Reúso de água funciona se vier contemplado no projeto

Tecnologia gera empresas especialistas em planejar esse tipo de obra, mas implantá-la em prédios já construídos encarece investimento

Por: Altair Santos

O reuso de água está na moda. Desde que as certificações para empreendimentos imobiliários chegaram ao Brasil, os projetos que reaproveitam o recurso natural só fazem crescer. A ponto de influenciar também o setor industrial. Hoje, de cada dez plantas concebidas para que se construa uma fábrica, seis investem no reuso de água.

Enrico Freire: indústrias são as que mais investem em reúso de água

O objetivo é sempre ampliar a produção sem aumentar o consumo do bem natural no processo de fabricação. Mas há uma ressalva feita por especialistas: se a tecnologia de reuso não for concebida durante a fase de projeto da edificação, seja ela para fins residenciais, comerciais ou industriais, nem sempre o custo-benefício que se deseja é alcançado.

É o que explica o engenheiro químico e ambiental Enrico Freire, especialista em implantar reúso de água em unidades industriais. "Quando a tecnologia é incorporada ao projeto, as principais mudanças ocorrem na rede de distribuição de água e em sistemas de tratamento. Com suporte técnico adequado, os custos envolvidos são normalmente baixos frente aos valores investidos no complexo industrial", diz.

O engenheiro alerta que viabilizar a tecnologia em fábricas já construídas é possível, mas nem sempre se obtém bons resultados. "Neste caso, dependendo do tipo de construção, o prazo de retorno do investimento pode deixar o projeto pouco interessante financeiramente. Se considerarmos que a água é um recurso finito, existirão empresas que sempre considerarão esse tipo de investimento viável. O melhor é pensar nos detalhes construtivos do prédio, durante o projeto. Isso reduz consideravelmente os custos de implantação de sistemas de reúso", completa.

Gestão integrada
As indústrias têxtil e de beneficiamento de proteína animal são as que mais investem em reúso de água. Normalmente, essas fábricas se instalam em áreas com restrição de acesso a recursos hídricos ou em regiões onde o custo da água é elevado. No entanto, outros setores também se beneficiam da tecnologia. "Atualmente, em projetos de maior ou menor escala, todos os segmentos têm buscado opções de reaproveitamento de seus efluentes", afirma Enrico Freire.

Unidades concebidas para usar a tecnologia do reúso de água têm maior custo-benefício

Segundo o especialista, os projetos de implantação de reuso de água sempre são customizados e o objetivo é que o investimento seja amortizado em, no máximo, dois anos. "A economia de dinheiro está muito relacionada ao custo da água e ao local onde ela é consumida. Esses valores podem ser extremamente baixos a ponto de inviabilizar um projeto ou ter períodos de payback (retorno de investimento) inferior a dois anos. Cada caso deve ser analisado separadamente", comenta.

No mundo, os países que mais investem em reuso de água são Dinamarca, Bélgica, Alemanha e Austrália. Eles utilizam sistemas que o Brasil importa, como a gestão ambiental integrada. Nesta tecnologia, se faz o gerenciamento dos recursos hídricos, do reaproveitamento de chuvas e do tratamento de efluentes, integrando-os de acordo com a necessidade da fábrica. Outro modelo é a técnica de Pinch, no qual se avalia a qualidade da água e se define onde ela será aplicada.

Entrevistado
Engenheiro químico e ambiental, Enrico Freire, gerente de negócios do segmento ÁGUA e AR da Essencis Engenharia e Consultoria
Contato: comercialec@essencis.com.br

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Consumidor aceita pagar mais por Norma de Desempenho

Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela CBIC, mostra que quem compra imóvel também busca qualidade, inovação e tecnologia

Por: Altair Santos

Se depender do consumidor, a Norma de Desempenho (ABNT 15575 - Edificações habitacionais - Desempenho, partes 1, 2, 3, 4, 5 e 6) irá se consolidar no mercado da construção civil. Recente pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) ao Instituto Sensus mostra que quem compra imóvel está cada vez mais preocupado com a qualidade da habitação e se dispõe, inclusive, a pagar mais por isso. Segundo o levantamento, 81,9% dos entrevistados apontaram que buscam, além de edificações bem construídas, inovações tecnológicas incorporadas ao empreendimento.

Paulo Safady Simão: pesquisa confirma sentimento do mercado, de que consumidor está cada vez mais exigente

Para o presidente da CBIC, Paulo Safady Simão, os dados da pesquisa mostram o que o mercado já sentia. "O resultado desse trabalho inédito comprova o que até então era apenas um sentimento do mercado, ou seja, as pessoas que estão adquirindo ou planejam comprar um imóvel estão cada vez mais exigentes com a qualidade da moradia", diz. "O estudo fortalece, inclusive, os argumentos utilizados pela indústria da construção em seu diálogo com o governo federal no sentido de levar a inovação tecnológica ao Programa Minha Casa Minha Vida", completa.

O Instituto Sensus ouviu 1.100 pessoas em 23 estados, mais o Distrito Federal. De acordo com o presidente da CBIC, outro dado interessante da pesquisa é que a exigência por qualidade independe da renda familiar que está viabilizando a compra do imóvel. "Um dos aspectos mais importantes desse estudo foi a possibilidade de comprovarmos, pela primeira vez, que mesmo as famílias com renda mais baixa aprovam pagar mais caro para ter inovações em suas casas. Isso, claro, desde que essas modernidades proporcionem mais qualidade de vida e redução de custos de manutenção ao longo da vida útil do empreendimento", explica.

Impacto na cadeia produtiva
Paulo Safady Simão entende que o resultado da pesquisa não induzirá o mercado a elevar os preços dos imóveis. Pelo contrário, será lido como um reconhecimento do cliente em agregar valor ao seu imóvel através do acesso a produtos de qualidade, que, na medida em que forem consumidos em maior escala, tendem a baratear custos. "Sabendo como os consumidores veem a inovação, os empresários de toda a cadeia produtiva da construção podem planejar melhor os necessários investimentos. O aumento em escala do uso de novas tecnologias, máquinas e produtos fará com que os custos se tornem gradativamente menores e permitirá avanços em todos os níveis de empreendimentos", avalia.

