Especialistas apontam caminhos para o futuro do concreto no Brasil para acelerar a descarbonização da construção

Os principais pesquisadores mundiais em cimento e concreto reuniram-se durante o workshop internacional “Tecnologias Avançadas e Estratégias de Descarbonização para Concretos de Alta Performance”, que buscou discutir soluções práticas para uma construção mais sustentável. Organizado pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), hubIC, Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e Poli-USP, o evento reforçou a importância de novos ligantes, aplicações de baixo carbono e sistemas avançados de desempenho e durabilidade para o setor.

Paulo Monteiro, professor da University of California (EUA), apresentou um panorama do estado da arte da tecnologia do concreto. Segundo ele, o material vive uma mudança profunda: deixa de ser visto apenas como solução resistente e econômica e passa a carregar uma exigência adicional, que é a redução de emissões. “Hoje projetamos misturas com três metas simultâneas: resistência, durabilidade e baixa pegada de CO₂”, afirmou.

Monteiro destacou que os avanços mais relevantes se concentram na redução do teor de clínquer, principal responsável pelas emissões de CO2 na produção do cimento. Soluções como argilas calcinadas (LC3), escórias, pozolanas naturais e fíler calcário reativo já possibilitam reduções de 25% a 45% nas emissões, sem comprometer a performance dos concretos. “O Brasil é pioneiro no uso de argilas calcinadas combinadas com fíler calcário, e as formulações desenvolvidas na Poli-USP estão mostrando resultados particularmente promissores”, disse.

Palestrantes brasileiros e do exterior trouxeram suas experiências sobre descarbonização da construção.
Crédito: Divulgação

O professor também apontou avanços significativos na química dos aditivos, que vêm viabilizando concretos com maior fluidez, elevada resistência e aplicações inovadoras, como a impressão 3D. Segundo ele, a inteligência artificial deve promover um salto de eficiência no setor: “A aplicação de IA no controle em tempo real e na previsão de desempenho terá impacto profundo na forma como projetamos o concreto no futuro”, afirmou.

LC3 em pavimentação: desempenho superior e durabilidade aprimorada

Outra contribuição técnica relevante foi apresentada pela professora Keijin Wang, da Iowa State University (EUA), que abordou o desempenho do concreto para pavimentação com ligantes mistos inspirados no LC3. A pesquisadora destacou que combinações de cimento Portland, fíler calcário e argilas calcinadas, usando materiais regionais, já apresentam desempenho técnico consistente.

Segundo Keijin, em misturas com 20% a 30% de argila calcinada, o concreto do tipo LC3 desenvolve microestrutura mais densa e alcança maiores resistências em idades avançadas, o que reduz a penetração de umidade e íons agressivos, aumentando a durabilidade. Ela destacou ainda que, embora essas misturas demandem maior dosagem de aditivos superplastificantes e apresentem tempo de pega ligeiramente mais lento, o desempenho final supera o de concretos convencionais atualmente empregados em pavimentação.

A pesquisadora destacou ainda o primeiro caso prático de aplicação de um pavimento LC3, cuja mistura apresentoubom desempenho durante a execução com formas deslizantes e manteveaspecto superficial satisfatório após um ano de exposição às condições de inverno.

Entre as vantagens desse material, ela ressaltou a baixa emissão de carbono, a elevada resistência final e a maior eficiência na contenção da penetração de íons agressivos. Entre os desafios, estão a sensibilidade à cura e a limitada experiência em aplicações em larga escala, fatores que reforçam a necessidade de estudos adicionais.

Concreto reforçado com fibras: soluções para pavimentação avançada

Evento reforçou a importância de novos ligantes, aplicações de baixo carbono e sistemas avançados de desempenho e durabilidade.
Crédito: Divulgação

Já a pesquisadora Somayeh Nassiri, da University of California (EUA) destacou os avanços dos concretos reforçados com fibras (FRC) em aplicações de pavimentação e reabilitação de vias, tecnologia que vem sendo adotada de forma crescente nos Estados Unidos. Segundo ela, "o uso de macrofibras de aço ou sintéticas melhoram a capacidade pós-fissuração e contribuem para a redução da formação de trincas e fissuras”.

Ela também apresentou pesquisas envolvendo nanofibras de quitina e celulose, que, mesmo em dosagens baixíssimas (0,05% a 0,1%), promovem incrementos expressivos em resistência à flexão, tenacidade à fratura e mitigação da reação álcali-sílica.

A pesquisadora destacou ainda o potencial do uso de fibras recicladas de GFRP (Glass Fiber Reinforced Polymer) provenientes de pás de turbinas eólicas, agregando desempenho e sustentabilidade ao reaproveitar resíduos industriais. Porém, ela alerta que os métodos atuais de projeto ainda não capturam totalmente os benefícios do CRF, o que dificulta a justificativa de custos adicionais. “Precisamos de mais testes em campo e laboratório para quantificar os ganhos no ciclo de vida”, afirmou.

Em convergência, os especialistas reforçaram a importância de uma transição baseada em ciência, inovação e uso inteligente dos materiais. Tecnologias como LC3, concretos de alta performance, fibras avançadas e aditivos de nova geração apontam para um futuro no qual baixo carbono e o alto desempenho avançam de forma integrada. O workshop evidenciou que o Brasil reúne condições reais de liderança, tanto na pesquisa de microestrutura quanto na adoção de novos ligantes em escala industrial. Como sinalização ao setor, o debate apontou que para o cumprimento das metas globais de descarbonização, será preciso acelerar a implementação dessas soluções nos próximos anos.

Fonte

Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)

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daniela.nogueira@fsb.com.br (Assessoria de Imprensa)

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Ana Carvalho
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Construção civil deve ganhar fôlego em 2026

Após um ano de desaceleração em 2025, a construção civil entra em 2026 com perspectivas mais favoráveis, embora ainda cercadas de riscos. A avaliação é da economista Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV/ Ibre, que destaca a combinação de condicionantes positivas e negativas no cenário para o próximo ano. Em um cenário-base (nem pessimista, nem otimista), o FGV/Ibre estima que o PIB da construção deva crescer 2,7% em 2026.

“O ponto de partida para 2026 é um cenário mais equilibrado. Temos fatores que pressionam negativamente, como juros ainda elevados e incertezas globais, mas também um conjunto de vetores positivos que podem sustentar uma retomada mais consistente da atividade”, afirma.

Riscos permanecem no radar

Entre os fatores de risco, Ana Maria aponta a desaceleração do consumo observada ao longo de 2025, o ambiente fiscal doméstico, as incertezas geopolíticas e a manutenção de taxas de juros em patamar elevado por boa parte do ano. “Surpresas negativas no cenário internacional se tornaram recorrentes e continuam interferindo nas decisões de investimento”, ressalta.

Apesar disso, a economista observa sinais de inflexão no ciclo monetário. A expectativa de início do processo de queda dos juros ao longo de 2026, ainda que gradual, é considerada relevante para o setor, especialmente para a retomada das obras das famílias.

Reforma tributária deve ajudar na industrialização, mas efeitos devem aparecer somente a médio prazo.
Crédito: Envato

Expectativas melhoram, apesar do pessimismo moderado

As sondagens do FGV Ibre mostram que, embora consumidores e empresários ainda permaneçam em um patamar moderadamente pessimista, a construção civil apresenta expectativas mais favoráveis do que outros setores da economia. Em novembro de 2025, o indicador de expectativa do setor permaneceu acima do nível observado no conjunto da indústria e dos serviços.

