Megaporto em Singapura usa caixas gigantes de concreto
Pré-moldados em grande escala formam uma barreira contínua que sustenta o aterro
Singapura está expandindo seu território sobre o oceano para construir o que será o maior porto automatizado do planeta. Orçado em cerca de US$ 20 bilhões, o Porto de Tuas representa uma das mais ambiciosas obras de engenharia marítima da atualidade, combinando aterro em larga escala, estruturas gigantescas de concreto, automação, inteligência artificial e soluções voltadas à economia circular.
Quando estiver totalmente concluído, na década de 2040, o complexo terá capacidade para movimentar 65 milhões de TEUs (Twenty-foot Equivalent Unit, ou unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) por ano. Esse volume representa quase o dobro dos 37,5 milhões de TEUs movimentados por Singapura em 2021 e permitirá concentrar, em uma única instalação, as operações atualmente distribuídas entre diversos terminais da cidade-Estado.
“Com sua escala incomparável, capacidade e recursos avançados, o megacomplexo portuário está bem posicionado para atender às necessidades em evolução da indústria global da cadeia de suprimentos. Ele oferece garantia de capacidade de longo prazo e conectividade superior aos nossos clientes, consolidando seu status como o hub preferencial do comércio global.”, explica Ong Kim Pong, CEO do Grupo PSA International.

Por trás dos números da logística global, está uma obra monumental de engenharia costeira.
Uma muralha de concreto com quase 18 quilômetros de extensão
A peça central do projeto está praticamente escondida sob o mar. Segundo a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA), a infraestrutura de contenção é formada por gigantescos caixões de concreto pré-moldados, estruturas com altura equivalente a edifícios de dez andares e peso de aproximadamente 15 mil toneladas cada.
Na primeira fase do empreendimento foram instalados 221 caixões, formando 8,6 quilômetros de parede marítima. Já a segunda fase acrescentou outros 227 elementos, totalizando mais 9,1 quilômetros de contenção.
De acordo com a MPA, essas estruturas cumprem múltiplas funções: atuam como muros de contenção, fundações dos cais e suporte para os berços de atracação. Fabricados em um estaleiro próximo, os blocos foram rebocados até o local da obra e afundados sobre fundações previamente preparadas no fundo do mar.
Ao final do projeto, o porto terá 66 berços distribuídos ao longo de 26 quilômetros, aptos a receber os maiores navios porta-contêineres do mundo.
Engenharia geotécnica em escala extrema
A construção do Porto de Tuas exigiu a recuperação de grandes áreas marítimas. Somente na primeira fase, concluída em 2021, foram realizadas melhorias geotécnicas em 414 hectares, incluindo 294 hectares de novas terras conquistadas ao mar.
Segundo a MPA, mais de 34 milhões de horas de trabalho e mais de 450 empresas participaram dessa etapa.
Os sedimentos utilizados no aterro, incluindo materiais argilosos, passaram por tratamentos específicos para garantir níveis rigorosos de estabilidade do terreno. O objetivo era assegurar precisão suficiente para a futura operação dos veículos autônomos responsáveis pela movimentação dos contêineres.
Os berços de águas profundas foram dimensionados para receber navios com calado de até 21 metros, atendendo às futuras gerações de embarcações de grande porte.
Projeto foi elevado para enfrentar a elevação do nível do mar
A adaptação às mudanças climáticas também foi incorporada ao projeto.
Segundo a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA), toda a plataforma operacional do Porto de Tuas foi construída cinco metros acima do nível médio do mar, aumentando a resiliência da infraestrutura frente ao avanço das águas nas próximas décadas.
Além disso, o layout em finger piers — píeres em formato de dedos — permite maximizar o aproveitamento simultâneo das áreas terrestres e marítimas, solução especialmente importante em um país com apenas 730 km² de território.
Essa configuração proporcionou um ganho adicional de cerca de 115 hectares de área útil.
A solução também traz flexibilidade operacional, permitindo que navios de diferentes comprimentos atraquem de forma mais eficiente ao longo dos berços.
Mais da metade do aterro veio de materiais reaproveitados
Um dos destaques do empreendimento é a adoção de princípios de economia circular.
De acordo com a MPA, mais de 50% dos materiais utilizados nas fases iniciais do aterro foram provenientes de sedimentos dragados e terras escavadas em outros projetos de infraestrutura.
Rochas retiradas do fundo marinho também foram reutilizadas nas obras de proteção costeira e preenchimento das áreas recuperadas.
A estratégia reduziu significativamente a dependência de areia para aterros e permitiu uma economia superior a S$ 2 bilhões em materiais de preenchimento.
Inteligência artificial e automação no coração da operação
Além da infraestrutura física, o Porto de Tuas foi concebido para operar praticamente de forma autônoma.
Guindastes eletrificados e automatizados e veículos guiados automaticamente (AGVs) serão responsáveis pela movimentação dos contêineres entre os pátios e os cais.
As operações serão monitoradas remotamente a partir do Centro de Controle do Porto de Tuas, apoiadas por redes privadas 5G, sistemas digitais de gerenciamento do tráfego marítimo e plataformas capazes de otimizar o fluxo de navios em tempo real.
Segundo a MPA, toda a infraestrutura foi concebida para elevar a eficiência operacional e reduzir o tempo de permanência das embarcações no porto.
Meta é atingir emissões líquidas zero em 2050
A sustentabilidade é outro eixo central do projeto. A operadora PSA pretende alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Os equipamentos eletrificados deverão reduzir em aproximadamente 50% as emissões em comparação com os sistemas movidos a diesel.
Os edifícios do complexo também seguem padrões de alta eficiência energética. O edifício administrativo da Base de Manutenção de Tuas, certificado Green Mark Platinum Super Low Energy, consome 58% menos energia que construções convencionais de tamanho semelhante e gera energia solar suficiente para compensar seu próprio consumo.
Prazos
A Fase 1 do Porto de Tuas contará com 21 berços de águas profundas e capacidade para movimentar 20 milhões de TEUs por ano quando estiver plenamente operacional, em 2027. A PSA planeja transferir para o novo complexo as operações dos terminais de Tanjong Pagar, Keppel e Brani até 2027, enquanto o Terminal Pasir Panjang será incorporado ao Porto de Tuas na década de 2040.
Veja cada etapa da construção:
Fontes
Ong Kim Pong, CEO do Grupo PSA International.
Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA)
Contato
PSA: j.swiderski@loconi.pl
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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