Calçadas de concreto exigem projeto, controle tecnológico e execução criteriosa para garantir durabilidade e acessibilidade

As calçadas desempenham papel fundamental na mobilidade urbana, proporcionando deslocamentos seguros, acessíveis e confortáveis aos pedestres. Além de atender às exigências de acessibilidade previstas na legislação e normas técnicas, essas estruturas devem ser dimensionadas para suportar as solicitações de uso previstas em projeto, resistir às ações do tempo e manter seu desempenho ao longo da vida útil.

Embora sejam frequentemente tratadas como obras simples, as calçadas demandam projeto adequado e sua execução exige planejamento e controle em todas as etapas. Seu desempenho e durabilidade dependem diretamente da qualidade do concreto, da correta preparação do subleito e base, do dimensionamento (espessura e espaçamento entre juntas) e do processo de cura, fatores essenciais para prevenir manifestações patológicas, como fissuração, empenamento e desgaste prematuro.

Segundo o engenheiro civil e CEO do Instituto Ruas, Alex Maschio, a durabilidade começa pela definição correta dos materiais. "Conforme o manual da ABCP, por exemplo, temos como requisito mínimo de resistência à compressão fck igual ou superior a 20 MPa para calçadas de concreto convencional moldado in loco. O concreto usinado de central é sempre preferível por garantir uniformidade e rastreabilidade", afirma.

Ele explica que, quando o concreto é produzido na própria obra, o traço deve ser definido com base em parâmetros técnicos de dosagem e ser validado por meio de controle tecnológico, com rompimento de corpos de prova aos 7 e aos 28 dias.

A correta execução das juntas ajuda a controlar fissuras e aumenta a durabilidade das calçadas de concreto. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

Juntas reduzem o risco de fissuras

Um dos aspectos que mais importantes para o desempenho das calçadas de concreto é a correta execução das juntas. Elas controlam as movimentações naturais provocadas pela retração e pelas variações de temperatura, direcionando o surgimento de fissuras para locais previamente definidos em projeto.

De acordo com Maschio, existe uma relação direta entre a espessura da placa e o espaçamento entre as juntas. "A regra prática consagrada na engenharia de pavimentos é que o espaçamento máximo entre juntas transversais fique entre 20 e 30 vezes a espessura do concreto", explica.

Para calçadas destinadas exclusivamente ao tráfego de pedestres, com espessuras entre 6 e 10 centímetros, o espaçamento entre as juntas normalmente variam entre 1,5 e 2,5 metros. Nos trechos sujeitos ao tráfego de veículos, em que o pavimento possui maior espessura, esse espaçamento pode chegar a 3 metros. Outro aspecto crítico é o momento de execução das juntas serradas. O corte deve ser realizado quando o concreto apresentar resistência suficiente para evitar o arrancamento dos agregados, mas antes do surgimento de fissuras por retração, que em condições usuais, essa operação ocorre entre 6 e 12 horas após a concretagem, podendo variar em função da temperatura ambiente, das características do concreto e do tipo de cimento utilizado. A profundidade do corte deve ser de, no mínimo, um quarto da espessura da placa, de modo a criar um plano de fraqueza capaz de induzir a fissuração no local previsto em projeto.

Uso de tela soldada depende das cargas previstas

A utilização de tela de aço soldada em calçadas não é uma exigência para todos os projetos. Segundo o especialista, a necessidade é determinada pelas cargas que o pavimento irá receber e pelas condições da base."Na prática, para calçadas públicas de concreto convencional, a tela soldada não é obrigatória quando o projeto respeita as espessuras mínimas, o subleito é bem preparado e as juntas são corretamente espaçadas e cortadas”, destaca ele.

Nessas situações, o controle da fissuração é realizado principalmente por meio da adequada execução das juntas e do controle das deformações do concreto. É importante destacar que a tela soldada não evita o surgimento de fissuras decorrentes da retração; sua principal função é limitar a abertura dessas fissuras e contribuir para a integridade estrutural da placa quando prevista em projeto.

A tela entra como reforço adicional em situações específicas definidas em projeto executivo e costuma ser indicada em acessos para veículos, em solos de baixa capacidade de suporte, em placas/lajes maiores ou em locais com histórico de movimentação da base.

Acessibilidade deve ser incorporada desde a fase de projeto

Além dos critérios estruturais e de durabilidade, o projeto deve atender às exigências da ABNT NBR 9050:2020, que trata especificamente da acessibilidade e deve ser aplicada em conjunto com outras normas de execução de passeios públicos e com a legislação municipal.

Execução das calçadas de concreto exige planejamento e controle em todas as etapas. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal.

Entre os requisitos, estão a faixa livre de circulação com largura mínima de 1,20 m, inclinação transversal máxima de 2%, rebaixamentos de calçadas e rampas executados conforme os parâmetros da norma, além de instalação de piso tátil em situações previstas pela norma. Maschio ressalta que a Emenda 1:2020 trouxe ajustes importantes. "A faixa livre de circulação de 1,20 metro passou a admitir excepcionalmente 0,90 metro quando justificado por impossibilidade técnica. Também houve mudanças nos critérios para rebaixamentos de calçadas e maior clareza sobre a utilização de faixas elevadas de travessia", explica.

Controle da cura evita problemas precoces

Entre as manifestações patológicas mais frequentes nas calçadas de concreto, está a retração plástica, que pode provocar fissuras poucas horas após a concretagem. Essas fissuras estão normalmente associadas à rápida evaporação da água superficial, quando a taxa de perda de umidade supera a exsudação do concreto.

Para reduzir esse risco, o especialista recomenda umedecer a base antes da concretagem ou, preferencialmente, utilizar lona plástica sobre a base, evitar a execução em condições ambientais desfavoráveis, como dias de vento intenso, baixa umidade relativa do ar ou temperaturas elevadas, além de proteger a superfície recém-executada da incidência direta do sol.

Também é importante realizar o acabamento sem atrasos, aplicar produtos de cura química e manter a cura química ou úmida, que deve ser mantida pelo período especificado em projeto ou, na ausência dessa indicação, por pelo menos, sete dias, especialmente em condições climáticas críticas. "O resultado são fissuras finas, superficiais e geralmente diagonais ou irregulares, que aparecem entre 30 minutos e três horas após o adensamento. Por isso, todas as etapas de execução precisam ser rigorosamente controladas", afirma Maschio.

Para o especialista, calçadas de concreto corretamente projetadas e executadas apresentam elevada vida útil, menor necessidade de manutenção e melhor desempenho quanto à segurança, ao conforto e à acessibilidade dos usuários. Contudo, esses benefícios somente são alcançados quando projeto, especificação de materiais, controle tecnológico, observância das normas e execução qualificada em campo, atuam de forma integrada ao longo de todo o processo construtivo.

Entrevistado

Alex Maschio é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR) e Administração - Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, professor de cursos de pós-graduação nas áreas de infraestrutura, pavimentação e cidades inteligentes, palestrante, fundador e CEO do Instituto Ruas.

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Novo arranha-céu concluirá o complexo do World Trade Center com foco em sustentabilidade

Após mais de duas décadas dos atentados de 11 de setembro, o complexo do World Trade Center, em Nova York, se prepara para receber seu último edifício comercial. O Two World Trade Center, projetado pelo escritório britânico Foster + Partners em parceria com a Silverstein Properties, será a nova sede global da American Express e representa uma nova geração de arranha-céus, marcada pela sustentabilidade, integração urbana e qualidade dos ambientes de trabalho.

