Congresso IBRACON aponta caminhos para estruturas de concreto mais duráveis
Monitoramento, UHPC e novos critérios de projeto ganham espaço para ampliar vida útil e reduzir emissões
Monitoramento permanente de pontes e viadutos, concretos com resistência superior a 100 MPa e a evolução dos critérios de dimensionamento buscando explorar de forma mais eficiente as propriedades dos materiais estão entre os caminhos apontados para tornar as estruturas de concreto mais duráveis, eficientes e sustentáveis. Os temas foram debatidos durante o congresso “Novidades na Cadeia Produtiva das Estruturas de Concreto”, promovido pelo Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) durante a Concrete Show 2026.
As apresentações de Marcos Monteiro, secretário de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (SIURB), Bernardo Tutikian, professor e pesquisador da Unisinos, e Paulo Helene, presidente da PhD Engenharia, mostraram diferentes frentes de uma mesma transformação: sair de uma lógica predominantemente corretiva para incorporar prevenção, novas tecnologias e critérios de projeto orientados à vida útil.
São Paulo aposta no monitoramento de pontes e viadutos
Marcos Monteiro apresentou a evolução do programa municipal de inspeção, monitoramento e recuperação das obras de arte especiais da capital paulista. Segundo ele, o episódio ocorrido em 2018, quando parte da estrutura de um viaduto na Marginal Pinheiros sofreu uma ruptura em um aparelho de apoio, reforçou a necessidade de estabelecer uma política contínua de acompanhamento dessas estruturas.

Crédito: Marina Pastore
“Não é só uma questão de segurança, que evidentemente é fundamental para os usuários. É também uma questão patrimonial. Quanto mais tempo demoramos para intervir em uma estrutura, mais cara e mais demorada será sua recuperação”, afirmou Monteiro.
Desde 2021, segundo o representante da SIURB, aproximadamente R$ 3 bilhões foram destinados ao programa. Até o momento, foram realizadas 2.322 inspeções, com outras 64 em andamento, além de 304 obras de recuperação concluídas e 73 em execução. O município mantém 770 estruturas monitoradas e possui cerca de 1.280 obras cadastradas, incluindo pontes, viadutos, passarelas e túneis.
O programa segue as diretrizes da ABNT NBR 9452 para inspeções de pontes, viadutos e passarelas. As estruturas que apresentam condições mais críticas são priorizadas para inspeções especiais e intervenções.
A gestão municipal também avançou para o monitoramento em tempo real. Uma central integra câmeras, informações de satélite, drones, georreferenciamento, scanners, sensores e dados de redes sociais e aplicativos de navegação.
“Hoje conseguimos acompanhar deslocamentos das estruturas e do entorno. Quando há uma movimentação fora do padrão, o sistema gera alertas e nossas equipes podem ser direcionadas ao local para verificar o que está ocorrendo”, explicou Monteiro.
Outra frente é a utilização de gêmeos digitais, capazes não apenas de representar a estrutura tridimensionalmente, mas também de armazenar informações sobre movimentações, inspeções e comportamento ao longo do tempo.
UHPC surge como alternativa para estruturas de longa vida útil
Bernardo Tutikian concentrou sua apresentação no concreto de ultra-alto desempenho, o UHPC, tecnologia que vem avançando no país e que também ganhou novo respaldo na normalização técnica brasileira.
Segundo o pesquisador, um dos desafios está diretamente relacionado à durabilidade das obras de arte especiais. Embora estruturas como pontes e viadutos sejam projetadas para vidas úteis prolongadas, problemas relacionados à deterioração dos materiais e à ação de agentes ambientais podem exigir intervenções antes do período originalmente previsto.

