Retrofit é solução para centros das capitais brasileiras

Mercado da reforma de prédios antigos revitaliza áreas, mas ainda esbarra na burocracia e na ausência de normas específicas para o setor

Por: Altair Santos

É praticamente consenso entre os prefeitos das capitais que assumiram seus cargos em 2012, de que é preciso tomar medidas para recuperar os prédios abandonados nos centros das cidades. O problema é que as políticas públicas para incentivar o retrofit em edifícios em áreas centrais praticamente inexistem. Mesmo assim, há iniciativas bem-sucedidas que, lentamente, começam a estimular esse modelo de construção sustentável. Uma delas está em Belo Horizonte - cidade que saiu na frente para criar uma legislação que trate especificamente da concessão de prédios abandonados para retrofit.

Teodomiro Diniz Camargos: retrofit de edifícios em Belo Horizonte torna-se modelo ao país

Na capital mineira, o construtor Teodomiro Diniz Camargos passou a atuar na recuperação e na transformação de prédios comerciais em prédios residenciais. No Congresso Brasileiro da Construção Sustentável, que aconteceu dia 17 de setembro de 2013, em São Paulo, o engenheiro civil falou dos desafios e o que estimula ele e outros empresários a atuar neste segmento. "Além das questões técnicas, como estruturas com pilares e vigas muito grandes, que, às vezes, complicam uma remodelagem arquitetônica, tem ainda as dificuldades de logística em área central. Retirar entulhos, por exemplo, é sempre uma dificuldade", cita.

Teodomiro Diniz Camargos lembra também que o cumprimento da norma de desempenho nas obras de retrofit - principalmente na questão acústica - esbarra em aspectos tecnológicos, como encontrar esquadrias que possam substituir as janelas antigas. "No mercado brasileiro ainda são poucos os que fabricam com medidas fora do padrão", revela, lembrando que talvez fosse o caso da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) pensar em uma norma específica para o retrofit. "Nesta área, ainda há uma ausência total de especificações", alerta.

Mas nada se compara à burocracia para se viabilizar reformas em prédios antigos. Um caso emblemático foi o do edifício Chiquito Lopes, no centro de Belo Horizonte. O retrofit do empreendimento fazia parte de um plano estratégico da prefeitura da cidade para revitalizar aquela área do centro da capital mineira. Mesmo assim, o município levou 10 meses para aprovar o projeto e a documentação do prédio tramitou mais 10 meses em cartórios. "Sob o ponto de vista empresarial é impensável uma demora dessa. Até porque, o mercado ainda não conhece o produto de retrofit e só costuma comprar quando ele está pronto", diz Teodomiro Diniz Camargos.

Outro empecilho está na aquisição de financiamentos para esse tipo de obra. "Nem os bancos, e nem o programa Minha Casa, Minha Vida, dispõem de um produto em que o retrofit se enquadre. Deveria haver uma adequação", avalia o construtor, que propõe que esse tipo de construção tenha uma legislação municipal específica e que lhe sejam concedidos incentivos fiscais, como o IPTU progressivo. "É um modelo que tem similaridade na cidade de Nova York e que poderia ser adotado no Brasil também", comenta o engenheiro civil, lembrando que a redução do impacto ambiental e a requalificação urbana que o retrofit traz às áreas centrais são aspectos importantes para que esse tipo de obra receba tratamento diferenciado das prefeituras.

Entrevistado
Teodomiro Diniz Camargos, engenheiro civil pela PUC Minas, sócio-gerente da construtora Diniz Camargos e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG)
Contato:
indconst@fiemg.com.br

Crédito foto: Divulgação/Cia. de Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Sustentabilidade requer investimento em P&D e engenharia

Antônio Domingues de Figueiredo, pesquisador da USP, avalia que construção civil brasileira está numa encruzilhada: tem que ser sustentável, mas ainda não sabe como

Por: Altair Santos

A construção civil brasileira é compelida a adotar práticas sustentáveis, mas ainda não dispõe de boas ferramentas para implementar esses conceitos em larga escala. Segundo o professor-doutor da USP (Universidade de São Paulo) Antônio Domingues de Figueiredo, para que o setor viabilize uma sustentabilidade que não seja apenas teórica é preciso que haja investimento em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e em qualificação acadêmica dos engenheiros. "Não existe engenharia sem planejamento. Os chineses já aprenderam isso e hoje conseguem erguer um prédio em 15 dias. No Brasil, ainda tomam-se decisões no canteiro de obras e, convenhamos, não é o ambiente ideal para a tomada de decisões", afirma.

Antônio Domingues de Figueiredo: não dá para pensar em P&D sem qualificação

Em palestra no Concrete Show 2013, Antônio Domingues de Figueiredo avalia que o Brasil só reverterá esse quadro quando conseguir expandir os centros de pesquisa e descentralizá-los. "Hoje, toda a pesquisa está praticamente concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, e um pouco no Rio Grande do Sul. Precisamos espalhar pesquisa por esse país. Não podemos ficar dependentes sempre dos mesmos centros de inovação. Além disso, não dá para pensar em P&D sem qualificação. Eu mesmo trabalho em um núcleo de pesquisa onde, de onze, só um é doutor e três têm mestrado. Na Espanha, cada grupo de produção tem quinze alunos de doutorado. Mas é necessário ter centros de pesquisa para formar doutores", explica.

No entender do especialista, para ter mais P&D é preciso que a indústria brasileira assuma seu papel e invista em centros de inovação. "Falta dinheiro para pesquisa porque só os recursos públicos não dão conta. No Brasil, 80% das bolsas são governamentais e boa parte das universidades não recebem demanda da iniciativa privada para pesquisa. Nos Estados Unidos, por exemplo, é um processo compartilhado. Tanto que na crise de 2008 o governo do Barack Obama ameaçou cortar verbas para pesquisas e o setor privado chiou forte. Resultado: não houve corte", revela Antônio Domingues de Figueiredo.

