Reforma Tributária: o que muda para 2026 e como a construção civil deve se preparar
A reforma tributária inicia em 2026 sua fase mais sensível para a construção civil. Embora a carga de impostos não mude imediatamente, o ano marca o começo da convivência entre dois sistemas, o atual e o futuro modelo de IVA dual (IBS + CBS). Isso vai exigir atenção redobrada, capacidade de adaptação e uma estratégia tributária personalizada por empreendimento.
Para o advogado Samuel Rangel de Miranda, fundador do Instituto Nacional de Direito e Empreendedorismo (INDE), a transformação não será simples. Segundo ele, a previsão é que a alíquota efetiva do IVA dual para incorporações seja de aproximadamente 14%. “Isso representa um salto relevante frente ao patamar atual de 4% do RET. O aumento da carga torna inevitável atualizar contratos e rever modelos de precificação, especialmente para projetos com horizonte de entrega mais longo”, prevê.
2026: o ano da preparação técnica e do duplo sistema
O próximo ano funcionará como uma espécie de ano-piloto. A partir de janeiro, as empresas deverão emitir notas fiscais com alíquotas-teste de 0,9% (CBS) e 0,1% (IBS), ainda sem recolhimento efetivo.
De acordo com Cesiro Aparecido da Cunha Junior, professor assistente no Curso de Ciências Contábeis da FAE Centro Universitário, 2026 é um ano de adequação operacional, com a coexistência de duas lógicas tributárias. Ele explica que as empresas terão de atualizar ERPs, treinar equipes contábil-fiscais e garantir que cada operação seja corretamente segregada entre o regime antigo e o novo.

Crédito: Envato
A complexidade aumenta com a necessidade de registrar, desde já, informações que permitirão o aproveitamento de créditos no futuro. “A nota fiscal passa a desempenhar um papel ainda mais estratégico na apuração dos tributos, e inconsistências podem gerar perdas financeiras a partir de 2027”, observa.
Leia mais: https://www.cimentoitambe.com.br/setor-imobiliario-ganha-guia-pratico-sobre-a-reforma-tributaria/
Janela de oportunidade para incorporadoras
A reforma cria, ao mesmo tempo, incentivos e cautelas. Projetos iniciados até 31 de dezembro de 2026 poderão aproveitar benefícios como o redutor de ajuste, mecanismo que permitirá deduzir, no futuro, o valor de aquisição do terreno da base tributável. Cunha avalia que isso pode gerar uma corrida por lançamentos no segundo semestre de 2026, já que “empreendimentos iniciados até essa data-limite travam condições fiscais mais favoráveis por vários anos”.
Paralelamente, há incorporadoras adotando postura mais conservadora. A incerteza sobre as alíquotas definitivas, a lógica de créditos e o impacto do split payment pode levar empresas a adiar projetos. “O setor vive duas forças opostas: a pressa em aproveitar benefícios e o receio de errar na precificação”, resume.
Split payment: o risco sobre o fluxo de caixa
A partir de 2027, o split payment mudará radicalmente o fluxo de recebimentos das construtoras. O imposto será automaticamente segregado e repassado ao governo no ato do pagamento. Isso vai eliminar o chamado float, aquele intervalo entre o recebimento do cliente e o recolhimento do tributo, que hoje funciona na prática como capital de giro.
Cunha alerta sobre esse processo. “Isso pode causar estrangulamento de caixa para construtoras com margens apertadas”. Ele recomenda que 2026 seja usado para recalibrar tesouraria, renegociar financiamentos e simular cenários de recebimento com e sem a retenção automática.
RET segue até 2028, mas perde vantagens
Com a reforma, o RET deixa de englobar todos os tributos e passa a abranger apenas IRPJ e CSLL, numa alíquota combinada de 1,92%. Já o IBS e a CBS incidirão separadamente, com carga estimada de 14% sobre o preço de venda dos imóveis.
Miranda explica que, durante a transição, empreendimentos iniciados até 2028 seguirão com condições similares ao RET atual, enquanto novos projetos, a partir de 2029, já entram integralmente no IVA. “A carga total estimada é de aproximadamente 15,92%, sem considerar ITBI, INSS e outros tributos”, assinala. Por isso, a recomendação técnica predominante é evitar a migração precoce ao novo modelo.
O desafio da precificação
Como lançar um imóvel em 2026 sem saber exatamente qual será a carga tributária aplicável no momento da entrega? Essa é uma das questões mais sensíveis para o setor.
Cunha destaca que projeções inconsistentes podem gerar perda de margem ou, no extremo oposto, preços altos demais para o mercado. “Departamentos de incorporação, comercial e financeiro precisarão trabalhar juntos para recalibrar premissas de custo e preço”, afirma. Além disso, recomenda-se inserir cláusulas contratuais de revisão tributária nos compromissos de compra e venda, evitando conflitos futuros.
Um setor sob teste
Com o ano de 2026 simbolizando o primeiro passo efetivo da transição, o setor da construção civil terá pouco espaço para improvisos. Testes de sistemas, auditorias internas, revisões contratuais e estudos detalhados de viabilidade passam a ser rotina obrigatória.
A mensagem dos especialistas converge: quem se organizar agora, enfrentará com mais segurança os anos de implementação plena. “O aumento da carga será inevitável; o que define competitividade é o planejamento”, define Miranda. A reforma tributária promete simplificar o sistema no longo prazo, mas, até lá, caberá às empresas navegar por uma década de transição complexa, em que antecipação estratégica e precisão técnica farão toda a diferença.
Entrevistados
Samuel Rangel de Miranda é advogado empresarial, bacharel em Direito pela Universidade Positivo, pós-graduado em Direito Processual Civil, especialista em Direito Empresarial e Imobiliário, com MasterMBA em Gestão Empresarial, e pós-graduando em Direito e Processo Tributário pela PUC-RS. É CEO da Rangel de Miranda Advocacia de Negócios e fundador do Instituto Nacional de Direito e Empreendedorismo (INDE).
Cesiro Aparecido da Cunha Junior é graduado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Paraná FPR com especialização, mas áreas de Controladoria, Gerencia Contábil e Gestão tributária, mestre e doutorando em Contabilidade pela mesma universidade. Atua como diretor da C&J Contabilidade e Consultoria, perito judicial e professor assistente no Curso de Ciências Contábeis da FAE Centro Universitário, atuando com as disciplinas de Inteligência Tributária e Contabilidade Gerencial.
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Conexão CBIC debate principais desafios do setor da construção
No dia 02 de dezembro, foi realizado o Conexão CBIC, evento realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Na ocasião, empresários, representantes do poder público e especialistas se reuniram para discutir temas estratégicos como sustentabilidade, habitação de interesse social, modelos de financiamento e o contexto político às vésperas das eleições do próximo ano.
Funding da Construção
Um dos painéis do evento Conexão CBIC foi “Funding da Construção – Oportunidades e estratégias financeiras”. Durante o evento, o presidente da CBIC, Renato Correia, destacou que o modelo de financiamento imobiliário estabelece um ambiente mais propício ao crescimento do setor, mas ponderou que ainda existem entraves que limitam o ritmo de implementação dos projetos.
“Se tivermos recursos, mas permanecermos com dificuldades nas aprovações, não avançaremos no ritmo necessário. É preciso harmonizar critérios e permitir soluções que aumentem a produtividade”, afirmou.
Entre os temas discutidos, destacou-se o novo modelo de crédito imobiliário, voltado à ampliação da oferta e ao acesso ao crédito habitacional. A alteração favorece sobretudo as operações enquadradas nas normas do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), direcionadas à classe média, com potencial para ampliar os investimentos na construção civil e impulsionar a geração de empregos.