“O sistema tradicional de concreto armado nem sempre vem dando a resposta adequada para nossas estruturas. Temos problemas de execução, controle e uso, e grande parte das manifestações está associada à corrosão das armaduras”, afirmou.
Com elevada compacidade e baixíssima relação água-aglomerante, o UHPC dificulta a entrada de agentes agressivos e apresenta resistência à compressão a partir de aproximadamente 100 MPa, podendo alcançar valores significativamente superiores. A presença de fibras também permite reduzir, e em determinadas aplicações até substituir parcialmente, armaduras convencionais.
“O UHPC não é simplesmente um concreto de altíssima resistência. É a combinação de concreto de alta resistência, concreto autoadensável e concreto reforçado com fibras”, explicou Tutikian.
A tecnologia já é utilizada internacionalmente em passarelas, pontes, fachadas e elementos pré-fabricados e começa a ampliar suas aplicações no Brasil, inclusive em ligações, juntas e elementos de reforço de obras de arte.
Um dos desafios para a maior disseminação do UHPC, entretanto, ainda é o custo inicial. Tutikian citou especialmente a disponibilidade de fibras de elevado desempenho, muitas delas ainda importadas. Por outro lado, avanços na formulação dos concretos, no desenvolvimentode aditivos de alto desempenho e nos processos de produção vêm tornando a tecnologia progressivamente mais acessível.
“Tecnologias que antes estavam praticamente restritas ao ambiente acadêmico estão reduzindo custos e começando a entrar nas aplicações reais”, observou.
Projeto pode reduzir concreto, aço e emissões
Paulo Helene abordou outro aspecto da evolução das estruturas: o melhor aproveitamento da resistência do concreto ao longo do tempo.
Segundo o engenheiro, o concreto possui uma característica particular em relação a materiais como o aço: suas propriedades continuam se modificando após a concretagem. A resistência mecânica tende a aumentar com o avanço da hidratação do cimento, embora também possa sofrer redução relativa quando submetida a cargas elevadas de longa duração.

Crédito: Marina Pastore
“A resistência do concreto cresce com a idade, mas frequentemente deixamos de aproveitar esse potencial no projeto”, afirmou Helene.
Ele defendeu maior flexibilidade normativa para permitir a adoção de idades de referência superiores aos tradicionais 28 dias, como 63 ou 91 dias, prática já admitida por referências internacionais.
Na avaliação de Helene, essa mudança pode permitir menor consumo de cimento sem comprometer a resistência especificada. “Só de mudar a idade de controle, mantendo o mesmo FCK de projeto, é possível reduzir o consumo de cimento e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa”, explicou.
O professor também destacou que a sustentabilidade de uma estrutura não deve ser avaliada somente pelas emissões de um metro cúbico de concreto. Concretos de maior resistência podem exigir mais cimento por metro cúbico, mas permitem reduzir dimensões dos elementos e, principalmente, a quantidade de aço.
“O que importa é a emissão da estrutura pronta. Não adianta olhar apenas para o metro cúbico de concreto”, ressaltou.
Para Helene, a evolução das normas brasileiras pode abrir caminho para projetos mais eficientes sem tornar essas alternativas obrigatórias. “Precisamos de uma norma mais flexível, que ofereça novas possibilidades para quem tiver conhecimento e quiser utilizá-las”, concluiu.
As discussões do Congresso IBRACON evidenciaram, assim, uma mudança de perspectiva na cadeia produtiva: mais do que recuperar estruturas degradadas, o desafio passa por projetar, executar e monitorar estruturas capazes de alcançar maior vida útil, demandar menos intervenções de manutenção e recuperação e utilizar materiais e recursos de forma mais eficiente ao longo de todo o ciclo de vida.
Fontes
Marcos Monteiro é secretário de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (SIURB).
Bernardo Tutikian é professor e pesquisador da Unisinos.
Paulo Helene é presidente da PhD Engenharia.
Contatos
Marcos Monteiro – siurbassesimprensa@prefeitura.sp.gov.br
Bernardo Tutikian – bftutikian@unisinos.br
Paulo Helene – paulo.helene@concretophd.com.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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