De acordo com o pesquisador, esse paradigma poderia ser rompido na indústria nacional se o investimento em P&D tivesse um outro tratamento. "Defendo que pesquisa saia do setor tecnológico das empresas e vá para o setor de marketing. Por quê? Porque investir em pesquisa pode não dar em nada, mas pode dar um grande retorno mercadológico quando ela traz resultados e é bem divulgada. Então, o raciocínio da iniciativa privada deveria ser: vou investir em pesquisa, e vou divulgar, pois o retorno da parte que der certo vai compensar o investimento na parte que não deu resultado", diz, completando: "A entrada da iniciativa privada é fundamental, pois ela cobra com mais energia e, às vezes, gera mais resultados".

Falando especificamente sobre sua área de atuação, o professor-doutor da USP revelou que há, por exemplo, um grande déficit em pesquisa focando a construção de túneis. "Ainda estamos usando concreto projetado para o revestimento de túneis, que é uma descoberta do século passado (por Carl E. Akeley, em 1907). Tudo bem que ele não utiliza fôrma, mas o problema é que nem tudo que bate fica na parede. A esse processo chamamos de reflexão, que, hoje em dia, gera até 20% de resíduos. No passado, descobriu-se que a linha norte do metrô de São Paulo gerou 40% de reflexão. Atualmente, no caso de túneis para metrôs, o que se pesquisa lá fora são trechos em rocha pura ou que necessitem de pouco uso de concreto. Na Suécia é assim. Com engenharia e tecnologia, eles prospectam cavernas subterrâneas para construir os túneis em rocha pura. Sustentabilidade é isso: gerar trabalho de engenharia e investimento em P&D para minimizar o uso de recursos e, portanto, gastar menos", finaliza.

Entrevistado
- Professor-doutor Antônio Domingues de Figueiredo, engenheiro civil e pesquisador da Escola Politécnica da USP
Contato:
antonio.figueiredo@poli.usp.br

Crédito foto: Divulgação/Cia. de Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Vida útil fundamenta novos pilares da construção civil

A partir da norma de desempenho, materiais e estruturas precisam especificar projetos de ACV, comprovando durabilidade e sustentabilidade

Por: Altair Santos

A norma de desempenho surge também como um divisor de águas na construção civil quando cita a questão do ciclo de vida de materiais e estruturas em edificações. Apesar de não dar um tratamento normativo ao tema, mas meramente informativo, a abordagem feita na ABNT NBR 15575 já serve para fundamentar novos pilares para o setor. "Antes de 19 de julho de 2013, quando a norma de desempenho entrou em vigor, alguns segmentos ignoravam o ciclo de vida. Hoje, o que existe é resistência, seja por parte de projetistas, construtores ou fornecedores de materiais. Mas todos já tomaram consciência de que é preciso declarar ACV (Avaliação de Ciclo de Vida) mesmo que na norma de desempenho ela tenha ficado como uma questão informativa e não normativa" explica o professor-doutor da Escola Politécnica da USP, Vanderley M. John.

Professor Vanderley M. John e Vera Hachich: mercado ainda resiste aos novos pilares, mas aceitá-los é inevitável

Ao lado da também especialista Vera Fernandes Hachich - ambos integram a coordenação do Comitê Temático de Materiais do CBCS (Conselho Brasileiro da Construção Sustentável) - Vanderley M. John avalia ser inexorável que o ciclo de vida de materiais e estruturas se destaque cada vez mais no mercado da construção civil. "Tudo que se constrói perde desempenho ao longo do tempo. Isso é inevitável. O produto é feito para prestar um serviço, e quanto mais tempo ele cumprir sua função, melhor. Isso vale para nossos carros, e agora vale para nossos edifícios", diz o professor da USP, complementado por Vera Hachich. "O problema é que alguns setores estão confundindo ciclo de vida com período de garantia e, por segurança jurídica, por causa da norma de desempenho, criando manuais com prazos curtos demais e tentando fazer recair a responsabilidade sobre a manutenção", afirma.

No entender de Vera Hachich, a Análise do Ciclo de Vida tem muito a evoluir no Brasil. Para ela, as boas soluções de projeto serão as maiores responsáveis por esse avanço. "Nesta questão, não há o que substitua boas soluções de projeto. Só que muitas vezes elas são tomadas com base no custo inicial, sem levar em consideração a manutenção. Um exemplo: se a estrutura é projetada para ter ciclo de vida de 50 anos, mas recebe um sistema hidrossanitário com ACV de 20 anos, como projetar isso? Será necessário repensar o cálculo, o custo inicial, o custo de manutenção, enfim, o custo total. Os impactos da manutenção sobre os subsistemas da edificação terão de ser adequados dentro das soluções de projeto", comenta. "Vai ser preciso quantificar o impacto de um produto do berço ao túmulo", complementa Vanderley John.

Apesar de a norma de desempenho não aprofundar o tema ACV, o professor-doutor da USP cita que um conjunto de normas ISO está chegando ao Brasil, trazendo metodologias para tratar do tema. Desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa, as normas ISO de Avaliação de Ciclo de Vida já foram incorporadas à política de construção nos EUA e em alguns países da União Europeia, obrigando os fabricantes a declarar a ACV de referência dos materiais. "Isso também obriga os projetistas a definir o ciclo de vida da edificação de acordo com os materiais empregados", cita Vanderley John, lembrando que o CBCS acaba de criar um canal de conhecimento para atender essa demanda. "A indústria está tão assustada com essa história de ACV quanto projetistas e construtores. Então, o CBCS, através de seus grupos de trabalho, quer ajudar o mercado a entender isso", diz

Selos de qualidade
Os debates sobre ciclo de vida, que tendem a se aprofundar no Brasil de agora em diante, devem também impactar na forma como são emitidos selos de qualidade. No Congresso Brasileiro de Construção Sustentável, que ocorreu dia 17 de setembro, em São Paulo, Vanderley John lembrou que a emissão de selos no país é pouco mensurável. "No mundo, devem ter uns duzentos selos ligados à construção civil e no Brasil são uns dez. O problema é que os critérios públicos são questionáveis. A ONU emitiu recentemente um manual para a publicação de selos, que deve ter umas quatrocentas páginas, mas pouquíssimos seguem. A Avaliação do Ciclo de Vida é fundamental para dar credibilidade a um selo. Nós do CBCS estamos trabalhando na elaboração de uma ferramenta que permita medir blocos de concreto. Não se trata de um selo, mas algo confiável que avalie o ACV do produto", revela.

