Engenheiro precisa aprender a dizer não

Nem todos os projetos devem ser encampados pelos profissionais, ensinam Jorge Batlouni Neto e Roberto Bernasconi. Para eles, qualidade da obra é fator determinante

Por: Altair Santos

Os engenheiros civis José Roberto Bernasconi, presidente do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) de São Paulo-SP, e Jorge Batlouni Neto, coordenador do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Construção) acompanharam em setembro de 2012 uma missão técnica brasileira que visitou diversas construções na Alemanha. O objetivo foi verificar como o principal país europeu conseguiu fazer o setor da construção civil investir em qualidade, eliminando o desperdício e o retrabalho durante as várias fases de uma obra. A conclusão foi que, para chegar aonde chegou, a Alemanha teve uma participação decisiva de seus engenheiros. Mobilizados, os profissionais aprenderam a dizer não para projetos não comprometidos com produtividade e sustentabilidade.

Jorge Batlouni Neto: tudo que é planejado na engenharia dá certo.

Para Bernasconi e Batlouni Neto, é hora da categoria fazer o mesmo no Brasil. "O contratante precisa saber que tudo que é planejado na engenharia dá certo. Só que isso requer projetos bem consolidados, simples e com remuneração justa. A Alemanha nos deu essa lição, mostrando que eles estão focados em estruturas que combinam economicidade e segurança. Eles chegaram ao ponto de produzir concreto e aço com preço 50% mais barato que no Brasil. Além disso, a mão de obra deles hoje está em 8 a 9 homens/hora por m³ de concreto consumido em obra. No Brasil, até 1995, esse valor era de 72 homens/hora e atualmente foi reduzido para 17 homens/hora, o que ainda é muito alto. Houve uma evolução significativa no país, de 2007 para cá, mas o Custo Brasil ainda nos impõe projetos de risco. É para isso que temos que aprender a dizer não", afirma Jorge Batlouni Neto.

O presidente do Sinaenco avalia que trata-se de uma questão cultural entre o que acontece na Alemanha e no Brasil. "A engenharia é o instrumento de crescimento e o engenheiro é o operador desse crescimento. Então, lá na Alemanha, todas as etapas de uma licitação têm engenheiros envolvidos, sobretudo nas obras públicas. Aqui, isso não ocorre. Prevalece uma única tese: licitação no menor prazo e com menor preço. É uma realidade cruel que deve piorar com a lei 8.666, que institui o Regime Diferenciado de Contratação (RDC). Isso está possibilitando algumas aberrações, como licitações serem vencidas com desconto de 47% no orçamento. Só há uma certeza nesta prática: o serviço não será de qualidade. Para isso, o engenheiro precisa aprender a dizer não", alerta Roberto Bernasconi.

Roberto Bernasconi: sem engenharia não se faz desenvolvimento com qualidade.

No 15º Enece (Encontro Nacional de Engenharia e Consultoria Estrutural) que ocorreu em outubro, em São Paulo, Bernasconi e Batlouni participaram de uma mesa redonda em que expuseram um exemplo clássico de obra licitada pelo menor preço, que gerou uma construção de má qualidade e que compromete a credibilidade da engenharia. "Na Transposição do rio São Francisco, em um dos 14 lotes, num trecho de dez quilômetros, existe apenas dois furos de sondagem, ou seja, houve um total desrespeito com a engenharia", reclama Bernasconi. Os furos de sondagens são regulamentados pela norma técnica NBR 6484. Ela define o número de furos de sondagem de acordo com a área de projeção da edificação e do padrão do solo.

Uma proposta colocada por Bernasconi é que CONFEA/Crea e CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) criem códigos de ética que disciplinem a participação de construtoras em licitações, regulando preço mínimo e prazo para a apresentação de projetos consistentes. "O ganho pela economia deve ter restrições, tanto na área pública quanto no setor privado. Hoje há muita gente vendendo soluções mágicas e desrespeitando os critérios de engenharia, que são muito sérios. Não é à toa que tem se visto muitos casos de patologias em obras. Nestes casos, é melhor dizer não que entrar numa aventura", finaliza o presidente do Sinaenco.

Entrevistados
José Roberto Bernasconi, presidente do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) de São Paulo-SP, e Jorge Batlouni Neto, coordenador do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Construção)
Currículos
- Jorge Batlouni Neto é graduado e pós-graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP e mestre em engenharia pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo)
- É diretor-técnico da Tecnum & Corporate Empreendimentos Imobiliários, além de professor de tecnologia na gestão da produção de edifício do MBA da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
- Também atua como coordenador do grupo de estruturas do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP, além de ocupar o cargo de assessor da presidência do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto)
- José Roberto Bernasconi é graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e advogado pela Faculdade de Direito pela Universidade Paulista de São Paulo
- Foi professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, no Departamento de Estruturas e Fundações (1970 a 1975) das disciplinas construções de concreto e, posteriormente, pontes e grandes Estruturas
- Preside o Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) de São Paulo-SP
Contatos: jbn@tecnum.com.br / sinaenco@sinaenco.com.br
Créditos fotos: Divulgação / Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Demanda aquece área da construção civil voltada aos hotéis

Até 2016, por conta dos eventos Copa do Mundo e Olimpíadas, Brasil deverá ganhar mais 396 novos empreendimentos. Industrialização impulsiona setor

Por: Altair Santos

Das 27 unidades federativas do Brasil - incluindo o Distrito Federal -, apenas o Piauí não está construindo novos hotéis. No país, há 396 projetos com esse perfil, segundo a ferramenta de pesquisa e-Construmarket. Somente na região sudeste, existem 187 obras em fase de execução ou em estudo de viabilidade econômica. Outras 100 localizam-se no Nordeste, 55 no Sul, 37 no Centro-Oeste e 17 no Norte. Por conta dos eventos Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas 2016, o mercado hoteleiro é o segundo mais aquecido no país - perdendo apenas para o habitacional -, porém com as construções mais aceleradas. Isso se deve ao maciço investimento do setor em processos industriais.

