ICOLD 2026 debateu inovação, sustentabilidade e segurança de barragens

Evento discutiu desafios da infraestrutura hídrica diante das mudanças climáticas e da transformação digital

A cidade de Guadalajara, capital do estado mexicano de Jalisco, sediou entre os dias 22 e 29 de maio a 94ª Reunião Anual e Simpósio da Comissão Internacional de Grandes Barragens (ICOLD, na sigla em inglês). O encontro reuniu delegados, especialistas e representantes dos comitês nacionais dos 107 países membros da entidade para debater os principais desafios e tendências relacionados ao planejamento, projeto, construção, operação e manutenção de barragens em todo o mundo.

O presidente da ICOLD, Devendra Kumar Sharma, destacou a importância do encontro para a comunidade internacional de barragens e recursos hídricos. Segundo ele, os debates realizados durante a semana contribuem para o avanço das discussões sobre questões emergentes que impactam o setor, reforçando o papel das barragens no fornecimento de água, energia, proteção ambiental e desenvolvimento econômico.

Com o tema “Barragens para as Pessoas, Água, Meio Ambiente e Desenvolvimento”, a edição de 2026 abordou temas estratégicos para o futuro da infraestrutura hídrica. As discussões foram organizadas em quatro grandes eixos: inovação, desenvolvimento sustentável, gestão de riscos e operação em condições extremas.

Roteamento de cheias em reservatórios e galgamento por ondas

Entre os trabalhos técnicos apresentados, chamou atenção o estudo da engenheira hidráulica Anida Zeqirllari, da Binnies, intitulado “Reservoir routing and wave overtopping: Comparative analysis of practices in developed and developing countries” (Roteamento de cheias em reservatórios e galgamento por ondas: análise comparativa de práticas em países desenvolvidos e em desenvolvimento). A pesquisa comparou metodologias adotadas no Reino Unido, França e Albânia para avaliação da segurança hidráulica de reservatórios, identificando diferenças regulatórias, pontos de convergência e oportunidades para maior harmonização entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

A transformação digital da infraestrutura hídrica ganhou destaque com debates sobre barragens inteligentes, inteligência artificial e sistemas avançados de monitoramento e gestão. Crédito: International Commission on Large Dams (ICOLD)

Barragens inteligentes

A transformação digital da infraestrutura hídrica também esteve entre os assuntos de destaque. Durante a sessão dedicada às chamadas “barragens inteligentes”, especialistas discutiram a integração de monitoramento automatizado, modelagem matemática, diagnósticos digitais e ferramentas de apoio à decisão. O uso da inteligência artificial na gestão de barragens e usinas hidrelétricas foi apontado como uma tendência crescente, embora os participantes também tenham debatido os riscos e desafios associados à sua implementação.

Representantes do Comitê Nacional Russo apresentaram uma tecnologia de sondagem microsísmica utilizada em investigações geotécnicas, projetos de novas estruturas hidráulicas e inspeção de barragens existentes. A solução despertou interesse da direção da ICOLD, que anunciou a realização de uma sessão técnica específica sobre o tema para 2027.

Projetos brasileiros

O Brasil também marcou presença na programação técnica do ICOLD 2026 com a apresentação de estudos e casos voltados à segurança, monitoramento e gestão de barragens. Entre os destaques esteve o trabalho “Inspection Findings from One Hundred Brazilian Dams” (Resultados de Inspeções em Cem Barragens Brasileiras), apresentado por Camila de Goes Silva, gerente de projetos da Unidade de Água e Energia (DUAE), que reuniu e analisou os resultados de inspeções realizadas em 100 barragens brasileiras, oferecendo um panorama sobre as condições dessas estruturas e os principais desafios para sua gestão.

Outro estudo brasileiro apresentado foi “Spillway Design Criteria in a Changing Hydrology – A Review of Brazilian Dams” (Critérios de Projeto de Vertedouros em uma Hidrologia em Mudança – Uma Revisão de Barragens Brasileiras), conduzido por José Rodolfo Machado de Almeida, líder da equipe de Hidráulica e Hidrologia da DUAE. O trabalho abordou a atualização dos estudos hidrológicos de 96 barragens e comparou os resultados atuais com os critérios originalmente adotados nos projetos, trazendo reflexões sobre a necessidade de adaptação das estruturas às mudanças nos regimes hidrológicos.

A área de barragens de rejeitos também esteve representada por Júnio Fagundes, líder técnico de Geotecnia da DF+ Engenharia, que apresentou o artigo “Analysis of the Main Failure Modes in Centerline-Raised Phosphate Tailings Dams” (Análise dos Principais Modos de Ruptura em Barragens de Rejeitos de Fosfato Alteadas pelo Método de Linha de Centro). O estudo analisou os principais modos de ruptura em barragens de rejeitos de fosfato construídas pelo método de alteamento a montante central. “O trabalho toca em algo que acreditamos profundamente: conhecimento não compartilhado é conhecimento perdido. Barragens de rejeito de fosfato ainda carregam lacunas importantes na literatura técnica. Levar esse estudo para o ICOLD é contribuir com a comunidade global de engenharia e colocar o Brasil no centro dessa conversa”, destacou Fagundes.

Outro destaque foi a apresentação de Pedro Sydorak de Lara, CPO da Fractal Engenharia e Sistemas, que compartilhou um case de sucesso desenvolvido junto à Defesa Civil de Santa Catarina. O projeto mostrou como a implantação do Sistema de Previsão de Eventos Hidrológicos Críticos (SPEHC) modernizou a gestão de cheias e a operação das barragens de contenção do estado. A plataforma integrou dados hidrológicos provenientes de diferentes fontes em um ambiente digital único, substituindo processos manuais e ampliando a precisão das previsões para 35 municípios. Como resultado, a Defesa Civil passou a emitir alertas com maior antecedência e confiabilidade, otimizar a operação das barragens por meio de protocolos técnicos padronizados e reduzir custos associados às ações emergenciais de resposta a enchentes.

Fontes

Devendra Kumar Sharma é presidente da International Commission on Large Dams (ICOLD).

Pedro Sydorak de Lara é CPO da Fractal Engenharia e Sistemas.

Júnio Fagundes é líder técnico de Geotecnia da DF+ Engenharia.

Contatos

ICOLD – assessoria de imprensa: emmanuel.grenier@icold-cigb.org

Fractal Engenharia e Sistemas: contato@fractaleng.com.br

DF+ Engenharia: dfmais@dfmais.eng.br

Jornalista responsável: 

Marina Pastore – DRT 48378/SP 

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