Pesquisa traça panorama da maturidade digital na construção
O BIM Fórum Brasil (BFB) divulgou os resultados da Pesquisa Nacional de Maturidade Digital de Incorporadoras e Construtoras, um estudo que apresenta um panorama inédito e integrado sobre o estágio de digitalização das empresas da construção civil no país. O levantamento reuniu informações coletadas entre setembro e outubro de 2025, abrangendo todas as regiões do Brasil.
“A primeira pesquisa foi lançada em 2022, com foco nos profissionais do setor. Em 2024, o estudo foi ampliado e passou a analisar de forma mais diversificada o nível de maturidade do mercado, incluindo uma pesquisa abrangente sobre a adoção do BIM nos municípios brasileiros. Agora, em 2025, lançamos a terceira edição, direcionada especificamente ao segmento de construtoras e incorporadoras — um dos principais motores da adoção do BIM no Brasil. Se, por um lado, o poder público exerce um papel relevante como grande contratante e indutor das iniciativas governamentais, por outro, construtoras e incorporadoras representam a força da iniciativa privada. Os resultados dessa pesquisa são decisivos para orientar estratégias, acelerar a tomada de decisão e impulsionar o avanço da digitalização no setor”, informa Rodrigo Koerich, presidente do BIM Fórum Brasil.
Resultados da Pesquisa BIM Fórum Brasil sobre a maturidade digital
A pesquisa contou com a participação de 130 empresas e apresenta um retrato aprofundado do nível de maturidade digital do setor. Os resultados indicam que, independentemente do porte, a ampla maioria das empresas participantes enquadrou-se em dois dos cinco perfis estabelecidos: iniciante (48,5%) ou tradicional (24,6%). Segundo o critério da pesquisa, as empresas classificadas como tradicionais operam em modelos analógicos sem consciência estratégica consolidada sobre a necessidade da digitalização, enquanto as iniciantes já despertaram para a transformação, mas ainda carecem de estrutura para escalar suas iniciativas informais e reativas. Isso indica que ainda enfrentam barreiras básicas tanto de adoção tecnológica como de mobilização estratégica para a transformação.

Crédito: Envato
Para Natália Nakamura, do GT3 do BIM Fórum Brasil, apesar de haver uma intenção das empresas em inovar, ainda existe uma grande distância entre essa vontade e a capacidade real de execução. “Uma grande lacuna que conseguimos perceber é o desafio da execução prática da inovação dentro das empresas”, pontua.
Entre os perfis que indicam evolução na maturidade digital, apenas “com liderança mobilizada” (13,1%) e “convergentes” (13,5%) têm presença relevante na amostra, o que indica que o avanço digital no setor ocorre principalmente pela dimensão estratégica, e não por iniciativas isoladas de tecnologia. O perfil com liderança mobilizada evidencia forte patrocínio executivo e visão clara de transformação, ainda que com limitações operacionais, enquanto os convergentes demonstram maior equilíbrio entre estratégia e técnica, integrando a digitalização de forma efetiva à operação. Já o perfil com base técnica estruturada é pouco representativo (0,8%), reforçando que investimentos tecnológicos sem articulação estratégica não têm sido uma rota eficaz de transformação digital.
“Hoje, já existe uma compreensão mais madura da dimensão digital da construção e da incorporação, que deixa de ser apenas intermediária e se destaca como o bloco de melhor desempenho relativo em todo o diagnóstico. Esse resultado indica que vêm funcionando as ações de sensibilização promovidas por instituições do setor, especialmente ao aproximar os tomadores de decisão das empresas das melhores práticas metodológicas e tecnológicas em ambiente digital”, afirma Laura.
A pesquisa também avaliou quatro eixos: prontidão estratégica digital, cultura e capacidades digitais, infraestrutura digital e inteligência de dados, e processos eficientes e integrados. O estudo mostrou ainda, um descompasso relevante entre o discurso e a intenção estratégica das empresas e a efetiva entrega de resultados na prática.
A prontidão estratégica digital apresenta a maior média (1,93), indicando que as empresas reconhecem a importância da digitalização e possuem uma visão estratégica inicial sobre o tema. Em contrapartida, processos eficientes e integrados registram a menor pontuação (1,45), revelando dificuldade em transformar essa intenção em práticas digitais concretas no negócio. Cultura e capacidades digitais (1,80) e infraestrutura digital e inteligência de dados (1,76) ficam em um patamar intermediário, mostrando que as bases humanas e tecnológicas ainda estão em construção. Esse desempenho geral, com médias abaixo da metade da escala, explica a concentração das empresas nos estágios iniciais da jornada digital.
“Em suma, avaliamos que as empresas têm mais preparo para empreender um esforço de capacitação digital do que resultados operacionais. Isso significa que há mais preparo para começar a se transformar digitalmente do que capacidade de captar resultados operacionais nas atividades ou processos críticos”, afirma Laura Lacaze, diretora da TresT Consultoria.
Outro resultado apontado pela pesquisa foi de que a transformação digital não varia de forma qualitativa entre os diferentes portes de empresa, mas sim em termos de desempenho médio. Pequenas, médias e grandes organizações concentram-se majoritariamente nos perfis tradicionais e iniciantes e enfrentam desafios semelhantes, como processos fragmentados, baixa integração de dados e necessidade de aculturamento digital. As maiores diferenças aparecem nos eixos de infraestrutura digital e inteligência de dados e de processos eficientes e integrados, indicando um ponto crítico: a maturidade operacional das grandes empresas é frequentemente limitada pelas restrições digitais dos pequenos negócios com os quais se relacionam.
O compromisso estratégico com a transformação digital ainda apresenta fragilidades. “Os dados mostram dificuldades em transformar essa visão em iniciativas concretas, com estrutura, metas e acompanhamento de desempenho. A transformação digital não é simples nem imediata: não se resume à contratação de um software ou à realização de um treinamento pontual. Ela exige a construção de um processo estruturado, com prazos definidos, resultados esperados, alocação de recursos humanos e materiais, além de indicadores capazes de medir o que funciona e o que precisa ser ajustado. O principal gargalo identificado — e que se configura como um dos focos centrais de atuação institucional — está justamente no apoio às empresas para materializar essa visão, estruturando ações que permitam sair do estágio atual e avançar de forma consistente para onde desejam estar nos próximos cinco anos”, conclui Laura.
Fontes
Rodrigo Koerich é presidente do BIM Fórum Brasil.
Natália Nakamura integra o GT3 do Bim Fórum Brasil.
Laura Lacaze é diretora da TresT Consultoria.
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Obediência às normas técnicas são fundamentais para reduzir danos de eventos climáticos intensos
Os eventos climáticos que atingiram a Região Sul nos últimos meses, incluindo ciclos de tempestades com tornados, granizo e vendavais, somaram prejuízos estimados ultrapassam os R$ 335 milhões, com quase 4,8 mil casas danificadas ou destruídas e 23,3 mil pessoas afetadas entre desalojados e desabrigados, de acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). O Paraná concentrou mais de 96% desses prejuízos, com mais de R$ 323,5 milhões e 16 municípios em situação de anormalidade, liderados por Rio Bonito do Iguaçu, onde mais de 80% da população sofreu impacto e seis pessoas perderam a vida nos fenômenos.
Embora a intensidade dos eventos climáticos, cada vez mais frequentes e severos, represente um fator externo inevitável, engenheiros destacam que grande parte dos colapsos estruturais registrados poderiam ser evitada caso as construções fossem devidamente projetadas e executadas para resistir às cargas impostas pelo vento e outros esforços ambientais, previstos em norma.
O engenheiro Gilberto Luiz, especialista em patologia de edificações, informa que os acidentes começam a acontecer quando as pressões alcançam patamares inferiores a 20% do que efetivamente as edificações deveriam resistir. “Estruturas mal dimensionadas e com fixações inadequadas sucumbem até mesmo a ventos de 60 km/h, que são relativamente comuns no Sul do país”, observa.

