Falta de planejamento compromete legado da Copa

A dois anos de sediar o mundial de futebol, Brasil tenta recuperar tempo desperdiçado e ainda corre o risco de não concluir obras.

A dois anos de sediar o mundial de futebol, Brasil tenta recuperar tempo desperdiçado e ainda corre o risco de não concluir obras

Por: Altair Santos

Indicado pela Fifa desde 2007 para sediar a Copa do Mundo de 2014, o Brasil perdeu cinco anos para viabilizar as obras. A falta de planejamento criou gargalos que agora, há dois anos do evento, ameaçam comprometer boa parte dos projetos que deveriam beneficiar as 12 cidades-sede escolhidas para receber as partidas do mundial de futebol. “Os empreendimentos no país são sempre decididos às pressas, sem o necessário período de maturação, essencial para decidir entre alternativas, conceituar e em seguida projetar. O resultado disso é que não há como precisar se as construções ficarão prontas”, revela o presidente do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva), José Roberto Bernasconi.

José Roberto Bernasconi, presidente do Sinaenco-SP: país perde a chance de promover renovação urbana nas 12 cidades-sede.

Segundo o Sinaenco, dos 57 projetos de mobilidade previstos para serem construídos nas capitais por onde a Copa vai passar, exatamente 50% estão com os cronogramas atrasados e ameaçados de não ficar prontos até o início do mundial, em 12 de junho de 2014. “Acreditamos que o Brasil terá 12 estádios prontos para a Copa. Alguns, provavelmente na véspera da abertura do campeonato mundial de futebol. Mas as demais obras de infraestrutura, que do ponto de vista da população são as mais importantes, já que constituem o legado de longo prazo ao país, ainda patinam em sua maior parte. Portanto, alguns dos legados prometidos para a população ficarão aquém do esperado, principalmente na área de mobilidade urbana e nos aeroportos”, avalia José Roberto Bernasconi.

Em relação às obras pendentes, já há um conformismo até mesmo da Fifa. Em sua mais recente visita ao Brasil, no dia 30 de maio de 2012, o secretário-geral Jérôme Valcke admitiu: “Alguns projetos poderão ser entregues depois da Copa”. Para ele, o que o país precisa priorizar para viabilizar a Copa do Mundo são os estádios, os aeroportos e os acessos destes com os estádios. “O que precisamos são de facilidades para se deslocar do aeroporto para as cidades e das cidades para os estádios”, concluiu. Para o presidente do Sinaenco, apesar de as obras dos estádios e dos aeroportos estarem dentro do cronograma, não haverá como o país não improvisar. “Provavelmente assistiremos a soluções paliativas para o trânsito, como decretar feriados em dias de jogos ou férias escolares”, prevê.

Das construções que andam a contento, destacam-se os estádios. Os empreendimentos que irão sediar os jogos da Copa das Confederações, que começa em 15 de junho de 2012, estão dentro do cronograma. O Mineirão, em Belo Horizonte, está com 56% das obras concluídas. Em Brasília, o estádio Nacional atingiu 58% da execução. O mais adiantado é o Castelão, em Fortaleza, com 70,11% das construções já viabilizadas. Mais lento está o empreendimento de Pernambuco – a Arena Recife -, com 40% das obras concluídas. No Rio de Janeiro, o Maracanã chega a 56% e em Salvador, a Arena Fonte Nova tem execução de 50%. “Com exceção dos estádios, o país infelizmente não poderá explorar ao máximo os benefícios do megaevento”, finaliza José Roberto Bernasconi.
Confira a situação das 12 cidades-sede da Copa do Mundo 2014

Belo Horizonte
Estádio: Mineirão, com 56% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: BRT Cristiano Machado (corredor de ônibus com pista em concreto)
Obras de mobilidade mais atrasada: Corredor Pedro II/Carlos Luz (sistema de BRT que liga o centro de Belo Horizonte ao estádio Mineirão)

Brasília
Estádio: Nacional, com 58% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: ampliação do terminal de passageiros do aeroporto Juscelino Kubitschek.
Obra de mobilidade mais atrasada: VLT Aeroporto-Asa Sul.

Cuiabá
Estádio: Arena Pantanal, com 45% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: reforma e modernização do terminal de passageiros, adequação do sistema viário e estacionamento do aeroporto Marechal Rondon.
Obra de mobilidade mais atrasada: VLT Cuiabá-Várzea Grande.

Curitiba
Estádio: Arena da Baixada, com 35% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: corredor Marechal Floriano (uma das principais ligações entre o aeroporto Afonso Pena e o centro de Curitiba)
Obra de mobilidade mais atrasada: Boulevard Avenida Cândido de Abreu.

Fortaleza
Estádio: Castelão, com 70,11% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: BRT Avenida Dedé Brasil (corredor de ônibus com pista em concreto).
Obra de mobilidade mais atrasada: extensão da linha sul do metrô de Fortaleza.

Manaus
Estádio: Arena da Amazônia, com 39% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: reforma e ampliação do terminal de passageiros do aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes.
Obra de mobilidade mais atrasada: monotrilho Norte-Centro.

Natal
Estádio: Arena das Dunas, com 23,03% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: construção do terminal de passageiros do aeroporto São Gonçalo do Amarante.
Obra de mobilidade mais atrasada: construção do viaduto da Urbana.

Porto Alegre
Estádio: Beira-Rio, com 38% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: Corredor Avenida Beira-Rio-Padre Cacique (duplicação das avenidas).
Obra de mobilidade mais atrasada: BRT Avenida João Pessoa (corredor de ônibus).

Recife
Estádio: Arena Recife, com 40% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: BRT ramal Cidade da Copa (principal via de acesso ao município de São Lourenço da Mata, na Grande Recife, onde está em construção o estádio).
Obra de mobilidade mais atrasada: terminal Integrado Cosme e Damião (estação que interliga o metrô aos três BRTs que serão construídos na cidade).

Rio de Janeiro
Estádio: Maracanã, com 56% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: BRT Transcarioca (corredor de ônibus com 39 km de extensão, em pavimento de concreto, ligando o aeroporto do galeão com a Barra da Tijuca).
Obra de mobilidade mais atrasada: VLT na área central da cidade.

Salvador
Estádio: Arena Fonte Nova, com 50% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: reforma e adequação do terminal de passageiros do aeroporto Luís Eduardo Magalhães.
Obra de mobilidade mais atrasada: metrô de Salvador.

São Paulo
Estádio: Arena Corinthians, com 35% das obras executadas.
Obra de mobilidade mais adiantada: ampliação e revitalização do aeroporto de Guarulhos.
Obra de mobilidade mais atrasada: monotrilho para ligar o aeroporto de Congonhas ao bairro do Morumbi.

Entrevistado
José Roberto Bernasconi, presidente do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) de São Paulo/SP
Currículo

– Graduado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e advogado pela Faculdade de Direito pela Universidade Paulista de São Paulo
– Foi professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, no Departamento de Estruturas e Fundações (1970 a 1975) das Disciplinas Construções de Concreto e, posteriormente, Pontes e Grandes Estruturas
Contato: sinaenco@sinaenco.com.br
Créditos foto: Divulgação/Sinaenco

Jornalista responsável: Altair Santos – MTB 2330


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