“Houve melhora nas expectativas de demanda e, com isso, também nas intenções de contratação para os próximos meses, especialmente nos segmentos de infraestrutura e serviços especializados”, explica Ana Maria Castelo.

Infraestrutura segue como principal motor

Um dos pilares do crescimento em 2026 deve continuar sendo a infraestrutura. Projeções da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) indicam que os investimentos no setor podem atingir R$ 300 bilhões, estabelecendo um novo recorde histórico.

Segundo Ana Maria, esse desempenho é sustentado por um ciclo de projetos já contratados, além de novos leilões previstos. “Grande parte desses investimentos é puxada pelo setor privado, o que reduz a dependência do orçamento público e dá mais previsibilidade ao ciclo”, afirma.

Reforma Casa Brasil pode impulsionar atividade e emprego

Outro destaque para 2026 é o Programa Reforma Casa Brasil, que prevê R$ 40 bilhões em crédito facilitado e assistência técnica para reformas e melhorias habitacionais. Caso o montante seja integralmente executado em um único ano, o impacto potencial sobre o PIB da construção é estimado em R$ 17,7 bilhões, o equivalente a 4,9% do PIB setorial de 2024.

Além disso, o programa pode gerar cerca de 84 mil empregos formais e 250 mil postos no setor informal, atingindo tanto a autoconstrução quanto empresas prestadoras de serviços. “É um programa com capacidade de transbordamento para os dois lados do PIB da construção, ampliando emprego e renda”, destaca a economista.

Famílias voltam ao centro do crescimento

A principal diferença entre 2025 e 2026, segundo a FGV, está no comportamento das famílias. Após um ano de estabilidade, provocado pela postergação de obras e reformas diante dos juros elevados, a expectativa é de retomada.

“No cenário-base, projetamos crescimento de 2,7% do PIB da construção em 2026, com desempenho das empresas em linha com 2025, mas com uma recuperação importante da demanda das famílias”, afirma Ana Maria Castelo. A estimativa considera avanço de cerca de 2,6% no consumo das famílias, após estagnação no ano anterior.

A FGV trabalha ainda com um cenário pessimista, de crescimento de 1,3%, e um cenário otimista, de 3,4%, a depender principalmente do ritmo de queda dos juros e da efetivação dos programas de crédito.

Escassez de mão de obra segue como desafio

Apesar da perspectiva de crescimento, a economista alerta para um gargalo estrutural que deve se intensificar: a escassez de mão de obra qualificada. A sondagem da FGV Ibre mostra que a limitação relacionada ao mercado de trabalho segue como uma das principais restrições ao avanço dos negócios no setor.

“Se a atividade voltar a acelerar, a pressão sobre o mercado de trabalho será ainda maior. Esse é o grande desafio para sustentar o crescimento nos próximos anos”, avalia.

Um ano de transição

Para Ana Maria Castelo, 2026 deve ser um ano de transição para a construção civil. “Há condições mais favoráveis do que em 2025, mas o setor ainda opera em um ambiente complexo. A retomada dependerá muito do comportamento das famílias, do custo do crédito e da capacidade das empresas de lidar com a escassez de mão de obra”, comenta.

A reforma tributária é apontada como um dos fatores que podem ajudar a mitigar a escassez de mão de obra no setor, ao estimular a industrialização da construção. Em 2026, no entanto, o novo modelo ainda estará em fase de transição.

“Neste primeiro ano, será apenas uma amostra do que virá pela frente. Trata-se de um período de adaptação que, ainda assim, favorece claramente a industrialização. A indústria da construção tem consciência de que não há outro caminho senão o aumento da produtividade, diante da falta de mão de obra”, afirma Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia do SindusCon-SP.

Segundo ele, estudos do setor indicam que a idade média do trabalhador da construção civil gira em torno de 40 a 41 anos e não vem sendo renovada. “Há um esforço para tornar o trabalho nos canteiros mais atrativo, mas será indispensável ampliar os investimentos em modulação e industrialização para sustentar a produtividade nos próximos anos. A reforma tributária contribui para esse processo, embora seus principais efeitos devam se materializar no médio prazo”, conclui.

Fontes

Ana Maria Castelo é coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Eduardo Zaidan é vice-presidente de Economia do SindusCon-SP.

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ana.castelo@fgv.br

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Sinduscon-CE lança guia pioneiro e estratégico para acelerar a descarbonização na construção civil

O Sinduscon Ceará apresentou o Guia de Descarbonização na Construção Civil, considerado o primeiro documento técnico brasileiro a reunir, de forma estruturada, recomendações práticas para apoiar empresas e profissionais na redução efetiva das emissões de carbono. A publicação nasce como resposta ao avanço da agenda climática e ao papel estratégico que o setor ocupa na economia e no desenvolvimento urbano.

De acordo com o presidente do Sinduscon-CE, Patriolino Dias de Sousa, a iniciativa reflete o reconhecimento de que o setor da construção civil precisa assumir responsabilidades ambientais com visão de longo prazo e foco em inovação. “O guia surge como um marco que simboliza a abertura de um caminho pautado pela inovação e pela responsabilidade, entendendo a descarbonização como uma oportunidade única para repensar processos e modernizar práticas em toda a cadeia produtiva”, destaca.

O caráter pioneiro da iniciativa é reconhecido nacionalmente. Pela primeira vez, uma publicação setorial consolida conceitos técnicos, diretrizes estratégicas, boas práticas e KPIs obrigatórios para apoiar construtoras na transição para modelos de produção mais sustentáveis. “Ele é inédito porque reúne orientações práticas e estratégicas para reduzir emissões de carbono, consolidando medidas fundamentais e servindo como exemplo de compromisso, liderança e vanguarda do setor produtivo”, reforça Sousa.

Guia ajuda empresas a comparar, promovendo boas práticas rumo à descarbonização do setor
Crédito: Envato

Conteúdo técnico e orientações aplicáveis

O Guia de Descarbonização estrutura sua proposta em três eixos fundamentais: projeto, execução e operação. O objetivo é permitir que cada etapa do ciclo de vida de um empreendimento contribua para a redução de emissões. Entre os principais pontos abordados, estão:

- Priorização de materiais de baixa emissão e soluções industrializadas;

- Eficiência energética desde o anteprojeto;

- Uso de energias limpas nos canteiros;

- Reuso de água, logística reversa e controle rigoroso de resíduos;

- Manutenção preventiva e medição individualizada na fase operacional.

Além disso, o documento apresenta conceitos como o Protocolo GHG (Greenhouse

Gas Protocol) – onde as emissões são classificadas em três escopos – e Declaração Ambientais de Produto (DAP), promovendo padronização e permitindo a comparação entre diferentes obras. “O guia é um manual que organiza conceitos essenciais, estabelece KPIs obrigatórios e reforça boas práticas para viabilizar a descarbonização”, aponta o presidente do Sinduscon-CE.

Medir, reduzir e integrar: pilares da transformação

As orientações práticas são organizadas em três grandes diretrizes estratégicas:

- Mensurar para reduzir: incentivo ao monitoramento contínuo das emissões desde o projeto até o fim da obra. Nesse sentido, ferramentas como a calculadora de carbono disponibilizada pelo Sinduscon-CE ajudam a embasar decisões.

- Adotar soluções eficientes: tecnologias, processos e materiais de menor impacto devem ser incorporados desde o início.