Crédito: Roberto Dziura Jr/AEN
O que estabelecem as normas técnicas
A ABNT NBR 6123 define critérios para o dimensionamento das edificações frente às ações do vento, considerando características locais e da construção. No Brasil, a velocidade básica do vento varia conforme a região, podendo atingir cerca de 30 a 48 m/s (108 a 173 km/h), com ajustes normativos que asseguram a segurança e o desempenho estrutural frente a ventos extremos. Esses ajustes consideram fatores como localização geográfica, climatologia, topografia, tipo de terreno, altura, uso e vida útil da construção.
A norma não atua isoladamente. Ela é parte de um conjunto que inclui também padrões de projeto e execução para estruturas de concreto, aço e madeira, além das diretrizes de desempenho que garantem segurança, funcionalidade e durabilidade frente a cargas ambientais variadas.
Construções fora da norma ampliam riscos
O cumprimento integral dessas normas é determinante para evitar a transição de danos localizados para cenários de colapso com perdas humanas e materiais. Sistemas de cobertura com fixações subdimensionadas, estruturas leves sem o devido contraventamento e detalhamentos construtivos inadequados aumentam significativamente a vulnerabilidade das edificações às ações do vento, favorecendo o desprendimento de componentes e a ocorrência de falhas progressivas, com riscos diretos à segurança de usuários, ocupantes e transeuntes. Gilberto Luiz destaca que “o vento pode tanto pressionar coberturas e paredes para baixo quanto arrancá-las, quando o esforço ocorre de baixo para cima”, enfatizando a necessidade de atenção a esforços horizontais e de sucção que muitas vezes não são considerados em projetos simplificados.
Resiliência começa no projeto
O balanço de prejuízos evidencia um cenário mais amplo: além de perdas diretas no setor habitacional, os impactos econômicos sobre serviços públicos, atividades produtivas e infraestrutura aumentam a vulnerabilidade das comunidades afetadas.
Em regiões suscetíveis a ciclones extratropicais, tornados e ventos intensos, investir em projetos tecnicamente adequados e na execução rigorosa conforme as normas brasileiras torna-se não apenas uma exigência legal, mas uma estratégia essencial de resiliência urbana e social. O fortalecimento das edificações constitui elemento central dos processos de adaptação às mudanças climáticas e de redução de riscos em áreas expostas a eventos extremos.
Entrevistado
Gilberto Luiz é graduado em Engenharia Civil pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), especialista em Patologia nas Obras Civis e Engenharia de Estruturas, diretor técnico da empresa Ad Fiducia Avaliações e Perícias de Engenharia, professor de cursos de pós-graduação e extensão na área de ensaios tecnológicos, inspeção de estruturas e perícias de engenharia, membro do Instituto Catarinense de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape/SC).
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Ana Carvalho
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Construção civil deve ganhar fôlego em 2026
Após um ano de desaceleração em 2025, a construção civil entra em 2026 com perspectivas mais favoráveis, embora ainda cercadas de riscos. A avaliação é da economista Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV/ Ibre, que destaca a combinação de condicionantes positivas e negativas no cenário para o próximo ano. Em um cenário-base (nem pessimista, nem otimista), o FGV/Ibre estima que o PIB da construção deva crescer 2,7% em 2026.
“O ponto de partida para 2026 é um cenário mais equilibrado. Temos fatores que pressionam negativamente, como juros ainda elevados e incertezas globais, mas também um conjunto de vetores positivos que podem sustentar uma retomada mais consistente da atividade”, afirma.
Riscos permanecem no radar
Entre os fatores de risco, Ana Maria aponta a desaceleração do consumo observada ao longo do ano de 2025, o ambiente fiscal doméstico, as incertezas geopolíticas e a manutenção de taxas de juros em patamar elevado por boa parte do ano. “Surpresas negativas no cenário internacional se tornaram recorrentes e continuam interferindo nas decisões de investimento”, ressalta.
Apesar disso, a economista observa sinais de inflexão no ciclo monetário. A expectativa de início do processo de queda dos juros ao longo de 2026, ainda que gradual, é considerada relevante para o setor, especialmente para a retomada das obras das famílias.

