Mercado imobiliário cresce 10% em 2025 e prevê queda da taxa Selic para estimular lançamentos em 2026
O mercado imobiliário brasileiro encerrou o quarto trimestre de 2025 com resultados históricos. Entre outubro e dezembro foram lançadas 133.811 unidades, um crescimento de 18,6% em comparação com o mesmo período de 2024, representando o maior volume trimestral dos últimos dez anos. No acumulado do ano, os lançamentos somaram 453 mil unidades, crescimento de 10,6% em relação a 2024 e novo recorde da série histórica. Os dados integram a pesquisa Indicadores Imobiliários Nacionais, iniciativa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), elaborados pela Comissão da Indústria Imobiliária (CII/CBIC) em correalização com o SESI Nacional e parceria com a Brain Inteligência Estratégica.
Em termos financeiros, o volume total de vendas lançadas atingiu R$ 292 bilhões em 2025. Segundo Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, o desempenho surpreende diante do cenário de juros elevados. “Apesar da taxa de juros persistente em 15% ao ano, o incorporador continuou a sentir a demanda e fez seus lançamentos imobiliários independentemente desse patamar”, afirmou.
As vendas seguiram o mesmo ritmo: no quarto trimestre, foram comercializadas 109 mil unidades, e no acumulado de 2025, o setor totalizou 426.260 imóveis vendidos, representando uma alta de 5,4% em relação ao ano anterior.
Petrucci destacou a trajetória de crescimento ao longo dos últimos anos. “Em 2020 acumulávamos 279 mil unidades vendidas em 12 meses. O mercado mostrou resiliência mesmo diante de pandemia, alta de custos e instabilidade econômica”, aponta.

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Oferta cresce, mas estoque segue sob controle
A oferta final de imóveis encerrou o ano em 347 mil unidades, avanço de 6,2% em comparação com 2024. O aumento decorre principalmente do volume expressivo de lançamentos no último trimestre.
Apesar disso, o indicador de escoamento permanece saudável. O tempo médio para absorção da oferta está em 9,8 meses, bem abaixo dos quase 30 meses registrados no auge da crise dos distratos, em 2016. “Mais importante que o número absoluto é o tempo de escoamento. Hoje ele está abaixo de um ano, o que indica equilíbrio”, explicou Petrucci.
Minha Casa, Minha Vida responde por metade do mercado
O programa Minha Casa, Minha Vida consolidou sua posição como principal motor do setor. Em 2025, respondeu por 52% dos lançamentos e 49% das vendas nas 221 cidades monitoradas pela pesquisa.
Foram 224 mil unidades lançadas e quase 200 mil vendidas dentro do programa, com crescimento de 15,9% nas vendas ao longo do ano. “O Minha Casa, Minha Vida é hoje um programa consolidado como política de Estado. Mais de 50% dos financiamentos imobiliários do país passam por ele”, afirmou Petrucci. O escoamento nesse segmento é ainda mais rápido, próximo de oito meses. O bom desempenho reflete a forte demanda pelo primeiro imóvel, aliada ao déficit habitacional estimado em quase 6 milhões de moradias.
Intenção de compra atinge nível recorde
Dados da Brain Inteligência indicam que 50% dos domicílios com renda superior a R$ 2.500 manifestam intenção de comprar imóvel, o maior índice da série histórica.
Fábio Tadeu Araújo, sócio-diretor da empresa, explicou que diferentes faixas de renda sustentam esse movimento. “Na classe média e baixa, a renda tem crescido acima da inflação. Já no segmento de alta renda, a taxa de juros elevada favorece quem investe e usa a aplicação para pagar parcelas”, afirmou.
Segundo ele, 35% dos interessados pretendem comprar um imóvel nos próximos 12 meses. A maior parte procura moradia própria, mas 11% pretendem adquirir imóveis para locação, reforçando o imóvel como reserva patrimonial.
Preços sobem acima da inflação
O índice de valorização imobiliária apurado pela FGV registrou alta de 18,6% nos últimos 12 meses, superando tanto o INCC quanto o IPCA. Para Araújo, esse cenário estimula compras antecipadas. “Há clientes travando o preço do imóvel hoje, corrigido pelo INCC, enquanto mantêm aplicações financeiras rendendo próximo de 15% ao ano. A diferença gera ganho financeiro relevante”, observa.
Perspectivas para 2026
O setor projeta 2026 com cautela, mas confiante. A expectativa de redução da taxa Selic para a faixa de 12% deve estimular tanto a demanda quanto novos lançamentos. “A queda da Selic tende a impulsionar o ânimo de quem já tem intenção de compra. O mercado pode repetir 2025 ou até superar, dependendo do ambiente macroeconômico”, avaliou Petrucci.
Araújo, no entanto, ressalta que a base de comparação é elevada. “Não é simples superar recordes sucessivos. A tendência é crescer em ritmo menor, mas ainda positivo”, afirma. Com crédito disponível, orçamento robusto do FGTS e possível ampliação das faixas de renda do programa habitacional, o mercado entra em 2026 sustentado por demanda consistente e fundamentos sólidos, mantendo perspectiva de crescimento equilibrado.
Fontes
Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP
Fábio Tadeu Araújo, sócio-diretor da Brain Inteligência
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Ana Carvalho
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Novas soluções de segurança reduzem acidentes na construção
A atualização da Norma Regulamentadora NR-1, que passa a vigorar plenamente em maio de 2026, consolida uma mudança estrutural na gestão de segurança e saúde do trabalho no Brasil. Se antes predominava uma abordagem reativa, centrada à acidentes já ocorridos, o novo texto normativo reforça a adoção de uma gestão preventiva e contínua de riscos — incluindo fatores psicossociais — como eixo estratégico da proteção à saúde e à integridade dos trabalhadores.
Na construção civil, essa transformação já apresenta resultados concretos. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) divulgados em novembro de 2025 indicam redução superior a 30% nos acidentes de trabalho em 2023, inclusive nos casos mais graves. O avanço está relacionado à atualização da NR-18, de 2020, que fortaleceu o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) nos canteiros, e que ganha agora nova dimensão com a integração exigida pela NR-1.
Da reação à gestão integrada de riscos
Para Haruo Ishikawa, vice-presidente de Relações Capital-Trabalho do SindusCon-SP, o principal impacto da norma está na consolidação da gestão estruturada de riscos como prática obrigatória.
“Com a plena exigibilidade prevista para maio de 2026, a NR-1 reforça a gestão estruturada de riscos como eixo central da prevenção. Nos canteiros, todo risco ocupacional deve estar formalmente identificado, avaliado e controlado dentro do PGR”, afirma.
Na prática, isso significa que a empresa deve considerar não apenas riscos físicos, químicos e biológicos, mas também fatores ergonômicos, organizacionais e psicossociais. Pressão por prazo, jornadas extensas, mudanças constantes de tarefa, falhas de comunicação e clima organizacional passam a integrar formalmente a matriz de risco.
O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) precisa estar integrado à gestão da obra, com revisões contínuas — já que o canteiro é um ambiente dinâmico. A participação ativa dos trabalhadores na identificação de perigos torna-se obrigatória, assim como o monitoramento da eficácia das medidas adotadas.

