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Lições que a engenharia tirou da tragédia da Gameleira

Gestão, Gestão de Obras, Mercado da Construção 15 de junho de 2016

Desabamento ocorrido em 1971 ajudou a melhorar práticas em canteiros de obras e a aprimorar normas técnicas voltadas à construção civil

Por: Altair Santos

Em 4 de fevereiro de 1971, o Brasil viveu aquela que é considerada a maior tragédia da construção civil nacional: o desabamento do Palácio das Exposições, no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte-MG. A obra, que pretendia ser um amplo espaço com 7.820 m², ruiu quando começaram a ser retiradas as escoras que sustentavam as lajes. Ao todo, 119 operários ficaram soterrados e 69 morreram.

Desabamento do pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte: colapso das lajes causou 69 mortes

Desabamento do pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte: colapso das lajes causou 69 mortes

As conclusões técnicas sobre o colapso da estrutura é que o concreto não atingiu o tempo de cura necessário para que o escoramento pudesse ser retirado e que a resistência não seguiu os parâmetros definidos pelo engenheiro-calculista. Também aconteceram falhas no processo de destacamento das escoras. É o que consta nos laudos periciais usados pela Justiça de Minas Gerais para emitir a sentença em 2006 – 35 anos depois do acidente.

Dizem os documentos sobre a retirada do escoramento: “O método utilizado, embora não tenha causado a ruptura, impediu que se avaliasse previamente o desempenho da estrutura, permitindo que o desabamento ocorresse de maneira imprevista”.

Outra falha é que a obra, que começou em 15 de junho de 1969, até o dia da tragédia não tinha um engenheiro responsável. “A suntuosidade do empreendimento exigia que as decisões fossem concentradas em um profissional ou um grupo de profissionais dotados de grande capacitação técnica. Contudo, não havia um norte a seguir, desempenhando cada um dos réus suas atribuições como se fossem partes isoladas do conjunto da obra”, denuncia o laudo.

Tragédia influencia normas e Código Penal
Os projetos arquitetônicos e estruturais eram de Oscar Niemeyer, que na época encontrava-se exilado e não podia acompanhar a obra, e do engenheiro Joaquim Cardozo, que se retirou da profissão após a tragédia. Ambos não foram arrolados no processo, pois a perícia detectou que os projetos estavam corretos. O que houve foi erro na execução. Por isso, a Justiça condenou o Estado de Minas Gerais, a construtora Serviços Gerais de Engenharia S.A. (Sergen) e o Departamento de Obras Públicas (Deop) – organismo responsável pela fiscalização.

Mesmo com os problemas detectados, a tragédia poderia ter sido evitada. Quinze dias antes do desabamento, relatos afirmam que as estruturas estalavam e que houve um afundamento de até 50 centímetros em algumas áreas do piso. Os depoimentos estão no livro do jornalista Roberto Amaral, que em 2014 lançou o ”À Sombra da Gameleira”. “Era possível ter evitado a tragédia, porque vários sinais foram dados”, diz pesquisador.

A partir do acidente que trouxe abaixo 10 mil toneladas de concreto, a engenharia nacional decidiu rever conceitos e tirou lições importantes da tragédia, como uma normalização mais rigorosa quanto aos procedimentos envolvendo o concreto para grandes estruturas. A norma para lajes nervuradas foi uma delas. A NB-01, conhecida como a norma-mãe do concreto e hoje identificada como ABNT NBR 6118 – Projeto de Estruturas de Concreto – Procedimento. A tragédia influenciou também para mudanças nos artigos 250 a 284, do Código Penal, e que tratam das responsabilidades sobre desabamento e desmoronamento.

Entrevistado
Tribunal de Justiça de Minas Gerais (consulta aos autos do processo, via assessoria de imprensa)
Contato
imprensa@tjmg.jus.br

Crédito Foto: Reprodução/Arquivo Público

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330


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