Caio Calfat: Secovi-SP desenvolveu manual de melhores práticas para construção de hotéis.

Alvenaria estrutural, construções em pré-fabricado e tilt-up - sistema que utiliza painéis pré-moldados em concreto - estão entre as modalidades construtivas que têm ajudado a impulsionar as obras de hotéis no Brasil. "São tecnologias que aceleram as obras, uma vez que o hotel precisa estar pronto o mais rápido possível e quanto mais industrializada a construção, melhor", avaliza Caio Sérgio Calfat Jacob, especialista em real estate consulting. Por conta desta celeridade, o investimento em hotel é o que mais tem dado rentabilidade aos fundos imobiliários em 2012. O retorno é de 56%, contra 42% de quem investe em escritórios e 20% dos recursos aplicados em shopping centers e lojas.

Boa parte dos investimentos no setor concentra-se nos chamados hotéis econômicos. No Brasil, o preço das diárias neste segmento subiu 20% e a ocupação cresceu 12%. "Eles predominam, por que são a base da pirâmide. São os modelos de hotéis que mais se precisa construir no Brasil", destaca Caio Sérgio Calfat Jacob. Trata-se também da modalidade que mais tem investido em processos industriais de construção e acabamento. Como exemplo, os hotéis econômicos utilizam paredes em dry-wall e os banheiros prontos pré-fabricados. São inovações que antecipam a entrega em até um semestre. "Conseguimos reduzir o tempo por volta de seis meses, ou seja, o que daria para fazer em um ano e seis meses hoje dá para fazer em um ano", comenta o especialista em real estate consulting.

Hotel construído no sistema Tilt-up: sistemas industriais hoje permitem economia de seis meses nas obras.

Caio Sérgio Calfat Jacob avalia que esses novos hotéis em construção no Brasil passarão pelo seu grande teste, sob o ponto de vista de viabilidade econômica, depois da Copa e das Olimpíadas. "Se eles não forem bem planejados, podem ficar ociosos. Por isso, o Secovi-SP desenvolveu um manual de melhores práticas para a construção de hotéis. Nenhum empreendimento neste setor deve ser iniciado sem antes ser realizado um estudo de mercado de viabilidade econômica-financeira. Nossa recomendação é que não sejam construídos hotéis apenas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem que haver planejamento para que o investimento traga retorno não apenas por um mês, mas por vários anos", alerta.
Entrevistado
Caio Sérgio Calfat Jacob, especialista em real estate consulting
Currículo
- Caio Sérgio Calfat Jacob é graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP e diretor-geral da Caio Calfat Real Estate Consulting – empresa de consultoria imobiliária que atua em planejamento e desenvolvimento de empreendimentos imobiliários desde outubro de 1996
- É vice-presidente de assuntos turístico-imobiliários do Secovi-SP (Sindicato da Habitação de São Paulo) para o mandato 2012-2014
- É fundador, ex-presidente e membro do conselho deliberativo vitalício da LARES (Latin American Real Estate Society)
- É professor de análise de projetos de hotéis e resorts, do MBA Real Estate promovido pela FUPAM-USP, na FAU-USP
- É professor de planejamento de empreendimentos hoteleiros, do curso de especialização em gerenciamento de empreendimentos na construção civil, na FAU-Mackenzie, de São Paulo
Contato: caio@caiocalfat.com /  www.caiocalfat.com / www.lares.org.br
Créditos fotos: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Internet democratiza ações de marketing imobiliário

Meio digital potencializa resultados, muda relação com o cliente e permite que pequenas e médias construtoras sejam tão competitivas quanto as grandes

Por: Altair Santos

Atualmente, há uma certeza no mercado imobiliário brasileiro. Não se sobrevive sem investimento em marketing. Das gigantes, às médias e pequenas empresas do setor, todas buscam ações para atingir o consumidor. A internet é, seguramente, o canal mais usado para propagar mecanismos de divulgação, venda e convencimento de clientes. Segundo a publicitária Mariana Ferronato, a mídia eletrônica democratizou o marketing imobiliário. "Hoje, praticamente todas as empresas e profissionais do mercado possuem condições de divulgar seus imóveis online, não necessitando de altos investimentos como outras mídias, que ainda por cima não permitem a mensuração e controle dos resultados. A internet possibilita o controle total do investimento, gerando ações mais inteligentes. Por isso, digo que a internet democratizou o marketing imobiliário", avalia.

Mariana Ferronato: marketing influencia da escolha do terreno à entrega do empreendimento.

As ferramentas de marketing tornaram-se tão fundamentais que passaram a influenciar o empreendimento em todas as suas fases. "As ações envolvem desde a escolha do terreno até a entrega da obra. Especificamente sobre o projeto, o marketing imobiliário, acompanhado de pesquisas de demanda, define o produto projetado através de dados sobre o público-alvo e dos empreendimentos concorrentes no entorno", explica a especialista, lembrando que esses estudos servem para balizar as empresas diante de um consumidor cada vez mais capacitado para tomar decisões menos impulsivas e mais inteligentes. "Por outro lado, as ações de marketing, especialmente de construtoras e incorporadoras, estão cada vez mais sedutoras, usando jantares, eventos e artistas famosos para atrair o cliente", completa.

