Capital privado é importante para a infraestrutura

Especialista defende que, para tirar obras do imobilismo, governo precisa ser mais regulador e fiscalizador e menos investidor

Por: Altair Santos

Para a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib) não há mais como o Brasil  recuar na questão do investimento em grandes obras. Em seu último boletim de análise de 2011, a entidade avaliou que o setor tem condições de ser a plataforma para a expansão do crescimento em 2012. No entanto, a Abdib ressalta que o poder público precisa potencializar a participação do capital privado na infraestrutura brasileira.

Adriano Pires: "O ditado, infraestrutura é dever do Estado, já não está valendo mais nos dias atuais”.

A linha de pensamento coincide com a de Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). "É preciso atrair mais recursos privados, mas para isso é necessário dar mais segurança regulatória e jurídica para os investidores. Infraestrutura requer investimentos de longo prazo e o Brasil não pode deixar passar essa oportunidade. Principalmente  quando estamos diante de eventos internacionais como Copa do Mundo e Olimpíadas", diz.

Em 2011, o investimento total em infraestrutura somou  R$ 184 bilhões, entre recursos públicos e privados. Até 2016, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) projeta injetar mais R$  922 bilhões no setor. O problema, detecta Adriano Pires, é que quase metade deste valor (R$ 424 bilhões) irá para o segmento de petróleo e de gás, quando saneamento básico, estradas, portos e aeroportos também precisam receber igual volume de recursos. "O BNDES não é suficiente para resolver o problema. O governo precisa ter mecanismos para atrair investimentos que não sejam públicos", avalia.

Segundo o diretor do CBIE a iniciativa privada está muito interessada em investir em obras de infraestrutura no país, mas o governo precisa sinalizar. "Infraestrutura no Brasil dá retorno suficiente para que o setor privado faça os investimentos. O que deveria acontecer é que o Estado deveria estar mais preocupado em ser regulador e fiscalizador e menos preocupado em ser investidor. Na medida que isso ocorrer, o setor privado vai ter segurança jurídica e econômica para investir", analisa.

Hoje, continua Adriano Pires, o problema do Brasil não é falta de dinheiro. "Todo mundo quer colocar dinheiro no país. Apesar da crise internacional, ainda há uma grande liquidez lá fora. Os capitais europeus e americanos estão procurando mercado para colocar dinheiro. Este dinheiro só não está vindo em maior quantidade para o Brasil em função do risco regulatório.  O governo tem de entender que aquele ditado que prevaleceu nos anos 1950, de que infraestrutura é dever do Estado, já não está valendo mais nos dias atuais", completa.

Construção civil

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura cita que a cadeia produtiva da construção civil deveria ajudar a influenciar o governo a rever sua política para tirar do imobilismo as obras de infraestrutura. "A construção civil vem crescendo muito em função do programa Minha Casa, Minha Vida. Se a infraestrutura avançar no mesmo ritmo do setor habitacional, o crescimento pode ser mais sustentável", prevê, relacionando os setores mais carentes de investimento: "As estradas, os aeroportos e os portos brasileiros estão entre os piores do mundo. Tem que começar por aí".

Entrevistado
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)

Currículo
- Adriano Pires é graduado em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 1980. Tem mestrado em planejamento energético pela COPPE/UFRJ (1983) e doutorado em economia industrial pela Universidade Paris XIII (1987).
- É sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), uma empresa de consultoria nas áreas de petróleo, gás natural, energia elétrica e fontes alternativas de energia. - Atua há mais de 30 anos na área de energia. Sua última experiência no governo foi na Agência Nacional de Petróleo (ANP) como assessor do diretor-geral.
- Na UFRJ, exerceu a função de professor, pesquisador e consultor junto a empresas e entidades internacionais. Desenvolveu atividades de pesquisa e ensino nas áreas de economia da regulação; economia da infraestrutura; aspectos legais e institucionais da concessão dos serviços públicos e tarifas públicas.  
Contato: adriano@cbie.com.br

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Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Construção civil ganha fórum para grandes temas

Objetivo do Instituto Brasileiro de Direito da Construção (IBDiC) é fomentar ideias que permitam aumentar a produtividade do setor

Por: Altair Santos

Criado em setembro de 2011, com o aval de toda a cadeia produtiva do setor, o Instituto Brasileiro de Direito da Construção (IBDiC) surge para debater temas que priorizem a produtividade na construção civil. "O IBDiC é, antes de tudo, um fórum permanente dos diversos segmentos que compõem o universo da construção", explica Fernando Marcondes, presidente do Instituto, afirmando que os dois primeiros grupos de estudo do novo organismo estão debruçados sobre assuntos que têm gerado discussões acaloradas: a norma de desempenho NBR 1557 e a falta de qualificação de mão de obra. "Pretendemos promover um encontro aberto para discutir esses temas", diz.

Fernando Marcondes, presidente do IBDiC: "Brasil precisa dar mais atenção ao direito da construção".