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Segurança, saúde mental e produtividade
A inclusão dos riscos psicossociais formaliza um debate que já vinha ganhando espaço no setor: ambientes mais seguros também reduzem estresse e adoecimento mental.
Segundo Ishikawa, há relação direta entre sobrecarga mental e acidentes. “A sobrecarga provoca queda de atenção, aumento de erros operacionais, impulsividade e fadiga cognitiva. A NR-1 determina que esses fatores sejam identificados e controlados no PGR.”
Aspectos aparentemente simples, como conforto térmico inadequado, impactam a concentração e elevam o risco de falhas. Posturas incorretas geram fadiga precoce e perda de precisão. A desorganização do canteiro aumenta o risco de quedas, colisões e retrabalho.
Soluções de alto impacto incluem áreas de sombra e pausas térmicas, layout racional do canteiro, rodízio de tarefas, ferramentas ergonômicas, sinalização clara e planejamento diário das frentes de trabalho. Ishikawa acredita que medidas administrativas e organizacionais, quando bem aplicadas, reduzem não apenas acidentes, mas rotatividade e afastamentos.
Para Ishikawa, uma gestão bem estruturada dentro do canteiro reduz significativamente os acidentes de trabalho — inclusive aqueles relacionados à saúde mental. “Obras organizadas, com planejamento consistente e controle efetivo de riscos, apresentam menor rotatividade, maior produtividade e menos afastamentos. Isso ocorre porque a gestão moderna atua de forma preventiva, com foco em planejamento, comunicação eficiente, fortalecimento da cultura de segurança e tomada de decisões baseada em dados. Por isso, é fundamental que as empresas mantenham indicadores estatísticos atualizados sobre seus canteiros. É preciso identificar, com clareza, quais são as principais causas de acidentes, em que etapas eles ocorrem com mais frequência e quais fatores estão envolvidos. Esses dados são essenciais para promover melhoria contínua e ajustar as medidas de controle de forma eficaz”, afirma.
Ao falar sobre os principais fatores de estresse no canteiro, a resposta é complexa, mas a NR-1 avança ao reconhecer oficialmente os riscos psicossociais como ocupacionais. “Entre os fatores mais comuns estão a pressão excessiva por prazos, jornadas extensas, mudanças constantes de tarefa sem o devido preparo, clima organizacional inadequado, baixa autonomia e falhas de comunicação. A pressão por prazo, por exemplo, pode levar o trabalhador a atuar sob tensão permanente. Jornadas prolongadas aumentam a fadiga e elevam o risco de acidentes — não é raro que ocorrências aconteçam no fim do dia, quando o nível de exaustão já compromete a atenção. A troca frequente de funções sem treinamento adequado também gera insegurança e estresse. A fadiga cognitiva reduz a capacidade de concentração, aumenta erros operacionais e pode levar a decisões impulsivas. Por isso, a NR-1 determina que esses fatores sejam formalmente identificados, avaliados e controlados no PGR”, destaca Ishikawa.
No contexto das operações em concreteiras, os riscos ocupacionais exigem atenção redobrada em razão das características técnicas das atividades e do ambiente de trabalho. Conforme José Antonio Morais Belo, engenheiro de segurança do trabalho da Concrebras, os principais riscos envolvem: lesões por operação de equipamentos e tubulações pressurizadas; choques elétricos inclusive de alta tensão com a operação de lanças, que podem atingir a fiação aérea; acidentes provocados por buracos existentes nos canteiros de obras; além de quedas relacionadas a pisos irregulares e desníveis.
Profissionalização da gestão e dados como base de decisão
A aplicação consistente do PGR tem impulsionado a profissionalização da gestão de obras e plantas industriais. Empresas que estruturam o programa com base na realidade específica de cada operação — e não em modelos padronizados — apresentam redução consistente de acidentes.
“O PGR não pode ser um documento copiado. Ele precisa refletir o risco real do canteiro ou da planta industrial. É um instrumento dinâmico, que acompanha o andamento da obra”, reforça Ishikawa.
A norma também passa a exigir indicadores mais robustos, como o monitoramento de taxas de acidentes e incidentes, a eficácia das medidas de controle, os indicadores de saúde organizacional e a aderência aos programas de treinamento. O treinamento, por sua vez, deve ser baseado no risco real das atividades, ser periódico, documentado e ter sua eficácia avaliada.
O que muda a partir de 2026?
De acordo com Ishikawa, com a plena exigibilidade da NR-1 em maio de 2026, as empresas precisarão:
- Revisar o PGR e incluir formalmente riscos psicossociais e organizacionais;
- Atualizar matrizes de risco conforme mudanças no canteiro ou na planta;
- Estruturar processos formais de gestão de mudanças e investigação de incidentes;
- Criar indicadores preventivos, além dos tradicionais índices de acidentes;
- Capacitar lideranças com foco em gestão de risco e fatores humanos. “A forma como o gestor se comunica e conduz a equipe impacta diretamente o clima organizacional. Uma liderança despreparada pode gerar estresse desnecessário e aumentar riscos. Por isso, defendo que a liderança deve ser exemplo dentro do canteiro, tanto na postura quanto no compromisso com a segurança”, opina Ishikawa.
- Garantir participação efetiva dos trabalhadores.
“A NR-1 representa, na minha visão, uma verdadeira mudança de paradigma: ela abandona o modelo reativo e consolida uma gestão contínua e integrada dos riscos, incorporando de forma estruturada os fatores humanos e organizacionais. Em síntese, a norma reconhece que os riscos psicossociais fazem parte da gestão de segurança e precisam ser tratados de maneira preventiva e sistêmica”, comenta Ishikawa.
Ishikawa percebe que ainda há apreensão em relação à NR-1, mas, na prática, não se trata de algo intransponível. “A norma exige, essencialmente, aquilo que a construção civil já precisa fazer: melhorar a organização da obra e estruturar de forma mais consistente a organização do trabalho dentro do canteiro. Não há ‘segredo’. Trata-se de incorporar mais um elemento fundamental à gestão — que, no fim, contribui para qualificar o setor como um todo. O mundo mudou, as relações de trabalho mudaram e os riscos psicossociais sempre existiram. A diferença agora é que eles passam a ser reconhecidos formalmente. É importante distinguir, inclusive, aquilo que o trabalhador traz de sua vida pessoal dos fatores que são gerados ou agravados no ambiente de trabalho — e é sobre estes que a empresa precisa atuar. Atuo há 24 anos na área de saúde e segurança do trabalhador da construção civil e posso afirmar: não é um ‘bicho de sete cabeças’. A exigibilidade plena da norma se aproxima e é natural que haja preocupação. Mas, com organização, capacitação e uso adequado das ferramentas de gestão, a NR-1 tende a fortalecer — e não fragilizar — a construção civil”, afirma Ishikawa.
De acordo com Belo, a NR 01 estabelece a implantação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) que subsidia o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). “A partir do programa, aqui na Concrebras, nós levantamos todos os riscos para elaborar o Inventário de Riscos Ocupacionais (IRO) que possuem detalhamento técnico, número de envolvidos e medidas de controle necessárias para que o risco seja reduzido. Utilizamos uma matriz de risco específica que traduz para uma leitura técnica dos riscos mais relevantes, o que nos possibilita a criação de planos de ação, com classificação de prioridades. A partir do plano de ação estabelecido, estudamos novas tecnologias de bombeamento, inspeções detalhadas do processo produtivo, alinhamos com os clientes modelos mais seguros de operação, treinamos as equipes. Exemplo: temos acidentes com o uso de marretas para fechamento de abraçadeiras, portanto, estudamos a partir da identificação do risco, o uso de ferramentas específicas e apropriadas com o intuito de reduzir a exposição”, conclui.
