Novas soluções de segurança reduzem acidentes na construção

A NR-1 reforçará a gestão estruturada de riscos como eixo central da prevenção

A atualização da Norma Regulamentadora NR-1, que passa a vigorar plenamente em maio de 2026, consolida uma mudança estrutural na gestão de segurança e saúde do trabalho no Brasil. Se antes predominava uma abordagem reativa, centrada à acidentes já ocorridos, o novo texto normativo reforça a adoção de uma gestão preventiva e contínua de riscos — incluindo fatores psicossociais — como eixo estratégico da proteção à saúde e à integridade dos trabalhadores.

Na construção civil, essa transformação já apresenta resultados concretos. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) divulgados em novembro de 2025 indicam redução superior a 30% nos acidentes de trabalho em 2023, inclusive nos casos mais graves. O avanço está relacionado à atualização da NR-18, de 2020, que fortaleceu o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) nos canteiros, e que ganha agora nova dimensão com a integração exigida pela NR-1.

Da reação à gestão integrada de riscos

Para Haruo Ishikawa, vice-presidente de Relações Capital-Trabalho do SindusCon-SP, o principal impacto da norma está na consolidação da gestão estruturada de riscos como prática obrigatória.

“Com a plena exigibilidade prevista para maio de 2026, a NR-1 reforça a gestão estruturada de riscos como eixo central da prevenção. Nos canteiros, todo risco ocupacional deve estar formalmente identificado, avaliado e controlado dentro do PGR”, afirma.

Na prática, isso significa que a empresa deve considerar não apenas riscos físicos, químicos e biológicos, mas também fatores ergonômicos, organizacionais e psicossociais. Pressão por prazo, jornadas extensas, mudanças constantes de tarefa, falhas de comunicação e clima organizacional passam a integrar formalmente a matriz de risco.

O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) precisa estar integrado à gestão da obra, com revisões contínuas — já que o canteiro é um ambiente dinâmico. A participação ativa dos trabalhadores na identificação de perigos torna-se obrigatória, assim como o monitoramento da eficácia das medidas adotadas.

A aplicação consistente do PGR tem impulsionado a profissionalização da gestão de obras e plantas industriais.
Crédito: Envato

Segurança, saúde mental e produtividade

A inclusão dos riscos psicossociais formaliza um debate que já vinha ganhando espaço no setor: ambientes mais seguros também reduzem estresse e adoecimento mental.

Segundo Ishikawa, há relação direta entre sobrecarga mental e acidentes. “A sobrecarga provoca queda de atenção, aumento de erros operacionais, impulsividade e fadiga cognitiva. A NR-1 determina que esses fatores sejam identificados e controlados no PGR.”

Aspectos aparentemente simples, como conforto térmico inadequado, impactam a concentração e elevam o risco de falhas. Posturas incorretas geram fadiga precoce e perda de precisão. A desorganização do canteiro aumenta o risco de quedas, colisões e retrabalho.

Soluções de alto impacto incluem áreas de sombra e pausas térmicas, layout racional do canteiro, rodízio de tarefas, ferramentas ergonômicas, sinalização clara e planejamento diário das frentes de trabalho. Ishikawa acredita que medidas administrativas e organizacionais, quando bem aplicadas, reduzem não apenas acidentes, mas rotatividade e afastamentos.

Para Ishikawa, uma gestão bem estruturada dentro do canteiro reduz significativamente os acidentes de trabalho — inclusive aqueles relacionados à saúde mental.Obras organizadas, com planejamento consistente e controle efetivo de riscos, apresentam menor rotatividade, maior produtividade e menos afastamentos. Isso ocorre porque a gestão moderna atua de forma preventiva, com foco em planejamento, comunicação eficiente, fortalecimento da cultura de segurança e tomada de decisões baseada em dados. Por isso, é fundamental que as empresas mantenham indicadores estatísticos atualizados sobre seus canteiros. É preciso identificar, com clareza, quais são as principais causas de acidentes, em que etapas eles ocorrem com mais frequência e quais fatores estão envolvidos. Esses dados são essenciais para promover melhoria contínua e ajustar as medidas de controle de forma eficaz”, afirma.

Ao falar sobre os principais fatores de estresse no canteiro, a resposta é complexa, mas a NR-1 avança ao reconhecer oficialmente os riscos psicossociais como ocupacionais. “Entre os fatores mais comuns estão a pressão excessiva por prazos, jornadas extensas, mudanças constantes de tarefa sem o devido preparo, clima organizacional inadequado, baixa autonomia e falhas de comunicação. A pressão por prazo, por exemplo, pode levar o trabalhador a atuar sob tensão permanente. Jornadas prolongadas aumentam a fadiga e elevam o risco de acidentes — não é raro que ocorrências aconteçam no fim do dia, quando o nível de exaustão já compromete a atenção. A troca frequente de funções sem treinamento adequado também gera insegurança e estresse. A fadiga cognitiva reduz a capacidade de concentração, aumenta erros operacionais e pode levar a decisões impulsivas. Por isso, a NR-1 determina que esses fatores sejam formalmente identificados, avaliados e controlados no PGR”, destaca Ishikawa.

