"Obras a jato" viram tendência na engenharia mundial

Depois da China, EUA investem maciçamente em construções modulares. No Brasil, falta de mão de obra especializada é um dos empecilhos à tecnologia

Por: Altair Santos

Vídeos de prédios chineses construídos em quinze, dez e até em seis dias estão entre os mais visitados no Youtube (acesse imagens ao final da reportagem). Tratam-se de projetos que exploram ao máximo o conceito de construção modular e que só se viabilizam por causa do emprego de mão de obra altamente especializada e de processos industrializados. Pela velocidade com que conseguem ser concluídos, esses modelos passaram a despertar o interesse da engenharia mundial, e cuja tecnologia começa a ser copiada em países como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

Engenheiros Theodoro Diniz, Raphael Rocha e Bruno Pylro (da esq. para a dir.): na CME, eles buscam consolidar tecnologia no Brasil.

Um exemplo é o condomínio que será inaugurado em setembro nos EUA. Projetado pelo escritório de arquitetura Gluck+, o prédio residencial está cumprindo à risca um cronograma de dez meses. Com sete andares e 28 apartamentos, o complexo erguido em Manhattan teve as fundações e o primeiro pavimento executados convencionalmente, em concreto moldado in loco. Os demais andares são compostos por 56 blocos pré-fabricados construídos na Pensilvânia, cada um com 45 metros de comprimento e configurados para se encaixar um a um, formando o edifício. Esta etapa levou 90 dias para ser concluída.

Ainda que não sejam erguidas na mesma velocidade dos edifícios chineses, essas "obras a jato" projetadas no ocidente se valem da construção modular e, consequentemente, das estruturas mistas de aço e concreto para ganhar tempo, reduzir o emprego de mão de obra e economizar recursos. Apesar das vantagens da tecnologia, no Brasil ela ainda é minimamente consumida. Poucas empresas nacionais detêm esse conhecimento. Uma delas é a CME – Construções Modulares Especiais Ltda. -, onde atuam o arquiteto Bruno Pylro e os engenheiros Raphael Rocha e Theodoro Diniz. Na entrevista a seguir, eles explicam como funciona o sistema construtivo que dominam. Confira:

Recentemente veio a notícia de que em Nova York um edifício de apartamentos está em construção baseado em módulos. Isso pode significar uma tendência da arquitetura daqui para frente?
Bruno Pylro - A modulação na construção civil já é desenvolvida no mundo desde o fim da segunda guerra. A ideia surgiu da necessidade de dar velocidade à reconstrução da Europa, então destruída pelo conflito. Atualmente, com a busca de soluções ágeis para novas construções, esse sistema está ganhando novo impulso. Vários países já o utilizam em larga escala. No Brasil, infelizmente, ainda encontra muita desconfiança. Um dos motivos é que poucas faculdades do país abrangem essa disciplina. Outra crença é a de que o projeto modular limita soluções, o que definitivamente é uma inverdade. Mas, pouco a pouco, as soluções de modularidade ganharão as pranchetas e os canteiros. Daí, os desperdícios da construção artesanal serão um passado difícil de se explicar.
As estruturas mistas de concreto e aço predominam na construção modular ou há outras opções?

Raphael Rocha - Embora haja alternativas, o concreto e o aço predominam o mercado modular brasileiro. Porém, infelizmente, ainda se vê como sinônimo de durabilidade e rigidez soluções artesanais que se tornam cada vez mais incompatíveis com as demandas de mercado. Alternativas novas, e tão ou mais eficientes, como os painéis Wall, Steel frame, placas cimenticias, perfis em PVC, painéis sanduíche compostos de EPS e PU e a própria estrutura metálica, permitem que sejam utilizadas das mais diferentes formas possíveis, possibilitando arranjos arquitetônicos ousados e modernos.

Hoje a construção civil brasileira já está sob regime da norma de desempenho. A construção modular atende a essa norma?
Raphael Rocha - A construção modular não difere dos outros modais de construção quando o assunto é norma de desempenho, pois a mesma não trata de sistemas construtivos ou materiais constituintes do edifício, e sim sobre o seu desempenho e comportamento global. A norma estabelece requisitos e critérios de desempenho, considerando as exigências do usuário, como segurança, habitabilidade, conforto térmico e acústico, manutenção, acessibilidade entre outros. Neste sentido, a construção modular atende plenamente as exigências normativas e dos usuários.

Prédio residencial em Nova York: construção modular permitiu erguer seis pavimentos em 90 dias.

Como as tecnologias modulares lidam com a demanda da sustentabilidade?
Bruno Pylro - O sistema construtivo modular busca ao máximo evitar o desperdício. Os projetos devem ser customizados, utilizando a modularidade de todas as peças previstas, evitando-se cortes comuns na construção convencional. O desperdício no canteiro de montagem de painéis não chega a 3% de inservíveis.

A construção modular demanda que tipo de mão de obra e em qual quantidade?
Raphael Rocha - Um dos maiores entraves da difusão do sistema construtivo modular atualmente no Brasil é a qualificação da mão de obra. Não adianta colocar um anúncio no jornal para se contratar um montador de painel. É uma profissão que simplesmente não existe. Atualmente busca-se a fidelização de mão de obra, através da qualificação e da excelência no processo construtivo. Há entendimento de que havendo mais mão de obra capacitada haverá também mais demanda para o mercado da construção modular.

Como a construção modular age em relação às peças úmidas (banheiro e cozinha) além de instalações hidráulicas de obra?
Raphael Rocha - Os ambientes molhados exigem atenção em qualquer tipo de construção e no sistema construtivo modular se diferem dos demais apenas pelo fato de possuírem shafts de acesso as instalações. Essas aberturas estrategicamente posicionadas permitem acesso facilitado para manutenção, sem que haja necessidade de “rasgar” a parede, promovendo o quebra-quebra. Basta utilizar a visita existente.

A cadeia produtiva da construção civil no Brasil está preparada para abastecer a construção modular?
Raphael Rocha - A cadeia produtiva brasileira, embora crescente, apresenta resultados bem abaixo das expectativas projetadas pelo setor. O potencial de crescimento esbarra principalmente pela falta de mão de obra qualificável somadas à cultura brasileira já enraizada no modo artesanal de construção, onde o saber prático, passado de pai para filho, e o saber técnico são demasiadamente convencionais. O fortalecimento do setor modular depende da melhoria da capacidade técnica, que tange a elaboração de projetos, e na sua maior valorização, tanto da parte do setor público como do privado, pois é por meio deles que se insere efetivamente a aplicação de produtos e processos na construção.