- Trabalhar com agenda integrada: clima, biodiversidade, uso racional de recursos e economia circular passam a ser dimensões centrais da estratégia empresarial.

Segundo a entidade, sustentabilidade precisa ser encarada como equilíbrio entre impacto ambiental, viabilidade econômica e valor social, alinhando o Guia às práticas internacionais de ESG (Environmental, Social and Governance).

Desafios estruturais exigem inovação

Apesar dos avanços, o setor enfrenta desafios históricos. Materiais como básicos como aço e concreto são responsáveis por grande parte das emissões de carbono do setor, o que evidencia a necessidade de soluções tecnológicas, pesquisa aplicada e novos materiais. Além disso, a agenda regulatória também exige atenção, abrangendo temas como taxonomia verde, Plano Prima, eficiência energética e cidades resilientes. “Descarbonizar requer coragem para enfrentar problemas complexos e disposição real para desenvolver soluções e processos mais eficientes”, afirma.

O Guia de Descarbonização está disponível para acesso aberto em guiadescarbonizacao.sindusconce.com.br e deve servir de referência nacional para empresas que buscam alinhar produtividade, responsabilidade ambiental e competitividade.

Entrevistado

Patriolino Dias de Sousa é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), pós-graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), sendo diretor executivo da Dias de Sousa Construções. Atualmente, é presidente do Sinduscon Ceará.

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Pesquisa CNT de Rodovias 2025 evidencia gargalos estruturais

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, divulgada em dezembro de 2025, confirma que a infraestrutura rodoviária brasileira ainda enfrenta desafios estruturais significativos, apesar de avanços pontuais observados nos últimos anos. O levantamento avaliou 114.197 quilômetros da malha rodoviária pavimentada do país, analisando critérios técnicos relacionados ao pavimento, à sinalização e à geometria das vias, elementos que compõem o indicador de estado geral das rodovias.

Segundo o levantamento nacional, financiado pelo SEST SENAT, 37,9% da malha avaliada (43.301 km) foi classificada como Ótima ou Boa em 2025, frente a 33,0% em 2024 (36.814 km), o que representa uma melhora de quase 5 pontos percentuais. Já a proporção de trechos em condição Ruim ou Péssima recuou de 26,6% (29.776 km) para 19,1% (21.804 km), queda de 7,5 pontos percentuais. A categoria Regular permaneceu praticamente estável, passando de 40,4% (45.263 km) para 43,0% (49.092 km). De acordo com o estudo, “a situação Regular de uma rodovia sinaliza um estágio inicial de deterioração que pode evoluir para estados mais críticos, como Ruim ou Péssimo, caso não haja intervenção”.

Para o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, as concessões realizadas em 2025 foram decisivas para melhorar a qualidade das rodovias brasileiras. “Elas trouxeram investimentos em manutenção e modernização, aumentando a segurança e o conforto dos usuários. Esse modelo complementa os esforços do poder público e garante vias melhores para o desenvolvimento do país”, afirma.

Pavimento segue como principal fator de impacto operacional

O pavimento permanece como o elemento de maior influência sobre o desempenho das rodovias. Segundo a CNT, mais da metade da extensão avaliada apresenta condições que variam entre regular e péssima, com ocorrência de defeitos como trincamentos, afundamentos e perda de aderência superficial. Essas manifestações patológicas elevam o custo operacional do transporte, aumentam o consumo de combustível e reduzem a vida útil dos veículos.

A pesquisa estima que a má qualidade do pavimento gera um aumento médio de 31,2% no custo operacional do transporte rodoviário no Brasil, além de provocar desperdício superior a 1,2 bilhão de litros de diesel por ano, com impacto direto nas emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), dentre as estradas pavimentadas no Brasil, apenas 2 a 3% são pavimentadas em concreto.  “Esta técnica já existe há mais de 100 anos. Aqui no Brasil, somente nos últimos 10 – 15 anos que ele passou a ser usado em maior volume”, afirma Dejalma Frasson Junior, gerente da Regional Sul da ABCP.

Cabe ressaltar que o pavimento de concreto se destaca pela alta durabilidade e menor intercorrências de utilização – quando projetado e executado de maneira correta – ao comparar com os demais sistemas de pavimentação, principalmente ao flexível. Dentre os principais benefícios, destacam-se:

  • Vida útil significativamente maior que a do pavimento flexível;
  • Redução de custos com manutenções;
  • Diminuição das intervenções de manutenção, o que reduz congestionamentos e consumo de combustíveis;
  • Maior conforto térmico;
  • Desempenho técnico garante redução na distância de frenagem em até 40%, aumentando a segurança nas estradas;
  • Reciclável ao fim da vida útil e aliado a processos como o coprocessamento de resíduos.

Pavimento de concreto se torna alternativa sustentável para rodovias

Deficiências em sinalização e geometria ampliam riscos

Além do pavimento, a pesquisa aponta problemas recorrentes na sinalização viária, especialmente em rodovias sob gestão pública direta. Trechos sem faixas centrais ou laterais, placas desgastadas e sinalização mal posicionada comprometem a segurança operacional, sobretudo em rodovias de pista simples.

Já a geometria das vias segue como um gargalo histórico. A predominância de pistas simples, curvas com raio inadequado, ausência de acostamentos e falta de dispositivos de segurança contribuem para a elevação dos índices de acidentes. Em 2025, a CNT identificou 2.146 pontos críticos na malha rodoviária nacional, muitos deles associados diretamente a deficiências geométricas.

Concessões apresentam melhor desempenho técnico

Assim como em edições anteriores, a Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostra que rodovias concedidas à iniciativa privada apresentam desempenho técnico superior, com melhores índices de conservação, sinalização e segurança viária. Atualmente, 30.130 km da malha avaliada estão sob concessão, o equivalente a 26,4% do total pesquisado, enquanto os trechos sob gestão pública concentram os piores indicadores.

Para a CNT, a complementaridade entre investimentos públicos e privados é fundamental para garantir previsibilidade, manutenção contínua e modernização da infraestrutura rodoviária.

Desempenho no Paraná

Paraná apresenta desempenho acima da média, mas enfrenta desafios de geometria
Crédito: Roberto Dziura Jr/AEN

No recorte estadual, o Paraná se destaca positivamente em relação à média nacional, mas ainda apresenta gargalos técnicos relevantes. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 avaliou 6.601 km no estado, correspondentes a 5,8% da extensão total analisada no país.

O estado geral das rodovias paranaenses mostra que 48,6% da malha foi classificada como ótima ou boa, enquanto 42,5% aparecem como regulares e apenas 8,9% como ruins ou péssimas, desempenho superior ao observado no cenário nacional.

O pavimento é um dos principais pontos fortes do estado: 50,2% da extensão avaliada apresenta condição ótima ou boa, reflexo de investimentos contínuos, especialmente em rodovias concedidas. Ainda assim, a elevada proporção de trechos classificados como regulares indica a necessidade de manutenção preventiva para evitar o avanço da degradação estrutural. Vale lembrar que, de acordo com o Governo do Estado, hoje são 755 quilômetros de rodovias com obras de pavimentação ou duplicação em concreto em diferentes fases de execução em todo o Paraná. O número representa um aumento de mais de 50% em apenas seis meses, no comparativo com os 500 quilômetros deste tipo de pavimento registrados em junho de 2025. O investimento total já é superior a R$ 3,3 bilhões.