Com 373 metros de altura e 55 pavimentos, a torre será construída na 200 Greenwich Street, em Lower Manhattan, em frente ao Oculus, terminal de transporte projetado por Santiago Calatrava. A conclusão das obras está prevista para 2031.

Edifício terá 373 metros de altura e 55 pavimentos. Crédito: Foster + Partners e American Express.

Projeto prioriza bem-estar

Mais do que completar o masterplan do World Trade Center, o empreendimento reflete uma mudança na forma de projetar edifícios corporativos de grande porte. O conceito prioriza espaços flexíveis, contato com a natureza e soluções de alto desempenho ambiental.

O edifício contará com aproximadamente 186 mil m² de área destinada a escritórios, com capacidade para acomodar até 10 mil colaboradores. A composição arquitetônica adota volumes escalonados que se elevam a partir de uma base retangular, formando uma sequência de terraços ajardinados que quebram a verticalidade típica dos arranha-céus e ampliam as áreas de convivência ao ar livre.

Ao todo, cerca de 4 mil m² serão destinados a jardins e terraços suspensos, com vistas panorâmicas de Manhattan e o rio Hudson. Segundo a Foster + Partners, esses espaços foram projetados para promover o bem-estar, estimular a interação entre os usuários e aproximar a natureza do ambiente corporativo.

“Nossa nova sede será muito mais do que um edifício — será um espaço onde nossos colaboradores poderão se sentir motivados, inspirados e orgulhosos; um ambiente voltado para a inovação, a interação e o crescimento", afirmou Stephen J. Squeri, presidente do Conselho e CEO da American Express.

Sustentabilidade

A presença de terraços, jardins e áreas abertas busca oferecer um ambiente de trabalho mais saudável. Crédito: Foster + Partners e American Express.

Outro destaque é a estratégia ambiental do projeto. O edifício foi concebido para operar totalmente com sistemas elétricos, eliminando o uso de combustíveis fósseis em sua operação. Também contará com tecnologias inteligentes para gestão predial, sistemas de alta eficiência energética e soluções voltadas à redução do consumo de recursos naturais.

Essas características fazem parte da estratégia para obtenção da certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), um dos principais selos internacionais para edificações sustentáveis.

A fachada envidraçada também foi projetada para reforçar a eficiência energética. Grandes painéis de vidro do piso ao teto proporcionam maior aproveitamento da iluminação natural, enquanto os elementos estruturais aparentes valorizam a expressão arquitetônica do edifício e contribuem para seu desempenho.

Fachada envidraçada foi projetada para reforçar a eficiência energética. Crédito: Foster + Partners e American Express.

Além do impacto arquitetônico, o empreendimento representa um importante investimento para a revitalização de Lower Manhattan. A construção deverá gerar milhares de empregos e consolidar o World Trade Center como um polo que reúne negócios, mobilidade, cultura e memória, encerrando um ciclo de reconstrução iniciado há quase 25 anos.

Ao unir arquitetura contemporânea, soluções ambientais e foco na experiência dos usuários, o Two World Trade Center sinaliza uma tendência cada vez mais presente na construção civil: edifícios de grande porte que conciliam desempenho técnico, eficiência energética e qualidade dos espaços urbanos.

“O objetivo foi criar um edifício que combine sustentabilidade, inovação e qualidade de vida. A presença de terraços, jardins e áreas abertas busca oferecer um ambiente de trabalho mais saudável e conectado à cidade”, afirma Norman Foster, fundador da Foster + Partners.

Fontes

Norman Foster é fundador da Foster + Partners.

Stephen J. Squeri é presidente do Conselho e CEO da American Express.

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Construsummit 2026 destaca gestão orientada por dados

Nos dias 1 e 2 de julho de 2026, foi realizado o Construsummit 2026, em Florianópolis (SC).

A programação reuniu economistas, executivos e especialistas em mercado, inovação e gestão, entre eles Ana Maria Castelo (IBRE/FGV), Fernando Schüler, Fernando Honorato (Bradesco), Mauro Franco (ABRAMAT) e Junior Borneli (StartSe).

Cristiano Gregorius, diretor executivo do ecossistema Sienge, destaca que o Construsummit reuniu lideranças de diferentes áreas do setor para discutir os principais desafios e oportunidades da construção civil em um momento de profundas transformações.

“Entre os destaques, lançamos a primeira edição do Radar da Construção – Panorama Estratégico do Mercado Imobiliário e da Construção, um estudo desenvolvido pelo Ecossistema Sienge, CV CRM, Grupo OLX e parceria da Nomad, que reúne indicadores de mercado e análises de especialistas para apoiar decisões mais estratégicas”, explica Gregorius.

De acordo com Gregorius, ao longo do evento, temas como cenário político e econômico, reforma tributária, financiamento imobiliário, inteligência artificial, produtividade e novos modelos de negócio mostraram que o setor está deixando de reagir às mudanças para começar a planejá-las de forma mais estruturada. “O principal aprendizado é que a competitividade passa, cada vez mais, por gestão baseada em dados, planejamento e capacidade de adaptação”, pontua Gregorius.

Inteligência artificial e dados

Legenda: Reforma tributária deve alterar a forma como construtoras e incorporadoras estruturam seus empreendimentos. Crédito: Construsummit

Um dos temas discutidos no evento foi o uso de inteligência artificial e de dados. Para Gregorius, a construção já gera um enorme volume de dados, mas ainda existe um desafio importante na forma como essas informações são organizadas e convertidas em inteligência para tomada de decisão.

“O Radar da Construção nasce justamente para ajudar nesse processo, consolidando indicadores que já fazem parte da rotina do mercado, mas que normalmente são analisados de forma isolada. Quando essas informações são integradas, elas permitem uma leitura muito mais estratégica do cenário. Ao mesmo tempo, o nível de maturidade digital varia bastante entre as empresas. Algumas já utilizam inteligência artificial para apoiar decisões e ganhar eficiência, enquanto outras ainda estão estruturando processos e organizando suas bases de dados”, afirma Gregorius.

Um ponto recorrente nas discussões foi que a inteligência artificial não substitui uma boa gestão. “Antes de automatizar, é preciso construir uma base sólida de processos, governança e dados confiáveis”, opina Gregorius.

Transformações na gestão das construtoras e incorporadoras

Para Gregorius, a primeira transformação será a reforma tributária. “Ela deve alterar significativamente a forma como construtoras e incorporadoras estruturam seus empreendimentos, realizam planejamento financeiro e definem seus modelos de negócio”, justifica.

No entanto, Gregorius acredita que o maior impacto será a necessidade de rever modelos de negócio. “A reforma muda a lógica tributária e exige uma visão muito mais integrada entre planejamento, engenharia, jurídico, financeiro e comercial. Além disso, ela tende a incentivar maior formalização, especialização da mão de obra e adoção de processos mais industrializados. As empresas que começarem essa preparação agora terão mais tempo para adaptar seus lançamentos, revisar as estruturas de custos e incorporar as novas regras desde a fase de concepção dos empreendimentos, e não apenas durante a execução da obra”, afirma.