Quais os ganhos que a construção modular oferece em relação à construção convencional?
Theodoro Diniz - A industrialização dos processos construtivos permite inúmeras vantagens, das quais podemos destacar:

Tempo

A construção modular permite reduzir o prazo de entrega da edificação em até 1/3 quando comparado à construção convencional. Tal fato se fundamenta pela concomitância de atividades que são realizadas durante todo processo de implantação do empreendimento. Enquanto atividades civis de fundação e infraestrutura sanitária são executadas, os componentes estruturais e de vedação estão sendo fabricados paralelamente. No término da etapa civil, inicia-se imediatamente a montagem dos componentes da edificação. Os painéis são pré-dimensionados ainda na linha de produção visando a mínima intervenção possível in loco.

Qualidade

Os materiais utilizados na construção modular são pré-fabricados e industrializados. São produzidos através de uma linha de produção industrial, fabricados por equipamentos de última geração e submetidos a um rigoroso processo de qualidade antes de serem transportados e fornecidos para a obra.

Organização

Os insumos são fornecidos, organizados e protegidos, permitindo uma melhor distribuição no canteiro por tipo de materiais e por frente de serviço. O ganho de espaço é muito grande, pois assim que um insumo é usado, outro poderá tomar seu lugar no pátio, e assim sucessivamente. Isso garante menor área de canteiro e uma boa dinâmica para a obra.

Planejamento

Permite maior controle das etapas do projeto e aumenta a possibilidade de detalhar melhor os serviços. Isso melhora os índices de produtividade, facilitando o acompanhamento de cada etapa do empreendimento.

Velocidade

Como o conceito é a modularidade, este tipo de construção permite replicar os mesmos métodos utilizados de uma obra para a outra. Isso possibilita um processo de melhoramento contínuo. Construções com este conceito já saem do projeto com um nível muito alto de detalhamento, o que aumenta consideravelmente sua velocidade de execução. Elas também são mais adaptáveis a ferramentas 3D, que permitem antecipar possíveis gargalos construtivos, minimizando o inesperado e garantindo uma fluidez na execução do empreendimento.

Limpeza

Este é um dos principais conceitos. Estamos acostumados com muita poeira e resíduos espalhados por todos os lados. Na construção modular, encontramos o que chamamos de “chão de fábrica”: um espaço limpo, organizado e muito seguro.

Segurança

O método construtivo permite um ganho enorme no que tange à segurança do trabalho. Com um ambiente organizado e limpo, podemos realizar as tarefas minimizando cada vez mais o risco de acidentes. Neste processo, o mapeamento de risco é quase total.

Confira vídeos sobre as construções a jato na China:
http://youtu.be/UCk_dLjgB6s

http://youtu.be/NiQ_ZKv30k4

Saiba mais sobre o The Stack

Entrevistados
Bruno Satler Pylro, Raphael Rocha Baptista de Oliveira e Theodoro Diniz, da CME – Construções Modulares Especiais Ltda
Currículos
- Bruno Satler Pylro é graduado em arquitetura pela UFMG (2008) e pós-graduado em engenharia de segurança do trabalho, pela UNA (2012)
- Raphael Rocha Baptista de Oliveira é graduado em engenharia de produção civil pela FEA-FUMEC e pós-graduado em gestão de negócios pela Fundação Dom Cabral
- Theodoro Diniz é graduado em engenheiro de produção civil FUMEC
Contato: www.cme.com.br
Créditos foto: Divulgação /CME / Gluck+

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Decoração se rende aos pisos e revestimentos cimentícios

Investimento em pesquisa e tecnologia agrega sofisticação ao concreto arquitetônico e permite simulação de outros materiais, como a madeira

Por: Altair Santos

O piso cimentício saiu do chão da fábrica para se instalar em shopping centers, hospitais, universidades, ambientes de escritório, e chegou à beira da piscina. Agora, com maciço investimento dos fabricantes em pesquisa e tecnologia, foi convidado a entrar em casa. E o faz com grande estilo. A ponto de ter conquistado os arquitetos de interiores. Principalmente por que os produtos ganharam sofisticação e capacidade de se transmutar, recebendo texturas que imitam do porcelanato à madeira, e com uma vantagem: são muito mais resistentes. "Os produtos à base de concreto arquitetônico apresentam a mesma propriedade do concreto, ou seja, alta resistência mecânica e extensa durabilidade, desde que instalados conforme as instruções", explica a designer de produtos Mariana Favaron.

Piso cimentício para interiores pode receber texturas como a madeira.

Segundo a especialista, os arquitetos de interiores, quando optam por usar os pisos e revestimentos cimentícios, o fazem também para diferenciar seus projetos e personalizar o resultado. "Como os produtos têm diversas opções de acabamento e cores, eles servem para gerar ambientes inovadores, sejam em projetos residenciais ou corporativos", afirma Mariana Favaron, lembrando também que as características técnicas do material também ampliaram sua participação no mercado. "Há produtos específicos para ambientes internos e externos. Eles atendem exigências como baixa transferência térmica, alta durabilidade e propriedades antiderrapantes. A qualidade tecnológica do concreto arquitetônico fabricado no Brasil atingiu um padrão de excelência", elogia a designer.

Outra virtude dos pisos e revestimentos cimentícios é que eles ganharam competitividade na relação custo-benefício, em comparação com cerâmicas e porcelanatos. "Isso é resultado do investimento dos fabricantes em pesquisas de materiais de superfície. Chegou-se a um nível em que o concreto arquitetônico está cada vez mais resistente e moldável, permitindo a criação de inúmeras formas, com designs cada vez mais inovadores. Houve também o refinamento do acabamento final e, consequentemente, o mercado de decoração hoje o adota como uma tendência", complementa Mariana Favaron. Entre os que dão preferência aos pisos e revestimentos cimentícios estão os arquitetos que constroem com base nas certificações de sustentabilidade, como LEED e AQUA.

Revestimentos cimentícios também podem ser usados na decoração de paredes.

Os tipos de cimento mais utilizados na fabricação de pisos e revestimentos cimentícios são os do tipo II (NBR 11578 – Cimento Portland composto), embora outros tipos também possam ser utilizados mediante dosagens adequadas. A Cia. de Cimento Itambé fabrica os tipos CP II-F-32 e CP II-Z-32. Outro item importante na qualidade do material é a mão de obra especializada. Boa parte dos fabricantes disponibiliza o serviço e não recomenda que o consumidor faça a instalação ou contrate profissionais que não tenham familiaridade com pisos e revestimentos cimentícios. Outro alerta é quanto à utilização de equipamentos e produtos para fixar e impermeabilizar as peças. "Desde que respeitados os procedimentos de instalação e conservação, os pisos e revestimentos cimentícios raramente apresentam problemas de durabilidade", conclui Mariana Favaron.

