Prédios altos ampliam desafios técnicos das paredes de concreto
Planejamento, desempenho do concreto e integração de projetos são decisivos para produtividade
O sistema de paredes de concreto, já consolidado em empreendimentos habitacionais de menor porte, avança para edifícios cada vez mais altos e traz novos desafios para projetistas, construtoras e fornecedores. No 5º Seminário ABESC de Paredes de Concreto para Prédios Altos, realizado durante a Concrete Show 2026, especialistas destacaram que a verticalização exige mais do que simplesmente reproduzir soluções utilizadas em edificações de menor altura: demanda planejamento desde a concepção do empreendimento, especificação adequada do concreto, integração entre projetos e coordenação das diferentes etapas e agentes envolvidos na cadeia produtiva.
Segundo Álvaro Sérgio Barbosa Júnior, coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC), a evolução do sistema já levou o setor a discutir edifícios com mais de 20 pavimentos. Para ele, quanto maior a altura, maiores também são as exigências técnicas e de desempenho.
Concreto precisa ser especificado pelo desempenho
Um dos principais pontos levantados por Barbosa foi a necessidade de abandonar a lógica de comprar concreto apenas pelo FCK. Para prédios altos, segundo ele, características como fluidez, estabilidade, resistência para desforma, módulo de elasticidade e trabalhabilidade precisam ser especificadas desde o projeto e efetivamente transmitidas ao fornecedor.
“Principalmente focando em prédios altos, não dá para trabalhar com concreto ‘bem molinho’. Eu tenho que trabalhar com concreto com fluidez controlada”, afirmou Barbosa. A especificação correta, acrescentou, contribui para aumentar a velocidade de lançamento, reduzir falhas de concretagem e acabamento e melhorar a previsibilidade do processo.
A ABESC também vem estudando o uso do método da maturidade para acelerar a liberação das formas. Barbosa relatou que, em obras-piloto, ciclos inicialmente previstos para alcançar 3 MPa em 12 horas têm permitido desformas em cerca de nove horas. Para ele, o ganho de produtividade depende justamente de conhecimento técnico e controle do concreto, não apenas da adoção do sistema construtivo.
Nos levantamentos apresentados pelo coordenador, a utilização de concreto fluido em paredes de concreto alcançou índice de produtividade de 0,95 homem-hora por metro cúbico, além de redução de aproximadamente 35% no indicador homem-hora por volume concretado. “Produtividade depende mais de gestão técnica do que da região. É muito mais a gestão do processo de como você vai trabalhar”, ressaltou.
Verticalização exige engenharia antes do canteiro
Para Ary Fonseca Junior, sócio-diretor da Signo Engenharia, o avanço do sistema de paredes de concreto em edifícios altos evidencia a necessidade de antecipar decisões de engenharia para etapas cada vez mais iniciais do empreendimento.

O especialista lembrou que, em pouco mais de uma década, o sistema deixou de estar associado principalmente às habitações de interesse social, especialmente às edificações vinculadas ao programa Minha Casa, Minha Vida, e passou a ser empregado também em edifícios de dezenas de pavimentos. Em sua apresentação, citou exemplos de torres de 36 andares.
Segundo Fonseca Junior, a parede de concreto não deve ser entendida isoladamente como um processo industrializado, mas como um sistema construtivo altamente racionalizado, capaz de incorporar diversos componentes industrializados, como telas soldadas, formas, kits hidráulicos e outros subsistemas.
“O sistema de parede de concreto não é industrializado. Ele é muito racionalizado, mas acopla subsistemas que estão industrializados”, explicou. Para ele, essa combinação permite reduzir a dependência de mão de obra no canteiro, especialmente quando associada ao concreto autoadensável e a equipamentos adequados.
A eficiência, porém, precisa nascer antes da obra. “Eu já tenho que fazer engenharia quando sentar com o incorporador, com o arquiteto e com o dono”, defendeu Fonseca Junior. A definição antecipada de soluções estruturais, instalações, logística e métodos executivos evita que decisões incompatíveis com a repetitividade do sistema comprometam posteriormente os ciclos de produção.
Pré-engenharia passa a definir a viabilidade
A experiência da Quattro Construtora mostrou como essa mudança de cultura ocorre na prática. Thales Ozório Sousa, gerente de Novos Negócios da empresa, relatou que a construtora decidiu migrar para paredes de concreto após enfrentar desperdícios, dificuldades de gestão e pressão sobre as margens em empreendimentos executados pelos sistemas tradicionais.

Na opinião de Thales Ozório Sousa, parede de concreto não é o começo, é o durante do negócio. Crédito: Marina Pastore
No projeto Estrada dos Altos, a adoção da tecnologia ocorreu em um terreno com cerca de 20 metros de desnível, originalmente pensado para uma solução convencional. A implantação exigiu rever projetos e integrar arquitetos, calculistas, especialistas em fundações, contenções, pré-moldados e instalações.
“A engenharia a montante nada mais é do que pensar o empreendimento antes de começar a fazer. Quando você pensa antes de executar, tem ganhos extraordinários”, afirmou Sousa. Segundo ele, apenas a análise antecipada das soluções de taludes e contenções representou economia de alguns milhões de reais no empreendimento.
A empresa também passou a reunir premissas comerciais, técnicas e de execução em um “caderno de engenharia”, entregue posteriormente ao responsável pela obra. O documento registra desde o sistema estrutural e as especificações do concreto até marcos de contratação, cronograma e histórico da execução.
Sistema muda a organização da construtora
Para Sousa, um dos maiores aprendizados foi perceber que a parede de concreto não transforma somente a estrutura do edifício. Ela interfere na própria organização empresarial, exigindo profissionais familiarizados com o sistema, integração de departamentos e antecipação de decisões.
“Parede de concreto não é o começo, é o durante do negócio”, resumiu. Antes da escolha do sistema, segundo ele, precisam existir pessoas capacitadas, gestão e processos estruturados.
A escolha do terreno e a concepção arquitetônica também passam a ser decisivas. Embora seja tecnicamente possível adaptar o sistema a situações complexas, determinadas soluções podem eliminar justamente sua principal vantagem. “Você pode fazer qualquer coisa com parede de concreto, só que vai perder produtividade. E o conceito de usar parede de concreto é ganhar produtividade”, destacou Sousa.
Fontes
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior é coordenador técnico da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem (ABESC).
Ary Fonseca Junior é sócio-diretor da Signo Engenharia.
Thales Ozório Sousa é gerente de Novos Negócios da Quattro Construtora.
Contatos
Álvaro Sérgio Barbosa Júnior – alvaro@abesc.org.br
Ary Fonseca Junior – ary.signo@terra.com.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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