A ideia do CBCS é montar um banco de dados sobre Avaliação do Ciclo de Vida dos materiais e dos sistemas usados na construção civil brasileira. Um primeiro instrumento criado pelo conselho é o chamado "Seis Passos da Construção Sustentável". Nele há indicações sobre como fazer compras legalizadas, como adquirir produtos de empresas legalizadas, como contratar mão de obra especializada e formal, como avaliar a conformidade dos produtos, como adquirir projetos adequados e como não se deixar levar por propagandas enganosas. "Tudo passa pelo combate à informalidade no setor", finaliza Vanderley John.

Saiba mais sobre a ferramenta dos Seis Passos.

Entrevistados
- Vanderley M. John, engenheiro civil e professor-doutor da Escola Politécnica da USP
- Vera Fernandes Hachich, engenheira civil, ex-pesquisadora do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) e atualmente gerente-técnica da Tesis - Tecnologia de Sistemas de Engenharia
Contatos
www.cbcs.org.br
secretaria@cbcs.org.br

Crédito foto: Suelen Magalhães/CBCS

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Gestão Pública: ABCP leva soluções às cidades

Programa da associação fornece orientação técnica às prefeituras que queiram viabilizar projetos de habitação, saneamento e mobilidade

Por: Altair Santos

As manifestações de junho de 2013 mostraram que o tema urbano tornou-se relevante para a sociedade brasileira. Questões como habitação, saneamento e mobilidade urbana avançaram na pauta das prefeituras, mas boa parte delas desconhece como viabilizar projetos para captar recursos que possam transformar as cidades. Por isso, a Associação Brasileira de Cimento Portland desenvolveu o programa Soluções para Cidades, com o objetivo de dar orientação técnica para que os municípios possam transformar boas ideias em realidade.

Erika Mota: seis elementos são fundamentais para que nasça um bom projeto

O projeto é encabeçado pela engenheira civil Erika Mota e a arquiteta Simone Gatti, que elaboraram um manual dividido em seis capítulos, pelos quais as prefeituras conseguem entender como se elabora um plano de mobilidade, seja para toda a cidade, para um bairro ou para uma rua. "Há seis elementos que consideramos fundamentais para que nasça um bom projeto, que vão desde uma ideia inspiradora até as ferramentas para torná-lo viável", explica Erika Mota, que elenca esses elementos:

1) Iniciativas inspiradoras
Apresentar boas ideias que deram certo em outras cidades e mostrar que aquilo pode ser adaptado ao município.
2) Banco de projetos
O programa Soluções para Cidades esquematizou uma série de projetos para que os técnicos das prefeituras possam levá-los aos prefeitos e convencê-los.
3) Capacitações
A ABCP desenvolveu know-how e leva isso às prefeituras.
4) Ciclo de palestras
Eventos têm a função de mobilizar a sociedade, envolvendo prefeituras, universidades e profissionais de engenharia e arquitetura dos municípios.
5) Ferramentas
Supre necessidades dos municípios para que os projetos não esbarrem em questões ambientais, questões técnicas e questões arquitetônicas no momento em que passarem por organismos financiadores ou fiscalizadores.
6) Concursos
O programa Soluções para Cidades estimula as prefeituras a criarem concursos para estudantes de arquitetura e engenharia, a fim de que eles possam estimular novas ideias sobre espaços públicos e mobiliário urbano.

Simone Gatti: uma cidade não precisa viabilizar obras para melhorar a mobilidade

Simone Gatti lembra que uma cidade não precisa necessariamente viabilizar obras para melhorar a mobilidade. "A liberação de um espaço urbano para pedestres, onde normalmente trafegam veículos, como acontece na cidade do Rio de Janeiro nos finais de semana, já é uma solução. Da mesma forma, eventos como a Virada Cultural também. O que vale são as boas práticas", afirma. A arquiteta, no entanto, ressalta que quando uma prefeitura se propõe a intervir na cidade é preciso mapear os problemas e ver os pontos de interesse da população. Segundo ela, as prioridades são as seguintes:

1) Mapear as áreas carentes de espaço verde.
2) Mapear as áreas de grande circulação de pedestres.
3) Ver os espaços públicos que bloqueiam a circulação de pedestres.
4) Mapear os espaços abandonados.
5) Mapear as obras de infraestrutura sem uso.
6) Mapear as áreas às margens de rios.
7) Localizar as áreas industriais inutilizadas.
8) Detectar os terrenos contaminados.
9) Mapear a situação da iluminação urbana.

As arquitetas destacam que o programa Soluções para Cidades - apresentado recentemente no Concrete Show 2013 - procura dar prioridade às ideias que deram certo dentro do Brasil. "Projetos internacionais são bonitos, mas muitas vezes não se adaptam à realidade dos municípios do país, seja por questões urbanas ou financeiras", destaca Simone Gatti. Além da ABCP, participam do programa a Federação Brasileira de Associações de Engenheiros (FEBRAE), o CAU (Conselho de Arquitetos e Urbanistas) e a Asbea (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura).