A pesquisa apurou ainda que, entre os entrevistados, 78,5% têm renda de até cinco salários mínimos, e 13,6% de cinco a dez salários mínimos. Outro dado trazido pelo estudo é que o consumidor mudou a maneira de escolher um imóvel.  Antes, a boa localização era o mais importante. Agora, pesam na escolha a segurança e a economia de recursos. Entre os pesquisados, 31,5% procuram um lugar "calmo"; 20,6%, “boa localização”, e 11,2%, "conforto”.

Veja aqui a pesquisa na íntegra.

Entrevistado
Engenheiro civil Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
Contato: comunica@cbic.org.br

Crédito Foto: Erivelton Viana/CBIC

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Arquitetura penal obedece diretrizes específicas

Para atuar nessa área, profissional precisa buscar especialização fora do país ou atuar em escritórios que trabalham com esse tipo de projeto

Por: Altair Santos

A alta complexidade de um projeto para construir presídios requer formação específica para esse tipo de obra, tanto para engenheiros civis quanto para arquitetos. O problema é que no Brasil há poucas referências e sequer disciplinas sobre como projetar e erguer um empreendimento deste tipo. Nas graduações e nas pós-graduações, revela a arquiteta Suzann Cordeiro, há escolas que, inclusive, discriminam esse tipo de obra.

Suzann Cordeiro: país tem normatização para construir presídios, mas faltam especialistas

Fora do país, segue-se um caminho contrário. Existem até escritórios de engenharia e arquitetura que trabalham unicamente para projetar e construir presídios. Trata-se de obras em que grande investimento em tecnologia, principalmente na do concreto. É o que revela Suzann Cordeiro, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e consultora na área de arquitetura penal. Confira a entrevista:

Um projeto de unidades destinadas ao custodiamento de pessoas possui diversas características especiais. Quais são as principais?
O principal desafio de um projeto de unidade penal é o equilíbrio entre segurança e a dita “ressocialização”. Por ser um espaço com alta complexidade programática, já que demanda serviços de saúde, educação, trabalho, custodiamento, alojamento, serviços industriais e grande aglomeração de pessoas, a preocupação com cruzamento de fluxos, dimensionamento adequado, ventilação e iluminação suficientes, além de minimização do potencial violento da população atendida, são complicadores para a solução espacial. Também é preciso cuidar para que a própria estrutura construída não possibilite a subversão, com a produção de armas com as ferragens, que são transformadas em ‘espetos’. As especificações técnicas necessitam ser específicas para características de alta resistência antivandálica, entendendo-se que esta resistência não se resume à resistência a impactos ou fogo.

Em termos de normas, quais as internacionais de segurança construtiva e acessibilidade que precisam ser cumpridas?
Não existem normas internacionais específicas para a segurança construtiva ou para a acessibilidade em edifícios de custodiamento. Em parte, isto se explica pela necessidade de entender o sistema penal específico de cada país e, consequentemente, a gestão prisional. Além disso, cada unidade, a depender do perfil de atendimento (masculino/feminino; regimes fechado/semiaberto/aberto; público provisório/condenado), apresenta especificidades de funcionamento, de fluxos e de usuários. Existem as regras mínimas da ONU, assim como alguns tratados internacionais (Tratado de Bangkok e Pacto de San Jose, entre outros) que exigem condições mínimas de atendimento, impactando em características espaciais. Mas não há nada específico.

Presídio de segurança máxima em Porto Velho - RO: concreto de 120 MPa

E no Brasil, segue-se uma normativa?
No Brasil, em 1994 foram criadas as diretrizes básicas para os projetos de estabelecimentos penais (Resolução nº 16, de 12 de dezembro de 1994) pelo Conselho Nacional de Políticas Criminal e Penitenciária (CNPCP) na tentativa de normatização da Arquitetura Penitenciária, revisada em 2005, e revogada pela Resolução nº 3, de 18 de fevereiro de 2005. Ambas, traziam discussões sobre zoneamento, programa de necessidades e funcionamento dos edifícios destinados à aplicação da pena. No entanto, ainda não incorporavam o conceito de vaga de forma mais abrangente, considerando demandas e não apenas celas, ou mesmo questões de adequação ambiental, eficiência energética, sustentabilidade etc. Apesar dos avanços contidos nesta resolução, continuavam imperando espaços voltados à segregação e segurança, com dimensões dos ambientes fixas, sem considerar a quantidade de usuários, ou seja, não havia reflexões de racionalização dos espaços, das dimensões e das especificações necessárias a cada ambiente. Em 2011, houve uma nova revisão da normatização acerca da Arquitetura Penitenciária, através das Diretrizes para Arquitetura Penal (Resolução nº 9, publicada em 18 de novembro de 2011) da qual eu participei como conselheira do CNPCP. Acredito que, a partir da nova resolução e seus desdobramentos, surge uma perspectiva mais inovadora e integrada dos aspectos de segurança, inclusão social, direitos humanos e sustentabilidade (econômica, social e ambiental) de maneira a exigir, dos projetistas, reflexões mais integradas e mais aprofundadas na concepção dos estabelecimentos penais, o que considero ser uma contribuição importante do Brasil para os demais países.

Quanto às normas da ABNT, quais as que um projeto desta natureza precisa atender?
Não existem normas específicas para a construção de estabelecimentos penais. Porém, a Res.9/2011 especifica, nas suas referências bibliográficas, a seguinte relação de normas a serem consideradas:

1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15220/2003: zonas bioclimáticas do Brasil.
2. NBR 9050/2004: acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos.
3. NBR 6492/1994: representação de projetos de arquitetura.
4. NBR13532/1995: elaboração de projetos de edificações.
5. NBR 5626/1998: instalações prediais de água fria.
6. NBR 5648/1999: sistemas prediais de água fria – tubos, conexões de PVC 6,3, PN 750 kPa, com junta soldável – Requisitos.
7. NBR 8160/1999: instalações prediais de esgoto sanitário.
8. NBR 5410/2004: instalações elétricas de baixa tensão.
9. NBR 5413/1992: iluminância de interiores.
10. NBR 5473/1986: instalações elétricas prediais.
11. NBR 7198/1993: projeto e execução de instalações de água quente.
12. NBR 13.932/1997: instalações internas de gás liquefeito de petróleo (GLP) – projeto e execução.
13. NBR 13.933/1997: instalações internas de gás natural (GN) – projeto e execução.
14. NBR 9575/2010: impermeabilização – seleção e projeto.
15. NBR 6023/2000: informação e documentação: referência – elaboração.
Ainda assim, cabe aos projetistas atentarem para as especificidades deste tipo de construção, pois muitas das sugestões das normas não podem ser utilizadas neste uso específico, por questões de segurança, como por exemplo, a colocação de extintores dentro de módulos de alojamentos, pois os mesmos podem ser utilizados como arma pelos detentos.