Crédito: CBIC
O presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, destacou que o mercado já apresenta sinais positivos e que a atuação conjunta entre governo, instituições financeiras e a construção civil contribui para o fortalecimento da confiança. Segundo ele, a maturidade dessa parceria evidencia a solidez do setor e assegura maior estabilidade na oferta de crédito.
Ao final do painel, o vice-presidente da Área Imobiliária da CBIC, Ely Wertheim, ressaltou a relevância da revisão do SBPE, mas alertou para obstáculos que continuam limitando os investimentos. Para ele, é fundamental que as prefeituras avancem em modernização, já que a insegurança jurídica e a burocracia nos processos de aprovação retardam projetos e podem até comprometer a viabilidade dos empreendimentos.
Visão empresarial
Outro painel relevante no evento foi “O Poder da Visão Empresarial – Cases e estratégias de sucesso que transformam empresas no setor”. Nesta conversa, lideranças empresariais de diferentes segmentos discutiram como a estratégia, combinada à inovação e à capacidade de adaptação, vem transformando as maneiras de construir e de gerir negócios no Brasil.
O presidente da CBIC, que também participou deste painel, destacou a coincidência sem precedentes de desafios estruturais que atingem a construção civil, observando que a escassez de mão de obra qualificada extrapola o setor e se reflete em toda a economia. Ele também enfatizou as novas demandas ambientais e o aumento da responsabilidade das empresas na mitigação de impactos. Na sua avaliação, entender como os líderes empresariais vêm lidando com esse cenário de múltiplas pressões é essencial para direcionar os rumos futuros do setor.
Roberto Justus, CEO da SteelCorp, apresentou a experiência recente da sua empresa e a escolha estratégica de investir de forma consistente na construção industrializada. Ele apontou que, enquanto esse modelo já é adotado há décadas em países desenvolvidos, o Brasil ainda apresenta um baixo grau de industrialização. Para ele, industrializar significa incorporar eficiência, agilidade e tecnologia, uma mudança complexa, porém essencial para o futuro da construção.
Vinicius Benevides, sócio da Dimensional Engenharia, defendeu que inovação vai além da adoção de tecnologias e envolve uma postura ética, com compromisso ambiental e social, lembrando a revisão estratégica da Dimensional Engenharia como base para uma transformação consistente. O tema da qualificação também ganhou destaque com Gustavo Siqueira, vice-presidente de Public Affairs da Saint-Gobain, que alertou que a inovação só chega ao canteiro com formação profissional adequada e processos integrados, ressaltando a educação e a mudança cultural como pilares para a sustentabilidade.
Ao encerrar o encontro, Renato Correia destacou o protagonismo da sociedade civil organizada como motor de uma transformação institucional duradoura. Apesar das vantagens estratégicas do país, ele avaliou que o Brasil ainda entrega resultados abaixo de seu potencial e defendeu maior vigilância da sociedade sobre decisões e lideranças políticas, além da necessidade de avançar primeiro em áreas básicas — como educação, saúde, segurança, infraestrutura e eficiência do Estado — antes de buscar maior competitividade global.
Fontes
Renato Correia é presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Carlos Vieira é presidente da Caixa Econômica Federal.
Ely Wertheim é vice-presidente da Área Imobiliária da CBIC.
Roberto Justus é CEO da SteelCorp.
Vinicius Benevides é sócio da Dimensional Engenharia.
Gustavo Siqueira é vice-presidente de Public Affairs da Saint-Gobain.
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Setor de máquinas deve ter cenário estável para o próximo ano
O Estudo Sobratema do Mercado Brasileiro de Equipamentos, apresentado durante o 20ºevento Tendências no Mercado da Construção, mostrou que para 61% das construtoras, locadoras, empresas de serviços e dealers, o setor deve crescer em 2026. Esse percentual é um pouco maior para 2027 (63%).
Para 2026, o Estudo de Mercado da Sobratema projeta estabilidade: crescimento de 1% nas vendas de máquinas da linha amarela e leve queda de 1% no setor geral de equipamentos.
Resultados de 2025
Durante o evento, Mário Miranda, coordenador do Estudo de Mercado, apresentou dados que mostram uma queda na confiança das empresas compradoras — construtoras, locadoras e prestadoras de serviços — em relação ao desempenho até outubro de 2025. Segundo o levantamento, 68% afirmaram que 2025 deve ser igual ou melhor que 2024, percentual significativamente menor que os 90% registrados no ano anterior, uma retração de 22 pontos percentuais.
No que diz respeito ao desempenho real das empresas compradoras, 57% disseram ter alcançado o planejado ou superado expectativas, diante dos 71% observados em 2024.
Entre os dealers, 72% acreditam que o setor está estável ou em melhora, número levemente inferior ao índice de 76% registrado no ano passado. As expectativas para o final de 2025 também recuaram: 44% projetam um cenário igual ao de 2024 ou de crescimento menor, ante 65% no levantamento anterior.
“O que observamos foi uma pequena queda nas expectativas. Dealers e fabricantes esperavam um cenário um pouco mais favorável em relação às vendas”, afirmou Eurimilson Daniel, vice-presidente da Sobratema, que foi o moderador do Tendência no Mercado da Construção.
Apesar desse ajuste de expectativas, algumas empresas do setor têm registrado desempenho positivo. Para Lucas Novaes, diretor de Obras da Jofege Pavimentação e Construção, 2025 foi um ano produtivo para boa parte das empresas do estado de São Paulo: “Conseguimos comprar bastante equipamento e trabalhamos com muita locação. Foi um ano muito bom, e a tendência é que isso se mantenha no próximo ano.”
O ambiente financeiro segue como fator crítico. Com a Selic em 15%, uma das maiores da história recente, o acesso ao crédito permanece restrito. De acordo com Rafael Murrer, economista sênior do Banco Bradesco, “com juros tão altos, as instituições financeiras naturalmente ficam mais cautelosas. Além do encarecimento do crédito, há aumento do risco de inadimplência e de prazos. Isso reduz o ritmo das operações.”