Entrevistado
Haruo Ishikawa é vice-presidente das Relações Capital-Trabalho do SindusCon-SP.
José Antonio Morais Belo é engenheiro de segurança do trabalho da Concrebras.
Contato
rmontagnini@sindusconsp.com.br
jose.belo@cimentoitambe.com.br
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Marina Pastore – DRT 48378/SP
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Duplicação da BR-470 tem investimento de R$ 1,7 bilhão
A duplicação da BR-470 no trecho entre Navegantes e Indaial, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, deve se estender ao menos até 2027, de acordo com estimativa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
O DNIT informou ao Massa Cinzenta que a duplicação da BR-470/SC é uma das principais obras de infraestrutura em andamento em Santa Catarina. Segundo o órgão, até o momento, 86% dos serviços estão concluídos, com 62 quilômetros já duplicados e liberados ao tráfego.
Ainda de acordo com o DNIT, o empreendimento contempla 73 quilômetros entre Navegantes e Indaial, divididos em quatro lotes, com investimento total aproximado de R$ 1,7 bilhão. A conclusão da duplicação está prevista para 2026, nos lotes 1 e 2, e para 2027, nos lotes 3 e 4.
Solução construtiva

Ao Massa Cinzenta, o DNIT destacou que a solução construtiva adotada na obra consiste na implantação de pista nova paralela à existente, com pavimento flexível. A restauração das pistas atuais, por sua vez, é realizada com a adoção de pavimento semirrígido nos lotes 1, 2 e 3, e de pavimento flexível no lote 4.
Desafios da obra
Segundo o DNIT, entre os principais desafios enfrentados ao longo da execução está o remanejamento da rede de gás natural, cujo atraso na realocação impacta diretamente o cronograma. Além disso, o órgão também mencionou a interferência de outras redes públicas, como energia elétrica, telecomunicações e abastecimento de água. Nos primeiros anos, também houve entraves relacionados a desapropriações.
Soluções sustentáveis
No campo ambiental, o empreendimento incorpora soluções sustentáveis. “No lote 3, em Blumenau, está prevista a implantação de um passa-fauna aéreo, estrutura projetada para permitir a travessia segura de animais silvestres sobre a rodovia, contribuindo para a redução de atropelamentos, preservação da biodiversidade e manutenção da conectividade entre fragmentos de vegetação”, afirmou o DNIT.
Obras de arte
A obra de duplicação da BR-470/SC prevê a construção de 27 viadutos, dos quais 20 já foram concluídos. O DNIT informou ao Massa Cinzenta, que em todas as obras de arte especiais da rodovia é adotado o método construtivo com vigas pré-moldadas.
“Ainda restam sete viadutos a serem finalizados: um no lote 1, no km 4, em Navegantes; um no lote 2, no km 35, em Gaspar; dois no lote 3, nos km 52 e 54, em Blumenau; e três no lote 4, no km 60, em Blumenau, e nos km 62 e 64, em Indaial. Ao todo, estão previstos cinco viadutos no lote 1, sete no lote 2, oito no lote 3 e sete no lote 4”, destacou o órgão.
Fonte
Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT)
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Seis megatendências moldam o mercado imobiliário e apontam estratégias para lançamentos e investimentos no setor
O mercado imobiliário brasileiro entra em um novo ciclo de transformação. Não se trata apenas de variações de crédito ou de preço. O que muda é o perfil do morador, a forma de consumir moradia e o conceito de valor atribuído ao imóvel.
Estudos recentes realizados pela Brain Inteligência identificaram seis megatendências que já impactam lançamentos e investimentos no país. Elas influenciam desde o tamanho das unidades até o conceito de luxo voltado ao público de alta renda. “O mercado imobiliário está passando por uma transformação estrutural. Não é uma projeção. É algo que já está acontecendo”, afirma Guilherme Werner, sócio e consultor da Brain. Segundo ele, fatores demográficos, econômicos e comportamentais já alteram o padrão dos lançamentos no país e exigem revisão estratégica das empresas.
Famílias menores pressionam metragens
O Brasil registra queda contínua na taxa de fecundidade. As famílias estão menores, e o número de moradores por domicílio diminui. Esse movimento reduz a necessidade de grandes áreas privativas, com crescimento da demanda por apartamentos compactos e funcionais. A prioridade deixa de ser metragem ampla e passa a ser eficiência de planta.
O desafio para o mercado é duplo: adequar o produto à nova realidade demográfica e, ao mesmo tempo, comunicar que menos espaço pode significar menor custo total e melhor aproveitamento. “Com menor adensamento dos núcleos familiares, o impacto direto é a compactação das metragens”, explica Werner. Ele ressalta que não se trata apenas de lançar imóveis pequenos, mas de redesenhar plantas para garantir funcionalidade.
A redução de área contribui para alinhar preços à capacidade de compra atual. Porém, o consultor observa que o consumidor ainda associa valor a espaço amplo. “O mercado precisa trabalhar o entendimento de que, muitas vezes, ele nem precisa de tanto espaço”.
Locação cresce entre médias e altas rendas
Outra tendência é o aumento da proporção de imóveis alugados. A capacidade de compra do consumidor imobiliário se deteriorou nos últimos anos, pressionada pela alta dos custos de construção e restrição de crédito. “Há uma tendência clara de aumento na locação. E não é só na baixa renda”, afirma Werner. Segundo ele, famílias de média e alta renda também optam por alugar, priorizando acesso ao imóvel em detrimento da posse formal.
Esse movimento fortalece modelos como multifamily e empreendimentos estruturados para locação de longo prazo. “As pessoas querem ter acesso ao imóvel. Não necessariamente declará-lo como bem próprio”, aponta.
Acesso supera a posse
A mudança geracional reforça esse cenário. Consumidores mais jovens valorizam mobilidade e flexibilidade. “A lógica do acesso, combinada à busca por experiências, altera o ciclo de permanência nos empreendimentos”, afirma Werner ao analisar o comportamento de compra. Para as incorporadoras, isso exige oferta de serviços agregados, tecnologia e gestão eficiente. O produto deixa de ser apenas a unidade privativa.
Fachadas biofílicas ganham espaço

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A busca por áreas verdes e espaços de descompressão se intensificou após a pandemia. Projetos paisagísticos mais robustos ganham protagonismo. “Os empreendimentos com investimento paisagístico começam a tomar maior protagonismo no mix do mercado imobiliário”, diz Werner. O conceito de biofilia — que propõe a integração entre arquitetura e natureza — traduz essa tendência, se manifestando na valorização da ventilação natural e áreas abertas de convivência. A demanda aparece em diferentes padrões de construção e renda.