Saiba mais sobre o programa Soluções para Cidades: www.solucoesparacidades.org.br

Acesse o manual Espaços Públicos - Diagnóstico e metodologia de projeto
Espaços Públicos - Diagnóstico e metodologia de projeto

Entrevistadas
Erika Mota e Simone Gatti, coordenadoras do programa Soluções para as Cidades, da ABCP
Currículos
- Erika Mota é graduada em engenharia civil pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) com pós-graduação em marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)
- Tem MBA em gestão pública pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV)
- É coordenadora do programa Soluções para Cidade, da ABCP
- Simone Gatti é graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Estadual de Londrina (2002) com especialização em projetos urbanos pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2007)
- Atualmente é doutoranda da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo na área de História do Urbanismo e membro do Conselho Gestor da ZEIS 3 do Projeto Nova Luz
- Exerce pesquisa em políticas habitacionais, projetos de reestruturação de centros urbanos, gentrificação e mobilidade
- É autora do Manual de Espaços Públicos produzido pela ABCP
Contatos
erika.mota@abcp.org.br / cidades@abcp.org.br / cursos@abcp.org.br

Créditos fotos: Divulgação/ABCP

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Certificações verdes têm novos concorrentes no Brasil

Os já consagrados selos LEED e AQUA agora competem com a ferramenta inglesa BREEAM e a alemã DGBE para certificar construções sustentáveis

Por: Altair Santos

As já consagradas certificações LEED e AQUA, que no Brasil ganham cada vez mais adesões, têm novas concorrentes no país. A inglesa BREEAM e a alemã DGNB começam a ser oferecidas para empresas que buscam selos de construção sustentável.

Viviane Cunha: certificação BREEAM está há um ano no Brasil

A BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method) apesar de ter sido lançada em 1992 na Inglaterra, só começou a operar no mercado brasileiro há um ano. Segundo Viviane Cunha, avaliadora e auditora licenciada pela certificação na América Latina, a diferença da BREEAM para os outros selos está no fato dela projetar a Análise do Ciclo de Vida (ACV) dos materiais usados em um empreendimento, através de softwares desenvolvidos especificamente para a certificação.

A especialista afirma que a BREEAM tem green guide de pontuação dos materiais quanto à ACV. "Cada material tem sua pontuação para diferentes condições: componentes reciclados, substâncias impactantes na sua composição e distância entre onde foi fabricado e o local do empreendimento", explica.

Sibylle Muller: certificação DGNB acompanha vivência do indivíduo no empreendimento

Já o selo DGNB promete uma certificação inovadora, pois abrange não apenas medidas para uso consciente dos recursos naturais, mas um planejamento de todos os aspectos que envolvem a vivência do indivíduo dentro do empreendimento. "A certificação entende que o conceito de construção verde não está associado apenas à preservação do meio ambiente, e sim à proposta que prevê o desenvolvimento econômico e social de quem irá habitar o prédio e o impacto que ele causará em seu entorno", avalia Sibylle Muller, diretora da AcquaBrasilis - responsável pela avaliação do DGNB no Brasil.

Hoje, independentemente do tipo de selo verde, projetos de empreendimentos que buscam certificações sustentáveis têm conseguido se posicionar melhor no mercado para obter recursos dos agentes financiadores e para conseguir licenças de organismos governamentais. "Critérios sustentáveis relevantes trazem estas vantagens sim, haja vista que já há no Brasil diversos agentes financiadores que investem em construções sustentáveis ou organismos governamentais que incentivam essa prática. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a utilização de sistemas sustentáveis na construção pode levar a descontos em impostos no IPTU do empreendimento", diz Viviane Cunha.

No Brasil, o selo BREEAM exige que o empreendimento cumpra requisitos nas seguintes áreas para requerer a certificação: energia, gerenciamento, saúde e bem-estar, transporte, água, materiais, resíduos, uso da terra, poluição e ecologia. Já o sistema DGNB, que foi criado em 2008, elenca 50 critérios nas seguintes áreas: aspectos ambientais, econômicos, socioculturais e tecnologia. Dependendo do cumprimento destes itens, o empreendimento pode obter selos ouro, prata ou bronze.  Até o momento, mais de 750 projetos foram registrados para a certificação pelo DGNB.

No Brasil ainda não há nenhum prédio verde com a certificação DGNB. Quanto ao BREEAM, há duas edificações requisitando o selo: a sede do Banco BNDES, no Rio de Janeiro, e um conjunto de casas construídas pela construtora Concal, também no Rio de Janeiro.

Entrevistadas
Viviane Cunha, da VCA Sustentabilidade, e Sibylle Muller, diretora da AcquaBrasilis
Currículos
- Viviane Cunha é graduada em arquitetura e sócia e diretora-executiva da empresa VCA Sustentabilidade, especializada em consultoria, certificação, cursos e treinamentos sobre sustentabilidade para empresas, edifícios e áreas urbanas
- Também é diretora-executiva da empresa de arquitetura Viviane Cunha Associados, onde realiza projetos residenciais e comerciais
- Atua como professora de MBA na FGV e na Universidade Federal Fluminense
- É representante da empresa Space Syntax no Brasil e primeira avaliadora e auditora licenciada pela certificação BREEAM na América Latina
- Tem PhD pela UFRJ, foi pesquisadora visitante e mestre pela University College London, na Inglaterra
- Sibylle Muller é graduada em engenheira civil pela Escola Politécnica da USP (1982) com mestrado em engenharia civil pela área de engenharia de construção civil e urbana da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1989)
- Tem especialização em “gestão e tecnologias ambientais” pelo programa de educação continuada da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2001)
- Atualmente é diretora e coordenadora técnica da empresa AcquaBrasilis Meio-Ambiente Ltda., pioneira em sistemas de reaproveitamento de água a partir de tratamento de efluentes domésticos e de água de chuva
Contatos
viviane@vivianecunha.com.br / contato@vcasustentabilidade.com.br / www.vcasustentabilidade.com.br
acquabrasilis@acquabrasilis.com.br /www.acquabrasilis.com.br
www.twitter.com/acquabrasilis.com / www.facebook.com/acquabrasilis

Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Terreno é decisivo para sucesso da alvenaria estrutural

Áreas planas, que permitam que as obras comecem do chão, sem precisar se sustentar sobre o concreto, são as ideais para o sistema construtivo

Por: Altair Santos

Historicamente, a alvenaria estrutural existe desde que o homem passou a construir usando tijolos de argila, pedras e outros materiais, empilhando-os empiricamente para formar estruturas maciças. O tempo passou, o sistema construtivo evoluiu e hoje a tecnologia é apontada como uma das mais adaptadas ao meio urbano e ideal para produções habitacionais em larga escala. No Brasil, o programa Minha Casa, Minha Vida, nascido em 2009, fez do país um "cliente" da alvenaria estrutural. A ponto de em 2011, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ter publicado a NBR 15961 – Alvenaria estrutural – Blocos de concreto - dividindo-a em duas partes - para estabelecer requisitos mínimos exigíveis para a execução e o controle de obras com estruturas de alvenaria de blocos de concreto.