Crédito: Caio Gomes
No mercado de seminovos, a percepção é de um ano positivo, mas abaixo do excepcional. Jonathan Pedro Butzke, head de Operações do Maquinalista, destacou que a procura se manteve aquecida, especialmente por retroescavadeiras: “Se a máquina tiver o preço adequado — independentemente do estado — ela vende. O mercado performou bem, embora não de forma extraordinária.”
Desafios e oportunidades
O cenário de 2025 apresenta três grandes desafios e três importantes oportunidades, segundo Miranda.
O primeiro desafio é o ambiente financeiro, marcado por juros elevados, crédito restrito, SELIC a 15% ao ano, inflação persistente e aumento do IOF — um conjunto de fatores que limitam a capacidade de investimento. O segundo envolve as incertezas econômicas e políticas, como baixa projeção de crescimento do PIB, mudanças no arcabouço fiscal e tributário e elevado gasto público. Já o terceiro desafio diz respeito aos riscos de mercado que afetam construção, mineração e setores correlatos: aumento de custos e insumos, riscos geopolíticos e climáticos, escassez de capital e falta de programas de incentivo.
Do lado das oportunidades, destaca-se primeiro o avanço do mercado de rental, impulsionado pela crescente demanda por máquinas e equipamentos, maior mecanização e investimentos privados em construção leve e pesada, agronegócio, mineração e óleo e gás. A segunda oportunidade é o aumento do volume de investimentos no país, com mais concessões de infraestrutura, ampliação das PPPs e adoção crescente de tecnologias e automação. A terceira é a ampliação dos programas governamentais, que tende a estimular o setor com financiamentos para construção, mineração e agregados, além da continuidade de obras e investimentos em urbanização, saneamento e abastecimento de água.
Tendências para 2026
Para o vice-presidente da Sobratema, o estudo indica um cenário estável para o próximo ano. “Lembrando que temos uma média de 34,7 mil máquinas comercializadas nos últimos cinco anos. Mas, no Brasil, sempre há espaço para surpresas, principalmente com o ritmo acelerado das obras de infraestrutura”, afirmou.
Na linha amarela, as categorias de maior volume — retroescavadeiras, escavadeiras hidráulicas e pás-carregadeiras — devem manter estabilidade em 2026. Juntas, representam cerca de 70% do mercado.
Segundo Denis Caetano, responsável pela estratégia comercial de tecnologias da Caterpillar para a América Latina, as retroescavadeiras continuam com demanda forte, mesmo com o avanço dos mini equipamentos. Para 2025, o estudo prevê que os mini equipamentos devem repetir os bons resultados do ano anterior, com destaque para as minicarregadeiras, cuja projeção indica alta de 21% nas vendas.
Miranda acrescenta que, desde 2021, o mercado de equipamentos vem apresentando crescimento sustentável, com média anual de 56 mil máquinas vendidas. “O setor ocupa um patamar muito bom, com espaço para crescer em infraestrutura, mineração, agronegócio, florestal e obras governamentais”, afirma.
Nesse contexto, Thomas Spana, gerente de Marketing da divisão de Construção da John Deere para a América Latina, lembrou que 2022 registrou um pico de vendas impulsionado pelo agronegócio aquecido, o que motivou forte renovação de frota. Segundo ele, algo semelhante pode ocorrer novamente, dependendo do ritmo dos investimentos públicos e privados:
“Existe sazonalidade, e precisamos considerá-la. Se houver novos investimentos do governo, o mercado pode acelerar.”
Fontes
Mário Miranda, coordenador do Estudo de Mercado da Sobratema.
Erimilson Daniel, vice-presidente da Sobratema.
Lucas Novaes, diretor de Obras da Jofege Pavimentação e Construção.
Rafael Murrer, economista sênior do Banco Bradesco.
Jonathan Pedro Butzke, head de Operações do Maquinalista.
Denis Caetano é responsável pela estratégia comercial de tecnologias da Caterpillar para a América Latina.
Thomas Spana, gerente de Marketing da divisão de Construção da John Deere para a América Latina.
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Abcic revela ganhadores do 14º Prêmio Obra do Ano em Pré-Fabricados
A Associação Brasileira da Construção (Abcic) divulgou os ganhadores da 14ª edição do Prêmio Obra do Ano em Pré-Fabricados de Concreto.
“O Prêmio Obra do Ano em Pré-fabricados de Concreto, promovido pela Abcic, é o retrato fidedigno do atual estágio do setor de pré-fabricados de concreto no país, pois há uma evolução contínua nos projetos inscritos, mostrando a evolução tecnológica e técnica empregada pelas indústrias para atender projetos estruturais complexos e o apelo estético arquitetônico, ao mesmo tempo, cumprindo cronogramas ousados, tendo previsibilidade de custos e contribuindo para que os empreendimentos obtenham certificações verdes, ou seja, levando um menor impacto ambiental da obra. O Comitê do Júri, responsável pela avaliação das obras inscritas, avaliou, de forma unânime, que o nível de excelência desta edição se destaca até mesmo em relação às demais edições”, comentou Íria Doniak, presidente executiva da Abcic.
Conheça os vencedores
Destaque do Júri do Prêmio Obra do Ano
A modernização do Estádio do Pacaembu recebeu o Destaque do Júri, reconhecendo a obra por sua complexidade e escala. Tombado e inaugurado em 1940, o estádio foi revitalizado em 2023 para atualizar suas instalações e ampliar seus usos, mantendo a geometria e a identidade original.
Destaque do Júri – Sustentabilidade
O Leben House Primeira Linha (Criciúma/SC) foi selecionado por evidenciar o potencial estético, técnico e comercial dos pré-fabricados de concreto em habitações populares e de médio padrão. O uso do sistema reduziu em mais de 70% o desperdício, a necessidade de madeira e a geração de entulho.
Categoria Edificações
O vencedor foi o Henkel Latam Inspiration Center (Jundiaí/SP), projetado com foco em sustentabilidade. A combinação de estrutura pré-fabricada em concreto e madeira engenheirada — feita com madeira certificada — deve capturar cerca de 500 toneladas de CO₂.

Crédito: Divulgação Abcic

Crédito: Divulgação Abcic

Crédito: Divulgação Abcic
Categoria Fachadas Pré-Fabricadas de Concreto
O Hotel Terroà (Americana/SP) venceu na categoria Fachadas Pré-Fabricadas de Concreto. Com 15.429 m², 52 m de altura e 13 pavimentos, o empreendimento utilizou 310 painéis arquitetônicos, que totalizam 4.781,8 m² de fachada e chegam a 9,69 m × 4 m, todos com 12 cm de espessura.
Prêmio Obra do Ano: Infraestrutura
O vencedor nesta categoria foi o Viaduto de Acesso à Rodovia Hélio Smidt, no km 219+900 da Dutra (Guarulhos/SP). A obra se destaca pelo uso de estruturas mistas, unindo pré-fabricados de concreto — que aceleraram a execução — ao sistema de balanço sucessivo, minimizando intervenções na rodovia.
Categoria Pequenas Obras
A MasterBlaster – Surreal, maior montanha-russa aquática do mundo e inaugurada em março de 2024 no Beach Park, venceu a categoria e também a Votação Popular. Com 28 m de altura e 340 m de percurso, alcança até 42 km/h em 77 segundos, movida pela tecnologia Master Blaster Fusion.

Crédito: Divulgação Abcic

Crédito: Divulgação Abcic

Crédito: Divulgação Abcic
Avanços tecnológicos dos premiados
Para Íria, o 14º Prêmio Obra do Ano em Pré-Fabricados de Concreto evidenciou as possibilidades de aplicação do pré-fabricado de concreto no país. “O Leben House Primeira Linha, por exemplo, é uma solução que pode, futuramente, ser replicada em todo o país. O Henkel Latam Inspiration Center e Dynamic Pinheiros demonstraram como o pré-fabricado de concreto pode ser utilizado em conjunto com outros sistemas industrializados, no caso, a madeira engenheirada e o sistema convencional moldado in loco. Há ainda a possibilidade do empreendimento ser totalmente pré-fabricado, como o edifício COI PPP11 e o Hotel Terroà. Os dois projetos e o Almirante Green Residences, evidenciam ainda o avanço da tecnologia em fachadas de painéis arquitetônicos. Tanto a implantação do Viaduto de Acesso à Rodovia Hélio Smidt quanto a do Viaduto Ramo 2000 apresentaram inovações para o setor de infraestrutura rodoviária. O MasterBlaster – Surreal, montanha-russa aquática no Beach Park, é um projeto singular para o setor. Para utilizar o pré-fabricado de concreto, a T&A precisou modelar em 3D todo o brinquedo, para visualizar e posicionar de forma precisa todos os elementos estruturais. Já a modernização do Pacaembu teve como grande destaque a criação de uma solução para produzir uma diversidade de vigas jacaré distintas”, afirma Íria.
Personalização de estruturas pré-fabricadas
Na opinião da presidente executiva da Abcic, o avanço tecnológico da indústria de pré-fabricados de concreto tem permitido a criação de soluções únicas para cada tipo de obra. “No caso da modernização do Pacaembu, a Cassol Pré-Fabricados precisou fabricar mais de uma centena de vigas jacaré completamente diferentes, para atender às características arquitetônicas do estádio, que foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), em 1998, devido ao seu estilo arquitetônico Art Déco. A solução adotada pela Cassol — com variação de altura ao longo da viga, mas com a identificação de um ponto fixo comum — permitiu a criação de uma forma metálica única, reutilizável e precisa, que proporcionou agilidade, economia e repetibilidade, sem comprometer o desempenho estrutural”, lembra Íria.
Pré-fabricados e sustentabilidade

