Fachada incendiária causa tragédia em prédio britânico

Elementos de alumínio revestidos com polietileno, e que recobriam parte externa do edifício em Londres, ajudaram a propagar o fogo

Elementos de alumínio revestidos com polietileno, e que recobriam parte externa do edifício em Londres, ajudaram a propagar o fogo

Por: Altair Santos

Investigações preliminares sobre o incêndio no edifício Grenfell Tower, em Londres, e que resultou na morte de 79 pessoas, revelam que o material usado para revestir a fachada do prédio foi o responsável por propagar o fogo que se alastrou pelos 24 pavimentos da obra. A tragédia só não teve maiores proporções porque a estrutura da edificação foi construída 100% em concreto, suportando altas temperaturas e preservando as armaduras, sem causar desabamento.

Edifício Grenfell Tower: prédio de habitação popular em Londres passou por reforma e recebeu fachada que alimentou incêndio
Edifício Grenfell Tower: prédio de habitação popular em Londres passou por reforma e recebeu fachada que alimentou incêndio

A resistência do concreto ao fogo é atestada pelo professor-doutor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Valdir Pignatta e Silva, autor de sete livros e de mais de 180 artigos publicados sobre segurança de estruturas em situação de incêndio. “Quando os engenheiros de estruturas projetam de acordo com a norma, o concreto resiste ao calor, mesmo diante de fogo severo”, diz o especialista. Ou seja, se tivesse um revestimento antifogo, o incêndio que começou por causa de um curto-circuito em uma geladeira poderia ter sido de pequenas proporções no Grenfell Tower.

O edifício passou por retrofit em 2012 e sua fachada foi revestida com o material conhecido como Reynobond PE. Trata-se de painel de alumínio, cuja camada interna é preenchida por polietileno para melhorar seu desempenho térmico e acústico. Foi esse produto que serviu de combustível para que o fogo se propagasse rapidamente pelo prédio localizado na capital britânica. Por precaução, a fabricante do Reynobond PE o retirou do mercado em todo o mundo.

Estima-se que pelo menos 600 prédios na Inglaterra tenham o mesmo tipo de revestimento. Na Alemanha e nos Estados Unidos, o uso do material já era proibido desde 2015. No Brasil, o custo alto do material (cerca de 300 reais o m²), além dos rumores de ter sido reprovado em ensaios de flamabilidade – aliado ao impacto causado pela tragédia na boate Kiss, em 2013, e que matou 242 pessoas em Santa Maria-RS -, limitou o mercado do Reynobond PE. Mesmo assim, é possível vê-lo em fachadas de galpões, indústrias e shopping centers no país.

Revisão das normas técnicas

Prédios que também receberam o revestimento Reynobond PE foram interditados em Londres, por medida de segurança
Prédios que também receberam o revestimento Reynobond PE foram interditados em Londres, por medida de segurança

Quanto ao Grenfell Tower, os organismos de segurança e engenharia britânicos ainda não decidiram qual vai ser o destino do edifício, mas a imprensa londrina especula que ele será implodido. Construído para servir de habitação popular aos moradores do bairro de Kensington, na região oeste de Londres, o prédio também apresentava graves problemas em sua segurança interna, como ausência de extintores em alguns andares.

Para evitar novas tragédias, o governo britânico e a prefeitura de Londres interditaram todos os outros edifícios habitacionais semelhantes ao Grenfell Tower, e que também receberam o revestimento de Reynobond PE. Os prédios passarão por inspeções e reformas, para que os moradores possam retornar com segurança. Um fundo de 5 milhões de libras – algo como 25 milhões de reais – foi liberado para que toda essa operação seja realizada. O governo do Reino Unido também já determinou que as normas que regulamentam a construção civil britânica sejam revistas, principalmente no que se refere a fachadas de edifícios e resistência ao fogo.

Saiba mais sobre normas contra incêndio em edificações no Brasil.

Entrevistado
– Valdir Pignatta e Silva, professor-doutor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)
– Complemento do texto com base em reportagens publicadas em jornais britânicos como The Guardian, Daily Mail, The Times e Daily Mirror

Contato
valpigss@usp.br

Crédito Fotos: Time.com e The Guardian

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330


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