ENECE realça credibilidade da engenharia estrutural
Edição 2012 destaca respeito internacional conquistado pelos profissionais brasileiros, além dos avanços tecnológicos que hoje envolvem os projetos
Por: Altair Santos
A engenharia estrutural brasileira consolida-se como uma das mais respeitadas do mundo. Não só pelos conceitos que desenvolveu, principalmente a partir da década de 1960, mas pela normatização que hoje deve ser seguida pelos projetos. Essa credibilidade foi realçada no 15º ENECE (Encontro Nacional de Engenharia e Consultoria Estrutural) que ocorreu no final de outubro, em São Paulo. Promovido pela ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) o evento atraiu palestrantes internacionais como o engenheiro civil português Tiago Braga Abecasis e o norte-americano Arnold Van Acker.

Segundo o ex-presidente da ABECE, Eduardo Barros Millen, que no encontro empossou a nova presidente da associação, a engenheira civil Suely Bacchereti Bueno, esse tipo de intercâmbio reforça ainda mais o prestígio de projetistas e calculistas brasileiros. "Os serviços desses profissionais têm sido amplamente requisitado no exterior. Em determinados quesitos, estamos mais para ensinar do que aprender. Mas devemos ter também a humildade suficiente para ir buscar lá fora resultados de ensaios de estruturas e peças que ainda não temos aqui", ressalta.
Millen destaca que, felizmente, a consultoria estrutural passou a ter um mercado com demanda aquecida. "O trabalho desses profissionais é que garante qualidade, durabilidade e segurança à construção. Por isso, há cerca de quatro ou cinco anos temos experimentado falta de mão de obra qualificada para trabalhar em escritórios de projeto estrutural. Esse fato levou a ABECE, em parceria com a FESP (Faculdade de Engenharia São Paulo) e a TQS Informática, a montar um curso de pós-graduação lato sensu para formação de especialistas em estruturas de concreto. Também há uma demanda dos clientes por profissionais cada vez mais qualificados", diz.
O 15º ENECE abordou ainda os avanços tecnológicos e as mudanças que os softwares causaram na engenharia estrutural. Para isso, o decano Mário Franco concedeu uma palestra onde traçou uma linha do tempo que foi desde a régua de cálculo até o programa que hoje encanta os projetistas: o BIM (Building Information Modeling). "A evolução dos métodos de trabalho foi significativa. Os softwares ajudam a dar maior precisão nos cálculos estruturais, agilizam o trabalho e o fazem com menos erros do que se fazia antes do seu advento. Desde os tempos das contas com réguas de cálculo, passando pelas calculadoras de quatro operações, computadores de grande porte e chegando aos microcomputadores, laptops e tablets, houve muitas mudanças. No entanto, nunca se dispensou a experiência e o bom senso do engenheiro estrutural", afirma.
Nova diretoria

A nova presidente da ABECE, a engenheira civil Suely Bacchereti Bueno, tem uma experiência profissional de quase 40 anos na área de estruturas. Atualmente, ela concentra-se na coordenação da CE 02:124.15 (Comissão de Estudo de Estruturas de Concreto - Projeto e Execução) constituída pela ABNT para revisar a NBR 6118 - Projeto de estruturas de concreto – Procedimento. Além de Suely Bueno, os demais integrantes da diretoria da ABECE para o biênio 2012-2014 são os seguintes:
Vice-Presidente de Relacionamento: Augusto Guimarães Pedreira de Freitas
Vice-Presidente de Tecnologia e Qualidade: Jefferson Dias de Souza Junior
Vice-Presidente de Marketing: João Alberto de A. Vendramini
Diretor Administrativo-Financeiro: Roberto Dias Leme
Diretores
Enio Canavello Barbosa
Guilherme Covas
João Luiz Zattarelli
José Luiz V. C. Varela
José Martins Laginha Neto
Thomas Garcia Carmona
Conselho Deliberativo
Bruno Contarini
Francisco Paulo Graziano
Júlio Timerman
José Augusto De Ávila
Natan Jacobsohn Levental
Nelson Covas
Sônia Regina Freitas
Virgílio Augusto Ramos
Entrevistado
Eduardo Barros Millen, ex-presidente da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural)
Currículo
- Engenheiro civil graduado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
- É sócio-diretor da ZMC (Zamarion e Millen Consultores SS Ltda.) e presidiu a ABECE no biênio 2010-2012
Contato: www.abece.com.br
Créditos fotos: Divulgação / Itambé
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
Empresa não pode focar no que foi, mas no que será
Conceito faz com que gestão de mudanças ganhe espaço nas Companhias, mas é essencial que haja engajamento dos colaboradores
Por: Altair Santos
O especialista em gestão de empresas Telmo Schoeler avalia que o mercado tem feito com as companhias uma espécie de lei de Darwin, ou seja, a seleção natural entre as que conseguem mudar e evoluir para competir e as que se perdem na lentidão e na burocracia e acabam tornando-se verdadeiros dinossauros. Por isso, segundo ele, é inexorável que as corporações saudáveis estejam constantemente operando dentro de uma gestão de mudanças. "A mudança dentro da empresa deve ser um estado de espírito. Não importa o que a empresa foi nem o que é, mas apenas o que será", resume Telmo Schoeler.

Para o especialista, há um equívoco quando se pensa que apenas as grandes corporações conseguem implementar gestão de mudança. "Quando mencionamos exemplos e estratégias de empresas bem sucedidas como Coca Cola, Nestlé, Microsoft, Disney, Natura, Gerdau, entre outras, é comum ouvir: ah, mas isso é para grandes empresas. Não se aplica a nós, pequenas e médias. Porém, analogamente, temos os casos de grandes derrocadas, como Varig, Lehman Brothers, GM, Mesbla e Kodak. O que significa isso? Significa que, independentemente do tipo, do setor, da dimensão, do estágio de sofisticação gerencial e da situação econômico-financeira, os conceitos que definem sucesso e fracasso estão ligados à capacidade das empresas de se adaptarem e mudarem de acordo com as exigências do mercado", diz.