A segunda transformação será a mudança demográfica. “O Brasil passa por um processo de envelhecimento da população e redução da taxa de natalidade, o que tende a alterar o perfil da demanda por imóveis e exigir novos produtos e estratégias de mercado”, pontua Gregorius.

Por fim, a terceira transformação será o avanço da digitalização do setor, impulsionada por inteligência artificial, automação, industrialização da construção e maior integração de dados. “Mais do que adotar novas tecnologias, será fundamental desenvolver capacidade analítica para tomar decisões mais rápidas e precisas”, defende Gregorius.

Produtividade e eficiência operacional

Na opinião de Gregorius, o aumento de produtividade e eficiência operacional passa pela gestão.

“Empresas que conseguem tomar decisões baseadas em dados, acompanhar indicadores em tempo real e revisar continuamente seus processos têm mais capacidade de antecipar riscos e aumentar sua previsibilidade. Também é fundamental avaliar constantemente o portfólio de produtos, entender a demanda do mercado e lançar empreendimentos que façam sentido para o contexto econômico. Produtividade não significa apenas produzir mais, mas reduzir desperdícios, aumentar previsibilidade e utilizar melhor os recursos disponíveis”, justifica Gregorius.

Adaptação às mudanças

Para Gregorius, a principal lição do evento é não resistir às mudanças. “O setor vive transformações regulatórias, tecnológicas e demográficas ao mesmo tempo. As empresas mais competitivas não serão necessariamente as maiores, mas aquelas que conseguirem aprender mais rápido, adaptar seus modelos de gestão e tomar decisões com base em dados e planejamento, em vez de repetir práticas que funcionaram no passado”, conclui.

Fonte

Cristiano Gregorius é diretor executivo do ecossistema Sienge

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Assessoria de imprensa: janaina.biyikian@vcrp.com.br

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Revestimentos de alto desempenho ampliam a durabilidade de pisos industriais e reduzem custos de manutenção

Em centros de distribuição, indústrias químicas, frigoríficos e fábricas com operação contínua, o piso de concreto é submetido diariamente a condições severas de uso. Empilhadeiras, cargas elevadas, impactos, derramamento de produtos químicos e ciclos térmicos constantes podem acelerar o desgaste da superfície e comprometer o desempenho funcional e a durabilidade do piso. Nesse cenário, os Revestimentos de Alto Desempenho, conhecidos pela sigla RAD, surgem como uma solução técnica para aumentar a resistência e prolongar a vida útil dos pisos industriais.

Mais do que um acabamento superficial, o RAD é um sistema de engenharia projetado para modificar as propriedades do concreto nas suas camadas mais superficiais, tornando-o mais resistente à abrasão, ao impacto e à ação de agentes agressivos. Segundo o engenheiro civil Eduardo Guida Tartuce, diretor técnico da MixDesign Tartuce Engenheiros Associados, a diferença em relação aos revestimentos convencionais está na integração entre as camadas. "O Revestimento de Alto Desempenho é um sistema aplicado sobre o substrato de concreto com o objetivo de conferir propriedades mecânicas, químicas e de durabilidade muito superiores às de um piso acabado apenas com desempenho convencional e cura simples", explica. Ele acrescenta que a interface entre o revestimento e a base de concreto deve atuar como um único elemento estrutural, sem gerar planos de cisalhamento ou riscos de delaminação no futuro.

Desempenho começa na especificação do sistema

A adoção de um RAD está diretamente ligada às condições de exposição do piso. Ambientes sujeitos ao tráfego intenso de empilhadeiras, à ação de produtos químicos ou a grandes variações de temperatura exigem soluções que vão além do concreto convencional.

As referências internacionais, como o guia ACI 302.1R, do American Concrete Institute, apresentam recomendações para projeto, execução e acabamento de pisos de concreto, considerando diferentes condições de uso e nível de solicitação mecânica. Em aplicações de maior exigência, como galpões logísticos, pátios de manobra e centros de distribuição, os revestimentos de alto desempenho deixam de ser apenas uma alternativa e passam a ser uma necessidade técnica.

Para galpões logísticos, pátios de manobra e centros de distribuição, os revestimentos de alto desempenho deixam de ser apenas uma alternativa e passam a ser uma necessidade técnica.
Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

Entre os principais benefícios, estão a elevada resistência à abrasão, maior capacidade de absorver impactos, menor geração de poeira, facilidade de limpeza e menor necessidade de intervenções corretivas ao longo da vida útil do piso. Tartuce aponta que o investimento inicial mais elevado costuma ser compensado pela redução dos custos de manutenção e das paradas operacionais.

Propriedades físicas determinam a durabilidade

O desempenho de um revestimento de alto rendimento depende de um conjunto de propriedades cuidadosamente controladas desde a etapa de projeto.Uma das mais importantes é a baixa relação água/cimento, normalmente entre 0,40 e 0,45, que reduz a porosidade capilar e aumenta a densidade da matriz cimentícia. Outra característica é a elevada resistência à compressão, geralmente superiores a 35 MPa, podendo alcançar classes ainda mais elevadas conforme as cargas previstas.

Também são considerados fatores como resistência à abrasão, baixa permeabilidade, módulo de elasticidade adequado e controle rigoroso da cura do concreto. "A cura adequada e controlada é determinante para evitar fissuração plástica e garantir a máxima hidratação da camada superficial", afirma Tartuce.

Outro parâmetro importante é a planicidade do piso, medida pelos índices FF e FL, que avaliam a ondulação e o nivelamento da superfície. Em operações automatizadas, como centros logísticos com veículos guiados automaticamente, pequenas variações podem comprometer o funcionamento dos equipamentos.

Materiais são escolhidos conforme a exposição do ambiente

A seleção dos materiais é uma das etapas mais importantes do projeto. Cada ambiente demanda uma solução específica. Os endurecedores de superfície do tipo dry-shake são indicados para aplicações que exigem alta resistência ao desgaste. Os sistemas metálicos apresentam bom desempenho em áreas submetidas ao tráfego pesado, enquanto os minerais de quartzo oferecem uma combinação equilibrada entre desempenho e custo. Já o corundum, composto por óxido de alumínio, é indicado para situações de abrasão extrema.

Também podem ser incorporados materiais cimentícios suplementares, como sílica ativa, metacaulim e cinza volante, que podem contribuir para reduzir a permeabilidade e melhorar a durabilidade do concreto quando adequadamente especificados.

Entre os revestimentos poliméricos, cada solução possui uma aplicação específica. O epóxi é amplamente utilizado em ambientes industriais gerais. O poliuretano se destaca pela resistência a choques térmicos e é muito empregado em frigoríficos e câmaras frias. Já o metil-metacrilato, conhecido como MMA, chama atenção pela cura rápida, permitindo a liberação do tráfego em poucas horas. "A seleção correta dos materiais é o que determina, na prática, se o revestimento atende às condições reais de exposição do ambiente", ressalta o engenheiro.

Custo deve ser analisado ao longo de toda a vida útil

Embora alguns sistemas apresentem custos iniciais superiores aos de um piso convencional, a análise econômica precisa considerar todo o ciclo de vida da estrutura. Os sistemas dry-shake metálicos, por exemplo, podem apresentar vida útil longa, frequentemente superior a duas décadas quando corretamente especificados, executados e mantidos, com necessidade apenas de reparos localizados. Já os revestimentos epóxi, poliuretano e MMA exigem planos de manutenção programada, mas oferecem desempenho adequado em ambientes específicos e contribuem para reduzir o risco de intervenções estruturais mais complexas.