Leia mais sobre a tendência da biofilia nas edificações: https://www.cimentoitambe.com.br/edificio-arvore-traz-agua-filtrada-e-ar-mais-puro-aos-moradores/
Diferenciais ambientais
A sustentabilidade consolidou-se como vetor estratégico. No início, o apelo esteve concentrado na economia, e soluções como energia solar e sistemas de eficiência hídrica contribuíam para a redução de custos condominiais. Agora, a motivação inclui preocupação ambiental genuína. “A sustentabilidade começa a ganhar proporção junto aos públicos, sobretudo de maior renda”, afirma Werner. Ele destaca que o imóvel é um ativo de longa duração e precisa ser pensado para décadas. Isso significa que compradores vêm demonstrando disposição para pagar mais por diferenciais ambientais.
Quiet luxury redefine o alto padrão
No segmento premium, o conceito de quiet luxury avança. O luxo deixa de ser exibido e passa a ser experimentado. “É o luxo de não aparecer”, resume Werner. O foco está em arquitetura assinada, curadoria de serviços e parcerias estratégicas em áreas comuns, como spas, academias e adegas.
As seis megatendências não atuam de forma isolada, elas se conectam. O resultado é um mercado mais segmentado e exigente. Para se destacar, incorporadoras precisam apoiar decisões em dados, leitura demográfica e análise de comportamento. É preciso entender quem compra, como compra e por que compra. “Quem compreender essas mudanças e traduzir isso em produto vai sair na frente”, conclui Werner.
Entrevistado
Guilherme Werner é especialista em Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, com formação em Comunicação Social pela Universidade Positivo. Possui formação complementar ampla nas áreas de planejamento estratégico, incorporação de edifícios e desenvolvimento urbano, além de Conselheiro Imobiliário. Atua como professor em diversos cursos de especialização, extensão e MBAs ligados ao segmento. É sócio e consultor da Brain, e já atuou em estudos de mercado em todo o país.
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Construção industrializada materializa a construção 4.0 por meio de processos e tecnologia de produtos
A industrialização no Brasil deixou de ser apenas um campo experimental e se consolidou como uma estratégia estruturante do setor da construção. A incorporação de tecnologias de processo e de produto vem redefinindo a forma de conceber, produzir e montar edificações, gerando impacto direto na produtividade, na qualidade e na previsibilidade dos empreendimentos. Nesse cenário, a construção industrializada se apresenta como a materialização da construção 4.0, ao integrar projeto digital, produção em ambiente fabril e montagem racionalizada no canteiro.
Segundo o professor Paulo Eduardo Fonseca de Campos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAUUSP), o debate ganhou intensidade nos últimos anos por uma conjunção de fatores estruturais. “Em função do apagão de mão de obra que o setor atravessa, nunca se falou tanto em construção industrializada como agora. Trata-se de um movimento que responde a uma necessidade concreta do mercado”, afirma.
Tecnologias de processo redefinem o canteiro
As tecnologias de processo são pilares centrais dessa transformação. Todos os componentes estruturais, de fechamento e complementares passam a ser produzidos em ambiente fabril, com controle rigoroso de qualidade e de cronograma. “O que caracteriza a construção industrializada é justamente a transferência das atividades do canteiro de obras para a fábrica. Quando isso acontece, o canteiro deixa de ser um local de produção e passa a ser um espaço de montagem”, explica Campos. Esse deslocamento altera profundamente a lógica da obra, reduz interferências externas e permite maior previsibilidade de custos e prazos.
Dentro dessa abordagem, destaca-se o conceito de edifício-produto, baseado em padronização flexível. “A edificação deixa de ser um projeto único e passa a ser concebida como um produto que utiliza componentes e sistemas escaláveis, replicáveis e configuráveis”, diz o professor. Painéis, módulos tridimensionais completos e sistemas construtivos híbridos compõem esse repertório, permitindo diferentes arranjos a partir de uma mesma base industrial.

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Tecnologias de produto ampliam o repertório material
Paralelamente, as tecnologias de produto ampliam de forma significativa as possibilidades de aplicação dos materiais, com destaque para o concreto. O desenvolvimento de concretos de alto e ultra desempenho tem permitido a produção de peças mais leves, esbeltas e com maior densidade tecnológica. “Hoje temos concretos de alto desempenho, concretos de pós-reativos, microconcretos e materiais compósitos de base cimentícia, como o concreto reforçado com fibra de vidro. Isso amplia enormemente a paleta de produtos disponíveis para a construção industrializada”, afirma Campos.
Esses avanços possibilitam soluções arquitetônicas mais complexas, com precisão dimensional e elevado nível de acabamento já na fábrica. O uso de materiais híbridos também se intensifica, combinando concreto, aço e madeira engenheirada conforme as potencialidades de cada sistema e material. “Não é necessário que o edifício seja monomaterial. Ao combinar materiais, é possível explorar o melhor desempenho de cada um deles”, observa o professor.
Construção 4.0 ganha forma no setor
A convergência entre tecnologias de processo e de produto encontra na digitalização seu elo integrador. Ferramentas como BIM, DfMA (Design for Manufacturing and Assembly),manufatura digital e impressão 3D tornam possível planejar e controlar o processo de forma integral, estruturando um fluxo contínuo em todas as fases da obra.
O BIM se consolida como ferramenta central. “O Building Information Modeling foi feito para a construção industrializada, pela sua capacidade de integrar projeto, manufatura e montagem”, afirma Campos. A ferramenta permite ajustes precisos ainda na fase de concepção, reduz retrabalhos e eleva o nível de controle sobre custos, prazos e qualidade do empreendimento.
Mais do que uma tendência tecnológica, a industrialização se consolida como um novo modelo produtivo para a arquitetura e a construção no Brasil. Ao combinar processos industriais, inovação em materiais e digitalização, o setor avança rumo a um modelo mais integrado, previsível e alinhado às demandas contemporâneas de desempenho e eficiência.
Entrevistado
Paulo Eduardo Fonseca de Campos é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-Campinas, mestre em Engenharia de Construção Civil e Urbana pela EPUSP, Doutor em Arquitetura e Urbanismo e pós-doutor pela School of Architecture, Planning and Landscape da Newcastle University, no Reino Unido. É professor associado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAUUSP), onde implantou e coordenou o laboratório de fabricação digital FAB LAB SP e o Grupo de Pesquisa DIGI-FAB - Tecnologias digitais de fabricação aplicadas à produção do Design e Arquitetura Contemporâneos. Foi superintendente do Comitê Brasileiro da Construção Civil (CB-02) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Atuou no Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) do Ministério das Cidades, onde foi membro do Comitê Nacional de Desenvolvimento Tecnológico da Habitação (CTECH).
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pfonseca@usp.br
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Ana Carvalho
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Projeto reforça atuação contra judicialização de vícios construtivos
Diante do crescimento expressivo da judicialização relacionada a vícios construtivos e das consequências diretas para a segurança jurídica do setor, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) vem consolidando, em âmbito nacional, o Projeto Vícios Construtivos e Garantias Pós-Obra como uma iniciativa permanente e estratégica. O objetivo é enfrentar práticas abusivas, qualificar o debate técnico e jurídico e estimular soluções mais racionais no período pós-obra, com atenção especial à Habitação de Interesse Social.