No organograma das empresas resilientes há 12 regras fundamentais:
1 - Objetivo claro e definido → sua ausência impede traçar caminhos.
2 - Estratégia para atingir esse objetivo e pessoas capazes de estabelecê-la → sem elas, tudo o mais é efêmero.
3 - Estrutura de capital compatível com o negócio → nada se sustenta apenas com ideias e boa vontade.
4 - Pessoas com capacidade para executar as ações da estratégia → iniciativa sem entrega é inócua.
5 - Sistema de registro e controle dos atos e fatos → sem ele se desconhece situação e performance e qualquer voo cego um dia acaba em tragédia.
6 - Periódica revisão estratégica à luz das mudanças e dinâmica do mundo → só o futuro existe e será diferente do passado.
7 - Afinidade e harmonia societária → a física já nos ensina que a resultante de forças iguais e de sentido contrário é a inércia, o que nos negócios é a morte.
8 - Gestão do processo sucessório de pessoas e de capital → porque pessoas morrem e capital troca de mãos.
9 - Acompanhamento, verificação e auditoria dos atos e fatos → nem tudo o que parece é.
10 - Consciência de que só o mercado/vendas nos sustentam → saber que necessidade a empresa supre e quais problemas ela resolve para os clientes.
11 - Sermos melhores/diferentes de nosso concorrente → por que os clientes gastam conosco?
12 - Consciência de que tudo acaba em dinheiro → sobrevivemos ou morremos pelo caixa.
Esses conceitos formam um plano macro, que, no entanto, só consegue ser implementado se conduzido por uma liderança qualificada e inovadora. "Diria que as empresas que falharam nas estratégias de mudança promoveram ações erráticas, principalmente apostando em planos de tentativa e erro. Outro equívoco foi terem contratado líderes com experiência no ramo, mas sem o perfil de mudança. O desafio requeria muito mais do que isto", avalia Telmo Schoeler. "Multinacionais ou a padaria da esquina sobrevivem ou desaparecem pelas mesmas razões, que são a adesão ou não aos princípios de gestão e governança", complementa o especialista, garantindo que as mesmas regras servem também para as companhias que atuam na construção civil, sejam elas grandes médias ou pequenas.
Entrevistado
Telmo Schoeler, sócio-fundador e Leading Partner da Strategos – Strategy & Management, e coordenador da Orchestra – Soluções Empresariais
Currículo
- Graduado em administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com MBA (Master of Business Administration) pela Michigan State University – EUA
- Tem ainda diversos cursos de extensão em gestão, governança corporativa, planejamento, finanças, marketing e qualidade, seja no Brasil, nos Estados Unidos (Southern Connecticut University e Yale University) e Inglaterra (City of London)
- Possui 47 anos de prática profissional, metade exercendo funções executivas de diretoria e presidência de empresas nacionais e estrangeiras na indústria, comércio e serviços, incluindo bancos nacionais e internacionais nas áreas de crédito, investimentos, mercado de capitais e fusões & aquisições
- É sócio-fundador e Leading Partner da Strategos – Strategy & Management e fundador e coordenador da Orchestra – Soluções Empresariais
Contato: strategos.telmo@orchestra.com.br
Créditos foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
Pré-fabricado faz arenas da Copa virarem realidade
A menos de 600 dias do mundial, sistema construtivo impulsiona obras, que começam a ser inauguradas a partir de dezembro de 2012
Por: Altair Santos
Ainda que as obras de mobilidade prometidas para a Copa do Mundo estejam em ritmo lento, com a possibilidade de que algumas sequer saiam do papel ou sejam concluídas apenas após o megaevento de 2014, os estádios construídos para o torneio vivem uma outra realidade. Até o final da primeira quinzena de outubro de 2012, sete deles já haviam rompido a barreira dos 50% de obras concluídas. A previsão é que os primeiros empreendimentos fiquem prontos até o final deste ano. São os casos do Castelão, em Fortaleza/CE, e do Mineirão, em Belo Horizonte/MG.
Com a Copa do Mundo a menos de 600 dias do seu início, os estádios ganham ritmo acelerado graças a sistemas construtivos impulsionados pelos pré-moldados. No caso do Castelão e do Mineirão, o emprego de peças de concreto não chega a ser tão volumoso, por tratarem-se de estruturas em reforma. Mesmo assim, eles necessitaram de peças de concreto na ordem de 36% do total da obra - no caso do estádio de Fortaleza - e de 41% no de Belo Horizonte. O Castelão empregou 1.118 peças pré-fabricadas, enquanto no Mineirão a chamada esplanada, construída no entorno do estádio, é que tem exigido mais pré-moldados.
No local está instalada uma central de concreto que produz 350 m³/dia, fornecendo material para uma central de pré-moldado concebida para produzir 12 pilares por dia. Para a estrutura pré-moldada da esplanada, foram empregados 530 pilares, 556 vigas e 3.815 lajes pré-moldadas. Outra obra que se beneficiou das estruturas pré-fabricadas foi o Estádio Nacional de Brasília. Para a construção no anel superior, foram empregadas 1.604 peças de concreto. Já na Arena Fonte Nova, em Salvador/BA, foram instalados 500 pilares, duas mil vigas, sete mil lajes alveolares, 450 vigas-jacaré e 1.500 peças para as arquibancadas. Os pré-moldados consumiram 20 mil m³ de concreto.