Na sinalização, o Paraná também se destaca, com 70,6% da extensão classificada como ótima ou boa. Contudo, persistem falhas pontuais, como a ausência de faixa central em 2,9% dos trechos e de faixas laterais em 6,2%, fatores que impactam diretamente a segurança viária.

O principal desafio técnico no estado está relacionado à geometria das vias. Apenas 45,5% da extensão avaliada foi classificada como ótima ou boa, enquanto 27,8% aparecem como ruins ou péssimas. A predominância de pistas simples (77,2%) e a falta de acostamento em 44,9% dos trechos comprometem a fluidez do tráfego e elevam o risco de acidentes, sobretudo em corredores logísticos estratégicos.

Segundo a CNT, as condições do pavimento no Paraná geram um aumento médio de 24% no custo operacional do transporte, reforçando a importância de políticas contínuas de conservação, requalificação geométrica e ampliação de investimentos estruturantes.

Fontes

Vander Costa é presidente do Sistema Transporte.

Dejalma Frasson Junior é gerente da Regional Sul da ABCP.

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Assessoria de imprensa CNT: imprensa@cnt.org.br

Dejalma Frasson Junior: dejalma.frasson@abcp.org.br

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Novos edifícios terão normas para reduzir a sensação térmica

A construção civil brasileira passará por uma transformação gradual, porém estrutural, a partir de 2027. Uma nova resolução federal estabelece Índices Mínimos de Eficiência Energética para edificações, tornando obrigatória a adoção de critérios que reduzam o consumo de energia sem comprometer conforto, segurança e qualidade dos ambientes. As mudanças estão previstas na Resolução CGIEE nº 4, de 26 de setembro de 2025.

A medida atinge novos projetos de edificações públicas, comerciais e residenciais, com cronograma escalonado até 2040, permitindo adaptação de profissionais, empresas e gestores públicos. A proposta é alinhar o Brasil a padrões internacionais de eficiência, ao mesmo tempo em que promove economia de energia, conforto térmico e resiliência climática.

Atualmente, a construção civil conta com um sistema voluntário de classificação de eficiência energética, semelhante ao adotado para eletrodomésticos. Com esta nova resolução, essa classificação passará a ser obrigatória para novas edificações.

O que são os índices mínimos?

Os índices funcionam como padrões obrigatórios de desempenho energético, semelhantes aos já existentes para equipamentos como geladeiras e aparelhos de ar-condicionado. No caso das edificações, o objetivo é garantir que os projetos utilizem menos energia para oferecer o mesmo nível de conforto e funcionalidade.

Na prática, isso envolve desde soluções de projeto — como ventilação cruzada, iluminação natural e sombreamento — até a especificação de materiais e sistemas mais eficientes.

O edifício Oás reúne soluções como proteção contra a insolação, películas de baixa emissividade, ventilação cruzada e iluminação elétrica de alto desempenho.
Crédito: Divulgação GT Building

Quem será obrigado a cumprir as regras

A obrigatoriedade entra em vigor em 2027, com novas construções de edifícios públicos federais, que deverão atingir desempenho equivalente ao nível A da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE), o mais eficiente da escala que varia de A a E. Para o Rio Grande do Sul, contudo, a implementação dessa exigência foi postergada para 2028, em virtude da situação de calamidade pública enfrentada recentemente pelo estado.

A partir de 2030, a exigência se estende a edifícios comerciais, residenciais e de habitação de interesse social (HIS) em cidades com mais de 100 mil habitantes. O cronograma segue até 2040, quando todas as novas edificações públicas, comerciais e residenciais em municípios com mais de 50 mil habitantes deverão atender aos índices mínimos.

Edificações privadas deverão alcançar, no mínimo, o nível C da ENCE, que, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), corresponde basicamente ao cumprimento de normas técnicas já vigentes. Projetos que atingirem nível A poderão receber o Selo Procel Edificações.

Habitação social também entra no radar

Um dos pontos centrais da regulamentação é a inclusão progressiva das Habitações de Interesse Social (HIS). A partir de 2030, moradias financiadas ou executadas com recursos públicos deverão incorporar critérios mínimos de eficiência energética, o que pode resultar em contas de luz mais baixas, melhor ventilação e maior conforto térmico, especialmente em regiões quentes e com infraestrutura precária.

Obras em andamento não serão afetadas

A regulamentação não terá efeito retroativo. Projetos já aprovados ou obras em andamento não precisarão se adequar às novas regras. As exigências valem apenas para novos projetos protocolados após a entrada em vigor da norma, garantindo uma transição planejada e sem impacto imediato sobre empreendimentos em execução.

Eficiência não exige grandes obras

Segundo o documento, não são necessárias intervenções complexas ou de alto custo para alcançar eficiência energética. Estratégias simples de projeto, como o correto posicionamento de janelas, o aproveitamento da iluminação natural, a ventilação cruzada e o sombreamento adequado de fachadas, são capazes de reduzir significativamente a necessidade de climatização artificial.

Em novos projetos, soluções estruturais — como materiais com maior resistência térmica, vidros eficientes e estratégias bioclimáticas adequadas à região — podem ser incorporadas de forma gradual.

Impacto econômico e ambiental

Além da redução do consumo energético, a regulamentação deve impulsionar a modernização da cadeia produtiva da construção civil, estimulando tecnologias inovadoras, sistemas construtivos mais eficientes e atualização de normas técnicas.

Estudos do MME indicam que, até 2030, atividades ligadas à eficiência energética podem gerar mais de 1,2 milhão de empregos diretos e indiretos, além de contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa, valorização imobiliária e atração de investimentos.

Exemplos de eficiência energética

No âmbito da administração pública, Alexandra Maciel, coordenadora do Grupo Técnico para Eficientização de Energia em Edificações do Ministério de Minas e Energia, compartilhou o exemplo do edifício do Ministério da Saúde – Bloco O da Esplanada.

“Este edifício é uma referência para toda a Esplanada, por ter passado pelo processo de etiquetagem e recebido a classificação A — o nível máximo de eficiência energética para edificações. Esse prédio reúne uma série de soluções adaptadas ao clima de Brasília, como estratégias de proteção contra a insolação, uso de películas de baixa emissividade e intervenções na reforma interna que ampliaram o aproveitamento da iluminação natural. Soma-se a isso um sistema de ar-condicionado eficiente, plantas livres que permitem ventilação cruzada quando o ar não está em uso e um sistema de iluminação elétrica de alto desempenho”, afirma Alexandra.

Em Curitiba (PR), o OÁS, empreendimento que está sendo executado com concreto da Concrebras, deve utilizar algumas estratégias de eficiência energética e já conquistou algumas certificações, incluindo GBC Condomínio, LEED, PBE Edifica e Fitwel. Uma destas estratégias é a fachada ventilada. De acordo com a construtora GT Building, ela é formada por camadas independentes. Uma estrutura de sustentação é ancorada à parede impermeabilizada da edificação, criando um espaço de ar entre o revestimento externo e a parede. Esse espaço permite uma ventilação natural contínua, conhecida como ‘efeito chaminé’, que reduz a absorção e a transferência de calor para o interior do edifício. A ventilação constante impede o acúmulo de calor e umidade entre as camadas, prolongando a vida útil dos materiais e evitando problemas comuns nas fachadas convencionais.

