Impressão 3D com concreto avança no Brasil, mas ainda enfrenta desafios para ganhar escala

Tecnologia já sai do campo experimental e começa a chegar a projetos reais, enquanto setor discute normas, custos e aplicações viáveis para os próximos anos

A impressão 3D com concreto começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante no debate sobre inovação na construção civil brasileira. Após anos restrita a laboratórios e protótipos, a tecnologia entra em uma fase de transição para aplicações práticas, com projetos em escala real, participação de startups, universidades e construtoras, além de um crescente interesse do mercado por soluções mais produtivas e sustentáveis.

Segundo especialistas, o Brasil reúne condições favoráveis para o desenvolvimento da manufatura aditiva na construção, como diversidade de materiais, base acadêmica consolidada e desafios estruturais que estimulam novas soluções. Ainda assim, a consolidação da tecnologia depende de avanços regulatórios, definição de modelos de negócio e identificação clara de nichos onde a impressão 3D seja competitiva.

Da pesquisa à obra

Para Victor Keniti Sakano, sócio fundador da Portal3D, a tecnologia já superou a fase puramente conceitual. “Hoje eu vejo a impressão 3D com concreto no Brasil num estágio de transição entre a pesquisa e a aplicação prática. As primeiras provas de conceito já estão sendo realizadas e algumas delas em escala real, o que mostra que a tecnologia já saiu do papel”, afirma. Ele destaca que a Portal3D já possui peças instaladas em espaços públicos e projetos privados, o que demonstra maturidade técnica e operacional.

Esse movimento não ocorre de forma isolada. Outras empresas brasileiras também vêm desenvolvendo soluções próprias, contribuindo para a formação de um ecossistema mais adaptado às condições locais. A interação com universidades e centros de pesquisa tem sido decisiva para validar materiais, processos e desempenho estrutural.

Impressão 3D exige uma reorganização completa do processo construtivo
Crédito: Envato

Normas ainda são entrave

Apesar dos avanços, a ausência de normas específicas permanece como um dos principais obstáculos para a ampliação do uso da impressão 3D com concreto. Atualmente, os processos de extrusão não estão contemplados nas normas técnicas brasileiras, o que obriga cada projeto a passar por análises e ensaios individualizados. “O principal obstáculo hoje é que as normas brasileiras ainda não contemplam processos de extrusão de concreto. Cada projeto precisa ser justificado com ensaios estruturais, documentação e laudos específicos, o que torna a aprovação mais lenta”, explica Sakano. Segundo ele, a geração de dados técnicos por empresas e universidades tende a embasar, no futuro, guias e referências para normas nacionais.

Já o professor Vanderley John, da Universidade de São Paulo (USP), avalia que as barreiras normativas existem, mas não são determinantes neste momento. “Nós temos no Brasil o sistema de aprovação técnica do SINAT, do PBQP-H, que resolve pelo menos na habitação”, afirma. Para ele, o maior desafio está em desenvolver soluções robustas, de baixo custo, com maior produtividade e menor impacto ambiental.

Alto padrão e habitação econômica

As aplicações da impressão 3D com concreto se dividem, atualmente, entre projetos de alto padrão e iniciativas voltadas à habitação de interesse social, com propostas e ganhos distintos. No segmento habitacional de interesse social, a tecnologia apresenta potencial para reduzir desperdícios, acelerar prazos e diminuir a dependência de mão de obra especializada. “A impressão 3D oferece benefícios claros como velocidade de execução, redução de desperdício e menor necessidade de mão de obra altamente especializada. É um segmento em que a tecnologia pode gerar impacto social direto”, diz Sakano. Ele aponta o uso de materiais alternativos e rejeitos minerais como estratégia para reduzir custos e ampliar a escala.

No alto padrão, o foco não está apenas na produtividade, mas também na liberdade formal. Fachadas curvas, geometrias complexas e elementos arquitetônicos personalizados tornam-se viáveis com a manufatura aditiva, ampliando as possibilidades de expressão arquitetônica.

Perspectivas para 2026

Para os próximos anos, a expectativa é de crescimento gradual, com aplicações ainda pontuais, porém cada vez mais qualificadas. Vanderley John observa que, no cenário atual, a impressão 3D já encontra espaço comercial em objetos de decoração, móveis urbanos e alguns empreendimentos imobiliários marcantes, enquanto a tecnologia amadurece para usos mais amplos.

Mais do que uma nova máquina no canteiro de obras, a impressão 3D exige uma reorganização completa do processo construtivo, com planejamento digital, integração entre projeto e execução e controle rigoroso de materiais. As empresas que conseguirem estruturar essa cadeia de forma eficiente tendem a liderar a próxima etapa de consolidação da tecnologia no Brasil, em um setor cada vez mais pressionado por custos, sustentabilidade e produtividade.

Entrevistados

Vanderley Moacyr John é graduado em Engenharia Civil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado no Royal Institute of Technology da Suécia. Professor da Escola Politécnica, coordenador da EMBRAPII CICS USP e do hubIC.

Victor Keniti Sakano é graduado em Engenharia Civil, mestre e doutor pela Escola Politécnica da USP. Atualmente, é pós-doutorando na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e cofundador da Portal 3D, startup de base tecnológica dedicada à manufatura aditiva com materiais cimentícios.

Contato
vmjohn@usp.br

victor@p3dbr.com

Jornalista responsável
Ana Carvalho
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