações sustentáveis, as profissionais palestraram no Greenbuilding Brasil 2015, que aconteceu na cidade de São Paulo entre 11 e 13 de agosto. Basicamente, explicou Márcia Menezes, a única diferença entre as certificações sustentáveis e a Norma de Desempenho é que os selos verdes são opcionais e a ABNT NBR 15575 é obrigatória para a construção de edificações habitacionais e comerciais. “Dos catorze pontos fundamentais de uma construção, sob o ponto de vista do usuário, em doze a norma e as certificações coincidem”, diz a diretora da Unidade de Inovação & Tecnologia do CTE.

Estes pontos referem-se a desempenho térmico, conforto acústico, desempenho lumínico, durabilidade, segurança, entorno do prédio, gestão de resíduos, usabilidade, conservação e manutenção, qualidade sanitária, projeto e mão de obra qualificada. “A Norma de Desempenho faz um ordenamento destes itens e das normas específicas que tratam deles em uma construção. Isso elimina o risco de experimentos na obra. Qualquer sistema (construtivo) ou produto, de acordo com o que determina a NBR 15575, terá de comprovar que passou por ensaios para ser aceito no canteiro de obras”, completa Márcia Menezes.

Tássia Marques: certificações ajudam a aprimorar a ABNT NBR 15575
Tássia Marques: certificações ajudam a aprimorar a ABNT NBR 15575

Sombras e insolação

Norma de Desempenho e certificações para construções verdes estão intrinsecamente ligadas pelas três grandes categorias de que elas tratam: segurança, habitabilidade e sustentabilidade. No entanto, selos como LEED e Aqua têm elementos que ajudam a aprimorar a ABNT NBR 15575, principalmente nos pontos relacionados a desempenho térmico e lumínico. De que forma? Com base na certificação Aqua, a arquiteta Tássia Marques mostrou estudo realizado pelo CTE, que simulou várias situações de sombreamento, insolação e ventilação, comparando-as com o que pede a norma.

Em síntese, a Norma de Desempenho é pouco descritiva em relação às regiões bioclimáticas do Brasil quando cobra desempenho térmico e lumínico. Para compensar essa fragilidade, a melhor solução é adotar parâmetros estabelecidos nas certificações sustentáveis. Cada região tem pontos cardeais com maior ou menor eficácia em relação a sombreamento e insolação. Em Curitiba, como exemplo, as habitações voltadas para o sudoeste são as que menos recebem a incidência da luz solar, independentemente da estação do ano. Assim é também com outras cidades, o que obrigaria a Norma de Desempenho ser mais abrangente ao tratar das questões térmicas e lumínicas em cada bioclima do país.

Entrevistadas
Arquiteta Márcia Menezes, diretora da unidade de Inovação & Tecnologia do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE)
Arquiteta Tássia Marques, consultora de eficiência energética do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE)

Contatos
marciame@cte.com.br
comunicação@cte.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Gestão sustentável viabiliza produtividade na obra

Empreendimentos que buscam certificações green buildings trazem atrelados aos seus projetos fundamentos da construção industrializada

Por: Altair Santos

Um bom caminho para conseguir melhorar a produtividade no canteiro de obras é aderir a certificações sustentáveis. Os conceitos para quem busca o selo de “prédio verde” para um empreendimento já trazem atrelados processos que melhoram o desempenho da obra. Entre eles, baixa geração de resíduos, o uso da logística para minimizar desperdícios, emprego de mão de obra mais especializada, e em menor número, e o uso de sistemas construtivos industrializados.

Daniel Ohnuma, no Greenbuilding Brasil 2015: o plano de negócio das edificações comerciais exige certificação sustentável
Daniel Ohnuma, no Greenbuilding Brasil 2015: o plano de negócio das edificações comerciais exige certificação sustentável

Quem aponta os pontos em comum entre gestão sustentável e produtividade na obra é o engenheiro civil Daniel Ohnuma, gerente de consultoria em sustentabilidade do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), e que no dia 13 de agosto palestrou no Greenbuilding Brasil 2015, com o tema “Canteiros de obras: reduzindo o custo do m² com a sustentabilidade”. “Obras que buscam mais produtividade buscam industrialização do canteiro de obras. Isso coincide com a gestão sustentável, que também prega uso menor de mão de obra, menor geração de resíduos e uso da logística para reduzir o desperdício, entre outros requisitos”, destaca.