Essa é uma estratégia recorrente entre as gigantes do setor - Gafisa, Cyrela, Even, Brookfield, MRV, Tecnisa, Rossi, PDG, Rodobens e Plaenge -, que também se especializaram em utilizar as redes sociais para interagir com os consumidores. Em 2009, por exemplo, a Tecnisa efetuou a primeira venda de um apartamento pelo twitter. "De lá para cá, as empresas amadureceram a linguagem social. Hoje, com o crescimento do Facebook no Brasil, além da popularização do acesso móvel, via smartphones, a tendência é que este modelo de venda seja definitivamente incorporado pelas Companhias", cita Mariana Ferronato.

A especialista não esquece de ressaltar que soluções como e-mail marketing ainda são muito eficientes. "Apesar do grande preconceito existente contra o e-mail marketing, ele é uma das grandes ferramentas disponíveis para o marketing imobiliário. Ocorre que, para ter retorno, é necessário uma série de boas práticas que na grande maioria das vezes não é realizada. Entre elas, a mais importante é a segmentação. Não adianta oferecer um empreendimento de 900 mil reais para um mailing de pessoas que não tenham dinheiro para comprar. O retorno nunca virá", reforça.

Um dos empecilhos para que o marketing imobiliário aja com eficiência, segundo a publicitária, é a gestão centralizadora e conservadora de uma parcela das empresas do setor. Ela usa como exemplo a estratégia que algumas Companhias utilizam de não divulgar o preço do imóvel na internet. "O que muitas empresas não se atentaram é que com a internet o consumidor passou a querer as informações agora. No caso do preço, o que ocorre é que se o cliente não achá-lo no site de quem construiu, ele procura na internet e acha o mesmo imóvel, com preço, no site de outra imobiliária ou de algum corretor. Assim, esconder o preço, que poderia ser uma estratégia para aumentar leads de potenciais compradores, acaba reduzindo o número de contatos", alerta, concluindo que quem não quiser se abrir para todas as possibilidades do marketing imobiliário é melhor continuar na "era das placas".

Entrevistada
Mariana Ferronato, publicitária e idealizadora do marketingimob.com, o principal site de marketing imobiliário do Brasil
Currículo
- Publicitária, idealizadora do marketingimob.com
- Possui 8 anos de experiência na gestão de marketing de imobiliárias e construtoras
- Atualmente é gerente de marketing no portal imobiliário VivaReal (vivareal.com.br) em São Paulo
- Atua como palestrante em mais de 10 estados e é colunista para revistas do segmento
Contato: marketingimob@gmail.com
Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Conselho busca competitividade para a construção civil

Governo desenvolve agenda para estimular sistemas industrializados, disseminar o BIM e difundir a norma de desempenho e as construções sustentáveis

Por: Altair Santos

Instalado em agosto de 2011, o Conselho de Competitividade Setorial da Construção Civil é considerado atualmente como uma das áreas mais estratégicas do Plano Brasil Maior. É a partir dele que o governo federal pretende estabelecer uma política de Estado que consolide avanços como a industrialização dos canteiros de obras, a consolidação da Tecnologia de Informação nos sistemas construtivos e a qualificação da mão de obra. O objetivo é, em dez anos, colocar a construção civil nacional em patamares semelhantes aos que são vistos hoje na Europa e nos Estados Unidos. "A agenda tem medidas de curto, médio e longo prazo. Há ações de até dez anos, mas vamos fazer um corte no final do ano que vem (2013) para medir o que já foi realizado", explica Talita Tormin Saito, vice-coordenadora do Conselho

Reunião do Conselho de Competitividade Setorial da Construção Civil: ações devem se estender por pelo menos dez anos.

Essa agenda setorial conta com a participação dos principais players ligados à construção civil brasileira. Entre eles, Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Sinaprocim (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Cimento), Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção), Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT) e Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). "É importante ressaltar que todas as medidas tomadas pelo conselho levam em consideração gerar condições para a expansão do programa Minha Casa, Minha Vida", afirma Talita Tormin Saito.

Por esse motivo, o Conselho de Competitividade Setorial da Construção Civil tem priorizado três frentes de trabalho. Uma delas é propagar a norma de desempenho NBR 15575. "O Conselho estimula a difusão e a preparação do setor privado para o atendimento da norma que será um fato a partir de março de 2013. Nossa função é ajudar a tirar dúvidas dos empresários e adequar a norma à realidade brasileira", destaca a vice-coordenadora do Conselho, ressaltando que outras frentes estão focadas no estímulo aos processos industriais de construção e no sistema BIM (Building Information Modeling). "Acreditamos que quanto mais tecnologia for agregada ao setor, mais competitivo ele será", completa.

Outro compromisso do Conselho é incentivar as construções sustentáveis. "Temos uma preocupação também com as políticas que gerem menos resíduos. Por isso, o estímulo aos prédios verdes está na nossa agenda. Tudo isso, com base nas atividades de tecnologia industrial alinhadas com o SINMETRO (Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial)", complementa Talita Tormin Saito, que também comanda o Departamento de Indústrias Intensivas, Mão de obra e Recursos Naturais do ministério da Indústria e Comércio.