Criado como resposta ao aumento de ações judiciais muitas vezes desprovidas de embasamento técnico, o projeto busca equilibrar direitos, preservar o acesso à Justiça e, ao mesmo tempo, conter a litigância predatória que gera custos excessivos para empresas e ameaça a sustentabilidade de políticas públicas como o Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Desde 2018, o fenômeno tem se intensificado. Até fevereiro de 2025, mais de 146 mil ações judiciais foram ajuizadas contra o Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), com um prejuízo potencial estimado em R$ 15 bilhões, além de milhões de reais gastos com honorários advocatícios, perícias e custas processuais. Segundo a CBIC, grande parte dessas ações apresenta alegações genéricas e pareceres técnicos sem evidência concreta.
Atuação institucional e novo ciclo em 2026
Para Leonardo Romeo, membro do Conselho Jurídico da CBIC e coordenador nacional do projeto, a abertura do ciclo de 2026 consolida a iniciativa como um eixo central de articulação jurídica e institucional do setor. “O projeto deixa de ser apenas uma iniciativa de acompanhamento e passa a operar como uma atuação permanente, estruturada sobre três pilares: presença, respeito ao setor da construção civil e força institucional”, afirmou.
Segundo Romeo, a judicialização em massa exige uma resposta organizada e coordenada. “Quando a judicialização se espalha de forma desordenada, o setor responde com organização, técnica e atuação coletiva”, destacou.
Presença nos centros de decisão
Ao longo do último ciclo, o projeto avançou no mapeamento de processos estratégicos, no acompanhamento sistemático de recursos repetitivos e temas representativos de controvérsia, além da análise qualificada de projetos de lei com impacto direto sobre garantias, prescrição, decadência e responsabilidades no pós-obra.

Essa atuação levou a CBIC a agendas presenciais no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no Conselho da Justiça Federal (CJF) e em todos os Tribunais Regionais Federais, além de interlocução contínua com a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, a Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades. “Levamos aos principais centros de decisão uma mensagem clara: a judicialização em massa não é apenas um problema jurídico, mas um fator que compromete a política pública habitacional”, explicou Romeo.
Judicialização e precedentes judiciais
Um dos focos centrais do projeto é o acompanhamento de recursos repetitivos e temas representativos de controvérsia, que têm potencial de impactar milhares de ações simultaneamente. Para Romeo, esses precedentes são decisivos para a previsibilidade do setor. “Quando definidos a partir de premissas genéricas ou provas padronizadas, produzem efeitos multiplicadores negativos. Nossa atuação busca critérios mais objetivos e previsíveis, capazes de conter distorções que alimentam a litigância abusiva”, afirmou.
Nesse contexto, os processos ligados ao Minha Casa, Minha Vida ocupam posição estratégica. “Sem segurança jurídica, não há política habitacional sustentável. A judicialização excessiva encarece o financiamento, desestimula novos empreendimentos e coloca em risco a continuidade do programa”, alertou.
De acordo com a Caixa Econômica Federal, o número de processos relacionados ao MCMV saltou de 724 em 2014 para mais de 147 mil em 2025. Em 2024, a Caixa Econômica Federal desembolsou R$ 92,4 milhões em ações sobre vícios construtivos na Faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida. Desde 2014, as indenizações somam R$ 310 milhões, com crescimento expressivo no período.
Tema Repetitivo nº 1.396 no STJ
Como parte dessa atuação, a CBIC protocolou pedido de intervenção como amicus curiae no Tema Repetitivo nº 1.396, em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O julgamento definirá se é necessária a comprovação de tentativa prévia de solução extrajudicial para caracterizar o interesse de agir em ações de natureza prestacional nas relações de consumo.
Para Romeo, trata-se de um tema sensível e estratégico. “Se o STJ entender que a tentativa prévia não é obrigatória, a consequência prática tende a ser o estímulo ao ajuizamento imediato e em larga escala de ações, inclusive em casos que poderiam ser resolvidos tecnicamente fora do Judiciário”, explicou.
Segundo ele, esse cenário ampliaria custos sistêmicos, sobrecarregaria o Judiciário e incentivaria litígios artificiais. “O acesso à Justiça deve ser preservado, mas a segurança jurídica não é um detalhe — é o alicerce que sustenta a política habitacional, o setor da construção e o próprio sistema de Justiça”, afirmou.
Fonte
Leonardo Romeo é membro do Conselho Jurídico da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e coordenador nacional do Projeto Vícios Construtivos e Garantias Pós-Obra.
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ECC aposta na ductilidade e autocura para ampliar durabilidade estrutural
Conhecido internacionalmente como bendable concrete (concreto dobrável ou flexível, em tradução livre), o Engineered Cementitious Composite (ECC) vem ganhando espaço em pesquisas e aplicações ao redor do mundo por apresentar um comportamento pouco comum aos materiais cimentícios: ele dobra antes de romper. No Brasil, a tecnologia ainda dá seus primeiros passos, mas já mobiliza pesquisadores e especialistas interessados em ampliar a vida útil das estruturas e reduzir custos de manutenção.
“O ECC entrou nas mídias internacionais como um concreto que dobrava. Havia imagens de peças esbeltas sendo flexionadas sem romper de forma frágil, algo muito diferente do concreto convencional”, explica Hinoel Zamis Ehrenbring, especialista em compósitos cimentícios e desempenho do concreto.
Desenvolvido há cerca de 30 anos pelo pesquisador Victor Li, nos Estados Unidos, o ECC nasceu de uma inquietação: como tornar o concreto menos frágil e mais resiliente, especialmente diante de solicitações intensas, movimentações estruturais e até sismos?
Microfissuras controladas: o segredo do desempenho

Crédito: Hinoel Zamis Ehrenbring
Diferentemente do concreto tradicional, que tende a concentrar a tensão em uma única fissura que rapidamente se propaga até a ruptura, o ECC foi concebido para distribuir essas tensões em milhares de microfissuras extremamente finas.
“No concreto convencional, surge uma fissura principal que se abre e leva ao colapso frágil. No ECC, usamos fibras dispersas na matriz cimentícia que promovem a formação de inúmeras microfissuras, todas com abertura controlada”, afirma Ehrenbring.
Essas fissuras chegam a cerca de 0,1 mm, valor inferior ao limite mais restritivo previsto na NBR 6118 para ambientes de alta agressividade. “Estamos falando de fissuras da ordem de um fio de cabelo. Isso muda completamente o comportamento do material e sua relação com a durabilidade”, destaca.
O controle é garantido pela incorporação de fibras — geralmente de PVA (álcool polivinílico) ou polipropileno — que atuam como “pontes” de transferência de tensão. “São milhares de fibras por centímetro cúbico. Quando a matriz fissura, essas fibras ‘grampeiam’ a abertura e impedem que ela se propague, causando a formação de novas microfissuras”, explica o engenheiro.
Ductilidade semelhante ao aço
Uma das principais características do ECC é a ductilidade à tração — capacidade de deformar antes de romper, mantendo ou até aumentando a resistência ao longo do carregamento.
“O ECC vai deformando, microfissurando, mas não perde resistência. Ele avisa antes de romper. Esse comportamento é muito importante do ponto de vista da segurança estrutural”, afirma Ehrenbring.
Essa propriedade foi inicialmente pensada para regiões com alta atividade sísmica, como Japão e Estados Unidos, especialmente em zonas críticas de ligação entre vigas e pilares. “A ideia era inserir um material mais maleável nesses pontos, que pudesse absorver deformações sem colapso abrupto”, destaca Ehrenbring.