Para quem quer atuar nesta área, seja arquiteto ou engenheiro, as universidades brasileiras têm disciplinas voltadas a isso?
Não. Inclusive, tenho recebido diversos e-mails de alunos, pedindo ajuda para convencer os professores sobre a elaboração de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), porque alguns consideram que isto não é arquitetura. A este respeito, gostaria de enfatizar a gigantesca necessidade de soluções técnicas para o atendimento da população que vivencia o espaço prisional, que não se restringe apenas a criminosos. Temos agentes penais, profissionais de saúde, educação, psicologia, religiosos, visitantes, os quais não deveriam cumprir penas de reclusão, pois estão a serviço do estado, mas que, por estarem vivenciando ambientes insalubres, inadequados, fechados, opressores, também desenvolvem problemas de saúde. Além disso, a população presa tem uma maior propensão de contágio de tuberculose e hanseníase (conforme dados da coordenação de saúde prisional MS) e que precisa de ambientes que minimizem este contágio. É preciso ficar claro que o ambiente prisional impacta na saúde de milhares de pessoas, ainda que não estejam presas. Deste ponto de vista, defendo a necessidade e a urgência de pesquisa e ensino voltados para a compreensão deste espaço, pois ele precisa ser adequadamente projetado.

Sobre especialização, existem cursos na área de arquitetura prisional?
Não existe. Temos tentado implantar uma especialização a distância, com o corpo docente já preparado para tal desafio, porém a burocracia para a contratação dos professores e recursos para o curso têm dificultado enormemente esta capacitação de profissionais. Vale destacar que a realidade prisional não é facilmente compreendida e depende de aspectos sociais, culturais e psicológicos inerentes a cada lugar. Portanto, se faz necessária a realização de pesquisas e de transparência, para que consigamos transpor o obstáculo da opacidade prisional para projetarmos melhores espaços.

Em outros países, o profissional que quer se especializar nesta área pode optar por quais caminhos?
Existem escritórios cujo foco é, exclusivamente, projetar prisões. Porém, não há especializações em nível de pós-graduação. O que há, é a experiência adquirida com os projetos realizados.

O concreto predomina nestas construções?
Sim. Acredita-se que seja a especificação técnica que garante maior segurança. Porém, como eu disse anteriormente, a própria sustentação do concreto já propicia subversões, tais como fabricação de armas. As pesquisas relacionadas ao concreto têm avançado no sentido de maior resistência (temos concretos que chegam a apresentar 120 MPa de resistência) mas esta resistência a impacto não anula a capacidade criativa deste usuário, em especial. Além disso, dependendo das condições bioclimáticas locais, este não é um material adequado à manutenção do conforto bioclimático dos ambientes, o que pode impactar no aumento do estresse do usuário e, consequentemente, da violência no interior da cadeia.

Um presídio de segurança máxima, por exemplo, requer quantos m3 de concreto, pegando os modelos brasileiros?
Isto depende do projeto arquitetônico, mas eu não tenho dados suficientes. Não consigo responder a esta pergunta, porque não se consegue, facilmente, acesso aos projetos ou especificações técnicas dos projetos de unidades penais. O argumento - no meu entendimento bastante equivocado - é a segurança. Os gestores acreditam que a publicidade dos projetos prejudica a segurança das unidades. Infelizmente, este argumento é utilizado para inviabilizar pesquisas e avanços técnicos e tecnológicos nesta área.

A industrialização, através de pré-fabricados e pré-moldados, também está presente neste tipo de obra?
Está sim, e em curva ascendente. Temos um déficit gigantesco de vagas e a industrialização consegue diminuir o tempo de execução das obras, atendendo a urgência. Concretos de Alto Desempenho, autoadensáveis e impermeáveis têm sido utilizados para a pré-fabricação de celas, que são transportadas para as obras já montadas. Mas ainda temos no Brasil poucas empresas com este tipo de serviço. Nesse sentido, as universidades poderiam trabalhar para difundir esta tecnologia, bem como outras pesquisas relacionadas a esta área específica, dada a complexidade do tema, que considera ainda soluções técnicas e tecnológicas para demandas de respostas interdisciplinares. De uma maneira geral, a necessidade de compreensão do comportamento de materiais com maior grau de complexidade, dadas as demandas especiais deste tipo de construção, refletidas no desenvolvimento de novas técnicas de materiais construtivos, se configura como claro exemplo de necessidade de investimento tecnológico neste setor.

Entrevistada
Arquiteta Suzann Cordeiro, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Projetos Especiais da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e consultora na área de arquitetura penal, além de doutora em psicologia
Contatos
secfau.ufal@gmail.com
coordenacao.aurb@fau.ufal.br
www.suzanncordeiro.com

Crédito Foto: Divulgação/Construtora Porto Belo

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Regime que apressa licitações ameaça qualidade das obras

Medida Provisória permite contratação diferenciada, mas é criticada pelo setor da construção civil e por especialistas do direito público

Por: Altair Santos

O setor da construção civil observa com ressalvas o trâmite da medida provisória (MP 630/13) que institui o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) e dia 9 de abril de 2014 passou pela Câmara Federal. O Senado tem até 3 de junho para votar a MP, que, caso seja aprovada, vai para a sanção da presidência da República. O RDC simplifica as contratações do poder público, mas é visto por organismos que unem engenheiros e arquitetos como um agravante que gera riscos de desvios nas contratações públicas. O argumento deles é de que “quem projeta, não constrói, quem constrói não faz projeto”. Em tese, a preocupação é de que, ao permitir a contratação pelo projeto básico ou anteprojeto, a MP 630/13 abra brecha para o superfaturamento, tornando como regra comum os chamados aditivos de obras.

Plenário da Câmara aprovou MP, que agora precisa passar pelo Senado e ser sancionada pela presidência

De acordo com o presidente do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) Sérgio Magalhães, licitações sem projeto completo têm reflexos na qualidade da obra. “Defendemos que as licitações sejam feitas com projeto completo. Sem isso, a qualidade das obras se torna questionável, propicia aditivos, aumento de preços e outros problemas já identificados pelo próprio governo”, afirma o dirigente. Além do IAB, são contrários ao RDC os seguintes organismos: Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas (FNA), Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA), a Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura (ABEA), a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), CONFEA (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), Sindicato da Arquitetura e Engenharia (Sinaenco), a Associação Nacional dos Servidores Públicos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos do Poder Executivo Federal (ANSEAF).

