Capela quase centenária vira case de engenharia civil

Igreja construída em 1922 precisou ser suspensa por estruturas de concreto, para ser preservada na cidade de São Paulo

Capela Santa Luzia: tratado como porcelana, patrimônio recebeu uma laje de concreto de alta resistência para suportar as escavações. Crédito: Cidade Matarazzo / Instagram
Capela Santa Luzia: tratado como porcelana, patrimônio recebeu uma laje de concreto de alta resistência para suportar as escavações. Crédito: Cidade Matarazzo / Instagram

A capela Santa Luzia, tombada pelo patrimônio histórico do estado de São Paulo e pelo município de São Paulo, é o mais recente case da engenharia civil brasileira. Perto de completar 100 anos – foi construída em 1922 -, a estrutura projetada pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi está inserida no grande complexo comercial e hoteleiro, em obras na região da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. Conhecido como Cidade Matarazzo, o empreendimento preservou a capela mantendo-a suspensa por uma laje e oito pilares com 31 metros de altura e mais 23 metros encravados no solo.

Cada pilar de um metro de diâmetro recebeu 54 m3 de concreto. A sustentação da igrejinha permitiu que o terreno fosse escavado para a construção de um estacionamento com seis andares no subsolo, bicicletário e um cinema para 108 lugares. As escavações começaram em outubro de 2017 e serão concluídas em setembro de 2018. “Parte deste tempo foi gasto com o processo de estudo do solo, submetido a várias sondagens, para que pudéssemos perfurar com segurança”, diz o engenheiro civil José Rodrigo Tavares, gerente-geral da obra. Após essa averiguação, a etapa seguinte da obra foi “calçar” o patrimônio histórico com uma laje espessa de concreto de alta resistência (acima de 100 MPa).

Outras lajes foram construídas conforme as estacas iam se aprofundando no solo. O objetivo era evitar qualquer possibilidade de deslocamento lateral, o que poderia ocasionar trincas e rachaduras no patrimônio histórico. Na parte interna da capela também houve travamento com o uso de vigas de aço. Mesmo com todo o cuidado, a engenharia não dispensou um procedimento artesanal durante as escavações. Foram colocados copos com água sobre a laje, a fim de que pudesse ser acompanhado o grau de vibração que as perfurações causariam na estrutura quase centenária. “Tratamos o patrimônio como se fosse uma porcelana”, resume José Rodrigo Tavares.

Cogitou-se remover o patrimônio histórico transportando-o sobre trilhos

Cada um dos pilares que mantêm a capela suspensa recebeu 54 m3 de concreto. Crédito: Cidade Matarazzo / Instagram
Cada um dos pilares que mantêm a capela suspensa recebeu 54 m3 de concreto. Crédito: Cidade Matarazzo / Instagram

O projeto de cálculo e de engenharia estrutural do complexo Cidade Matarazzo é assinado pela JKMF Engenheiros (Julio Kassoy e Mario Franco). Segundo o escritório, havia duas opções para preservar a capela intacta: a que foi utilizada e a que cogitava remover a igrejinha para um terreno em frente da obra, usando trilhos. Essa hipótese foi descartada depois que houve uma averiguação das estruturas do patrimônio histórico, concluindo que elas não suportariam a transferência por trilhos. “Foi um desafio tomar a decisão acertada. Custou alguns dias sem dormir direito”, revela o engenheiro-calculista Mário Franco, com 89 anos e 65 anos de profissão.

Feita a decisão correta, as obras em todo o complexo seguem em ritmo acelerado para que o Cidade Matarazzo seja entregue em 2019. O investidor é o grupo francês Allard, que em 2011 adquiriu a área de 27 mil m2, onde ficava o hospital Matarazzo. Todas as edificações centenárias – a maioria construída em 1904 – serão preservadas e passarão por um processo de retrofit para se adequar às novas finalidades, que incluem um hotel seis estrelas, shopping centers e instalações comerciais.

Entrevistados
Engenheiro civil José Rodrigo Tavares, gerente-geral da obra de preservação da capela Santa Luzia, e JKMF Engenheiros
(via assessorias de imprensa)

Contatos
info@cidadematarazzo.com.br
jkmf@jkmf.com.br

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330


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