“Estudos realizados para o Oás comprovaram uma redução de até 5 °C nas temperaturas internas em comparação às fachadas convencionais — resultado alcançado de forma totalmente passiva, sem o uso de sistemas de climatização. Essa eficiência térmica pode representar economia de cerca de 30% no consumo de energia elétrica com ar-condicionado, especialmente nos períodos de mais calor”, destaca o diretor de operações da GT Building, Maurício Fassina.

Fontes

Maurício Fassina é diretor de operações da GT Building.

Alexandra Maciel, coordenadora do Grupo Técnico para Eficientização de Energia em Edificações do Ministério de Minas e Energia. 

Contatos

GT Building - centralpress@centralpress.com.br

Ministério de Minas e Energia -  imprensa@mme.gov.br

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Construção civil deve encerrar o ano com alta de 1,8% no PIB

Após um desempenho robusto em 2024, a construção civil apresentou perda de ritmo em 2025, embora tenha mantido crescimento. De acordo com estimativas do FGV Ibre com base em dados do IBGE, o PIB da construção deve encerrar o ano com alta de 1,8%, abaixo do avanço de 4,4% registrado no ano anterior, refletindo um ambiente mais desafiador, marcado por juros elevados, desaceleração do consumo das famílias e custos pressionados.

Segundo a economista Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o cenário já era esperado. “Em dezembro de 2024, nossa avaliação era de que 2025 seria um ano mais difícil, especialmente por conta do patamar elevado da taxa de juros, apesar de o setor ainda carregar os efeitos de um ciclo recente relativamente forte”, afirma.

Indicadores de atividade mostram resiliência

Mesmo com a desaceleração, alguns indicadores apontam resiliência da atividade. O consumo de cimento, considerado um dos principais termômetros do setor, cresceu 3,6% no acumulado do ano, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC). Em 12 meses, a alta foi de 3,2%, indicando continuidade das obras, especialmente na infraestrutura e no mercado habitacional popular.

Já a indústria e o comércio de materiais de construção apresentaram desempenho mais fraco. No acumulado do ano, a indústria registrou estabilidade, enquanto o comércio registrou leve retração, refletindo a redução das despesas das famílias com obras e reformas. Do total produzido pela indústria de materiais, 47% têm como destino direto o consumo das famílias, o que reforça o impacto da desaceleração desse segmento sobre a cadeia produtiva.

Emprego desacelera, mas segue acima da média da economia

No mercado de trabalho, o ritmo de contratações perdeu fôlego, mas permaneceu positivo. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, nos últimos 12 meses até outubro, o emprego formal no setor cresceu 2,84%.

Dados da CBIC indicam alta de 8,4% nos lançamentos e de 5% nas vendas no mercado nacional.
Crédito: Envato

A escassez de mão de obra qualificada e a demanda insuficiente continuaram entre os principais entraves apontados pelas empresas. Até outubro, a construção civil empregava mais de 3 milhões de trabalhadores no Brasil, sendocerca de 365 mil no estado de São Paulo.

“A construção continua contratando mais do que demitindo, mesmo com a desaceleração observada ao longo do ano”, destaca Ana Maria Castelo.

Mercado imobiliário segue aquecido, com forte assimetria

O mercado imobiliário manteve crescimento em 2025, ainda que de forma desigual entre os segmentos. No acumulado de janeiro a outubro, dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) indicam alta de 8,4% nos lançamentos e de 5% nas vendas no mercado nacional.

Em São Paulo, o desempenho foi ainda mais expressivo. Segundo o Sindicato da Habitação, Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Estado de São Paulo (Secovi-SP), os lançamentos cresceram 41%, enquanto as vendas avançaram 10% na comparação anual, movimento impulsionado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

“O crescimento está concentrado nas duas pontas do mercado: o Minha Casa, Minha Vida e os imóveis de maior valor. O segmento intermediário segue mais pressionado pelas condições de crédito”, explica a economista.

Crédito recua fora do MCMV

O crédito imobiliário com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) apresentou retração significativa em 2025. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), as contratações para financiamento à construção caíram 48,9%, enquanto os financiamentos para aquisição recuaram 7,4%, resultando em uma redução total de 21,4% no ano.

Infraestrutura sustenta parte do crescimento

Na infraestrutura, por outro lado, as expectativas positivas se confirmaram. O Brasil deve encerrar 2025 com cerca de R$ 277 bilhões em investimentos, em valores nominais, o que representa um crescimento de 3,9%. O desempenho é sustentado pelo protagonismo do setor privado, impulsionado por concessões e leilões realizados nos últimos anos.

Custos seguem pressionados

A pressão de custos continuou elevada ao longo do ano, principalmente por conta da mão de obra. O INCC-M, calculado pela FGV Ibre, acumulou alta de 6,41% em 12 meses até novembro. Entre as capitais, São Paulo apresentou a maior variação, refletindo um mercado de trabalho mais aquecido e maior escassez de trabalhadores qualificados.

Confiança empresarial recua

Esse ambiente mais desafiador também se refletiu na confiança das empresas. A Sondagem da Construção do FGV Ibre aponta aumento das restrições relacionadas à mão de obra e aos custos, ao mesmo tempo em que o índice de confiança recuou ao longo de 2025. “As empresas encerram o ano mais cautelosas, embora os últimos dados indiquem uma leve melhora na margem”, conclui Ana Maria Castelo.

Fonte

Ana Maria Castelo é coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

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ana.castelo@fgv.br

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Tratamento de partículas finas de concreto com CO₂: a rota de mineralização que viabiliza o uso de materiais cimentícios de baixo carbono

A descarbonização da cadeia produtiva do cimento e do concreto configura-se como um dos maiores desafios da construção civil. Nesse cenário, pesquisas associam eficiência técnica, circularidade e captura permanente de carbono, vêm ganhando destaque. Entre elas, destaca-se o estudo desenvolvido por Kathleen Dall Bello de Souza Risson, engenheira e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Foz do Iguaçu, que investigou o tratamento de partículas finas de concreto com dióxido de carbono (CO₂), por meio de uma rota conhecida como mineralização ou carbonatação acelerada.

“Busquei entender como partículas muito finas, menores que 0,15 mm, provenientes da reciclagem de Resíduos da Construção e Demolição (RCD), poderiam capturar CO2 e, ao mesmo tempo, gerar materiais aptos a substituir parte do cimento”, explica Kathleen.

O trabalho analisou pós obtidos por moagem de corpos de prova de concreto e de RCD misto (resíduos cerâmicos e cimentícios), observando comportamento, desempenho e capacidade de fixação de CO2 em cada tipo de material.

Tratamento na câmara de CO2.
Crédito: Acervo Pessoal

Como funciona a mineralização com CO2

O processo de carbonatação mineral consiste em um mecanismo físico-químico que transforma CO2 em carbonatos estáveis, a partir de sua reação com minerais contendo cálcio e magnésio.

Na pesquisa, essa técnica foi aplicada em uma câmara de carbonatação do tipo gás–sólido, no qual pós previamente umidificados foram submetidos a condições controladas de temperatura, concentração de CO2 e umidade. “Em condições otimizadas, o pó de concreto conseguiu capturar entre 10 e 13 kg de CO2 por tonelada em apenas 30 minutos, chegando a quase 30 kg por tonelada após 24 horas”, relata a pesquisadora.