Crédito: Envato
Expectativas melhoram, apesar do pessimismo moderado
As sondagens do FGV Ibre mostram que, embora consumidores e empresários ainda permaneçam em um patamar moderadamente pessimista, a construção civil apresenta expectativas mais favoráveis do que outros setores da economia. Em novembro de 2025, o indicador de expectativa do setor permaneceu acima do nível observado no conjunto da indústria e dos serviços.
“Houve melhora nas expectativas de demanda e, com isso, também nas intenções de contratação para os próximos meses, especialmente nos segmentos de infraestrutura e serviços especializados”, explica Ana Maria Castelo.
Infraestrutura segue como principal motor
Um dos pilares do crescimento em 2026 deve continuar sendo a infraestrutura. Projeções da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) indicam que os investimentos no setor podem atingir R$ 300 bilhões, estabelecendo um novo recorde histórico.
Segundo Ana Maria, esse desempenho é sustentado por um ciclo de projetos já contratados, além de novos leilões previstos. “Grande parte desses investimentos é puxada pelo setor privado, o que reduz a dependência do orçamento público e dá mais previsibilidade ao ciclo”, afirma.
Reforma Casa Brasil pode impulsionar atividade e emprego
Outro destaque para 2026 é o Programa Reforma Casa Brasil, que prevê R$ 40 bilhões em crédito facilitado e assistência técnica para reformas e melhorias habitacionais. Caso o montante seja integralmente executado em um único ano, o impacto potencial sobre o PIB da construção é estimado em R$ 17,7 bilhões, o equivalente a 4,9% do PIB setorial de 2024.
Além disso, o programa pode gerar cerca de 84 mil empregos formais e 250 mil postos no setor informal, atingindo tanto a autoconstrução quanto empresas prestadoras de serviços. “É um programa com capacidade de transbordamento para os dois lados do PIB da construção, ampliando emprego e renda”, destaca a economista.
Famílias voltam ao centro do crescimento
A principal diferença entre 2025 e 2026, segundo a FGV, está no comportamento das famílias. Após um ano de estabilidade, provocado pela postergação de obras e reformas diante dos juros elevados, a expectativa é de retomada.
“No cenário-base, projetamos crescimento de 2,7% do PIB da construção em 2026, com desempenho das empresas em linha com 2025, mas com uma recuperação importante da demanda das famílias”, afirma Ana Maria Castelo. A estimativa considera avanço de cerca de 2,6% no consumo das famílias, após estagnação no ano anterior.
A FGV ainda trabalha com um cenário pessimista, de crescimento de 1,3%, e um cenário otimista, de 3,4%, a depender principalmente do ritmo de queda dos juros e da efetivação dos programas de crédito.
Escassez de mão de obra segue como desafio
Apesar da perspectiva de crescimento, a economista alerta para um gargalo estrutural que deve se intensificar: a escassez de mão de obra qualificada. A sondagem da FGV Ibre mostra que a limitação relacionada ao mercado de trabalho segue como uma das principais restrições ao avanço dos negócios no setor.
“Se a atividade voltar a acelerar, a pressão sobre o mercado de trabalho será ainda maior. Esse é o grande desafio para sustentar o crescimento nos próximos anos”, avalia.
Um ano de transição
Para Ana Maria Castelo, 2026 deve ser um ano de transição para a construção civil. “Há condições mais favoráveis do que em 2025, mas o setor ainda opera em um ambiente complexo. A retomada dependerá muito do comportamento das famílias, do custo do crédito e da capacidade das empresas de lidar com a escassez de mão de obra”, comenta.
A reforma tributária é apontada como um dos fatores que podem ajudar a mitigar a escassez de mão de obra no setor, ao estimular a industrialização da construção. Em 2026, no entanto, o novo modelo ainda estará em fase de transição.
“Neste primeiro ano, será apenas uma amostra do que virá pela frente. Trata-se de um período de adaptação que, ainda assim, favorece claramente a industrialização. A indústria da construção tem consciência de que não há outro caminho senão o aumento da produtividade, diante da falta de mão de obra”, afirma Eduardo Zaidan, vice-presidente de Economia do SindusCon-SP.
Segundo ele, estudos do setor indicam que a idade média do trabalhador da construção civil gira em torno de 40 a 41 anos e não vem sendo renovada. “Há um esforço para tornar o trabalho nos canteiros mais atrativo, mas será indispensável ampliar os investimentos em modulação e industrialização para sustentar a produtividade nos próximos anos. A reforma tributária contribui para esse processo, embora seus principais efeitos devam se materializar no médio prazo”, conclui.
Fontes
Ana Maria Castelo é coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Eduardo Zaidan é vice-presidente de Economia do SindusCon-SP.
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Especialistas apontam caminhos para o futuro do concreto no Brasil para acelerar a descarbonização da construção
Os principais pesquisadores mundiais em cimento e concreto reuniram-se durante o workshop internacional “Tecnologias Avançadas e Estratégias de Descarbonização para Concretos de Alta Performance”, que buscou discutir soluções práticas para uma construção mais sustentável. Organizado pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), hubIC, Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e Poli-USP, o evento reforçou a importância de novos ligantes, aplicações de baixo carbono e sistemas avançados de desempenho e durabilidade para o setor.
Paulo Monteiro, professor da University of California (EUA), apresentou um panorama do estado da arte da tecnologia do concreto. Segundo ele, o material vive uma mudança profunda: deixa de ser visto apenas como solução resistente e econômica e passa a carregar uma exigência adicional, que é a redução de emissões. “Hoje projetamos misturas com três metas simultâneas: resistência, durabilidade e baixa pegada de CO₂”, afirmou.
Monteiro destacou que os avanços mais relevantes se concentram na redução do teor de clínquer, principal responsável pelas emissões de CO2 na produção do cimento. Soluções como argilas calcinadas (LC3), escórias, pozolanas naturais e fíler calcário reativo já possibilitam reduções de 25% a 45% nas emissões, sem comprometer a performance dos concretos. “O Brasil é pioneiro no uso de argilas calcinadas combinadas com fíler calcário, e as formulações desenvolvidas na Poli-USP estão mostrando resultados particularmente promissores”, disse.

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O professor também apontou avanços significativos na química dos aditivos, que vêm viabilizando concretos com maior fluidez, elevada resistência e aplicações inovadoras, como a impressão 3D. Segundo ele, a inteligência artificial deve promover um salto de eficiência no setor: “A aplicação de IA no controle em tempo real e na previsão de desempenho terá impacto profundo na forma como projetamos o concreto no futuro”, afirmou.
LC3 em pavimentação: desempenho superior e durabilidade aprimorada
Outra contribuição técnica relevante foi apresentada pela professora Keijin Wang, da Iowa State University (EUA), que abordou o desempenho do concreto para pavimentação com ligantes mistos inspirados no LC3. A pesquisadora destacou que combinações de cimento Portland, fíler calcário e argilas calcinadas, usando materiais regionais, já apresentam desempenho técnico consistente.
Segundo Keijin, em misturas com 20% a 30% de argila calcinada, o concreto do tipo LC3 desenvolve microestrutura mais densa e alcança maiores resistências em idades avançadas, o que reduz a penetração de umidade e íons agressivos, aumentando a durabilidade. Ela destacou ainda que, embora essas misturas demandem maior dosagem de aditivos superplastificantes e apresentem tempo de pega ligeiramente mais lento, o desempenho final supera o de concretos convencionais atualmente empregados em pavimentação.
A pesquisadora destacou ainda o primeiro caso prático de aplicação de um pavimento LC3, cuja mistura apresentoubom desempenho durante a execução com formas deslizantes e manteveaspecto superficial satisfatório após um ano de exposição às condições de inverno.
Entre as vantagens desse material, ela ressaltou a baixa emissão de carbono, a elevada resistência final e a maior eficiência na contenção da penetração de íons agressivos. Entre os desafios, estão a sensibilidade à cura e a limitada experiência em aplicações em larga escala, fatores que reforçam a necessidade de estudos adicionais.
Concreto reforçado com fibras: soluções para pavimentação avançada