Segundo Marcondes, é urgente para a construção civil debater a questão da mão de obra. "É uma preocupação do setor, sob pena de enfrentarmos sérios problemas de qualidade em um futuro próximo", diz. Outro ponto a ser atacado, segundo o presidente do IBDiC, é a carga tributária. "Esse é também um sério problema. Se o Estado quer mesmo incentivar o setor, como alardeia, a maior contribuição que pode dar é reduzir o peso dos impostos. Não basta um incentivo temporário, apenas para aquecer o mercado por um tempo. É preciso reconhecer que a construção é um setor estratégico para o desenvolvimento do país e, a partir disto, oferecer uma tributação decente, que não torne proibitivos os investimentos", completa.

Outro ponto que permeia o IBDiC é o ambiente jurídico que envolve o setor. "Há uma falta de padrões, de referências, e mesmo de material doutrinário específico sob construção. Enquanto em outros países o direito da construção é tratado como uma matéria específica, no Brasil temos pouquíssimas obras dedicadas exclusivamente ao tema. Vivemos de referências estrangeiras, nem sempre adequadas à nossa realidade. É hora de mudar isso. Precisamos também promover uma maior integração e um diálogo mais permanente entre os players desse mercado", avalia Fernando Marcondes.

O presidente do IBDiC lembra que há em outros países organismos semelhantes ao Instituto. Na Grã-Bretanha, a Society of Construction Law; nos Estados Unidos, a Dispute Resolution Board, na Suíça, a Federation International des Ingenieurs Consulteurs (FIDIC). No Brasil, o IBDiC funciona em sintonia com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com o Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo) e com o Instituto de Engenharia, também na capital paulista. Essa ramificação faz com que o IBDiC já conte com a adesão de quase duas centenas de profissionais dos setores jurídico, de engenharia e de negócios da construção e empreendimentos imobiliários.

Todos os integrantes do IBDiC têm liberdade para propor a discussão de temas. Fundado há quatro meses, com sede em São Paulo, o instituto já conta com dez grupos de estudos em plena atividade.

Também foi formado um comitê, cuja função é criar um material de orientação para a elaboração e interpretação de contratos de construção. Esse grupo conta com mais de quarenta profissionais. "Já entrevistamos grandes contratantes, grandes e médias construtoras, e pretendemos ouvir ainda investidores, incorporadores e bancos financiadores. Para março estamos preparando um seminário na PUC-RJ para envolver o universo acadêmico. O objetivo é conseguir, em algum momento, que o direito da construção encontre espaço como matéria eletiva na grade curricular", finaliza Fernando Marcondes.

Entrevistado
Fernando Marcondes, presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Construção (IBDiC)
Currículo

- Fernando Marcondes é graduado em direito, com pós-graduação em direito civil e mestrado na mesma área pela PUC-RJ
- É vice-diretor para assuntos de Dispute Resolution Board no Brasil
- É membro da Society of Construction Law
- É membro da Dispute Review Board Foundation

Contato: fm@baptista.com.br

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Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Curitiba inova na fiscalização do mercado imobiliário

Peças publicitárias de imóveis terão de trazer informações sobre os responsáveis pela obra, desde o engenheiro até o paisagista

Por: Altair Santos

Até março de 2012, a prefeitura de Curitiba irá sancionar lei que reforça o poder de fiscalização do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-PR) e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-PR). A partir da nova legislação, os organismos poderão exigir que peças publicitárias de lançamentos imobiliários informem o nome dos autores dos projetos de arquitetura (arquitetônico, interiores, paisagismo e projeto urbano) e do engenheiro responsável pela obra. A medida inovadora, por ser a primeira vez que é adotada em um município do país, surgiu da iniciativa do próprio Crea-PR e da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Paraná (Asbea-PR).

Crea-PR e CAU-PR serão os responsáveis por fiscalizar a publicidade feita por construtoras.

A construtora que não cumprir o estabelecido no projeto de lei poderá sofrer penalidades que vão desde uma simples notificação (tendo cinco dias para sua regularização) seguida de multa de R$ 1 mil e nova notificação (com prazo de 24 horas para regularização) até a apreensão do material. Mas segundo o engenheiro civil Fabiano Braga Cortês, que é o autor do projeto de lei e membro da comissão de urbanismo da Câmara Municipal de Curitiba, o objetivo principal da legislação não é punir as empresas, mas valorizar os profissionais. "Na placa da obra constam os nomes dos profissionais de arquitetura e de engenharia. Já no material publicitário, não. A intenção é propiciar o reconhecimento de quem trabalhou e também dar mais instrumentos à fiscalização, já que alguma vezes o profissional que assina não está regularizado perante ao Crea ou ao CAU", diz.

A medida vai ao encontro de uma das propostas do novo presidente do Crea-PR, Joel Krüger, que defende mecanismos que possam aprimorar a capacidade de fiscalização do conselho. "Inovar e especializar a fiscalização, além de qualificá-la, é uma das minhas metas. A legislação proposta coincide com nossos objetivos", disse Krüger. A expectativa é que a lei, assim que passe a vigorar em Curitiba e demonstre resultados, desperte outros municípios do Paraná a copiá-la. "Como veio o pedido de duas entidades fortes, e que atuam no estado inteiro, a gente espera que em breve isso se propague pelo Paraná através de uma lei estadual", completa Braga Cortês.

