Uso do concreto aparente cresce em projetos voltados à eficiência térmica e integração urbana

Tendências arquitetônicas dão prioridade à durabilidade, racionalização construtiva e redução de custos com manutenção

O concreto deixou de ocupar apenas a função estrutural das edificações para assumir protagonismo estético e funcional na arquitetura contemporânea. Em projetos de diferentes escalas, o material vem sendo associado a tendências que valorizam desempenho térmico, durabilidade, racionalização construtiva e integração entre arquitetura e cidade. Nesse contexto, destacam-se a arquitetura bioclimática e a retomada da linguagem brutalista.

A valorização do concreto aparente não é recente, mas ganhou novo impulso nos últimos anos. Segundo a engenheira da Geplan, Natália Smaniotto Bach, esse movimento teve início ainda no modernismo, quando arquitetos passaram a explorar o concreto não apenas como solução estrutural, mas também como elemento de expressão estética. “O concreto aparente começou a ser valorizado por sua aparência crua e sua capacidade de criar formas inovadoras. Depois, ganhou destaque no movimento brutalista, que enfatizava a honestidade dos materiais e formas robustas”, afirma.

A linguagem brutalista, difundida internacionalmente sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970, voltou a influenciar projetos contemporâneos, especialmente em edifícios culturais, corporativos e residenciais de alto padrão. Caracterizada pela exposição da estrutura, pela valorização das formas geométricas e pela ausência de revestimentos convencionais, essa vertente faz na materialidade parte central da identidade arquitetônica.

Sesc Pompéia é uma das referências no uso de concreto aparente. Crédito: Divulgação

No Brasil, obras como o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, de Paulo Mendes da Rocha, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, de Vilanova Artigas, e o Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi, são referências do uso do concreto aparente como expressão arquitetônica permanente.

Menos revestimentos e maior durabilidade

Além do aspecto visual, o concreto aparente vem sendo adotado também por razões técnicas e econômicas. Ao eliminar etapas como reboco, massa corrida e pintura, o sistema reduz o consumo de materiais, simplifica o cronograma executivo e diminui a geração de resíduos. “A principal vantagem do concreto aparente está na redução ou eliminação dos revestimentos convencionais, uma vez que o próprio elemento estrutural passa a constituir o acabamento final da edificação”, explica Natália.

Essa característica também reduz interfaces entre equipes de obra, diminui retrabalhos e pode reduzir custos futuros de manutenção. “O concreto aparente não demanda repinturas frequentes nem substituição de revestimentos destacáveis. As manutenções normalmente se restringem à limpeza e tratamentos pontuais”, afirma.

Outro fator que impulsiona o uso do material é a durabilidade. Quando corretamente especificado e executado, o concreto apresenta elevada resistência mecânica, bom desempenho frente à umidade e ao desgaste natural, além de maior estabilidade estética ao longo do tempo.

Arquitetura bioclimática impulsiona novas aplicações

Arquitetura bioclimática utiliza o potencial do concreto para promover eficiência térmica. Crédito: Divulgação

O concreto também ganhou espaço em projetos de arquitetura bioclimática, modelo que busca adaptar as edificações às condições climáticas locais para ampliar o conforto térmico e reduzir o consumo energético.

Nesse contexto, a inércia térmica do concreto passou a ser utilizada estrategicamente para minimizar oscilações de temperatura nos ambientes internos. A arquiteta e urbanista Paula Morais explica que esse desempenho está diretamente relacionado às características e às necessidades específicas de cada projeto. “A arquitetura bioclimática fundamenta-se na utilização de elementos que auxiliam diretamente na eficiência energética da edificação, controlando variáveis conforme a necessidade climática. O concreto armado apresenta-se como um aliado estratégico pela sua inércia térmica, que auxilia na regulação das temperaturas internas”, destaca.

Ela aponta que estratégias passivas relacionadas à incidência solar, ventilação e microclima urbano têm orientado soluções arquitetônicas mais integradas ao espaço público e ao território. “É preciso respeitar as particularidades de implantação e o microclima específico de cada projeto”, ressalta.

A arquiteta também observa que o concreto é um sistema construtivo amplamente difundido e acessível. Sua ampla aceitação deve-se ao fato de ser um sistema de fácil manuseio e de conhecimento popular na hora da execução.

Integração entre cidade e edifícios

A discussão sobre sustentabilidade e desempenho urbano também tem aproximado a arquitetura bioclimática do planejamento dos espaços públicos. Em projetos contemporâneos, áreas de convivência, fachadas ativas e ambientes de fruição coletiva passaram a ser incorporados ao desenho arquitetônico como forma de estimular circulação de pessoas e ampliar a sensação de segurança urbana.

A proposta busca criar edificações que dialoguem com o entorno urbano, favorecendo o uso coletivo dos espaços e reduzindo barreiras físicas entre cidade e arquitetura.

Nesse cenário, o concreto segue como um dos materiais mais presentes nas novas soluções arquitetônicas. Seja pela estética, pela durabilidade ou pelo desempenho térmico, o ele consolida sua presença em projetos que priorizam eficiência construtiva, sustentabilidade e integração urbana.

Entrevistados

Natália Smaniotto Bach é engenheira civil, mestra em Engenharia Civil na área de Construção Civil e pós-graduanda em Gestão de Projetos, com oito anos de experiência na coordenação e compatibilização de projetos multidisciplinares, atuando na integração entre arquitetura e engenharia, com foco em soluções técnicas, resolução de interferências e cumprimento de prazos. Atualmente, é engenheira da Geplan.

Paula Morais é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com especialização em Meio Ambiente e Arquitetura Bioclimática pela Universidad Politécnica de Madrid e MBA em Administração e Gestão de Incorporações e Construções Imobiliárias pela FGV. Fundadora do Estudio Convexo, aplica e estudos de clima e desempenho ambiental aos projetos que desenvolve, com foco em eficiência térmica, respeito ao território e sustentabilidade.

Contato

natalia.bach@gmail.com

thabata@versotht.com.br (Assessoria de Imprensa)

Jornalista responsável

Ana Carvalho

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