Para Tartuce, a decisão deve considerar não apenas o investimento inicial, mas também os custos futuros de manutenção, reparos e interrupções operacionais. "Um revestimento de alto desempenho bem especificado apresenta retorno sobre o investimento quando comparado à frequência de manutenção corretiva de um piso convencional submetido às mesmas condições de exposição", conclui.

Em um cenário de crescente exigência por produtividade e durabilidade, os revestimentos de alto desempenho se consolidam como uma ferramenta de engenharia capaz de aumentar a confiabilidade dos pisos industriais e proporcionar maior previsibilidade ao longo de sua vida útil.

Para conhecer uma solução desenvolvida para esse tipo de aplicação, acesse a página de Concreto para Pisos Industriais da Concrebras.

Entrevistado

Eduardo Guida Tartuce é graduado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia de São Paulo, mestre pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo – IPT/USP. Atua desde 1993 como diretor técnico da MixDesign Tartuce Engenheiros Associados. É coordenador do Comitê de Normatização de Pavimentos em Concreto – CT-306 do IBRACON, consultor da ABESC e membro de comitês técnicos nacionais e internacionais, incluindo ACI 302, ACI 330, ACI 360 e ACI 544. Também é palestrante em eventos técnicos no Brasil e no exterior, incluindo World of Concrete, Concrete Show.

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eduardo@mixdesign.com.br

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ABNT publica nova NBR 8548 para emendas em armaduras de concreto

Em maio de 2026, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) publicou a NBR 8548:2026 – Emenda mecânica ou por solda de barras de aço destinadas às armaduras para estruturas de concreto armado – Tipos de emenda e métodos de ensaio, norma que revisa e substitui a versão original publicada em 1984.

A revisão da NBR 8548  foi motivada principalmente pela evolução técnica dos sistemas de emendas mecânicas e pela necessidade de adequar a norma brasileira à realidade atual das obras de concreto armado.

“Em mais de 40 anos, surgiram novas tecnologias, novos processos de fabricação, diferentes tipos de luvas e critérios de desempenho mais rigorosos, que não estavam contemplados na versão de 1984. A norma anterior tinha um escopo mais restrito e tratava as emendas mecânicas de forma genérica. Havia lacunas importantes quanto à classificação dos sistemas, aos requisitos mínimos de desempenho, aos métodos de ensaio e aos critérios de qualificação. Além disso, a versão antiga não refletia plenamente o uso crescente das luvas em obras com alta taxa de armadura, grandes diâmetros, estruturas pré-fabricadas e situações em que o transpasse não é a solução mais eficiente ou viável”, explica o engenheiro Victor Chiari, diretor de relacionamento da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) e coordenador da revisão da NBR 8548.

Conceito de emenda mecânica por luvas

Na prática, a especificação dos sistemas de emenda mecânica (luva) passa a ser feita com base em requisitos técnicos mais claros, e não apenas na indicação genérica de um produto. “Para o projetista, isso traz mais segurança na escolha do sistema adequado para cada situação. Para fabricantes e fornecedores, a norma estabelece parâmetros mais consistentes de qualificação. Já para a execução em obra, reforça-se a necessidade de controle do processo, correta instalação, rastreabilidade e verificação do atendimento aos requisitos estabelecidos”, esclarece Chiari.

Revisão da NBR 8548 foi motivada principalmente pela evolução técnica dos sistemas de emendas mecânicas.
Crédito: Envato

Ensaio de deslizamento (slip)

A inclusão do ensaio de deslizamento representa outro importante avanço da NBR 8548 e aproxima a norma brasileira das principais referências internacionais aplicáveis às emendas mecânicas. “Embora esse ensaio tenha sido pouco utilizado no Brasil, sendo adotado principalmente em obras de maior exigência, como as usinas nucleares, ele é amplamente empregado em diversos países como um parâmetro complementar de avaliação de desempenho”, afirma Chiari.

Além da resistência à tração, o ensaio permite verificar o deslocamento relativo (deslizamento) entre a barra de aço e o sistema de emenda mecânica quando submetidos ao carregamento, fornecendo uma avaliação mais completa do comportamento da emenda. “Com essa atualização, a norma brasileira passa a incorporar um requisito já consolidado internacionalmente, elevando o nível de qualificação e confiabilidade dos sistemas utilizados no país”, comenta Chiari.

 Ampliação dos tipos de emendas mecânicas 

 A ampliação dos tipos de emendas mecânicas é uma das mudanças mais importantes da nova norma, pois reconhece que os diferentes sistemas de emenda apresentam princípios de funcionamento, processos de instalação e comportamentos estruturais distintos.

“Existem sistemas com rosca, sistemas prensados, luvas soldáveis e outras soluções, cada uma com características próprias de fabricação, instalação e desempenho. Com isso, a avaliação técnica deixa de ser baseada apenas na existência da luva e passa a considerar o comportamento do conjunto barra-luva. O foco principal passa a ser o desempenho comprovado da emenda, por meio de ensaios e critérios objetivos. Essa abordagem é mais adequada, porque permite comparar tecnologias diferentes a partir de requisitos mínimos comuns de segurança e desempenho estrutural” destaca Chiari.

Mudanças na prática

Para os projetistas estruturais, a nova NBR 8548 oferece uma base técnica mais consistente para especificar emendas mecânicas em projetos de concreto armado. “Isso é especialmente relevante em situações de alta taxa de armadura, barras de grandes diâmetros, regiões de congestionamento de armaduras, elementos de fundação, pilares, ligações entre peças pré-fabricadas e casos em que o transpasse gera dificuldades executivas ou limitações normativas”, explica Chiari.

No canteiro de obras, a norma tende a exigir maior atenção aos processos de execução. “A instalação das luvas deve seguir procedimentos definidos, com controle dimensional, conferência do posicionamento, qualificação do sistema e rastreabilidade dos materiais utilizados. Isso reduz improvisos e aumenta a confiabilidade da solução”, aponta Chiari.

Para as empresas de pré-fabricados, o impacto também é relevante. As emendas mecânicas permitem ligações mais limpas, padronizadas e compatíveis com processos industrializados. “Com a nova versão da NBR 8548, a norma passa a ‘conversar’ melhor com a norma NBR 9062 (Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado), além do fato de que os fornecedores e projetistas passam a contar com critérios mais claros para especificar, ensaiar e controlar os sistemas utilizados, favorecendo maior produtividade e segurança nas ligações entre os elementos pré-fabricados”, conclui Chiari.

Fonte

Victor Chiari é engenheiro, diretor de relacionamento da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) e coordenador da revisão da NBR 8548.

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Assessoria de imprensa ABECE: prefixo@prefixocomunicacao.com.br

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Ensaio de arrancamento à tração avalia a segurança e o desempenho de revestimentos e concreto

O controle tecnológico na construção civil passou por mudanças significativas nas últimas décadas. Procedimentos antes baseados predominantemente em inspeções visuais passaram a incorporar ensaios mecânicos capazes de fornecer dados objetivos sobre o desempenho dos materiais e sistemas construtivos. Entre essas ferramentas, está o ensaio de aderência à tração, utilizado para avaliar a resistência de aderência à tração ou a resistência potencial de aderência à tração, quando este for realizado em placas de substrato padrão, entre materiais cimentícios ou entre um revestimento e seu substrato.