Dependendo do terreno, alvenaria estrutural precisa ser sustentada pelo concreto

O mercado, estimulado pela normalização de 2011, e agora também pela ABNT NBR 15575/2013 - Edificações Habitacionais - seis partes -, mais conhecida como norma de desempenho, tem descoberto peculiaridades do sistema construtivo que ampliam sua eficácia. Uma delas foi exposta pelo arquiteto Adelino Francisco dos Santos Neto na recente edição do Concrete Show 2013. Com atuação em mais de 30 edificações construídas em alvenaria estrutural no estado de São Paulo, o projetista cita que o terreno é fundamental para o sucesso deste tipo de sistema. "Áreas que não precisem de aterro e que sejam geologicamente bem sedimentadas são especialmente recomendadas para receber projetos de alvenaria estrutural. Elas permitem que as obras saiam do chão", analisa o especialista.

Sair do chão, no jargão da engenharia, significa que a obra em alvenaria estrutural não precisa de fundações profundas ou ser construída sobre grandes estruturas de concreto para sustentá-la. "Em terrenos com aclive ou declive, ou que não favoreçam cortes em platô, normalmente é preciso uma forte estrutura de concreto debaixo da alvenaria estrutural", afirma Adelino Santos, lembrando também que áreas que não sejam planas oferecem outro empecilho a esse sistema construtivo: o código de obras dos municípios. "Cada cidade tem uma legislação, o que cria problemas para modificar o terreno. Por isso, a importância de se definir todas as variáveis do projeto de arquitetura na alvenaria estrutural, antes de ir para o canteiro de obras", completou.

Outras soluções
No Concrete Show2013, Adelino Santos revelou também que a alvenaria estrutural tem agregado outras tecnologias para ganhar mobilidade. O sistema é conhecido por não permitir intervenções em suas paredes de vedação. Para viabilizar essa possibilidade, as construtoras têm usado drywall em algumas áreas entre quarto e sala e entre sala e cozinha. "Se o usuário quiser abrir um quarto ou criar uma cozinha americana, ele intervém na parede em drywall", explica, destacando que a alvenaria estrutural está sempre em um processo de evolução, pois a ela se juntam materiais que passam a ser fabricados com novas tecnologias, como as argamassas, ou surgem novos elementos que vêm para qualificar o sistema e dar-lhe versatilidade. "A evolução é constante", finaliza o arquiteto.

Entrevistado
Adelino Francisco dos Santos Neto, da Adesa Arquitetura
Currículo
- Adelino Francisco dos Santos Neto é graduado em arquitetura pela Universidade Mackenzie (1989) com mestrado pela FAU USP em renovação urbana
- Tem mais de 25 anos em projetos para obras em alvenaria estrutural
- É sócio-diretor da Adesa Arquitetura
Contatos
adelino@adesaarq.com.br
www.adesaarq.com.br

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Ferrari chega à construção habitacional de luxo

Estúdio Pininfarina, o mesmo que desenha os veículos da escuderia, assina o projeto do Ferra, edifício com 102 metros de altura a ser construído em Cingapura

Por: Altair Santos

O escritório de design que tornou os carros da marca Ferrari ícones mundiais agora está associando o "cavalinho rampante" à arquitetura. Em Cingapura, será erguida uma torre residencial de 102 metros de altura, cujo projeto foi concebido pelo estúdio Pininfarina. O edifício terá 104 apartamentos distribuídos em 22 pavimentos, com preços iniciais de US$ 2,35 milhões (cerca de R$ 5,5 milhões) cada um. Seu conceito possui linhas e cores que lembrarão os carros da Ferrari. Cada apartamento, medindo entre 68 m² a 83 m², terá garagens especiais, feitas para abrigar os automóveis da marca. Haverá ainda duas coberturas - cada uma medindo 187 m².

Edifício terá duas torres acopladas, com cores que lembram a Ferrari

A viabilização do empreendimento, previsto para começar até o final de 2013, está sob a responsabilidade da Far East Organization - a maior construtora de Cingapura especializada no segmento residencial. O projeto prevê a combinação de estruturas de aço e concreto, assim como o uso intenso de vidro, madeira e componentes metálicos na fachada. O edifício Ferra terá duas torres conectadas e receberá o tradicional vermelho da Ferrari em uma de suas estruturas, enquanto a outra terá componentes no tom grafite. "A experiência única da Pininfarina, no design de carros de luxo, de produtos e na arquitetura, externa ou de interiores, alcançou sua máxima expressão no Ferra", diz Chia Boon Kuah, diretor operacional da Far East Organization.

Já Paolo Pininfarina, presidente do Grupo Pininfarina, afirma que o projeto carrega o DNA do escritório. "Estamos muito orgulhosos de ter identificado uma linguagem específica e forte para o Ferra. O projeto tem personalidade estética e, ao mesmo tempo, se encaixa perfeitamente no contexto arquitetônico de Cingapura. Nosso gerente de design, Paolo Trevisan, junto com o arquiteto sênior Stefano Capranico, expressou o DNA completo do design Pininfarina, que caracteriza-se pelos valores da elegância, simplicidade e inovação", disse.