Entrevistada
Mariana Favaron, designer de produtos
Currículo
- Mariana Favaron é designer de produtos, com especialização em marketing na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing)
- Com 34 anos, já está à frente do departamento de marketing da Castelatto há 6 anos
Contato: contato@coevcomunicacao.com.br

Créditos fotos: Divulgação / Castelatto

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Retrabalho é patologia do processo de construção

Negligência ao planejamento e mão de obra não treinada alimentam um dos maiores vilões para o orçamento de uma obra

Por: Altair Santos

O retrabalho dentro de um processo construtivo, na maioria das vezes, é gerado pela falta de planejamento das operações ou pelo não alinhamento das várias etapas do projeto. Isso, invariavelmente, gera repetição de procedimentos, e o que é pior: em algumas fases que já eram consideradas concluídas. Para a construção civil, a ausência de planejamento nos processos, e a consequente geração de retrabalho, não deixa de ser um tipo de patologia dentro da obra. É o que explica o engenheiro civil Ricardo André Fiorotti Peixoto, que tem uma série de estudos sobre o assunto, e também é professor da Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. Confira a entrevista:

Tecnologia BIM: ferramenta importante no combate ao retrabalho.

O retrabalho dentro de uma obra pode ser considerado um tipo de patologia?
Se pudermos classificar o retrabalho como uma patologia, ele pode ser considerado uma patologia do processo de construção e não da edificação em si.

Quais os principais motivos que acarretam o retrabalho?
O grande problema do retrabalho na construção civil relaciona-se diretamente com a negligência - e aí, nós engenheiros, também temos culpa - em relação ao planejamento do processo operacional, do processo de construção. Nos preocupamos com memoriais descritivos, orçamento, planejamento físico-financeiro e esquecemos de planejar as operações de construção. Essa negligência impacta na turma que está tocando a obra e, por vezes, gera retrabalho.

Em termos de custo e perda de tempo, o que o retrabalho significa para uma obra?
Se fazer bem, e bem feito, custa dez unidades de moeda, executar um retrabalho custa 100 unidades da mesma moeda. Executar um retrabalho não significa simplesmente refazer o trabalho. Isso implica em paralisar várias frentes de serviço que estão em andamento, a partir daquela etapa. Por exemplo, se surge um problema de piso, eu tenho que parar a turma da pintura, da eletricidade e do revestimento. Na construção civil, diferentemente da indústria em série, é necessário que tenhamos uma tarefa pronta para que a próxima possa acontecer. Por isso que o custo do retrabalho é tão alto.

Onde existem as maiores ocorrências de retrabalho e onde o efeito de uma obra mal executada é mais severo?
Em fundações, é uma etapa crítica. Durante a execução da cravação de estacas, caso uma destas estacas se rompa ou entre num processo de ruptura, isso vai exigir modificar a geometria de um bloco de fundação. É sério, pois vai impactar em todo o cronograma da obra. Principalmente, por que as superestruturas hoje são dimensionadas para funcionar de forma aporticada. Todos os elementos respondem em conjunto por todos os esforços.

Já nas construções de baixo custo, as etapas de retrabalho afetam diretamente o lucro das construtoras e os prazos de entrega, mas pulverizadamente. Então representam um impacto grande, mas de forma sequencial. Quando a construção é de alto luxo, algumas vezes ocorrem problemas com assoalhos de madeira importada ou com pisos de revestimento de pedras importadas. Isso também é um problema grave, pois vai gerar grande perda de tempo, grande quantidade de dinheiro alocada e a paralisação de outras etapas da obra.

Gestão de projetos e gestão de obras que não têm sintonia fina normalmente levam ao retrabalho no canteiro de obras?
Com certeza. Com a globalização dos processos, as empresas ficaram muito mais próximas. Eu posso construir uma edificação em Belo Horizonte e contratar um serviço do Rio Grande do Norte, por exemplo. A gestão deste tipo de operação é extremamente complexa e por mais que tenhamos muitos softwares de controle de operação, ainda assim é muito difícil produzir projetos em unidades tão distantes. O grande problema da gestão hoje reside nisso. Há casos em que a obra está aqui no Brasil e os projetos foram comprados da China. Isso obriga a uma grande estrutura de vídeo-conferências para discutir as etapas da obra. Trata-se de gestão de projetos, que se não for bem executada é uma pontecializadora de riscos relacionados ao retrabalho.

Ricardo André Fiorotti Peixoto: gestão de projeto mal executada potencializa risco de retrabalho.

Quando ocorre o retrabalho, a quem se atribui mais culpa: ao projeto ou à execução da obra?
Esta é uma pergunta muito difícil de responder, porque na maioria das vezes quem está na frente de obra segue as informações que estão no projeto. Por outro lado, os projetos podem ser insuficientes. Acho que a responsabilidade pode ser dividida entre as duas etapas.

O turn over em grau elevado num canteiro de obras propicia o retrabalho?
Evidentemente que sim.

Hoje ainda há um elevado grau de retrabalho nas obras ou o avanço das técnicas de engenharia já minimizou bastante esse risco?
Se fizermos um comparativo dos últimos dez anos, mas com a ressalva de conservar as escalas tecnológicas, hoje nossas construções têm um índice de retrabalho menor. Os processos evoluíram, como o de qualificação de mão de obra, dos sistemas construtivos e do próprio Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H). Além disso, tem as exigências relacionadas aos organismos financiadores. Tudo isso, trouxe melhoria para os processos. Mas o retrabalho continua sendo um grande problema na construção civil.

Recursos tecnológicos, como o BIM, ajudam a combater o retrabalho?
Claro que sim. Inclusive estamos orientando uma dissertação de mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) onde a aluna buscou casos de projetos que foram executados em diversos escritórios de construção e aplicou o BIM nestes projetos. Os resultados preliminares da pesquisa são bastante animadores. Eles mostram que o BIM é uma ferramenta importante para corrigir rumos e reduzir o retrabalho.

Quando percebe-se que o retrabalho é inevitável, quais procedimentos devem ser tomados?
Infelizmente, dificilmente se percebe isso. O retrabalho surge de uma operação mal conduzida e que só depois dela iniciada é que se percebem os equívocos.

