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Ataque por íons de cloreto custa R$ 800 milhões por ano ao Brasil

Área Técnica, Sobre Cimento 1 de agosto de 2012

Quantia equivale a quanto o país gasta para recuperar obras públicas afetadas por uma das principais patologias em armaduras de concreto

Por: Altair Santos

O ataque por íons cloreto às armaduras embutidas no concreto é, em todo o mundo, a patologia mais estudada pelos pesquisadores envolvidos com a construção civil.  O que se busca é obter para a estrutura agredida uma vida útil maior. Por isso, boa parte das análises tentam melhorar o sistema concreto-aço para que não haja a entrada de agentes agressivos, tais como Cl-, O₂ e CO₂ . Há avanços, principalmente para reduzir as heterogeneidades do aço (composição, presença de impurezas e tratamentos térmicos e mecânicos), mas também existe consenso de que dificilmente se conseguirá anular totalmente essa patologia.

Joseanne Maria Rosarola Dotto: custo econômico para recuperar obras atingidas por patologias é muito alto.

No Brasil, a professora Joseanne Maria Rosarola Dotto, do Departamento de Estruturas e Construção Civil da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS) está entre os principais pesquisadores do país voltados para o estudo do ataque por íons cloreto. Segundo ela, as obras públicas, principalmente pontes e viadutos, são as mais expostas à patologia. A ponto de os gastos governamentais para recuperar estruturas danificadas chegar ao valor de R$ 800 milhões por ano. “O que acontece é que aqui normalmente não se faz a inspeção periódica e nem o monitoramento das estruturas de concreto armado. Então, as intervenções são feitas somente quando a estrutura já está com um processo de corrosão avançado, o que eleva consideravelmente os custos para a reabilitação”, explica.

Os íons cloreto podem entrar no concreto vindos do ambiente externo, principalmente nas estruturas expostas à névoa salina e a altas taxas de poluentes, ou estar contido no concreto devido ao uso de água ou agregados contaminados, incluindo aditivos aceleradores de pega e endurecimento (base de cloreto de cálcio, CaCl₂). “Considerando que as cidades crescem muito nas regiões litorâneas e que o concreto armado é o material mais utilizado, temos muitas estruturas com problemas de corrosão nessas áreas. Um levantamento feito na cidade de Recife, por exemplo, aponta que 64% das patologias em estruturas de concreto estão relacionadas à corrosão por íons cloreto“, cita Joseanne Dotto.

A pesquisadora da UFSM, no entanto, ressalta que o concreto proporciona um ambiente favorável para que a armadura nele embutida não corroa. “Os compostos do cimento (silicatos C₂S e C3S) ao se hidratarem liberam hidróxido de cálcio e que somado aos álcalis do cimento (Na+, K+) proporcionam um ambiente alcalino com pH ≥12,5. Neste ambiente, a armadura forma uma camada de óxido protetor. A entrada de agentes agressivos, tais como o íon cloreto, pode levar ao início de um processo de corrosão pela ruptura do filme de óxido em um determinado ponto”, explica Joseanne Dotto, lembrando que cimentos Portland que utilizam pozolanas em sua composição são recomendados para a fabricação de concretos que pretendem combater os processos de corrosão. “Os produtos da reação pozolânica, que ocorre entre a pozolana finamente moída+ Ca(OH)₂em presença da água, são bastante eficientes no preenchimento dos espaços capilares, obstruindo os poros vazios, conhecido como efeito filler”, completa.

Avanço nas normas

Estrutura de concreto com ataque de íon cloreto: no Brasil, a falta de inspeção periódica favorece as patologias.

Joseanne Dotto destaca que no Brasil houve um avanço significativo na redução dos ataques por íons cloreto desde que a norma NBR 6118- Projeto de estruturas de concreto armado sofreu revisão em 2003. A nova versão recomenda um cobrimento mínimo em função da classe de agressividade do meio ambiente (tabela 7.1 -Correspondência entre classe de agressividade e qualidade do concreto; e Tabela 7.2 – Correspondência entre classe de agressividade ambiental e cobrimento nominal). Além disso, encontra-se uma recomendação na mesma norma para o consumo de cimento por metro cúbico de concreto. “O consumo mínimo de cimento por metro cúbico de concreto deve estar de acordo com as recomendações da NBR 12655 – Concreto: Preparo, controle e recebimento, não sendo permitido o uso de aditivos contendo cloretos na sua composição, sobretudo em estruturas de concreto armado e protendido”, destaca.

Por fim, a professora da UFSM avalia que, dependendo do modelo da obra, o recomendado é utilizar estruturas pré-fabricadas. Segundo ela, por que os artefatos são produzidos em unidades fabris que dispõem de mão de obra treinada e especializada, além de rigoroso controle de qualidade dos insumos, dosagem em peso dos materiais, cura adequada e laboratórios para ensaio das propriedades. “Esses cuidados com a produção garantem um concreto de maior durabilidade e compacidade do que aqueles executados in loco, se produzidos sem os mesmos cuidados”, recomenda Joseanne Dotto.

Entrevistada
Joseanne Maria Rosarola Dotto, professora do Departamento de Estruturas e Construção Civil da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS)
Currículo
 

 

– Joseanne Maria Rosarola Dotto possui graduação em engenharia civil pela Universidade Federal de Santa Maria (1982), mestrado em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Santa Maria (1986) e doutorado em engenharia de minas, metalúrgica e de materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1998)

– Atualmente é professor-adjunto I da Universidade Federal de Santa Maria. Tem experiência na área de química, com ênfase em físico-química. Atuando principalmente nos seguintes temas: corrosão do aço, métodos eletroquímicos e durabilidade das estruturas de concreto.

Contato: jmrdotto@smail.ufsm.br

Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos – MTB 2330


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