Sustentabilidade requer investimento em P&D e engenharia

Antônio Domingues de Figueiredo, pesquisador da USP, avalia que construção civil brasileira está numa encruzilhada: tem que ser sustentável, mas ainda não sabe como

Antônio Domingues de Figueiredo, pesquisador da USP, avalia que construção civil brasileira está numa encruzilhada: tem que ser sustentável, mas ainda não sabe como

Por: Altair Santos

A construção civil brasileira é compelida a adotar práticas sustentáveis, mas ainda não dispõe de boas ferramentas para implementar esses conceitos em larga escala. Segundo o professor-doutor da USP (Universidade de São Paulo) Antônio Domingues de Figueiredo, para que o setor viabilize uma sustentabilidade que não seja apenas teórica é preciso que haja investimento em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e em qualificação acadêmica dos engenheiros. “Não existe engenharia sem planejamento. Os chineses já aprenderam isso e hoje conseguem erguer um prédio em 15 dias. No Brasil, ainda tomam-se decisões no canteiro de obras e, convenhamos, não é o ambiente ideal para a tomada de decisões”, afirma.

Antônio Domingues de Figueiredo: não dá para pensar em P&D sem qualificação

Em palestra no Concrete Show 2013, Antônio Domingues de Figueiredo avalia que o Brasil só reverterá esse quadro quando conseguir expandir os centros de pesquisa e descentralizá-los. “Hoje, toda a pesquisa está praticamente concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, e um pouco no Rio Grande do Sul. Precisamos espalhar pesquisa por esse país. Não podemos ficar dependentes sempre dos mesmos centros de inovação. Além disso, não dá para pensar em P&D sem qualificação. Eu mesmo trabalho em um núcleo de pesquisa onde, de onze, só um é doutor e três têm mestrado. Na Espanha, cada grupo de produção tem quinze alunos de doutorado. Mas é necessário ter centros de pesquisa para formar doutores”, explica.

No entender do especialista, para ter mais P&D é preciso que a indústria brasileira assuma seu papel e invista em centros de inovação. “Falta dinheiro para pesquisa porque só os recursos públicos não dão conta. No Brasil, 80% das bolsas são governamentais e boa parte das universidades não recebem demanda da iniciativa privada para pesquisa. Nos Estados Unidos, por exemplo, é um processo compartilhado. Tanto que na crise de 2008 o governo do Barack Obama ameaçou cortar verbas para pesquisas e o setor privado chiou forte. Resultado: não houve corte”, revela Antônio Domingues de Figueiredo.

De acordo com o pesquisador, esse paradigma poderia ser rompido na indústria nacional se o investimento em P&D tivesse um outro tratamento. “Defendo que pesquisa saia do setor tecnológico das empresas e vá para o setor de marketing. Por quê? Porque investir em pesquisa pode não dar em nada, mas pode dar um grande retorno mercadológico quando ela traz resultados e é bem divulgada. Então, o raciocínio da iniciativa privada deveria ser: vou investir em pesquisa, e vou divulgar, pois o retorno da parte que der certo vai compensar o investimento na parte que não deu resultado”, diz, completando: “A entrada da iniciativa privada é fundamental, pois ela cobra com mais energia e, às vezes, gera mais resultados”.

Falando especificamente sobre sua área de atuação, o professor-doutor da USP revelou que há, por exemplo, um grande déficit em pesquisa focando a construção de túneis. “Ainda estamos usando concreto projetado para o revestimento de túneis, que é uma descoberta do século passado (por Carl E. Akeley, em 1907). Tudo bem que ele não utiliza fôrma, mas o problema é que nem tudo que bate fica na parede. A esse processo chamamos de reflexão, que, hoje em dia, gera até 20% de resíduos. No passado, descobriu-se que a linha norte do metrô de São Paulo gerou 40% de reflexão. Atualmente, no caso de túneis para metrôs, o que se pesquisa lá fora são trechos em rocha pura ou que necessitem de pouco uso de concreto. Na Suécia é assim. Com engenharia e tecnologia, eles prospectam cavernas subterrâneas para construir os túneis em rocha pura. Sustentabilidade é isso: gerar trabalho de engenharia e investimento em P&D para minimizar o uso de recursos e, portanto, gastar menos”, finaliza.

Entrevistado
– Professor-doutor Antônio Domingues de Figueiredo, engenheiro civil e pesquisador da Escola Politécnica da USP
Contato:
antonio.figueiredo@poli.usp.br

Crédito foto: Divulgação/Cia. de Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330


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