Entrevistado
Ricardo André Fiorotti Peixoto, professor-adjunto do curso de graduação e pós-graduação em engenharia civil da Universidade Federal de Ouro Preto
Currículo
- Ricardo André Fiorotti Peixoto é graduado em engenharia civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1996)
- Mestre em engenharia civil pela Universidade Federal de Viçosa (1999)
- Doutor em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (2004)
- Atualmente, é professor-adjunto do curso de graduação e pós-graduação em engenharia civil do departamento de engenharia civil da Universidade Federal de Ouro Preto
- Tem experiência na área de engenharia civil, com ênfase em materiais e componentes de construção, processos construtivos e construção civil
- Lidera o grupo de pesquisa em resíduos sólidos - RECICLOS -, atuando nos seguintes temas: tecnologia de materiais, processos construtivos, construção civil, materiais de construção, manejo, tratamento e reciclagem de resíduos sólidos industriais
Contato: ricardofiorotti@yahoo.com.br
Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Construção civil se divide diante do cenário econômico

Setor habitacional ainda tem fôlego para seguir aquecido. No entanto, obras voltadas à infraestrutura não têm perspectivas tão animadoras

Por: Altair Santos

A sensação de bem-estar gerada pela economia brasileira arrefeceu. Indicadores como inflação crescente, confiança em queda e disposição para o consumo em viés de baixa criaram um novo cenário no país. Pagam todos, indiscriminadamente. Uns mais, outros menos. Até dentro de um mesmo setor, há quem sinta o impacto de maneira diferente. É o caso da construção civil. Segundo levantamento realizado pela LCA Consultoria, o segmento voltado ao setor imobiliário tende a se manter aquecido. Já o que engloba as obras de infraestrutura não convive com previsões tão otimistas. Por dois motivos: a lentidão dos projetos e por que boa parte dos recursos já foi empenhada para o evento Copa do Mundo, seja na forma de estádios ou empreendimentos voltados à mobilidade.

Momento econômico ainda mantém aquecido alguns setores e promove o recuo de outros.

Um dado relevante levantado pela LCA Consultoria, e que mostra o cenário econômico atual, está no desempenho do PIB da construção civil registrado no primeiro trimestre de 2013. Houve recuo de 1,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, acentuando a queda em relação ao final de 2012, quando o PIB do setor caiu 0,2% na mesma base de comparação. Diante destes números, a empresa especializada em inteligência de mercado estima que o PIB da construção fechará 2013 com crescimento de 2,9%. O mesmo estudo projeta que para 2014 esse número deve chegar a 3,9%. "É que no ano que vem haverá eleições e os governos tendem a contratar obras. Mas a euforia de 2010 não vai voltar. O crédito está desacelerando", diz o economista Fernando Sampaio, um dos sócios da LCA.

Em 2010, o PIB do setor cresceu 11,6%. Em boa parte, esse avanço se deu por causa do encaminhamento de projetos de infraestrutura, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e do auge do programa Minha Casa, Minha Vida. Agora, o momento é outro, principalmente na construção pesada. Um exemplo é que em maio de 2013 o segmento gerou apenas 719 empregos líquidos com carteira. Bem abaixo do patamar de 12 mil vagas observado no mesmo mês do ano anterior. Outro indicador é a confiança do empresariado. Em julho de 2013, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice baixou para 51 pontos entre os construtores de edifícios, 50,2 entre os ligados às obras de infraestrutura e 52,9 entre os que prestam serviço especializado ao setor.

Crédito em alta

Um dado que mostra por que o segmento de construção habitacional está mais otimista que o de infraestrutura está no volume de empréstimos concedidos para a compra e construção de imóveis no país. O desembolso atingiu R$ 49,6 bilhões no primeiro semestre de 2013. Tratam-se de recursos 34% superiores aos R$ 37 bilhões no mesmo período de 2012. Esse dinheiro financiou 244,7 mil unidades nos primeiros seis meses de 2013 - 14% a mais do que no mesmo período do ano passado. O levantamento é da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), que alerta, porém, que os números atuais ainda são reflexo do auge do mercado imobiliário, vivido entre 2009 e 2010. Seriam os lançamentos daquele período que estão sendo entregues agora e, portanto, consolidando a concessão de financiamento a quem comprou as unidades.

Entrevistados
- LCA Consultoria, especializada em inteligência de mercado. (via assessoria de imprensa)
- Confederação Nacional da Indústria (CNI). (via assessoria de imprensa)
- Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). (via assessoria de imprensa)
Contatos: contato@lcaconsultores.com.br / imprensa@cni.org.br / imprensa@abecip.org.br
Créditos foto: Marcelo Camargo / ABr

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Minha Casa, Minha Vida falha na qualidade e na entrega

Programa habitacional enfrenta descompasso entre o volume de unidades contratadas e construídas, além de fraudes e problemas de não-conformidade

Por: Altair Santos

Na metade de julho de 2013, a Polícia Federal deflagrou a primeira operação para investigar fraudes no programa Minha Casa, Minha Vida. Batizada de 1905, em referência à sigla MCMV, que lembra um algarismo romano, a ação foi determinada pelo ministério da Justiça, após denúncias de crimes de estelionato, tráfico de influência e lavagem de dinheiro envolvendo unidades habitacionais em municípios com até 100 mil habitantes. Também recentemente, a Caixa Econômica Federal criou uma central de atendimento para receber reclamações de mutuários contra deformidades nas habitações já entregues. O banco usará as informações para avaliar a qualidade dos empreendimentos e cobrar judicialmente das construtoras.

Casas do Minha Casa, Minha Vida: até o governo admite que produção e qualidade precisam ser melhorados.

Através da central "Caixa de Olho na Qualidade", que pode ser acessada pelo número 0800 721 6268, o banco recebe a reclamação e aciona a construtora, que passa a ter cinco dias para entrar em contato com o mutuário e corrigir o problema. Caso contrário, a empresa corre o risco de ser processada e entrar para uma lista negativa que veta o acesso às operações com recursos da instituição financeira. Desde o lançamento do serviço, em 15 de março de 2013, a Caixa tem registrado média diária de 30 ligações relacionadas a algum tipo de deformidade. Até agora, o caso mais grave ocorreu no conjunto habitacional Zilda Arns II, em Niterói-RJ, onde dois prédios tiveram que ser demolidos em razão de problemas estruturais. As edificações estavam em fase de vistoria e nem haviam sido entregues aos mutuários.

Segundo o arquiteto Demetre Anastassakis, ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), e conhecido por estudar os problemas das habitações voltadas para a população de baixa renda, as não-conformidades das construções devem ser tratadas como "caso de polícia". "A Caixa Econômica ganha um bom dinheiro para fiscalizar, mas existe omissão. A lei é muito rigorosa com isso, porém sua aplicação deixa a desejar. É um caso de polícia", afirma. Para Demetre Anastassakis, deveria haver um controle maior dos projetos para o Minha Casa, Minha Vida. "Por economia, tem gente pegando os projetos de outros e copiando. Isso é outro crime. As pessoas acham que podem fraudar projetos. A Caixa é conivente, pois ela não poderia aprovar projetos copiados", critica o especialista.

