Inteligência Artificial transforma a gestão da construção civil e amplia capacidade de antecipar riscos e reduzir desperdícios
Diferencial competitivo depende da qualidade dos dados, da capacitação das equipes e da integração entre projetos, obras e pós-obra.
A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma tendência para se tornar uma ferramenta presente na rotina da construção civil. De orçamentos, planejamento e cronogramas ao monitoramento de obras, análise de imagens por drones e acompanhamento do pós-obra, as aplicações de IA crescem rapidamente e prometem aumentar a produtividade, reduzir retrabalhos, identificar desvios com maior antecedência e apoiar a tomada de decisões.
Apesar desse movimento, especialistas alertam que a adoção ainda ocorre de forma desigual. Muitas empresas utilizam soluções pontuais, enquanto poucas estruturaram uma estratégia baseada em dados, governança e qualificação das equipes. Para elas, o maior desafio não está na tecnologia, mas na preparação das organizações para utilizá-la de maneira consistente.

IA como ferramenta de decisão, não de substituição
Para a engenheira civil e mestre em Inovação na Construção Civil pela USP, Jéssica Dantas, a construção reúne características que tornam a IA especialmente relevante, como o grande volume de informações, processos fragmentados e muitas atividades repetitivas. “A IA começa justamente a transformar dados em informação e informação em decisão. Ela aumenta nossa capacidade de analisar, comparar, prever e decidir, mas a validação crítica continua sendo humana”, afirma Jéssica Dantas.
Ela ressalta que a inteligência artificial deve ser vista como um copiloto do engenheiro, nunca como substituta da responsabilidade técnica. Questões relacionadas à segurança da informação, propriedade intelectual, confiabilidade das respostas e conformidade com a LGPD exigem supervisão permanente dos profissionais.
Um levantamento internacional da Autodesk mostra que 32% das lideranças da construção em 28 países afirmam ter alcançado ou estar próximas de atingir seus objetivos de implementação de IA indicando um processo de amadurecimento das aplicações no setor.
Do canteiro ao pós-obra: onde a tecnologia já entrega resultados
As aplicações mais visíveis estão distribuídas por praticamente todo o ciclo de vida de um empreendimento. Durante a execução da obra, câmeras 360°, drones e outras tecnologias de captura da realidade, associadas à visão computacional e à IA, permitem registrar o canteiro e comparar automaticamente o que foi construído com o modelo digital e o planejamento.

Com isso, gestores conseguem identificar atrasos, desvios de produtividade e potenciais impactos nos custos com maior rapidez. “Uma das grandes oportunidades de curto prazo é utilizar IA para reduzir o tempo que os engenheiros gastam procurando, organizando e consolidando informação. Isso libera mais tempo para aquilo que realmente exige conhecimento técnico e tomada de decisão”, explica Jéssica.
No pós-obra, a inteligência artificial também modifica a relação entre incorporadoras e clientes. Sistemas conseguem interpretar solicitações feitas em linguagem comum, identificar a provável origem do problema, consultar o histórico da unidade e encaminhar automaticamente o chamado para a equipe responsável. Mais do que agilizar o atendimento, essas informações passam a revelar padrões que ajudam a aperfeiçoar projetos futuros.
Segundo Jéssica, quando centenas de chamados são analisados em conjunto, torna-se possível detectar recorrências relacionadas a fachadas, fornecedores ou sistemas construtivos antes que elas gerem impactos maiores. O pós-obra passa, então, uma etapa predominantemente reativa para uma fonte estruturada de dados e aprendizado para todo o ciclo de desenvolvimento imobiliário.
Desafio está na organização dos dados
Para Gabriel Falavina, vice-presidente da ADEMI-PR e diretor executivo da Altma Incorporadora, a maioria das empresas já utiliza inteligência artificial em algum departamento, mas a maturidade desse uso ainda é desigual. “É raro a empresa que trata a IA como estratégia, com prioridades definidas, base de dados organizada e alguém responsável pelo tema. Essa distância entre uso disperso e uso estruturado é o retrato mais honesto do setor neste momento”, avalia.
Ele explica que uma incorporadora normalmente opera com ERP, CRM, BIM, sistemas de obra, plataformas de atendimento ao cliente, WhatsApp e inúmeras planilhas. Sem integração e padronização, diferentes áreas podem trabalhar com bases, conceitos e indicadores distintos para responder à mesma pergunta.
A chamada arquitetura integrada de dados ajuda a reduzir esse problema ao reunir informações em um repositório único, padronizar conceitos, estabelecer regras de governança e criar indicadores compartilhados por toda a empresa. Só depois dessa etapa a IA consegue gerar previsões, automações e relatórios confiáveis. “A IA consome a camada tratada, nunca o sistema cru. Sem essa arquitetura, cada solução funciona como uma ilha. Com ela, cada nova aplicação nasce mais barata e mais rápida”, destaca Gabriel Falavina.
Pessoas continuam no centro da transformação

Embora ferramentas generativas, algoritmos e automações ganhem espaço, os dois especialistas concordam que a vantagem competitiva será construída pela combinação entre tecnologia e capacitação profissional. Jéssica acredita que o maior debate não deve ser sobre substituição de empregos, mas sobre formação de engenheiros capazes de utilizar IA de forma ética, crítica e estratégica. “O profissional que conhece engenharia e sabe utilizar inteligência artificial provavelmente terá uma capacidade de análise e produtividade muito maior”, afirma.
Falavina acrescenta que a cultura organizacional tende a ser o fator decisivo nos próximos anos. Para ele, empresas que começam agora a estruturar seus dados acumulam um patrimônio difícil de ser reproduzido posteriormente. “O dado histórico não se compra. A empresa que começou a organizar sua base agora terá, em dois anos, um acervo que a concorrência não consegue adquirir. O aprendizado é organizacional e cultural”, conclui.
Entrevistados
Jéssica Dantas é engenheira civil, mestre em Inovação na Construção Civil pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em industrialização, tecnologias emergentes e inteligência artificial aplicada ao setor. Palestrante nacional e internacional, com forte atuação em entidades técnicas como IBRACON e ALCONPAT, conectando tendências globais à realidade do mercado brasileiro com foco em eficiência, escala e impacto.
Gabriel Falavina é engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sócio-fundador e diretor executivo da ALTMA Incorporadora e 1º vice-presidente administrativo da ADEMI-PR. Com atuação no mercado imobiliário, tem experiência em desenvolvimento de empreendimentos, inovação e novos modelos de moradia, conectando estratégia, tecnologia e as transformações do setor para criar soluções alinhadas às novas demandas do mercado.
Contato
je_adantas@hotmail.com
gabriel@altma.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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