Segundo o engenheiro civil e professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Christian Donin, o ensaio se consolidou como um instrumento de validação técnica e de prevenção de manifestações patológicas nas edificações. "A falha na aderência pode resultar no desprendimento do material, gerando riscos iminentes à integridade física de transeuntes e custos exponenciais de retrabalho", afirma.

Como o ensaio é realizado

O procedimento consiste na fixação de uma pastilha metálica sobre a superfície do revestimento por meio de uma resina epóxi de alta resistência. Após a cura do adesivo, é realizado um corte circular ao redor da pastilha, ou seja, da área a ser ensaiada, isolando a região que será submetida ao teste.

Preparação das pastilhas no substrato padrão para o ensaio de arrancamento à tração, procedimento utilizado para avaliar a resistência de aderência entre revestimentos e o substrato.
Crédito: Divulgação Cimento Itambé

Na sequência, um equipamento de tração conectado a pastilha, aplica uma força perpendicular à superfície até que ocorra a ruptura do sistema. A partir desse processo, é possível determinar a resistência de aderência à tração da área ensaiada ou a resistência potencial de aderência a tração.

De acordo com Donin, o método permite identificar se a ruptura ocorreu no substrato, na interface de ligação ou no próprio revestimento, fornecendo informações importantes para o diagnóstico de falhas e para a tomada de decisões durante a execução da obra.

Segurança e desempenho das edificações

A utilização do ensaio está diretamente relacionada à durabilidade e à segurança das construções. Revestimentos submetidos a variações de temperatura, umidade, ação do vento e movimentações estruturais precisam apresentar desempenho compatível com as condições de uso. "O ensaio fornece dados experimentais rastreáveis que resguardam juridicamente a construtora, permite a otimização de materiais e garante a conformidade com a Norma de Desempenho", explica o professor.

A ausência desse controle pode resultar em manifestações patológicas, como desplacamentos, fissuras, destacamento de revestimentos especialmente em fachadas, delaminações, entre outros. Além de comprometer o desempenho e a segurança das edificações, esses problemas podem elevar significativamente os custos com reparos, muitas vezes superando o investimento inicial destinado ao controle tecnológico. Por essa razão, a emissão de laudos técnicos tornou-se uma prática cada vez mais presente em empreendimentos que buscam comprovar a qualidade dos serviços executados, atender aos requisitos de programas de certificação, auditorias e exigências contratuais do mercado imobiliário.

Normas orientam aplicação do método

No Brasil, o ensaio é regulamentado por um conjunto de normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que estabelecem critérios de execução, avaliação e desempenho. Entre elas, destaca-se a série NBR 13528 que define os procedimentos para o ensaio de resistência de aderência à tração em revestimentos de argamassa e a NBR 14081, que especifica os requisitos para argamassas colantes industrializadas. Também são referências importantes as normas NBR 13754 e NBR 13755, que estabelecem os procedimentos para a execução e a inspeção de revestimentos cerâmicos em áreas internas e externas; a NBR 13749, que trata dos revestimentos de argamassas inorgânicas, e a NBR 15575, conhecida como Norma de Desempenho, que define requisitos mínimos de segurança, vida útil e desempenho para os sistemas construtivos.

Donin explica que essas diretrizes transformaram o ensaio em uma ferramenta de validação técnica amplamente utilizada no setor. "Atualmente, a realização do ensaio atende diretamente às exigências das normas técnicas da ABNT e funciona como instrumento de comprovação da qualidade das obras", afirma.

Ensaio aplicado a elementos de concreto. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

Aplicação em estruturas de concreto

Embora seja amplamente associado aos revestimentos, o ensaio de arrancamento à tração também vem sendo utilizado na avaliação de estruturas de concreto. Nesse caso, o método permite determinar a resistência à tração do material e verificar a aderência entre concretos de diferentes idades ou entre concreto e resinas epóxi utilizadas em reparos estruturais. "O controle quantitativo valida se a resistência à tração do material atende aos requisitos de projeto, além de poder assegurar o monolitismo e a transmissão adequada de solicitações mecânicas em elementos de recuperação estrutural", destaca Donin.

A principal referência internacional para esse tipo de aplicação é a norma americana ASTM C1583 utilizada na avaliação da aderência e compatibilidade entre materiais empregados em intervenções estruturais.

Com a crescente busca por edificações mais duráveis e seguras, o ensaio de arrancamento à tração vem se consolidando como uma ferramenta estratégica no controle tecnológico, fornecendo informações precisas para projetistas, construtoras e equipes de fiscalização ao longo de todas as etapas da obra.

Entrevistado

Christian Donin é engenheiro civil graduado, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e atua na área de Estruturas e Sistemas Construtivos no Brasil e Estados Unidos há mais de 20 anos.

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Como identificar oportunidades de melhoria em concreteiras?

A análise do processo produtivo em campo de uma concreteira permite identificar oportunidades de melhoria que podem elevar a qualidade do concreto, melhorar a produtividade e reduzir custos. Com inspeções, observações e análise dos procedimentos já adotados, é possível entender com mais clareza como funciona a central e quais elementos influenciam o desempenho do concreto.

Para encontrar oportunidades realmente efetivas, essas avaliações podem se concentrar em três tópicos principais: insumos, processo de produção e controle tecnológico.

O processo produtivo envolve diversos aspectos que devem ser avaliados, como a qualidade da água utilizada, a representatividade da amostragem do cimento, os métodos de moldagem dos corpos de prova, entre outros fatores. Neste artigo, apresentamos alguns dos principais pontos de atenção que impactam a qualidade do concreto e que serão discutidos a seguir.

MATÉRIAS-PRIMAS

Uma das etapas mais importantes do diagnóstico é a avaliação das matérias-primas. Isso porque a qualidade, uniformidade e as condições de armazenamento dos materiais afetam diretamente o desempenho do concreto. Mesmo que os processos de dosagem e produção estejam corretos, mudanças nas propriedades dos materiais podem levar a mudanças na trabalhabilidade, demanda de água, resistência mecânica e produtividade.

Figura1: Entupimento da tubulação da bomba de concreto devido ao excesso de materiais finos da areia artificial. Fonte: O Autor

Entre todos os materiais utilizados na fabricação do concreto, os agregados muitas vezes são os mais negligenciados. No entanto, eles representam a maior parte do volume do concreto e têm impacto importante na qualidade e no custo.  

Diferenças entre o agregado utilizado na dosagem e o efetivamente entregue — como areias contaminadas ou com excesso de finos e britas com elevada presença de grãos lamelares — podem comprometer o desempenho mecânico do concreto, aumentar os custos de produção, além de causar dificuldades durante o lançamento, adensamento e acabamento. Por isso, acompanhar o recebimento desses materiais é fundamental para garantir a qualidade do concreto e prevenir não conformidades.

Figura2: Blocos produzidos com britas de dimensão diferente da especificada.. Fonte: O Autor

Uma prática simples e eficiente para receber os agregados é utilizar recipientes com amostras-padrão aprovadas, fazendo assim um comparativo visual com os materiais recebidos. Mesmo sendo uma avaliação qualitativa, essa metodologia ajuda a identificar rapidamente possíveis desvios, permitindo que sejam tomadas ações preventivas antes mesmo de realizarem os ensaios laboratoriais.