Demetre Anastassakis: Caixa Econômica deve analisar melhor os projetos.

Além de problemas com a qualidade dos empreendimentos, o MCMV sofre também com o descompasso entre unidades contratadas e concluídas. Recentemente, o governo federal anunciou que desde 2009, quando o programa foi criado, 75% da meta havia sido alcançada. Segundo dados do ministério do Planejamento, o total de unidades contratadas soma 2.783.275. Porém, apenas 45% (1.247.859) foram entregues. Em 15 de julho, em encontro no Secovi-SP, a ministra da pasta, Miriam Belchior, admitiu que são necessários ajustes. Entre eles, fazer com que serviços públicos, como energia elétrica e saneamento, cheguem às casas quando elas estiverem prontas. Há ainda as dificuldades burocráticas, como licenciamento ambiental e habite-se, e os registros dos imóveis em cartórios. "São desafios que se apresentam e que vamos superar", disse a ministra, projetando que em 2014 o MCMV chegará a 3,75 milhões de contratos.

Entrevistado
Demetre Anastassakis, ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)
Currículo
- Demetre Anastassakis nasceu na Grécia e é naturalizado brasileiro. Graduou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ (1973)
- Já exerceu várias funções no IAB. Desde representante no conselho das cidades a presidente nacional da entidade
- É reconhecido por seus estudos sobre a habitação popular para a baixa renda, o que lhe rendeu o prêmio de o arquiteto do ano da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) em 2006
- Também foi atuando na criação do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo)
Contato: demetre.anastassakis@gmail.com
Créditos fotos: Elza Fiúza / Abr / Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Especialistas em medir confiabilidade ganham mercado

Setores de óleo e gás, mineração e energia elétrica passaram a requisitar profissionais da área. No Brasil, UTFPR é a única que oferece o curso

Por: Altair Santos

A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) é a única no país a oferecer curso de especialização (lato-sensu) na área de engenharia da confiabilidade. O profissional que atua nesta área está apto a especificar a performance de equipamentos, produtos, sistemas e linhas de processos de um produto, um equipamento ou uma obra. Atualmente, os setores que mais requisitam a engenharia de confiabilidade são o de óleo e gás, ambiental, saneamento básico e mobilidade. Segundo a pesquisa “Perspectivas Estruturais do Mercado de Trabalho na Indústria Brasileira 2020”, realizada pela FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) essa é uma das especializações com mais espaço para crescimento dentro da engenharia. É o que confirma o professor Emerson Rigoni, coordenador do curso da UTFPR. Confira o que faz o especialista desta área:

Engenharia de confiabilidade: nos Estados Unidos, boa parte das indústrias já conta com a especialidade.

Como daria para definir a engenharia de confiabilidade?
Simplificando, engenharia de confiabilidade mede a probabilidade que qualquer equipamento, sistema ou processo tem para executar sua função. Exemplificando, seria como verificar a confiança que um avião transmite para executar um voo de um ponto A para um ponto B.

Hoje, quais setores mais demandam por profissionais especialistas em engenharia de confiabilidade?
No Brasil, o de petróleo e gás, além das mineradoras e as concessionárias de energia elétrica.

Desde quando a engenharia de confiabilidade começou a despertar o interesse no país?
A engenharia de confiabilidade chegou há uns 15 anos no Brasil, mas as primeiras aplicações se deram há uma década. Diria que de uns cinco anos para cá é que realmente o interesse pela confiabilidade despertou. Passaram a surgir certificações na área e daí o assunto entrou em pauta.

Quando contratado por uma empresa, o engenheiro de confiabilidade opera que tipo de gestão?
Normalmente, as empresas contratam esse profissional quando querem medir o período em que um equipamento precisa passar por manutenção. Outra aplicação é para definir estoques de sobressalentes. Se uma máquina ou processo tem probabilidade alta de falhar, é preciso dimensionar a reposição para suprir esta demanda. As seguradoras, por exemplo, usam muito a engenharia de confiabilidade para aferir o risco ao fazer o seguro de uma planta ou até mesmo de pessoas. A especialidade também tem aplicação no desenvolvimento de produtos, para que eles não gerem perdas financeiras por excesso de uso da garantia.

A construção civil absorve de que forma os especialistas em engenharia de confiabilidade?
Tem uma área da engenharia de confiabilidade que chamamos de análise qualitativa. É quando se busca antecipar as falhas. Criam-se, barreiras gerenciais ou técnicas a partir do projeto. Na construção civil, é no projeto que se pode mapear erros de dimensionamento de cálculo ou estruturais. Outra aplicação da engenharia de confiabilidade dentro deste setor é no controle de suprimentos de materiais dentro da obra.

Setores como meio ambiente, saneamento básico e mobilidade urbana demandam de que forma a engenharia de confiabilidade?
Em meio ambiente, pode-se medir o risco de ocorrer um vazamento. A engenharia de confiabilidade antecipa eventuais ocorrências e cria barreiras para que elas não ocorram. Na área de saneamento básico, idem. Já na mobilidade urbana, a especialidade é usada para medir a previsão de demanda. Dá para projetar o envelhecimento de uma frota e que custo isso irá gerar para a empresa. Da mesma forma, ela avalia quando uma plataforma de transporte (ônibus, trem ou metrô) ficará saturada.

UTFPR é a única no país que oferece o curso de especialização em engenharia de confiabilidade?
Sim. A engenharia de confiabilidade da UTFPR é plena e atua em três áreas: manutenção, análise de risco e desenvolvimento de produtos. O curso opera em parceria com a ReliaSoft Brasil, que é quem fornece o software que usamos nas aulas. A duração é de um ano e meio, com 360 horas de aula. Ele é em nível de pós-graduação lato-sensu, como se fosse um MBA, e concede diploma reconhecido pelo MEC. O curso tem aulas em São Paulo, onde está na quarta edição, e em Curitiba, que está na terceira edição.

Quem mais procura o curso?
Dentro da engenharia de confiabilidade tem uma área chamada de confiabilidade estrutural, que é relacionada à engenharia civil. Além desses profissionais, engenheiros mecânicos e eletricistas também buscam a especialização, assim como administradores. O curso serve para qualquer profissional que queira aprender a fazer a gestão de plantas, processos e ativos. Hoje, no mundo, os Estados Unidos são o país que mais tem especialistas em engenharia de confiabilidade.