Entrevistada
Talita Tormin Saito, coordenadora-geral do Departamento de Indústrias Intensivas, Mão de Obra e Recursos Naturais do Ministério da Indústria e Comércio e vice-coordenadora do Conselho de Competitividade Setorial da Construção Civil
Currículo
- Talita Tormin Saito é analista em comércio exterior e funcionária de carreira do governo federal.
Contato: sdp-deorn@mdic.gov.br
Créditos foto: Divulgação/MDIC

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Riscos e fraudes existem. Saiba como se proteger

Ambiente da construção civil brasileira, por causa da informalidade e da falta de cultura no controle de obras, é mais suscetível a esses problemas

Por: Altair Santos

O setor da construção civil profissionaliza-se rapidamente no Brasil, mas ainda existem gargalos que oferecem riscos e possibilidades de fraudes. Por esse motivo, os investidores, sejam eles do segmento imobiliário, comercial ou de infraestrutura, têm buscado cada vez mais informações sobre as obras em que decidem colocar dinheiro. Isso faz aumentar a demanda por consultores como Felipe Gutiérrez - especialista em mapear empreendimentos, sob o ponto de vista do retorno financeiro e da segurança da obra. Seu papel é disponibilizar ferramentas que identifiquem eventuais riscos. Na entrevista a seguir, ele revela como é possível detectar quais projetos são bons ou não para se investir. Confira: 

Felipe Gutiérrez: se o empreendimento é novidade para a construtora, o risco de haver problemas é maior.

Atualmente, quais são as principais ferramentas para identificar e mensurar riscos em obras?
Esta questão é bem ampla, existem vários riscos quando se trata de uma obra. Tem os riscos de engenharia, propriamente dito, tem os riscos de execução durante a obra, riscos de gestão, riscos ambientais, enfim, existe uma série de riscos e o ideal é determinar quais tipos de riscos estão envolvidos para daí fazer um trabalho de identificação e mensuração desses riscos. Por exemplo, entregar uma obra com atraso ou gastando mais do que o inicialmente orçado pode ser mensurado de várias formas. Uma delas, mais subjetiva, é consultar uma pessoa com muita experiência em obras similares. Porém, a abordagem é relativamente leve em termos de sustentação e pode ser facilmente questionada. Por isso, existem outros procedimentos que são mais detalhados e permitem regressões estatísticas, como a técnica de Monte Carlo. Há também o uso de softwares especializados. Mas o mais importante é fazer sempre a avaliação qualitativa do risco e levar em consideração a experiência das pessoas que conhecem os contratos.

Quais são os principais riscos em obras para os investidores?
Para o investidor vai estar sempre relacionado com o objetivo dele, que é colocar dinheiro e ter um retorno x num prazo y. Qualquer obstáculo que impacte a obra no prazo ou no custo vai impactar o investidor também. Além disso, para fazer investimento numa obra x, ele quer saber quem vai fazer a obra, se a empreiteira é renomada e se existe um freework de gestão adequado para a construção. Enfim, o que interessa é saber como o custo, o prazo e o escopo da obra vai impactar diretamente no resultado que o investidor está buscando naquele investimento.

Em termos de metodologias para verificar riscos de fraude em projetos de construção, quais se destacam?
Existe uma ferramenta muito importante que é o canal de denúncia, que é largamente utilizada, principalmente em grandes obras, grandes projetos. Muitas vezes as empresas já têm o seu próprio procedimento, a sua própria política para lidar com esta questão da denúncia anônima. Esta é uma ferramenta importante para identificar possíveis fraudes em obras. De forma mais ampla, o próprio ambiente de controle nas obras é uma forma muito importante para se verificar se o pessoal é bem treinado e se os procedimentos, processos e políticas estão bem definidas. Ter um sistema que dê apoio na gestão das obras também é uma ferramenta importante para esta identificação.

Quando se fala em fraude em projetos, como elas se manifestam e como detectá-las?
Isso pode acontecer de diversas formas. Mas a grande maioria passa por movimentação de estoques e de equipamentos. Muitas vezes uma obra não é bem controlada, o que permite, por exemplo, que o encarregado compre dois caminhões de brita, mas na verdade a construção precisa de um só. Ele assina o recebimento de dois caminhões de brita, mas só um chega na obra e o outro é desviado para outro lugar. Este tipo de descontrole sobre gestão e estoque de materiais é uma fonte grande de fraudes. Outro ponto são as fraudes contábeis, financeiras e de aprovação de contratações. Às vezes muda-se de nível. Passa-se para um nível de tomada de decisão corporativa, definindo a contratação de um fornecedor sem que seja feito o processo adequado de cotação.

Comparativamente a outros setores econômicos, o mercado imobiliário apresenta um volume maior ou menor de riscos de fraudes?
Mais, por que o ambiente no Brasil ainda tem muita informalidade. Além disso, não há tanta cultura de controle de obras. A fiscalização é maior em obras públicas, porque estão mais à vista. Se ocorrer uma fraude numa obra de um aeroporto ela chama mais a atenção, pois está sendo gasto dinheiro público. Porém, se esse tipo de fraude estiver acontecendo no departamento de compras de uma indústria alimentícia, por exemplo, enquanto isso não for muito grande e não impactar administrativamente nas demonstrações financeiras da empresa, dificilmente vai ser fiscalizado. O que evita as fraudes é ter um ambiente devidamente planejado e implementado.

Quanto ao cumprimento de normas legais (compliance) que regulamentam a realização de obras, hoje os construtores e incorporadores estão mais atentos a isso?
Sim, mas ainda há muito a ser feito. Principalmente em termos de se conhecer o que está em conformidade. Tem muitos clientes e empresas que nem sempre conhecem 100% as leis, principalmente aqueles que estão crescendo ou estavam em atividade informal. É preciso ter conhecimento de ações que até então não faziam parte do dia a dia. Como muitas construtoras estão crescendo - empresas que eram pequenas, estão se tornando médias e grandes -, é importante que elas se informem das normas legais do negócio.