Outro organismo que se pôs na linha de frente contra o RDC foi o SindusCon-SP.  Em recente boletim, intitulado "Risco de retrocesso", o organismo faz a seguinte alegação: "O RDC introduz mais incertezas. Retira a transparência do processo licitatório, ao não divulgar os valores de referência atribuídos pelo governo às obras. Ao permitir que a mesma empresa elabore o projeto executivo e o realize, levanta dúvidas sobre a qualidade da obra e abre a possibilidade de a concorrência ser dirigida, com a antecipação de informações a determinado licitante, que teria mais tempo para trabalhar o projeto."

Melhor preço
O RDC foi proposto pelo governo e aprovado pelo Legislativo, inicialmente, para acelerar as obras destinadas à realização da Copa do Mundo, da Copa das Confederações e dos Jogos Olímpicos de 2016. Posteriormente foi estendido a obras do programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Sistema Único de Saúde (SUS) e do sistema público de ensino. Com o projeto aprovado na Câmara, o regime foi estendido a todos os contratos de obras e serviços de engenharia de todos os órgãos da administração pública federal, estaduais e municipais. "Uma das modificações introduzidas pelo RDC é o julgamento da licitação primeiro pelo menor preço, para só depois proceder ao exame da habilitação técnica das concorrentes. Esta inversão do que preconiza a Lei de Licitações pode levar administradores públicos a desconsiderarem eventual ausência de qualificação técnica da empresa, o que no futuro levará à paralisação de obras", alerta boletim do SindusCon-SP.

Outro crítico do RDC é o especialista em direito público Jacoby Fernandes. Segundo ele, há a necessidade da proposta ser alterada para prever a qualificação do servidor público que irá operar o RDC. "Imagine uma nova lei extremamente complexa como é o RDC. As pessoas dizem: é muito fácil. Não, não é. Eu sou um especialista na área e afirmo que essa lei é uma lei difícil. Por exemplo, se uma empresa que começou uma obra em contratação integrada desiste de fazê-la, a lei diz: chama o segundo colocado. Mas o segundo colocado pode ter metodologia diferente, cobrar mais e estender o prazo da obra. E a lei não resolveu", diz.

Outro lado
A alegação do governo federal para acelerar a aprovação do RDC é de que, sem ele, não conseguirá encaminhar uma série de obras de infraestrutura que já dispõem de recursos, mas estão barradas pelos organismos fiscalizadores. De acordo com mensagem encaminhada ao Congresso, primeiramente a medida provisória permitirá investimento de R$ 7,3 bilhões no desenvolvimento da aviação regional, liberando R$ 1,7 bilhão, para 67 aeroportos da região norte; R$ 2,1 bilhões, para 64 aeroportos regionais do nordeste; R$ 924 milhões, para 31 aeroportos no centro-oeste; R$ 1,6 bilhão, para 65 aeroportos no sudeste, e R$ 994 milhões, param 43 aeroportos do sul.

Clique aqui e entenda o que é o Regime Diferenciado de Contratações:

Entrevistados
- Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo)
- Advogado  Jorge Ulisses Jacoby Fernandes, mestre em direito público, professor de direito administrativo, escritor, consultor, conferencista e palestrante

Contatos
comunicacao@iab.org.br
sindusconsp@sindusconsp.com.br
http://www.jacoby.pro.br/novo

Crédito Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Estoque de imóveis prontos cresce nas construtoras

Empresas fecharam 2013 com R$ 14,6 bilhões travados por falta de negociação e por impasse nas vendas das faixas 2 e 3 do Minha Casa Minha Vida

Por: Altair Santos

Puxado pelas quatro maiores construtoras do mercado - MRV Engenharia, Cyrela, Direcional Engenharia e Gafisa -, o estoque de imóveis fechou 2013 com um valor de R$ 14,6 bilhões. Para entender melhor, o setor considera imóvel em estoque aquele já construído ou colocado à venda na planta, mas que ainda não atraiu o interesse de um comprador no período máximo de três anos. Sob essa perspectiva, cerca de 46 mil unidades residenciais ficaram paradas no ano passado nas principais capitais brasileiras - 18 mil só na cidade de São Paulo.

Estoque de imóveis das principais construtoras terminou o ano passado em alta

Para especialistas, o nível do estoque atingido em 2013 representa uma espécie de fronteira entre a normalidade e a crise no setor. Há, no entanto, a apreensão de que o cenário econômico faça a construção civil ultrapassar esta linha. "O mercado imobiliário é muito sensível à estabilidade econômica. Quando os juros sobem, o mercado reage negativamente. E, hoje, é esta a situação do nosso país. Então as decisões de compromisso de longo prazo, como prestação da casa própria, tornam-se mais lentas ou até são adiadas. É o que está acontecendo, acarretando um incremento nos estoques de imóveis", diz Odair Senra, vice-presidente de Imobiliário do SindusCon-SP.

Um outro sinal que contribui para o aumento do estoque de imóveis é que os investidores estão migrando para outros meios, a fim de proteger seu dinheiro, em vez de correr para a compra de unidades na planta, para depois vender ou alugar. "Esse segmento estabilizou", reconhece Emílio Kallas, vice-presidente de Incorporação do Secovi-SP. "Nas grandes metrópoles, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, os investimentos estão mais comportados e adquiriram menor velocidade", completa Odair Senra.

Odair Senra: MCMV3 seria um impulso para o mercado voltar a reaquecer

Apesar de o estoque ter fechado 2013 no limite, o setor não crê que as construtoras baixem os preços. Se isso ocorrer, será exceção. "O que pode acontecer é algum caso isolado, de alguma empresa decidir acabar com os estoques de um produto não bem aceito e que, para ela fazer caixa, tentar uma liquidação. Mas de forma geral o custo dos imóveis está aumentando", entende Emílio Kallas.

Outra perspectiva do mercado é que o governo volte a estimular a construção civil, lançando uma terceira etapa do Minha Casa Minha Vida. "Os empresários que atuam neste segmento estão esperando do governo federal o anúncio do MCMV 3. Este programa não pode ter descontinuidade, pois o segmento não suportaria", alerta o dirigente do SindusCon-SP.