Embora o Brasil não enfrente sismos com a mesma intensidade, o especialista enxerga aplicações promissoras em infraestrutura, especialmente em pontes, viadutos e pavimentos de concreto.
Juntas de dilatação e pavimentos: aplicações estratégicas
Segundo Ehrenbring, as juntas de dilatação são hoje um dos principais pontos críticos de manutenção em obras de arte especiais. “Muitas manifestações patológicas e até colapsos estão ligados à falta de manutenção dessas juntas. O ECC pode funcionar como uma placa dúctil sobre a junta, permitindo movimentação com estanqueidade à água e menor necessidade de intervenção”, explica Ehrenbring.
Outra frente é o whitetopping — técnica de reabilitação de pavimentos com a aplicação de uma camada delgada de concreto sobre o revestimento existente. “Enquanto soluções convencionais trabalham com espessuras acima de 10 cm, o ECC pode atuar com menos de 5 cm. Usamos menos material e entregamos maior desempenho”, informa Ehrenbring.
Apesar do custo por metro cúbico ser superior ao do concreto convencional — em grande parte devido às fibras — o consumo reduzido e a maior durabilidade podem compensar ao longo do ciclo de vida.
“Entre 60% e 80% do custo do ECC está nas fibras. Mas a lógica não é um grande volume deste compósito, e sim pouco material mais eficiente”, pontua Ehrenbring.
Sustentabilidade direta e indireta
O ECC também evoluiu sob a ótica ambiental. Se nas primeiras formulações o consumo de cimento ultrapassava 1.000 kg/m³, hoje a incorporação de materiais cimentícios suplementares — como cinza volante, argilas calcinadas e sílica ativa — reduziu significativamente esse volume.
“Por utilizarmos menor volume de ECC nas aplicações e trabalharmos com traços mais otimizados, conseguimos reduzir emissões de CO₂ diretamente”, explica Ehrenbring.
Há ainda um ganho indireto: maior durabilidade significa menos intervenções, menos consumo de insumos e menor geração de resíduos ao longo do tempo. “No Brasil, temos um histórico de baixa cultura de manutenção preventiva. Sistemas que demandem menos intervenções periódicas já representam um avanço importante em sustentabilidade”, aponta Ehrenbring.
Autocicatrização: o próximo passo
Além do controle de fissuração, pesquisas recentes avançam na incorporação de mecanismos de autocicatrização.
“Se eu tenho microfissuras muito finas, a chance de elas se fecharem ao longo do tempo é maior. Estamos estudando estratégias com cristalizantes, adições minerais e até micro-organismos que favoreçam essa colmatação”, afirma o engenheiro.

Como as fissuras do ECC são significativamente menores do que os limites tradicionalmente tratados por aditivos cristalizantes, a tendência é que a selagem seja ainda mais eficiente.
Disseminação no Brasil
Em 2023, Ehrenbring publicou, ao lado de Bernardo Tutikian, um livro dedicado ao tema, “Concreto flexível com fibras: princípios, dosagens e aplicações do Engineered Cementitious Composites", reunindo pesquisas nacionais e internacionais. A proposta é difundir conhecimento técnico de forma acessível e incentivar aplicações práticas.
“O Brasil ainda está nos primeiros passos. Temos estudos em várias universidades, mas a aplicação em larga escala depende de validação prática e confiança do mercado. Assim como ocorreu com o concreto de ultra-alto desempenho (UHPC), é um processo que leva tempo”, avalia Ehrenbring.
Para ele, a consolidação do ECC no país pode levar de cinco a dez anos, mas a tendência global é clara. “O futuro aponta para compósitos cimentícios com controle de fissuração e capacidade de cicatrização. É uma mudança de paradigma: sair do combate à fissura e passar a gerenciá-la de forma inteligente.”
Se consolidado, o ECC pode representar um avanço significativo na engenharia estrutural, combinando desempenho mecânico, durabilidade e novas estratégias de sustentabilidade em um único material.
Fonte
Hinoel Zamis Ehrenbring possui doutorado em Engenharia Civil, com ênfase em materiais e sustentabilidade, pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PPGEC) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Pela mesma instituição, possui mestrado e graduação também em engenharia civil. É professor do curso de graduação de Engenharia Civil da UNISINOS, bem como nos cursos de especialização da mesma instituição. Também atua como professor dos cursos de extensão e especialização do IDD. Em ambas as instituições ministra disciplinas voltadas aos temas de estruturas, materiais, desempenho e técnicas construtivas. É autor do livro "Concreto flexível com fibras: princípios, dosagens e aplicações do Engineered Cementitious Composites". Também, é autor do Capítulo "Concreto Autoadensável" do livro CONCRETO: CIÊNCIA E TECNOLOGIA (IBRACON). Em 2020, assumiu a diretoria regional do Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) no estado do Rio Grande do Sul. Também é delegado regional da Associação Brasileira da Patologia das Construções (ALCONPAT - Brasil). É o responsável técnico do itt Performance/Unisinos. Também, presta consultoria em materiais de construção civil (compósitos cimentícios) e sistemas construtivos, com foco em desempenho.
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Marina Pastore – DRT 48378/SP
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Construção projeta crescimento de 2% em 2026 após ano marcado por desaceleração
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta crescimento de 2% para a construção civil brasileira em 2026. Se confirmada, a alta representará aceleração em relação a 2025, quando a estimativa foi de avanço de 1,3%, e marcará o terceiro ano consecutivo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do setor.
De acordo com a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, o cenário combina desafios e oportunidades. “Será um desempenho melhor do que o observado em 2025, ainda que o ambiente macroeconômico permaneça desafiador”, afirmou ela durante coletiva de imprensa.
O cenário traçado pela entidade combina fatores positivos, como início do ciclo de redução da taxa básica de juros, orçamento recorde do FGTS para habitação e continuidade dos investimentos em infraestrutura, com desafios estruturais, entre eles a elevada carga tributária, o custo da mão de obra e o ritmo mais moderado da economia nacional.
Desaceleração em 2025 e mercado de trabalho resiliente

Crédito: Envato
Dados apresentados pela CBIC mostram que a construção cresceu 1,3% em 2025, sendo que o principal fator de desaceleração foi o patamar elevado da taxa básica de juros. “Os juros no maior nível em quase 20 anos impactaram decisões de investimento e o ritmo de novos empreendimentos”, observa.
Apesar disso, o mercado de trabalho manteve desempenho robusto. O Brasil encerrou 2025 com taxa de desemprego de 5,1%, a menor da série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012, e com quase 103 milhões de pessoas ocupadas. Na construção, o número de trabalhadores com carteira assinada chegou a 2,945 milhões, alta de 3% em relação a 2024.
Custos pressionados e crédito em transição
Já o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) avançou 5,92% em 2025, superando a inflação oficial de 4,26%. O principal vetor foi o custo da mão de obra, que subiu 8,98%. Para Ieda Vasconcelos, esse movimento exige atenção. “A pressão maior veio da mão de obra, reflexo de um mercado de trabalho aquecido. Isso impõe desafios às empresas na gestão de custos”, disse.
No crédito imobiliário, os financiamentos com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) recuaram 13% em 2025, somando R$ 156 bilhões. Já os recursos do FGTS cresceram 8,75%, alcançando R$ 138 bilhões. A expectativa da CBIC é de melhora gradual nesse cenário, impulsionada por mudanças no modelo de financiamento habitacional.