Daniel Ohnuma garante que esses preceitos já são praticamente obrigatórios, sob o ponto de vista do business, para quem se propõe a construir empreendimentos comerciais. “O discurso romântico da sustentabilidade ficou para trás. Agora, é negócio. Principalmente, para empreendimentos comerciais. Sem green building, o prédio não é competitivo e vai ter dificuldade para vender uma laje. Diante deste novo cenário, cai também a tese de que obras sustentáveis são caras. A economia com água e energia para operar esses edifícios faz com que eles se paguem muito rapidamente”, diz.

Projeção de como será o Parque da Cidade: bairro verde em plena cidade de São Paulo
Projeção de como será o Parque da Cidade: bairro verde em plena cidade de São Paulo

Incentivo das cidades

O próprio poder público passou a ser um ator importante na disseminação de empreendimentos sustentáveis, cujas obras consolidam avanços na produtividade. As cidades do Rio de Janeiro-RJ, Guarulhos-SP e Belo Horizonte-MG, por exemplo, têm hoje suas próprias certificações. Obviamente, elas se baseiam em conceitos já consolidados nas plataformas LEED e Aqua, mas são importantes para multiplicar a gestão de obra sustentável. Além disso, oferecem vantagens a quem adere às certificações. Entre elas, descontos em registros de projetos nas prefeituras e abatimento no IPTU.

Independentemente do município em que se constrói a obra, é do interesse dos empreendedores aderirem à gestão sustentável. Atualmente, um bom exemplo deste tipo de construção está às margens da Marginal Pinheiros, na cidade de São Paulo, sob a responsabilidade da construtora Odebrecht. Trata-se do Parque da Cidade – um bairro verde incrustado na maior cidade do país -, que persegue conceitos de “prédio verde”, com ganhos de produtividade. O mix de edificações comerciais e residenciais aposta em sistemas construtivos mistos de aço com elementos pré-fabricados de concreto, além de banheiros prontos que se encaixam na obra e paredes de vedação em drywall. “Esse é o padrão de obras que veremos cada vez mais no país”, avalia Daniel Ohnuma.

Canteiro de obras do Parque da Cidade: previsão de entrega para 2018
Canteiro de obras do Parque da Cidade: previsão de entrega para 2018

Entrevistado
Mestre em engenharia civil Daniel Ohnuma, gerente de consultoria em sustentabilidade do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações)
Contato: daniel@cte.com.br

Créditos fotos: Divulgação/Cia. Cimento Itambé/Odebrechet

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Espelhos d’água ajudam indústrias a poupar energia

Empresas investem em projetos que priorizam ventilação natural, energia solar, luz ambiente, telhado verde e reúso da água

Por: Altair Santos

Os escritórios de arquitetura passaram a ser desafiados pelas indústrias para desenvolver projetos que permitam a elas economizar energia elétrica e diminuir o consumo de água. Uma solução eficiente tem sido envolver os prédios por espelhos d’água. Estruturas de concreto com lâminas de água, variando entre 30 a 80 centímetros de profundidade, ajudam a minimizar a temperatura externa no entorno da instalação, o que faz com que ela poupe o uso de ar condicionado.

Datacenter do Banco Santander, em Campinas-SP: projeto investiu também no concreto aparente para ganhar luminosidade
Datacenter do Banco Santander, em Campinas-SP: projeto investiu também no concreto aparente para ganhar luminosidade

Além disso, a água armazenada pela estrutura é utilizada para fins não potáveis, como a rega de plantas ou descargas em banheiros. Outra função do tanque é armazenar água para uso no combate ao fogo. Os espelhos d’agua cumprem ainda uma função estética, dando às fábricas um novo visual arquitetônico, tirando delas o ar de enclausuramento. “Pensamos que fábricas podem ter arquitetura de alta qualidade”, diz Roberto Loeb, cujo escritório é especializado nesse tipo de obra.

O arquiteto expôs cases na palestra “Arquitetura e Sustentabilidade – uma responsabilidade compartilhada”, durante o Greenbuilding Brasil 2015, realizado de 11 a 13 de agosto, na cidade de São Paulo. Plantas como a do centro de distribuição da Avon, na cidade de Cabreúva-SP; da fábrica de tintas especiais SICPA, em Santa Cruz-RJ; do datacenter do Banco Santander, em Campinas-SP, e da unidade da indústria alimentícia Danone, em Poços de Caldas-MG, têm em comum o espelho d’água.