Tanto Crea-PR quanto o CAU-PR avaliam que a nova lei trará, além da valorização dos profissionais, mais garantias para as obras e mais segurança para o consumidor do imóvel. "Vai gerar um círculo virtuoso na construção civil de Curitiba. A obra bem feita vai valorizar o profissional, que vai passar a chamar a atenção do comprador. No futuro, pode-se criar uma grife. O material publicitário do empreendimento assinado por determinado engenheiro e por determinado arquiteto poderá gerar maior procura", avalia Fabiano Braga Cortês.

Entrevistado
CREA-PR e vereador Fabiano Braga Cortês (via assessorias de imprensa)
Contato:
comunicacao@crea-pr.org.br / comunicacao@felipebragacortes.com.br

Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Galpões infláveis otimizam cronograma de obras

Tendas envolvem grandes construções, protegem o canteiro de adversidades climáticas e ajudam a reduzir o custo dos empreendimentos

Por: Altair Santos

A construção civil brasileira encontrou uma solução criativa para enfrentar fenômenos climáticos, principalmente o chamado "período das chuvas" em algumas regiões do país. Adaptando uma ideia já testada na agricultura, as empreiteiras têm conseguido dar continuidade às obras, faça chuva, faça sol, usando galpões infláveis. Normalmente utilizados para a estocagem de grãos, esses equipamentos ganharam dimensões maiores e passaram a abrigar desde construções habitacionais para o programa Minha Casa, Minha Vida, até trechos de rodovias, gasodutos e ampliações em refinarias de petróleo.

Cobertura insuflada usada em Barreiros-PE: casas para vítimas de enchente entregues em tempo recorde.

No Brasil, a maior cobertura insuflada foi usada em obras de expansão da refinaria Alberto Pasqualini, em Canoas-RS. Foi utilizado um equipamento com 20 mil m² de área total e 42 metros de altura. Como o empreendimento teve seu pico durante o inverno, o galpão inflável foi utilizado para proteger o canteiro de obras do frio e da chuva. A construção foi comandada pela UTC Engenharia. Já em Barreiros, no interior pernambucano,  a estrutura insuflada foi usada como proteção contra o "período das chuvas" em um empreendimento que demandou erguer casas populares para as vítimas de enchentes.

Foram utilizados dois galpões móveis, cada um com área de 3 mil m² e 18 metros de altura. As tendas permitiram que 40 casas fossem construídas simultaneamente, de um total de 2.450 habitações. Uma terceira cobertura insuflada foi usada para obras de infraestrutura do conjunto habitacional, como rede de esgoto, abastecimento d’água e pavimentação. "Nessa região em que trabalhamos, o período das chuvas dura até quatro meses. Então o uso da cobertura gerou um reflexo muito grande economicamente. Evitou ter de desmobilizar o canteiro de obras e de pedir aditivos de prazo",  revela o engenheiro civil Valdemir Henz, coordenador de obras da Egesa Engenharia.

O método de construção das casas em Barreiros foi à base de formas pré-moldadas, preenchidas com concreto, cuja secagem do material precisava de pelo menos cinco dias de estiagem. "A cura do concreto ocorreu normalmente, como se a obra tivesse sido feita a céu aberto", conta Henz, revelando os cuidados essenciais quando se usa galpão inflável: "A ventilação precisa ser monitorada constantemente, principalmente quando são usadas  máquinas com gás carbônico. É preciso ter saídas para o ar saturado e geradores que bombeiem o ar puro para dentro do galpão. Outro cuidado é a logística. Se ele for bem montado, não há perigo algum. "

No caso das obras em Barreiros, o custo do aluguel de cada galpão foi de R$ 920 mil. O equipamento requer componentes importados, mas já é fabricado no Brasil. Para a instalação, é importante que o fabricante tenha certificados de agências governamentais de tecnologia e de controle ambiental. O mesmo tipo de tenda inflável foi utilizado também para proteger a construção de uma das lajes da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro, assim como na construção de um gasoduto na Bolívia e na rodovia transoceânica, no trecho que corta a Cordilheira dos Andes - neste caso, para evitar o acúmulo de neve nas áreas que irão receber pavimentação em concreto.

Entrevistado
Valdemir Henz, coordenador de obras da Egesa Engenharia, e UTC Engenharia (via assessoria de imprensa)
Contato:
henz@egesa.com.br / utc@utc.com.br

Vídeos

Veja montagem dos galpões infláveis. Clique aqui e aqui

Créditos foto: Divulgação/Cehab-PE

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Tecnologia reduz tempo de construção de usinas

Atualmente, hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte são as obras de infraestrutura que mais consomem concreto no Brasil

Por: Altair Santos

Desde a usina de Hoover, erguida na década de 1930 no rio Colorado, nos Estados Unidos, os métodos para se construir UHEs (hidrelétricas de grande porte) se mantêm praticamente inalterados. Evoluíram os equipamentos, a tecnologia e os materiais, mas o conceito não mudou. Entre as inovações agregadas, a principal surgiu nos anos 1970, com o concreto compactado com rolo (CCR).  Recentemente, o concreto refrigerado também passou a ser utilizado na construção de barragens.

