Investimentos em infraestrutura ampliam oportunidades para a construção civil
Ampliação das fontes de financiamento e a estruturação de projetos de longo prazo podem influenciar o ritmo de contratação de obras nos próximos anos
De acordo com dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), o Brasil apresentou em 2025 o maior volume de investimentos em infraestrutura desde o início da série histórica, em 2010. Foram R$ 280 bilhões aplicados no setor, sendo que aproximadamente 84% desse montante teve origem na iniciativa privada. O economista Hugo Eduardo Meza Pinto, docente da Estácio Curitiba, afirma que, apesar desses dados, o país ainda convive com uma diferença significativa entre os recursos disponíveis e o volume necessário para modernizar a infraestrutura nacional. Segundo ele, existe uma necessidade superior a R$ 500 bilhões anuais, o que significa que há um déficit de investimentos que chega a aproximadamente R$ 218 bilhões por ano.
Para Jefferson Marcondes Ferreira, professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter, o cenário representa uma retomada gradual, sustentada por recursos públicos, concessões, parcerias público-privadas (PPPs) e maior participação do mercado de capitais. Ainda assim, o investimento permanece abaixo do necessário. “Quando observamos os dados apresentados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o país investe aproximadamente entre 2% e 2,5% do PIB em infraestrutura, sendo que seria necessário um patamar superior a 4% do PIB para sustentar um crescimento econômico mais robusto e elevar a competitividade nacional”, afirma.

Infraestrutura movimenta toda a cadeia da construção
O impacto dos investimentos não se limita às empresas diretamente envolvidas nas obras. A realização de projetos de infraestrutura amplia a demanda por uma série de insumos, equipamentos e serviços, criando efeitos sobre diferentes segmentos da economia. De acordo com Meza Pinto, o primeiro semestre de 2026 reforçou essa relação.
Dados da CBIC indicam que as obras de infraestrutura geraram aproximadamente 64 mil empregos formais entre janeiro e junho, superando pela primeira vez desde 2020 a geração de postos de trabalho vinculada à construção de edifícios, que registrou cerca de 60,5 mil vagas. No período, a construção civil abriu 168 mil postos formais, com crescimento de 6,5%.
Ferreira destaca o efeito multiplicador dos investimentos. Uma obra de infraestrutura demanda cimento, aço, máquinas, equipamentos elétricos, materiais de construção, engenharia, tecnologia e transporte. Ao mesmo tempo, gera empregos diretos, indiretos e induzidos, contribuindo para ampliar o consumo e estimular novos investimentos privados.
Saneamento concentra oportunidades

Entre os segmentos com maior perspectiva de receber investimentos, destaca-se o saneamento básico. Segundo Meza Pinto, aproximadamente 50,4% apontaram o saneamento básico entre os setores com maior intenção de investimento nos próximos três anos. A demanda está relacionada também às metas de universalização previstas para 2033, que estabelecem a oferta de água potável para 99% da população e a coleta e o tratamento de esgoto para 90%.
Transporte e logística formam outro grupo com forte potencial. Rodovias, ferrovias, portos e aeroportos demandam grandes volumes de materiais, equipamentos e mão de obra especializada. O levantamento da Radar PPP aponta que, entre 2014 e 2025, foram contratados mais de R$ 491 bilhões em melhorias da malha viária, em grande parte por meio de concessões e PPPs.
Mobilidade urbana, infraestrutura social e de saúde, iluminação pública e eficiência energética também estão entre as áreas com possibilidade de expansão. A transição energética acrescenta projetos de geração, transmissão, distribuição e armazenamento, incluindo usinas, linhas de transmissão e subestações. Ferreira acrescenta a infraestrutura digital ao grupo de segmentos com investimentos crescentes, com destaque para redes 5G, data centers, fibra óptica e serviços em nuvem.
Projeto do BNDES pode ampliar financiamento
Uma das iniciativas que pode contribuir para ampliar a disponibilidade de recursos é o projeto do BNDES para selecionar gestores de fundos privados de infraestrutura. A proposta prevê a participação do banco com até 25% do patrimônio de cada fundo e a exigência de que os gestores captem R$ 3 de terceiros para cada R$ 1 aportado pelo BNDES.
Para Meza Pinto, a estrutura aumenta a disponibilidade de capital próprio antes da contratação de financiamentos, reduzindo a alavancagem inicial e os riscos dos projetos. “Com mais equity, dinheiro de fundos disponíveis, projetos de concessões, como parceria público-privada, e licitações de infraestrutura, transporte, saneamento, saúde, iluminação, tendem a ser mais rápidos, sair mais rápido do papel, gerando demanda contínua para as construtoras e fornecedores.”
Ferreira avalia que a participação de gestores privados também diversifica as fontes de financiamento e reduz a dependência dos recursos públicos. Para as empresas de construção, isso pode representar maior previsibilidade, ampliação das carteiras de obras e espaço para investimentos em inovação e produtividade.

PPPs dependem de segurança regulatória
As parcerias público-privadas permanecem entre os principais mecanismos para viabilizar projetos de infraestrutura em um cenário de restrições fiscais. Saneamento, mobilidade urbana, iluminação pública, resíduos sólidos e logística estão entre os setores que utilizam esse modelo.
O ambiente, porém, ainda apresenta obstáculos. Meza Pinto chama atenção para o novo marco das concessões e PPPs, aprovado pela Câmara em maio de 2025 e que permanecia em análise no Senado havia mais de 15 meses. Para o economista, a indefinição regulatória dificulta a tomada de decisões e a estruturação de novos negócios.
Na avaliação de Ferreira, a segurança jurídica, a estabilidade regulatória e modelos financeiros capazes de atrair investidores de longo prazo continuam entre os principais desafios. Ao mesmo tempo, ele observa maior participação do setor privado e do BNDES na estruturação de concessões.
O cenário, portanto, combina aumento dos investimentos com uma necessidade ainda maior de recursos. Para a construção civil, a ampliação das fontes de financiamento e a estruturação de projetos de longo prazo podem determinar o ritmo de contratação de obras e de demanda por materiais, equipamentos e serviços nos próximos anos.
ENTREVISTADOS
Hugo Eduardo Meza Pinto é economista com Doutorado em Integração da América Latina pela USP e Mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, com mais de 25 anos de experiência acadêmica e profissional em macroeconomia, desenvolvimento econômico, inovação e relações internacionais. Atualmente, é docente da Estácio Curitiba.
Jefferson Marcondes Ferreira é economista formado pela UniBrasil, com Mestrado em Economia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutorando em Ciências Ambientais pela UTFPR, e professor da Escola de Economia do Centro Universitário Internacional Uninter.
Contato
hugo.pinto@estacio.br
jefferson.f@uninter.com
Ana Carvalho
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