Crédito: Divulgação Abcic
De acordo com Íria, a pré-fabricação está alinhada à sustentabilidade, por se tratar de um processo construtivo industrializado, oferece maior controle do desempenho ambiental. Entre os benefícios estão a redução do consumo de água, energia e materiais não renováveis, tanto na construção quanto na montagem em canteiro de obra, além da diminuição das emissões de CO2, do desperdício e da geração de resíduos e entulhos.
“Ou seja, é construir de uma maneira mais econômica, produtiva, durável, eficiente e que afete minimamente o ambiente, que não ofereça riscos aos operários e que resulte em uma quantidade mínima de resíduos”, afirma.
Em relação ao desperdício, a presidente executiva da Abcic aponta que o setor tem ampliado suas iniciativas nas áreas de gestão de resíduos sólidos e de reaproveitamento de materiais. “As indústrias a partir do projeto em 3D já usam scanner na produção e confrontam diretamente os elementos produzidos com o projeto, obtendo desvio zero, apesar de tolerâncias em milímetros serem permitidas por norma”, destaca.
Além disso, os avanços na tecnologia dos materiais, em especial dos concretos de alto desempenho e, em alguns casos, do UHPC já adotado pela indústria em situações específicas – apesar de seu custo mais elevado – permitem a utilização de volumes menores de concreto, o que impacta também em redução de emissões na etapa logística, pela diminuição do peso dos elementos tanto no transporte quanto na montagem, segundo Íria.
A digitalização é outro tema relevante para o setor. “O uso do BIM, integrado aos sistemas de ERPM e a softwares que possibilitam a identificação e rastreabilidade do produto, é outro fator fundamental que elimina o retrabalho e atua em consonância com os princípios de qualidade”, informa Íria.
Pré-fabricados e a sustentabilidade
Esta edição do prêmio concedeu ao Leben House Primeira Linha, situado em Criciúma/SC, o Destaque Sustentabilidade. “O edifício, composto por quatro pavimentos, conta com paredes de concreto pré-fabricadas autoportantes e lajes alveolares prolongadas. A adoção do sistema pré-fabricado reduziu o desperdício de materiais, o uso de madeira e de escoramentos, e a geração de entulho em mais de 70%. O controle fabril garantiu a rastreabilidade dos insumos e reduziu o impacto ambiental”, revela Íria.
Em relação ao impacto ambiental, o Henkel Latam Inspiration Center, vencedor na categoria Edificações, foi concebido com base em princípios sólidos de sustentabilidade. “O uso misto de estrutura industrializada em concreto pré-fabricado e madeira engenheirada, composta por camadas de madeira certificada de manejo responsável, tem a expectativa de capturar cerca de 500 toneladas de CO₂ da atmosfera. Também foram instalados mais de 400 painéis solares, garantindo energia 100% limpa no complexo, além de práticas de reutilização de água. O empreendimento foi projetado para obter as certificações LEED Gold e WELL Silver”, conclui Íria.
Fonte
Íria Doniak, presidente executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic).
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Durabilidade do concreto exige controle térmico rigoroso e formulações adequadas
A formação de etringita tardia, conhecida como DEF (Delayed Ettringite Formation), segue como um dos fenômenos mais estudados da patologia das estruturas de concreto. Seus efeitos podem comprometer a integridade e a vida útil das obras, especialmente quando não há controle adequado das temperaturas.
A durabilidade do concreto está diretamente associada ao controle da temperatura durante sua cura, especialmente em peças estruturais de grande volume. Embora a geração de calor seja inerente ao processo de hidratação do cimento, quando ultrapassa limites específicos, pode desencadear problemas graves, como a etringita tardia. Se a temperatura do concreto ultrapassa cerca de 65 °C, cria-se a condição ideal para a DEF, o que pode causar fissuras e comprometer a estrutura anos depois da obra.
Jorge Christófolli, gerente de Desenvolvimento Técnico da Cia de Cimento Itambé, afirma que concretos com potencial de desenvolver esse tipo de manifestação patológica recebem cuidados especiais desde a fase de formulação. “A empresa emprega modelos e algoritmos matemáticos para prever o comportamento térmico em elementos volumosos, garantindo que o pico de temperatura não exceda valores críticos. Se isso ocorrer, a estrutura pode sofrer expansões internas que comprometem sua integridade ao longo dos anos”, observa.
Em concretagens realizadas em clima quente, por exemplo, o risco se agrava porque o concreto em estado fresco já chega à obra em condições desfavoráveis, aumentando a possibilidade de fissuração e a perda de desempenho ao longo da vida útil. Nessas situações, medidas como resfriamento dos materiais e planejamento adequado são indispensáveis.

Crédito: Envato
As práticas adotadas pela Concrebras, empresa do grupo, incluem formulações que conciliam resistência mecânica, módulo de elasticidade e relação água/aglomerante com a necessidade de reduzir o calor de hidratação. “Quando essas medidas não são suficientes, a empresa adota técnicas complementares, como o uso de gelo ou nitrogênio líquido durante a mistura, diminuindo significativamente o pico térmico. Os equipamentos de monitoramento instalados na obra asseguram que os limites estabelecidos no projeto não sejam ultrapassados”, informa.
Christófolli cita que o planejamento logístico também é determinante, envolvendo desde a velocidade de descarga dos caminhões até a programação da concretagem em dias consecutivos, quando o volume de concreto supera a capacidade da central. Essa condição ocorre quando há concretagens de grandes volumes em centros urbanos e com restrição de horários de construção.
Para garantir a continuidade da peça estrutural sem a formação de juntas de concretagem, as camadas de interface entre o término de um dia e a retomada no dia seguinte devem ser estabilizadas, ou seja, o concreto recebe aditivos estabilizantes de pega, que mantêm o concreto no estado plástico na região de interface com o concreto subsequente. Essa condição permite que a união entre as camadas ocorra de maneia eficiente e homogênea.
Ele explica que a combinação entre uma formulação adequada — com o uso de adições especiais que reduzem o calor de hidratação —, controle térmico e o monitoramento, assegura a durabilidade das estruturas. Segundo ele, o sucesso de uma concretagem depende de uma preparação minuciosa. “Todas as medidas tomadas na fase de planejamento são fundamentais, porque garantem que a obra seja executada sem intercorrências e que a estrutura alcance o desempenho esperado, sem comprometer sua qualidade ao longo do tempo”, esclarece.
O especialista destaca que, sem esse cuidado, o risco de manifestações patológicas aumenta, especialmente quando a concretagem ocorre em condições climáticas adversas ou envolve grandes volumes de material.
Durabilidade como resultado de conhecimento técnico
A soma das estratégias aplicadas pela Concrebras evidencia que a durabilidade do concreto não depende apenas de sua resistência inicial, mas é alcançada por meio de engenharia avançada, controle térmico, monitoramento contínuo e cura adequada. “Instalamos equipamentos de monitoramento de temperatura para garantir que os limites térmicos não sejam ultrapassados. Esse controle é decisivo para assegurar desempenho e durabilidade”, afirma Christófolli.
A Concrebras faz uso integrado de adições especiais, como sílica ativa, metacaulim, gelo e nitrogênio, aliadas a análises que consideram todos os fatores intervenientes no comportamento térmico. “Esses materiais são fundamentais para reduzir o pico térmico durante o endurecimento do concreto, mas sua utilização exige precisão e estudos aprofundados”, reforça. Nas obras com alto volume de concreto, cálculos prévios do comportamento térmico são obrigatórios. A partir deles, a Concrebras determina ajustes necessários para manter a temperatura dentro dos limites.
Isso demonstra que o concreto não deve ser tratado como matéria-prima padronizada, mas como sistema técnico complexo, cuja durabilidade depende de decisões conscientes e controle rigoroso em cada etapa. O entendimento correto da DEF, da influência da temperatura e da necessidade de medidas preventivas transforma o concreto, não apenas em material de construção, mas em estrutura segura, durável e confiável.
Entrevistado
Jorge L. Christófolli é engenheiro civil graduado pela Faculdade de Engenharia São Paulo (FESP-SP), pós-graduado em Patologia das Construções pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em Engenharia da Construção Civil pela UFPR. Recebeu o Prêmio Epaminondas Melo do Amaral Filho do Ibracon pelo Desenvolvimento do CAD (Concreto de Alto Desempenho). Participou no desenvolvimento do concreto CAD 90 (Recorde de fck no Brasil) e em obras como o Yachthouse By Pininfarina, em Balneário Camboriú (SC), com 81 andares, e do MON (Museu Oscar Niemeyer), entre outras obras importantes. Atualmente, é gerente corporativo de Desenvolvimento Técnico da Cia. de Cimento Itambé.
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Tendência: a nova fronteira habitacional em que a IA aprende, antecipa e transforma a rotina dos moradores
As casas estão deixando de ser apenas espaços para morar e assumindo o papel de sistemas vivos, dinâmicos e capazes de aprender. A tendência agora é a consolidação dos lares generativos, constituídos por ambientes residenciais que utilizam inteligência artificial para observar comportamentos, compreender rotinas e antecipar necessidades. Inicia-se, assim, uma das transformações mais profundas já vistas no setor habitacional. Trata-se de um movimento que combina tecnologia, serviço e comportamento humano em uma nova arquitetura de viver.
De acordo com o especialista em ciência de dados Marcello Nicolielo, essa mudança inaugura um patamar inédito de autonomia doméstica. “A IA não é apenas um assistente que responde a comandos, mas passa a entender o padrão de vida das pessoas, aprendendo com interações e propondo soluções antes mesmo que o morador perceba o problema”, afirma. A lógica deixa de ser reativa e passa a ser preditiva, abrindo espaço para experiências personalizadas e sistemas que evoluem continuamente.
Uma casa que aprende: do comportamento aos micro-hábitos