No contexto das operações em concreteiras, os riscos ocupacionais exigem atenção redobrada em razão das características técnicas das atividades e do ambiente de trabalho. Conforme José Antonio Morais Belo, engenheiro de segurança do trabalho da Concrebras, os principais riscos envolvem: lesões por operação de equipamentos e tubulações pressurizadas; choques elétricos inclusive de alta tensão com a operação de lanças, que podem atingir a fiação aérea; acidentes provocados por buracos existentes nos canteiros de obras; além de quedas relacionadas a pisos irregulares e desníveis

Profissionalização da gestão e dados como base de decisão

A aplicação consistente do PGR tem impulsionado a profissionalização da gestão de obras e plantas industriais. Empresas que estruturam o programa com base na realidade específica de cada operação — e não em modelos padronizados — apresentam redução consistente de acidentes.

“O PGR não pode ser um documento copiado. Ele precisa refletir o risco real do canteiro ou da planta industrial. É um instrumento dinâmico, que acompanha o andamento da obra”, reforça Ishikawa.

A norma também passa a exigir indicadores mais robustos, como o monitoramento de taxas de acidentes e incidentes, a eficácia das medidas de controle, os indicadores de saúde organizacional e a aderência aos programas de treinamento. O treinamento, por sua vez, deve ser baseado no risco real das atividades, ser periódico, documentado e ter sua eficácia avaliada.

O que muda a partir de 2026?

De acordo com Ishikawa, com a plena exigibilidade da NR-1 em maio de 2026, as empresas precisarão:

  • Revisar o PGR e incluir formalmente riscos psicossociais e organizacionais;
  • Atualizar matrizes de risco conforme mudanças no canteiro ou na planta;
  • Estruturar processos formais de gestão de mudanças e investigação de incidentes;
  • Criar indicadores preventivos, além dos tradicionais índices de acidentes;
  • Capacitar lideranças com foco em gestão de risco e fatores humanos. “A forma como o gestor se comunica e conduz a equipe impacta diretamente o clima organizacional. Uma liderança despreparada pode gerar estresse desnecessário e aumentar riscos. Por isso, defendo que a liderança deve ser exemplo dentro do canteiro, tanto na postura quanto no compromisso com a segurança”, opina Ishikawa.
  • Garantir participação efetiva dos trabalhadores.

“A NR-1 representa, na minha visão, uma verdadeira mudança de paradigma: ela abandona o modelo reativo e consolida uma gestão contínua e integrada dos riscos, incorporando de forma estruturada os fatores humanos e organizacionais. Em síntese, a norma reconhece que os riscos psicossociais fazem parte da gestão de segurança e precisam ser tratados de maneira preventiva e sistêmica”, comenta Ishikawa.

Ishikawa percebe que ainda há apreensão em relação à NR-1, mas, na prática, não se trata de algo intransponível. “A norma exige, essencialmente, aquilo que a construção civil já precisa fazer: melhorar a organização da obra e estruturar de forma mais consistente a organização do trabalho dentro do canteiro. Não há ‘segredo’. Trata-se de incorporar mais um elemento fundamental à gestão — que, no fim, contribui para qualificar o setor como um todo. O mundo mudou, as relações de trabalho mudaram e os riscos psicossociais sempre existiram. A diferença agora é que eles passam a ser reconhecidos formalmente. É importante distinguir, inclusive, aquilo que o trabalhador traz de sua vida pessoal dos fatores que são gerados ou agravados no ambiente de trabalho — e é sobre estes que a empresa precisa atuar. Atuo há 24 anos na área de saúde e segurança do trabalhador da construção civil e posso afirmar: não é um ‘bicho de sete cabeças’. A exigibilidade plena da norma se aproxima e é natural que haja preocupação. Mas, com organização, capacitação e uso adequado das ferramentas de gestão, a NR-1 tende a fortalecer — e não fragilizar — a construção civil”, afirma Ishikawa.

De acordo com Belo, a NR 01 estabelece a implantação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) que subsidia o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). “A partir do programa, aqui na Concrebras,  nós levantamos todos os riscos para elaborar o Inventário de Riscos Ocupacionais (IRO) que possuem detalhamento técnico, número de envolvidos e medidas de controle necessárias para que o risco seja reduzido. Utilizamos uma matriz de risco específica que traduz para uma leitura técnica dos riscos mais relevantes, o que nos possibilita a criação de planos de ação, com classificação de prioridades. A partir do plano de ação estabelecido, estudamos novas tecnologias de bombeamento, inspeções detalhadas do processo produtivo, alinhamos com os clientes modelos mais seguros de operação, treinamos as equipes. Exemplo: temos acidentes com o uso de marretas para fechamento de abraçadeiras, portanto, estudamos a partir da identificação do risco, o uso de ferramentas específicas e apropriadas com o intuito de reduzir a exposição”, conclui.

Entrevistado

Haruo Ishikawa é vice-presidente das Relações Capital-Trabalho do SindusCon-SP.

José Antonio Morais Belo é engenheiro de segurança do trabalho da Concrebras.

Contato

rmontagnini@sindusconsp.com.br

jose.belo@cimentoitambe.com.br

Jornalista responsável: 
Marina Pastore – DRT 48378/SP 
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