Entenda mais sobre o curso

Entrevistado
Emerson Rigoni, coordenador do curso de engenharia de confiabilidade da UTFPR
Currículo
- Emerson Rigoni é graduado em engenharia elétrica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) (1995)
- Tem mestrado em engenharia elétrica e informática industrial (UTFPR) (2002) e doutorado em engenharia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) (2009)
- É professor da UTFPR, atuando na graduação e na pós-graduação junto aos seguintes temas: engenharia da confiabilidade, metodologias para gestão da manutenção e métodos multicritérios para apoio a tomada de decisão
- Atualmente é coordenador dos cursos de graduação em engenharia elétrica e da especialização em engenharia da confiabilidade da UTFPR
- Também é membro do comitê técnico da Associação Brasileira de Manutenção (ABRAMAN) regional VII PR/SC e membro-fundador da Associação Brasileira de Análise de Risco, Segurança de processo e Confiabilidade (ABRISCO)
Contatos: rigoni@utfpr.edu.br / emerson@rigoni.com.br
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Jornalista responsável: Altair Santos

Efeitos da norma de desempenho não serão imediatos

Consumidor só irá perceber mudanças daqui a dois anos. Por outro lado, NBR 15575 impõe novos desafios a engenheiros, projetistas e arquitetos

Por: Altair Santos

A ABNT NBR 15575 - Desempenho de Edificações Habitacionais, que desde 19 de julho de 2013 está em vigor, só será efetivamente percebida pelo consumidor daqui a dois anos, quando novos empreendimentos adequados a ela forem entregues. É o que preveem especialistas, como o engenheiro-projetista Jorge Batlouni Neto, coordenador do grupo de Estruturas e Fundação do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo) e o assessor técnico do SindusCon-PR, Ivanor Fantin Júnior. "Como a norma vale para empreendimentos protocolados a partir do dia 19 de julho, e a obra dura de um ano e meio a dois anos para ficar pronta, teremos que esperar esse tempo para ver os efeitos reais da norma", avalia Fantin.

Jorge Batlouni Neto: algumas empresas só estão acordando agora para a ABNT NBR 15575.

Essa projeção vale para as empresas que estão preparando-se para a ABNT NBR 15575 desde que ela teve sua primeira versão aprovada, e depois entrou em consulta pública e passou por nova revisão para ser melhorada. "Tem empresas que já estão adaptando seus processos desde quando estava acontecendo a revisão da norma. Isso vale tanto para construtoras quanto para produtores de insumos, como janelas e portas, por exemplo. Mas tem algumas que estão acordando agora e terão de correr atrás para atender as especificações", afirma Jorge Batlouni Neto. "Alguns fornecedores não fizeram a lição de casa e vão ter problemas para adequar seus produtos à norma, apesar de todo o tempo que foi dado", completa Ivanor Fantin Júnior.

A norma de desempenho foi dividida em seis partes: 1) requisitos gerais; 2) sistemas de
estrutura; 3) sistemas de pisos; 4) vedações verticais; 5) vedações de coberturas e 6) sistemas hidrossanitários. No entender dos especialistas, um dos pontos mais complicados será o que exige do construtor um manual de uso, operação e manutenção da unidade habitacional, a fim de que o usuário possa segui-lo ao longo do período de vida útil do imóvel. Há também a questão de que a ABNT NBR 15575 tende a puxar a revisão de outras normas. "A mais urgente é a parte 3 da norma 15220, que trata do zoneamento bioclimático (ABNT NBR 15220 - parte 3 - Zoneamento bioclimático brasileiro e diretrizes construtivas para habitações unifamiliares de interesse social). "Ela já é uma norma defasada e ainda não temos nenhuma comissão trabalhando na revisão. A relevância, é que ela afeta todo o desempenho térmico das habitações", alerta Ivanor Fantin Júnior.

Ivanor Fantin Júnior: norma de desempenho tende a impor a revisão de outras normas.

Jorge Batlouni Neto destaca também que das seis partes da norma, a parte dois (sistemas de estrutura) vai requerer atenção se forem usados processos inovadores de construção. Além disso, a parte um passa a pedir cuidados especiais na construção das alvenarias que dividem os apartamentos, assim como na das lajes e no acabamento de caixilhos, janelas e paredes externas. "Isso ocorre, porque estaremos tratando de uma elevação na qualidade da habitação", diz o coordenador do SindusCon-SP, lembrando que o adiamento da entrada em vigor da norma de desempenho foi benéfico sob o ponto de vista de entendimento de suas peculiaridades. "O mercado assimilou melhor a norma e vai conseguir construir com mais atenção", entende. "A versão anterior tinha uma série de problemas que inviabilizaria a construção civil no Brasil", emenda o assessor técnico do SindusCon-PR.

A ABNT NBR 15575 é vista como um marco na evolução da construção civil brasileira, mas também imporá novos desafios a engenheiros, projetistas e arquitetos, em especial. "A norma passa a exigir especificações de materiais, algo que não havia costume no Brasil. Por exemplo, a escolha de uma cerâmica terá que atender o desempenho necessário para o tipo de construção proposto", explica Jorge Batlouni Neto. "Para projetar, será importante saber os parâmetros dos produtos. E o que nós não temos é justamente isso. Ainda são poucos os ensaios feitos pelas empresas, e que podem balizar o projetista a identificar materiais", conclui Ivanor Fantin Júnior, estimando que em cinco anos a norma de desempenho terá sido totalmente assimilada pela cadeia produtiva da construção civil.

Entrevistados
- Jorge Batlouni Neto, coordenador do grupo de Estruturas e Fundação do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo)
- Ivanor Fantin Júnior, assessor técnico do SindusCon-PR (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Paraná)
Currículos
- Jorge Batlouni Neto é graduado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo (1982) e mestre em Habitação e Tecnologia pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT (2003)
- É diretor-superintendente da JB Tecnum Engenharia e Construções Ltda (Tecnum Construtora)
- Professor do MBA da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo –Tecnologia na Gestão da Produção de Edifícios (desde 2002)
- Coordenador do grupo de Estruturas e Fundação do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Industria da Construção Civil de São Paulo)
- Ivanor Fantin Júnior é graduado em engenharia civil pela PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e assessor técnico do SindusCon-PR
Contatos: jbn@tecnum.com.br / engenharia@sindusconpr.com.br
Créditos fotos: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos

Pré-moldado quer abrir portas na universidade

Encontro leva grandes nomes do concreto ao universo acadêmico e mostra verdade absoluta: industrialização na construção civil é inexorável

Por: Altair Santos

A construção industrializada decidiu enfrentar um entrave: fazer com que a tecnologia abra as portas do mundo acadêmico e se propague entre os futuros engenheiros civis. As universidades admitem que boa parte dos novos profissionais não domina os processos à base de pré-fabricados. "A maioria das escolas de engenharia e arquitetura não trata este assunto como deveria. Normalmente, o tema é abordado em uma disciplina alternativa, que é ensinada no último ano da graduação, quando o aluno já está mais focado no mercado de trabalho", revela o professor Mounir Khalil El Debs, do Departamento de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC/USP).