Estádio da Juventus de Turim: outra incursão da Pininfarina pela arquitetura

O Ferra é a primeira incursão do Pininfarina no segmento de construção habitacional de luxo, mas o estúdio já atuou em outros projetos arquitetônicos. Um dos mais emblemáticos foi o do novo estádio da Juventus de Turim, inaugurado em 18 de setembro de 2011. O empreendimento teve custo relativamente baixo e foi construído em tempo recorde. Foram dois anos e meio, com investimento de R$ 244,8 milhões. O segredo da economia de tempo e de recursos esteve a cargo da concepção do projeto, que abusou das estruturas pré-fabricadas de concreto e de aço. "A intervenção da Pininfarina foi crucial para imaginar um estádio com personalidade forte, sem nunca perder a funcionalidade, o conforto e a segurança, requisitos básicos para a obra de 41 mil lugares", conclui Paolo Pininfarina.

Saiba mais sobre o Ferra: http://www.pininfarina.it/it/ferra/

Confira vídeo sobre como será o Ferra

Entrevistado
Francesco Fiordelisi, responsável pela comunicação da Pininfarina (por email)
Contatos
info@pininfarina.it
f.fiordelisi@pininfarina.it

Créditos fotos: Divulgação/Pininfarina

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

PDE para artefatos de concreto busca abrangência nacional

Objetivo dos coordenadores do Plano de Desenvolvimento Empresarial é que, até 2016, todos os pequenos e médios fabricantes do país sejam atendidos

Por: Altair Santos

Criado há sete anos, através de uma parceria entre a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às micro e pequenas Empresas) o Programa de Desenvolvimento Empresarial (PDE) está consolidado como uma das mais bem sucedidas iniciativas de um setor para levar capacitação e novos modelos de gestão aos empreendedores. No caso específico, aos fabricantes de artefatos de concreto.

Eduardo D'Ávila: PDE começou no Rio de Janeiro e hoje está em 11 estados, além do DF

Segundo o coordenador do programa, o engenheiro civil Eduardo D’Ávila, que também ocupa a gerência regional da ABCP no Rio de Janeiro, o PDE conseguiu quebrar paradigmas relacionados a questões como qualidade, produtividade e sustentabilidade. "Havia um círculo vicioso no setor, quanto a esses três itens. Daí, perguntávamos ao fabricante por que ele não produzia dentro das normas. Ele dizia: não faço, porque eles não compram. Íamos aos construtores, e perguntávamos por que ele não comprava dos pequenos e micros. Eles diziam: não compro, porque eles não fazem dentro dos padrões", recorda D’Ávila.

A solução foi disseminar os critérios de fabricação definidos no selo de qualidade da ABCP, para que houvesse a adesão dos empresários do setor. "No começo do PDE, 36% dos fabricantes atendiam integralmente as exigências do selo. Hoje, 67% já atendem", afirma Eduardo D’Ávila, que esteve na Concrete Show 2013 para contar os cases de sucesso do Programa de Desenvolvimento Empresarial.

O selo de qualidade ABCP é concedido a quem fabrica artefatos de concreto em conformidade com as normas técnicas. Para consegui-lo, a empresa precisa obter a pontuação mínima em cada um dos 12 itens que o produto precisa atender. São eles:
1. Registros e Certificados
2. Matéria Prima
3. Dosagem
4. Mistura
5. Vibro Prensa
6. Moldagem
7. Sistema de Cura
8. Transporte Interno
9. Armazenamento
10. Rastreabilidade
11. Ensaio dos Blocos
12. Equipamentos de Produção

Para Eduardo D’Ávila, a grande virtude do PDE foi mostrar aos empresários que, se eles melhorassem a capacitação da mão de obra e o conhecimento do sistema de fabricação, aumentariam a produtividade, reduziriam custo e teriam mais lucro. "A percepção de gestão de custo foi decisivo para o programa prosperar", diz.

O Programa de Desenvolvimento Empresarial hoje está em 11 estados, além do Distrito Federal, mas o plano é torná-lo amplamente nacional até 2016. "Iniciamos um processo de interiorização e hoje contamos com a ajuda de construtoras, indústrias e fornecedores para expandir o PDE. Essa aposta no relacionamento tem ajudado a mudar atitudes", relata Eduardo D'Ávila.

Entrevistado
Eduardo D’Ávila, coordenador do PDE e gerente regional da ABCP no Rio de Janeiro (via assessoria de imprensa da ABCP)
Currículo
- Eduardo D’Ávila é graduado em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (1992) e com pós-graduação em estruturas de concreto pela Ulbra, em Canoas-RS, em 1995
- Ajudou a fundar a Blocosul - Associação de Fabricantes de Blocos do Sul do País - e comandou até 2002, quando assumiu a gerência regional da ABCP no Rio de Janeiro
Contato: eduardo.davila@abcp.org.br

Crédito foto: Divulgação/ABCP

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Trem de Alta Velocidade está cada vez mais devagar

Com licitação adiada, TAV brasileiro só se viabiliza economicamente se houver ramais que o levem para o sul do país e para Minas Gerais

Por: Altair Santos

No dia 12 de agosto de 2013, o governo federal adiou por pelo menos mais um ano a nova rodada de leilões que viabilizaria o primeiro trem-bala brasileiro. O projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) já se arrasta há cinco anos e as previsões mais otimistas são de que, se nenhum imprevisto atrasá-lo novamente, os veículos só entrarão em funcionamento em 2023. O prazo de dez anos para que o sistema passe a operar é admitido pelo próprio coordenador de infraestrutura do TAV, Eloi Ângelo Palma Filho, vinculado à Empresa de Planejamento e Logística (EPL). "Trata-se de uma obra de que ainda precisamos encontrar a modelagem ideal. Acredito que se a construção começar em 2017 podemos finalizá-la até 2023", diz o executivo, que recentemente palestrou no Concrete Show 2013.