Nenhum dos 12 estádios, porém, tem usado tantas estruturas pré-moldadas quanto a Arena São Paulo/SP. São 16 mil peças, entre pilares, vigas, lajes e degraus. A quantidade de elementos de concreto empregados é mais que o dobro do que vai precisar a Arena Pantanal, em Cuiabá/MT. Serão 7.107 estruturas, entre lajes, vigas, pilares (70%), vigas-jacaré e arquibancadas. Já as arenas de Pernambuco, Manaus/AM e Natal/RN preveem a instalação de 4 mil, 2,5 mil e 1,7 mil peças de concreto pré-moldado. No Maracanã, que a exemplo dos estádios de Fortaleza e Belo Horizonte é um estrutura em reforma, foram empregados 3 mil elementos.
No Beira-Rio, em Porto Alegre/RS, que é outro estádio em reforma, o volume de pré-fabricados equivale a 4 mil m³, enquanto na Arena da Baixada estima-se a utilização de pelo menos 1,5 mil peças pré-moldadas. Assim como o estádio gaúcho, o da capital paranaense também está em reforma.
Congresso do Ibracon estimula intercâmbio internacional
Evento que marcou os 40 anos do Instituto Brasileiro do Concreto promoveu troca de tecnologias entre brasileiros, portugueses e norte-americanos
Por: Altair Santos
O 54º Congresso do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) que foi realizado de 8 a 11 de outubro, em Maceió/AL, marcou os 40 anos do Instituto. Mais que isso, reforçou intercâmbios internacionais entre organismos de engenharia civil da Europa e dos Estados Unidos com instituições nacionais. "Essas parcerias internacionais reconhecem toda a importância do Ibracon como entidade de defesa da técnica e das inovações importantes que ocorrem nesta área no Brasil. Isso sem dúvida se reflete na qualidade da construção civil e na consolidação da capacidade técnica da engenharia brasileira no setor do concreto", avalia Túlio Nogueira Bittencourt, presidente do Ibracon.

Os intercâmbios selados em Maceió abrangem concreto autoadensável, construções de barragens, infraestrutura ferroviária, metroviária e rodoviária e pavimento de concreto. "No caso das barragens, o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) de Portugal possui uma tecnologia bastante avançada, principalmente na parte de acompanhamento de modelagem. Então, são parcerias com as quais firmamos acordos para, a cada dois anos ou três anos, repetir fora do Brasil com o apoio do Ibracon", destaca Túlio Nogueira Bittencourt. Esse evento já foi batizado de Dam World Conference - Conferência Mundial para discutir projetos, operação e manutenção de barragens.
Paralelamente ao 54º Ibracon ocorreu o 1º Simpósio Latino-Americano sobre Concreto Autoadensável. O material, cuja utilização no Brasil tornou-se mais frequente a partir de 2004, foi tema de debates sobre a sua evolução. "As questões abertas trataram da forma de lançamento, do preenchimento das armaduras e da utilização em pré-moldados. Tudo isso com a participação das universidades, como a Escola Politécnica da USP e a Escola de Engenharia de São Carlos, que levaram equipes de professores e alunos até Maceió", comenta o presidente do Ibracon, cujo congresso recebeu a apresentação de 424 trabalhos de pesquisa.
O 54º Congresso do Ibracon também sediou a 8ª Feira Brasileira de Produtos e Serviços da Construção (Feibracon). O evento, que aconteceu no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, aproveitou para fazer correlação com o bom momento que a construção civil vive no nordeste brasileiro. "O Ibracon valoriza e estimula o desenvolvimento do concreto no Brasil inteiro. Esta característica do congresso, de ser itinerante, é muito importante, pois estimula a correta aplicação do concreto em todo o território nacional. Além disso, a parte da indústria presente na feira teve a oportunidade de estabelecer parcerias interessantes com empresas nordestinas", diz Túlio Nogueira Bittencourt, já preparando o 55º Congresso do Ibracon, que será em Gramado/RS, de 29 de outubro a 1º de novembro de 2013.
Entrevistado
Túlio Nogueira Bittencourt, presidente do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto)
Currículo
- Túlio Nogueira Bittencourt é graduado em engenharia civil pela Universidade de Brasília (1984)
- Tem mestrado engenharia civil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1988) e doutorado em Engenharia de Estruturas, pela Cornell University (1993)
- Atualmente é professor associado da Universidade de São Paulo e diretor-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon)
- Tem experiência na área de estruturas, com ênfase em estruturas de concreto, atuando principalmente nos seguintes temas: mecânica da fratura do concreto, modelagem computacional não linear via método dos elementos finitos, análise experimental e monitoração de estruturas
- É também membro do ACI (American Concrete Institute), do FIB (International Federation for Structural Concrete), TRB (Transportation Research Board), RILEM (International Union of Laboratories and Experts in Construction Materials, Systems and Structures) e IABMAS (International Association for Bridge Maintenance and Safety)
- Atua como palestrante convidado em eventos nacionais e internacionais
Contato: tulio.bittencourt@poli.usp.br
Créditos foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
Construção civil da região sul ganha ITA no LACTEC
Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento está prestes a obter certificação para funcionar como uma Instituição Técnica Avaliadora
Por: Altair Santos
O Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (LACTEC) está em vias de se tornar a primeira Instituição Técnica Avaliadora (ITA) do Sul do Brasil. Reivindicada há tempos por organismos ligados à construção civil da região, a criação de uma ITA permitirá que materiais e processos construtivos cheguem ao mercado com um comprovado controle de qualidade.

Atualmente existem apenas sete instituições habilitadas no Brasil, nenhuma delas no Sul. O desejo do Ministério das Cidades, de expandir as ITAs, está relacionado à entrada em vigor, em março de 2013, da norma de desempenho NBR 15575, que vai passar a nortear e exigir mais demanda por serviços prestados pelas Instituições Técnicas Avaliadoras.
Na entrevista a seguir, o diretor de desenvolvimento tecnológico do LACTEC (Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento) Ney Augusto Nascimento explica como está o processo de certificação e quais são as atribuições de uma Instituição Técnica Avaliadora dentro da cadeia produtiva da construção civil. Confira:
O Lactec pode se tornar a primeira Instituição Técnica Avaliadora (ITA) da construção civil na região Sul. O que isto significa para o Instituto?
O Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (LACTEC) sempre teve um viés inovador. Desde o seu módulo inicial, o CEHPAR (Centro de Hidráulica e Hidrologia Professor Parigot de Souza), que desenvolve até hoje modelos hidráulicos reduzidos para grandes obras de engenharia, primou pelo pioneirismo, pela audácia e pela pesquisa. Assim, neste novo desafio que o governo, as instituições de classe ligadas à engenharia civil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e a sociedade em geral apresentam, o LACTEC não poderia ficar alheio e decidiu como parte do seu planejamento estratégico, abraçar mais esta causa. Trata-se na realidade de uma complementação de atividades que o Instituto já realiza na área da construção civil, bastante ampliada para incluir os vários aspectos do desempenho de materiais e métodos construtivos. A formalização de uma ITA-LACTEC representa para a região Sul do Brasil um passo fundamental para que se certifiquem os produtos e o modo de aplicá-los em edificações, visando o melhor desempenho possível, especialmente nas habitações de interesse social.
O que uma ITA faz e quais setores ela abrange da construção civil?
A ITA tem por objetivo testar e certificar produtos e processos da construção civil sob os aspectos resistência mecânica, durabilidade, estanqueidade à água, térmico, acústico e de reação e resistência ao fogo. De todos esses itens, a questão da resistência é provavelmente a mais conhecida e realizada Brasil afora. As demais são de limitada realização, em especial em respeito ao fogo, que praticamente não se faz no Brasil. O escopo de uma ITA deve ser geral, podendo, porém, haver complementações entre diferentes instituições avaliadoras, em especial nesta fase de início de aplicação da norma brasileira de desempenho de edificações.

O LACTEC está aperfeiçoando seus laboratórios ou chegou a criar um laboratório exclusivo para reivindicar a condição de ITA?
O LACTEC está ampliando as suas atuais instalações voltadas à construção civil para se tornar uma ITA. No momento, o Instituto realiza grande parte dos ensaios de resistência mecânica e de durabilidade exigidos. Há, porém, necessidade de ampliação, tanto de espaços físicos, quanto de equipamentos, novos e complementares aos existentes, assim como da contratação e treinamento de pessoal. A questão do fogo é bastante específica, pois exige grandes investimentos e apoio de equipe especializada neste tema. O Lactec está em fase de planejamento de novos investimentos para tal e provavelmente um novo conjunto de laboratórios será criado para funcionar como ITA.
Quando deve sair a habilitação e quem autoriza o Lactec a se tornar uma ITA?
O pedido para que o LACTEC seja também uma ITA foi protocolado no Ministério das Cidades, no âmbito do Sistema Nacional de Avaliações Técnicas - SINAT. Mesmo sem ter o escopo completo de ITA, o Instituto pode funcionar como tal, limitando as suas ações enquanto cresce, e mesmo apoiando-se em atividades complementares que outras instituições executem, como por exemplo o SENAI-PR, parceiro de atuação. Há expectativa de que a ITA- LACTEC seja formalizada ainda em 2012, segundo informações do próprio Ministério das Cidades.
Na prática, o que uma certificação como essa vai influenciar nas construções do Sul do país?
Inicialmente, deve ser esclarecido que haverá uma instalação de ITA no LACTEC, após a devida aprovação. Posteriormente, avançaremos para o aspecto certificação, que envolve a participação do Inmetro nos diversos ensaios que a ITA realizará. Com os diversos procedimentos normalizados em curso na ITA, a qualidade de materiais e processos construtivos lá testados será validada. A partir de critérios de desempenho pré-estabelecidos, será possível dizer se tal material ou processo, sob condição de fogo, barulho, calor, intemperismo, carregamento e água apresenta comportamento que pode ser aceito nas edificações residenciais. Isto certamente melhorará a qualidade geral das construções, não somente no Sul, mas em todo o país. Saliente-se ainda que órgãos financiadores da construção habitacional, como a Caixa Econômica Federal, exigirão as certificações das empreiteiras a serem contratadas, via uma ITA.
Uma ITA atende mais construções habitacionais ou influencia também em obras de infraestrutura?
A norma brasileira que basicamente norteia as ações de uma ITA é a de desempenho de edifícios habitacionais até cinco pavimentos, NBR 15575-ABNT, prevista para entrar em vigência em março de 2013. Apesar de se referir a habitações de até cinco pavimentos, existe a expectativa do mercado de que a sua atuação se generalize a todas as edificações. A questão da qualidade na construção civil deverá se espalhar a qualquer tipo de obra num futuro breve, generalizando assim os conceitos ora restritos ao caso habitacional.
No caso das Companhias habitacionais, como a Cohapar, o LACTEC, a partir da habilitação ITA, pode dar que tipo de contribuição para que as construções habitacionais de interesse social melhorem?
Mediante os ensaios e posteriores certificações de materiais e processos construtivos, as empreiteiras da construção civil terão mais segurança na utilização desses materiais e processos nas suas obras, inclusive de conjuntos de habitações de interesse social. Sabe-se que há muitos casos em que a qualidade do produto final é muito aquém da desejada. Com a certificação via ITA haverá uma seleção de esquadrias, telhas, paredes, pisos, portas corta-fogo, revestimentos, juntas, forros e tantos outros itens de uma residência, por exemplo, oferecendo uma opção de produtos testados e certificados aos clientes, e como consequência um melhor desempenho da habitação.
Qual a influência da NBR 15575 (norma de desempenho) na certificação ITA para o LACTEC?
A norma de desempenho é a base para uma ITA. Há uma grande quantidade de normas adicionais, para as mais diversas atividades, materiais e funções, mas o desempenho de uma edificação representa a junção de muitos e diversos materiais, agregados através de um processo construtivo, e que devem ter um comportamento adequado. Isto significa qualidade de morar, qualidade de vida. O cumprimento desses requisitos normalizados, portanto, deverá garantir esta qualidade superior de desempenho da habitação para os seus moradores.