“Fábricas verdes”

Roberto Loeb: projetos rompem paradigmas, ainda que às custas de muitas reuniões
Roberto Loeb: projetos rompem paradigmas, ainda que às custas de muitas reuniões

Roberto Loeb explica que esse tipo de projeto requer quebrar paradigmas e vencer a burocracia. “A princípio, demanda muitas negociações, mas elas resultam em melhorias no projeto. Sob o aspecto burocrático e sanitário, é preciso mostrar aos organismos de fiscalização que não estamos criando um fosso de água parada que irá disseminar doenças”, revela.

Os espelhos d’agua são abastecidos de duas formas: por poços artesianos ou por captação de água da chuva. Os projetos arquitetônicos mostrados por Roberto Loeb, em palestra no Greenbuilding Brasil, possuem bombas instaladas nos tanques, as quais permitem que a água circule. Isso não só tem a função de impedir que ela sirva de criadouro como a mantém a uma temperatura ideal para que cumpra a função de refrescar o ar no entorno das unidades.

Todos os projetos mostrados por Loeb foram construídos em regiões do país em que a temperatura média anual é de 25ºC. São plantas que exploram, além dos espelhos d’água, o concreto aparente e os elementos vazados de pré-fabricados de concreto, conhecidos como cobogós. Não são, portanto, para regiões frias. Da mesma forma, todas as edificações contam com certificação LEED e passaram por simulações de desempenho energético e de iluminação para ganharem o selo de “fábricas verdes”.

Os testes comprovaram economia anual de consumo de energia entre 20% e 35%, dependendo da estação do ano. Mas o maior ativo se deu no aumento da produtividade dos colaboradores. O ambiente gerou qualidade de vida no trabalho, reduzindo o afastamento por doença, principalmente as relacionadas aos sintomas alérgicos.

Entrevistado
Arquiteto Roberto Loeb, sócio do escritório de arquitetura LoebCapote Arquitetura e Urbanismo Twitter:

Contatos
loebcapote@loebcapote.com
Facebook: loebcapotearquiteturaeurbanismo
www.loebcapote.com


Créditos fotos: Divulgação/LoebCapote/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Para construção sustentável, Brasil é primeiro mundo

Conferência internacional Greenbuilding, realizada em São Paulo, mostra que país é hoje o 5º colocado em emissão de certificações de prédios verdes

Por: Altair Santos

Se há um setor em que o Brasil avança, esse é o da construção sustentável. Não apenas por que, entre 11 e 13 agosto, na cidade de São Paulo, sediou com sucesso a conferência internacional Greenbuilding 2015, mas pelo fato de ocupar o topo da lista de nações que mais aplicam conceitos de sustentabilidade em obras. “O Brasil alcançou a maturidade no segmento da construção sustentável. O país atingiu o patamar de potência nesta área”, define Felipe Faria, diretor-gerente do Greenbuilding Council Brasil.

Abertura do GreenBuilding Brasil 2015: evento desperta cada vez mais interesse na cadeia produtiva da construção civil
Abertura do GreenBuilding Brasil 2015: evento desperta cada vez mais interesse na cadeia produtiva da construção civil

Enquanto a construção civil tradicional prevê queda de 8% em 2015, a sustentável projeta crescer 5% este ano, em comparação com 2014. Atualmente, há 235 obras de prédios verdes – construídas ou em processo de construção – funcionando com a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design [Liderança em Energia e Design Ambiental]) no país. Existem outras 760 em processo de certificação. Se contabilizados os outros selos de construção sustentável que operam no Brasil, passam de dois mil os empreendimentos que perseguem conceitos que minimizam geração de resíduos e economizam energia e água.

Vê-se na construção sustentável uma agenda positiva para o país, pois o tema consegue unir setores públicos e privados. “Observamos que estamos em um crescente processo de conscientização do mercado, do governo e da sociedade em relação aos conceitos de sustentabilidade”, avalia Felipe Faria. Isso reflete na diversidade de obras que buscam certificações. São prédios habitacionais, comerciais, plantas industriais, centros de logística, data centers, lojas de varejo, instalações esportivas, museus, edifícios públicos, instituições de ensino, bibliotecas e agências bancárias se credenciando ao selo de “prédio verde”.

EUA lideram construção sustentável
Felipe Faria entende que uma das saídas para a crise econômica pela qual o Brasil passa atualmente está na construção sustentável. “Não tenho dúvida de que um milagre econômico verde está próximo de nosso alcance”, diz. O que o motiva a pensar assim é a quantidade de empresas que aderem aos conceitos de sustentabilidade. Praticamente todos os segmentos da cadeia produtiva da construção civil já entenderam que ter produtos ecologicamente corretos faz bem aos seus negócios. Trata-se de um processo que nos Estados Unidos, por exemplo, já predomina o mercado - país onde os conceitos de construção sustentável foram criados.