Já Emílio Kallas descarta haver sinais de bolha imobiliária. "Os economistas mais conscientes já perceberam que esta é uma teoria vaga que não tem nenhuma lógica ou razão de existir. Veja: custo dos imóveis subindo, pois tem mais impostos e terrenos mais caros. Então, não tem porque diminuir preço; segundo: a demanda está aquecida; terceiro: a inadimplência é baixíssima; quarto: quando se compra um apartamento, a média é que 35% do valor do apartamento seja quitado no ato da negociação, o que é uma âncora é muito forte; quinto, os bancos são extremamente seletivos para liberar financiamento", destaca.

Emílio Kallas: não há a menor possibilidade de uma bola imobiliária

Entrevistados
Engenheiro civil Odair Garcia Senra, presidente do conselho de administração da Gafisa S/A e vice-presidente de Imobiliário do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo)

Engenheiro civil Emílio Kallas, diretor-presidente da Kallas Engenharia Ltda e Kallas Incorporações e Construções S/A, e vice-presidente de Incorporação e Terrenos Urbanos do Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo)

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Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Mineradores de areia tentam reinventar mercado

Produto, antes vendido por m³, agora é negociado por peso. Setor também ampliou preocupação ambiental e materiais alternativos tentam suprir demanda

Por: Altair Santos

Apesar de ser um dos que mais cresceram com o fortalecimento da construção civil, o setor de agregados, como areia e pedra brita, não está seguro. Falta de planejamento governamental e restrições ambientais estão empurrando a extração para cada vez mais longe dos grandes centros consumidores do país, o que tende a encarecer o produto.

Mineradoras têm procurado minimizar problemas ambientais e consideram mais justo vender areia por peso

Para se reinventar, o setor busca materiais alternativos. Entre eles, a areia de rocha ou a areia de resíduos da construção civil. Como em algumas regiões, principalmente as de Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro, já existe pressão por demanda, a ANEPAC (Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para a Construção Civil) entende que os organismos públicos deveriam ter uma política para a extração da areia, o que não ocorre. É o que explica o presidente do organismo, Fernando Mendes Valverde, na entrevista a seguir. Confira:

Como está atualmente a questão da produção de areia para a construção civil, fazendo uma abordagem de região por região no país?
Impossível avaliar região por região, devido à diversificação dos mercados e à enorme gama de produtores. De uma maneira geral, o setor de areia para construção civil teve uma retomada de crescimento a partir de 2004, com aumento consistente até o presente.  Novas obras públicas, aumento da renda e financiamento habitacional foram os principais fatores para a elevação do consumo. Atualmente, a demanda está alta face às obras de infraestrutura e habitacionais, por serem indispensáveis ao crescimento econômico do país. Podemos dizer que o setor vive um clima de bom desempenho devido aos investimentos públicos e privados em infraestrutura, embalados pelos programas governamentais e pelo crescimento da demanda habitacional, facilitado pelo crescimento de renda, o que proporciona crédito acessível para grande parte da população.

Existe risco de faltar esse agregado importante para a fabricação de concreto, sobretudo nas regiões que mais a consomem, como a sudeste, por exemplo?
Problemas de abastecimento de areia no Brasil, de momento, ainda não existem. Há pressões de demanda em alguns mercados expressivos, como ocorreu nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. No entanto, em um cenário de longo prazo, com a persistência das condições atuais, poderá ocorrer agravamento de suprimento de areia em regiões de alta demanda pela ausência de mecanismos públicos de planejamento da atividade. Esses mecanismos correspondem, na maioria das vezes, à inclusão da mineração de areia no ordenamento territorial consolidados nos planos diretores municipais.

Fernando Valverde, da ANEPAC: planejamento da atividade e ordenamento territorial é estratégico para o setor e para o governo

Nos últimos anos, temos percebido o aumento na utilização de areia de brita, principalmente nos grandes centros urbanos. Há como quantificar em que volume esse material é usado?
De fato, tem-se ampliado nos últimos dez anos o uso de areia de brita ou areia de rocha, anteriormente designada por areia artificial ou areia manufaturada. É bom não confundir com o grupo denominado de areia industrial, que são as areias para a fabricação de vidro, fundição e outras finalidades para uso na indústria. Em termos quantitativos, estimamos que a demanda anual por areia de brita seja da ordem de vinte milhões de toneladas.

Aliás, qual é a diferença entre a areia de brita e a areia natural em termos qualitativos?
Areia de brita é resultado do beneficiamento do pó de pedra, com melhoria do formato - de bordas cortantes para a forma arredondada. Já as curvas granulométricas da areia de brita e da areia natural apresentam-se diferentes, sendo que ocorre uma porcentagem maior de ultrafinos (abaixo de 200#) na areia de brita. A dificuldade tecnológica existente é extrair economicamente os ultrafinos, seja em processos via seca ou via úmida.

Soluções como areia de brita e substituição da areia por resíduos de demolição são viáveis ou apenas paliativos?
Areia de brita e a areia natural, em termos qualitativos, se equivalem, sendo que as necessidades técnicas e econômicas determinadas pelo mercado definem qual deve ser a escolha. Já não é o caso da areia reciclada de demolição. Esta é normalmente contaminada com material cerâmico, plásticos etc, o que impede sua utilização em alguns usos, principalmente na preparação do concreto estrutural. Existem projetos acadêmicos que indicam possibilidade de utilização, mas cuja viabilidade econômica não permite sua utilização comercial.

A extração da areia e os conflitos ambientais que ela gera são o maior desafio do setor para conseguir com que a produção aumente?
Falta de planejamento é o grande problema do setor. O setor vem há muito tempo afirmando a necessidade de planejamento adequado para poder cumprir sua função social. Nosso setor, por atuar em ambiente urbano, disputa espaço com vários tipos de uso de solo, o que não ocorre na maioria das vezes com outros produtores minerais. Por este fato, o custo de transporte é fator limitante para nós. Não podemos estar longe dos consumidores. Há um discurso daqueles que se opõem à atividade, de que areia ocorre em qualquer lugar. Realmente, areia é abundante, mas não dá para pegar areia em Copacabana e levar para Belo Horizonte, nem de Santos para São Paulo, por exemplo.