Os sistemas construtivos industrializados tendem a ganhar impulso no Sul do país, a partir dessa habilitação ITA?
Estima-se que sim. Uma das maneiras de se melhorar a qualidade de produtos e processos é através da industrialização. Acrescente-se também a questão de custo para o cliente final – o déficit habitacional no Brasil é da ordem de milhões de moradias, e se não se industrializar soluções, barateando-as, não haverá como diminuí-lo ou eventualmente zerá-lo. Sistemas de construção industrializada inovadores, rápidos, mais baratos e de boa qualidade, certificados via ITA, deverão ser a solução para este grande problema nacional. Levando-se em conta o fator escala, produzindo milhares de peças em lugar de centenas, ou mesmo milhões em lugar de milhares, haverá como resolvê-lo.
Com relação à qualificação da mão de obra na construção civil, o que uma habitação dessa deve mudar?
A resposta é a construção industrializada, que venha pronta da fábrica para ser montada no local da obra, certificada. Muda basicamente o conceito, ou seja, interrompe-se o artesanato na construção civil, com mão de obra pouco qualificada e sistemas pouco produtivos e implementa-se a produção em massa, com controle de qualidade, mão de obra especializada, certificação e preços mais baixos. E este artesanato morre? Provavelmente não, porém terá que ser revisto, melhorado e otimizado. E a certificação de produtos e processos não poderá mais ser deixada de lado.
Entrevistado
Ney Augusto Nascimento, diretor de desenvolvimento tecnológico do LACTEC (Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento)
Currículo
- Graduado em engenharia civil pela Universidade Federal do Paraná (1972), com mestrado em Engenharia Civil Geotecnia - The University of New México, EUA (1975) e doutorado em Engenharia Civil - The University of New Mexico (1983)
- É professor titular aposentado da Universidade Federal do Paraná - departamento de construção civil do setor de tecnologia
- Tem experiência na área de engenharia civil, com ênfase em fundações e escavações, atuando principalmente nos seguintes temas: taludes, fundações, reforço de solos, ensaios geotécnicos laboratoriais, ensino de engenharia
- Entrou no LACTEC como representante da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e atualmente ocupa o cargo de diretor de desenvolvimento tecnológico do LACTEC
Contato: ney.nascimento@lactec.org.br
Créditos foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
MCMV precisa ser mais ágil para atingir a classe média
Principal programa habitacional do país perde competitividade ao avançar lentamente suas curvas de limite de renda e de valor de imóveis
Por: Altair Santos
Dia 4 de outubro de 2012, o governo federal anunciou mudanças no programa Minha Casa, Minha Vida que, de certa forma, frustraram o mercado imobiliário. Havia a expectativa de que os subsídios para a aquisição da casa própria, que são o diferencial do MCMV, fossem estendidos para famílias com renda superior a R$ 5 mil - atingindo o estrato social definido como classe B. No entanto, através do Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ocorreram apenas reajustes pontuais no programa, mantendo-o limitado a quem tem renda até oito salários mínimos.

Para Flávio Prando, vice-presidente de habitação econômica do Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo) ampliar a curva de subsídios é um ajuste pelo qual o Minha Casa, Minha Vida teria de passar. "Precisaria haver uma alteração de limites, seja de renda e de valor dos imóveis, ampliando a curva de subsídios. Essa curva subiu muito pouco e, portanto, ela já não produz o mesmo efeito que produzia em abril de 2009, quando foi lançado o programa", analisa. "Com essas medidas, o MCMV se tornaria um programa de Estado e deixaria de ser um programa de governo", completa.
Ao contrário da análise do especialista, o Conselho Curador do FGTS optou por mudanças tímidas. O valor dos subsídios a fundo perdido para as famílias com renda mensal até R$ 1,6 mil - a faixa mais baixa do programa - foi reajustado de R$ 23 mil para R$ 25 mil. Houve pequenas correções também nas três faixas posteriores contempladas no MCMV. A segunda, que ia de R$ 1.600,01 a R$ 2,325 mil, passa para R$ 2,455; a terceira, de ganhos até R$ 3,1 mil, sobe para R$ 3,275 mil; e o teto da quarta faixa continua em R$ 5 mil. As taxas de juros ao ano permanecem as mesmas, de 5% a 6%, com ligeira redução na faixa mais alta, que cai de 8,16% para 7,16%.
Também houve mudanças nas cinco classificações de municípios e regiões metropolitanas por número de habitantes. O teto de R$ 170 mil, válido para o Distrito Federal e municípios das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, foi corrigido para R$ 190 mil. Os municípios com mais de um milhão de habitantes, que tinham teto de financiamento de R$ 150 mil, passam agora para R$ 170 mil. Já os de 250 mil pessoas em diante, de R$ 30 mil para R$ 145 mil. Nos com população acima de 50 mil habitantes, o teto passa de R$ 100 mil para 115 mil. Nos demais municípios, o valor máximo aumenta de R$ 80 mil para R$ 90 mil."São medidas que para o mercado das construtoras não tem nenhum significado", avalia Flávio Prando.
Com os reajustes recentemente anunciados pelo governo federal, o investimento no MCMV vai aumentar em R$ 1,4 bilhão até o final de 2013. Para o mercado, as medidas no máximo irão contemplar a nova classe C, que segundo estudo da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, hoje engloba 104 milhões de brasileiros e tem renda familiar em torno de R$ 4,6 mil por mês. No entender da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (CBIC) a decisão de não expandir os subsídios do Minha Casa, Minha Vida talvez esteja relacionado ao fato de que as metas estabelecidas para o programa já tenham sido atingidas, ou seja, a marca de dois milhões de unidades já contratadas e de um milhão de unidades entregues.