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Já a pesquisadora Somayeh Nassiri, da University of California (EUA) destacou os avanços dos concretos reforçados com fibras (FRC) em aplicações de pavimentação e reabilitação de vias, tecnologia que vem sendo adotada de forma crescente nos Estados Unidos. Segundo ela, "o uso de macrofibras de aço ou sintéticas melhoram a capacidade pós-fissuração e contribuem para a redução da formação de trincas e fissuras”.
Ela também apresentou pesquisas envolvendo nanofibras de quitina e celulose, que, mesmo em dosagens baixíssimas (0,05% a 0,1%), promovem incrementos expressivos em resistência à flexão, tenacidade à fratura e mitigação da reação álcali-sílica.
A pesquisadora destacou ainda o potencial do uso de fibras recicladas de GFRP (Glass Fiber Reinforced Polymer) provenientes de pás de turbinas eólicas, agregando desempenho e sustentabilidade ao reaproveitar resíduos industriais. Porém, ela alerta que os métodos atuais de projeto ainda não capturam totalmente os benefícios do CRF, o que dificulta a justificativa de custos adicionais. “Precisamos de mais testes em campo e laboratório para quantificar os ganhos no ciclo de vida”, afirmou.
Em convergência, os especialistas reforçaram a importância de uma transição baseada em ciência, inovação e uso inteligente dos materiais. Tecnologias como LC3, concretos de alta performance, fibras avançadas e aditivos de nova geração apontam para um futuro no qual baixo carbono e o alto desempenho avançam de forma integrada. O workshop evidenciou que o Brasil reúne condições reais de liderança, tanto na pesquisa de microestrutura quanto na adoção de novos ligantes em escala industrial. Como sinalização ao setor, o debate apontou que para o cumprimento das metas globais de descarbonização, será preciso acelerar a implementação dessas soluções nos próximos anos.
Fonte
Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP)
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daniela.nogueira@fsb.com.br (Assessoria de Imprensa)
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Sinduscon-CE lança guia pioneiro e estratégico para acelerar a descarbonização na construção civil
O Sinduscon Ceará apresentou o Guia de Descarbonização na Construção Civil, considerado o primeiro documento técnico brasileiro a reunir, de forma estruturada, recomendações práticas para apoiar empresas e profissionais na redução efetiva das emissões de carbono. A publicação nasce como resposta ao avanço da agenda climática e ao papel estratégico que o setor ocupa na economia e no desenvolvimento urbano.
De acordo com o presidente do Sinduscon-CE, Patriolino Dias de Sousa, a iniciativa reflete o reconhecimento de que o setor da construção civil precisa assumir responsabilidades ambientais com visão de longo prazo e foco em inovação. “O guia surge como um marco que simboliza a abertura de um caminho pautado pela inovação e pela responsabilidade, entendendo a descarbonização como uma oportunidade única para repensar processos e modernizar práticas em toda a cadeia produtiva”, destaca.
O caráter pioneiro da iniciativa é reconhecido nacionalmente. Pela primeira vez, uma publicação setorial consolida conceitos técnicos, diretrizes estratégicas, boas práticas e KPIs obrigatórios para apoiar construtoras na transição para modelos de produção mais sustentáveis. “Ele é inédito porque reúne orientações práticas e estratégicas para reduzir emissões de carbono, consolidando medidas fundamentais e servindo como exemplo de compromisso, liderança e vanguarda do setor produtivo”, reforça Sousa.

Crédito: Envato
Conteúdo técnico e orientações aplicáveis
O Guia de Descarbonização estrutura sua proposta em três eixos fundamentais: projeto, execução e operação. O objetivo é permitir que cada etapa do ciclo de vida de um empreendimento contribua para a redução de emissões. Entre os principais pontos abordados, estão:
- Priorização de materiais de baixa emissão e soluções industrializadas;
- Eficiência energética desde o anteprojeto;
- Uso de energias limpas nos canteiros;
- Reuso de água, logística reversa e controle rigoroso de resíduos;
- Manutenção preventiva e medição individualizada na fase operacional.
Além disso, o documento apresenta conceitos como o Protocolo GHG (Greenhouse
Gas Protocol) – onde as emissões são classificadas em três escopos – e Declaração Ambientais de Produto (DAP), promovendo padronização e permitindo a comparação entre diferentes obras. “O guia é um manual que organiza conceitos essenciais, estabelece KPIs obrigatórios e reforça boas práticas para viabilizar a descarbonização”, aponta o presidente do Sinduscon-CE.
Medir, reduzir e integrar: pilares da transformação
As orientações práticas são organizadas em três grandes diretrizes estratégicas:
- Mensurar para reduzir: incentivo ao monitoramento contínuo das emissões desde o projeto até o fim da obra. Nesse sentido, ferramentas como a calculadora de carbono disponibilizada pelo Sinduscon-CE ajudam a embasar decisões.
- Adotar soluções eficientes: tecnologias, processos e materiais de menor impacto devem ser incorporados desde o início.
- Trabalhar com agenda integrada: clima, biodiversidade, uso racional de recursos e economia circular passam a ser dimensões centrais da estratégia empresarial.
Segundo a entidade, sustentabilidade precisa ser encarada como equilíbrio entre impacto ambiental, viabilidade econômica e valor social, alinhando o Guia às práticas internacionais de ESG (Environmental, Social and Governance).
Desafios estruturais exigem inovação
Apesar dos avanços, o setor enfrenta desafios históricos. Materiais como básicos como aço e concreto são responsáveis por grande parte das emissões de carbono do setor, o que evidencia a necessidade de soluções tecnológicas, pesquisa aplicada e novos materiais. Além disso, a agenda regulatória também exige atenção, abrangendo temas como taxonomia verde, Plano Prima, eficiência energética e cidades resilientes. “Descarbonizar requer coragem para enfrentar problemas complexos e disposição real para desenvolver soluções e processos mais eficientes”, afirma.
O Guia de Descarbonização está disponível para acesso aberto em guiadescarbonizacao.sindusconce.com.br e deve servir de referência nacional para empresas que buscam alinhar produtividade, responsabilidade ambiental e competitividade.
Entrevistado
Patriolino Dias de Sousa é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), pós-graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), sendo diretor executivo da Dias de Sousa Construções. Atualmente, é presidente do Sinduscon Ceará.
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Pesquisa CNT de Rodovias 2025 evidencia gargalos estruturais
A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, divulgada em dezembro de 2025, confirma que a infraestrutura rodoviária brasileira ainda enfrenta desafios estruturais significativos, apesar de avanços pontuais observados nos últimos anos. O levantamento avaliou 114.197 quilômetros da malha rodoviária pavimentada do país, analisando critérios técnicos relacionados ao pavimento, à sinalização e à geometria das vias, elementos que compõem o indicador de estado geral das rodovias.
Segundo o levantamento nacional, financiado pelo SEST SENAT, 37,9% da malha avaliada (43.301 km) foi classificada como Ótima ou Boa em 2025, frente a 33,0% em 2024 (36.814 km), o que representa uma melhora de quase 5 pontos percentuais. Já a proporção de trechos em condição Ruim ou Péssima recuou de 26,6% (29.776 km) para 19,1% (21.804 km), queda de 7,5 pontos percentuais. A categoria Regular permaneceu praticamente estável, passando de 40,4% (45.263 km) para 43,0% (49.092 km). De acordo com o estudo, “a situação Regular de uma rodovia sinaliza um estágio inicial de deterioração que pode evoluir para estados mais críticos, como Ruim ou Péssimo, caso não haja intervenção”.

Para o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, as concessões realizadas em 2025 foram decisivas para melhorar a qualidade das rodovias brasileiras. “Elas trouxeram investimentos em manutenção e modernização, aumentando a segurança e o conforto dos usuários. Esse modelo complementa os esforços do poder público e garante vias melhores para o desenvolvimento do país”, afirma.
Pavimento segue como principal fator de impacto operacional
O pavimento permanece como o elemento de maior influência sobre o desempenho das rodovias. Segundo a CNT, mais da metade da extensão avaliada apresenta condições que variam entre regular e péssima, com ocorrência de defeitos como trincamentos, afundamentos e perda de aderência superficial. Essas manifestações patológicas elevam o custo operacional do transporte, aumentam o consumo de combustível e reduzem a vida útil dos veículos.