O mercado imobiliário brasileiro, comparativamente ao que se faz em outros países, tem maior ou menor incidência de riscos e fraudes em projetos de construção?
No Brasil tem mais, por que no mundo anglo saxão esta cultura de ambiente de controle é mais difundida, está mais arraigada. E não só de ambiente de controle como também de planejamento e gestão na execução.

Entre obras de infraestrutura, imobiliárias e comerciais, como shopping centers, quais são mais suscetíveis a riscos e fraudes em projetos de construção?
Depende muito da empresa que está fazendo a obra. Se o empreendimento é novo para a construtora, localizado numa região que ela não tem conhecimento dos aspectos culturais, legais e tributários, assim como da mão de obra, tudo indica que haverá problemas. Agora, se a empresa já detém todo o tipo de informação, ela estará menos suscetível. Lugar novo e condições novas aumentam a probabilidade de haver problemas.

Entrevistado
Felipe Gutiérrez, sócio-diretor da KPMG Brasil, empresa especializada em auditorias e consultoria no setor da construção civil
Currículo
- Tem 12 anos de experiência no segmento de consultoria
- Iniciou sua carreira em 1998, na KPMG, onde hoje é o sócio-diretor responsável pela linha de serviços “Major Projects Advisory” (MPA) no Brasil
- É Mestre em Economia; PMP (Project Management Professional) pelo PMI (Project
- Management Institute); CIA (Certified Internal Auditor) e CRMA (Certified in Risk Management Assurance) pelo IIA (The Institute of Internal Auditors)
- É membro de diversos institutos, integra a equipe global da KPMG International e apoia clientes em obras de grande porte, em diversos segmentos, como mineração, metalurgia/siderurgia, real estate, oil&gas, infraestrutura&governo
Contato: fagutierrez@kpmg.com.br
Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Para cada tipo de concreto, um tipo de brita

Estruturas de concreto sofrem forte influência mineralógica dos agregados. A escolha errada pode prejudicar na resistência e na durabilidade do material

Por: Altair Santos

No que o tipo de brita misturada ao cimento, à areia e à água influencia na resistência, na durabilidade e em outros fatores do concreto? Segundo o geólogo, diretor do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) e professor titular da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) Cláudio Sbrighi, cada tipo de estrutura pede um tipo de brita. "Tratando-se de uma estrutura de concreto para uma casa, a influência mineralógica da brita é relativamente pequena. Mas se a construção envolver edifícios, pavimento de concreto, obras de infraestrutura ou pré-moldados, o agregado certo otimiza o empreendimento", explica.

Cláudio Sbrighi: 95% dos agregados para concreto britado usados no Brasil são de origem granítica, basáltica ou calcária.

De acordo com o especialista, os pavimentos de concreto, por exemplo, precisam de uma brita que seja mais resistente à abrasão. "Neste caso, é muito melhor usar um granito ou basalto do que usar calcário, que tem baixa resistência abrasiva", resume Cláudio Sbrighi, lembrando que no Brasil a grande maioria dos agregados para concreto britado tem origem em rochas ígneas, de onde procedem granito e basalto, ou de rochas metamórficas, de onde vem as britas de calcário. "São as principais famílias, a partir das quais se produzem 95% dos agregados para concreto no país", comenta, completando que, com exceção da região amazônica, os demais estados do país têm farta produção de brita. São Paulo responde por cerca de 30% da produção nacional. Outros importantes estados produtores são Minas Gerais (12%), Rio de Janeiro (9%), Paraná (7%), Rio Grande do Sul (6%) e Santa Catarina (4%).

Para melhorar a qualidade da brita, os laboratórios que pesquisam concreto têm se concentrado no aperfeiçoamento das características dos materiais, além de investir na descoberta de produtos artificiais. "No Brasil, temos agregados leves produzidos a partir da argila inteirizada, pelotizada e sintetizada. Ela responde por uma pequena porcentagem do mercado. Não é largamente utilizada, mas tem a propriedade de produzir concreto em massa unitária mais leve, podendo ser utilizada em estruturas em que haja interesse de economia nas fundações", revela o geólogo.

Atualmente, existem também aplicações de agregados britados feitos a partir de entulho da construção civil. Cláudio Sbrighi afirma que esse tipo de material deve ser usado para concreto sem responsabilidade estrutural. "É permitida a substituição de parte do agregado por agregado originado de entulho de construção, desde que de boa qualidade, apenas em obras como guias, sarjetas e outros elementos que não tenham função estrutural relevante", diz. Já no caso das peças pré-moldadas, o recomendável é que sejam agregados não reciclados e que atendam os limites especificados pela ABNT. As normas técnicas (NBR) são: agregado para concreto (7211), apreciação petrográfica (7389), amostragem (7216), forma (7809), pedra e agregados naturais (7225) e alterabilidade (12696/7).

No caso de concretos com alta resistência usam-se britas de origem ígneas - basaltos e granitos -, enquanto nos autoadensáveis, especialmente no caso do agregado graúdo mais fino, os calcários são mais vantajosos. Quando tratam-se de grandes obras, as britas 2 e 3 são as mais utilizadas. De acordo com a NBR 7225, a classificação dos agregados é a seguinte:

Com exceção da região amazônica, todas as outras têm farta produção de brita no país.

Pó de brita – Malha 5 milímetros
É muito utilizado nas usinas de asfalto, para calçamentos com base asfáltica e de concreto para obtenção de textura fina, assim como em calçadas. Também é usado na fabricação de pré-moldados e como estabilizador de solo, na confecção de argamassa para assentamento e emboço.

