Sistema construtivo aberto amplia eficiência e flexibilidade nas obras

Modelo baseado em padronização e interoperabilidade permite integrar diferentes tecnologias, reduzir prazos e melhorar a qualidade dos empreendimentos

O avanço da industrialização na construção civil tem impulsionado a adoção de métodos mais eficientes e integrados. Entre eles, o sistema construtivo aberto se destaca por permitir a combinação de diferentes materiais, fornecedores e tecnologias em uma mesma obra, com base em padrões previamente definidos. A proposta é garantir compatibilidade entre os componentes e ampliar a flexibilidade ao longo do ciclo de vida do edifício.

De acordo com o arquiteto Marcio Porto, do escritório Sidonio Porto Arquitetos Associados, o conceito está diretamente ligado à padronização. “Um sistema construtivo aberto é um método que prevê a padronização e a compatibilidade entre os diversos componentes da obra de um edifício. Sua concepção é pensada na fase de projeto e permite que produtos de diversos fabricantes sejam utilizados em uma obra da forma mais livre e ampla possível”, afirma.

Integração de sistemas e liberdade de escolha

Na prática, o modelo possibilita que diferentes partes da edificação, como estrutura, vedação e fachadas, sejam fornecidas por empresas distintas, desde que sigam uma lógica comum de modulação. Essa interoperabilidade amplia a competitividade entre fornecedores e reduz a dependência de soluções fechadas.

Sede da Brazilglass em Guararema (SP) utilizou painéis de concreto pré-fabricado nas lajes.
Crédito: Acervo Pessoal/Marcio Porto

Outro ponto relevante é a possibilidade de manutenção e substituição de componentes de forma independente. Como os elementos são concebidos para funcionar de maneira integrada, mas não exclusiva, eventuais intervenções ao longo do tempo tornam-se mais simples e menos onerosas. Além disso, o sistema favorece adaptações futuras. Projetos concebidos dentro dessa lógica permitem ampliações ou mudanças de uso com maior facilidade, o que aumenta a vida útil da edificação e sua capacidade de resposta a novas demandas.

Ganhos com o uso de pré-fabricados

A integração com elementos industrializados, especialmente o concreto pré-fabricado, potencializa os benefícios do sistema aberto. Segundo Porto, o principal impacto ocorre nos prazos. “Na prática o maior impacto se dá na velocidade da obra. A otimização do cronograma é o grande diferencial, uma vez que os prazos podem ser encurtados e são mais garantidos”, explica.

Como os componentes são produzidos fora do canteiro, é possível executar simultaneamente etapas distintas da obra. Enquanto elementos estruturais são fabricados na indústria, as fundações e a infraestrutura avançam no local. Esse paralelismo reduz o tempo total de execução, com estimativas de economia entre 20% e 40% em projetos que combinam diferentes sistemas industrializados.

O uso de elementos pré-fabricados também contribui para maior previsibilidade orçamentária. A produção em ambiente controlado reduz desperdícios, diminui a dependência de mão de obra intensiva e mitiga riscos associados à variação de insumos.

Qualidade e sustentabilidade

Campus da Flextronics em Sorocaba (SP) contou com estruturas feitas em sistema de forma mista com painéis de fachada em concreto pré-fabricado.
Crédito: Acervo Pessoal/Marcio Porto

Outro aspecto relevante é o ganho de qualidade. Componentes produzidos industrialmente apresentam maior precisão dimensional e melhor acabamento, o que facilita sua integração com outros sistemas, como fachadas e esquadrias. No caso do concreto pré-fabricado, há um controle rigoroso do processo produtivo, resultando em menor variabilidade e maior desempenho.

Do ponto de vista ambiental, o sistema aberto contribui para a redução de resíduos no canteiro e para o uso mais eficiente dos recursos. Em alguns casos, há ainda a possibilidade de desmontagem parcial da edificação e de reaproveitamento de componentes, o que reforça a lógica de sustentabilidade ao longo do ciclo de vida da obra. “Tivemos a oportunidade de elaborar projetos utilizando sistemas construtivos abertos compostos por painéis de concreto pré-fabricado nas lajes, como é o caso da sede da Brazilglass em Guararema (SP). Também elaboramos obras em que as estruturas foram feitas em sistema de forma mista, e, portanto, aberta, com vigas e pilares em aço e concreto pré-fabricado e vedadas com painéis de fachada também pré-fabricados, como é o caso dos edifícios industriais do campus da Flextronics em Sorocaba (SP)”.

Planejamento como fator determinante

Apesar das vantagens, a adoção do sistema construtivo aberto exige um alto nível de planejamento. A definição do método ocorre ainda nas etapas iniciais do projeto e orienta todas as decisões subsequentes. Alterações ao longo do processo tendem a gerar retrabalho e aumentar os riscos à execução.

Marcio Porto afirma que a compatibilização entre arquitetura, estrutura e instalações é determinante para o sucesso do modelo. “Soluções modulares pré-fabricadas exigem projetos muito bem pensados desde a origem. A arquitetura precisa ser concebida já prevendo a industrialização de todo o processo construtivo”, ressalta.

Com planejamento adequado, o sistema construtivo aberto se consolida como uma alternativa eficiente para diferentes tipologias de empreendimentos, especialmente aqueles que demandam rapidez, padronização e flexibilidade.

Entrevistado

Marcio Porto é graduado em Arquitetura pela Universidade Mackenzie, mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAU/USP, professor da Universidade Mackenzie e sócio-diretor do escritório Sidonio Porto Arquitetos Associados.

Contato marcio.porto@sidonioporto.com.br

Jornalista responsável

Ana Carvalho

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