Após o tratamento, os materiais foram secos e utilizados como materiais cimentícios suplementares (MCS). Os resultados mostraram-se expressivos: o pó mineralizado apresentou potencial para substituir até 25% do cimento convencional, mantendo níveis de resistência mecânica equivalentes aos de um cimento classe C32 aos 28 dias.

Sustentabilidade comprovada por indicadores ambientais

A rota estudada por Kathleen não apenas melhora a qualidade das partículas finas, como também reduz a pegada de carbono da construção civil. Para mensurar esse ganho ambiental, foi utilizado o Índice de Carbono (CI), obtido pela divisão entre o total das emissões de CO2, em (kg.CO2) gerado pela produção e transporte de todos os materiais usados na produção de 1 m³ de argamassa, e a resistência à compressão da argamassa obtida aos 28 dias. Ou seja: (IC kg.CO2/m³/MPa).

Corpos de prova de concreto que geraram os pós de concreto.
Crédito: Acervo Pessoal

Segundo a pesquisadora, “os pós carbonatados apresentaram um CI de 10,59 kg.CO2/m³/MPa, uma redução de 7% em relação ao pó não tratado e valor inferior ao observado para o cimento comercial CP II-F 32”. Esse resultado evidencia uma solução tecnicamente viável e ambientalmente competitiva, capaz de assegurar desempenho mecânico equivalente, reduzir a intensidade das emissões de carbono e promover o reaproveitamento de resíduos anteriormente tratados como passivos ambientais.

Impactos diretos e indiretos para a construção civil

A aplicação dessa tecnologia está alinhada aos principais roadmaps de descarbonização do setor, os quais convergem para estratégias integradas que combinam captura de carbono, redução do fator clínquer e substituição de matérias-primas convencionais. “Transformar resíduos em recursos, fixar CO2 de forma permanente e gerar um material com potencial real de mercado é um salto tecnológico significativo”, afirma Kathleen.

Além de aprimorar o desempenho ambiental das empresas, a mineralização cria oportunidades para o desenvolvimento de modelos de negócios baseados na economia circular, ao mesmo tempo em que pode contribuir para políticas públicas voltadas à circularidade e à inserção do setor da construção no mercado de carbono no Brasil.

No âmbito das aplicações práticas, o pó mineralizado apresenta potencial de utilização em produtos cimentícios sem função estrutural, tais como pavimento intertravado de concreto, revestimentos, bancos, guias e mobiliário urbano. “Para viabilizar a expansão industrial, será necessário integrar recicladoras, concreteiras e fabricantes de artefatos em novos arranjos produtivos”, destaca a pesquisadora.

Uma rota promissora para o futuro

Pesquisadora Kathleen Dall Bello de Souza Risson
Crédito: Acervo Pessoal

O estudo desenvolvido no Instituto Federal do Paraná (IFPR) e na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) demonstra que amineralização de CO2 em partículas finas de concreto é tecnicamente viável, ambientalmente vantajosa e estrategicamente alinhada às necessidades de um setor que busca soluções eficazes e de rápida implementação para mitigar emissões. “Já avançamos também em pesquisas com outros resíduos e agregados. Ampliar essa tecnologia é fundamental para fortalecer soluções sustentáveis dentro da cadeia do concreto”, afirma Kathleen.

Cada avanço nessa área contribui para aproximar o setor da construção civil de um modelo produtivo de menor intensidade de emissão, mais circular e tecnicamente mais eficiente, consolidando um percurso no qual inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental se integram de forma indissociável.

Entrevistada

Kathleen Dall Bello de Souza Risson é graduada em Engenharia Civil pela Faculdade Dinâmica das Cataratas (UDC), especialista em Gerenciamento e Execução de Obras (UDC) e em Docência da Educação Profissional e Tecnológica (IFPR), mestre em Engenharia de Edificações e Saneamento pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Energia e Sustentabilidade pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Atua como docente EBTT e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Foz do Iguaçu. Desenvolve pesquisas nas áreas de obtenção, processamento, caracterização e tratamento de resíduos para uso como material cimentício suplementar; mineralização de CO2 em resíduos sólidos como tecnologia para mitigação das emissões de carbono; e dosagem e performance de pavimentos em concreto permeável.

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kathleen.souza@ifpr.edu.br

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Ana Carvalho
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Pavimentos permeáveis de concreto avançam no país como solução técnica para drenagem, sustentabilidade e mitigação climática

A adoção de pavimentos permeáveis de concreto vem ganhando relevância no setor da construção civil, especialmente em projetos voltados à drenagem urbana sustentável. Diferentemente dos revestimentos convencionais, esse sistema permite a infiltração da água por meio de uma matriz porosa cuidadosamente projetada, contribuindo para a redução de alagamentos, a diminuição do escoamento superficial e aproximação das cidades do conceito de “cidade esponja”.

Pesquisas conduzidas no Brasil têm aprofundado a compreensão dos mecanismos físicos e químicos que caracterizam esse tipo de pavimento. A engenheira e pesquisadora Kathleen Dall Bello de Souza Risson, do Instituto Federal do Paraná (IFPR), dedica-se ao tema desde 2017. Ao longo de sua investigação, avaliou desde procedimentos de moldagem em laboratório até o desempenho de pistas experimentais construídas em campo. “Minha pesquisa buscou relacionar as propriedades avaliadas em laboratório com aquelas obtidas a partir da extração de testemunhos dos pavimentos”, explica.

Estrutura, composição e parâmetros técnicos essenciais

O pavimento permeável é constituído por concreto de elevada porosidade, com vazios interconectados que normalmente variam entre 15% e 30%. Esses macroporos formam canais contínuos que permitem o escoamento de água, conferindo ao sistema elevada capacidade drenante. As dosagens são definidas em função do uso final do pavimento e podem envolver consumos de cimento entre 180 e 555 kg/m³, agregado graúdo entre 964 e 2000 kg/m³ e teores reduzidos ou até mesmo nulos de agregado miúdo. Relações água/cimento na faixa de 0,22 e 0,43 são comuns, assim como a utilização de aditivos plastificantes ou superplastificantes para a redução do teor de água usada, embora a pesquisa desenvolvida no IFPR tenha optado por não os utilizar.

Pavimento permeável possibilita infiltração total ou parcial da água.
Crédito: Redação Concrete Show Digital

O procedimento de moldagem também é determinante. No estudo conduzido por Kathleen, a mistura dos materiais foi padronizada em 5 minutos, e a moldagem dos corpos de prova foi realizada com 50 golpes do Martelo de Proctor de 2,5 kg, padronizando a energia de compactação, garantindo assim a equivalência e reprodutibilidade entre amostras. Os corpos de prova foram avaliados quanto à massa específica, porcentagem de vazios, permeabilidade e resistência à compressão. Em paralelo, foram realizados testes de carbonatação para mensurar a difusão de CO2 e sua conversão em carbonatos, um tema ainda incipiente, mas com grande potencial para o setor.

Permeabilidade e captura de CO2

Um dos diferenciais da pesquisa de Risson, é quantificar o CO2 fixado com a incorporação de agregados reciclados de Resíduos da Construção e Demolição (RCD) na produção do concreto permeável. O estudo avaliou substituições de 15%, 30% e 45% da brita basáltica por agregado reciclado do tipo misto, (aquele que pode conter fragmentos cerâmicos, de concreto e argamassa endurecidos, pedras naturais e pequenas frações de outros materiais minerais aderidos, como por exemplo os revestimentos), com dimensão máxima de 19 mm. Os resultados apontam ganhos importantes: “O uso de agregados reciclados favoreceu a difusibilidade de CO2 e intensificou a carbonatação do concreto permeável”, afirma Kathleen.