A pesquisa estima que a má qualidade do pavimento gera um aumento médio de 31,2% no custo operacional do transporte rodoviário no Brasil, além de provocar desperdício superior a 1,2 bilhão de litros de diesel por ano, com impacto direto nas emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), dentre as estradas pavimentadas no Brasil, apenas 2 a 3% são pavimentadas em concreto. “Esta técnica já existe há mais de 100 anos. Aqui no Brasil, somente nos últimos 10 – 15 anos que ele passou a ser usado em maior volume”, afirma Dejalma Frasson Junior, gerente da Regional Sul da ABCP.
Cabe ressaltar que o pavimento de concreto se destaca pela alta durabilidade e menor intercorrências de utilização – quando projetado e executado de maneira correta – ao comparar com os demais sistemas de pavimentação, principalmente ao flexível. Dentre os principais benefícios, destacam-se:
- Vida útil significativamente maior que a do pavimento flexível;
- Redução de custos com manutenções;
- Diminuição das intervenções de manutenção, o que reduz congestionamentos e consumo de combustíveis;
- Maior conforto térmico;
- Desempenho técnico garante redução na distância de frenagem em até 40%, aumentando a segurança nas estradas;
- Reciclável ao fim da vida útil e aliado a processos como o coprocessamento de resíduos.
Pavimento de concreto se torna alternativa sustentável para rodovias
Deficiências em sinalização e geometria ampliam riscos
Além do pavimento, a pesquisa aponta problemas recorrentes na sinalização viária, especialmente em rodovias sob gestão pública direta. Trechos sem faixas centrais ou laterais, placas desgastadas e sinalização mal posicionada comprometem a segurança operacional, sobretudo em rodovias de pista simples.

Já a geometria das vias segue como um gargalo histórico. A predominância de pistas simples, curvas com raio inadequado, ausência de acostamentos e falta de dispositivos de segurança contribuem para a elevação dos índices de acidentes. Em 2025, a CNT identificou 2.146 pontos críticos na malha rodoviária nacional, muitos deles associados diretamente a deficiências geométricas.

Concessões apresentam melhor desempenho técnico
Assim como em edições anteriores, a Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostra que rodovias concedidas à iniciativa privada apresentam desempenho técnico superior, com melhores índices de conservação, sinalização e segurança viária. Atualmente, 30.130 km da malha avaliada estão sob concessão, o equivalente a 26,4% do total pesquisado, enquanto os trechos sob gestão pública concentram os piores indicadores.
Para a CNT, a complementaridade entre investimentos públicos e privados é fundamental para garantir previsibilidade, manutenção contínua e modernização da infraestrutura rodoviária.
Desempenho no Paraná

Crédito: Roberto Dziura Jr/AEN
No recorte estadual, o Paraná se destaca positivamente em relação à média nacional, mas ainda apresenta gargalos técnicos relevantes. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 avaliou 6.601 km no estado, correspondentes a 5,8% da extensão total analisada no país.
O estado geral das rodovias paranaenses mostra que 48,6% da malha foi classificada como ótima ou boa, enquanto 42,5% aparecem como regulares e apenas 8,9% como ruins ou péssimas, desempenho superior ao observado no cenário nacional.
O pavimento é um dos principais pontos fortes do estado: 50,2% da extensão avaliada apresenta condição ótima ou boa, reflexo de investimentos contínuos, especialmente em rodovias concedidas. Ainda assim, a elevada proporção de trechos classificados como regulares indica a necessidade de manutenção preventiva para evitar o avanço da degradação estrutural. Vale lembrar que, de acordo com o Governo do Estado, hoje são 755 quilômetros de rodovias com obras de pavimentação ou duplicação em concreto em diferentes fases de execução em todo o Paraná. O número representa um aumento de mais de 50% em apenas seis meses, no comparativo com os 500 quilômetros deste tipo de pavimento registrados em junho de 2025. O investimento total já é superior a R$ 3,3 bilhões.
Na sinalização, o Paraná também se destaca, com 70,6% da extensão classificada como ótima ou boa. Contudo, persistem falhas pontuais, como a ausência de faixa central em 2,9% dos trechos e de faixas laterais em 6,2%, fatores que impactam diretamente a segurança viária.
O principal desafio técnico no estado está relacionado à geometria das vias. Apenas 45,5% da extensão avaliada foi classificada como ótima ou boa, enquanto 27,8% aparecem como ruins ou péssimas. A predominância de pistas simples (77,2%) e a falta de acostamento em 44,9% dos trechos comprometem a fluidez do tráfego e elevam o risco de acidentes, sobretudo em corredores logísticos estratégicos.
Segundo a CNT, as condições do pavimento no Paraná geram um aumento médio de 24% no custo operacional do transporte, reforçando a importância de políticas contínuas de conservação, requalificação geométrica e ampliação de investimentos estruturantes.
Fontes
Vander Costa é presidente do Sistema Transporte.
Dejalma Frasson Junior é gerente da Regional Sul da ABCP.
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Novos edifícios terão normas para reduzir a sensação térmica
A construção civil brasileira passará por uma transformação gradual, porém estrutural, a partir de 2027. Uma nova resolução federal estabelece Índices Mínimos de Eficiência Energética para edificações, tornando obrigatória a adoção de critérios que reduzam o consumo de energia sem comprometer conforto, segurança e qualidade dos ambientes. As mudanças estão previstas na Resolução CGIEE nº 4, de 26 de setembro de 2025.
A medida atinge novos projetos de edificações públicas, comerciais e residenciais, com cronograma escalonado até 2040, permitindo adaptação de profissionais, empresas e gestores públicos. A proposta é alinhar o Brasil a padrões internacionais de eficiência, ao mesmo tempo em que promove economia de energia, conforto térmico e resiliência climática.
Atualmente, a construção civil conta com um sistema voluntário de classificação de eficiência energética, semelhante ao adotado para eletrodomésticos. Com esta nova resolução, essa classificação passará a ser obrigatória para novas edificações.
O que são os índices mínimos?
Os índices funcionam como padrões obrigatórios de desempenho energético, semelhantes aos já existentes para equipamentos como geladeiras e aparelhos de ar-condicionado. No caso das edificações, o objetivo é garantir que os projetos utilizem menos energia para oferecer o mesmo nível de conforto e funcionalidade.
Na prática, isso envolve desde soluções de projeto — como ventilação cruzada, iluminação natural e sombreamento — até a especificação de materiais e sistemas mais eficientes.