Antônio Fernando Krempel, diretor presidente da Intertechne: "Equipamentos usados nas obras de hidrelétricas evoluíram muito desde Itaipu”.

No Brasil, a primeira UHE a usar concreto compactado com rolo foi Itaipu. A maior hidrelétrica do país consumiu 12,6 milhões de m³ do material. Atualmente as usinas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, que estão em construção na bacia do Amazonas, utilizam o concreto refrigerado. A diferença para o CCR é que esse material diminui o risco de fissuras e absorve menos cimento. Por isso, juntas, as três hidrelétricas em obras irão envolver um consumo de 9,8 milhões de m³ de concreto - pouco mais de 2/3 do que foi gasto em Itaipu.

Segundo o engenheiro civil Antônio Fernando Krempel, diretor presidente da Intertechne - empresa especializada em empreendimentos hidrelétricos - além do tipo de concreto usado na obra, o projeto também influencia no consumo de cimento. "Para cada projeto há uma solução específica compatível com as características do local, de topografia, de fundação, das características do material da fundação e das características do rio. Em função disso, existem barragens de solo, barragens de enrocamento, barragens de concreto, barragens de concreto rolado, enfim, diversas soluções. Cada uma vai demandar um volume de concreto", explica.

Krempel lembra que o cimento pozolânico é hoje o mais aplicado em obras de hidrelétricas, segundo ele por apresentar menos problemas de reatividade aos agregados. O engenheiro destaca ainda os softwares usados para projetar as UHEs e os equipamentos disponíveis. "A tecnologia embarcada é muito mais sofisticada do que há 30, 40 anos, quando Itaipu foi construída. Tudo isso resulta em obras com tempo de conclusão mais rápido. Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, há 30 anos, seriam construídas em oito anos. Hoje, ficarão prontas em três, no máximo quatro anos", avalia.

O especialista ressalta que a engenharia brasileira dispõe de recursos próprios para construir suas  hidrelétricas. Além disso, ele lembra que atualmente o país conta com profundo conhecimento de geotecnologia para detectar o solo ideal para o erguimento de usinas.  "A grande maioria das hidrelétricas é assentada em rocha. Então, hoje, a geologia e a topografia é que determinam que tipo de barragem será construída", diz Antônio Fernando Krempel, lembrando que muitas delas nem necessitam de acentuadas quedas d'água para gerar energia. "Belo Monte é um exemplo", completa.

Santo Antônio

Santo Antônio, também no rio Madeira: consumo estimado de 3,2 milhões de m³ de concreto.

A expectativa é que a usina de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, comece a operar ainda no primeiro semestre de 2012. O canteiro de obras da hidrelétrica atualmente envolve 13 mil trabalhadores.  Quando totalmente concluída, em 2015, sua potência instalada será de 3.150 megawatts. A construção está a cargo da Odebrecht e o volume de concreto estimado é de 3,2 milhões de m³. Uma curiosidade é que a usina terá as maiores turbinas do tipo bulbo do mundo.

 

 

 

 

 

 Jirau

Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira: previsão de entrar em funcionamento em 2012.

Também em construção no rio Madeira, em Rondônia, a hidrelétrica de Jirau, quando pronta, terá consumido 2,8 milhões de m³ de concreto. No pico, a obra que está a cargo da Camargo Corrêa, terá 22 mil trabalhadores em seu canteiro de obras. A expectativa é que a UHE comece a produzir energia a partir do terceiro trimestre de 2012. Quando totalmente  concluída, entre 2013 e 2014, terá potência instalada de 3.750 megawatts.

 

 

 

 

 

 Belo Monte

Belo Monte: imprescindível para o desenvolvimento do Brasil neste século.

A hidrelétrica em construção no rio Xingu, no Pará, terá suas obras aceleradas em 2012, mas deve ser concluída em 2019. A cargo do consórcio Norte Energia, a usina irá consumir 3,8 milhões de m³ de concreto e, quando pronto, terá potência instalada de 4.571 megawatts. Hoje, o canteiro de obras tem 4 mil trabalhadores, mas no pico irá gerar 18.800 empregos.

Saiba mais sobre Belo Monte: Clique aqui

 

 

 

 

Entrevistado
Antônio Fernando Krempel, diretor presidente da Intertechne - empresa especialista em projetos de hidrelétricas
Currículo

- Antônio Fernando Krempel é engenheiro civil pela Universidade Federal de Uberlândia (1978).
- Tem MBA - Gestão de Empresas, ISAD/Un. do Texas - Austin; MBA - Marketing, ISAE/ FGV e é mestre em gestão de projetos, ISAE/ FGV e Universidade de Lille.
- Engenheiro da Intertechne Consultores S.A. desde maio de 2003. Teve participação abrangente em vários assuntos ligados ao planejamento, projeto e construção de empreendimentos hidrelétricos e de infraestrutura, tanto no Brasil como na América Latina e na África. Desde março de 2009 exerce o cargo de diretor presidente da empresa.
Contato: fkrempel@intertechne.com.br