Infraestrutura mantém papel de sustentação
Os investimentos em infraestrutura alcançaram R$ 280 bilhões em 2025, crescimento de cerca de 3% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base. Desse total, 84% tiveram origem no setor privado. O segmento foi o único da construção a ampliar o saldo de empregos em relação a 2024, reforçando seu papel como vetor de estabilidade em momentos de menor dinamismo imobiliário.
Ouça também o podcast sobre cenário econômico para 2026: https://www.cimentoitambe.com.br/cenario-economico-da-construcao-civil-2026-2-2/
Ambiente de negócios e fatores que sustentam o crescimento
Além dos indicadores econômicos, a CBIC aponta fatores institucionais e estruturais como determinantes para o desempenho da construção em 2026. A elevada carga tributária passou a ser o principal problema do setor no quarto trimestre de 2025, à frente dos juros altos e da escassez de mão de obra. Ainda assim, a entidade avalia que há fundamentos capazes de sustentar a expansão. “Mesmo com desafios fiscais e um crescimento mais moderado da economia nacional, existem estímulos importantes em curso, como o orçamento recorde do FGTS para habitação, a continuidade das obras de infraestrutura e programas voltados à moradia”, afirmou Ieda Vasconcelos.
A combinação entre crédito direcionado, investimentos públicos e privados e demanda habitacional reprimida sustenta a expectativa de que a construção civil volte a ganhar tração em 2026, mantendo-se como um dos setores com maior capacidade de geração de empregos e dinamização da economia.
Fonte
Ieda Vasconcelos é economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
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ascom@cbic.org.br (Assessoria de Imprensa)
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Ana Carvalho
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Novo Roadmap Net Zero redefine estratégia climática da indústria do cimento
A indústria brasileira do cimento deu um passo decisivo na agenda climática com o lançamento do novo Roadmap Net Zero, que atualiza e amplia de forma significativa a estratégia setorial de descarbonização até 2050. Diferentemente da primeira versão, apresentada em 2019, o novo documento deixa de olhar apenas para o processo industrial e passa a considerar todo o ciclo de vida do cimento, do clínquer à obra, incluindo energia, sistemas construtivos e soluções baseadas na natureza.
Segundo Gonzalo Visedo, Head de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Associação Brasileira de Cimento Portland/Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (ABCP/SNIC), a reformulação foi motivada pelo amadurecimento técnico do setor e pela necessidade de alinhar o cimento brasileiro às metas globais de neutralidade climática.
Do ‘portão para dentro’ à cadeia completa
O Roadmap de 2019 estava estruturado em quatro frentes: uso de adições, combustíveis alternativos, eficiência energética e captura, uso ou estocagem de carbono (CCUS). Embora esses eixos permaneçam centrais, o novo Roadmap Net Zero incorpora Reduções Indiretas através do uso de energias limpas como eólica e solar, Remoções e Compensações, através do CCUS e de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e a Desmaterialização, considerando uma maior eficiência nos concretos e sistemas construtivos.
Na prática, isso significa olhar para além da fábrica. “Passamos a considerar, além das reduções diretas no clínquer e no cimento, as reduções indiretas via eletricidade limpa, as remoções e compensações por meio do CCUS e das Soluções Baseadas na Natureza, além da desmaterialização, com maior eficiência no uso do concreto e dos sistemas construtivos”, explica Visedo.
Onde estão as maiores oportunidades de redução
De acordo com as projeções do Roadmap Net Zero para 2050, a contribuição potencial para a neutralidade climática do setor se distribui da seguinte forma:
- Reduções diretas (clínquer e cimento): 30%
- Reduções indiretas (eletricidade): 5%
- Desmaterialização (concreto e construção): 19%
- Remoções e compensações (CCUS, SbN e metanização): 46%
Apesar do peso crescente das remoções, as prioridades imediatas seguem sendo as ações sob controle direto da indústria. “As prioridades do setor continuam sendo, certamente, as Reduções Diretas, que contemplam o processo produtivo do clínquer e cimento e onde temos participação direta no esforço de descarbonização. Estamos falando das soluções ‘portão pra dentro’, como o aumento do uso de adições, do coprocessamento de combustíveis alternativos e de medidas de eficiência térmica”, destaca Gonzalo.

Crédito: Envato
Ao mesmo tempo, o executivo chama atenção para o tamanho do desafio que é descarbonizar as emissões remanescentes do setor, aqui consideradas no eixo Remoções e Compensações, com uma participação relativa de 46% do potencial de redução.
“Neste capítulo específico, o Roadmap Net Zero inova ao trazer, além do CCUS - que vem sendo estudado há tempos pelo setor, mas que tem demonstrado enorme complexidade para se materializar nos países em desenvolvimento - as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e o papel estruturante que as remoções biogênicas e compensações florestais podem ter no esforço para alcançar a neutralidade carbônica da indústria brasileira. Principalmente considerando as condições climáticas e de biodiversidade do país e o potencial custo-efetivo desta solução frente ao CCUS, representando um diferencial competitivo nacional em relação a soluções tecnológicas de elevado custo”, afirma.
Marcos temporais e horizonte de médio prazo
A modelagem do Roadmap foi desenvolvida a partir de ferramenta da Global Cement and Concrete Association (GCCA) e trabalha com horizontes de curto e longo prazo, especialmente 2030 e 2050.
“Para estes períodos, foram realizadas inúmeras interações e consultas ao setor e a especialistas, tentando projetar as tendências, oportunidades, desafios e potencial de penetração de cada uma das principais alavancas de descarbonização do setor”, relata Visedo.
Como diferencial, o Roadmap Net Zero Brasil incluiu também uma linha de tendência para 2040, permitindo uma leitura mais clara do médio prazo.
Monitoramento, governança e revisões
O Roadmap não estabelece metas obrigatórias, mas funciona como um instrumento orientativo, capaz de projetar e simular diferentes cenários integrados, além de dimensionar o impacto de diferentes estratégias ao longo do tempo. Dessa forma, subsidia a formulação de planos de ação voltados à implementação das diversas alternativas de mitigação.
O acompanhamento dos indicadores é realizado com base no banco de dados ambiental internacional do setor, o GNR/GCCA, considerado o maior do mundo em um segmento industrial.
“Este monitoramento nos ajuda a avaliar periodicamente o progresso em cada um dos principais KPI’s do Roadmap, compreender quais estratégias têm se mostrado mais eficazes frente a outras, quais soluções tecnológicas se revelam mais factíveis e buscar formas de alavancar aquelas soluções que estejam prosperando mais lentamente”, ressalta Visedo.
Diálogo com construtoras, projetistas e incorporadoras
Pela primeira vez, o Roadmap brasileiro explicita o papel da cadeia da construção na descarbonização do cimento, incluindo construtoras, projetistas e incorporadoras.
“O cimento, como insumo fundamental da construção civil, tem um papel transversal na agenda de sustentabilidade da cadeia como um todo. Ao abordar, pela primeira vez, potenciais de descarbonização do cimento ao longo desta cadeia, o Roadmap simboliza um convite para a incorporação de novos atores, segmentos e especialistas para, de forma conjunta, buscarmos soluções para um objetivo comum”, afirma Gonzalo. “Quanto mais integrados estiverem os setores, maior será o alcance e mais rápido o atingimento dos objetivos.”