Figura 3: Recipientes com amostra-padrão de agregados. Fonte: O Autor

Outro ponto importante a ser considerado, é a necessidade de corrigir a umidade das areias para garantir que as proporções dos materiais estabelecidas em laboratório sejam replicadas em campo.

Em dias de chuva ou quando as areias estão muito úmidas, é comum notar mudanças na consistência do concreto, mesmo sem adicionar água durante a produção. Esse comportamento está diretamente relacionado à umidade das areias. Se não for corrigida, parte da massa considerada como agregado corresponde à água presente no material, alterando a relação entre os componentes do traço e comprometendo tanto a resistência quanto a trabalhabilidade do concreto.

A correção da umidade é um processo simples, prático e de baixo custo, podendo ser realizada com o uso de um recipiente metálico e uma fonte de calor, como um fogareiro.

Figura 4: Determinação da umidade da areia. Fonte: O Autor

DOSAGEM, PRODUÇÃO E TRANSPORTE DO CONCRETO

O processo de produção é uma das bases fundamentais para garantir a estabilidade e a reprodutibilidade das características do concreto. Envolve a combinação da dosagem, o funcionamento dos equipamentos e a execução das etapas de mistura e transporte.

Figura 5: Hidrômetro utilizado na dosagem da água. Fonte: O Autor

Nesse contexto, aspectos como calibração e manutenção das balanças, precisão dos sistemas de dosagem, sequência de carregamento dos materiais e tempo de mistura exercem influência direta sobre a homogeneidade do concreto produzido. Pequenos desvios nesses parâmetros podem resultar em variações de consistência (slump) e aumento da variabilidade da resistência.

Um ponto crítico no processo produtivo está relacionado ao controle da água adicionada durante a dosagem na usina, especialmente aquele ajuste realizado pelo operador do caminhão-betoneira. Para garantir a conformidade com o traço definido, é fundamental a utilização de hidrômetro para medição precisa da água adicionada, evitando o uso de quantidades superiores ao especificado e permitindo assim a identificação de eventuais desvios operacionais. A correta manutenção e calibração desse equipamento são essenciais para assegurar a confiabilidade das medições. Complementarmente, sua verificação periódica pode ser realizada por meio da comparação com recipientes graduados ou tambores de 200 litros utilizados para armazenamento de aditivos.

CONTROLE TECNOLÓGICO

Quando se trata de controle tecnológico do concreto, é fundamental que os ensaios e análises apresentem a maior precisão possível, garantindo que os resultados obtidos representem fielmente o comportamento do concreto. Resultados de resistência inferiores ao esperado, ocasionados por falhas na execução dos ensaios ou por problemas nos equipamentos, podem gerar diagnósticos equivocados, preocupações desnecessárias e até mesmo o aumento dos custos de produção, devido à adoção de correções inadequadas, como o incremento desnecessário do consumo de cimento.

Essas são algumas das oportunidades de melhoria que podem ser adotadas para o aprimoramento contínuo do processo produtivo e do controle tecnológico do concreto. A implementação dessas e de outras práticas contribui diretamente para o aumento da qualidade, da estabilidade operacional e, principalmente para a redução de custos.

Adriano Souza Araújo, Assessor Técnico na Cia. de Cimento Itambé

Para mais informações e para apoiar a implementação desses conceitos na rotina, os clientes podem contar com o suporte da equipe de Assessoria Técnica da Itambé!

Autor

Adriano Souza Araujo é Engenheiro Civil (UFMS), especialista em Gestão de Projetos e Processos (IPOG). Assessor técnico da Cimento Itambé e especialista em tecnologia do concreto, qualidade e materiais de construção. Atua no desenvolvimento e aperfeiçoamento de concretos, agregados e argamassas, além de prestar consultoria técnica para a otimização do desempenho dos materiais. Possui experiência em gestão da qualidade, ensaios laboratoriais, padronização de processos, implantação de indicadores de desempenho (KPIs) e estratégias voltadas ao aumento da produtividade e à redução de custos.

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Revisão

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Investimentos e gestão compartilhada impulsionam debate sobre obras industriais no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul passa por um processo de reorganização de sua infraestrutura e de retomada dos investimentos, criando um ambiente favorável para novos empreendimentos industriais. Nesse cenário, a adoção de modelos de gestão compartilhada entre empresas, entidades representativas e poder público tem ganhado espaço como estratégia para ampliar a eficiência das obras, reduzir riscos e fortalecer a competitividade da construção civil.

O tema esteve entre os destaques do Encontro CBIC de Incorporadores e Construtores | Sul, realizado em Porto Alegre. O evento reuniu empresários, especialistas e lideranças para discutir perspectivas econômicas, mercado imobiliário, infraestrutura, inovação e produtividade, além das oportunidades decorrentes da reconstrução do Estado.

Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Eduardo Aroeira, a aproximação com os agentes locais fortalece o planejamento de investimentos e permite compreender as necessidades regionais. "O encontro cumpriu o objetivo de estar ainda mais presente na ponta, ouvindo o setor onde ele acontece. Foi uma oportunidade importante para aproximar o setor, trocar experiências e debater caminhos para o desenvolvimento da construção na Região Sul e no Brasil", afirma.

Obras de infraestrutura em concreto, como a duplicação da ponte sobre o Rio Camaquã (BR-116/RS), representam os investimentos que impulsionam a reconstrução e a competitividade do Rio Grande do Sul. Crédito: Divulgação/DNIT

Reconstrução amplia demanda por obras industriais

A recuperação das áreas atingidas pelos eventos climáticos e os investimentos em infraestrutura criam novas possibilidades para empreendimentos industriais no Rio Grande do Sul. Além das obras públicas, a expectativa é de crescimento da participação da iniciativa privada em projetos voltados à logística, armazenagem, parques industriais e modernização de plantas produtivas.

Segundo o presidente do Sinduscon-RS, Rafael Goellner Garcia, o Estado passou a ocupar posição estratégica nas discussões nacionais sobre desenvolvimento econômico e infraestrutura. "Outro aspecto importante foi colocar o Rio Grande do Sul no centro das discussões sobre reconstrução, investimentos e modernização da infraestrutura, temas estratégicos para ampliar a competitividade do Estado e acelerar seu desenvolvimento", destaca.

Presidente do Sinduscon-RS, Rafael Goellner Garcia. Crédito: Divulgação

Nesse contexto, modelos de gestão compartilhada vêm ganhando espaço em empreendimentos industriais ao integrar projetistas, construtoras, fornecedores, investidores e clientes desde as fases iniciais dos projetos. A proposta é fortalecer a coordenação das atividades, reduzir desperdícios, melhorar o controle de custos e minimizar atrasos durante a execução das obras.

Planejamento e tecnologia ganham protagonismo

O cenário econômico exige decisões cada vez mais fundamentadas em dados. Durante o encontro, especialistas destacaram que ferramentas de inteligência de mercado, digitalização de processos e inteligência artificial devem desempenhar papel cada vez mais relevante na gestão dos empreendimentos.