Pedrisco ou brita nº 0 – Malha 12 milímetros
Produto de dimensões reduzidas, muito requisitado na fabricação de vigas e vigotas, lajes pré-molduradas, intertravados, tubos, blocos, bloquetes, paralelepípedos de concretos, chapiscos e acabamentos em geral.

Brita 1 – Malha 24 milímetros
É o produto mais utilizado pela construção civil, muito apropriado para fabricação de concreto para qualquer tipo de edificação de colunas, vigas e lajes assim como em diversas aplicações na construção de edificações de grande porte.

Brita 2 - Malha 30 milímetros
É voltado para fabricação de concreto que exija mais resistência, principalmente em formas pesadas. Usada para a fabricação de concreto bruto, para maior resistência, e na construção de fundações e pisos de maior espessura.

Entrevistado
Cláudio Sbrighi, geólogo, diretor do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) e professor titular da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)
Currículo
- Graduado em geologia pelo Instituto de Geociências e Astronomia da USP (1970)
- Tem mestrado em engenharia civil pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (1975) e doutorado em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP (1993)
- Atualmente é diretor do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon) e professor titular do Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)
Contato: csbrighi@yahoo.com
Créditos fotos: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Prefeituras despertam para a certificação verde

Municípios passam a criar formas de incentivo e de controle das construções sustentáveis, que vão desde IPTU verde a selos de qualidade

Por: Altair Santos

As certificações verdes, que no Brasil chegaram pelas mãos de organismos privados ou de ONGs (organizações não governamentais) começam a ser absorvidas pelo poder público. Já existe um bom número de cidades com projetos de lei que tramitam nas câmaras municipais propondo formas de incentivar as construções sustentáveis através de isenções fiscais. É maior ainda - cerca de 55 em todo o país - a quantidade de prefeituras que atualmente adotam o IPTU Verde, promovendo descontos nos impostos para habitações, indústrias ou empreendimentos comerciais que fazem captação da água da chuva, reuso de água, mantém áreas permeáveis no terreno ou simplesmente preservam árvores.

No Rio de Janeiro, foi criado o Qualiverde. Belo Horizonte também tem o selo BH Sustentável.

Em 2009, Belo Horizonte deu um passo à frente e transformou-se na primeira capital a ter uma certificação para construções sustentáveis. A prefeitura da capital de Minas Gerais criou o Programa de Certificação e Sustentabilidade Ambiental, também chamado de BH Sustentável. O selo tem um elemento inovador em relação a outros existentes. Além de incentivar as construções sustentáveis, ele procura também influenciar na formação de profissionais da engenharia civil e da arquitetura nas universidades, provocando mudança de conceitos na concepção de projetos e estimulando a busca por processos construtivos que gerem menor consumo de água, de energia, de emissões de gases e de resíduos.

Na mesma linha, a prefeitura do Rio de Janeiro sancionou em junho de 2012 o selo Qualiverde. Trata-se de um conjunto de benefícios fiscais, como menor ISS, menor IPTU e menor taxa de ITBI (Imposto sobre a Transição de Bens Imóveis) para as obras concebidas dentro do conceito de construção sustentável. Os projetos de prédios verdes se submetem a uma pontuação, na escala de zero a 100, cujo valor mínimo a ser atingido é 70. A partir daí, os descontos começam a ser ofertados, desde que as construtoras também não transfiram custos ao comprador. "O desafio é agir sobre o custo da construção sustentável sem repassá-lo ao consumidor”, avisa Pedro Rodrigo Rolin, da Secretaria Municipal de Urbanismo.

A tabela de pontuação do Qualiverde segue alguns critérios já adotados por certificações mais tradicionais, como Leed e Aqua. Confira:


AÇÕES
DISPOSITIVOS ECONOMIZADORES
PONTUAÇÃO
Gestão da Água - Arejadores e comandos regulares de vazão - Sanitários c/ caixa acoplada ou duplo acionamento

- Uso de medidores individuais de consumo de água nas edificações multifamiliares, comerciais e mistas

- Sistema de reuso de águas servidas

- Sistema de reuso de águas negras

- Aproveitamento de águas pluviais

- Pavimentos permeáveis em, pelo menos, 40% da área de passeio

- Construção de reservatório para retardo do escoamento das águas pluviais

- Acréscimo de mais 10% de área permeável além da legislação

22

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1

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1

8

1

2

1

.

5

 

Eficiência Energética e
Desempenho Térmico
- Aquecimento solar – SAS completo- Iluminação de áreas comuns c/ lâmpadas LED

- Iluminação natural em 50% das áreas comuns

- Iluminação c/ distribuição em circuitos independentes e dispositivos economizadores

- Fontes alternativas de energia como painéis solares fotovoltaicos

5 a 10 2 a 4

5

2

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5


Projeto - Telhados de cobertura verde - Orientação ao Sol e Ventos

- Afastamento das divisas

- Vedações adequadas a zona bioclimática

- Uso de materiais sustentáveis

- Conforto acústico

- Isolamento térmico nas fachadas

- Plano de redução de impactos ambientais

- Reaproveitamento de resíduos no canteiro de obras

- Bicicletário e apoio

- Compartimento para coleta seletiva

- Plantio de espécies vegetais nativas

- Ventilação natural de banheiros

- Adequação às condições físicas do terreno

- Sistema de fachadas

- Vagas para veículos elétricos

- Estruturas metálicas

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1

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3

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3

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Mais certificações

Conforme vão se disseminando pelo país, as certificações que incentivam construções sustentáveis também mudam de formato de uma região para outra. No Ceará, por exemplo, em vez das prefeituras foi o governo estadual quem decidiu criar um mecanismo de incentivo à gestão ambiental. Trata-se do Programa Selo Município Verde, que organiza um ranking das cidades cearenses que mais assumem compromissos com o meio ambiente. A cada ano, de acordo com a quantidade de obras ecologicamente corretas e o comprometimento com a conservação da biodiversidade, o município pode galgar posições na lista e, com isso, obter vantagens governamentais, seja na forma de incentivos fiscais ou na atração de recursos para investir no meio ambiente.

