Norma de estacas pré-fabricadas de concreto entra em vigor

ABNT NBR 16258 deve levar três anos para ser absorvida integralmente pelo mercado, mas fabricantes já estão adequando suas linhas de produção

ABNT NBR 16258 deve levar três anos para ser absorvida integralmente pelo mercado, mas fabricantes já estão adequando suas linhas de produção

Por: Altair Santos

Desde 17 de fevereiro de 2014, está em vigor a ABNT NBR 16258 (Estacas pré-fabricadas de concreto – Requisitos). A nova norma técnica estabelece novos procedimentos para projeto, fabricação, estocagem e manuseio de estacas pré-fabricadas ou pré-moldadas de concreto, destinadas à utilização como elementos de fundação profunda. A normativa foi elaborada pelo Comitê Brasileiro de Cimento, Concreto e Agregados da Associação Brasileira de Normas Técnicas (CB-18/ABNT).

Fabricantes de estacas que adotam boas práticas deverão sentir pouco os impactos da nova norma

Segundo o coordenador da Comissão de Estudos de Estacas Pré-Fabricadas de Concreto, Cláudio Gonçalves, o texto aborda os aspectos técnicos que envolvem a padronização desde a produção fabril. “Na verdade, ela formaliza as boas práticas do mercado”, diz o engenheiro civil, para quem as empresas que já adotam os parâmetros contidos na ABNT NBR 16258 não deverão enfrentar percalços. Mesmo assim, a expectativa é de que a norma seja totalmente absorvida no prazo de três anos.  Saiba o porquê na entrevista a seguir:

A NBR 16258 entrou em vigor em 17 de fevereiro de 2014. Neste início de implantação da nova norma, como o mercado a tem assimilado?
Muitas empresas participaram ativamente da elaboração desta norma. Durante esse trâmite, fomos tomando decisões em conjunto com as empresas que estavam participando que, em grande maioria, começaram automaticamente a adaptar a sua linha de produção à nova norma. Elas sabiam que isso não se faria de uma hora para outra, e se anteciparam. Já outras ainda não. Mas é normal em se tratando de uma nova norma. No começo, o pessoal vai se adaptar, vai digerir tudo aquilo que muda. As empresas que já fabricam estacas conforme estes parâmetros vão sofrer menos traumas. Aquelas que não tinham padrão nenhum vão sofrer um pouco mais. Acredito que em dois ou três anos vai estar todo mundo adaptado. Na verdade, a norma é bem democrática e abrange 90% do que já é feito por todos. O que ela faz é apenas formalizar todas as práticas. Agora, trata-se de um período de adaptação e vai haver outro período, que é o do mercado consumidor, de quem compra, de quem projeta e de quem indica o produto. Isso fará uma separação do joio e do trigo, ou seja, daquelas empresas que têm um padrão de qualidade definida e aquelas que ainda não se adaptaram à norma técnica.

Claudio Gonçalves: empresas que já fabricam estacas conforme estes parâmetros vão sofrer menos traumas

Hoje, qual a fatia do mercado que as estacas pré-fabricadas ou pré-moldadas ocupam, e qual a expectativa a partir da norma?
Depende do nicho da obra. Na região litorânea, por exemplo, que requer estacas muito profundas, por causa das camadas moles, a adoção de estacas pré-fabricadas passa de um mercado de 6% para mais de 50%. Nos centros urbanos, onde as obras são mais verticalizadas, a pré-moldada encontra resistência por causa do barulho e da infiltração. Mas isso se refere ao mercado imobiliário. Na minha empresa – a SOTEF Engenharia -, existe uma carteira de 250 mil m³ de estacas pré-moldadas em três regiões (São Paulo; Rio de Janeiro e Minas Gerais). Só que o perfil destas obras é outro. São obras industriais, onde o mercado para a estaca pré-fabricada de concreto está bom. Mas teve uma época, em 2013, em que a estaca por hélice contínua estava em melhor posição. Então, depende muito das oscilações do mercado.

A norma NBR 16258 trata especificamente do quê?
A norma trata de requisitos básicos para fabricar, transportar e poder ter um produto de boa qualidade. É o projeto da estaca propriamente dito: fabricação, matérias primas e estocagem.

Destes requisitos, existe um que seja o mais crítico?
As estacas pré-fabricadas de concreto têm características muito interessantes. Quais? Você testa individualmente uma por uma. Não existe nenhuma estaca de nenhum fabricante que não é testada e testada da pior forma: na martelada. Esta metodologia de testar o produto antes de usar acaba separando a boa da má estaca. Outro aspecto é que, por mais leigo que seja o comprador, só de olhar ele já tem sensação se aquilo está bom ou ruim, se tem trincas ou fissuras. A estaca é um produto de interação que permite até ao leigo agir e avaliar modestamente se aquilo está bom ou ruim. É como ir comprar azulejo. Apenas olhando se percebe se está bem ou mal acabado. Isso salta aos olhos. Há interação com o produto. Com a estaca pré-fabricada de concreto é assim também.