Crédito: Divulgação GT Building
Quem será obrigado a cumprir as regras
A obrigatoriedade entra em vigor em 2027, com novas construções de edifícios públicos federais, que deverão atingir desempenho equivalente ao nível A da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE), o mais eficiente da escala que varia de A a E. Para o Rio Grande do Sul, contudo, a implementação dessa exigência foi postergada para 2028, em virtude da situação de calamidade pública enfrentada recentemente pelo estado.
A partir de 2030, a exigência se estende a edifícios comerciais, residenciais e de habitação de interesse social (HIS) em cidades com mais de 100 mil habitantes. O cronograma segue até 2040, quando todas as novas edificações públicas, comerciais e residenciais em municípios com mais de 50 mil habitantes deverão atender aos índices mínimos.
Edificações privadas deverão alcançar, no mínimo, o nível C da ENCE, que, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), corresponde basicamente ao cumprimento de normas técnicas já vigentes. Projetos que atingirem nível A poderão receber o Selo Procel Edificações.
Habitação social também entra no radar
Um dos pontos centrais da regulamentação é a inclusão progressiva das Habitações de Interesse Social (HIS). A partir de 2030, moradias financiadas ou executadas com recursos públicos deverão incorporar critérios mínimos de eficiência energética, o que pode resultar em contas de luz mais baixas, melhor ventilação e maior conforto térmico, especialmente em regiões quentes e com infraestrutura precária.
Obras em andamento não serão afetadas
A regulamentação não terá efeito retroativo. Projetos já aprovados ou obras em andamento não precisarão se adequar às novas regras. As exigências valem apenas para novos projetos protocolados após a entrada em vigor da norma, garantindo uma transição planejada e sem impacto imediato sobre empreendimentos em execução.
Eficiência não exige grandes obras
Segundo o documento, não são necessárias intervenções complexas ou de alto custo para alcançar eficiência energética. Estratégias simples de projeto, como o correto posicionamento de janelas, o aproveitamento da iluminação natural, a ventilação cruzada e o sombreamento adequado de fachadas, são capazes de reduzir significativamente a necessidade de climatização artificial.
Em novos projetos, soluções estruturais — como materiais com maior resistência térmica, vidros eficientes e estratégias bioclimáticas adequadas à região — podem ser incorporadas de forma gradual.
Impacto econômico e ambiental
Além da redução do consumo energético, a regulamentação deve impulsionar a modernização da cadeia produtiva da construção civil, estimulando tecnologias inovadoras, sistemas construtivos mais eficientes e atualização de normas técnicas.
Estudos do MME indicam que, até 2030, atividades ligadas à eficiência energética podem gerar mais de 1,2 milhão de empregos diretos e indiretos, além de contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa, valorização imobiliária e atração de investimentos.
Exemplos de eficiência energética
No âmbito da administração pública, Alexandra Maciel, coordenadora do Grupo Técnico para Eficientização de Energia em Edificações do Ministério de Minas e Energia, compartilhou o exemplo do edifício do Ministério da Saúde – Bloco O da Esplanada.
“Este edifício é uma referência para toda a Esplanada, por ter passado pelo processo de etiquetagem e recebido a classificação A — o nível máximo de eficiência energética para edificações. Esse prédio reúne uma série de soluções adaptadas ao clima de Brasília, como estratégias de proteção contra a insolação, uso de películas de baixa emissividade e intervenções na reforma interna que ampliaram o aproveitamento da iluminação natural. Soma-se a isso um sistema de ar-condicionado eficiente, plantas livres que permitem ventilação cruzada quando o ar não está em uso e um sistema de iluminação elétrica de alto desempenho”, afirma Alexandra.
Em Curitiba (PR), o OÁS, empreendimento que está sendo executado com concreto da Concrebras, deve utilizar algumas estratégias de eficiência energética e já conquistou algumas certificações, incluindo GBC Condomínio, LEED, PBE Edifica e Fitwel. Uma destas estratégias é a fachada ventilada. De acordo com a construtora GT Building, ela é formada por camadas independentes. Uma estrutura de sustentação é ancorada à parede impermeabilizada da edificação, criando um espaço de ar entre o revestimento externo e a parede. Esse espaço permite uma ventilação natural contínua, conhecida como ‘efeito chaminé’, que reduz a absorção e a transferência de calor para o interior do edifício. A ventilação constante impede o acúmulo de calor e umidade entre as camadas, prolongando a vida útil dos materiais e evitando problemas comuns nas fachadas convencionais.
“Estudos realizados para o Oás comprovaram uma redução de até 5 °C nas temperaturas internas em comparação às fachadas convencionais — resultado alcançado de forma totalmente passiva, sem o uso de sistemas de climatização. Essa eficiência térmica pode representar economia de cerca de 30% no consumo de energia elétrica com ar-condicionado, especialmente nos períodos de mais calor”, destaca o diretor de operações da GT Building, Maurício Fassina.
Fontes
Maurício Fassina é diretor de operações da GT Building.
Alexandra Maciel, coordenadora do Grupo Técnico para Eficientização de Energia em Edificações do Ministério de Minas e Energia.
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Construção civil deve encerrar o ano com alta de 1,8% no PIB
Após um desempenho robusto em 2024, a construção civil apresentou perda de ritmo em 2025, embora tenha mantido crescimento. De acordo com estimativas do FGV Ibre com base em dados do IBGE, o PIB da construção deve encerrar o ano com alta de 1,8%, abaixo do avanço de 4,4% registrado no ano anterior, refletindo um ambiente mais desafiador, marcado por juros elevados, desaceleração do consumo das famílias e custos pressionados.
Segundo a economista Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o cenário já era esperado. “Em dezembro de 2024, nossa avaliação era de que 2025 seria um ano mais difícil, especialmente por conta do patamar elevado da taxa de juros, apesar de o setor ainda carregar os efeitos de um ciclo recente relativamente forte”, afirma.
Indicadores de atividade mostram resiliência
Mesmo com a desaceleração, alguns indicadores apontam resiliência da atividade. O consumo de cimento, considerado um dos principais termômetros do setor, cresceu 3,6% no acumulado do ano, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC). Em 12 meses, a alta foi de 3,2%, indicando continuidade das obras, especialmente na infraestrutura e no mercado habitacional popular.
Já a indústria e o comércio de materiais de construção apresentaram desempenho mais fraco. No acumulado do ano, a indústria registrou estabilidade, enquanto o comércio registrou leve retração, refletindo a redução das despesas das famílias com obras e reformas. Do total produzido pela indústria de materiais, 47% têm como destino direto o consumo das famílias, o que reforça o impacto da desaceleração desse segmento sobre a cadeia produtiva.
Emprego desacelera, mas segue acima da média da economia
No mercado de trabalho, o ritmo de contratações perdeu fôlego, mas permaneceu positivo. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, nos últimos 12 meses até outubro, o emprego formal no setor cresceu 2,84%.