Crédito: Antonio More
O lar adaptativo opera por meio de sensores, câmeras contextuais, sistemas de monitoramento e modelos avançados de IA capazes de mapear padrões diários. Desde o horário de acordar até o uso de eletrodomésticos, tudo se torna informação relevante para melhorar conforto, segurança e eficiência.
O conceito é descrito como um ecossistema que coleta dados em múltiplas camadas, incluindo informações ambientais, comportamentais e emocionais, para produzir respostas adaptativas. Esse conjunto é traduzido em ajustes automáticos de iluminação, climatização, segurança e até mesmo organização da rotina.
Nicolielo destaca que a personalização profunda será o grande diferencial. “A IA vai moldar a casa ao indivíduo, entendendo hábitos, preferências e gatilhos emocionais. Cada lar se tornará verdadeiramente único”, prevê.
Impacto no setor imobiliário
A adoção dos lares generativos cria uma nova oportunidade econômica, formada pelo mercado de dados residenciais. Para Nicolielo, trata-se de uma fronteira que amplia a relevância dos imóveis como ativos conectados. “As construtoras passam a entregar não apenas metragem, acabamento e área comum, mas um conjunto de serviços inteligentes que aumentam o valor percebido e geram novas receitas de longo prazo”.
Essa mudança conduz a um novo tipo de concorrência no setor, que inclui imóveis diferenciados não pelo material, mas pelo nível de inteligência embarcada. As residências passam a oferecer diagnósticos, automações personalizadas, atualizações contínuas e sistemas capazes de evoluir com o morador. A casa se torna uma plataforma e não apenas um produto. Além disso, a combinação entre IA, sensores e análise de dados geram estruturas de decisão mais eficientes, reduz desperdícios de energia e cria ambientes mais sustentáveis.

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Exemplo disso é a empresa SmartLy, que já soma mais de 19 mil dispositivos instalados em mais de 12 mil ambientes, combinando tecnologia, eficiência e sensibilidade para redefinir o significado de casa inteligente. São dispositivos como termostato inteligente, responsável pelo controle térmico, além de monitoramento de consumo e ajustes automáticos que criam um ciclo contínuo de eficiência e bem-estar. “Cada ambiente torna-se um reflexo da história de vida de quem o habita. A iluminação se adapta ao humor, o piso aquece nos momentos de recolhimento e o espaço reage à energia de cada instante. É o que transforma tecnologia em sensibilidade e faz do lar uma extensão da própria alma”, afirma o engenheiro e fundador da SmartLy, Euclides Ciruelos.
Da automação ao vínculo afetivo: a casa que se torna companhia
Um dos aspectos mais disruptivos desse movimento é o caráter relacional. De acordo com Nicolielo, a tendência aponta para lares que “irão conversar, orientar, lembrar, apoiar decisões e criar uma relação emocional com quem vive ali”. A casa deixa de ser cenário e se torna participante ativa da vida cotidiana.
O especialista afirma que essa conexão poderá reduzir estresse, aumentar o senso de segurança e apoiar pessoas com rotinas complexas. “A IA aprende o que é importante para cada indivíduo e atua como aliada diária. O lar se torna mais humano justamente por causa da tecnologia”, afirma.
Uma realidade mais próxima do que parece
Apesar de ainda em fase de adoção inicial, os indicadores dos materiais técnicos mostram que a tecnologia para lares adaptativos já existe e está evoluindo rapidamente. As plataformas de IA generativa, somadas à popularização de sensores acessíveis e à computação embarcada, colocam o conceito mais perto do mercado do que muitos imaginam.
Para o especialista, estamos apenas no início. “O lar com IA adaptativa será tão comum quanto hoje é a internet residencial. Em poucos anos, veremos casas que entendem e respondem ao morador em níveis jamais vistos”, vislumbra. A próxima revolução doméstica já começou e, ao que tudo indica, viver em casas que pensam, aprendem e cuidam está prestes a deixar de ser futuro para se tornar cotidiano.

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Entrevistados
Euclides Ciruelos é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), pós-graduado em Análise de Sistemas pela PUC-PR e Mestre em Sustentabilidade. Foi o engenheiro responsável técnico pela construção do primeiro edifício no mundo a receber a Certificação Leed Zero Water em 2019 e segundo edifício no Brasil a receber a Certificação Leed Platinum em 2017, ambos concedidos pela USGBC (United State Green Building Council). É atual desenvolvedor e visionário em Inovação Sustentável da tecnologia adotada pela SmartLy - Fabricação de Dispositivos Inteligentes.
Marcello Nicolielo é gestor de Tecnologia pela Universidade Anhembi Morumbi, MBA em Ciência de Dados e Inteligência Artificial pela FIAP, especialista em Expansão de Negócios com foco em Inovação tecnológica, Comunicação Estratégica e Inteligência Artificial. Reúne experiência em mais de dez anos em Economia Criativa e Cultura Digital e Propriedades Intelectuais. Reconhecido como um dos principais nomes em Inteligência Artificial aplicada a negócios, liderança e carreiras.
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euclides.ciruelos@gmail.com
marcello.nicolielo@cognitaai.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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Tendência: curadoria de imóveis redefine experiência de compra no mercado imobiliário para clientes de alto padrão
Antes ligada apenas ao universo das artes, a curadoria vem ganhando força no mercado imobiliário como uma resposta à oferta crescente de produtos e ao comportamento de um consumidor mais informado, exigente e sem tempo a perder. O conceito parte da ideia de que o imóvel deve ser tratado como uma peça única, selecionada com rigor técnico e sensibilidade, e não como mais um item exposto em vitrines digitais.
Essa abordagem vem obtendo destaque porque reduz o excesso de alternativas e conduz o comprador por um processo mais claro, qualificado e assertivo. Em vez de apresentar dezenas de unidades, o curador analisa o estilo de vida, a rotina, o momento de vida e os objetivos de quem busca um imóvel. O foco é orientar decisões e valorizar experiências, e é por isso que o modelo tem sido apontado como tendência no alto padrão e avança rapidamente em outros segmentos.
Precisão, arquitetura e escuta qualificada