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Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Tecnologia faz pontes estaiadas proliferarem no Brasil

Avanço dos cálculos estruturais, através de softwares, permitiu que modelo construtivo se tornasse o ideal para vãos acima de 120 metros 

Por: Altair Santos

A arquitetura de pontes no Brasil tem dado preferência para o modelo estaiado. Em São Paulo, a Octavio Frias de Oliveira inspirou outras capitais. Curitiba, por exemplo, terá sua primeira ponte estaiada, cortando a Avenida das Torres. Em Manaus, atravessando o rio Negro, foi inaugurada recentemente a segunda maior ponte estaiada do mundo sobre água doce. Seria um modismo? Para o engenheiro civil Catão Francisco Ribeiro, considerado o "pai da ponte estaiada" no país, trata-se de um avanço tecnológico. "Os programas de cálculos estruturais evoluíram muito, o que permitiu aos projetos de pontes estaiadas saírem da teoria para a prática, que é o que a gente chama hoje de o estado da arte", diz.

Catão Francisco Ribeiro, considerado o "pai da ponte estaiada" no Brasil: "Não é modismo, é avanço tecnológico” .

A recomendação técnica é que a opção por projetos de pontes estaiadas prevaleça quando existirem vãos acima de 120 metros. No entanto, ensina Catão Francisco Ribeiro, há situações - principalmente em áreas urbanas - em que a ponte estaiada pode ser a melhor opção mesmo com vãos menores.  "Ela permite trabalhar com tabuleiros finos. Então, às vezes, há pouco espaço entre o lugar onde vai passar o veículo em cima e o lugar onde vai passar o veículo embaixo. Isso obriga a lançar mão de estruturas mais esbeltas", explica, completando que a questão estética também influencia. "Por vezes, o município busca uma referência arquitetônica. Neste caso, é o apelo estético que decide."

A dimensão dos vãos a serem vencidos pelas pontes estaiadas também influencia no custo da obra. "Quanto maior o vão, maior o custo", resume Catão Francisco Ribeiro, ressaltando, porém, que questões ambientais também têm peso na escolha de projetos de pontes estaiadas. "Se o projeto for para uma ponte sobre um rio, e o meio ambiente não permite que se mude a condição de fluição das águas, então você é compelido a fazer um pilar numa margem e um pilar na outra. Isso faz com que o vão aumente e consequentemente o custo da obra aumente. Se for possível colocar pilares dentro da água, para fazer vãos menores, a obra fica mais barata."

Autor de 20 projetos de pontes estaiadas, Catão Francisco Ribeiro trabalha atualmente numa obra em Piracicaba, no interior de São Paulo, em que a encomenda é que o viaduto, além de estaiado, sirva também de mirante para a cidade. "Muitos dos meus projetos se transformaram em elementos turísticos dentro das cidades. Em Teresina, no Piauí, única capital nordestina sem praias, a ponte estaiada tem um mirante panorâmico em que é possível enxergar o mar. Orgulha-me também ter projetado a ponte sobre o rio Negro, em Manaus. É uma obra já considerada tão relevante quanto a ponte Rio-Niterói. Esse  é o verdadeiro estado da arte", elogia.

Outra obra relevante da qual o engenheiro civil participou foi a construção do viaduto Octavio Frias de Oliveira, em São Paulo.  O projeto ganhou prêmios internacionais por seus cálculos aprimorados. "Ela tem um tabuleiro curvo com um raio muito fechado. Tem um cruzamento de estais e um arco em X. É uma obra de engenharia muito antes de ser uma obra de arquitetura. O objetivo principal, que era transpor o rio Pinheiros da melhor maneira possível, foi cumprido milimetricamente", afirma. Catão destaca ainda que hoje só é possível construir pontes estaiadas no Brasil graças a três centros tecnológicos que permitem testes de ensaio em túnel de vento: o do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) em São Jose dos Campos-SP, o do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) em São Paulo, e o da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) em Porto Alegre. "Temos tecnologia 100% nacional para construir nossas pontes estaiadas", afirma.

Saiba mais

Pontes estaiadas são compatíveis com estruturas pré-moldadas. A que transpõe o rio Negro contou com segmentos de sete metros, que pesavam 250 toneladas e foram moldados in loco. Esse tipo de obra também não requer concretos especiais, apesar de consumir uma quantidade maior de aço em sua estrutura.

Ponte estaiada no Pará, sobre o rio Guamá: construção está presente em todas as regiões do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevistado
Catão Francisco Ribeiro, engenheiro civil e diretor executivo da Enescil Engenharia de Projetos
Currículo

- Graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1975)
- Tem pós-graduação em Pontes pela POLI (1978-1979)
- Cursou a faculdade de Economia e Administração da USP (1983-1984)
- Possui cursos de programação no ITA (1970) e de elementos finitos para aplicação em stress e stardine, na Control Data Systems, nos Estados Unidos
- É diretor executivo da Enescil Engenharia de Projetos, fundada em 1970. Responsável técnico por mais de 1.600 projetos estruturais de obras de arte especiais
Contato: eng.projetos@enescil.com.br

Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Construtoras investem no conceito "morar e trabalhar"

Seja no formato Home Urban Business ou Live & Work, novos empreendimentos aliam, em um só complexo, residência, escritório e shopping

Por: Altair Santos

Diante de um mercado cada vez mais exigente e concorrido, as construtoras e incorporadoras estão constantemente em busca de novos conceitos. A ideia é oferecer mais conforto e mais serviços, de preferência em um só empreendimento. É nisto que se baseia a filosofia "morar e trabalhar", que tem norteado os recentes lançamentos no Brasil.

