Calçadas de concreto exigem projeto, controle tecnológico e execução criteriosa para garantir durabilidade e acessibilidade

Estrutura depende de especificações técnicas, preparação adequada da base, controle das juntas e atendimento às normas

As calçadas desempenham papel fundamental na mobilidade urbana, proporcionando deslocamentos seguros, acessíveis e confortáveis aos pedestres. Além de atender às exigências de acessibilidade previstas na legislação e normas técnicas, essas estruturas devem ser dimensionadas para suportar as solicitações de uso previstas em projeto, resistir às ações do tempo e manter seu desempenho ao longo da vida útil.

Embora sejam frequentemente tratadas como obras simples, as calçadas demandam projeto adequado e sua execução exige planejamento e controle em todas as etapas. Seu desempenho e durabilidade dependem diretamente da qualidade do concreto, da correta preparação do subleito e base, do dimensionamento (espessura e espaçamento entre juntas) e do processo de cura, fatores essenciais para prevenir manifestações patológicas, como fissuração, empenamento e desgaste prematuro.

Segundo o engenheiro civil e CEO do Instituto Ruas, Alex Maschio, a durabilidade começa pela definição correta dos materiais. “Conforme o manual da ABCP, por exemplo, temos como requisito mínimo de resistência à compressão fck igual ou superior a 20 MPa para calçadas de concreto convencional moldado in loco. O concreto usinado de central é sempre preferível por garantir uniformidade e rastreabilidade”, afirma.

Ele explica que, quando o concreto é produzido na própria obra, o traço deve ser definido com base em parâmetros técnicos de dosagem e ser validado por meio de controle tecnológico, com rompimento de corpos de prova aos 7 e aos 28 dias.

A correta execução das juntas ajuda a controlar fissuras e aumenta a durabilidade das calçadas de concreto. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal

Juntas reduzem o risco de fissuras

Um dos aspectos que mais importantes para o desempenho das calçadas de concreto é a correta execução das juntas. Elas controlam as movimentações naturais provocadas pela retração e pelas variações de temperatura, direcionando o surgimento de fissuras para locais previamente definidos em projeto.

De acordo com Maschio, existe uma relação direta entre a espessura da placa e o espaçamento entre as juntas. “A regra prática consagrada na engenharia de pavimentos é que o espaçamento máximo entre juntas transversais fique entre 20 e 30 vezes a espessura do concreto“, explica.

Para calçadas destinadas exclusivamente ao tráfego de pedestres, com espessuras entre 6 e 10 centímetros, o espaçamento entre as juntas normalmente variam entre 1,5 e 2,5 metros. Nos trechos sujeitos ao tráfego de veículos, em que o pavimento possui maior espessura, esse espaçamento pode chegar a 3 metros. Outro aspecto crítico é o momento de execução das juntas serradas. O corte deve ser realizado quando o concreto apresentar resistência suficiente para evitar o arrancamento dos agregados, mas antes do surgimento de fissuras por retração, que em condições usuais, essa operação ocorre entre 6 e 12 horas após a concretagem, podendo variar em função da temperatura ambiente, das características do concreto e do tipo de cimento utilizado. A profundidade do corte deve ser de, no mínimo, um quarto da espessura da placa, de modo a criar um plano de fraqueza capaz de induzir a fissuração no local previsto em projeto.

Uso de tela soldada depende das cargas previstas

A utilização de tela de aço soldada em calçadas não é uma exigência para todos os projetos. Segundo o especialista, a necessidade é determinada pelas cargas que o pavimento irá receber e pelas condições da base.”Na prática, para calçadas públicas de concreto convencional, a tela soldada não é obrigatória quando o projeto respeita as espessuras mínimas, o subleito é bem preparado e as juntas são corretamente espaçadas e cortadas”, destaca ele.

Nessas situações, o controle da fissuração é realizado principalmente por meio da adequada execução das juntas e do controle das deformações do concreto. É importante destacar que a tela soldada não evita o surgimento de fissuras decorrentes da retração; sua principal função é limitar a abertura dessas fissuras e contribuir para a integridade estrutural da placa quando prevista em projeto.

A tela entra como reforço adicional em situações específicas definidas em projeto executivo e costuma ser indicada em acessos para veículos, em solos de baixa capacidade de suporte, em placas/lajes maiores ou em locais com histórico de movimentação da base.

Acessibilidade deve ser incorporada desde a fase de projeto

Além dos critérios estruturais e de durabilidade, o projeto deve atender às exigências da ABNT NBR 9050:2020, que trata especificamente da acessibilidade e deve ser aplicada em conjunto com outras normas de execução de passeios públicos e com a legislação municipal.

Execução das calçadas de concreto exige planejamento e controle em todas as etapas. Crédito: Divulgação/Acervo Pessoal.

Entre os requisitos, estão a faixa livre de circulação com largura mínima de 1,20 m, inclinação transversal máxima de 2%, rebaixamentos de calçadas e rampas executados conforme os parâmetros da norma, além de instalação de piso tátil em situações previstas pela norma. Maschio ressalta que a Emenda 1:2020 trouxe ajustes importantes. “A faixa livre de circulação de 1,20 metro passou a admitir excepcionalmente 0,90 metro quando justificado por impossibilidade técnica. Também houve mudanças nos critérios para rebaixamentos de calçadas e maior clareza sobre a utilização de faixas elevadas de travessia“, explica.

Controle da cura evita problemas precoces

Entre as manifestações patológicas mais frequentes nas calçadas de concreto, está a retração plástica, que pode provocar fissuras poucas horas após a concretagem. Essas fissuras estão normalmente associadas à rápida evaporação da água superficial, quando a taxa de perda de umidade supera a exsudação do concreto.

Para reduzir esse risco, o especialista recomenda umedecer a base antes da concretagem ou, preferencialmente, utilizar lona plástica sobre a base, evitar a execução em condições ambientais desfavoráveis, como dias de vento intenso, baixa umidade relativa do ar ou temperaturas elevadas, além de proteger a superfície recém-executada da incidência direta do sol.

Também é importante realizar o acabamento sem atrasos, aplicar produtos de cura química e manter a cura química ou úmida, que deve ser mantida pelo período especificado em projeto ou, na ausência dessa indicação, por pelo menos, sete dias, especialmente em condições climáticas críticas. “O resultado são fissuras finas, superficiais e geralmente diagonais ou irregulares, que aparecem entre 30 minutos e três horas após o adensamento. Por isso, todas as etapas de execução precisam ser rigorosamente controladas“, afirma Maschio.

Para o especialista, calçadas de concreto corretamente projetadas e executadas apresentam elevada vida útil, menor necessidade de manutenção e melhor desempenho quanto à segurança, ao conforto e à acessibilidade dos usuários. Contudo, esses benefícios somente são alcançados quando projeto, especificação de materiais, controle tecnológico, observância das normas e execução qualificada em campo, atuam de forma integrada ao longo de todo o processo construtivo.

Entrevistado

Alex Maschio é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR) e Administração – Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE Business School, professor de cursos de pós-graduação nas áreas de infraestrutura, pavimentação e cidades inteligentes, palestrante, fundador e CEO do Instituto Ruas.

Contato

alex@institutoruas.com.br

Jornalista responsável

Ana Carvalho

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