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“A curadoria de imóveis reúne análise de mercado, leitura arquitetônica e entendimento profundo das necessidades do cliente”, explica Maria Eugenia Fornea, diretora de expansão da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi-PR). Ela destaca que essa atuação difere da corretagem tradicional porque não trabalha com volume, mas com precisão. “Enquanto a corretagem apresenta o conjunto geral de opções, a curadoria seleciona alternativas alinhadas à rotina, à qualidade espacial e aos objetivos do comprador.”
Segundo Maria Eugenia, o profissional especializado combina repertório arquitetônico com sensibilidade técnica, compreendendo iluminação, proporção, fluxo e impacto urbano. “É como um curador de arte: ele indica o que tem coerência com a pessoa, não o que apenas circula mais no mercado. Curadoria é diminuir ruído e ampliar compreensão”, afirma. Para o cliente, o resultado é mais segurança na decisão; para o investidor, produtos com maior estabilidade e valorização no tempo.
Personalização como diferencial competitivo
No segmento de alto padrão, a curadoria tornou-se indispensável, especialmente para um público que exige agilidade e assertividade. “O cliente não quer perder tempo. Ele quer dizer o que busca e recebe três opções que façam sentido e comprar”, explica Henry Fukner, sócio-fundador da Zireh Imóveis.
Ele relata casos que exemplificam essa mudança de comportamento. “Atendi um cliente que estava há oito meses procurando imóvel. Bastou uma conversa profunda, entendendo o seu momento de vida, para apresentar três opções. E uma delas era exatamente o que ele buscava. Esse é o valor da curadoria”, afirma.
Para Henry, o processo exige duas habilidades fundamentais: ouvir e dominar o mercado. “O comprador fala tudo o que quer e basta saber perguntar e ter escuta ativa. E é preciso ter repertório, conhecer produto, entender regiões, lançamentos e qualidade de projeto”, enumera.
Imóveis vistos como ‘obras de arte’
Fukner reforça a visão que orienta a empresa. “Sempre valorizamos o imóvel como uma obra de arte. Ele precisa ser apresentado com respeito, posicionado como prazer e conquista. Nosso mercado vende sonhos, e a curadoria nasceu com essa alma”.

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Além disso, o especialista aponta que o estudo profundo dos produtos é primordial para apresentar o imóvel certo para o cliente adequado. “Estudamos cada praça, cada legislação e cada parceiro. Curadoria é isso: preparo e aprofundamento”, diz.
A tecnologia também integra o processo, com uso de ferramentas de IA para análise de perfis e seleção de produtos, mas sempre como apoio ao profissional, nunca substituição da escuta humana.
Uma tendência que deve se consolidar
Para Fukner, o futuro do setor será dominado por quem souber se adaptar. “Quem oferecer atendimento personalizado e técnico vai dominar o mercado”, alerta. A curadoria de imóveis, portanto, deixa de ser apenas um diferencial e se consolida como uma evolução natural do mercado imobiliário, sendo mais seletivo, mais humano e mais orientado à experiência do cliente.
Entrevistados
Maria Eugenia Fornea é economista formada pela UFPR, engenheira civil pela PUCPR, especialista em Planejamento e Desenho de Cidades pela PUCPR e em Cidades Responsivas pelo Responsive Cities Institute. Mestranda em Gestão Urbana pela PUCPR, atua há mais de 15 anos no mercado imobiliário. É fundadora e atual CEO da incorporadora curitibana Weefor e do Instituto WF, e diretora de expansão da ADEMI-PR.
Henry Fukner é sócio-fundador da Zireh Imóveis.
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Jornalista responsável
Ana Carvalho
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COP30 destaca NET Zero do cimento e da habitação
Na COP30, realizada em Belém (PA), cidades foram destacadas como protagonistas da agenda climática global, com relatório da SB COP propondo transformação estrutural em energia, saneamento, mobilidade e habitação resiliente. A indústria do cimento, por sua vez, apresentou seu Roadmap Net Zero até 2050 com foco em eficiência, inovação e soluções baseadas na natureza. A Caixa também lançou a Coalizão pela Habitação Net Zero 2050 para descarbonizar a cadeia habitacional brasileira.
Confira os destaques e soluções propostas durante o evento:
Cidades Sustentáveis
Na COP30, as cidades — responsáveis por mais de 80% das emissões de CO₂, que concentram 57% da população mundial — foram destacadas como protagonistas da agenda climática. O grupo de trabalho Cidades Sustentáveis da SB COP apresentou relatório que propõe transformação estrutural em três áreas prioritárias: energia, saneamento e água; mobilidade urbana e logística; e habitação e infraestrutura resiliente.
O documento recomenda planejamento urbano baseado em dados, incentivo à construção sustentável, reformas de edifícios e uso de tecnologias verdes, além de zoneamento estratégico e soluções baseadas na natureza. A habitação adequada é apontada como essencial para justiça climática.
A metodologia classifica cidades em três arquétipos:
Grupo Azul: baixa maturidade e alta complexidade, foco em serviços básicos.
Grupo Amarelo: maturidade média, foco em eficiência e planejamento integrado.
Grupo Verde: alta maturidade e baixa complexidade, capazes de liderar inovação e economia circular.

Crédito: ABCP/SNIC
“Cada cidade tem um ritmo e um ponto de partida. As de baixa maturidade precisam primeiro garantir o básico, como saneamento, mobilidade e energia, antes de avançar em tecnologias de ponta. O desafio é oferecer caminhos graduais, mas contínuos, para todas. Precisamos de rotas diferenciadas que respeitem as condições locais e ampliem o impacto social das políticas públicas”, afirmou Nilson Sarti, vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção.
No relatório, o setor privado é visto como catalisador de investimentos sustentáveis e de empregos verdes, em parceria com governos e sociedade civil.
Indústria do cimento na COP30
Durante a COP30, foi apresentado o Roadmap Net Zero da Indústria do Cimento Brasileira, documento elaborado pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC).
“A indústria brasileira do cimento tem uma longa trajetória de atuação em responsabilidade ambiental, social e econômica. Pouco depois de implementarmos o Roadmap de mitigação do setor em 2019, renovamos nosso compromisso com a descarbonização, lançando nossa proposta de neutralização de emissões até 2050. O novo Roadmap tem como base todo o ciclo de vida da cadeia do cimento apoiado no desenvolvimento de combustíveis e matérias-primas alternativas, eficiência energética, captura, estocagem e uso de carbono, além de Soluções baseadas na Natureza (SbN). Todo esse mapa do caminho incorpora fortemente tecnologia e inovação, com ativa participação da academia, agências de fomento e os diversos integrantes da cadeia da construção”, destacou Paulo Camillo Penna, presidente ABCP/SNIC.
O roadmap organiza a descarbonização em quatro pilares:
1. Reduções Diretas (30% do esforço total)
Envolvem emissões dentro da fábrica:
- Clínquer - maior responsável por emissões (processo de calcinação).
- Ações-chave:
- Substituição de combustíveis fósseis por biomassa, resíduos urbanos (CDRU) e hidrogênio de baixa emissão.
- Modernização dos fornos e aumento da eficiência térmica.
- Redução do fator clínquer/cimento com aumento de adições, tais como: pozolanas, fíller calcário, escória, etc.
2. Reduções Indiretas (5%)
- Ligadas à energia elétrica.
- Meta: 100% eletricidade renovável até 2050.
- Ganhos via eficiência energética e cogeração (WHR).
3. Desmaterialização (19%)
- Construir com mais eficiência e melhorando desempenho.
- Duas frentes:
- Eficiência na produção do concreto (otimização de traços, redução de perdas no processo, uso de inteligência artificial).
- Eficiência na construção (restruturação no planejamento e execução de obras, otimizar projetos, industrialização).
- Tendência de migração do cimento ensacado para concreto industrializado.
4. Remoções e Compensações (46%)
Essenciais para neutralizar emissões residuais:
- Recarbonatação natural do concreto (7%).
- Soluções baseadas na natureza (SbN): reflorestamento, restauração.
- CCUS (captura, utilização e estocagem de carbono) — necessário em larga escala pós-2040.
- Metanização: contabilização das emissões de metano evitadas com uso de CDRU.
Além disso, o Roadmap também trouxe uma linha do tempo de transição para atingir o NetZero:
2020–2030 – Desenvolvimento
- Modernização e eficiência industrial.
- Ampliação do uso de combustíveis alternativos de baixa emissão.
- Cimentos com menor fator clínquer.
2030–2040 – Preparação para o Net Zero
- Desenvolvimento de soluções para hidrogênio.
- Marco legal para SbN, reconhecimento da recarbonatação.
- Projetos-piloto de CCUS.
- Avanço em desmaterialização e eficiência energética.
2040–2050 – Neutralidade
- Uso em larga escala de hidrogênio e CDRU.
- CCUS implementado industrialmente.
- Adoção de SbN respaldada por marcos regulatórios.
Coalizão Habitação Net Zero 2050