No mundo, diariamente 172 mil m² de área construída requerem certificações de obra sustentável. São 146.300 empreendimentos certificados em 150 países. Os Estados Unidos têm 53.908 construções com o selo greenbuilding. O Brasil é top 5 neste ranking, atrás de EUA, Canadá, China e Índia. “O movimento da construção sustentável é um caminho sem volta em todo o mundo”, ressalta Rick Fedrizzi, CEO e presidente-fundador da USGBC (Greenbuilding Council dos Estados Unidos), que participou da abertura do evento internacional que aconteceu recentemente no Brasil.

Entrevistado
Felipe Faria, advogado e diretor manager da Green Building Council Brasil.
Contato: ffaria@gbcbrasil.org.br

Crédito foto: Divulgação/GBC Brasil

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Blocos celulares de concreto substituem drywall

Agora no Brasil, tecnologia desenvolvida na Rússia permite que elementos sejam utilizados como estruturas de vedação e em paredes corta-fogo

Por: Altair Santos

Ainda que seja uma tecnologia adotada há mais de 20 anos na Europa, a produção e o uso de blocos celulares de concreto leve ainda é insipiente no Brasil. No entanto, know-how desenvolvido na Rússia começa a mudar esse viés. Através dele, produtos com adição de Poliestireno Expandido (EPS) reciclável se mostram competitivos para paredes de vedação, sendo capazes de substituir o drywall com melhor eficiência termoacústica. Os blocos, que medem 30 cm x 60 cm x 15 cm (altura, comprimento e largura), são adequados, além do fechamento de paredes, para escadas de incêndio e divisórias.

Fabricação dos blocos leva em conta a sustentabilidade ao usar EPS reciclado e água da chuva
Fabricação dos blocos leva em conta a sustentabilidade ao usar EPS reciclado e água da chuva

A vantagem para as paredes de gesso acartonado está na durabilidade, na impermeabilidade e na resistência a cargas extras, não oferecendo nenhuma restrição à fixação de parafusos e ganchos. “O custo-benefício do bloco celular leve com EPS (popularmente conhecido como Isopor®) é muito melhor. A permeabilidade é de 5,1%, o que permite seu uso em áreas úmidas, como banheiros, cozinhas e lavanderias. A alta resistência (2,3 MPa) também é bem superior ao drywall”, explica Elton Artmann, sócio-gerente da AVS, empresa com sede em Soledade-RS, e que adquiriu a tecnologia russa para produzir os blocos com EPS reciclável no Brasil.

A fabricação do produto envolve cimento Portland, cinza volante de carvão captada nas termoelétricas da região sul e Isopor® reciclado. Para viabilizar mil blocos de concreto leve no tamanho padrão são necessários 27 m³ de concreto leve. Além disso, o processo de industrialização leva em conta conceitos de sustentabilidade, como o uso de água captada da chuva para a fabricação e para a limpeza dos equipamentos. Os resíduos dos blocos também são reutilizados. Há ainda a utilização de rejeitos de óleo de cozinha, usados para que os blocos não grudem nas formas. “A aplicação de procedimentos sustentáveis torna nosso produto ainda mais competitivo”, diz Elton Artmann.

Fábrica da AVS recebeu novos silos para armazenar cimento Portland e viabilizar a produção dos blocos
Fábrica da AVS recebeu novos silos para armazenar cimento Portland e viabilizar a produção dos blocos

Economia de 30%
Os cálculos são de que o processo de construção com bloco celular de concreto leve economiza 30% de material e de tempo para erguer as paredes. “Um metro cúbico de bloco celular com EPS pesa menos de 600 quilos e pode ser assentado com massa de fixação de tijolos. Nas paredes internas dispensa o reboco, pois a variação de espessura de um bloco para outro não ultrapassa dois milímetros, o que permite fazer o acabamento com uma massa niveladora”, revela o sócio-gerente da AVS. Segundo ele, a redução do custo final da obra onde são adotados os blocos celulares de concreto também se dá em razão da economia nas fundações, na superestrutura, nos pilares e vigas, e no chapisco e reboco. A diminuição também ocorre em relação à mão de obra.

As inovações implantadas pela AVS para fabricar os novos produtos exigiram a ativação de uma planta flexível para expandir sua produção. Foram adquiridos silos com capacidade para armazenar 98 toneladas de materiais. Um deles é carregado com cimento Portland e o outro com cinzas volantes de carvão. Em sincronia e por gravidade, ambos abastecem os equipamentos de mistura para a produção do bloco celular.