Entrevistados
Secretarias de governo dos Estados do PR, SP, RJ, MG, SC, RS e CE (via assessorias de imprensa)

Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Rio Grande do Sul investe R$ 5,4 bi em grandes obras

Parcerias com o Governo Federal ajudam a recuperar infraestrutura do estado nos setores rodoviário, ferroviário e de energia

Por: Altair Santos

O Rio Grande do Sul atua em três frentes para consolidar sua infraestrutura. No plano rodoviário, o estado prioriza as duplicações de cinco estradas: a ERS-118, a BR-448 (Rodovia do Parque), a BR-386, a BR-392 e o trecho sul da BR-116. A expectativa é que até 2014 pelo menos três destas obras estejam concluídas. Recursos não faltam. Em parceria com o governo federal, os investimentos totalizam R$ 2,7 bilhões na modernização das rodovias.

Rodovia do Parque: empreendimento é um dos mais relevantes para desafogar o trânsito no entorno de Porto Alegre.

Preocupado em construir obras sólidas, o Rio Grande do Sul intensificou a parceria com a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) para viabilizar estradas em pavimento de concreto. Na ERS-118, no trecho entre Gravataí e Viamão, são 22 quilômetros; na BR-392, principal via de acesso ao porto de Rio Grande, há mais 27 quilômetros com pavimentação rígida. O concreto também estará presente na BR-448, mas em forma de obras de arte. Entre viadutos, pontes, interseções e acessos serão 25 mil m² de estruturas pré-fabricadas.

O pré-fabricado também se faz presente nas obras de ampliação do porto do Rio Grande, que recebe investimento de R$ 150 milhões. Da mesma forma, as peças de concreto impulsionam as construções voltadas para melhorar a mobilidade da cidade de Porto Alegre para a Copa do Mundo de 2014. Só o aeromóvel, que ligará o aeroporto Salgado Filho ao metrô da capital gaúcha, consumirá 2.600 m³ de pilares e vigas pré-moldadas.

Numa outra frente, o Rio Grande do Sul tenta resgatar sua tradição ferroviária, investindo principalmente no projeto da Norte-Sul, que viabilizará um canal de escoamento entre as regiões sul e sudeste do país. Para esse projeto, o governo gaúcho pretende captar R$ 500 milhões só para viabilizar o trecho dentro do estado. "A ideia é levar ferrovias aos centros produtivos do estado, interligando-as com os portos e com a Norte-Sul", explica o secretário de infraestrutura e logística (Seinfra-RS) Beto Albuquerque.

Além de estradas e ferrovias, o Rio Grande do Sul promove forte investimento em geração e transmissão de energia. São R$ 2 bilhões para o setor, que projeta a construção de seis hidrelétricas, além da expansão do parque eólico no litoral norte do estado. A primeira destas obras foi inaugurada em outubro de 2012. Trata-se da usina Passo São João, no noroeste do Rio Grande do Sul. O empreendimento custou R$ 600 milhões, tem potência para gerar 77 megawatts (MW) e vai atender 580 mil habitantes.

Entrevistado
Secretaria de Infraestrutura e Logística do Rio Grande do Sul (via assessoria de imprensa)
Contato: www.seinfra.rs.gov.br
Créditos foto: Divulgação/Seinfra-RS

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

UnB resgata tradição de "universidade do pré-fabricado"

Sistema industrializado predomina na construção de novos prédios e estimula a instalação de fábricas no entorno do Distrito Federal

Por: Altair Santos

Em 1962, os primeiros alunos do curso de arquitetura e urbanismo da recém-inaugurada Universidade de Brasília (UnB) tinham aulas práticas dentro do canteiro de obras do campus Darcy Ribeiro. Naquele ambiente, viram nascer alguns dos primeiros prédios concebidos em pré-fabricado no Brasil. O sistema construtivo, cuja funcionalidade atraiu Oscar Niemeyer, pois permitia agregar salas de aula e laboratórios sem precisar de grandes adaptações, tornou-se uma marca registrada da UnB.

Prédio da Ciência da Computação e Estatística: funcionalidade do pré-fabricado permite que laboratórios e salas de aula interajam.

Hoje, 50 anos depois, a Universidade de Brasília não se limita apenas ao seu campus no Plano Piloto. Ela se estendeu para as cidades-satélites de Ceilândia e Gama, além do município de Planaltina, que fica no entorno do Distrito Federal, mas conserva as estruturas construídas com peças de concreto como um legado. Não é à toa que a UnB é conhecida como a "universidade do pré-fabricado". "A UnB foi uma experiência precursora do pré-fabricado, com Oscar Niemeyer e Lelé (João Filgueiras Lima). Dentro do complexo, o edifício do Instituto Central de Ciências, com 750 metros de extensão e 118.000 m² de área construída, é emblemático", lembra Alberto Alves de Faria, diretor do Ceplan (Centro de Planejamento Oscar Niemeyer) da UnB.

