Colapso de ponte no Acre mobiliza análise de estrutura, solo e cheias

Oscilações no nível do Rio Iaco podem ter sido fator relevante para queda da estrutura

A ponte Frei Paolino Baldassari desabou no dia 5 de junho, em Sena Madureira, no interior do Acre. A estrutura já havia sido interditada no dia anterior, 4 de junho, devido ao risco de colapso identificado nas margens do Rio Iaco. Apesar da restrição de acesso, a ponte acabou cedendo durante a noite, em um episódio que agora é alvo de investigação técnica e judicial.

O Ministério Público do Acre (MP-AC) informou que a Promotoria de Justiça Cível e Criminal de Sena Madureira instaurou um procedimento para apurar as causas do acidente. O órgão também requisitou ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) a realização de uma perícia técnica no local. A ponte foi oficialmente entregue em 19 de janeiro de 2024, o que reforça a necessidade de uma avaliação rigorosa. Em estruturas relativamente novas, um colapso desse porte normalmente exige investigação ampla, envolvendo não apenas a estrutura da ponte, mas também fundações, encontros, margens do rio, comportamento do solo, regime hidrológico, execução da obra, controle tecnológico dos materiais e medidas de proteção contra erosão.

Hipótese preliminar: “terras caídas”

Ainda segundo o comunicado do governo estadual, informações preliminares indicam que as oscilações no nível do Rio Iaco podem ter sido fator relevante para o colapso da estrutura. O rio apresenta um regime hidrológico marcado por cheias intensas e secas severas ao longo do ano, característica comum em diversas regiões da Amazônia.

Ponte Frei Paolino Baldassari foi entregue em janeiro de 2024.
Crédito: Neto Lucena/Secom do Governo do Estado do Acre

Esse comportamento fluvial, associado a efeitos climáticos já observados no Acre e em toda a região amazônica, pode intensificar processos de erosão das margens. O fenômeno é conhecido como “terras caídas”.

Erosão das margens e papel da vegetação

De acordo com Edson Villela, professor do UniBrasil Centro Universitário no curso de Arquitetura e Urbanismo, processos de erosão fluvial são comuns em regiões amazônicas e também podem ser observados em áreas urbanas de outras partes do Brasil.

Segundo ele, uma das principais formas de mitigar esse tipo de erosão é a manutenção das Áreas de Preservação Permanente (APPs), que estabelecem faixas mínimas de proteção ao longo dos rios — geralmente a partir de 30 metros em cada margem, onde deve ser preservada a vegetação nativa.

“A presença de mata ciliar é fundamental porque as raízes das árvores ajudam a estabilizar o solo, reduzindo o impacto direto da água sobre as margens. Sem essa proteção, o solo fica exposto e vulnerável à ação contínua da correnteza, que vai removendo pequenas porções de terra ao longo do tempo, processo conhecido como erosão fluvial”, explica.

Soluções de engenharia para contenção

Além da proteção natural, existem soluções de engenharia civil para conter o avanço da erosão de forma mais imediata. Entre elas estão muros de arrimo, enrocamentos com pedras e estruturas em concreto armado, todas voltadas à estabilização do solo e à proteção das margens contra desmoronamentos.

“Nos rios amazônicos, esse desafio é ainda mais complexo por causa do regime hidrológico. Durante as cheias, o nível da água sobe rapidamente, aumentando a força erosiva sobre as margens. Já na vazante, o solo fica exposto e mais instável. Esse ciclo contribui diretamente para o fenômeno das terras caídas”, acrescenta Edson.

Colapso pode estar associado a múltiplos fatores

Em estruturas relativamente novas, como no caso da ponte Frei Paolino Baldassari, o colapso geralmente está associado a fatores como instabilidade do solo, erosão acelerada ou falhas de projeto e execução, e não ao desgaste natural pelo tempo.

“Não é comum que uma ponte entregue em 2024 sofra com este tipo de problema. Pelas imagens e registros do local, uma das hipóteses levantadas é justamente a atuação da erosão nas margens do rio, que pode ter comprometido a estabilidade das fundações. A ausência de proteção adequada na base dos pilares pode ter acelerado o processo de instabilidade”, avalia o especialista.

Villela ressalta, no entanto, que a definição das causas depende exclusivamente do trabalho pericial. “A perícia técnica deve confirmar ou descartar cada hipótese com base em evidências estruturais e geotécnicas”, completa.

Monitoramento de pontes e prevenção de falhas

O monitoramento de pontes em áreas sujeitas à erosão exige uma combinação de engenharia preventiva e tecnologias de instrumentação estrutural e geotécnica.

Segundo Villela, já existem sistemas capazes de detectar movimentações do solo antes que ocorram falhas estruturais mais graves. Entre eles estão sensores instalados em fundações, pilares e estruturas de apoio, que monitoram deslocamentos, deformações e recalques em tempo real.

“Esses sensores permitem identificar movimentações progressivas do terreno, como deslocamentos de poucos milímetros ou centímetros ao longo do tempo. Um cenário em que a ponte cede um centímetro por mês, por exemplo, pode ser detectado e acompanhado continuamente”, explica.

Esse tipo de tecnologia permite antecipar comportamentos de instabilidade antes que surgam sinais visíveis, como rachaduras. “Quando fissuras aparecem na estrutura, geralmente o processo de deterioração já está avançado”, aponta Vilella.

Investigação pericial deve ser decisiva

Após acidentes dessa natureza, a investigação pericial envolve uma análise técnica ampla, que inclui desde o projeto estrutural até a execução da obra em campo.

Segundo Villela, o primeiro passo é identificar se houve erro de projeto ou falha de execução. No caso do projeto, avalia-se se foram consideradas corretamente as condições locais, como variações do nível do rio em períodos de cheia e estiagem, que alteram significativamente as forças atuantes sobre a estrutura.

Já os erros de execução envolvem o não cumprimento do projeto em obra, como falhas na concretagem, posicionamento incorreto de armaduras ou problemas de qualidade dos materiais utilizados.

A análise também inclui a verificação da resistência do concreto e da qualidade do aço empregado na estrutura. “O cobrimento de concreto é essencial para proteger a armadura contra a ação da água e da umidade. Quando essa proteção falha, pode ocorrer corrosão do aço, perda de resistência e, em casos extremos, comprometimento estrutural”, conclui Villela.

Entrevistado
Edson Villela é professor do UniBrasil Centro Universitário no curso de Arquitetura e Urbanismo, mestre em gestão urbana e doutorando em urbanismo.

Contato
Assessoria UniBrasil Centro Universitário – pauta@acciocomunicacao.com

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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