Eloi Ângelo Palma Filho, da EPL: se tudo der certo, trens só irão operar em 2023

O projeto original prevê um trem-bala ligando as cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. Mas a própria EPL admite que o sistema possa se tornar mais interessante aos futuros concessionários - e consequentemente ter maior viabilidade econômica - se forem pensados em ramais que estendam o TAV até Curitiba (partindo de São Paulo) e até Belo Horizonte e o Triângulo Mineiro (saindo do Rio de janeiro e de Campinas, respectivamente). "Não tenho dúvidas de que o trem-bala irá se viabilizar no Brasil, mas, como disse, precisamos encontrar o modelo que melhor se adapte à realidade do país. Por enquanto, o único consenso que existe é que será um TAV e não um trem de média velocidade. Até porque, o objetivo do projeto é concorrer com o transporte aéreo", afirma Eloi Ângelo Palma Filho.

Até que a nova rodada de licitações seja marcada, a EPL espera ter definido uma gerenciadora de projetos, a qual fará a modelagem dos editais dividindo-os em lotes, já pensando em sistemas de manutenção, licenças ambientais, linhas de alta tensão e subestações de energia. Tudo isso ficará a cargo do governo. Cada lote terá um projeto de engenharia completo, que incluirá as obras de ferrovia, pontes, túneis e todos os demais equipamentos. Um exemplo é o trajeto entre São Paulo e Rio, passando por Campinas. Pelo projeto original, concebido em 2008, o trem-bala irá percorrer 511 quilômetros, dos quais 312 serão em superfície, 108 por pontes e viadutos e 91 através de túneis. "Dependendo da tecnologia que ganhar, isso pode ser mantido ou mudar", revela o executivo da EPL.

Uma medida prática tomada pelo ministério dos Transportes, ao qual a Empresa de Planejamento e Logística está subordinada, foi adquirir um software chamado Quantum, o qual irá simular pelo menos 50 traçados para o projeto do trem-bala, já calculando o valor da obra de engenharia. "Esse software nos dará uma noção do custo atual da obra. Em 2008, ela foi orçada em R$ 27 bilhões. Hoje, não temos como estimar, porque há muitas complexidades", comenta Eloi Ângelo Palma Filho. Entre os detalhes técnicos a serem definidos está o modelo de túnel a ser adotado: se com galerias paralelas (trens percorrendo o mesmo túnel) ou singelas (túneis separados para trens que vão e que vêm). Outra incerteza é quanto ao volume de concreto que a obra irá consumir. "Só para os túneis, parte-se do princípio de que será 1,6 milhão de m³. Mas pode chegar a 5 milhões, se incluir obras de superfície, pontes, viadutos e estações", estima o executivo da EPL.

Mais dificuldades

Trem-bala chinês é modelo, mas país está proibido até 2016 de fornecer tecnologia

Recentemente, o acidente ferroviário ocorrido na Espanha criou mais incertezas sobre o trem-bala brasileiro. O motivo é que uma cláusula do edital não permite a participação de empresas envolvidas em acidentes fatais nos últimos cinco anos. A estatal Renfe é quem opera o TAV espanhol, que ao descarrilar em julho de 2013 matou 80 pessoas e feriu 178. A mesma regra já havia inviabilizado a participação da empresa China Communications Construction no processo licitatório, por causa de acidente ocorrido em 2011. Mesmo assim, a China é a maior referência para o Brasil, no que diz respeito a Trem de Alta Velocidade. Há pouco tempo, o país concluiu um trecho de 1.300 quilômetros de trem-bala, no tempo de 100 meses - cerca de oito anos.

 

Entrevistado
Eloi Ângelo Palma Filho, coordenador de infraestrutura do TAV da Empresa de Planejamento e Logística (EPL)
Currículo
- Eloi Ângelo Palma Filho é engenheiro civil graduado pela Unochapecó, de Chapecó-SC (2003)
- Possui mestrado em engenharia de minas, pela UFRGS (2006) e curso de extensão no POLITO -  Politécnico de Turim, Itália (2009/2010)
- É servidor público de carreira do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e atualmente trabalha junto à EPL  (Empresa de Planejamento e Logística S.A) no projeto do TAV brasileiro
Contato: eloi.palma@epl.gov.br

Créditos fotos: Divulgação/Sobretema

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Habitação social só sairá do papel com tecnologia

Secretária nacional Inês Magalhães, e outros agentes da construção civil, defendem investimento em pesquisa e em sistemas construtivos inovadores

Por: Altair Santos

O Brasil só conseguirá viabilizar a produção em massa de habitações de interesse social - hoje o maior gargalo do programa Minha Casa, Minha Vida - se desenvolver sistemas inovadores que permitam construir com alta produtividade, qualidade e custos adequados a esse modelo, cujo objetivo é atingir as famílias de baixa renda e eliminar o déficit habitacional brasileiro. Para a secretária nacional da habitação, Inês Magalhães, estes desafios levaram o governo federal a elaborar uma agenda para que os avanços saiam do papel e tornem-se realidade.  "Precisamos de soluções construtivas que incorporem ciclo de vida, durabilidade e assistência aos usuários, para que eles realizem a manutenção corretamente", diz.

Inês Magalhães: incentivo a centros de pesquisa para habitações de interesse social

Inês Magalhães tratou do tema habitação de interesse social em dois eventos que ocorreram no final de agosto na cidade de São Paulo: o 1º Fórum Executivo de Inovação IPT-Grace e o Congress Concrete, realizado paralelamente ao Concrete Show 2013. Ao lado de outros agentes importantes da construção civil, como os presidentes da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) Paulo Safady Simão e Renato Giusti, além da coordenadora geral do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), Maria Salette de Carvalho Weber, Inês Magalhães defendeu mais investimentos em centros de pesquisa voltados para as habitações de interesse social. "Não podemos ficar limitados aos centros que existem nas regiões sudeste e sul. É preciso expandir a pesquisa, principalmente nas regiões norte e nordeste", afirma.