Garcia observa que o setor deve combinar disciplina financeira com investimento em inovação. "As empresas devem manter disciplina financeira, gestão eficiente do caixa, foco na produtividade e atenção permanente ao comportamento do mercado. Também será fundamental investir em inovação, digitalização dos processos, qualificação das equipes e utilização inteligente de tecnologias como a inteligência artificial para ganhos de eficiência operacional", afirma. A adoção de práticas colaborativas também contribui para melhorar a previsibilidade dos projetos industriais, favorecendo decisões mais rápidas, maior integração entre os diferentes agentes da cadeia produtiva e redução de retrabalhos.

Ambiente regulatório permanece no radar

Apesar das perspectivas positivas, o setor acompanha com atenção os fatores que podem influenciar os investimentos nos próximos meses. Entre os principais desafios, estão a manutenção dos juros elevados, a implementação da reforma tributária, a disponibilidade de mão de obra qualificada e a necessidade de maior segurança jurídica. Na avaliação do presidente da CBIC, o cenário exige atenção. "O momento exige planejamento, busca por eficiência e atenção ao ambiente econômico. As empresas devem acompanhar de perto os custos, buscar ganhos de produtividade, investir em inovação e qualificação profissional. A CBIC continuará sua missão de apoiar as empresas do setor, para que possam escalar seus negócios com mais previsibilidade e segurança", ressalta.

Cooperação impulsiona novos investimentos

Presidente da CBIC, Eduardo Aroeira. Crédito: Divulgação

Para as entidades do setor, a combinação entre reconstrução, expansão industrial e modernização da infraestrutura cria um cenário favorável para os próximos anos. A expectativa é que a atuação conjunta entre empresas, entidades representativas e poder público fortaleça o ambiente de negócios, amplie a competitividade e estimule novos investimentos em toda a cadeia da construção.

Na avaliação de Garcia, o Rio Grande do Sul reúne condições para transformar o atual momento em uma agenda permanente de desenvolvimento. "No caso do Rio Grande do Sul, a principal oportunidade está no enorme potencial de investimentos em habitação, reconstrução, infraestrutura, expansão industrial e desenvolvimento urbano", enumera.

Já Eduardo Aroeira destaca que a construção continua desempenhando papel central no desenvolvimento do país. "A indústria da construção é estratégica para o Brasil, responsável por cerca da metade de todo o investimento realizado no país e geradora intensiva de empregos formais. Há um caminho promissor de expansão e fortalecimento do nosso setor em todos os seus segmentos de atuação", conclui.

Entrevistados

Eduardo Aroeira é Engenheiro Civil, graduado pela Universidade de Brasília (UnB), é sócio-diretor da Apex Engenharia e tem trajetória consolidada no associativismo empresarial. Já presidiu a Ademi-DF, foi vice-presidente da Comissão da Indústria Imobiliária do Sinduscon-DF, vice-presidente financeiro da CBIC e presidente do Seconci-DF. Atualmente, é presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Rafael Goellner Garcia é presidente do Sinduscon-RS para a Gestão 2026-2028 e sócio-diretor da GC Engenharia. Também integra a diretoria do Sistema Fiergs e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), onde atua no fortalecimento das pautas estratégicas do setor da construção.

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CBPAT 2026 debate durabilidade, manutenção preventiva e desempenho das edificações

A ampliação da vida útil das estruturas, a redução das emissões de carbono e a consolidação de uma cultura de manutenção preventiva dominaram os debates do 7º Congresso Brasileiro de Patologia das Construções (CBPAT 2026), realizado entre os dias 24 e 27 de junho, em São Paulo. Organizado pela Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil), o evento reuniu pesquisadores, engenheiros, construtoras, projetistas, consultores, fabricantes e representantes de órgãos públicos para discutir soluções voltadas ao desempenho, à durabilidade e à recuperação das edificações brasileiras.

Reconhecido como um dos principais fóruns técnico-científicos do país dedicado ao estudo, prevenção, diagnóstico e recuperação das manifestações patológicas nas construções, o congresso abordou temas que deverão influenciar projetos, normas e práticas do setor nos próximos anos.

Segundo o presidente da ALCONPAT Brasil, Rafael Timerman, esta edição registrou crescimento de aproximadamente 10% no número de congressistas em relação ao evento anterior e ampliou significativamente o escopo técnico.

Além dos tradicionais debates sobre concreto e estruturas, o congresso passou a contemplar painéis dedicados à impermeabilização, esquadrias, infraestrutura e outros sistemas construtivos.

"Conseguimos atrair um público muito mais amplo, envolvendo profissionais de diversas especialidades da construção civil", destaca.

Timerman também ressaltou a participação de entidades como IBRACON, SindusCon, Instituto de Engenharia e outras organizações nacionais e internacionais, fortalecendo a integração entre pesquisa, indústria e mercado.

CBPAT 2026 registrou crescimento de aproximadamente 10% no número de congressistas. Crédito: ALCONPAT

Na avaliação do professor Bernardo Tutikian, um dos palestrantes do evento, dois temas ganharam especial destaque ao longo do congresso: a necessidade de reduzir as emissões de CO₂ das estruturas de concreto e o aumento da durabilidade das construções.

"Esses dois temas acabam caminhando juntos. Quanto maior a vida útil da estrutura, menores são os custos de manutenção, menor a necessidade de demolição e reconstrução e, consequentemente, menores também as emissões de carbono", afirma Tutikian.

Segundo ele, o setor tem investido em concretos mais duráveis, maiores cobrimentos, proteções superficiais e melhorias na execução das obras para prolongar a vida útil das edificações.

Nova norma muda cultura das garantias

Outro tema de destaque foi a NBR 17.170, conhecida como norma de garantias, que estabelece critérios para a responsabilidade de projetistas, construtoras e usuários durante o ciclo de vida das edificações.

De acordo com Tutikian, que abordou o tema em sua palestra, a principal mudança é que a garantia deixa de depender apenas da qualidade da construção e passa a considerar também a manutenção realizada pelo proprietário.

"Para oferecer garantia, é preciso demonstrar que o empreendimento foi corretamente projetado e executado. Ao mesmo tempo, o usuário também assume responsabilidades, como realizar as manutenções previstas e utilizar a edificação de forma adequada."

Na prática, a lógica se aproxima do que já ocorre em automóveis e elevadores, cuja garantia depende do cumprimento das revisões periódicas.

Para as empresas, isso exige processos mais estruturados de documentação e comunicação.

"O maior erro é não orientar adequadamente o usuário sobre quais manutenções devem ser realizadas e em que momento. Se isso não for feito, a construtora pode assumir responsabilidades que poderiam ser evitadas", explica.

Apesar do avanço, Tutikian observa que ainda existem desafios para a aplicação da norma, especialmente na interpretação jurídica em casos de litígios, já que o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor possuem força legal superior às normas técnicas.

Caso da ponte do Tocantins reforça importância das inspeções

Entre as palestras que despertaram maior interesse esteve a análise técnica sobre o colapso da ponte Juscelino Kubitschek entre Tocantins e Maranhão.

Segundo Rafael Timerman, responsável pela apresentação, o objetivo não foi apontar culpados, mas compreender tecnicamente os fatores que contribuiram para o acidente.

"As principais hipóteses envolvem falhas de concepção, problemas nos materiais e excesso de carga", afirma.