A incorporação de RCD resultou em melhora do desempenho hidráulico e manteve o atendimento aos requisitos mínimos da NBR 16416:2015, embora tenha provocado redução da resistência à compressão em cerca de 32% aos 28 dias. A pesquisa identificou taxas de área carbonatada que alcançaram 56,45% nas amostras com 45% de substituição, evidenciando maior penetração de CO2 e maior potencial de fixação. A caracterização foi feita com auxílio de indicador fenolftaleína, associada à análise digital por meio do software ImageJ.

Comparações com pavimentos tradicionais e desafios futuros

A principal distinção entre pavimentos permeáveis e convencionais é funcional. Enquanto o concreto tradicional impede a infiltração da água e direciona o escoamento para sistemas de drenagem, o pavimento permeável permite infiltração total ou parcial. Essa característica reduz a pressão sobre galerias pluviais e minimiza a ocorrência de enchentes. “A elevada porosidade implica resistências menores, sendo, portanto, mais indicado para áreas de tráfego leve e moderado, como estacionamentos, calçadas, ciclovias e praças”, observa a pesquisadora.

Além de favorecer a drenagem, os pavimentos permeáveis contribuem para modelos urbanos mais sustentáveis, auxiliando no controle de ilhas de calor e promovendo a economia circular ao reaproveitar resíduos como insumo. Apesar dos avanços significativos, a pesquisadora ressalta que ainda há carência de métricas padronizadas capazes de quantificar a captura de carbono por unidade. “Esse requisito é indispensável para subsidiar sistemas de créditos de carbono que exigem valores mensuráveis e verificáveis. Nesse contexto, o uso combinado de agregados reciclados e pavimentos de concreto permeável merece atenção do poder público, dado o potencial de integrar gestão de resíduos, drenagem urbana e mitigação climática em uma única solução”, pontua.


Tecnologia madura e caminho aberto para cidades resilientes

Os pavimentos permeáveis de concreto evoluíram de experimentos laboratoriais para aplicações reais, apoiados por pesquisas robustas e por normas técnicas específicas. Sua adoção amplia a capacidade de gestão da água, integra resíduos ao ciclo produtivo e oferece potencial adicional de mitigação climática, reunindo um conjunto raro de benefícios em um único sistema construtivo.

Com investimentos adequados em manutenção, regulamentação e mensuração de carbono, a tecnologia tende a se tornar um componente estratégico na infraestrutura das cidades brasileiras. Trata-se de uma solução capaz de unir engenharia, sustentabilidade e resiliência urbana frente aos novos desafios climáticos.

Entrevistada

Kathleen Dall Bello de Souza Risson é graduada em Engenharia Civil pela Faculdade Dinâmica das Cataratas (UDC), especialista em Gerenciamento e Execução de Obras (UDC) e em Docência da Educação Profissional e Tecnológica (IFPR), mestre em Engenharia de Edificações e Saneamento pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Energia e Sustentabilidade pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Atua como docente EBTT e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Foz do Iguaçu. Desenvolve pesquisas nas áreas de obtenção, processamento, caracterização e tratamento de resíduos para uso como material cimentício suplementar; mineralização de CO2 em resíduos sólidos como tecnologia para mitigação das emissões de carbono; e dosagem e performance de pavimentos em concreto permeável.

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kathleen.souza@ifpr.edu.br

Jornalista responsável
Ana Carvalho
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Rodovia da Uva terá novo trecho duplicado em concreto

Em outubro, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR), vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Logística (SEIL), divulgou o edital para a obra de duplicação em pavimento de concreto da PR-417, no trecho entre Curitiba e Colombo, abrangendo 4,52 quilômetros.

A via atual passará por restauração e receberá uma nova camada de pavimento rígido em concreto, método conhecido como whitetopping. A nova pista prevista no projeto também será construída em concreto.

O objetivo é completar a duplicação da Rodovia da Uva, principal ligação de Colombo com Curitiba e municípios da Região Metropolitana, trazendo mais segurança e desenvolvimento para os moradores e o setor produtivo, segundo o secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, Sandro Alex.

“O primeiro trecho entregamos há alguns anos, com seis faixas de tráfego e um novo viaduto dentro de Colombo, e agora estamos prontos para esta nova etapa, trazendo mais um grande investimento para a Grande Curitiba”, lembra Alex.

De acordo com Janice Kazmierczak Soares, diretora técnica do DER/PR, neste primeiro trecho realizado, já foram observados resultados relevantes, como a otimização do fluxo viário, a redução do tempo de deslocamento e a diminuição dos acidentes. 

Ainda segundo Janice, os principais indicadores que motivaram a duplicação deste novo trecho com pavimento de concreto foram a contagem de tráfego, a velocidade média no trecho e o número de acidentes.

Trecho a ser duplicado está entre Curitiba e Colombo, abrangendo 4,52 quilômetros.
Crédito: DER-PR

Trecho a ser duplicado na Rodovia da Uva

De acordo com o DER/PR, o segmento tem início no cruzamento com a Rua Theodoro Makiolka, em Curitiba, onde será construída uma passagem inferior no lugar do entroncamento atual. Ao longo do traçado, estão previstos mais três viadutos: uma passagem superior próxima à Rua Lauro Dromlewicz, uma passagem inferior que substituirá a rotatória com a Rua Odonis Bighi e outra estrutura nas proximidades da Rua Francisco Manika.

O projeto inclui também a implantação de uma passarela para pedestres nas proximidades da Rua Mathias Valesco, a ampliação da ponte sobre o Rio Atuba e a construção de uma nova rotatória ao final do trecho, no ponto de ligação com o Contorno Norte de Curitiba (PR-418).

A obra ainda contempla a implantação de nova sinalização horizontal e vertical, além de dispositivos de segurança viária, como barreiras de concreto tipo New Jersey e defensas metálicas. A iluminação da rodovia ao longo de todo o trecho também está prevista, incluindo vias marginais, rotatórias e retornos.

Estão incluídas ainda a adequação e ampliação do sistema de drenagem, intervenções no leito do Rio Atuba, o plantio de vegetação nas áreas laterais da pista e nos cruzamentos, a construção de passeios para pedestres, soluções de acessibilidade, pontos de parada de ônibus, entre outros serviços complementares.

Desafios

Quando se trata de obras no perímetro urbano, uma das grandes questões é lidar com o fluxo de veículos. “Principalmente com o volume de faixas de rolamento e vias marginais que estamos prevendo”, explica o diretor-presidente do DER/PR, Fernando Furiatti. Para evitar problemas, o projeto prevê aproveitar ao máximo a faixa de domínio da rodovia e contará com soluções para sistemas de contenção, em cerca de 33 locais diferentes no trecho.

“Na elaboração do projeto básico para a duplicação da Rodovia da Uva, considerando a falta de espaço para comportar os taludes resultantes dos cortes e aterros a serem realizados durante a construção da obra, foram projetadas contenções visando o suporte a esses desníveis sem a necessidade de grandes taludes, e por conseguinte, redução das desapropriações. As contenções desempenham um papel essencial na viabilidade das rodovias, permitindo que a estrada seja construída em terrenos irregulares, conectando diferentes níveis do relevo em espaços apertados. Essa escolha decorre de um cuidadoso estudo para garantir a segurança, a durabilidade e a preservação ambiental. Com as soluções adequadas, é possível minimizar os riscos e manter a integridade da rodovia e dos terrenos lindeiros”, afirma Janice.