Confira a resolução 702 do Conselho Curador do FGTS : clique aqui
Entrevistado
Flávio Prando, vice-presidente de habitação econômica do Secovi-SP
Currículo
- Graduado em engenharia de produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1975-1979)
- Desde 1979 é sócio-diretor da Nova Investimentos Imobiliários Ltda., empresa inicialmente voltada para a incorporação e construção de imóveis residenciais e comerciais, tendo a partir de 1986, agregado a atividade de comercialização de imóveis
- Desde 2006 é presidente da Gol Soluções Imobiliárias Ltda., empresa pioneira em atuação segmentada, e focada na comercialização imobiliária de lançamentos residenciais para a classe média e popular
- Atualmente é vice-presidente de habitação econômica do Secovi-SP
Contato: aspress@secovi.com.br
Créditos foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
CB-02 concentra esforços em inovação e normatização
Na gestão de Paulo Eduardo Fonseca de Campos, Comitê Brasileiro de Construção Civil prioriza sistemas industrializados e incentiva a difusão da NBR 15575
Por: Altair Santos
O CB-02 (Comitê Brasileiro de Construção Civil) como define seu novo superintendente, o engenheiro civil Paulo Eduardo Fonseca de Campos, é fruto das transformações do setor ao qual ele está vinculado. Por isso, suas metas devem acompanhar as demandas da indústria da construção civil. Atualmente, elas estão ligadas à geração de normas técnicas e ao incentivo às inovações tecnológicas.

Para o CB-02, a norma de desempenho (NBR 15575) passou a ser prioritária, assim como o incentivo à construção industrializada. Para o comitê, as técnicas inovadoras precisam prevalecer sobre os sistemas convencionais, caso o país queira cumprir metas tanto no plano habitacional quanto no de infraestrutura. É o que Paulo Eduardo Fonseca de Campos, que também é professor da USP (Universidade de São Paulo) revela na entrevista a seguir:
O senhor está há mais de seis meses à frente do CB-02. Nesse período, quais iniciativas o comitê já tomou para buscar cumprir as metas estabelecidas pela sua gestão, que vai até 2015?
A minha gestão está centrada nos seguintes pontos: a modificação do escopo do Comitê Brasileiro de Construção Civil, que passou a se dedicar exclusivamente a normas de projeto e execução. Com isso, estamos atuando sobre questões que são verdadeiramente prioritárias, como a inovação tecnológica. O foco agora está sobre áreas como construção pré-fabricada e construção industrializada. Por isso, reativamos a comissão de estudos de projeto e execução de concreto pré-moldado, além de estarmos concentrados na revisão da NBR 6118 - Projeto de estruturas de concreto – Procedimento, que está em andamento e tem foco na questão do concreto de alto desempenho.
As normas que regem a construção civil têm passado por um período intenso, seja de revisão ou de surgimento de novas, como a norma de desempenho (NBR 15575). O CB-02 espera que essa proatividade na busca da qualidade se intensifique ainda mais?
Na questão específica da qualidade eu posso falar que a NBR 15575 é prioritária para nós. A norma de desempenho de edificações traz um aporte absolutamente fundamental para este momento, pois ela vai representar um divisor de águas em termos daquilo que nós vamos buscar doravante, não só como atuação do CB-02, mas para o próprio mercado e os atores que atuam na indústria da construção civil. Ela traz para nós um conceito que já é vigente na Europa, que é o da normativa exigencial. Por isso, o CB-02, a partir do início do próximo ano, estará empenhado em desenvolver a difusão desta norma em todo o território nacional. Teremos telecentros para replicar o conhecimento sobre a norma de maneira presencial e também através de teleconferências por todo o país.
Parece ser interesse do CB-02 também colocar em discussão uma norma sobre reformas de edifícios?
Essa é uma questão circunstancial, sobre a qual o Comitê Brasileiro de Construção Civil tem que dar resposta. Por quê? Porque tivemos um desastre que ocorreu no Rio de Janeiro, em janeiro de 2012, e que promoveu uma movimentação muito grande por parte dos poderes legislativos, seja a nível municipal, estadual ou federal, no sentido da elaboração de leis vinculadas a reformas e inspeções periódicas. O problema é que essas leis nem sempre tem sido elaboradas dentro do melhor critério técnico, pois elas têm ficado restritas às assessorias parlamentares que orienta a elaboração de projetos de lei. O que queremos, com a criação de uma norma a curto prazo, é antecipar e inverter esse processo, ou seja, a norma técnica deve servir de subsídio para os projetos de lei. O objetivo é ter uma norma que passe a governar as intervenções feitas em edifícios, e que seja uma resposta da construção civil à sociedade frente a estes fatos lamentáveis que ocorreram no Rio de Janeiro.
Hoje há um debate intenso sobre a industrialização de sistemas construtivos. Como o CB-02 vê isso?
Isso vem de encontro à inovação. A industrialização voltou com força, por que efetivamente nós temos hoje um programa real e não mais um programa potencial. Há demanda gerada pelos megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, cujas obras têm que ser tocadas rapidamente e dentro de um padrão de qualidade, de custo e de prazo, que faz com que a alternativa da construção industrializada seja quase mandatária. Fora isso, temos um programa habitacional de três milhões de unidades e não é possível enxergar um desafio desta magnitude pensando em sistemas convencionais.
O governo tem o PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) e o SINAT (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas) que validam produtos e sistemas inovadores na construção civil. O CB-02 espera ter uma coparticipação maior junto a esses organismos?
O CB-02, por força da portaria interministerial que criou CTECH (Conselho de Tecnologia para Habitação) que assessora a secretaria nacional de habitação, tem assento no CTECH, assim como tem assento na CNCA (Comissão Nacional de Sistemas de Avaliação de Conformidade) e na Comissão Nacional de Sistemas de Material de Construção. Em todas as comissões nacionais o CB-02 tem assento, com o objetivo de levar as posições do setor para o próprio governo, a Caixa Econômica Federal, o Inmetro, que está vinculado ao Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio, e também a organizações empresariais como a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção). Então, o CB-02 participa de todas discussões, inclusive as que ocorrem dentro do PBQP-H.