7Th Avenue, da Thá: torres residencial e corporativa dividindo o mesmo espaço.

Do inglês Live & Work ou Home Urban Business (HUB), o conceito reúne unidades residenciais e comerciais, além de espaços para compras e entretenimento, como num shopping center. São edificações que têm um público alvo: o profissional jovem e o empreendedor ousado. "Quem adere a esse modelo tem um perfil extremamente exigente. Ele busca morar e trabalhar em localizações privilegiadas. Por isso, o empreendimento tem de ser inovador”, explica João Auada Jr., diretor de negócios da Tecnisa.

Atualmente, quase todas as capitais brasileiras têm lançamentos que perseguem a ideia de "morar e trabalhar", o que não é uma exclusividade do mercado nacional. Trata-se de uma tendência mundial do setor imobiliário. Outra característica desses empreendimentos "mixed use" é que eles buscam áreas urbanas que carecem de revitalização. Em Curitiba, há dois bons exemplos com esse perfil: o 7th Avenue, da Thá, e o HUB, da Tecnisa.

No caso do 7th Avenue, seu projeto tem como proposta valorizar o antigo bairro industrial do Rebouças - localizado perto do centro da capital paranaense. Já o HUB surge para revitalizar a área próxima da reitoria da Universidade Federal do Paraná e do Teatro Guaíra. Os dois empreendimentos se inspiram no conceito aplicado no SoHo - bairro da região de Nova York, que entre os anos 1980 e 1990 passou por um processo de renovação urbana e transformou-se em pólo de entretenimento, turismo e negócios, além de referência para outros países.

Público alvo do HUB é o jovem executivo, que busca infraestrutura e comodidade.

Os modelos de construção destes empreendimentos também se assemelham. Geralmente são torres independentes, sendo uma comercial e outra residencial. Na ala habitacional, os apartamentos têm no máximo dois quartos e área útil inferior a 70m².  No setor dos escritórios, as salas não costumam ter mais de 90m². "Tudo é pensado para otimizar os espaços", diz o gerente de produto da Thá Incorporadora, Valdecir Scharnoski.

Outra característica de edifícios com esse conceito é que eles buscam certificações que os identifiquem como "prédios verdes". Em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, imóveis que perseguem a sustentabilidade já dominam quase metade dos lançamentos. Na capital paranaense, englobam 48,3% dos novos empreendimentos lançados a partir de 2011. Em território paulistano, são 47,2% e no Rio chegam a 40,8%. Nas mesmas três capitais, o conceito "morar e trabalhar" já envolve 15% dos novos empreendimentos.

Entrevistados
Assessorias de imprensa das construtoras Thá e Tecnisa

Mais informações

Thá e Tecnisa

Créditos foto: Thá e Tecnisa

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Investir em educação continuada atrai inovação

Promover a busca do conhecimento deve ser mais do que uma orientação da empresa. Precisa estar incorporado ao DNA da companhia

Por: Altair Santos

O que se define hoje de mundo corporativo não consegue mais caminhar dissociado da educação continuada. É através dela que as empresas estabelecem suas estratégias e potencializam a competitividade. Sob o ponto de vista dos profissionais, a educação continuada tornou-se sinônimo de empregabilidade. "Para as companhias, significa a porta de entrada para novos projetos, negócios e inovações. Para os profissionais, é a oportunidade de reciclagem", explica o administrador de empresas Izoulet Cortes, coordenador executivo do Curitiba Offshore Center, vinculado ao Sebrae-PR.

Izoulet Cortes: área da Tecnologia da Informação teve salto de qualidade no Paraná ao investir em educação continuada.

Segundo o especialista, hoje boa parte das empresas brasileiras, direta ou indiretamente, tem a educação continuada agregada ao seu dia a dia. No caso das médias e grandes corporações, ele serve para planejar e direcionar negócios. "Também funciona para a descoberta de processos inovadores, mas não significa necessariamente que essas empresas gerem conceitos inovadores. Esse papel cabe mais às micro e pequenas empresas, normalmente com até dez funcionários. É nesse ambiente onde acontecem as inovações de fato, porque, por necessidade, as micros e pequenas precisam criar alternativas para sobreviver no mercado”, diz Izoulet Cortes.

Outro ponto importante é como a educação continuada é colocada em prática nas médias e grandes empresas e nas micro e pequenas. "Nas pequenas, muitas vezes o profissional se forma por conta, percebe as necessidades do mercado e faz esse direcionamento. Os bem sucedidos acabam absorvidos pelas médias e grandes e levando as inovações para essas corporações. Já os que estão nas grandes companhias geralmente têm o seu processo de educação continuada direcionado pela empresa", revela o administrador.