De acordo com a diretora técnica do DER/PR, os principais fatores que contribuem para a complexidade técnica da obra são:

•    Interferência com infraestruturas de serviços públicos: A presença de redes de serviços públicos como água, esgoto, gás, energia elétrica, telefonia e dados, exige um mapeamento detalhado e a coordenação de projetos para evitar conflitos e danos durante a obra;

•    Gestão do tráfego local: Por tratar-se de local com alta densidade populacional e tráfego intenso, será necessário gerenciar continuamente o fluxo de veículos e pedestres com uma sinalização clara principalmente nos desvios, garantindo a segurança e minimizando interrupções;

•    Condições geográficas e ambientais: As características geográficas da região, incluindo solo suscetível à erosão e relevo bastante ondulado, são fatores que afetam o planejamento e a execução das interseções em desnível;

•    Logística de materiais e equipamentos: O espaço limitado em áreas urbanas dificulta a estocagem de materiais e a movimentação de equipamentos de grande porte, exigindo um planejamento logístico eficiente;

•    Integração com elementos urbanos: A obra deve considerar a integração com a infraestrutura urbana existente bem como seus projetos de expansão.

Obras rodoviárias em ambientes urbanos precisam promover a integração com a infraestrutura existente, envolvendo múltiplas disciplinas e a necessidade de minimizar os impactos para a população afetada, conciliando as demandas dos usuários da rodovia com as restrições físicas e operacionais do ambiente urbano”, informa Janice.

Um dos desafios de realizar obras no perímetro urbano é lidar com fluxo de veículos.
Crédito: DER-PR

Contratação sem-integrada

De acordo com o DER, o edital adotará a modalidade de Contratação Semi-integrada, na qual a empresa vencedora será responsável tanto pela elaboração do projeto executivo de engenharia quanto pela execução das obras.

“A contratação semi-integrada é utilizada quando a administração tem os projetos básicos. Ela permite pequenos ajustes para melhor adequação técnica às características locais, nas especificidades não identificadas na fase de projeto básico”, afirma Janice.

Prazo e orçamento das obras

O edital prevê que as obras durem 630 dias (21 meses). Destes, 90 dias serão utilizados ao desenvolvimento do projeto e 540 dias à realização da duplicação.

O orçamento da obra não foi divulgado. De acordo com o DER, o intuito é incentivar as empresas interessadas a analisarem detalhadamente o edital e seus anexos na formulação de suas propostas.

Fonte

Janice Kazmierczak Soares é diretora técnica do DER/PR.

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Assessoria de imprensa - comunicacao@der.pr.gov.br

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Caixa e USP lançam plataforma para medir e reduzir CO₂ em habitações de interesse social

A Caixa Econômica Federal, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), lançou o BIPC (Benchmark Iterativo para Projetos de Baixo Carbono), uma plataforma que promete mudar a forma como o mercado imobiliário analisa e reduz a pegada de carbono de empreendimentos habitacionais. A iniciativa tem foco inicial nos projetos financiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida e se alinha ao compromisso do banco de incentivar práticas mais verdes no setor da construção civil.

O BIPC funciona como uma calculadora comparativa. A ferramenta permite que projetistas, incorporadoras e construtoras avaliem a quantidade de CO₂ emitida em diferentes soluções construtivas e identifiquem quais materiais e tipologias têm maior impacto ambiental.

A análise apresenta resultados instantâneos, permitindo que equipes técnicas simulem alternativas e escolham caminhos que reduzam emissões, consumo de insumos e custos de produção.

A plataforma será aberta ao público e, segundo seus criadores, terá uso básico gratuito. O objetivo é democratizar o acesso a dados técnicos de sustentabilidade e estimular uma mudança de cultura no setor. Além de apoiar o mercado, o BIPC servirá como subsídio para políticas habitacionais da Caixa, que pretende utilizar os resultados como referência para programas de financiamento de baixo carbono.

BIPC reforça o papel da engenharia como agente fundamental da transição para uma economia mais sustentável.
Crédito: Envato

Comparação automática e incentivo à inovação

Vanderley John, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do projeto, explica que um dos principais diferenciais do BIPC está na capacidade de realizar análises automatizadas, sem exigir cálculos complexos dos usuários. “A plataforma permite comparar o projeto com outros similares, tanto no consumo de materiais quanto no CO2 embutido. Tudo isto de forma automática, sem ter que fazer contas ou gastar tempo”, afirma o pesquisador.

A comparação funciona como uma espécie de espelho do mercado. Ao confrontar o desempenho de um empreendimento com base em centenas de projetos similares, os profissionais conseguem visualizar excessos de materiais, ineficiências e oportunidades de economia. Para John, essa transparência deve estimular melhorias contínuas. “Se a comparação mostrar que usam mais materiais por metro quadrado que prédios similares, elevando o custo, acredito que os profissionais poderão se sentir motivados a melhorar até atingir metas”, explica.

Ao reduzir materiais, o BIPC ajuda não apenas na descarbonização, mas também na produtividade. Outro benefício destacado por John é a possibilidade de obtenção de juros mais baixos em linhas de crédito associadas ao uso racional de insumos e à diminuição das emissões. A plataforma, portanto, fomenta um ciclo virtuoso: obras mais eficientes, menores custos e retorno econômico ampliado.

Sustentabilidade como eixo das políticas habitacionais

A inserção do BIPC no ecossistema habitacional brasileiro tem um propósito claro. A Caixa pretende utilizar a ferramenta para qualificar decisões e construir políticas públicas mais alinhadas a metas ambientais. Assim, o banco financiará empreendimentos considerando indicadores de sustentabilidade, priorizando projetos que apresentem menor pegada de carbono. Dessa forma, a plataforma se torna não apenas um apoio técnico, mas um instrumento de governança para orientar investimentos.

O impacto é especialmente relevante para o Minha Casa, Minha Vida, que concentra parte significativa da produção habitacional nacional. Com o BIPC, empreendimentos destinados à habitação social poderão adotar soluções construtivas mais inteligentes, eficientes e sustentáveis. A ferramenta também contribui para fortalecer a inovação tecnológica no setor, ampliando o uso de técnicas de baixo carbono e incentivando novos produtos e sistemas construtivos. “Esperamos que a ferramenta entre em uso experimental no primeiro trimestre de 2026. E, a partir do segundo semestre, a Caixa já comece a utilizá-la como ferramenta de financiamento.  Estamos confiantes de que os parceiros de software nos permitirão cumprir o objetivo de fazer do inventário de carbono, uma coisa rotineira e descomplicada para o benefício de todos”, assinala John.

Ao oferecer dados confiáveis e comparações diretas, o BIPC aproxima o Brasil das melhores práticas internacionais e reforça o papel da engenharia como agente fundamental da transição para uma economia mais sustentável. A iniciativa também sinaliza um movimento importante no mercado: a sustentabilidade deixou de ser tendência e se tornou critério decisivo em projetos, financiamentos e políticas públicas.

Entrevistado

Vanderley Moacyr John é graduado em Engenharia Civil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado no Royal Institute of Technology da Suécia. Professor da Escola Politécnica, coordenador da EMBRAPII CICS USP e do hubIC.

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vmjohn@usp.br

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