Crédito: Beatriz Lobo/Caixa
Durante a COP 30, a Caixa Econômica Federal lançou o programa Coalizão pela Habitação Net Zero 2050. O objetivo é descarbonizar a cadeia habitacional brasileira até 2050, em alinhamento com o Acordo de Paris, a Declaração de Chaillot e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
A Coalizão pela Habitação Net Zero 2050 promove a união entre governos, empresas, universidades e sociedade civil para desenvolver soluções de moradia sustentáveis e inclusivas. A iniciativa busca fortalecer políticas e práticas voltadas à neutralidade de carbono, inovação tecnológica, eficiência energética, habitação acessível e resiliência urbana, com base na cooperação multissetorial e na centralidade das pessoas.
A iniciativa se baseia em cinco pilares:
- Mobilização e Aplicação de Recursos
- Ecossistema de Habitação Sustentável
- Cidades Sustentáveis e Resilientes
- Suporte a Eventos Climáticos Extremos
- Transição Climática Justa
Parcerias público-privadas
Para Yolanda Tanikawa, engenheira civil, o evento não é apenas um marco diplomático, mas uma oportunidade histórica para repensar como planejamos, financiamos e executamos infraestrutura pública. “Diante disso, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) e as Concessões podem se tornar instrumentos capazes de transformar metas climáticas em resultados concretos, viabilizando investimentos sustentáveis e impulsionando a inovação no setor”, afirma.
Outra sugestão de Yolanda é a criação de mecanismos de incentivo para operadores e concessionárias que superem metas ambientais. “Modelos contratuais podem prever critérios de desempenho atrelados à eficiência energética, ao reuso de água ou à redução comprovada de emissões de carbono. Assim, a sustentabilidade deixa de ser um requisito burocrático e passa a ser um diferencial competitivo que estimula inovação e excelência operacional”, recomenda.
Yolanda ainda traz como exemplo a PPP realizada em São Paulo para construção de novas escolas públicas. “Ela incorporou requisitos de eficiência energética e materiais sustentáveis, evidenciando que é possível unir metas sociais e ambientais em um mesmo contrato. O mesmo se observa em projetos de iluminação pública, saneamento ambiental e gestão de resíduos, nos quais indicadores de sustentabilidade começam a influenciar diretamente os resultados e a remuneração dos parceiros privados”, opina.
Fontes
Yolanda Tanikawa é engenheira civil, especialista em PPPs e Concessões pela FESPSP - London School of Economics. Atua desde 2007 na Vizca Engenharia e Consultoria com foco em estruturação de projetos, modelagem e gerenciamento de empreendimentos públicos e privados.
Paulo Camillo Penna é presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC).
Nilson Sarti, vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CBIC.
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Marina Pastore – DRT 48378/SP
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Desabamentos em edificações: como prever riscos e garantir a segurança estrutural
Os desabamentos continuam entre as ocorrências mais graves da construção civil, gerando impactos humanos, ambientais e econômicos que podem se estender por décadas. Embora estruturas bem projetadas apresentem, em condições normais, um risco extremamente baixo de falhas, esse cenário se altera significativamente diante de uso inadequado, erros de execução ou ausência de manutenção adequada.
Segundo o engenheiro Gilberto Luiz, especialista em patologia de obras, os desabamentos podem ocorrer sempre que o limite de resistência se iguala às solicitações, situação que representa o ponto de ruptura de qualquer sistema estrutural.
O engenheiro Henrique Palumbo, por sua vez, aponta para os sinais de alerta que muitas vezes aparecem antes do colapso. Trincas, recalques diferenciais, fissuras e corrosão de armaduras são alguns dos indícios de que a estrutura já apresenta manifestações patológicas relevantes. “A sobrecarga indevida, como adição de pavimentos sem reforço ou remoção de elementos estruturais em reformas, pode levar ao aumento excessivo das solicitações e comprometer a estabilidade global”, alerta.

Crédito: Acervo Pessoal/Gilberto Luiz
As falhas de execução permanecem entre os fatores mais críticos, conforme destaca o engenheiro Gustavo Selig, CEO do Grupo Hestia. Ele reforça que nem mesmo um bom projeto é capaz de garantir segurança se a obra for mal executada, seja pelo uso de materiais inadequados, pela concretagem deficiente ou pela montagem incorreta das armaduras. “A falta de manutenção, somada a intervenções não acompanhadas por profissionais habilitados, completa o grupo de fatores que mais contribuem para desabamentos no Brasil”, aponta.
Como os riscos são calculados e controlados
A segurança estrutural é quantificada por métodos que buscam assegurar que as solicitações atuantes permaneçam sempre abaixo da capacidade resistente da estrutura. No Brasil, predomina o método determinístico, que estabelece margens de segurança por meio da majoração das cargas e da redução das resistências. “A segurança em projeto é alcançada a partir da administração prudente da diferença entre a resistência e a solicitação das estruturas, atendendo a critérios econômicos, sociais e culturais”, afirma Gilberto Luiz.
Há também metodologias mais recentes, como a análise probabilística, empregada em avaliações avançadas de confiabilidade. Selig observa que esse método representa o futuro, pois “permite uma avaliação mais precisa da probabilidade de falha, resultando em estruturas mais seguras e ao mesmo tempo mais econômicas”.
A etapa de projeto é determinante para o desempenho estrutural. Palumbo explica que é nesse momento que são definidos o sistema estrutural, a modelagem, o dimensionamento e o detalhamento de todos os elementos. Ele ressalta que a concepção preliminar envolve sondagem, definição das cargas atuantes e compatibilização com as demais áreas, além da emissão da ART que formaliza a responsabilidade técnica. Já na execução, o controle rigoroso da obra e o recebimento adequado de materiais garantem a conformidade com o projeto.
Para o engenheiro Sady Ivo Pezzi Júnior, especialista em gestão, engenharia e estratégia, os desabamentos são sempre resultado de uma cadeia de fatores que se acumulam ao longo do tempo. Ele reforça que a cultura da prevenção ainda precisa amadurecer no setor. “Os riscos de desabamento estão diretamente ligados ao não cumprimento dos projetos, às falhas de execução, ao uso de materiais fora das especificações e à ausência de manutenção periódica. São eventos evitáveis, desde que haja responsabilidade técnica em todas as fases, do estudo de solo à entrega da obra e manutenção ao longo dos anos”, informa.
No uso e operação, as inspeções periódicas são fundamentais. Palumbo recomenda intervalos de cinco anos para avaliações técnicas completas. Gilberto Luiz completa que o respeito ao manual do proprietário, às diretrizes da NBR 5674 e aos laudos necessários em reformas evita problemas cumulativos que, se ignorados, podem evoluir para colapso.
Normas, prevenção e os impactos de um colapso
As normas técnicas brasileiras desempenham papel fundamental na prevenção de desabamentos. Entre as principais referências estão a NBR 6118 para estruturas de concreto, a NBR 8800 para estruturas de aço e mistas, a NBR 7190 para estruturas de madeira e a NBR 6120 para cargas variáveis. Complementarmente, a NBR 8681 define critérios gerais de segurança, enquanto a NBR 15575 estabelece requisitos mínimo de desempenho das edificações habitacionais. São documentos que, quando seguidos rigorosamente, asseguram que a obra receba o tratamento técnico adequado desde a concepção até a manutenção. “Erros de projeto, embora menos frequentes devido ao avanço das normas técnicas e ao rigor dos profissionais envolvidos, ainda constituem uma ameaça potencial à segurança das construções. Equívocos na etapa de dimensionamento ou na consideração das cargas atuantes podem resultar em estruturas vulneráveis ao colapso”, informa Palumbo.
Os prejuízos decorrentes de um colapso estrutural atingem proporções amplas. Selig destaca que os impactos humanos são sempre os mais graves, com mortos, feridos e perdas emocionais profundas. Os danos financeiros também são expressivos. “Em 2023, o Brasil gastou mais de R$ 260 milhões apenas com prejuízos relacionados a desabamentos, sem considerar perdas indiretas como interdições, ações judiciais e desvalorização imobiliária”, avalia. Há também efeitos sobre a reputação de construtoras, profissionais e até de órgãos fiscalizadores.
Para Gilberto Luiz, um desabamento envolve prejuízos que podem incluir perdas de vidas, danos ambientais, financeiros e a perda de credibilidade dos construtores. Os especialistas concordam que a maior parte desses eventos poderia ser evitada com planejamento adequado, execução responsável e manutenção contínua.