Como desafio, por outro lado, seria o de reservar e proteger áreas em extração e potenciais para serem exploradas. Devemos reconhecer que os governos (no sentido genérico) estão ainda muito atrasados nesta questão. Em princípio, existe hoje o reconhecimento de que a mineração de areia é uma atividade importante para a melhoria do padrão de vida dos habitantes das cidades. Entretanto, institucionalmente, muito pouco foi feito. Ainda persiste entre os administradores públicos a noção distorcida de que os recursos de areia para a construção civil são abundantes. Prevalece o pensamento de que um porto de areia não passa de um estorvo. Quanto mais longe estiver dos olhos dos cidadãos, melhor. Se o problema deve existir, que seja com o vizinho, e por aí afora. Ao contrário de outros países, não temos levantamentos sistemáticos de recursos de areia, nem se planeja executá-los. Não há preocupação em solucionar os entraves legais e burocráticos à atividade. Em estados como Rio de Janeiro e São Paulo, o problema se tornou grave na década de 1970 e muito pouco foi feito para saná-lo.

Um outro problema muito sério é a questão dos reciclados. É importante ressaltar que o problema dos resíduos da construção civil é um problema da sociedade, com reflexos muito fortes nos municípios. Como todo material produzido é necessário dar uma destinação final para se fechar o ciclo, o setor está bastante preocupado, pois a solução passa por uma legislação que ainda não está clara, especialmente no que se refere à coleta e classificação dos resíduos.

Como solucionar esse problema a nível governamental?
A produção de areia nos principais mercados não atende à demanda e ela tem de ser trazida de outras regiões. Muitos municípios têm criado leis para impedir a instalação de novas minas e dificultando o funcionamento daquelas em operação. Há uma noção errada de que areia pode ser encontrada em qualquer lugar e ninguém aceita que exista uma extração no “seu quintal” (de NIMBY – Not In My Back Yard), como não aceitam feiras livres, cemitérios, ruas de lazer, lixões etc. Tudo isso encarece o produto, que tem de ser buscado cada vez mais longe. Portanto, o planejamento da atividade ou ordenamento territorial se afigura como estratégico para o setor e para o governo. Paralelamente, a racionalização do licenciamento ambiental deve urgentemente ser solucionado. Há uma enorme dificuldade para a obtenção das licenças municipais e ambientais. Quando se consegue, o tempo para a renovação não condiz com o volume de investimentos realizados.

Em resumo, o grande problema que existe hoje é a convivência com o entorno das minerações de areia causada pela falta de planejamento dos governos, especialmente o municipal, que é o responsável pelo uso do solo. A solução passa então pelos planos diretores municipais. Estes devem contemplar a mineração como atividade de uso e ocupação do solo como as demais atividades econômicas.

Há uma estatística de quanto é consumido de areia em todo o país, por mês ou por ano?
Segundo a Anepac/Sindipedras-SP, em 2013 a produção de agregados (areia e pedra britada somados) alcançaram a ordem de 770 milhões de toneladas (456 milhões de toneladas de areia e 314 milhões de toneladas de brita) ou seja, um crescimento de 7,59% em relação a 2012. Deve-se levar em conta que o crescimento do PIB no mesmo ano foi de 2,3%.

O Brasil importa ou já cogitou importar areia?
A areia é um produto mineral que deve ser extraído o mais próximo de seu ponto de consumo. Areia é relativamente abundante e barata. Custa de R$ 15,00 a R$ 20,00 a tonelada, para ser retirada dos portos de areia. Então, não se pode falar em importação de outros países. Trazer, por exemplo, areia do Rio Paraná para a região metropolitana de São Paulo é inviável economicamente. São 800 quilômetros de transporte. O mesmo pode ser dito do Rio Grande ou do Paranapanema. São grandes rios que estão nas divisas estaduais. Imagine então trazer de locais ainda mais longes. O limite de transporte por caminhões em países desenvolvidos não passa de 50 quilômetros. Em São Paulo, se transporta a mais de 100 quilômetros do seu ponto de extração. A areia passa de R$ 15,00 a R$ 20,00 para mais de R$ 60,00 e R$ 70,00 a tonelada, só por causa do transporte.

No Rio Grande do Sul, salvo engano, cogitou-se até vender areia por quilo por causa do risco de escassez do agregado. Isso, de vender areia por quilo, é uma possibilidade real?
A venda da areia por quilo ou ensacada é apenas uma conveniência de comercialização para, por exemplo, não deixar a areia empilhada, permitindo o acúmulo de umidade, e para liberação de vias de transporte interno.

O senhor sabe se há desenvolvimento de pesquisas, por exemplo, que permitem no futuro dessalinizar a areia do mar para que ela possa ser usada na construção civil?
Existem países, como França, Inglaterra e Japão, que utilizam quantidades consideráveis, devido à absoluta carência de produtos naturais. No Brasil, existem pesquisas e iniciativas neste sentido, desenvolvidas principalmente por técnicos do Departamento Nacional de Produção Mineral da Superintendência de Fortaleza, no Ceará. Porém, ainda incipientes, pois necessitam de viabilidade técnico-econômica para o aproveitamento além do que os depósitos no continente serem abundantes.

Entrevistado
Geólogo Fernando Mendes Valverde, especializado em economia mineral pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e pela Mc Gill University do Canadá. Atualmente, é presidente-executivo da ANEPAC (Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção Civil).
Contato: fernando.valverde@anepac.org.br

Créditos Fotos: Divulgação/ANEPAC

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Obras de infraestrutura estimulam setor de seguro

Know-how das seguradoras ajuda a mapear riscos das construções de grande porte, principalmente as envolvidas em licitações e realizadas em consórcio

Por: Altair Santos

Os altos investimentos em obras de infraestrutura no país têm feito o setor de seguros não apenas crescer, mas adotar novos modelos de relacionamento com a engenharia. As seguradoras estão indo além do que oferecer prêmios que estimulem as construtoras a proteger suas obras. Elas hoje se tornaram parceiras das etapas de construção, ofertando parceria na gestão de risco do empreendimento.

Carlos Almeida: gestão de risco dá maior segurança para tomar decisões durante a obra

Ao serem contratadas para segurar uma construção, as seguradoras passaram a utilizar uma ferramenta chamada de matriz de risco. A função é mapear as ameaças a que a obra está sujeita e propor tratamentos. “Sem conhecer e identificar os principais riscos, as soluções aplicadas podem conter falhas ou estar inadequadas para a exposição”, explica Carlos Almeida, diretor da Universal RE Seguros, e que recentemente palestrou no Sobratema Workshop 2014.