O senhor atua também no ambiente acadêmico. É intenção colocar o CB-02 para servir como um intermediador entre o que se pesquisa nas universidades e o mercado?
O fato de eu, como professor docente e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) ter sido eleito pelo setor da construção civil, pelas entidades e pelos associados que estão ligados à ABNT, é uma sinalização neste sentido. O objetivo é que o meio acadêmico volte de fato a ter uma participação expressiva dentro da elaboração de normas técnicas, principalmente.
A construção civil brasileira hoje tem qualidade equiparada às melhores construções civis do mundo?
A gente caminha para isso. Hoje o gap, a diferença que existia no passado para que uma inovação fosse incorporada na nossa indústria, diminuiu muito. Atualmente, há acesso quase simultâneo aos centros mais avançados. Nós estamos numa fase de estruturação. Em função de um programa mais consistente na área de habitação, finalmente alcançamos um desenvolvimento sustentável no setor de construção industrializada. Mas é claro que ainda estamos correndo atrás do prejuízo, no sentido de desenvolver e incorporar inovações e entender que nem sempre as inovações que servem para o hemisfério norte podem ser transplantada para cá sem adaptações.
O senhor diria que o Brasil tem que evoluir mais no setor de construção habitacional, haja vista que na parte de infraestrutura o país detém um know-how interessante?
Eu não tenho dúvida. Aquilo que a gente hoje trata como sistema inovador, como sistema a base de painéis de concreto, por exemplo, foi uma solução desenvolvida no pós-guerra e que já foi introduzido no Brasil em 1975. Como é possível um sistema que já tem no Brasil há quase 40 anos ser considerado inovador? Falta um estímulo maior ao desenvolvimento de produtos voltados para a construção industrializada habitacional. Por isso temos que, na universidade, preparar estes profissionais.
Entrevistado
Paulo Eduardo Fonseca de Campos, superintendente do CB-02 (Comitê Brasileiro de Construção Civil)
Currículo
- Arquiteto urbanista graduado pela PUC de Campinas (1981)
- Mestre em Engenharia Civil pela EPUSP (1989)
- Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP (2002)
- Professor doutor da FAUUSP e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da mesma instituição, onde coordena o Grupo de Pesquisa DIGI-FAB - Tecnologias digitais de fabricação aplicadas à produção do Design e Arquitetura Contemporâneos, o qual se dedica à pesquisa sobre Projeto de Produto, com destaque para temas vinculados à arquitetura e indústria e ao design
- Coordena atualmente o Curso de Design da FAUUSP
- É coordenador internacional do Projeto de Pesquisa "MicroCAD" do Programa Ibero-americano de Cooperação CYTED e membro correspondente do Grupo de Trabalho sobre Pré-fabricação da FIB-Fédération Internationale du Béton. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em sistemas construtivos pré-fabricados, atuando principalmente nos seguintes temas: pré-fabricados, habitação, concreto de alto desempenho, urbanização e saneamento
- Desde março de 2012 assumiu a superintendência do CB-02
Contato: pfonseca@usp.br
Créditos foto: Divulgação
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
Construção civil descobre o alpinismo industrial
Obras que exigem trabalho em altitudes acima de 40 metros podem economizar tempo e dinheiro trocando os andaimes pelos escaladores
Por: Altair Santos
Segundo a NR 18, norma que trata da segurança de andaimes e plataformas de trabalho, a altura máxima para o uso de equipamentos fachadeiros não deve exceder 40 metros. O recomendável é que obras que requeiram instalações ou inspeções acima dessa altitude utilizem alternativas como o alpinismo industrial. No Brasil, a técnica de trabalho com uso de cordas tem conseguido expandir o mercado, ganhando espaço entre grandes obras, como usinas eólicas, hidrelétricas, prédios com altura acima de 50 metros e estádios de futebol.

Além de superar obstáculos que tornam-se mais difíceis para os andaimes, o alpinismo industrial tem a vantagem de ter um custo menor. No caso dos andaimes fachadeiros - os mais utilizados na construção civil -, o preço médio é de R$ 18,00 por instalação e desmontagem do metro quadrado e a diária, dependendo da região do país, pode variar de R$ 180,00 a R$ 350,00. Há ainda o valor do frete, que também varia de região para região e pode chegar a R$ 30,00 por peça.
No caso do alpinismo industrial, o pacote fechado (montagem do equipamento e custo do profissional) tem custo médio de R$ 150 por dia. "Para a obra, a diferença de custo é enorme. Além disso, tem toda a vantagem da logística”, explica o instrutor Alessandro Carvalho, da empresa Acesso Vertical, que ministra cursos para quem quer atuar neste setor. Para formar alpinistas, as empresas que atuam no setor precisam ter a certificação IRATA (sigla em inglês de Associação Comercial de Alpinismo Industrial. O trabalho industrial de acesso por corda foi desenvolvido nos últimos 20 anos pelo IRATA Internacional, única associação ligada ao trabalho em altura no mundo.
Com a industrialização da construção civil, e o uso crescente de estruturas pré-fabricadas, o alpinismo industrial passa a ser requisitado tanto para empreendimentos habitacionais quanto para obras de infraestrutura, como pontes e viadutos. "Há um mercado crescente também na área de inspeções e instalação de fachadas. Tanto é que engenheiros civis têm procurado o curso", diz o especialista, lembrando que as obras voltadas para a Copa do Mundo de 2014 abriram mais um espaço: a instalação de coberturas nos estádios.