Timerman destacou ainda que o Brasil já dispõe de tecnologias capazes de monitorar continuamente o comportamento das pontes por meio de sensores capazes de medir deslocamentos, vibrações e oscilações estruturais.

No entanto, ele ressalta que o principal desafio continua sendo a gestão dos ativos existentes.

"O mais importante é inspecionar todas as pontes conforme estabelece a NBR 9452. Precisamos conhecer o estado de conservação das estruturas para identificar quais necessitam de intervenções emergenciais", destaca Timerman.

Sustentabilidade passa pela preservação das estruturas

Outro ponto defendido durante o congresso foi a necessidade de ampliar a cultura de inspeção e reabilitação das obras existentes.

Para Timerman, prolongar a vida útil das estruturas representa uma das estratégias mais eficientes para reduzir impactos ambientais. "Mais sustentável do que demolir e reconstruir é conservar, recuperar e manter as estruturas em funcionamento pelo maior tempo possível", pontua.

Ele também destacou que o concreto brasileiro apresenta desempenho ambiental superior ao observado em diversos países e defendeu maior utilização de projetos estruturais desenvolvidos por profissionais qualificados para otimizar o consumo de materiais e reduzir desperdícios.

“Ficou evidente que temas como descarbonização, durabilidade, monitoramento estrutural, manutenção preventiva e gestão do ciclo de vida das edificações deverão ocupar espaço cada vez maior nas agendas da engenharia e da construção civil, consolidando uma mudança de paradigma que privilegia a prevenção em vez da correção de falhas”, conclui Timerman.

Fontes

Rafael Timerman é engenheiro civil, graduado em 2008 pela Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sócio-Diretor da ENGETI CONSULTORIA E ENGENHARIA S/S Ltda., empresa de consultoria e projetos estruturais. Ele também é conselheiro do IBRACON – 2023-2027.

Bernardo Tutikian é engenheiro civil, mestre e doutor. Professor e pesquisador da Unisinos, no Rio Grande do Sul. Também é autor de mais de 450 artigos em periódicos e congressos, além de consultor de empresas na área de tecnologia do concreto, de argamassa, patologia e desempenho.

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Concreto de baixa permeabilidade amplia segurança e durabilidade de estruturas hidráulicas

As estruturas hidráulicas estão entre as obras mais importantes para o funcionamento da sociedade. Responsáveis por armazenar, conduzir, regular ou dissipar água, elas garantem o abastecimento de cidades, a geração de energia, a irrigação agrícola e o controle de cheias. Nesse cenário, a qualidade do concreto utilizado desempenha papel decisivo para a segurança e a vida útil dessas construções.

Barragens, vertedouros, canais, túneis e tomadas d’água permanecem continuamente expostos à ação da água e, por isso, exigem materiais capazes de resistir a condições severas de operação. Entre os requisitos técnicos mais relevantes está a baixa permeabilidade do concreto, característica que dificulta a penetração de água e protege a estrutura contra processos de degradação.

Segundo o engenheiro civil Henrique Augusto Palumbo, as estruturas hidráulicas são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social. “As estruturas hidráulicas constituem um dos pilares da engenharia civil desde os tempos antigos até os dias de hoje para o controle e aproveitamento dos recursos hídricos”, afirma.

Água pode comprometer a integridade das estruturas

A baixa permeabilidade do concreto vai muito além de uma questão relacionada ao desempenho do material. Ela está diretamente ligada à preservação da estrutura ao longo dos anos.

Quando a água penetra no concreto, diferentes mecanismos de deterioração podem ser desencadeados. Entre eles, estão a lixiviação, que provoca a perda de componentes da matriz cimentícia, e a corrosão das armaduras metálicas. “Esses processos podem gerar pressões internas que comprometem a estabilidade e a durabilidade das estruturas”, explica Palumbo. O especialista ressalta que a baixa permeabilidade está diretamente associada à segurança, à durabilidade e à redução dos custos de manutenção ao longo do ciclo de vida das obras.

Hidrelétrica de Itaipu é um dos exemplos de aplicação do concreto de baixa permeabilidade. Crédito: Envato

Como se obtém um concreto de baixa permeabilidade

A principal característica de um concreto de baixa permeabilidade é sua microestrutura densa, com baixa conectividade entre os poros internos. Essa condição dificulta a passagem da água, mesmo quando há pressão hidrostática significativa.

Para atingir esse desempenho, é necessário adotar uma série de cuidados desde a fase de projeto até a execução da obra. Entre eles estão a utilização de um concreto produzido com baixa relação água-cimento, a escolha adequada dos agregados, o uso de adições minerais e aditivos químicos, além de rigoroso controle dos processos de adensamento e cura.

Estes cuidados garantem o controle da fissuração. “Quanto menor a presença de fissuras e vazios internos, maior será a capacidade do concreto de resistir à penetração de água”, destaca o engenheiro.

Benefícios técnicos e econômicos

A adoção de concretos com elevada baixa permeabilidade proporciona ganhos que vão além da durabilidade. Entre os principais benefícios, estão a redução de infiltrações, a maior resistência a agentes químicos e ambientais e a diminuição da ocorrência de manifestações patológicas.

Também há reflexos positivos na segurança operacional das estruturas, especialmente em empreendimentos de grande porte que permanecem submetidos a carregamentos constantes e ambientes agressivos. De acordo com Palumbo, o uso desse tipo de concreto contribui para reduzir intervenções corretivas e prolongar a vida útil das obras, gerando economia ao longo dos anos.

Itaipu é referência em desempenho e durabilidade

Entre os exemplos mais conhecidos de aplicação do concreto de baixa permeabilidade está a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Considerada uma das maiores obras de engenharia do mundo, a barragem foi construída com rigoroso controle tecnológico e continua apresentando desempenho satisfatório após décadas de operação. “Estudos posteriores de monitoramento indicam que o concreto utilizado mantém boa resistência e comportamento satisfatório frente a processos como lixiviação, evidenciando a importância de uma dosagem adequada e controle executivo rigoroso”, afirma o especialista.

Além das grandes barragens, concretos de alto desempenho (CAD) e ultradesempenho (UHPC) também vêm sendo utilizados em vertedouros e túneis hidráulicos, onde são exigidos baixos índices de permeabilidade e elevada resistência à abrasão e à cavitação.

Controle tecnológico ganha importância

Com a evolução das normas técnicas e o aumento das exigências de segurança, especialmente em estruturas consideradas críticas, o controle da permeabilidade tornou-se um dos principais parâmetros avaliados em projetos hidráulicos. Para Henrique Palumbo, a combinação entre projeto adequado, materiais de qualidade e boas práticas construtivas é o caminho para garantir a confiabilidade dessas infraestruturas. “Mais do que um material estrutural, o concreto nas obras hidráulicas atua como um elemento de barreira hidráulica e de proteção contra processos de degradação”, conclui.

Em um cenário de crescente demanda por infraestrutura hídrica segura e durável, a baixa permeabilidade do concreto se consolida como um dos fatores mais importantes para assegurar o desempenho dessas estruturas ao longo de décadas de operação.

Entrevistado

Henrique Augusto Palumbo é engenheiro civil graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Georreferenciamento (UFPR), Engenharia Ambiental (UFAM), Engenharia de Segurança de Barragens (IDD), associado ao (Comitê Brasileiro de Barragens) e atuante nesta mesma área.

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