Ensaio de arrancamento à tração avalia a segurança e o desempenho de revestimentos e concreto
Ferramenta de controle contribui para reduzir os custos associados a reparos de manifestações patológicas
O controle tecnológico na construção civil passou por mudanças significativas nas últimas décadas. Procedimentos antes baseados predominantemente em inspeções visuais passaram a incorporar ensaios mecânicos capazes de fornecer dados objetivos sobre o desempenho dos materiais e sistemas construtivos. Entre essas ferramentas, está o ensaio de arrancamento à tração, utilizado para avaliar a resistência de aderência à tração entre materiais cimentícios ou entre um revestimento e seu substrato.
Segundo o engenheiro civil e professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Christian Donin, o ensaio se consolidou como um instrumento de validação técnica e de prevenção de manifestações patológicas nas edificações. “A falha na aderência pode resultar no desprendimento do material, gerando riscos iminentes à integridade física de transeuntes e custos exponenciais de retrabalho”, afirma.
Como o ensaio é realizado
O procedimento consiste na fixação de uma pastilha metálica sobre a superfície do revestimento por meio de uma resina epóxi de alta resistência. Após a cura do adesivo, é realizado um corte circular ao redor da pastilha, ou seja, da área a ser ensaiada, isolando a região que será submetida ao teste.

Crédito: Divulgação Cimento Itambé
Na sequência, um equipamento de tração conectado a pastilha, aplica uma força perpendicular à superfície até que ocorra a ruptura do sistema. A partir desse processo, é possível determinar a resistência de aderência à tração da área ensaiada.
De acordo com Donin, o método permite identificar se a ruptura ocorreu no substrato, na interface de ligação ou no próprio revestimento, fornecendo informações importantes para o diagnóstico de falhas e para a tomada de decisões durante a execução da obra.
Segurança e desempenho das edificações
A utilização do ensaio está diretamente relacionada à durabilidade e à segurança das construções. Revestimentos submetidos a variações de temperatura, umidade, ação do vento e movimentações estruturais precisam apresentar desempenho compatível com as condições de uso. “O ensaio fornece dados experimentais rastreáveis que resguardam juridicamente a construtora, permite a otimização de materiais e garante a conformidade com a Norma de Desempenho”, explica o professor.
A ausência desse controle pode resultar em manifestações patológicas, como desplacamentos, fissuras, destacamento de revestimentos especialmente em fachadas, delaminações, entre outros. Além de comprometer o desempenho e a segurança das edificações, esses problemas podem elevar significativamente os custos com reparos, muitas vezes superando o investimento inicial destinado ao controle tecnológico. Por essa razão, a emissão de laudos técnicos tornou-se uma prática cada vez mais presente em empreendimentos que buscam comprovar a qualidade dos serviços executados, atender aos requisitos de programas de certificação, auditorias e exigências contratuais do mercado imobiliário.
Normas orientam aplicação do método
No Brasil, o ensaio é regulamentado por um conjunto de normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que estabelecem critérios de execução, avaliação e desempenho. Entre elas, destaca-se a série NBR 13528 que define os procedimentos para o ensaio de resistência de aderência à tração em revestimentos de argamassa e a NBR 14081, que especifica os requisitos para argamassas colantes industrializadas. Também são referências importantes as normas NBR 13754 e NBR 13755, que estabelecem os procedimentos para a execução e a inspeção de revestimentos cerâmicos em áreas internas e externas; a NBR 13749, que trata dos revestimentos de argamassas inorgânicas, e a NBR 15575, conhecida como Norma de Desempenho, que define requisitos mínimos de segurança, vida útil e desempenho para os sistemas construtivos.
Donin explica que essas diretrizes transformaram o ensaio em uma ferramenta de validação técnica amplamente utilizada no setor. “Atualmente, a realização do ensaio atende diretamente às exigências das normas técnicas da ABNT e funciona como instrumento de comprovação da qualidade das obras“, afirma.

Aplicação em estruturas de concreto
Embora seja amplamente associado aos revestimentos, o ensaio de arrancamento à tração também vem sendo utilizado na avaliação de estruturas de concreto. Nesse caso, o método permite determinar a resistência à tração do material e verificar a aderência entre concretos de diferentes idades ou entre concreto e resinas epóxi utilizadas em reparos estruturais. “O controle quantitativo valida se a resistência à tração do material atende aos requisitos de projeto, além de poder assegurar o monolitismo e a transmissão adequada de solicitações mecânicas em elementos de recuperação estrutural”, destaca Donin.
A principal referência internacional para esse tipo de aplicação é a norma americana ASTM C1583 utilizada na avaliação da aderência e compatibilidade entre materiais empregados em intervenções estruturais.
Com a crescente busca por edificações mais duráveis e seguras, o ensaio de arrancamento à tração vem se consolidando como uma ferramenta estratégica no controle tecnológico, fornecendo informações precisas para projetistas, construtoras e equipes de fiscalização ao longo de todas as etapas da obra.
Entrevistado
Christian Donin é engenheiro civil graduado, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e atua na área de Estruturas e Sistemas Construtivos no Brasil e Estados Unidos há mais de 20 anos.
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