APL

Para estimular as empresas a praticarem a educação continuada, os estados da região sul têm incentivado os chamados APL (Arranjos Produtivos Locais). Eles fazem parte de uma política nacional que começou antes de 2003 e que hoje está incorporado no Plano Brasil Maior. Através deste projeto, setores calçadista e de vestuário ganharam impulso no Rio Grande do Sul e no Paraná, onde também há uma APL na área de TI (Tecnologia da Informação) e software. Participam destas ações o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, as agências de desenvolvimento e o Sebrae.

Com o incentivo dos APL, o Paraná galgou o segundo lugar, dentro do país, em quantidade de empresas certificadas reconhecidas internacionalmente em tecnologia de informação. "Isto é educação continuada: você incorpora valores, investe na empresa, trabalha os profissionais, certifica estes profissionais e todo mundo ganha em eficiência", afirma Izoulet Cortes, avaliando que a construção civil deve se preparar para seguir o mesmo caminho. "Já existem iniciativas fortes, dentro do Paraná e do Brasil, para incentivar a capacitação da mão de obra no setor.  Não há como fugir disso, já que trata-se de uma área que agregou novos equipamentos e técnicas de construção que exigem mais do perfil do profissional", finaliza.

Entrevistado
Izoulet Cortes, coordenador executivo do Curitiba Offshore Center
Currículo
- Graduado em Administração de Empresas, com pós-graduação em política, estratégia e planejamento pela ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial)
- É consultor regional para internacionalização de Empresas de TI e Software e gerente de projetos junto ao Centro Internacional de Tecnologia de Software  (CITS)
- Atua como consultor do programa de alianças empresariais (SOFTEX / BID)
- Trabalhou no processo de consolidação do APL de Software de Curitiba e é atualmente o Coordenador Executivo do Curitiba Offshore Center, consórcio de exportações de empresas de Software e TI
Contato:izoulet.cortes@cits.br

Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos - MTB 2330

Falta consenso sobre patologias do concreto

Doutor em engenharia civil, Paulo Roberto do Lago Helene alerta que estruturas precisam ter programas de manutenção bem definidos

Por: Altair Santos

Sumidade em patologias do concreto, o doutor em engenharia civil Paulo Roberto Lago Helene usa o exemplo do que aconteceu recentemente com a ponte dos Remédios, em São Paulo, para fazer uma avaliação de como o poder público trata obras que deveriam receber manutenção periódica, mas muitas vezes são abandonadas à própria sorte. 

Paulo Roberto do Lago Helene: "Não há ainda critérios claros que definam a durabilidade do concreto”.

Além disso, ele faz uma avaliação crítica das falhas que ocorrem nos projetos e no uso dos materiais, apesar de hoje em dia existir muito mais diversidade e qualidade do que havia há 20 anos. O especialista também chama a atenção para a falta de consenso sobre as patologias que afetam a durabilidade do concreto, alertando que o material não é eterno. Confira a entrevista:

No final de novembro de 2011, ruiu parte da mureta de proteção da ponte dos Remédios, em São Paulo. A falta de manutenção em estruturas de concreto é o principal motivo para casos de patologias em obras, como esse exemplo?
Sem dúvida. Falta de manutenção no sentido estrito, de fazer algo, e falta de manutenção no sentido amplo, ou seja, falta um plano de inspeção periódica, falta um critério de avaliação, falta massa crítica para elaborar um diagnóstico correto e falta conhecimento e honestidade para elaborar um projeto de intervenção corretiva que seja factível, econômico e durável.

Por que os setores públicos têm tanta carência neste tipo de intervenção? Seria falta de recursos?
O setor técnico responsável tem falta de recursos (material, técnico e humano) porque depende de uma atitude e decisão política, que, infelizmente, privilegia outras necessidades.

Ainda hoje, as estruturas são executadas sem a devida atenção para a questão da durabilidade?
A questão da durabilidade é bastante complexa. As normas NBR 6118 (Projeto de estruturas de concreto) e NBR 12655 (Preparo, controle e recebimento do concreto) deram um grande passo, mas ainda são formas indiretas e aproximadas de tratar o problema. Na verdade não há nenhum critério claro e consensual de definir estados limites de serviço para durabilidade nem critérios para definir estados limites últimos (ELU). Veja, por exemplo o caso de AAR (alcali aggregate reaction): qual a abertura da fissura para se considerar o ELS (estados limites de serviço) ou ELU por conta de AAR ou RAA? No caso de fissuras de retração, qual a abertura limite? E quanto à corrosão? O ELS é quando a frente de carbonatação chega à armadura, quando chega no meio da armadura ou quando envolve toda a armadura? Não existe ainda um sequer estado limite bem definido. Então, como cobrar isso do serviço público? Teríamos de contar com o bom senso deles, o que politicamente falando é muito complicado.

Faltam projetos adequados ou as falhas são na execução?
A maioria das falhas mais graves são sempre de projeto. No caso do exemplo citado na primeira pergunta, foi corrosão de armadura da laje da calçada de pedestres. Porém houve, em 1977, a intervenção corretiva dessa ponte e o projeto não previu a correção da calçada.