Há quem também atribua o fato de a UnB ter sido concebida sobre pré-fabricados por causa do clima quente e seco predominante no Distrito Federal. Por causa do calor, Niemeyer teria optado por vãos mais livres e pelo concreto aparente das estruturas para que os estudantes tivessem condições de estudar em ambientes com temperaturas mais amenas, já que o calor não se propaga com eficiência no concreto. "Há esse favorecimento, mas não acredito que tenha sido determinante para a opção pelo pré-fabricado. O que pesou foi a rapidez de se construir com sistemas industrializados", destaca o diretor da Ceplan.

Equipe de arquitetura que elaborou os recentes projetos da UnB: Alberto Aves de Faria, entre as arquitetas Fabiana Curado e Fátima Pires.

A funcionalidade do pré-fabricado, justifica Alberto Alves de Faria, é que permitiu expandir os campi da UnB em tão pouco tempo. "Tínhamos um cronograma de execução apertado, por causa da demanda dos cursos, e a repetição de estruturas gera economia de tempo", garante. Mas se permitiu construir mais com um prazo menor, a escolha do pré-fabricado também encareceu o projeto. Motivo: a carência de empresas que trabalham com pré-fabricados em Brasília e no entorno fizeram com que o custo inicial ficasse cerca de 15 % mais caro. "Mas este custo foi amplamente compensado pela qualidade", completa Faria.

As peças pré-fabricadas usadas na UnB, nas recentes obras, vieram de Minas Gerais e de Goiás. Para disseminar o uso do sistema construtivo no Centro-Oeste, e o desenvolvimento da indústria na região, a universidade serve de exemplo aos empreendedores. "Existe uma ampliação de oportunidades e de boas iniciativas que estão dentro da própria UnB", avalia o diretor da Ceplan.


Evolução da arquitetura no campus da UnB

Anos 1960
O projeto urbanístico do campus da UnB é de Lúcio Costa. Já o desenho dos prédios dos institutos e faculdades ficou a cargo de Oscar Niemeyer, além de outros nomes importantes como João Filgueiras Lima, o Lelé, e Glauco Campelo. Esse grupo fazia parte do Centro de Planejamento (Ceplan) da Universidade de Brasília. Menos de dois anos depois da assinatura do decreto que criou a UnB, as primeiras edificações começaram a surgir na paisagem da UnB. Além de sistemas pré-fabricados, as construtoras fizeram prédios definitivos. Entre as construções pioneiras no campus da Asa Norte estão a Faculdade de Educação, de Alcides da Rocha Miranda, os pavilhões de serviços gerais e o Instituto Central de Ciências, mais conhecido como Minhocão, ambos de Oscar Niemeyer, e os blocos residenciais da Colina, desenhados por Lelé. Durante a ditadura, a UnB foi invadida por militares, o que levou nomes importantes como Niemeyer e Lelé a deixarem a instituição.

Anos 1970
A partir dos anos 1970, começa uma nova fase na construção de prédios no campus da Universidade de Brasília. Os novos edifícios têm uso preponderante de concreto armado. Um dos primeiros a sair do papel nessa década foi a Biblioteca Central e, em seguida, surgiram os blocos da Casa do Estudante, projetos de Léo Bonfim Júnior e Alberto Fernando Xavier. Também dessa época é o Restaurante Universitário, de José Galbinski. Seguindo a mesma linha arquitetônica, baseada no concreto armado, a UnB construiu a Reitoria, de Paulo Zimbres, e o prédio da Faculdade de Estudos Sociais Aplicados, de Matheus Gorovitz, além do Núcleo de Medicina Tropical, da Faculdade de Ciências da Saúde e da Faculdade de Tecnologia, todos de Adilson Costa Macedo e Érico Siegmar Weidle.

Anos 1980 e 1990
Nos anos 1980, os projetos perderam um pouco a semelhança e os novos prédios começaram a ser mais heterogêneos. Ao contrário do que aconteceu nas primeiras décadas, quando os arquitetos responsáveis eram professores da instituição, profissionais de fora começaram a ser contratados. A partir daí, surgiu uma experimentação estrutural. Ao longo dessas décadas, a iniciativa privada começou a usar espaços dentro do campus. Assim, foram construídos edifícios como o do Centro de Excelência em Turismo, de Zanine Caldas. É dos anos 1990 o projeto do Centro Comunitário da UnB, de Frederico Carvalho, e o desenho dos pavilhões Anísio Teixeira e João Calmon, de autoria do arquiteto Cláudio Queiroz.

Anos 2000
Em 2002, a Universidade de Brasília aprovou o Plano de Obras UnB XXI, que revisou os projetos de construções anteriores. A proposta previa grandes investimentos em novos espaços para ensino e pesquisa. Os novos prédios seriam construídos com os recursos provenientes da venda de imóveis de propriedade da UnB no Plano Piloto. Entre os institutos e faculdades que estavam previstos nesse plano de obras e saíram do papel posteriormente estão o Instituto de Ciências Biológicas, o Instituto de Química e a nova sede do Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe). A construção desses prédios contribuiu para a liberação de 20 mil metros quadrados do Minhocão.

Fonte: Correio Braziliense

Entrevistado
Alberto Alves de Faria, diretor do Ceplan (Centro de Planejamento Oscar Niemeyer) da UnB
Currículo
- Graduado em Arquitetura pela UnB, em 1981, com especialização em Desenho Urbano (1984) e mestrado em Arquitetura e Urbanismo (2000)
- É arquiteto da Fundação Universidade de Brasília (1986), onde foi prefeito do campus (1993 a 1997) e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da FATECS/UniCEUB
- Desde 2002 é diretor do Centro de Planejamento Oscar Niemeyer da Universidade de Brasília
- É presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF (CAU/DF)

Contato: alberto@unb.br / ceplan@unb.br
Créditos fotos: Edu Lauton / UnB Agência / Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330