Competição Saudável

Competir sim, perder a ternura e o respeito pela dignidade alheia, jamais.

Competir sim, perder a ternura e o respeito pela dignidade alheia, jamais.

Jerônimo Mendes
Jerônimo Mendes

O mundo é uma sucessão de cobranças e responsabilidades desde o momento em que ensaiamos os primeiros passos e, da mesma forma, ouvimos os primeiros “nãos”. Com o passar dos anos e o aumento das responsabilidades típicas de cada fase da vida, somos “moldados a ferro e marteladas” como dizia Emerson, o grande pensador americano, ainda que a contragosto.

Invariavelmente, desde cedo aprendemos que o mundo é um campo de batalhas e se dependesse apenas da vontade dos pais seríamos os melhores, os mais fortes, os mais inteligentes, os mais bem-sucedidos. Aliás, ainda que isso não seja verdade, é assim que eles nos tratam até o fim, a despeito de todos os desgostos ou decepções que os filhos possam provocar.

De fato, o mundo é realmente um campo de batalhas onde o mais forte, o mais inteligente, o mais rápido, o mais estudioso ou ainda o mais esperto nem sempre se sobressai. Entretanto, independentemente do que nos acontece, sempre buscamos um lugar ao sol, uma forma de nos destacar, de viver dignamente, de dar um sentido à nossa vida, um norte para as nossas ações e, muitas vezes, diferentes formas de agradar mais aos outros do que a nós mesmos.

O mundo conta hoje com aproximadamente 6,3 bilhões de pessoas. Em 2050 seremos em torno de 9 bilhões de pessoas, segundo os especialistas, todos ávidos por emprego, segurança, saúde, sentido de realização e, principalmente, paz de espírito, sem contar ainda outras necessidades como água, comida e moradia. Os otimistas diriam: Uau! Mais 3 bilhões de bocas para alimentar, roupas para vender, sapatos para fabricar. Os pessimistas diriam: mais 3 bilhões de currículos na praça para tomar o meu emprego.

Considerando a abundância e ao mesmo tempo a escassez de recursos, vivemos uma permanente competição. Em função de tudo aquilo que a mídia nos impõe, do que a família nos cobra e do que a sociedade espera de nós, o básico não basta e para conseguir mais do que o básico, precisamos de mais dinheiro, de mais estudo, de mais reconhecimento, de mais tempo, de levar mais vantagens, o que acirra a competição.

Apesar de todos os revezes, conseguimos sair do chão e podemos até nos orgulhar um pouco, entretanto, nossa mente é traidora e a concorrência é o nosso fantasma. Tudo o que amealhamos parece pouco diante do que ainda é possível conseguir ou se comparado ao que os nossos amigos, irmãos, vizinhos, colegas de trabalho e concorrentes conseguiram em menos tempo do que nós. Como são fantásticas aquelas pessoas que não conhecemos muito bem, diria Milôr Fernandes.

Competição é isso, mais de 6 bilhões de pessoas querendo o mesmo que eu e você: amor, dinheiro, bens materiais, cargos de prestígio, salários milionários, comida, saúde, paz de espírito e reconhecimento. Alguns desejam mais do que uma posição de respeito na sociedade; outros desejam apenas uma sociedade que os respeitem como seres humanos.

Na medida em que mundo evolui, a competição torna-se implacável, dura, chega a ser insana. A tristeza da demissão alheia é ao mesmo tempo a alegria da nossa promoção. Na maioria das vezes não sabemos por que competimos, mas a corrente nos leva e como nossa base espiritual é vacilante, nossa convicção oscila entre a verdade e a opinião alheia. Somos reféns dos nossos próprios desejos ilimitados. Nunca conseguimos domá-los, pois eles sempre nos exigem mais, motivo pelo qual tentamos ir além da nossa capacidade.

Tudo aquilo que fazemos apenas para competir e mostrar aos outros que somos melhores é verdadeiramente inútil. Competição saudável é aquela que não nos afasta da família e dos amigos, que não é construída diante da desgraça alheia, que não sacrifica a nossa liberdade de expressão e de pensamento, que não expõe os nossos instintos mais primitivos.

Por fim, lembre-se, se o sol nasceu para todos, a conquista de um lugar diante dele não significa que os demais estão condenados à escuridão. Competir sim, perder a ternura e o respeito pela dignidade alheia, jamais. Pense nisso e seja feliz!

Jerônimo Mendes
Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)



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