Fenômenos climáticos e poluição estão exigindo mais das estruturas em concreto?
Sem dúvida, mas essa ponte citada tem hoje quase 50 anos, ou seja, estaria chegando no limite da vida útil de projeto atualmente consensual. Essa é mais uma razão muito forte para que a PMSP (Prefeitura Municipal de São Paulo) se preocupasse mais com uma manutenção e certamente intervenção corretiva capaz de estender essa vida de 50 anos para mais outros 50 anos.

As edificações que usam concreto estão mais expostas a quais patologias mais frequentemente?
As estruturas de concreto são as mais duráveis. Resistem melhor a diversos meios agressivos e permitem construir reservatórios de água, estações de tratamento de esgotos, fábricas de celulose e papel, siderúrgicas e muitas outras obras impensáveis com outros materiais estruturais, como madeira, aço, cerâmica, etc. Houve um grande período da humanidade que essas estruturas de concreto eram consideradas eternas. Hoje sabemos que isso não é verdade e, mesmo muito resistentes, devem ser objeto de um programa de manutenção.

Os materiais disponíveis atualmente no mercado são adequados para se construir com qualidade?
Sem dúvida. Nos últimos 20 anos houve uma evolução fantástica e positiva na qualidade e diversidade de materiais, mais resistentes do ponto de vista mecânico e muito mais duráveis. Aditivos redutores de água, aditivos redutores de retração, adições ativas de metacaulim e sílica ativa e cinza de casca de arroz, cinzas volantes, escórias de alto forno, calcário moído, fibras de aço e de polipropileno - enfim, só para citar algumas - não havia há 20 anos e hoje conduzem a concretos muito duráveis. Só precisa saber usar. O cimento hoje é muito melhor e mais homogêneo que há 20 anos. O problema é que ficou tão bom que os desavisados não perceberam que em lugar de especificar, projetar e construir com um concreto de 20 MPa, que tem no traço 250 kg de cimento e fator água/cimento de 0,75, mas não vai ser durável, o correto seria especificar um concreto de fck 35 MPa, pois teríamos 300 kg de cimento e um fator a/c menor que 0,55. Novamente é uma falha com origem no projeto, que especifica um concreto inadequado para as altas qualidades e desempenho dos cimentos atuais. Na verdade, todo projetista estrutural deveria saber que os concretos mais sustentáveis são os de alta resistência, acima de 40 MPa. Não só muito mais duráveis como também mais sustentáveis, pois apresentam melhor rendimento, ou seja, melhor índice de MPa/kg de cimento, reforçando a máxima da sustentabilidade, que é fazer mais com menos.

Na questão da qualificação profissional, os engenheiros atuantes no mercado da construção civil estão preparados para enfrentar esses desafios, principalmente as questões de patologias colocadas pelo senhor?
Infelizmente não. Hoje não há como imaginar a profissão do engenheiro se não como uma profissão em crescimento permanente e dinâmica, que requer uma educação continuada por toda a vida. A universidade, na graduação, fornece os instrumentos e ferramentas básicas, conceituais, mas a atualidade deve ser obtida ao longo da carreira através de cursos, eventos, congressos, revistas técnicas, livros, workshops, feiras, cursos de especialização, MBAs, pós stricto sensu, latu sensu, etc. Ser autodidata hoje é imprescindível.

E quanto aos cursos de engenharia civil no Brasil: eles formam profissionais preparados para enfrentar esses problemas ou boa parte dos graduados precisa buscar aperfeiçoamentos posteriores para saber entender sobre patologias do concreto?
Qualquer engenheiro hoje, bem formado, tem muitas vezes mais conhecimentos que eu quando me formei há 40 anos. Naquela época da década de 1970 mal tinha concreto usinado, mal tinha concreto bombeado, mal tinha concreto projetado. Não tinha grua, não tinha ISO 9000, não tinha concreto com fibras, nem autoadensável, nem de alta resistência, nem translúcido, nem fotogravado, nem colorido, nem ISO 14000, nem ISO de vida útil, nem ISO de ciclo de vida, nem ISO de responsabilidade social, nem NR 18, nem NBR 15575, etc. O problema é administrar todo esse conhecimento. Precisa fazer parte de um grupo, de uma boa equipe e saber trabalhar em grupo, ou seja, ser flexível, querer aprender sempre, a vida toda.

Entrevistado
Paulo Roberto do Lago Helene, mestre e doutor em engenharia civil, palestrante especialista em patologias do concreto
Currículo
- Engenheiro civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1972) e especialista em Patología de las Construcciones pelo Instituto Eduardo Torroja em Madri, Espanha
- É também doutor em engenharia, com pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley.
- Atualmente é pesquisador e consultor de empresas privadas e entidades.
- Orientou 27 dissertações de mestrado e 13 teses de doutoramento, já concluídas, sendo que a maioria desses titulados são atualmente pesquisadores e professores de reconhecidas instituições de ensino e pesquisa.
Contato:paulo.helene@concretophd.com.br

Créditos foto: Divulgação

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