Concreto autoadensável contribui para a eficiência e qualidade em obras e estruturas pré-moldadas
Tecnologia elimina a necessidade de vibração mecânica, reduz falhas de concretagem e ganha espaço em projetos de infraestrutura
O concreto autoadensável (CAA) consolidou sua presença em diversos segmentos da construção civil nas últimas décadas. Desenvolvido no Japão no fim dos anos 1980, o material se destaca pela capacidade de preencher formas e envolver armaduras apenas com a ação do próprio peso, sem necessidade de vibração mecânica. A característica proporciona ganhos de produtividade, melhora o acabamento superficial e reduz riscos de falhas durante a concretagem.
Embora o uso do CAA já seja amplamente difundido em fábricas de pré-moldados e em grandes obras de infraestrutura, sua adoção em construções convencionais ainda enfrenta desafios relacionados à cultura construtiva e à resistência à mudança de métodos tradicionais.
Segundo o engenheiro civil Cesar Henrique Sato Daher, sócio-fundador do IDD Educação Avançada e da DAHER Engenharia Consultiva e Tecnologia, o setor de pré-fabricados foi pioneiro na utilização da tecnologia. “As indústrias de pré-moldados foram as primeiras a adotar o concreto autoadensável. Atualmente, grande parte das fábricas do segmento e diversas obras de infraestrutura utilizam essa solução de forma consolidada“, afirma.

Crescimento impulsionado pela infraestrutura
De acordo com Daher, a disseminação do CAA no Brasil ganhou força após a publicação da norma técnica específica, em 2010, resultado de pesquisas conduzidas por universidades e centros de pesquisa nacionais.
Apesar disso, a aplicação em edifícios convencionais ainda ocorre de forma mais restrita. Em muitos casos, o concreto autoadensável é utilizado apenas em elementos estruturais com elevada concentração de armaduras ou em fundações especiais. “Nós mesmos tivemos que superar uma grande barreira para utilizar o concreto autoadensável em toda a estrutura da recém-inaugurada Ponte de Guaratuba. Ainda existe uma forte preferência por sistemas que utilizam vibração do concreto”, observa.

Entre os sistemas construtivos que mais contribuíram para ampliar a presença do material, estão as paredes de concreto moldadas no local, que demandam alta produtividade e uniformidade de execução.
Evolução dos aditivos ampliou aplicações
O desenvolvimento dos aditivos superplastificantes foi determinante para a expansão do concreto autoadensável. Os primeiros produtos disponíveis no mercado brasileiro, na década de 1990, apresentavam limitações relacionadas à manutenção da trabalhabilidade e ao aumento da viscosidade da mistura.
A situação começou a mudar com a chegada dos aditivos à base de éter policarboxilato, conhecidos como produtos de terceira geração. “Houve uma evolução significativa desses aditivos ao longo dos anos. Hoje eles permitem maior manutenção da trabalhabilidade, podem ser adicionados diretamente na usina de concreto e apresentam melhor desempenho mesmo com cimentos que possuem maiores teores de adições minerais”, explica Daher.

Segundo o especialista, as formulações mais recentes também apresentam maior tolerância à presença de argila nos agregados, ampliando as possibilidades de aplicação em diferentes regiões e condições de obra.
Controle rigoroso garante desempenho
Para assegurar a qualidade do concreto autoadensável, são realizados ensaios específicos previstos nas normas brasileiras. Entre eles, estão os testes que avaliam a fluidez, a viscosidade, a estabilidade da mistura e a capacidade de passagem entre armaduras. Esses procedimentos verificam se o concreto consegue escoar adequadamente, preencher todos os espaços da forma e manter a distribuição uniforme dos agregados, sem ocorrência de segregação ou exsudação.
O monitoramento dessas características é especialmente importante em estruturas complexas, como vigas, pilares e elementos pré-moldados de grande porte.
Cuidados especiais
A elevada fluidez do CAA exige atenção especial ao dimensionamento das formas, já que a pressão exercida pelo material é superior à observada em concretos convencionais. Também é necessário reforçar a vedação das juntas para evitar vazamentos de nata de cimento e defeitos superficiais após a desforma.
De forma semelhante aos materiais convencionais, em concretos com alta taxa de armaduras o controle da granulometria dos agregados torna-se um aspecto ainda mais relevante para o CAA. “É fundamental que o diâmetro máximo dos agregados seja compatível com os espaçamentos entre as barras de aço. Dessa forma, evita-se o bloqueio do material e garante-se o preenchimento adequado dos elementos estruturais”, destaca Daher.
Ganhos em produtividade e durabilidade
Entre os benefícios mais valorizados do concreto autoadensável, destacam-se a redução do tempo de execução, a melhoria do acabamento superficial e a diminuição de falhas de concretagem.
Segundo Daher, a eliminação da etapa de vibração mecânica reduz a necessidade de mão de obra direta e acelera os ciclos de produção em fábricas e canteiros. “Há uma redução significativa das falhas de concretagem. O concreto preenche os vazios de forma autônoma e garante o cobrimento adequado das armaduras, contribuindo para aumentar a durabilidade e a vida útil das estruturas”, afirma. Além disso, a melhoria da qualidade superficial reduz retrabalhos após a desforma, diminuindo a necessidade de correções, lixamentos e reparos. O resultado é um processo construtivo mais eficiente, com maior controle de qualidade e melhor desempenho estrutural ao longo do tempo.

Entrevistado
Cesar Henrique Sato Daher é engenheiro civil, técnico em edificações pela UTFPR, graduado em Engenharia Civil e Mestre em Construção Civil pela UFPR, conselheiro e diretor no IBRACON (Instituto Brasileiro do Concreto), presidente de honra da Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil). 36 anos de experiência em tecnologia do concreto, argamassas e materiais, com participação em obras de vulto convencionais e de infraestrutura. Professor universitário há 25 anos e sócio-fundador do IDD Educação Avançada.
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Ana Carvalho
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