Segundo Almeida, a matriz de risco está diretamente relacionada com cumprimento de orçamento e cronograma de uma obra. "Ela traz informações que dão maior segurança para tomar decisões, pois minimiza o risco acidental, súbito e imprevisto. Na maioria das vezes, o que é mapeado é o elemento humano, mais do que o elemento físico. Já existe a convicção de que investir em elemento humano reduz a gestão de risco", afirma o especialista, citando o monotrilho em construção em São Paulo-SP como exemplo de uma obra que implantou a matriz de risco.

De acordo com Carlos Almeida, há uma tendência ainda maior de que a gestão de risco seja cada vez mais abrangente por parte das seguradoras. O motivo é a probabilidade de a lei 8.666, que define o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) passar a nortear todas as licitações públicas. Na essência, a lei, que foi criada para acelerar as obras dos estádios e de mobilidade urbana para a Copa do Mundo, tira do contratante - no caso o governo - o peso de assumir o risco da obra e transfere integralmente para a construtora.

Monotrilho em construção em São Paulo: obra em que o seguro ajudou a melhorar o desempenho do canteiro de obras

Mais produtividade
Outro fator que acelera a busca por esse modelo de seguro é o posicionamento das construtoras brasileiras em alcançarem o máximo da produtividade e competitividade em suas obras. “Sem conhecer e identificar os principais riscos, as soluções aplicadas podem conter falhas ou estar inadequadas para a exposição”, explica Almeida, completando que a correta elaboração da matriz de riscos vai assegurar que a obra tenha andamento previsível, seguro e sem sobressaltos. “Surpresas desagradáveis podem ser evitadas.”

No entender do especialista, essa preocupação das empresas ligadas à construção civil em apresentar melhor performance está ligada à expectativa do mercado, que projeta o investimento de R$ 1,19 trilhão em obras de infraestrutura até 2018, sobretudo em segmentos como óleo e gás, transporte, energia e saneamento. Isso faz o mercado de seguros de risco de engenharia viver um momento de aquecimento. Entre 2010 e 2011, a carteira mais que dobrou, indo de R$ 460 milhões a R$ 912 milhões. Estabilizou em 2012 e 2013, mas o setor avalia que avançará fortemente nos próximos quatro anos.

Entrevistado
Engenheiro mecânico Carlos Eduardo Almeida, graduado pela Brigham Young University-EUA e atualmente diretor da Universal RE Corretores de Resseguro
Contato: carlos.almeida@universalre.com.br

Crédito Foto: Divulgação/SPTrans/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Entorno desafiou obra do viaduto estaiado de Curitiba

Trânsito na Avenida das Torres e gestão da comunidade na região do empreendimento deram mais trabalho do que o projeto, que foi cumprido à perfeição

Por: Altair Santos

O primeiro viaduto estaiado de Curitiba teve seu projeto cumprido à perfeição. "Depois de a obra pronta, dizíamos que ficou fidedigna à maquete", conta Vinícius Milhan Hipólito, engenheiro de planejamento do consórcio CR Almeida/J.Malucelli - responsável pela construção do empreendimento.

Vinícius Hipólito: dentro do canteiro de obras, viaduto estaiado beirou a perfeição

Iniciada em agosto de 2012, a construção foi entregue ao público em 12 de abril de 2014. Os maiores desafios não estiveram vinculados ao projeto, mas ao entorno da obra. A ponto de o consórcio ter criado uma central de relacionamento para se aproximar da comunidade moradora no entorno da construção.

O trânsito na Avenida das Torres também precisou de uma gestão intrincada para que a obra pudesse avançar. O fluxo de quase 20 mil veículos por dia exigiu que a construção progredisse sem causar congestionamentos. "Pelos menos duas faixas de cada uma das vias precisavam ficar livres. Essa restrição de espaço foi mais um desafio", lembra Vinícius Milhan Hipólito.
Se fora do canteiro de obras houve obstáculos a serem vencidos, dentro a obra caminhou de acordo com o cronograma e cumpriu à perfeição o projeto.

O viaduto estaiado consumiu 15.765 m³ de concreto Concrebras. O emprego do material requereu processos inovadores. Para a construção da laje foi usado concreto com fibras de polipropileno.  "A 40 MPa de resistência, a concretagem saiu perfeita, sem nenhuma fissura", relata Vinícius Milhan Hipólito.

Concreto da Concrebras
Já os pilares e o tabuleiro utilizaram concreto autoadensável (CAA) para que o bombeamento fosse facilitado. Tanto no uso de CAA como no do concreto das lajes, a Concrebras foi quem forneceu o material. "O fornecimento de material de qualidade também influenciou na competência da obra", revela o engenheiro de planejamento do consórcio que viabilizou a obra.

Viaduto estaiado: laje recebeu concreto com fibras de polipropileno e não apresentou nenhuma fissura

A construção do viaduto estaiado começou em outubro de 2012, com as fundações. A etapa final foi concluída no final de março de 2014. A obra tem 225 metros de extensão, com duas pistas em cada sentido, além de ciclovias e calçadas laterais para pedestres em ambos os lados. A estrutura é mista - metal com laje de concreto pré-fabricado. Um mastro, com 74 metros de altura, está ligado aos 21 cabos (estais) de sustentação.

Outro cuidado importante foi com a temperatura do concreto na concretagem do bloco de fundação. O volume de 3.800 m3 exigiu monitoramento constante para evitar a elevação da temperatura e assim, controlar a expansão e o consequente fissuramento do concreto. A utilização de cimento com baixo calor de hidratação – CP IV-32 da Itambé, em conjunto com aditivos polifuncional e superplastificante, permitiu minorar bastante o sério problema e garantir a integridade desta etapa da obra”, observa o Engenheiro Jorge Luiz Christófolli, Gerente de Desenvolvimento Técnico da Concrebras.

Entrevistado
Engenheiro civil Vinícius Milhan Hipólito, vinculado ao consórcio CR Almeida/J. Malucelli na função de engenheiro de planejamento
Contato: vinicius.hipolito@cralmeida.com.br

Crédito Foto: Divulgação/Prefeitura de Curitiba

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

São Paulo planeja limitar prédios a oito andares

Maior cidade do país prepara novo plano diretor para conter verticalização em bairros já condensados e espera influenciar outras políticas urbanas

Por: Altair Santos

A cidade de São Paulo prepara um novo plano diretor que, se der certo, tende a orientar outros planos pelo país afora. O objetivo é, depois de décadas, conter o crescimento desordenado do município e reter a verticalização em bairros já condensados de edifícios. Para isso, uma das propostas polêmicas é limitar a construção de prédios a até oito andares em áreas que não sejam cortadas por grandes avenidas e servidas por transporte público, como metrô e corredores de ônibus. Por outro lado, o município estimulará a construção de condomínios verticais, com torres de até 200 metros, em bairros periféricos da cidade.

