Normas técnicas ganham protagonismo na agenda ambiental da construção em 2026
Atualização de documentos da ABNT e avanço de novas diretrizes ampliam o respaldo técnico para projetos com menor emissão de CO2
A discussão sobre reduzir as emissões de CO₂ na construção civil está cada vez mais relacionada às normas técnicas. Em 2026, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) deverá consolidar e atualizar os documentos que orientam todas as etapas, do projeto à operação das edificações, com foco em desempenho, controle de processos e sustentabilidade.
Mario William Esper, presidente da ABNT, explica que o apoio normativo para reduzir emissões não se concentra em um único texto. Na prática, ele está distribuído em diversas normas e frentes de trabalho que envolvem fabricantes de materiais, projetistas, construtoras, bem como gestores e responsáveis pela operação e manutenção dos edifícios. “Diminuir as emissões na construção passa por toda a cadeia. Por isso, o suporte técnico se apoia em normas que tratam de sustentabilidade, desempenho, eficiência e controle, criando condições para evitar desperdícios e impactos ao longo da vida útil dos edifícios”, afirma.
Entre as iniciativas em andamento, Esper destaca os comitês que definem referências para temas como taxonomia, inventário de emissões e análise de ciclo de vida. No que diz respeito aos materiais, já estão sendo desenvolvidas normas que estabelecem requisitos relacionados à redução de emissões em cimento, aço e concreto.
A ABNT também mantém grupos que atuam na gestão de resíduos sólidos e logística reversa, contribuindo diretamente para reduzir perdas e aumentar a reciclagem. No universo da construção civil, as discussões abrangem industrialização, uso de BIM, coordenação modular e estudos para a criação de uma norma específica sobre inventários de gases de efeito estufa em edificações, alinhada a referências internacionais.
No que se refere a desempenho, a ABNT NBR 15575 já estabelece requisitos ligados à sustentabilidade, enquanto outros grupos seguem avançando em eficiência energética e desempenho térmico.

Crédito: Envato
A atualização das normas de produto também integra a agenda. A ABNT NBR 13281, publicada em 2018, estabeleceu requisitos de desempenho para argamassas, contribuindo para maior durabilidade e redução de custos com manutenção e descarte.
Na visão de Esper, esse tipo de norma contribui, mesmo que indiretamente, para a mitigação de emissões. “Quando a norma eleva o padrão técnico do produto e orienta o uso correto, reduz falhas, retrabalhos e manutenção precoce. O benefício ambiental muitas vezes vem desse efeito acumulado”, explica. Ele também lembra que critérios mais rigorosos de qualidade e durabilidade tendem a diminuir desperdícios na obra e o consumo de recursos ao longo do tempo.
Na construção civil, referências como a ABNT NBR ISO 14068 e a ABNT PR 2060 ajudam a dar mais consistência técnica às estratégias de descarbonização, porque organizam critérios para quantificação, redução e neutralidade de carbono. “Isso é relevante para todo o ciclo do empreendimento, da escolha de materiais e sistemas à operação da edificação, bem como fortalece decisões mais seguras, mensuráveis e alinhadas à sustentabilidade”, assinala.
Já as normas como a ABNT NBR ISO 14064 e a ABNT NBR ISO 14067 são referenciais importantes, porque dão base técnica para medir emissões e calcular a pegada de carbono de produtos. “No contexto da construção civil, isso contribui para comparações mais objetivas entre materiais, processos e soluções construtivas, favorecendo escolhas com menor impacto ambiental”, aponta Esper.
Em janeiro de 2026, foi publicada a ABNT NBR 20250, que estabelece diretrizes gerais de sustentabilidade para produtos e serviços. O documento está alinhado ao Programa Selo Verde, do governo federal,e busca orientar a adoção de medidas que minimizem impactos negativos e potencializem os positivos nas áreas ambiental, social e econômica. A norma também tem como objetivo auxiliar na verificação de práticas sustentáveis e oferecer maior clareza técnica para compras públicas.
Segundo Esper, outras discussões estão em andamento, incluindo a elaboração de documentos para produtos laminados de alumínio, polímeros de fonte renovável e vidros com atributos sustentáveis. O objetivo é estabelecer critérios verificáveis que auxiliem projetos, especificações e fiscalização.
Apesar dos avanços, ele acredita que o setor ainda precisa ganhar escala e consistência. “O desafio é transformar boas práticas em referências técnicas mais amplas, que orientem projetos e decisões de forma uniforme”, afirma. Esper destaca a importância de articulação com órgãos públicos e com toda a cadeia produtiva, assim como do investimento em tecnologia e recursos para agilizar a criação e atualização das normas.
Em relação a todos os documentos em elaboração, a expectativa é que parte das novas normas seja publicada no primeiro semestre de 2026, dependendo do andamento das etapas formais, como consulta pública.
Para o setor da construção, o avanço nas normas promete influenciar os projetos futuros, oferecendo critérios mais claros de desempenho ambiental e aumentando a previsibilidade técnica das soluções adotadas.
Entrevistado
Mario William Esper é engenheiro civil e mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). É presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), presidente da Associação Mercosul e diretor titular adjunto do Departamento da Indústria da Construção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Integra também o Conselho Superior do Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o grupo curador do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS) do Ministério do Desenvolvimento Regional. Atua na área de normalização técnica desde 2001 e tem longa trajetória na Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), onde iniciou carreira como estagiário de engenharia civil em 1974.
Contato
mario.william@abnt.org.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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