Encontro realizado em São Carlos-SP reuniu algumas das sumidades mundiais em concreto pré-fabricado.

Um dos marcos desta aproximação da construção industrializada com o universo acadêmico ocorreu no 3º Encontro Nacional de Pesquisa, Projeto e Produção em Concreto Pré-Moldado, onde nomes como Marco di Prisco, professor e chefe do Departamento de Engenharia de Estruturas do Politécnico de Milão, na Itália; Minehiro Nishiyama, professor do Departamento de Arquitetura e Engenharia da Universidade de Kyoto (Japão) e vice-presidente do Instituto do Concreto Protendido do Japão (JPCI); Paulo Helene, professor titular da USP e presidente da Associação Latino Americana de Controle de Qualidade, Patologia e Recuperação das Construções (ALCONPAT) e Sami Rizkalla, professor de Engenharia Civil e diretor do Laboratório de Construção da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostraram as inovações e aplicações do pré-moldado mundo afora.

No evento, que acontece de quatro em quatro anos, e em 2013 teve a EESC/USP como anfitriã, Sami Rizkalla palestrou sobre o estado atual da aplicação de armadura não metálica em concreto, especificamente para o pré-moldado. Já Marco di Prisco mostrou a evolução de elementos delgados para cobertura, uma tecnologia bem desenvolvida na Itália. Minehiro Nishiyama tratou dos materiais de alta resistência, bem evoluídos no Japão. "São experiências diferentes da nossa. Embora seja outra realidade, temos que ter o discernimento de ver o que podemos pegar de lá e aplicar aqui. Precisamos saber o que está acontecendo, para aprimorar nossos procedimentos em relação ao concreto pré-moldado", revela Mounir Khalil El Debs.

Outro ponto relevante abordado no simpósio, o qual contou com a parceria da Abcic (Associação Brasileira da Construção Industrializada do Concreto) esteve relacionado aos novos cálculos para edifícios em pré-fabricado sujeitos a sismos. "Isso é algo que, apesar de existir uma norma de sismo no Brasil, os projetistas não estão ainda familiarizados", completou Mounir Khalil El Debs, lembrando que, entre os palestrantes brasileiros, o professor Paulo Helene foi o que mobilizou as maiores atenções. "Ele abordou a importância do concreto pré-moldado para a questão da sustentabilidade", destacou.

Do encontro, nasceu um consenso: o de que o avanço da industrialização na construção civil brasileira é inexorável. "Temos que modernizar. Não há como continuar desperdiçando material. As questões envolvendo sustentabilidade, morosidade da construção e perturbação do ambiente, tudo isso são demandas que a sociedade está exigindo que sejam melhoradas. Por outro lado, tem o problema da mão de obra, que está cada vez mais difícil de contratar e não se qualifica no ritmo que é necessário. Fatalmente, a maior parte das etapas no canteiro de obras terá de vir pronta. É uma tendência irreversível", diz o professor da EESC/USP.

Durante o 3º Encontro Nacional de Pesquisa, Projeto e Produção em Concreto Pré-Moldado foram apresentados 18 trabalhos acadêmicos sobre construção industrializada. Entre os mais relevantes, estão os que tratam de ligações semirrígidas. "São modelos que mostram que a aplicação do concreto pré-moldado pode ser mais palpável. Mas não é um evento específico que vai desmistificar o emprego deste tipo de material. O ideal seria que as escolas aprofundassem o ensino e mostrassem as vantagens da aplicabilidade do pré-moldado. Passa a ser o papel delas a partir de agora", conclui Mounir Khalil El Debs.

Entrevistado
Mounir Khalil El Debs, professor do Departamento de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC/USP)
Currículo
- Mounir Khalil El Debs é graduado em engenharia civil pela Universidade de São Paulo (1972), com mestrado em engenharia de estruturas pela Universidade de São Paulo (1976) e doutorado em engenharia de estruturas pela Universidade de São Paulo (1984). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.
- Tem experiência na área de engenharia civil, com ênfase em estruturas de concreto, atuando principalmente nos seguintes temas: concreto pré-moldado, ligações, pontes de concreto, ensaios estruturais e elementos delgados de concreto.
- É autor ou coautor de aproximadamente 150 trabalhos técnicos completos publicados em anais de congressos e revistas, além de autor do livro Concreto pré-moldado: fundamentos e aplicações, publicado pela EESC-USP, em 2000.
Contatos: www.set.eesc.usp.br/3enpppcpm / mkdebs@sc.usp.br
Créditos foto: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos

Confea não se opõe à importação de engenheiros

Conselho, que em setembro promove o Congresso Nacional de Profissionais, avalia que crescimento baixo deve reprimir vinda de estrangeiros

Por: Altair Santos

Enquanto os médicos brasileiros protestam contra a intenção do governo federal de importar profissionais de outros países, o sistema Confea/Crea decidiu deixar que o mercado regule a entrada de engenheiros estrangeiros, desde que eles cumpram as exigências legais. "O Confea não faz qualquer objeção à entrega de registro aos profissionais estrangeiros. Não existe qualquer bloqueio ou impedimento à atuação dos profissionais de qualquer nacionalidade. Os profissionais estrangeiros continuam ingressando no país e estão trabalhando no Brasil há anos. Desde que a emissão de registro profissional obedeça aos critérios legais vigentes, não há empecilhos", afirma o presidente do sistema, José Tadeu da Silva.

Mesmo assim, o 8º Congresso Nacional de Profissionais, que acontecerá em setembro de 2013 na cidade de Gramado-RS, debaterá a questão "entrada de profissionais estrangeiros no Brasil". Antes do evento, porém, o Confea/Crea estima que o momento econômico do país é que vai regular esse mercado de trabalho. "Com o desenvolvimento da economia abaixo da taxa de crescimento potencial, a demanda está equilibrada, nos dias atuais, diferentemente do cenário apontado em 2012. Além do fator econômico, variáveis culturais e sociais também influenciam sobre esse contexto. O Brasil tem situações muito diferentes nas suas diversas regiões, tem necessidades diferentes e soluções diferentes", estima o comando do sistema Confea/Crea.