Crédito: Envato
A escassez de mão de obra qualificada e a demanda insuficiente continuaram entre os principais entraves apontados pelas empresas. Até outubro, a construção civil empregava mais de 3 milhões de trabalhadores no Brasil, sendocerca de 365 mil no estado de São Paulo.
“A construção continua contratando mais do que demitindo, mesmo com a desaceleração observada ao longo do ano”, destaca Ana Maria Castelo.
Mercado imobiliário segue aquecido, com forte assimetria
O mercado imobiliário manteve crescimento em 2025, ainda que de forma desigual entre os segmentos. No acumulado de janeiro a outubro, dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) indicam alta de 8,4% nos lançamentos e de 5% nas vendas no mercado nacional.
Em São Paulo, o desempenho foi ainda mais expressivo. Segundo o Sindicato da Habitação, Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Estado de São Paulo (Secovi-SP), os lançamentos cresceram 41%, enquanto as vendas avançaram 10% na comparação anual, movimento impulsionado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
“O crescimento está concentrado nas duas pontas do mercado: o Minha Casa, Minha Vida e os imóveis de maior valor. O segmento intermediário segue mais pressionado pelas condições de crédito”, explica a economista.
Crédito recua fora do MCMV
O crédito imobiliário com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) apresentou retração significativa em 2025. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), as contratações para financiamento à construção caíram 48,9%, enquanto os financiamentos para aquisição recuaram 7,4%, resultando em uma redução total de 21,4% no ano.
Infraestrutura sustenta parte do crescimento
Na infraestrutura, por outro lado, as expectativas positivas se confirmaram. O Brasil deve encerrar 2025 com cerca de R$ 277 bilhões em investimentos, em valores nominais, o que representa um crescimento de 3,9%. O desempenho é sustentado pelo protagonismo do setor privado, impulsionado por concessões e leilões realizados nos últimos anos.
Custos seguem pressionados
A pressão de custos continuou elevada ao longo do ano, principalmente por conta da mão de obra. O INCC-M, calculado pela FGV Ibre, acumulou alta de 6,41% em 12 meses até novembro. Entre as capitais, São Paulo apresentou a maior variação, refletindo um mercado de trabalho mais aquecido e maior escassez de trabalhadores qualificados.
Confiança empresarial recua
Esse ambiente mais desafiador também se refletiu na confiança das empresas. A Sondagem da Construção do FGV Ibre aponta aumento das restrições relacionadas à mão de obra e aos custos, ao mesmo tempo em que o índice de confiança recuou ao longo de 2025. “As empresas encerram o ano mais cautelosas, embora os últimos dados indiquem uma leve melhora na margem”, conclui Ana Maria Castelo.
Fonte
Ana Maria Castelo é coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
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Tratamento de partículas finas de concreto com CO₂: a rota de mineralização que viabiliza o uso de materiais cimentícios de baixo carbono
A descarbonização da cadeia produtiva do cimento e do concreto configura-se como um dos maiores desafios da construção civil. Nesse cenário, pesquisas associam eficiência técnica, circularidade e captura permanente de carbono, vêm ganhando destaque. Entre elas, destaca-se o estudo desenvolvido por Kathleen Dall Bello de Souza Risson, engenheira e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Foz do Iguaçu, que investigou o tratamento de partículas finas de concreto com dióxido de carbono (CO₂), por meio de uma rota conhecida como mineralização ou carbonatação acelerada.
“Busquei entender como partículas muito finas, menores que 0,15 mm, provenientes da reciclagem de Resíduos da Construção e Demolição (RCD), poderiam capturar CO2 e, ao mesmo tempo, gerar materiais aptos a substituir parte do cimento”, explica Kathleen.
O trabalho analisou pós obtidos por moagem de corpos de prova de concreto e de RCD misto (resíduos cerâmicos e cimentícios), observando comportamento, desempenho e capacidade de fixação de CO2 em cada tipo de material.

Crédito: Acervo Pessoal
Como funciona a mineralização com CO2
O processo de carbonatação mineral consiste em um mecanismo físico-químico que transforma CO2 em carbonatos estáveis, a partir de sua reação com minerais contendo cálcio e magnésio.
Na pesquisa, essa técnica foi aplicada em uma câmara de carbonatação do tipo gás–sólido, no qual pós previamente umidificados foram submetidos a condições controladas de temperatura, concentração de CO2 e umidade. “Em condições otimizadas, o pó de concreto conseguiu capturar entre 10 e 13 kg de CO2 por tonelada em apenas 30 minutos, chegando a quase 30 kg por tonelada após 24 horas”, relata a pesquisadora.
Após o tratamento, os materiais foram secos e utilizados como materiais cimentícios suplementares (MCS). Os resultados mostraram-se expressivos: o pó mineralizado apresentou potencial para substituir até 25% do cimento convencional, mantendo níveis de resistência mecânica equivalentes aos de um cimento classe C32 aos 28 dias.
Sustentabilidade comprovada por indicadores ambientais
A rota estudada por Kathleen não apenas melhora a qualidade das partículas finas, como também reduz a pegada de carbono da construção civil. Para mensurar esse ganho ambiental, foi utilizado o Índice de Carbono (CI), obtido pela divisão entre o total das emissões de CO2, em (kg.CO2) gerado pela produção e transporte de todos os materiais usados na produção de 1 m³ de argamassa, e a resistência à compressão da argamassa obtida aos 28 dias. Ou seja: (IC kg.CO2/m³/MPa).

Crédito: Acervo Pessoal
Segundo a pesquisadora, “os pós carbonatados apresentaram um CI de 10,59 kg.CO2/m³/MPa, uma redução de 7% em relação ao pó não tratado e valor inferior ao observado para o cimento comercial CP II-F 32”. Esse resultado evidencia uma solução tecnicamente viável e ambientalmente competitiva, capaz de assegurar desempenho mecânico equivalente, reduzir a intensidade das emissões de carbono e promover o reaproveitamento de resíduos anteriormente tratados como passivos ambientais.
Impactos diretos e indiretos para a construção civil
A aplicação dessa tecnologia está alinhada aos principais roadmaps de descarbonização do setor, os quais convergem para estratégias integradas que combinam captura de carbono, redução do fator clínquer e substituição de matérias-primas convencionais. “Transformar resíduos em recursos, fixar CO2 de forma permanente e gerar um material com potencial real de mercado é um salto tecnológico significativo”, afirma Kathleen.
Além de aprimorar o desempenho ambiental das empresas, a mineralização cria oportunidades para o desenvolvimento de modelos de negócios baseados na economia circular, ao mesmo tempo em que pode contribuir para políticas públicas voltadas à circularidade e à inserção do setor da construção no mercado de carbono no Brasil.
No âmbito das aplicações práticas, o pó mineralizado apresenta potencial de utilização em produtos cimentícios sem função estrutural, tais como pavimento intertravado de concreto, revestimentos, bancos, guias e mobiliário urbano. “Para viabilizar a expansão industrial, será necessário integrar recicladoras, concreteiras e fabricantes de artefatos em novos arranjos produtivos”, destaca a pesquisadora.
Uma rota promissora para o futuro