Confira vídeo sobre a fabricação de bloco celular de concreto leve.

https://youtu.be/iMi3pE8n1E0

Entrevistado
Elton Artmann, sócio-gerente da AVS
Contratoavsconcretoleve@gmail.com

Crédito foto: Divulgação/AVS

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Sem projeto de acessibilidade, obra não terá alvará

Sanção da lei 13.146, que trata do Estatuto da Pessoa com Deficiência, dá às construtoras seis meses para que elas se adaptem à nova legislação

Por: Altair Santos

A partir de 7 de janeiro de 2016, qualquer construtora que vá requerer licença municipal para iniciar uma obra terá de apresentar, junto com o projeto executivo, o projeto de acessibilidade da edificação. No caso de o empreendimento ser um edifício habitacional construído com financiamento público, precisará atender à cota de unidades térreas voltadas para portadores de deficiência, que é de 3%. A obrigatoriedade se deve à sanção da lei 13.146, que trata do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Assinado em 6 de julho, pela presidência da República, a medida passa a vigorar após seis meses da data de publicação no Diário Oficial da União.

José Romeu Ferraz Neto, presidente do SindusCon-SP: objetivo é louvável, mas momento econômico dificulta implantação
José Romeu Ferraz Neto, presidente do SindusCon-SP: objetivo é louvável, mas momento econômico dificulta implantação

A decisão abrange também obras e prédios públicos, incluindo os que venham a passar por retrofit. Para as construtoras e incorporadoras, seis meses é um prazo muito curto para as devidas adaptações. Além disso, alegam que o momento econômico do país não favorece mudanças drásticas de projetos que já estejam em andamento. Alterá-los, para que se adaptem ao estatuto, resultaria em postergar lançamentos e perder receitas. Há ainda outro item da lei que preocupa as empresas: as unidades adaptadas à acessibilidade não poderão ser mais caras que as demais.

Para o presidente do SindusCon-SP, José Romeu Ferraz Neto, a eficácia da nova legislação dependerá em grande parte de estímulos do poder público para seu cumprimento, uma vez que a crise econômica limita as construtoras. Porém, ele avalia que essa tese não irá se viabilizar. “Como o governo também não dispõe, no momento, de recursos para financiar os louváveis objetivos de moradia, mobilidade, acessibilidade e inserção segura no mercado de trabalho das pessoas com deficiência, ele deveria propor um prazo maior do que 180 dias para as adaptações necessárias”, sugere.

As novas medidas, embutidas no Estatuto da Pessoa com Deficiência, definem que a garantia de acessibilidade não se restringe à área interna das unidades habitacionais no piso térreo. Ela deve se estender aos equipamentos urbanos comunitários e também estabelecer parâmetros para a instalação de elevadores nas edificações. Por isso, José Romeu Ferraz Neto insiste: “O tempo para que as empresas se adaptem é curto”. Ele ainda lembra que CREA e CAU também precisarão se adaptar à nova legislação.

Garantia de empregabilidade
Os dois organismos deverão exigir nas Anotações de Responsabilidade Técnica o compromisso declarado de atendimento às regras de acessibilidade previstas em legislação e em normas técnicas vigentes. Superada essa fase, e após certificar a acessibilidade da edificação ou do serviço, é que o poder público determinará a colocação, em espaços ou em locais de ampla visibilidade, do símbolo internacional da acessibilidade. Só com essa placa é que deverá ser liberado o HABITE-SE do empreendimento.

Outra determinação da lei é que as empresas estão obrigadas a garantir ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos a pessoas com deficiência, em igualdade de oportunidades com os demais trabalhadores. A legislação também proíbe a exigência de aptidão plena a esses cidadãos na fase de recrutamento. “A inserção segura do trabalhador com deficiência na construção civil depende tanto da iniciativa privada quanto do governo, que precisa realizar investimentos para o transporte público, a acessibilidade e a qualificação destes profissionais”, finaliza José Romeu Ferraz Neto.

Dados do Seconci-SP (Serviço Social da Construção) revelam que é possível que pessoas com deficiência desempenhem 17 cargos e funções de 29 atividades profissionais nas fases de fundação, estrutura, alvenaria e acabamento de uma obra.

Entrevistado
Engenheiro civil José Romeu Ferraz Neto, presidente do SindusCon-SP (Sindicato das empresas Construção Civil do Estado de São Paulo)
Contato: sindusconsp@sindusconsp.com.br

Crédito foto: Divulgação/SindusCon-SP

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330