Segundo pesquisa divulgada em abril de 2013 pela BBC, houve recentemente, em todo o mundo, uma migração de 200 milhões de profissionais. No Brasil, a maior demanda recaiu sobre a área tecnológica. Vieram ao país especialistas em engenharia civil, mecânica e elétrica, além de desenvolvedores de tecnologia da informação. O Confea/Crea confirma esses dados, mas estima que a oferta por esse tipo de mão de obra reduziu sensivelmente a partir do segundo trimestre de 2013 (abril, maio e junho). "O que se percebe é menor oferta de mão de obra na área tecnológica nacional. De forma pontual, em segmentos como gás, petróleo e minério, e em tecnologia da informação", relata o sistema que representa os engenheiros no país.

Exigências legais

Entre as exigências para um profissional estrangeiro da área de engenharia trabalhar legalmente no Brasil, está a revalidação do diploma, que cabe às instituições de ensino público (universidades federais). Depois dessa etapa, o diploma deve seguir para o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e, segundo o que determina o Código Civil, a documentação que eventualmente se encontre em língua estrangeira deve ser levada ao Crea com sua tradução juramentada, elaborada por tradutor registrado no Brasil. No caso dos documentos portugueses, essa etapa é dispensada, tendo em vista que o idioma utilizado já é o português e levando em consideração o Tratado da Amizade, Cooperação e Consulta, de 2000.

Em seguida, há a análise técnica por parte da Câmara Especializada do Crea, seguida da aprovação do seu plenário e, aí sim, se dá a homologação no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). O tempo médio para a obtenção do registro profissional – de qualquer nacionalidade – dentro do sistema Confea/Crea (trâmite entre Crea e Confea) é de 90 dias, caso toda a documentação esteja correta. Durante a etapa de análise de documentos do solicitante, é verificado se o curso e as complementações atendem à carga horária mínima estabelecida para os cursos de engenharia nacionais. Essa etapa obedece às exigências da Câmara de Educação Superior (CES) do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Vale reforçar que a revalidação e o fornecimento de diploma não libera o profissional estrangeiro a entrar no mercado brasileiro sem a autorização do conselho, que atua conforme as exigências legais, estabelecidas pela Lei 5.194/66 – que regula o exercício profissional – e pela resolução 1.007/2003 do Confea – que dispõe sobre o registro de profissionais. Já sobre o acordo de cooperação entre Brasil e Portugal, para equivalência e reconhecimento recíproco dos diplomas de engenheiros e arquitetos, assinado em Lisboa no dia 10 de junho de 2013, o Confea aguarda discussão dos termos assinados juntamente com o governo federal.

Confira a pesquisa da BBC

Entrevistado
Presidência do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) (via assessoria de imprensa)
Contato: gco@confea.org.br
Créditos foto: Divulgação/ABr

Jornalista responsável: Altair Santos

Empresas se especializam em dar qualidade ao projeto

Cresce número de construtoras que recorrem a mecanismos que filtram os problemas e fazem o acompanhamento da obra, evitando retrabalho

Por: Altair Santos

Está claro para boa parte das construtoras que operam no Brasil que o sucesso da obra depende do projeto. É nele que é possível reunir as melhores soluções, adequando custos e prazos. Estima-se que um bom projeto equivale de 3% a 6% do valor total do empreendimento. No entanto, se mal feito, poderá impactar todos os outros 94% ou 97%. Por isso, antes de iniciar a fase da construção, empresas têm recorrido a especialistas em avaliar a qualidade do projeto. O procedimento consiste em submeter a um grupo de profissionais, que vão desde geólogos até engenheiros calculistas, a análise meticulosa do conceito da obra.

Roberto Kochen: projeto mal feito impacta em todo o empreendimento.

Essas empresas, cuja expertise está voltada para um modelo de gestão conhecido como Especificação da Qualidade do Projeto, também se especializaram em promover o acompanhamento técnico dentro do canteiro de obras. Isso permite verificar se o projeto está correto ou se, ao ser colocado em prática, ele ainda tem possibilidades de melhora. "É como uma grande peneira, que filtra os grandes problemas e torna o empreendimento mais redondo. Trata-se de uma ferramenta que está sendo usada cada vez mais, principalmente pelas médias construtoras, que não têm como sustentar um departamento só para fazer a gestão da qualidade do projeto", explica Roberto Kochen, da GeoCompany.

Sinteticamente, a Especificação da Qualidade do Projeto utiliza quatro ferramentas técnicas:
- Análise de custo-benefício, que avalia se vale ou não a pena fazer determinados testes no projeto.
- Benchmarking, que compara práticas aplicadas e bem-sucedidas em diferentes projetos.
- Projeto de experimento, que avalia se é relevante submeter a ensaios produtos que serão usados na obra.
- Custos da qualidade, que, para não onerar a obra, analisa quais ações podem ou não ser descartadas no projeto.

PBQP-H

A criação do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) em 1998 foi determinante para que as empresas passassem a valorizar os projetos, sobretudo os habitacionais. O programa passou a agir como um indutor da cadeia produtiva da construção civil, enfrentando desequilíbrios nos padrões de qualidade, práticas de não conformidade e baixo nível de inovação tecnológica - fatores que contribuíam para um habitat urbano de baixa durabilidade. Além disso, sem a aprovação do PBQP-H, as construtoras dificilmente conseguem financiamento para as obras via Caixa Econômica Federal.

O PBQP-H possui um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) que divide as empresas em quatro níveis: A, B, C e D. O nível D é a etapa inicial para a implementação do SGQ. Os demais são alcançados por meio de certificação, de acordo com organismos acreditados pelo Inmetro. Para que as construtoras subam de nível, elas precisam investir em projetos consistentes. As grandes e médias já se adequaram. Há pequenas empresas, no entanto, que ainda confiam projetos a profissionais autônomos, balizando-se pelo preço de mercado e não pela qualidade. Invariavelmente, isso gera uma descontinuidade nos ciclos de produção dentro do canteiro de obras e inviabiliza o próprio projeto, gerando o pior dos problemas num empreendimento: o retrabalho.

Entrevistado
Roberto Kochen, diretor-técnico da GeoCompany
Currículo
- Roberto Kochen é graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1977)
- Tem mestrado e doutorado em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1982 e 1989)
- Fez pós-doutorado na Universidade de Toronto, no Canadá
- É diretor do Departamento de Construções Civis do Instituto de Engenharia do Estado de São Paulo
- Ocupa o cargo de professor-doutor do Departamento de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
- É diretor-técnico da GeoCompany Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente
Contatos: www.geocompany.com.br / kochen@geocompany.com.br
Créditos foto: Divulgação autorizada

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330