Cidade de São Paulo: plano diretor radicaliza contra prédios altos em áreas já saturadas

Ainda tramitando na Câmara Municipal de São Paulo, o novo plano diretor tende a entrar em vigor em 2015. Junto, ele promoverá um novo código de obras para a capital paulista, como explica Paulo Giaquinto, secretário-adjunto da Secretaria de Licenciamento da prefeitura paulistana. “A premissa do novo código de obras é que ele privilegie a questão da responsabilidade técnica e priorize a aplicação das normas técnicas para a construção civil, elaboradas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Ele não incorrerá no erro de códigos anteriores, que regulavam técnicas construtivas”, afirma.

Dentro do novo plano diretor, o futuro código de obras da cidade de São Paulo terá como norma principal a ABNT NBR 15575:2013 - Edificações Habitacionais - Desempenho. Por isso, o interesse do município em contemplar construções de até oito andares em bairros condensados. “A Norma de Desempenho consolida um conjunto de outras normas e é importante que ela norteie o código de obras”, explicou Giaquinto. A NBR 15575 está em vigor há mais de um ano e, em sua essência, define novos parâmetros termoacústicos para as edificações, incorporando uma série de outras normas.

História
Em São Paulo, o primeiro plano diretor surgiu em 1865. Como a cidade vivia um período de epidemias, ele tinha um caráter sanitarista, mas englobava também um código de posturas, um código de obras e um de zoneamento. Foi a primeira vez que se definiu altura mínima de guias, altura mínima de edificações e altura mínima de pé direito. Além disso, estabeleceu também em que lugar da cidade poderiam ser construídos cortiços – hoje, favelas. As normas estabelecidas no século 19 prevaleceram até 1929, quando começou a ser implantado um novo plano para a capital paulista.

Consolidado em 1934, estabeleceu-se também um novo código de obras, que entre as novidades passava a regulamentar o engenheiro prático, definia regras para loteamento e regulava técnicas construtivas. “Esse foi o erro do passado, pois ele congelou tecnologias para a construção civil”, alerta Paulo Giaquinto. A lei de 1934 prevaleceu até 1975, quando, após os trágicos incêndios nos edifícios Andraus e Joelma, entrou em vigor um novo código de obras. Ele durou até 1992, com a sanção do atual código, o que contempla algumas normas técnicas da ABNT, mas procura legislar sobre materiais, elementos construtivos e equipamentos. Além disso, não orienta aonde se pode ou não construir espigões – equívoco que o futuro código espera corrigir.

Entrevistado
Arquiteto e urbanista Paulo Giaquinto, professor-doutor e secretário-adjunto da Secretaria de Licenciamento da Prefeitura de São Paulo
Contato: giaquinto@mackenzie.br

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330

Concreto centrifugado permite obra inovadora no RJ

Tecnologia permite produzir estacas para sustentar supervigas do acesso rodoviário e ferroviário ao Porto do Açu, na região norte do Rio Janeiro

Por: Altair Santos

Os acessos rodoviário e ferroviário do Porto de Açu, na região norte do estado do Rio de Janeiro, tornaram-se referência para a construção civil voltada ao setor de obras de infraestrutura. Principalmente pelas inovações aplicadas no empreendimento. Houve um severo processo de industrialização, principalmente para que o cronograma pudesse ser cumprido. Com isso, a construção tornou-se um case sobre o uso de concreto centrifugado e a fabricação de supervigas.

Estacas de concreto centrifugado sustentam megavigas no complexo do Porto do Açu

A obra consistiu na construção de uma ponte ferroviária, uma ponte rodoviária e dois viadutos rodoviários. O volume total de concreto utilizado na estrutura chegou a 6.521 m³ e a metragem linear de estacas centrifugadas usadas para a fundação atingiu 10.171,40 metros. "A ponte rodoviária recebeu oito vigas de 36 metros cada uma. Já a ponte ferroviária recebeu 136 vigas. Foram usados 23 m³ de concreto em cada viga. “Um dos destaques desse projeto foi a adaptação do concreto protendido, passando de um sistema pós-tração para um sistema misto ou de pré-tração”, afirmou o engenheiro civil Gustavo Rovaris, que gerenciou a obra.

Além das supervigas, as estacas de concreto centrifugado também fizeram parte das inovações construtivas usadas no complexo viário do Porto de Açu. Essa tecnologia foi necessária porque o mar da região é considerado bastante agressivo. Além disso, são muitas as vantagens que o processo de centrifugação oferece. Ele permite variar a espessura da parede do elemento vazado - poste, estaca, coluna ou viga - e beneficia projetos com necessidades estruturais ou de durabilidade muito específicas.

Na centrifugação, o concreto é submetido a uma compactação de até 50 vezes a força da gravidade. Durante o processo, o material fresco e plástico é distribuído de maneira uniforme  Como resultado, as distâncias entre os agregados e outras partículas sólidas são reduzidas e, parte da água – além de partículas finas de baixa resistência – são expulsas do concreto. Isso permite atingir alto grau de compacidade, dentre os diversos métodos de adensamento existentes.

Gustavo Rovaris: falta de espaço no canteiro de obras para produzir megavigas foi um dos desafios

Outro motivo que levou os projetistas a optarem por supervigas e por estacas centrifugadas de concreto é o alto tráfego que o complexo viário receberá. O corredor logístico foi dimensionado para transportar 200 milhões de toneladas por ano, com circulação de até 100 mil veículos por dia. Por isso, disse Gustavo Rovaris, investiu-se também na padronização das peças para cumprir os prazos. “Para aumentar a produtividade e reduzir os custos nas obras, é importante, ainda, a padronização”, enfatiza o engenheiro.

Entrevistado
Engenheiro civil Gustavo Rovaris, especialista em construção industrializada
Contato: cassolrj@cassol.ind.br

Créditos Fotos: Divulgação/Cia. Cimento Itambé

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330