Crédito: Envato
Mais do que um problema técnico, o desabamento é um alerta sistêmico que reforça a necessidade de rigor, transparência e compromisso em todas as etapas da construção civil. Quando cada fase é conduzida com responsabilidade, os riscos são reduzidos e a segurança dos usuários é efetivamente preservada.
Entrevistados
Henrique Augusto Palumbo é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Georreferenciamento (UFPR), Engenharia Ambiental (UFAM), Engenharia de Segurança de Barragens (IDD), associado ao Comitê Brasileiro de Barragens.
Gustavo Selig é graduado em Engenharia Civil pela PUC-PR, mestre em Administração de Empresas e Negócios pela FGV-PR. Cofundador e presidente do Grupo Hestia, atuando há mais de 30 anos no mercado imobiliário paranaense.
Gilberto Luiz é graduado em Engenharia Civil pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), especialista em Patologia nas Obras Civis e Engenharia de Estruturas, diretor técnico da empresa Ad Fiducia Avaliações e Perícias de Engenharia, professor de cursos de pós-graduação e extensão na área de ensaios tecnológicos, inspeção de estruturas e perícias de engenharia, membro do Instituto Catarinense de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape/SC).
Sady Ivo Pezzi Júnior é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduação em Qualidade pelo Tecpar e MBA em Gestão de Marketing pela FAE. Reúne vasta experiência e especialização em áreas de negócios, comercial, marketing, finanças e estratégia. Atualmente, é Head Comercial e Marketing na Geplan Gerenciamento, professor e orientador de Pós-graduação em diversas universidades (PUC-PR, POSITIVO, UNINTER, ESIC, EBS, entre outras).
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henriqueapalumbo@gmail.com
gustavo.selig@grupohestia.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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Túnel Santos-Guarujá: como fazer a impermeabilização e proteção do concreto?
Em novembro, o Governo de São Paulo homologou e adjudicou a PPP do Túnel Imerso Santos–Guarujá, confirmando a Mota-Engil Latam Portugal S.A. como vencedora da licitação e encerrando o processo. Avaliado em R$ 6,8 bilhões — com R$ 5,1 bilhões de aportes públicos —, o projeto prevê a construção de um túnel de 870 metros sob o canal portuário, com três faixas por sentido, passagem para pedestres e ciclistas e galeria técnica. O contrato de 30 anos inclui também a operação e manutenção da infraestrutura.
Fase atual
A Cetesb emitiu a licença ambiental prévia, confirmando a viabilidade do túnel e permitindo o avanço do projeto, mediante cumprimento de condicionantes ambientais. A próxima etapa será a definição da área da doca de fabricação dos módulos de concreto, cuja produção deve iniciar em 2027. A montagem do túnel está prevista para 2030, com conclusão da obra e início da operação em 2031.
Uso de concreto
O túnel Santos/Guarujá será construído com o método de construção por módulos pré-moldados. De acordo com o Governo Federal, serão produzidos seis módulos de concreto armado em uma doca seca, que depois serão deslocados por flutuação até o canal e submersos no leito portuário. Cada módulo será equipado com câmaras de ar para o transporte e, posteriormente, instalado a 21 metros de profundidade com o apoio de sistemas hidráulicos. Todo o processo de imersão é acompanhado por sensores eletrônicos e demanda rigor absoluto de estanqueidade desde a etapa de fabricação.

Crédito: Governo de SP
Tecnologia avançada de impermeabilização e proteção do concreto
Devido à sua dimensão, o projeto envolve desafios técnicos ligados à impermeabilização e à proteção do concreto em um ambiente marítimo. O local de instalação do túnel está classificado como Classe IV de agressividade ambiental, segundo a NBR 6118:2014 — um nível que indica elevado potencial de deterioração por ação de cloretos e sulfatos. A exposição contínua à água do mar tende a acelerar a degradação do concreto e a corrosão das armaduras de aço, o que pode comprometer a durabilidade e o desempenho estrutural da obra ao longo dos anos.
“As estruturas que têm contato direto com o ambiente marinho estão entre as mais suscetíveis à deterioração por ataque de cloretos e sulfatos. Por isso, em projetos de túneis imersos, é indispensável pensar também na impermeabilização e proteção química das estruturas no longo prazo, já que as intervenções de manutenção e reparos podem ser mais difíceis, além da necessidade de interromper a operação do túnel para realizá-las. Por isso, utilizar uma tecnologia capaz de tornar a estrutura estanque e, ao mesmo tempo, garantir a autocicatrização de fissuras passivas de até 0,5 mm é fundamental”, explica Cláudio Ourives, engenheiro e CEO da Penetron Brasil.
O engenheiro afirma que, neste caso, a propriedade autocicatrizante, adicionada por aditivo, no momento da construção dos módulos pré-moldados, oferece permeabilidade zero da estrutura e ainda melhora o desempenho da estanqueidade ao longo dos anos. “Ou seja, a impermeabilização da estrutura se torna cada vez melhor, em vez de diminuir com o passar do tempo, como ocorre com as soluções impermeabilizantes convencionais”, expõe Ourives.
Para o engenheiro, a solução ideal deve ser um aditivo para impermeabilização por cristalização integral autocicatrizante, adicionado diretamente ao concreto durante a produção nas docas secas. “O sistema funciona a partir de compostos químicos ativos que reagem com a umidade do concreto fresco e com os produtos da hidratação do cimento, formando uma estrutura cristalina insolúvel nos poros e capilares. Essa cristalização torna o concreto permanentemente selado contra a penetração de água e outros líquidos, mantendo-se ativa durante toda a vida útil da estrutura”, conclui.
Fonte
Cláudio Ourives é engenheiro e CEO da Penetron Brasil.
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