Reconhecendo que há distorções tributárias para incentivar inovações no país, ela comentou que o esforço do ministério das Cidades - a quem a Secretaria Nacional da Habitação está vinculada - é para que se disseminem os centros de pesquisa. "De toda a verba destinada ao PAC e ao Minha Casa, Minha Vida, cerca de 1,5% a 2% tem o objetivo de atender investimentos em pesquisa para a habitação de interesse social. Nosso foco, agora, é desenvolver pesquisas que estudem essas habitações após a ocupação, pelo menos no período entre seis meses e um ano.  Isso dará subsídios para alterações de parâmetros, inclusive para que se obtenha avanços no sentido de alterar o modelo do produto, permitindo variações tipológicas. Escala e ganho de produtividade não podem ser justificativas para que a gente não ofereça variação de tipologia. Não é concebível, por exemplo, que em um conjunto de três mil unidades horizontais tenhamos todas as habitações com a mesma tipologia", argumenta.

Renato Giusti, da ABCP: grande desafio é capacitar profissionais que saibam usar os sistemas inovadores

A avaliação de novos produtos usados nos processos de construção de habitações de interesse social já está em andamento no Sistema Nacional de Avaliações Técnicas (SiNAT), com a coordenação do IPT (Instituto de Pesquisa e Tecnologia do Estado de São Paulo) mas Maria Salette de Carvalho Weber lembra que é relevante o envolvimento de mais centros de pesquisa. "Num país de dimensões continentais como é o Brasil, tanto a questão dos materiais, com o enfoque da sustentabilidade, como a dos sistemas construtivos devem se adequar às características de cada região, principalmente levando em consideração as diferenças bioclimáticas", avalia.  Já Renato Giusti, da ABCP, lembra que além de tecnologias é preciso qualificar a mão de obra. "Talvez seja nosso grande desafio capacitar profissionais que saibam usar os sistemas que já estão disponíveis", alerta.

Por fim, o presidente da CBIC, Paulo Safady Simão, analisa que o desafio é levar a inovação aos pequenos construtores. "Comparando com 10 anos atrás já aconteceram muitas evoluções, mas precisamos estimular as pequenas construtoras, que representam basicamente 80% do setor, a implementar sistemas inovadores. E há recursos para isso. O BNDES tem uma linha de crédito no valor de R$ 5 bilhões, voltada exclusivamente para a inovação tecnológica na construção civil, que não é acessada praticamente por ninguém. Nosso papel é estimular isso. É pegar aquele pequeno construtor, que tem entre dez e vinte empregados, e que empreende na construção de trinta casas no interior do país, a investir em inovação e na qualificação de sua mão de obra. Através do SindusCon da Bahia, a CBIC está implementando um projeto modelo, junto com o Sebrae, o Senai e a UFBA (Universidade Federal da Bahia) e pretendemos estender isso a outros estados", conclui.

Entrevistados
Inês Magalhães, secretária nacional da habitação
Maria Salette de Carvalho Weber, coordenadora geral do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H)
Paulo Simão Safady, presidentes da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção)
Renato Giusti, presidente da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland)
Currículos
- Inês da Silva Magalhães é graduada em sociologia, com especialização em planejamento de gestão
- Entre as funções já exercidas, estão a de diretora de urbanização de assentamentos precários na Secretaria Nacional de Habitação
- Atuou também na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do Estado de São Paulo e nas administrações municipais de São Paulo e São Vicente
- Maria Salette de Carvalho Weber é graduada em arquitetura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL-RS) em 1983
- Tem pós-graduação em Arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB) 1985
- Conta com especialização em Gestão pela Qualidade no Setor Público (ENAP/PR) 1992, além de curso de mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Brasília (UnB) 1996
- É funcionária de carreira do ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, desde 1985
- De 1985 a 1988, assessorou o Programa Especial Cidades de Porte Médio e Regiões Metropolitanas
- De 1989 a 1990 fez acompanhamento técnico aos Projetos de Lei em Tramitação no Congresso Nacional, relacionados com a questão Urbana e Habitacional da Secretaria de Desenvolvimento Habitacional do MINTER (Ministério da Terra)
- De 1990 a 1992 chefiou a divisão de Normas e Procedimentos da Secretaria Nacional de Habitação do Ministério da Ação Social (SNH/MAS)
- De 1992 a 1996 chefiou a Divisão de Desenvolvimento Tecnológico e Coordenadora do Programa Nacional de Tecnologia da Habitação (PRONATH) da Secretaria de Habitação do Ministério do Bem-Estar Social (SH/MBE S)
- De 1996 a 1999 chefiou a Divisão da Coordenação Geral de Fundos da Secretaria de Política Urbana (SEPURB/MPO)
- De 1999 a 2002 tornou-se coordenadora técnica do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade da Habitação (PBQP-H)
- A partir de 2003 assumiu a coordenação geral do Programa Brasileiro de Qualidade e
- Produtividade do Habitat (PBQP-H) da Secretaria Nacional de Habitação do ministério das Cidades
- Paulo Safady Simão é graduado em engenharia civil pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem especialização em administração de empresa pela Fundação João Pinheiro, em conjunto com a Graduate School of Business da Columbia University de New York
- É diretor-presidente da Wady Simão-Construções e Incorporações LTDA e presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção)
- Renato Giusti é graduado em engenharia metalúrgica (1971) com especialização em marketing e mercado
- Exerce o cargo de Presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)
- É diretor do Departamento de Construção Civil (DECONCIC) e membro do Conselho da Indústria da Construção da FIESP ( Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)
- Membro do Conselho Deliberativo da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)
- É conselheiro do IBRACON (Instituto Brasileiro do Concreto)

Contatos
: snh@cidades.gov.br / salette.weber@cidades.gov.br / presidencia@cbic.org.br /
renato.giusti@abcp.org.br

Créditos fotos: Divulgação/IPT, Divulgação/ABCP

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330