Argamassas de hidratação controlada ampliam a previsibilidade, a rastreabilidade dos processos e o desempenho dos revestimentos
Material tem se consolidado como alternativa para elevar a produtividade e a qualidade das obras
A industrialização dos sistemas construtivos tem levado a construção civil a buscar materiais capazes de reduzir a variabilidade dos processos e oferecer maior previsibilidade de desempenho. Nesse contexto, as argamassas de hidratação controlada têm se consolidado como uma solução que alia controle tecnológico, padronização e ganhos operacionais em diferentes tipos de empreendimentos. Até 2024, esse material era conhecido no mercado como argamassa estabilizada. A mudança de nomenclatura ocorreu com a publicação da ABNT NBR 17218, primeira norma brasileira específica para o produto.
Produzidas em centrais industriais, as argamassas de hidratação controlada são formuladas com cimento, agregados miúdos, água e aditivos químicos que retardam temporariamente as reações de hidratação do cimento. Esse mecanismo permite que o material mantenha sua trabalhabilidade por períodos prolongados, favorecendo o planejamento e a execução das atividades em obra, sem comprometer o desenvolvimento de suas propriedades mecânicas.

Segundo Luiz Alberto Trevisol, gerente corporativo de desenvolvimento técnico da Concrebras, o principal diferencial desse tipo de argamassa está justamente no controle das reações de hidratação do cimento. “Esse controle permite prolongar o período de utilização da argamassa, mantendo sua trabalhabilidade por várias horas ou até dias, conforme a especificação do fabricante”, explica.
Controle tecnológico começa na seleção das matérias-primas
O desempenho desse tipo de argamassa depende diretamente da qualidade das matérias-primas empregadas e da precisão da dosagem. O processo começa pela seleção dos agregados miúdos, cujas areias devem apresentar granulometria adequada e baixo teor de impurezas. Em seguida, são definidos o do tipo de cimento, o uso ou não da cal e os aditivos mais adequados com cada aplicação.
“A escolha do cimento e de aditivos adequados e compatíveis também contribui para a obtenção de um produto de alto desempenho. Essas definições, aliadas a uma dosagem racional, resultam em uma argamassa mais robusta e confiável”, afirma Trevisol.
Após a formulação, o controle passa a ser permanente. No estado fresco, são monitoradas propriedades como índice de consistência, densidade, teor de ar incorporado e retenção de água. Já no estado endurecido, são avaliadas características relacionadas ao comportamento mecânico, como o módulo de elasticidade dinâmico e o potencial de aderência. Esse conjunto de ensaios reduz significativamente a variabilidade entre os lotes produzidos e aumenta a confiabilidade do desempenho dos revestimentos.
Redução da variabilidade gera resultados mais uniformes
Nas argamassas produzidas em obra, pequenas variações na quantidade de água, na granulometria da areia, no tempo de mistura ou mesmo na habilidade do operador podem provocar diferenças significativas no comportamento do material. Nas argamassas de hidratação controlada, esses fatores são previamente controlados em ambiente industrial.
A produção centralizada garante a manutenção da relação água/aglomerantes, da distribuição granulométrica dos agregados e da dosagem dos aditivos, além de assegurar um comportamento reológico mais previsível durante a aplicação. “Essa uniformidade resulta em melhor acabamento superficial, menor incidência de juntas frias e desenvolvimento mais uniforme das propriedades mecânicas e de aderência ao longo da obra”, destaca o especialista.

A estabilidade dessas características também contribui para reduzir a ocorrência de fissuras, desplacamentos e problemas de aderência, diminuindo a necessidade de reparos e retrabalhos.
Rastreabilidade fortalece a gestão da qualidade
Outro diferencial do material é a rastreabilidade dos processos. Cada lote produzido pode ser identificado e acompanhado por meio de informações como a origem das matérias-primas, a formulação empregada, a data e horário de produção, os resultados dos ensaios, a identificação do transporte e o local de aplicação na obra.
Para Trevisol, a rastreabilidade é uma ferramenta importante para a gestão de não conformidades. “Em eventual investigação de não conformidades, essas informações permitem identificar rapidamente a origem do problema, restringindo sua abrangência e facilitando a implementação de ações corretivas”, observa.
Além de fortalecer a gestão da qualidade, a rastreabilidade também atende aos requisitos de certificações e programas de controle adotados pelo setor da construção civil.
Desempenho final dos revestimentos é favorecido
A uniformidade proporcionada pelo processo industrial também se reflete no comportamento dos revestimentos ao longo da vida útil da edificação. Entre os principais benefícios estão a maior regularidade superficial, a redução da retração em razão do controle da relação água/aglomerante, o baixo módulo de elasticidade,amenor suscetibilidade à fissuração por retração plástica e o melhor desempenho diante das deformações do sistema de revestimento.
Outro aspecto importante é a manutenção da trabalhabilidade durante todo o período de utilização da argamassa, evitando práticas inadequadas em obra, como a adição de água para recuperar a consistência do material. “Esse procedimento altera a relação água/aglomerante, reduz a resistência mecânica e compromete a aderência”, alerta Trevisol.
Como resultado, os revestimentos executados com argamassas de hidratação controlada tendem a apresentar maior durabilidade, menor incidência de manifestações patológicas e desempenho mais previsível, características que têm ampliado o interesse do mercado por soluções industrializadas que oferecem maior controle tecnológico.

Entrevistado
Luiz Alberto Trevisol é engenheiro civil, mestre na área de desenvolvimento e tecnologia voltada à área de materiais de construção, mais especificamente materiais cimentícios, pós-graduado na área de Engenharia de Produção, com foco na criação e gestão de indicadores de desempenho voltados a centrais dosadoras de concreto. Sólida experiência no desenvolvimento de argamassas industrializadas, com conhecimento na área de pesquisa, desenvolvimento e produção de fibrocimento (cimento-amianto e CRFS). Atualmente, é Gerente Corporativo de Desenvolvimento Técnico da Concrebras.
Contato
luiz.trevisol@concrebras.com.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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