Crédito: Acervo Pessoal
O estudo desenvolvido no Instituto Federal do Paraná (IFPR) e na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) demonstra que amineralização de CO2 em partículas finas de concreto é tecnicamente viável, ambientalmente vantajosa e estrategicamente alinhada às necessidades de um setor que busca soluções eficazes e de rápida implementação para mitigar emissões. “Já avançamos também em pesquisas com outros resíduos e agregados. Ampliar essa tecnologia é fundamental para fortalecer soluções sustentáveis dentro da cadeia do concreto”, afirma Kathleen.
Cada avanço nessa área contribui para aproximar o setor da construção civil de um modelo produtivo de menor intensidade de emissão, mais circular e tecnicamente mais eficiente, consolidando um percurso no qual inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental se integram de forma indissociável.
Entrevistada
Kathleen Dall Bello de Souza Risson é graduada em Engenharia Civil pela Faculdade Dinâmica das Cataratas (UDC), especialista em Gerenciamento e Execução de Obras (UDC) e em Docência da Educação Profissional e Tecnológica (IFPR), mestre em Engenharia de Edificações e Saneamento pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Energia e Sustentabilidade pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Atua como docente EBTT e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Foz do Iguaçu. Desenvolve pesquisas nas áreas de obtenção, processamento, caracterização e tratamento de resíduos para uso como material cimentício suplementar; mineralização de CO2 em resíduos sólidos como tecnologia para mitigação das emissões de carbono; e dosagem e performance de pavimentos em concreto permeável.
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Ana Carvalho
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Pavimentos permeáveis de concreto avançam no país como solução técnica para drenagem, sustentabilidade e mitigação climática
A adoção de pavimentos permeáveis de concreto vem ganhando relevância no setor da construção civil, especialmente em projetos voltados à drenagem urbana sustentável. Diferentemente dos revestimentos convencionais, esse sistema permite a infiltração da água por meio de uma matriz porosa cuidadosamente projetada, contribuindo para a redução de alagamentos, a diminuição do escoamento superficial e aproximação das cidades do conceito de “cidade esponja”.
Pesquisas conduzidas no Brasil têm aprofundado a compreensão dos mecanismos físicos e químicos que caracterizam esse tipo de pavimento. A engenheira e pesquisadora Kathleen Dall Bello de Souza Risson, do Instituto Federal do Paraná (IFPR), dedica-se ao tema desde 2017. Ao longo de sua investigação, avaliou desde procedimentos de moldagem em laboratório até o desempenho de pistas experimentais construídas em campo. “Minha pesquisa buscou relacionar as propriedades avaliadas em laboratório com aquelas obtidas a partir da extração de testemunhos dos pavimentos”, explica.
Estrutura, composição e parâmetros técnicos essenciais
O pavimento permeável é constituído por concreto de elevada porosidade, com vazios interconectados que normalmente variam entre 15% e 30%. Esses macroporos formam canais contínuos que permitem o escoamento de água, conferindo ao sistema elevada capacidade drenante. As dosagens são definidas em função do uso final do pavimento e podem envolver consumos de cimento entre 180 e 555 kg/m³, agregado graúdo entre 964 e 2000 kg/m³ e teores reduzidos ou até mesmo nulos de agregado miúdo. Relações água/cimento na faixa de 0,22 e 0,43 são comuns, assim como a utilização de aditivos plastificantes ou superplastificantes para a redução do teor de água usada, embora a pesquisa desenvolvida no IFPR tenha optado por não os utilizar.

Crédito: Redação Concrete Show Digital
O procedimento de moldagem também é determinante. No estudo conduzido por Kathleen, a mistura dos materiais foi padronizada em 5 minutos, e a moldagem dos corpos de prova foi realizada com 50 golpes do Martelo de Proctor de 2,5 kg, padronizando a energia de compactação, garantindo assim a equivalência e reprodutibilidade entre amostras. Os corpos de prova foram avaliados quanto à massa específica, porcentagem de vazios, permeabilidade e resistência à compressão. Em paralelo, foram realizados testes de carbonatação para mensurar a difusão de CO2 e sua conversão em carbonatos, um tema ainda incipiente, mas com grande potencial para o setor.
Permeabilidade e captura de CO2
Um dos diferenciais da pesquisa de Risson, é quantificar o CO2 fixado com a incorporação de agregados reciclados de Resíduos da Construção e Demolição (RCD) na produção do concreto permeável. O estudo avaliou substituições de 15%, 30% e 45% da brita basáltica por agregado reciclado do tipo misto, (aquele que pode conter fragmentos cerâmicos, de concreto e argamassa endurecidos, pedras naturais e pequenas frações de outros materiais minerais aderidos, como por exemplo os revestimentos), com dimensão máxima de 19 mm. Os resultados apontam ganhos importantes: “O uso de agregados reciclados favoreceu a difusibilidade de CO2 e intensificou a carbonatação do concreto permeável”, afirma Kathleen.
A incorporação de RCD resultou em melhora do desempenho hidráulico e manteve o atendimento aos requisitos mínimos da NBR 16416:2015, embora tenha provocado redução da resistência à compressão em cerca de 32% aos 28 dias. A pesquisa identificou taxas de área carbonatada que alcançaram 56,45% nas amostras com 45% de substituição, evidenciando maior penetração de CO2 e maior potencial de fixação. A caracterização foi feita com auxílio de indicador fenolftaleína, associada à análise digital por meio do software ImageJ.
Comparações com pavimentos tradicionais e desafios futuros
A principal distinção entre pavimentos permeáveis e convencionais é funcional. Enquanto o concreto tradicional impede a infiltração da água e direciona o escoamento para sistemas de drenagem, o pavimento permeável permite infiltração total ou parcial. Essa característica reduz a pressão sobre galerias pluviais e minimiza a ocorrência de enchentes. “A elevada porosidade implica resistências menores, sendo, portanto, mais indicado para áreas de tráfego leve e moderado, como estacionamentos, calçadas, ciclovias e praças”, observa a pesquisadora.
Além de favorecer a drenagem, os pavimentos permeáveis contribuem para modelos urbanos mais sustentáveis, auxiliando no controle de ilhas de calor e promovendo a economia circular ao reaproveitar resíduos como insumo. Apesar dos avanços significativos, a pesquisadora ressalta que ainda há carência de métricas padronizadas capazes de quantificar a captura de carbono por unidade. “Esse requisito é indispensável para subsidiar sistemas de créditos de carbono que exigem valores mensuráveis e verificáveis. Nesse contexto, o uso combinado de agregados reciclados e pavimentos de concreto permeável merece atenção do poder público, dado o potencial de integrar gestão de resíduos, drenagem urbana e mitigação climática em uma única solução”, pontua.
Tecnologia madura e caminho aberto para cidades resilientes
Os pavimentos permeáveis de concreto evoluíram de experimentos laboratoriais para aplicações reais, apoiados por pesquisas robustas e por normas técnicas específicas. Sua adoção amplia a capacidade de gestão da água, integra resíduos ao ciclo produtivo e oferece potencial adicional de mitigação climática, reunindo um conjunto raro de benefícios em um único sistema construtivo.
Com investimentos adequados em manutenção, regulamentação e mensuração de carbono, a tecnologia tende a se tornar um componente estratégico na infraestrutura das cidades brasileiras. Trata-se de uma solução capaz de unir engenharia, sustentabilidade e resiliência urbana frente aos novos desafios climáticos.
Entrevistada
Kathleen Dall Bello de Souza Risson é graduada em Engenharia Civil pela Faculdade Dinâmica das Cataratas (UDC), especialista em Gerenciamento e Execução de Obras (UDC) e em Docência da Educação Profissional e Tecnológica (IFPR), mestre em Engenharia de Edificações e Saneamento pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Energia e Sustentabilidade pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Atua como docente EBTT e pesquisadora no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Foz do Iguaçu. Desenvolve pesquisas nas áreas de obtenção, processamento, caracterização e tratamento de resíduos para uso como material cimentício suplementar; mineralização de CO2 em resíduos sólidos como tecnologia para mitigação das emissões de carbono; e dosagem e performance de pavimentos em concreto permeável.
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