Eficiência com segurança técnica: como otimizar custos sem comprometer desempenho do concreto

Escolha da dosagem mais econômica não deve considerar apenas o custo por m³, mas também o desempenho obtido e o custo associado à unidade de resistência

Para uma concreteira, a margem de lucro é definida nos detalhes: no traço, no controle de insumos, na logística e na gestão da qualidade. O desafio é claro: como reduzir o custo por metro cúbico sem colocar em risco o desempenho do produto entregue e, consequentemente, a credibilidade técnica da concreteira?

Controle estatístico de processo e redução do desvio-padrão

Entender como está a produção do concreto por meio dos resultados de resistência e do controle estatístico é fundamental para avaliar possíveis ajustes. Um desvio-padrão elevado indica, principalmente, uma maior variabilidade no processo de produção, que pode estar relacionada à qualidade das matérias-primas, ao traço, aos procedimentos de produção ou a questões operacionais.  Essa variabilidade pode resultar em um maior custo de produção, uma vez que pode ser necessário trabalhar com maiores margens de segurança para garantir o atendimento à resistência especificada.

A otimização não consiste simplesmente em reduzir o custo do traço, mas em reduzir custos dentro de uma margem tecnicamente segura, mantendo a resistência e a estabilidade do processo.

Contudo, um desvio-padrão baixo não significa que não exista espaço para diminuição de custos. Neste caso, pode-se estudar a otimização dos traços, com um melhor empacotamento dos agregados, com o uso de adições minerais e aditivos mais eficientes. Para entender melhor como funciona o controle estatístico e o desvio-padrão, leia o artigo https://www.cimentoitambe.com.br/como-fazer-a-interpretacao-tecnica-em-ensaios-de-concreto/ 

Como avaliar a otimização realizada nos traços?

Avaliar a viabilidade econômica de um traço de concreto apenas pelo custo do metro cúbico (R$/m³) é uma análise limitada e, em alguns casos, pode levar a conclusões equivocadas. A utilização de insumos de maior valor agregado, como aditivos com maior poder de dispersão, adições minerais ou determinados tipos de cimento, pode aumentar inicialmente o custo do traço, mas esse investimento pode ser compensado pelo ganho de resistência e pela maior eficiência da dosagem.

É justamente para avaliar essa relação entre custo e desempenho que utilizamos o indicador – R$/MPa. Ao relacionar o custo final do metro cúbico com a resistência à compressão obtida aos 28 dias, o indicador permite avaliar quanto está sendo investido para cada unidade de resistência alcançada, facilitando a identificação de dosagens que apresentam o melhor equilíbrio entre desempenho técnico e custo. Esse indicador é apresentado pela fórmula a seguir:

Exemplo de utilização do indicador R$/MPa

O exemplo apresentado na tabela a seguir mostra que, mesmo mantendo constantes os consumos de cimento e aditivo, pequenas alterações nas proporções dos agregados podem resultar em diferenças significativas no desempenho do concreto. Dessa forma, o menor custo por m³ não significa, necessariamente, que a dosagem seja a mais econômica. Ao considerar o custo em conjunto com a resistência obtida, é possível identificar a dosagem que apresenta a melhor relação entre custo e desempenho.

Conclusões do exemplo:

Traço 1 — Menor custo por m³, mas menor eficiência

O Traço 1 apresentou o menor custo por m³ do estudo, de R$ 241,85, representando Economia de R$ 4,33/m³ em relação ao Traço 3. Essa redução de custo está associada, principalmente, ao menor consumo de brita 1.

Entretanto, o menor custo inicial não resultou na melhor eficiência. O Traço 1 apresentou a menor resistência à compressão do estudo, de 30,56 MPa, elevando o custo por resistência para R$ 7,91/MPa. Esse valor é aproximadamente 14,8% superior ao obtido no Traço 3, evidenciando que o menor custo por m³ não representa, necessariamente, a solução mais econômica quando o desempenho do concreto também é considerado.

Traços 2 e 3: efeito da proporção entre os agregados graúdos

Os Traços 2 e 3 foram desenvolvidos mantendo praticamente constantes o teor de argamassa (55%), o consumo de cimento (271 kg/m³), o teor de aditivo (1,00%) e o custo por m³ (aproximadamente R$ 246). Dessa forma, a principal variável entre as dosagens foi a proporção entre brita 1 e brita 0, permitindo avaliar sua influência sobre o consumo de água e o desempenho do concreto.

No Traço 2, foram utilizados 361 kg/m³ de brita 0, correspondentes a aproximadamente 35% do agregado graúdo total, resultando em resistência à compressão de 34,28 MPa custo por resistência de R$ 7,19/MPa.

Já no Traço 3, a maior participação de brita 1, com 927 kg/m³, correspondente a aproximadamente 90% do agregado graúdo total, proporcionou uma condição de empacotamento mais favorável. A menor área superficial específica dos agregados também contribuiu para a redução do consumo de água, resultando na maior resistência à compressão do estudo, de 35,72 MPa.

Conclusão: melhor eficiência técnico-econômica

Adriano Souza Araújo, Assessor Técnico na Cia. de Cimento Itambé

Embora o Traço 1 apresente o menor custo por m³, o Traço 3 apresentou a melhor relação entre custo e desempenho. Com custo de aproximadamente R$ 246,18/m³, resistência à compressão de 35,72 MPa e custo por resistência de apenas R$ 6,89/MPa, o Traço 3 demonstrou que pequenas alterações na proporção dos agregados podem proporcionar ganhos significativos de desempenho sem aumento relevante do custo da dosagem.

Assim, a análise demonstra que a escolha da dosagem mais econômica não deve considerar apenas o custo por m³, mas também o desempenho obtido e o custo associado à unidade de resistência.

É possível reduzir custos mantendo o desempenho e a segurança do concreto. Para avaliar outras possibilidades e encontrar soluções mais eficientes, conte com o apoio da Assessoria Técnica Itambé.

Autor

Adriano Souza Araujo é Engenheiro Civil (UFMS), especialista em Gestão de Projetos e Processos (IPOG). Assessor técnico da Cimento Itambé e especialista em tecnologia do concreto, qualidade e materiais de construção. Atua no desenvolvimento e aperfeiçoamento de concretos, agregados e argamassas, além de prestar consultoria técnica para a otimização do desempenho dos materiais. Possui experiência em gestão da qualidade, ensaios laboratoriais, padronização de processos, implantação de indicadores de desempenho (KPIs) e estratégias voltadas ao aumento da produtividade e à redução de custos. Atualmente, é assessor técnico da Cimento Itambé.

Contato

adriano.araujo@cimentoitambe.com.br

Revisão

Ana Carvalho

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