A norma deve forçar a industrialização na fabricação de estacas pré-fabricadas ou pré-moldadas ou as fabricadas artesanalmente ainda continuarão existindo?
Não existe estaca fabricada artesanalmente. Existem dois tipos de estaca: as pré-moldadas e as pré-fabricadas. A estaca só é caracterizada como pré-fabricada quando ela obedece certos requisitos normativos que a encaixam com produto pré-fabricado. Tem uma série de condições industriais e de controle laboratorial que praticamente fazem com que o produto pré-fabricado não tenha a mínima condição de ser artesanal. Já o pré-moldado é mais light. O que é um pré-moldado? Eu quero fazer uma estaca no canteiro de obras. Posso fazer? Tenho uma obra grande, uma usina modesta, um laboratório não tão requintado, mas posso fazer. Obviamente, uma estaca feita desta forma apresenta um padrão de excelência, um padrão de qualidade, um pouco inferior do que outra feita dentro de uma usina com controle severo. Isso exige que uma estaca feita desta forma tenha coeficientes maiores, pois o controle será menor. Então, resumindo: uma estaca pré-fabricada só pode ser fabricada artesanalmente se ela for pré-moldada. E se ela for pré-moldada, precisa ter coeficientes mais rigorosos. Enquanto uma estaca pré-fabricada de concreto de 17×17 tem carga estrutural de 35 toneladas, uma pré-moldada de 20×20 terá que ter carga de 28. É o padrão de controle que me obriga a aumentar o coeficiente para uma carga estrutural menor. É o preço que se paga pelo artesanal.

Antes da NBR 16.258, a fabricação de estacas pré-fabricadas ou pré-moldadas era submetida às seguintes normas: ABNT NBR-6118 (Projeto de estruturas de concreto – Procedimento) e a ABNT NBR-9062 (Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado) além da ABNT NBR-6122 (Projeto e execução de fundações). Elas seguirão fazendo parte da fabricação?
A 6122 é uma norma de fundações, ou seja, é da estaca posta no solo. Ela visa saber como será transferida a carga ao solo. Ela não quer saber como será fabricada a estaca, se tem mais ou menos concreto, se tem módulo ou não. Esse não é o caráter dela. É norma de fundação, não de estrutura. Já a 6118 não fala nada sobre estaca. Para fazer alguma coisa de estaca baseado na 6118 você tem que interpretar que a estaca é um elemento estrutural, e que é dimensionado parte como viga e parte como pilar. Por que parte como viga e parte como pilar? Porque para dimensionar e fazer manuseio e transporte é como se fosse uma viga. Para colocar uma carga, é como se fosse um pilar. Quanto à 9062, é uma norma de pré-fabricado e nela só há uma citação sobre estaca, mas não fala sobre anel, não fala sobre cobrimento, nem sobre emenda e nem sobre concreto específico, pois estaca de pré-fabricado requer concreto específico para resistir ao esforço de compressão.

A norma NBR 16.258 especifica uma resistência mínima e máxima do concreto para a fabricação das estacas?
Em 1986, a NBR 6122 colocava que o concreto de estaca pré-fabricada tinha que ter 25 MPa. Em 1996, passou para 35; em 2010, aumentou para 40 MPa. Por que isso? Porque a tecnologia de concreto avançou vertiginosamente. Hoje há tecnologia para fabricar concreto com resistência maior do que 40. Então, a norma sugere que cada empresa fabrique o seu concreto com a melhor qualidade possível e coloque mais carga de acordo com o seu potencial de fabricar concreto.

A norma também sugere o uso de algum tipo de concreto em detrimento de outro?
Na verdade, a norma fixa 40 MPa como máximo e fixa módulo de elasticidade, que é mais importante do que resistência. Módulo de elasticidade está associado à capacidade que a estaca tem de aceitar deformação.

E quanto ao cimento, ela especifica qual o melhor para a fabricação das estacas?
Ela especifica o cimento, mas hoje 99% das empresas utilizam o cimento de alta resistência inicial.

Uma nova norma sempre leva algum tempo para pegar. O comitê (CB-18) estima um tempo para que ela seja totalmente absorvida pelos fabricantes?
Acredito que em três anos esta norma pega, por que a maior parte das empresas que participaram de sua confecção são empresas que fabricam estacas e já foram se adaptando. Quando o mercado começar a cobrar os requisitos da norma quer dizer que ela pegou.

Entrevistado
Engenheiro civil Claudio Gonçalves, diretor-técnico da Sotef Engenharia Ltda (Sociedade Técnica de Engenharia de Fundações Limitada) e coordenador da Comissão de Estudos de Estacas Pré-Fabricadas de Concreto da CB-18/ABNT
Contato: claudiotec@ig.com.br

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330


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