Reter alunos de engenharia é mais difícil do que captar
Fernando Micali, professor doutor da USP, explica por que evasão é grande nos cursos de engenharia. Segundo ele, é preciso falar a linguagem das novas gerações
Fernando Micali, professor doutor da USP, explica por que evasão é grande nos cursos de engenharia. Segundo ele, é preciso falar a linguagem das novas gerações
Por: Altair Santos
Os mais recentes dados do MEC (Ministério da Educação) sobre evasão de alunos dos cursos de engenharia mostram que de 227 mil matriculados apenas 45 mil finalizaram a graduação em 2011 – 62,32% pertenciam às instituições públicas e 43,41% às particulares. Destes números, 24% estavam vinculados à engenharia civil. A estatística vai de encontro à tese do professor Fernando Micali – mestre e doutor em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) – de que hoje o grande desafio da escola não é captar o aluno, mas retê-lo. A prova é que, segundo o MEC, pelo menos meio milhão de estudantes prestam vestibular todo o ano para os cursos de engenharia. “Se há demanda, onde está o problema: no aluno ou na escola?”, questiona Fernando Micali, que recentemente palestrou no 20º Fórum de Docentes, promovido pelo Crea-PR.

Segundo o especialista, que atualmente se dedica ao desenvolvimento de softwares para ajudar na retenção dos alunos por parte das escolas, o primeiro passo é entender para quem se está ensinando. “A geração atual tem o seguinte perfil: não utiliza manual, prefere a tentativa e erro; tem dificuldade em planejar, prefere o improviso; é multiprocessada e totalmente familiarizada com a tecnologia; tem necessidade de ter voz ativa e repudia o autoritarismo. Quem não perceber isso, não obtém o diálogo. Então, o grande desafio, hoje, é estabelecer uma comunicação para essas inteligências múltiplas. Caso contrário, como escreveu Rubem Alves, em seu livro Histórias de quem gosta de ensinar, o professor estará agindo como um Gepetto ao contrário: transformando gente em boneco de madeira”, diz Fernando Micali.
Em um mundo onde a informação está disponível a todos, Micali defende que o novo professor deve agir como um mediador desta informação, motivando e inspirando o aluno. “Ele deve transmitir conhecimento, mas também desenvolver no aluno habilidades e atitudes. Veja o que ocorre hoje nas escolas de engenharia, sejam públicas ou privadas. O estudante passa dois anos aprendendo ferramentas para calcular estruturas e fundações, mas o professor não ensina ele a usar aquilo interdisciplinarmente, que é o que exige a engenharia atual”, afirma o professor doutor, que é defensor de métodos de ensino baseados no conceito “problem based learning” (aprendizagem baseada em problema). “Isso desenvolve no aluno o interesse pelo estudo prévio, pelo feedback constante e pela interação intensa”, completa.
Para Fernando Micali, o papel das escolas de engenharia deve ser o de dar habilidade para os alunos continuarem aprendendo, comportando-se como eternos aprendizes. “A formatura, como era conhecida no passado, não existe mais. Ninguém mais pode se considerar formado”, alerta o especialista, lembrando que a taxa de conhecimento por indivíduo é cada vez menor. Dados apresentados por ele mostram que um jovem médio, na faixa de 20 anos, detém atualmente apenas 0,004% de tudo o que é produzido de conhecimento no mundo. “Por que isso ocorre? Porque o novo conhecimento não se faz mais de forma evolucionária, mas revolucionária, ou seja, quando surge um novo conhecimento o anterior pode ser jogado fora”, explica.
Micali usou o seguinte exemplo para explicar sua tese: “Há 600 a.C., Aristóteles detinha 90% do conhecimento da humanidade, que ia de medicina a astronomia. Em 1700, Leonardo da Vinci detinha 60%. Já Isaac Newton, detinha 30%; Einstein, menos de 10%. Isso chama-se volatilidade do conhecimento. Há cada três anos todo o conhecimento da humanidade dobra. Diante deste desafio, o que o professor precisa é transmitir fundamentos sólidos ao aluno, para que ele aprenda a desenvolver a habilidade de continuar aprendendo sempre.” Em sua análise, são esses profissionais que as empresas buscam hoje. “As corporações modernas se projetam como visionárias e querem colaboradores capazes de prospectar o futuro, para antever o que vai acontecer”, finaliza.
Entrevistado
José Fernando Montovani Micali, engenheiro civil, professor doutor da USP e presidente da TNT Technology, especializada em soluções de TI para educação
Contato: fernando.micali@tntedu.com.br
Créditos fotos: Leandro Taques/Crea-PR
Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
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