Colapso de ponte no Acre mobiliza análise de estrutura, solo e cheias
Oscilações no nível do Rio Iaco podem ter sido fator relevante para queda da estrutura
A ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira (AC), desabou na noite de 5 de junho, um dia após ter sido interditada devido ao risco de colapso identificado nas margens do Rio Iaco. A estrutura havia sido entregue em janeiro de 2024 e agora é alvo de investigação do Ministério Público do Acre (MP-AC), que solicitou ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) uma perícia para apurar possíveis falhas de projeto, execução ou materiais.
Sinais prévios
A interdição ocorreu após o resultado de uma inspeção realizada em 28 de maio pelo 6º Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar, motivada por relatos de fissuras. Em resposta, a Construtora Cidade Ltda., responsável pela obra, seguiu a recomendação dos bombeiros e interditou a travessia.

Crédito: Neto Lucena/Secom do Governo do Estado do Acre
Para Sady Ivo Pezzi Júnior, especialista em Engenharia Consultiva e Diagnóstico Estrutural, fissuras associadas a movimentações do solo caracterizam um quadro crítico. “Esses sinais refletem uma perda de equilíbrio das fundações. O recalque diferencial provoca redistribuição de esforços e concentração de tensões, manifestando-se por fissuras que funcionam como um último alerta antes do colapso”, afirma.
Segundo ele, a prevenção exige modelagem avançada da interação solo-estrutura e fundações apoiadas em camadas geotécnicas estáveis, abaixo da zona sujeita à erosão.
Hipótese das “terras caídas”
Informações preliminares do governo estadual apontam que as oscilações do Rio Iaco podem ter contribuído para o desabamento. O rio apresenta ciclos intensos de cheias e vazantes, típicos da Amazônia, que são conhecidos como “terras caídas”.
“O fenômeno das ‘terras caídas’ é uma das forças geomorfológicas mais severas da região. Durante as cheias, o solo se satura e perde resistência; na vazante, a retirada do suporte hidráulico favorece deslizamentos abruptos das margens”, explica Pezzi.
Segundo Pezzi, obras em áreas como essa exigem investigações geotécnicas profundas, estudos hidrológicos e monitoramento da dinâmica do leito do rio. Entre as soluções de estabilização estão gabiões, geotêxteis, bioengenharia e, em cenários mais severos, cortinas de estacas-prancha.
Para Carlos Henrique Siqueira, doutor em vistoria e manutenção de pontes e consultor da Ponte Rio-Niterói, colapsos geralmente resultam de uma causa principal combinada com fatores contribuintes. “Há relatos de que as chuvas intensas e a elevação do nível do rio provocam erosão e instabilidade do solo nas fundações. Como se trata de um fenômeno recorrente, é natural questionar se essas condições foram devidamente consideradas no projeto e na manutenção”, avalia.
Soluções
Segundo Edson Villela, professor do UniBrasil Centro Universitário, a erosão fluvial é comum na Amazônia e a preservação da vegetação ciliar é uma das principais formas de mitigação.
“A mata ciliar é fundamental porque as raízes ajudam a estabilizar o solo e reduzem a ação da correnteza. Sem essa proteção, o processo de erosão se intensifica”, explica.
Além da vegetação, soluções como muros de arrimo, enrocamentos e estruturas de concreto podem proteger as margens. “Nos rios amazônicos, o desafio é maior porque as cheias e vazantes tornam o solo mais instável, favorecendo o fenômeno das terras caídas”, acrescenta.
Villela observa que, em uma ponte tão recente, o colapso tende a estar associado a fatores como erosão, instabilidade do terreno ou falhas de projeto e/ou execução, e não ao envelhecimento da estrutura. “Pelas imagens, uma hipótese é que a erosão tenha comprometido as fundações. Mas apenas a perícia poderá confirmar ou descartar essa possibilidade”, ressalta.
Pezzi destaca três macro-hipóteses para a investigação: falhas de projeto, falhas de execução ou ações ambientais excepcionais superiores aos parâmetros previstos. “A definição da causa ocorre por exclusão, com análise dos modelos estruturais, ensaios laboratoriais e levantamentos do meio físico”, explica.
Monitoramento e prevenção
Villela ressalta que hoje já existem sensores capazes de identificar deslocamentos milimétricos nas fundações e estruturas antes que apareçam fissuras. “Quando as rachaduras se tornam visíveis, normalmente o processo já está em estágio avançado”, afirma.
Pezzi defende a substituição das inspeções apenas visuais por sistemas de monitoramento contínuo, com inclinômetros, células de carga, sensores de fibra óptica, drones e tecnologia InSAR para detectar deformações e deslocamentos das margens.
Para Siqueira, os órgãos públicos e profissionais que conhecem a dinâmica local têm papel importante na identificação dos riscos. “Quando isso não ocorre, cria-se uma sucessão de falhas que pode culminar em acidentes. O episódio também evidencia que o Brasil ainda carece de uma cultura consolidada de inspeção e manutenção preventiva de pontes”, afirma.
Segundo ele, países que possuem programas permanentes de inspeção contam com recursos específicos para esse fim. “No Brasil, existem normas e iniciativas, mas ainda há espaço para aprimorar os programas de conservação. Em muitos casos, estruturas concessionadas tendem a ter rotinas mais frequentes de monitoramento, enquanto no âmbito federal, estadual e municipal ainda há desafios para garantir maior previsibilidade e segurança”, comenta.
Perícia será decisiva
O fato de a ponte ter apenas dois anos reforça a necessidade de uma avaliação rigorosa. Em estruturas relativamente novas, um colapso desse porte normalmente exige investigação ampla, envolvendo não apenas a estrutura da ponte, mas também fundações, encontros, margens do rio, comportamento do solo, regime hidrológico, execução da obra, controle tecnológico dos materiais e medidas de proteção contra erosão.
Segundo Villela, a investigação deverá avaliar se houve falha de projeto ou problemas na execução, incluindo concretagem, posicionamento das armaduras e qualidade dos materiais. “O cobrimento de concreto é essencial para proteger o aço da corrosão. Se essa proteção falha, pode haver perda de resistência e comprometimento estrutural”, explica.
Pezzi acrescenta que o local passa a ser tratado como um cenário forense. Entre os ensaios previstos estão mapeamento por laser scanner 3D, extração de testemunhos de concreto, ensaios no aço e novo levantamento batimétrico do leito do Rio Iaco. “Essas análises permitem reconstruir a cinemática do colapso e identificar, com precisão técnica, o fator desencadeador da queda”, conclui.
Entrevistados
Edson Villela é professor do UniBrasil Centro Universitário no curso de Arquitetura e Urbanismo, mestre em gestão urbana e doutorando em urbanismo.
Carlos Henrique Siqueira é doutor em Vistoria e Manutenção de Pontes e consultor da Ponte Rio-Niterói.
Sady Ivo Pezzi Júnior é engenheiro civil, especialista em engenharia consultiva e diagnóstico estrutural e proprietário da Sady Pezzi Soluções Empresariais Ltda.
Contato
Assessoria UniBrasil Centro Universitário – pauta@acciocomunicacao.com
Carlos Henrique Siqueira – carloshsiqueira@yahoo.com.br
Sady Ivo Pezzi Júnior: sady.pezzi@yahoo.com.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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