Atualmente, 20 profissionais atuam no Mineirão, em Belo Horizonte/MG, com a incumbência de montar a membrana autolimpante sobre a estrutura metálica construída a partir da marquise de concreto armado do estádio. O material, feito de dióxido de titânio, permite passagem de luz natural e oferece resistência contra intempéries. Cada membrana tem 2,2 metros de largura por 6 metros de comprimento. No total, são 13 mil m² de material, com peso totalizando 17 mil quilos. Os alpinistas industriais manejam o material a partir das passarelas laterais montadas na cobertura metálica.
O grupo trabalha a uma altura de 40 metros. Entre os equipamentos de segurança estão capacete, cinto de segurança, cordas, talabartes, trava-quedas, freios, descensores, conjunto de ascensores (peitoral e punho) e mosquetões. O conjunto completo de segurança chega a pesar 12 quilos. No caso do Mineirão, todos os profissionais têm a qualificação máxima da IRATA, que vai de 1 a 3. Significa que possuem mais de mil horas de treinamento. "O escalador industrial não precisa ser um herói na corda, mas precisa dominar as técnicas e entender os conceitos de segurança", alerta Alessandro Carvalho.
Veja vídeo de alpinistas industriais atuando no Mineirão: clique aqui
Entrevistado
Alessandro Carvalho, treinador e instrutor de alpinismo industrial
Currículo
Graduado em educação física, tem certificação IRATA para ser instrutor e diversos cursos técnicos
Contato: carvalhon3@hotmail.com
Créditos fotos: Divulgação / Sylvio Coutinho/Agência Minas
Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330
Brasil avança no combate à patologia das construções
Associação criada há sete anos tem papel relevante no aperfeiçoamento das obras, mas alerta que existe espaço para mais conquistas
Por: Altair Santos
No início de 2014, em Foz do Iguaçu/PR, a ALCONPAT Brasil realiza o 1° Congresso Brasileiro de Patologia. O evento será uma espécie de consagração da associação criada em 2005, e que nasceu para mapear as manifestações patológicas que ocorrem na construção civil nacional. Com 150 engenheiros civis filiados, o organismo tem como premissas os estudos que levem ao controle de qualidade das obras e ao avanço tecnológico de sistemas construtivos. "O papel mais importante que a ALCONPAT Brasil desempenha é disseminar conhecimentos na área de patologia das construções e ajudar a gerar construções melhores", explica Bernardo Fonseca Tutikian, que preside a associação.

Ligada à ALCONPAT Internacional, que está presente em 18 países, a Associação Brasileira de Patologia das Construções avalia que em sete anos as construções nacionais melhoraram sensívelmente, mas ainda há espaço para agregar mais qualidade. "Os usuários estão mais exigentes, a sociedade mais atenta, as empresas mais preocupadas em construir melhor e os profissionais mais interessados em realizar trabalhos com mais qualidade. Tudo isso aprimorou as construções, mas ainda há um grande espaço para crescer", avalia Tutikian, para quem as ações do país em revisar e criar novas normas que agreguem qualidade às obras têm contribuído para os avanços na construção civil nacional.
O presidente da ALCONPAT Brasil cita que a NBR 15575 (Norma de Desempenho) a NBR 5674 (Norma de Manutenção) e a NBR 14037 (Norma do Manual de Uso, Operação e Manutenção) são fundamentais para as conquistas já obtidas. "Estas três normas prescrevem que a edificação deve ser projetada e construída pensando em um desempenho razoável para o usuário, que deve realizar as manutenções previstas e contratar um profissional para elaborar e implantar um sistema de manutenção no prédio. Desta forma, os imóveis apresentarão menos problemas, os custos de operação serão menores e a vida útil do bem aumenta, o que será benéfico para toda a sociedade", cita.
Outra conquista citada pela ALCONPAT Brasil é que hoje a engenharia sabe quais são as manifestações patológicas mais comuns em cada região do país. Em cidades litorâneas, destaca-se a corrosão das barras de aço dentro do concreto armado. Em regiões secas e quentes, como o Centro-Oeste, observa-se uma grande incidência de fissuras por retração dos materiais cimentícios. Em cidades mais populosas e industriais, como São Paulo/SP, a carbonatação é o problema mais sério. "Ou seja, as características locais, bem como a cultura de manutenção das edificações, são determinantes para o surgimento de manifestações patológicas. Mas tudo depende da qualidade do projeto, da construção, do uso e da manutenção. Edificações que realizarem melhor essas etapas terão incidência menor de patologia", descreve Bernardo Fonseca Tutikian.
Quanto aos sistemas construtivos, a ALCONPAT Brasil detecta que há mais investimentos em industrialização de processos, seja para compensar a escassez de mão de obra, seja para reduzir desperdícios de materiais ou para ganhar tempo nas construções. "É a única forma de atender a demanda do mercado. Porém, trabalhar com pré-fabricados exige projetistas qualificados e especializados nesta área. O projeto é peça-chave para o sucesso do sistema. Mas com a demanda de bons profissionais nesta área, percebe-se que as indústrias de pré-fabricados ganharão cada vez mais mercado e estarão cada vez mais presentes nas obras", estima o presidente da AlCONPAT Brasil.
Entrevistado
Bernardo Fonseca Tutikian, presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil)
Currículo
- Graduado em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2002, com mestrado e doutorado em engenharia, ambos os títulos obtidos na UFRGS, em 2004 e 2007, respectivamente
- Possui especialização em materiais de construção, especificamente em dosagem de concretos autoadensáveis (CAA), sendo autor do livro Concreto Autoadensável, publicado pela PINI em 2008
- Atualmente é coordenador do curso de engenharia civil da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e professor de tecnologias construtivas, materiais de construção e patologia. Também coordena o curso de especialização em construção civil na Unisinos
- Coordena cursos de extensão, realiza serviços de consultoria técnica e ministra cursos relacionados com os temas desempenho, durabilidade, patologia, dosagem de concretos e análise de ciclo de vida de materiais e componentes
- Preside a Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil)
Contatos: bftutikian@unisinos.br / btutikian@terra.com.br / http://alconpat.org.br
Créditos foto: Divulgação