Desafios para sair do papel
Para que o Roadmap Net Zero se concretize, o setor aponta a necessidade de condições estruturantes claras. O documento elenca seis ações-chave para viabilizar a transição:
- Modernização regulatória e segurança jurídica;
- Apoio financeiro e incentivos econômicos direcionados;
- Integração da cadeia de valor;
- Valorização do atributo sustentável e estímulo à demanda;
- Inovação aplicada e desenvolvimento tecnológico;
- Coordenação de políticas e governança integrada.
“Todas elas, de certa forma, demandam políticas públicas específicas, aspectos regulatórios ou instrumentos financeiros habilitantes”, conclui Gonzalo Visedo.
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Gonzalo Visedo é Head de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Associação Brasileira de Cimento Portland/Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (ABCP/SNIC).
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Assessoria de imprensa: daniela.nogueira@fsb.com.br
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Whitetopping ultradelgado amplia durabilidade de vias urbanas e reduz custos de manutenção
A reabilitação de vias urbanas representa um desafio constante para gestores públicos, que precisam conciliar restrições orçamentárias com a demanda por soluções duráveis e que minimizem intervenções recorrentes no pavimento. Nesse cenário, o whitetopping ultradelgado tem se destacado como uma solução técnica e econômica para recuperar pavimentos asfálticos deteriorados, ampliando a vida útil das vias e diminuindo gastos com novas manutenções ao longo do ciclo de serviço da via.
A técnica consiste na aplicação de uma camada fina de concreto de cimento Portland diretamente sobre o asfalto existente. No caso do whitetopping ultradelgado, essa camada varia, em geral, de 5 a 10 centímetros, podendo chegar a espessuras ainda menores em estudos experimentais. Segundo o engenheiro Pedro Matiazzi da Silva, doutorando pela Unisinos e diretor regional do Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) no Mato Grosso, trata-se de uma estratégia de reabilitação consolidada no exterior e em evolução no Brasil. “O whitetopping ultradelgado é uma técnica de reabilitação de pavimentos flexíveis, em que se executa uma camada fina de concreto sobre o pavimento asfáltico para recuperar sua capacidade estrutural”, afirma.
Origem e evolução da tecnologia

Crédito: Divulgação DER
O whitetopping surgiu nos Estados Unidos ainda no século passado e começou a ser estudado no Brasil a partir da década de 1990. Com o avanço das pesquisas, a redução das espessuras tornou-se o principal foco de desenvolvimento, dando origem ao whitetopping ultradelgado.“Quando falamos em ultradelgado, estamos tratando de espessuras menores, uso de fibras e outros componentes que melhoram o desempenho do concreto”, explica.
Esses estudos buscam aprimorar propriedades como resistência mecânica, controle de fissuração, aderência entre as camadas e desempenho estrutural sob tráfego intenso, garantindo a integridade do sistema mesmo com redução das espessuras e menor consumo de material.
Vantagens técnicas e econômicas
Entre os principais diferenciais do whitetopping ultradelgado está o potencial de durabilidade superior quando comparada ao recapeamento asfáltico convencional, especialmente tratamentos superficiais como o microrevestimento. “É um material que apresenta vida útil muito maior, reduzindo significativamente a necessidade de manutenção”, destaca o engenheiro.
Do ponto de vista econômico, embora o custo inicial possa ser mais elevado, análises de custo de ciclo de vida indicam vantagens em médio e longo prazo. A maior durabilidade e a menor frequência de intervenções compensam o investimento ao longo dos anos. Além disso, o reaproveitamento do pavimento asfáltico existente reduz a necessidade de remoção integral da estrutura, diminuindo custos associados à demolição e à reconstrução. “Quando se avalia o custo ao longo do tempo, fica evidente a economia, já que a manutenção é menor e o intervalo entre intervenções é muito maior”, afirma Silva.
Outro aspecto relevante é o desempenho térmico. Superfícies de concreto tendem a apresentar maior refletância solar e menor absorção de calor quando comparadas ao revestimento asfáltico. Essa característica contribui para a redução de deformações plásticas associadas à altas temperaturas e favorece a estabilidade do pavimento sob tráfego.
Rigidez, fadiga e durabilidade

Crédito: Acervo pessoal
O comportamento estrutural do whitetopping ultradelgado está associado ao elevado módulo de elasticidade do concreto, que resulta em maior rigidez ao sistema e menor deformação sob carga. A incorporação de fibras sintéticas contribui para o controle de fissuras, aumentando a tenacidade e pode ampliar a resistência à fadiga. “Trabalhar com fibras permite aumentar o desempenho à fadiga, principalmente em espessuras menores, controlando a propagação de fissuras”, explica o pesquisador. Em termos de durabilidade, estudos indicam vida útil superior a 12, 15 e até 20 anos, superando com folga o desempenho do micro revestimento asfáltico, geralmente estimado em cerca de 10 anos.
Aderência entre camadas e novos compósitos
Um dos principais desafios técnicos do whitetopping ultradelgado é garantir a aderência entre o concreto e o pavimento asfáltico existente. Avanços recentes envolvem o preparo adequado da superfície, com controle rigoroso de limpeza e umidade, além do uso de primers e adesivos poliméricos para melhorar a ligação mecânica e química entre as camadas. “Ainda é um aspecto que precisa ser aprimorado, mas já existem estudos que indicam rugosidade ideal e técnicas eficientes para essa aderência”, ressalta Silva.
As pesquisas também avançam na redução adicional de espessura com o uso de fibras de polipropileno e PVA, além de compósitos cimentícios de alto desempenho, como os do tipo ECC, caracterizados por alta ductilidade e controle rigoroso da fissuração. No exterior, especialmente nos Estados Unidos e na China, já há aplicações experimentais com camadas entre 25 e 50 milímetros. No Brasil, esses materiais ainda enfrentam desafios de custo e execução, permanecendo principalmente no campo da pesquisa e desenvolvimento.
Estratégia para gestores públicos
Para a gestão pública, o whitetopping ultradelgado se apresenta como alternativa de planejamento de longo prazo. A redução de manutenções corretivas, os maiores intervalos entre intervenções nas vias e o aproveitamento do pavimento existente contribuem para maior previsibilidade orçamentária. Além disso, há ainda ganhos ambientais, já que a diminuição de espessura reduz o consumo de concreto e as emissões associadas à sua produção.
“Quando se pensa no longo prazo, o gestor consegue reduzir gastos não previstos com manutenção e ainda adotar uma solução mais durável e sustentável para o ambiente urbano”, conclui Silva.
Entrevistado
Pedro Matiazzi da Silva é engenheiro civil graduado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), mestrado em Arquitetura e Urbanismo com a pesquisa com foco em concreto com adição de fibras de polipropileno pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), doutorando em Engenharia Civil com o trabalho focado em desenvolvimento de compósitos cimentícios para recapeamento urbano como alternativa ao whitetopping ultradelgado também na UNISINOS. Atualmente, é diretor regional do IBRACON (Instituto Brasileiro do Concreto) no Mato Grosso, é responsável técnico da Vipp Mix e Concreart, docente no Centro Universitário Fasipe de Sinop -MT.
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